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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 12 de junho de 2014

Nem toda fogueira é de São João

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 10)


por Fernanda Pompeu   ilustração Fernando Carvall

em casa, quando eu era criança, não havia exatamente uma biblioteca. Modestamente tínhamos uma estante de livros. Eram todos do meu pai, comunista e sindicalista. Logo que aprendi a ler, passei a prestar atenção nos títulos. Puxo de memória: Que fazer?; O 18 Brumário; Capitães da Areia; O Capital; Ganhando meu Pão; O que é o Materialismo Dialético; Assim Foi Temperado o Aço; A Comuna de Paris, Aladim e a Lâmpada Mágica - este último reservado para quando nós, os filhos, começássemos a ler de verdade.

Quinze dias depois do Golpe de 1964, meu pai foi preso. Minha mãe passou um tempo sem saber para aonde o levaram. Ficou compreensivelmente apavorada. Existia uma histeria civil pró-golpe, com mulheres e carolas fazendo marchas em nome de Deus, da Pátria, da Família. O demônio da hora era o comunismo. Da mesma forma que hoje dizem que tudo é culpa da Copa, cinquenta anos atrás era culpa de Cuba e de seus simpatizantes brasileiros.

Meu pai adorava o partido comunista e adorava Cuba. Minha mãe adorava meu pai. Eu adorava os dois. Nesse adora, adora, o fato é que vi mamãe - junto com uma amiga - pegar todos os livros da estante e levá-los para o quintal da casa. Um parêntesis para descrever o quintal (tinha um pé de jabuticaba, antúrios à vontade, uma pilha alta de tijolos - onde eu e meu irmão, Júlio, brincávamos jogos sem fim).

Fiquei observando as duas mulheres. Elas empilharam os livros na terra batida, umedeceram os volumes com álcool, ao mesmo tempo que minha mãe gritava: "Pra longe, pra longe! Não quero nenhuma criança aqui!" Mas eu fiquei paralisada. Em choque vendo os livros de papai arderem. Perguntei o porquê. Mamãe respondeu: "Os livros são perigosos. Seu pai já está preso, mas a polícia pode voltar aqui".

Não voltou. Passados dois meses, mamãe descobriu onde meu pai estava. Começou a fase das visitas dominicais à cadeia. Mas isso é assunto para outro episódio. O que também me lembro é que, na noite que sucedeu à cremação dos livros, peguei meu boneco de pano - o Zequinha - e cortei ele em pedacinhos. Nunca havia contado a morte do Zequinha para ninguém. A verdade é que a cena estava debaixo do tapete da memória. Não sei a razão da lembrança. Mas agora que recordei, decidi contar para vocês.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

De como Gabo transformava mentiras em verdades




por Ricardo Viel*

Morreu ontem, 17 de abril, aos 87 anos, um dos mais influentes e brilhantes escritores de todos os tempos: o colombiano Gabriel García Márquez, vencedor do Nobel de Literatura de 1982. Em 2010, nosso colunista Ricardo Viel fez uma reportagem sobre Márquez que achamos por bem republicá-la. Gabo, como era carinhosamente chamado, disse certa vez: “A vida não é aquilo que vivemos, senão o que recordamos e como recordamos para contar.” Para Ricardo, as muralhas que protegem a cidade colombiana de Cartagena de Índias, de calor inclemente, com sacadas das típicas casas do centro antigo, tornou difícil sua missão de dizer qual a lembrança mais marcante da “cidade mais bela do mundo”, segundo o próprio escritor. Na reportagem, você vai conhecer um pouco mais os lugares e histórias das pessoas que fazem parte da obra do colombiano. “De lá, além das histórias, trouxe uma semente de amêndoa, árvore presente nos relatos de Gabo”, relembra o repórter.

Dizem que uma mulher de vermelho anda pelos corredores

Um senhor de estatura mediana, óculos exageradamente grandes, pele morena e cabelos e bigodes grisalhos, caminha pelo pátio do convento de Santa Clara, em Cartagena de Índias, no Caribe colombiano. Misturado aos engenheiros, arquitetos e operários que trabalham na restauração do prédio, o homem vestido de branco e com um chapéu panamá enterrado na cabeça transita pelo mosteiro em busca de inspiração para sua nova novela. Na visita a uma tumba, o escritor, um colombiano conhecido mundialmente como Gabo, se recorda de uma visita que fez ao convento, quarenta anos antes, por conta de uma reportagem. Lembrança tão viva como se tivesse voltado ao meio dia daquele outubro de 1949 e vivesse aquilo pela primeira vez.

Gabriel Garcia Márquez venceu com dificuldade as poucas quadras que separavam a redação do “El Universal” do convento de Santa Clara. Buscou refúgio na sombra das varandas coloridas do centro da histórica cidade, mas chegou ao mosteiro empapado de suor e descrente de que a tarefa de acompanhar a desocupação das tumbas poderia render muito mais do que alguns centímetros no jornal do dia seguinte. O prédio do século 17 estava prestes a mudar de função: sairiam as freiras e entrariam os hóspedes de um hotel de luxo – motivo da retirada dos restos mortais. Nos fundos da capela, o processo da desocupação das tumbas onde, há séculos, repousavam religiosos e nobres da cidade, já estava em marcha. De um buraco no chão, imersos em uma nuvem de poeira, três operários, em um ritual silencioso e coordenado, retiravam os ossos, faziam com eles pequenos montes e os identificavam. Quando da abertura da terceira cripta, que trazia escrito o nome sem sobrenome de Sierva Maria de Todos los Ángeles, o repórter se deu conta de que aquele 26 de outubro de 1949 ficaria marcado para sempre em sua vida. Quarenta e cinco anos depois, Gabo dedicaria o prólogo de seu livro “Do Amor e de Outros Demônios” a contar essa história.

Na terceira urna, ao lado do evangelho, ali estava a notícia. A lápide se espedaçou com o primeiro golpe de picareta, e uma cabeleira viva, de uma cor de cobre intenso, se derramou para fora da cripta [...] Estendida no chão, a cabeleira esplendida media vinte e dois metros e onze centímetros.

A novela é inspirada na lenda, contada por sua avó, de uma marquesa, dona de uma cabeleira ruiva, tão grande "que se arrastava como véu de noiva", que após morrer de raiva aos 12 anos de idade passou a ser venerada no Caribe por seus milagres. "A ideia de que essa tumba pudesse ser a sua, foi minha notícia daquele dia e a origem deste livro."

Uma catacumba é o atrativo

O antigo convento de Santa Clara é hoje um hotel cinco estrelas, o mais luxuoso da cidade. Em 1987, a rede Sofitel comprou o prédio com a condição de restaurá-lo e preservar suas características. A capela, os quartos das freiras clarissas (transformados em habitações para os hóspedes) e as criptas funerárias, foi recuperado em um processo que durou quase uma década. E são justamente as catacumbas do prédio, em especial uma delas, o maior atrativo do lugar. No centro de um bar estilo “lounge”, entre um sofá e outro, escondida pela pouca luz do ambiente, há uma escada. Três metros abaixo do nível do chão, em uma salinha pequena, sufocante, e decorada com um candelabro, está a tumba aberta e vazia de Sierva Maria de Todos los Ángeles.

“Não gosto muito de ficar aqui. Não sei, me dá um pouco de medo”, cochicha Yanelis Sepúlveda enquanto desce os seis degraus que levam à cripta. A mulata de 28 anos, bela e elegante, é consierge do hotel Santa Clara desde 2002. Está acostumada a mostrar a "hóspedes especiais" (leia-se autoridades e afins) o amplo jardim do antigo convento onde as clarissas cultivavam rosas, os túneis que ligavam clandestinamente as freiras ao mundo exterior e as antigas habitações do mosteiro.

Com um sorriso no rosto, apresenta aos visitantes a capela barroca, o antigo refeitório (hoje um luxuoso restaurante) e lhes pousa Clara, um simpático tucano, nos braços para fotos. Mas se não for solicitado, Yanelis desvia das lápides e das celas onde as freiras de mau-comportamento (como Sierva Maria de Todos los Ángeles no livro de García Márquez) eram enclausuradas. Para ela, o lugar é assombrado.

“Dizem que há uma mulher, vestida de vermelho, que costuma andar pelos corredores. Eu nunca vi. Mas também nunca ando sozinha aqui de noite. Nunca vi nada, mas já escutei uma gargalhada muito alta vinda de um quarto que estava desocupado. Também já senti uma respiração no meu pescoço quando eu entrava na capela”, mostra o braço com os pêlos levantados.

Leitora atenta de Garcia Márquez, Yanelis consegue identificar no convento os cenários descritos pelo escritor na novela, mas traz consigo uma dúvida: “Gostaria de perguntar a ele, saber o que é sua criação e o que é verdade nessa história toda. Se ele realmente entrou na cripta, se a Sierva Maria estava lá. O que ele viu, de verdade, quando entrou lá”.

A pergunta poderia ter sido feita pessoalmente ao escritor em duas oportunidades, mas faltou coragem à mulata. “Em uma delas, era para um encontro muito confidencial. Estava cheio de seguranças, ele ia se encontrar com alguém para mediar um processo de paz. Alguma coisa a ver com a ONU. Não me atrevi. Da outra, era uma festa. Eu vi aquele velhinho tão divino e fiquei com vergonha de atrapalhar a festa dele”, lamenta.

O hotel, cuja hospedagem mais econômica custa 350 dólares, permanece algumas horas do dia aberto à visitação. Diariamente, curiosos acudem à sala das criptas. Em um livro de presença aberto sobre à lápide os amantes da prosa de García Márquez deixam suas mensagens; em geral, registros de passagem como este: “No dia 11 de agosto de 2009, Vinicius e Carolina estiveram em Cartagena e visitaram a tumba de Sierva Maria de Todos los Ángeles.” Há muitos anos, a história dos metros de cabelos encanta e comove leitores do mundo todo.

"É preciso pinçar o que ele escreve"

A poucos metros do convento, um muro alto alaranjado esconde um sobrado de esquina, com um jardim amplo e bem cuidado. O morador do número 38-205 da rua Del Curato, era Gabriel Garcia Márquez. A construção da casa do escritor – que desde os anos 60 vivia no México –, explica muito da história de Sierva Maria de Todos los Ángeles. “Na época em que escreveu o livro, Gabito passou muitos meses em Cartagena, porque acompanhava as obras em sua casa. Seguramente a restauração do convento o influenciou a escrever a história”, conta Jaime García Márquez, um dos 14 irmãos do escritor e diretor da fundação criada em 1995 por Gabo para fomentar o jornalismo na América Latina, a FNPI.

Quanto à reportagem citada no início do livro, Jaime García faz uma observação enigmática: “É preciso pinçar o que ele escreve”.

A explicação para o comentário surge quando as peças do quebra-cabeça são aproximadas. Elas não se encaixam. O convento de Santa Clara foi o hospital local universitário de Cartagena até a metade dos anos 1970. Abandonado e em ruínas, o prédio foi comprado pela cadeia de hotéis Sofitel em 1987. Gabriel Garcia Márquez pode até ter visitado o local em 1949, mas não acompanhou nenhuma remoção, pelo simples fato de que elas, se de fato existiram, aconteceram quarenta anos depois, na época da restauração.

Os textos de García Márquez em sua época de repórter em Cartagena e Barranquilla foram recompilados, mas não há nenhuma reportagem sobre o convento de Santa Clara. O jornalista colombiano Gustavo Arango, autor do livro “Un ramo de no me olvides: Gabriel García Márquez en El Universal” (inédito no Brasil), buscou e jamais encontrou a reportagem de Gabo no convento.

“O que ele fez no prólogo do livro foi sobrepor eventos. Detrás das imprecisões dos fatos por ele narrados, há verdades muito certeiras. Acredito que a mais importante é apontar essa época como muito importante em sua vida. Suas primeiras experiências como repórter e a influência de Clemente Manuel Zabala no seu início [o nome de Zabala, primeiro chefe e mentor de Gabo, é citado na introdução do livro]”, explica Arango. Segundo o pesquisador, tampouco é de toda verdadeira a afirmação de Gabo de que dia 26 de outubro de 1949 não foi um “dia de grandes notícias” em Cartagena.

“Me dediquei a procurar o que havia acontecido nesse dia, e de fato, na Assembléia Municipal, houve uma violenta briga entre os políticos. Aqueles dias foram intensos em matéria política”, acrescenta.

Arango também teoriza sobre a data citada pelo novelista no prólogo do livro. “Fiz várias conjecturas, talvez descabeladas. Gabo gosta muito do mês de outubro. Em 'Ninguém escreve ao coronel' (1961) ele fala de outubro, das chuvas de outubro. Em muitos outros livros aparecem 'outubros chuvosos'. O 'Outono do Patriarca' (1975) está cheio de outubros. Quanto à data exata, há um dado curioso: em alguns livros antigos fala-se que o momento em que Deus diz: 'faça-se a luz' foi em 26 de outubro. Aproximadamente às nove da manhã.”

Jaime García Márquez também lê o prólogo de "Do Amor e de Outros Demônios" como uma homenagem a Clemente Manuel Zabala. Uma forma que o escritor encontrou de "reconhecer a importância do chefe em seu começo de carreira como jornalista". Para ele, a chave para entender toda a obra do irmão está na autobiografia “Viver para Contar” (2002), mas precisamente na frase fundamental do livro: “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda e como recorda para contá-la”. Para Jaime, a mensagem é endereçada aos amigos e familiares e tem como objetivo dizer-lhes: não busquem incoerências ou equívocos em minha biografia, essa foi minha vida porque assim são minhas lembranças. “Com essa frase ele nos venceu”, sorri, resignado, o irmão do Nobel de Literatura 1982.

Mas o próprio irmão, que largou o trabalho como engenheiro para assumir a fundação criada por Gabo, certa vez o indagou sobre uma passagem do livro em que é citado. “Ele diz que eu dividia quarto com dois irmãos mais novos e passava noites pregando aos menores sobre filosofia e matemática. Eu nunca dormi no terceiro andar daquela casa, nunca dividi quarto com os irmãos que ele cita... Eu tinha três anos, como podia falar sobre matemática com alguém?”. A resposta foi simples e irrefutável: “Você não entende nada. Se você tivesse, naquela época, divido quarto com eles e fosse mais velho, com certeza passaria todo o tempo falando de filosofia e matemática”.

Verdades do coração

A anedota contada pelo irmão Jaime faz crer que de certa forma nem o próprio escritor consegue delimitar exatamente onde termina a realidade e onde começa sua criação. “Não há em minhas novelas uma linha que não esteja baseada na realidade”, costumava repetir Gabo. “Acho que ele aplicou em seu trabalho como escritor um pouco da ideia de um de seus mestres, William Faulkner, que fala sobre as verdades do coração. A história pode não ser completamente fiel aos fatos, mas, mesmo quando se inventam detalhes, há um respeito profundo pelas verdades do coração”, analisa Gustavo Arango.

A fronteira nebulosa entre o real e o fantástico existente na obra do Nobel colombiano às vezes chega ao cúmulo de ser o limite entre a história pré e pós-García Márquez. Em alguns momentos, mais do que moldar-la, o escritor consegue, alterar a história. O chamado “massacre dos bananeiros” (1928) quando os funcionários da United Fruit Company resolveram protestar pelas péssimas condições de trabalho e foram violentamente reprimidos pelas forças armadas colombianas é exemplar. Revisto após a publicação de “Cem Anos de Solidão (1967)”, o episódio tem hoje uma importância histórica muito maior do que há algumas décadas. Inclusive o número de mortos na matança que costuma ser o mencionado – os 3 mil que Gabo cita no livro é muito maior do que o estimado por historiadores. Ou seja, depois de 1967 o que foi uma violenta repressão virou um massacre com milhares de mortos.

Jaime Garcia conta que nos anos 1970 recebeu uma bonita carta do irmão que falava do futuro deles e do país e terminando com uma incumbência: levantar dados sobre o massacre, em especial o número de mortos. Depois de meses de pesquisa, mandou a resposta ao irmão: comprovadas, haviam oito mortes, 2.992 menos do que as citadas pelo escritor em sua obra.

A história de Sierva Maria de Todos los Ángeles é outro exemplo dessa capacidade de Gabo de transformar a realidade. A cripta é visitada diariamente, e a reportagem que nunca existiu não raramente é citada como uma das melhores do escritor, não só por seus leitores, mas no meio acadêmico.

“O que ele faz ao mencionar a reportagem que não existiu é usar um expediente para dar verossimilhança à obra, uma coisa comum entre os escritores. Todos sabiamos que não era verdade aquilo, mas hoje há peregrinação para visitar o túmulo”, diverte-se Eric Nepomuceno, escritor e amigo pessoal de Garcia Márquez. Tradutor de alguns livros de Gabo, entre eles “Viver para Contar”, Nepomuceno minimiza a importância de se separar o real da criação na obra de García Márquez: “Quem conhece a América Latina sabe que tudo o que está na obra dele pode ou poderia ter acontecido”.

Em 1982, em seu discurso de recepção do Prêmio Nobel de Literatura, Gabriel García Márquez fez questão de falar sobre o tal realismo fantástico. Segundo ele, a realidade desse universo latino-americano é tão rica, que é preciso pedir “muito pouco” à imaginação. "O desafio maior para nós [latino-americanos] tem sido a insuficiência de recursos convencionais para fazer críveis nossa vida. Este é, amigos, o nó da nossa solidão."

Historinhas

Gabo recebeu pedido para mudar o final do livro

Ao finalizar “Do Amor e de Otros Demônios”, Gabo entregou o manuscrito do livro ao irmão Jaime e a cunhada Margarita. Eles já sabiam da história do livro, mas não conheciam o final. Margarita passou a noite lendo o manuscrito e, no dia seguinte, quando encontrou Gabo, lhe fez um comentário e um pedido: havia gostado muito da novela e nem um pouco do final. Tentou convencê-lo de que Sierva Maria não podia morrer. “Argumentou que em todos os seus livros, exceto ‘O Amor nos Tempos do Cólera’ (1985) tinham finais tristes e de que os personagens, desta vez, mereciam ser felizes”, conta Jaime.

Solidário à dor da cunhada, García Márquez tentou convencê-la de que, no contexto da obra, Cayetano Delaura não tinha outro destino do que aquele, permanecer só. Fez Margarita entender que ele, apenas um escritor, não podia mudar o final daquela história, que já estava escrita havia séculos antes de publicada. Só pôde, ao lado da cunhada, lamentar a má sorte que tiveram Sierva Maria e Cayetano Delaura, reféns, não de um escritor e seus desejos, mas de um destino que sabe quem governa com uma força imutável há séculos. E Margatina aceitou os argumentos de Gabo? “Não. De modo algum”, responde, risonho, Jaime García.

Presente

O título do livro escrito por García Márquez em 1994 foi dado de presente a ele pelo cineasta brasileiro Ruy Guerra. Quem conta a história é Eric Nepomuceno. "Em 1991, o Ruy me chamou para escrever um roteiro de um filme com ele, que se chamaria 'Lua Negra'. No meio do trabalho, ele mudou o nome para 'Do Amor e de Outros Demônios', título que para mim não dizia nada. Então veio o Collor, o filme nunca foi rodado, e um dia o Ruy contou essa história para o Gabo. Ele ficou encantado com o título e disse que seria perfeito para uma novela que estava escrevendo. O Ruy, então, deu pra ele de presente esse título."

“Dou de presente para você os direitos. Faça”.

Em 2005, em uma oficina de cinema em Cuba, Gabriel García Márquez conheceu a cineasta costarriquense Hilda Hidalgo. Durante o curso, em uma conversa, ela comentou com o escritor que achava que de todas as suas novelas a que melhor poderia ser adaptada ao cinema era “Do Amor e de Outros Demônios”. Lamentou que ninguém nunca tivesse feito. Gabo então lhe disse: “Dou de presente para você os direitos. Faça”.

Hilda Hidalgo precisou de dois anos para escrever o roteiro e encontrar os atores. A colombiana Elisa Triana, de 13 anos, foi a escolhida para fazer Sierva Maria de Todos Los Ángeles. Cayetano Delaura será o espanhol Pablo Derqui, de 28 anos.


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 Ricardo Viel, jornalista, atualmente mora e trabalha em Lisboa, Portugal.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Carta a João (que amava Teresa)



por Ricardo Viel*

Itabira, novembro de 1929

João:

meu amigo, gostaria tanto que esta carta levasse boas notícias, mas não, não será assim. Carrega um pedido de desculpas e uma triste nota de falecimento. Começo pelo segundo, que é mais urgente. Ontem, dia 20 de novembro deste ano de 1929, o nosso Joaquim deu cabo da vida. Antes de se enforcar em uma mangueira, deixou a típica carta de suicida na qual nos exime a todos de qualquer culpa, e que nos faz sentir ainda mais culpados.

Todo suicídio é evitável, e o caso do nosso amigo é só mais uma prova disso. Desde a tua partida para os Estados Unidos (já deve fazer uns oito anos anos ou mais), nosso grupo foi se desfazendo. Você foi tentar a vida do outro lado do continente (por certo, diga-me como vão as coisas, as notícias que chegam cá é que vive-se uma grande crise, espero que estejas bem), Raimundo mudou-se para a Bahia, o Carlos instalou-se na capital, e eu cada vez via menos o Joaquim. Sinto-me culpado, eu era quem estava por perto, e não percebi – ou não me importei – que ele estava passando por um período complicado. Havia rompido com a Maria, mas esse não era o principal problema, eu creio; ele nunca a amou. O grande baque foi com a Lili, que o desprezou e jogou muito baixo. Um dia, no Bar da Lúcia, o Joaquim me contou que a Lili certa vez lhe disse que enquanto ele estivesse com a Maria nunca nada aconteceria entre eles. Ou seja, deixou nas entrelinhas que se ficasse solteiro as coisas poderiam funcionar. Você não acompanhou isso, mas foi um escândalo na cidade quando o Joaquim resolveu romper o noivado com a coitada da Maria. Cidade pequena, todo mundo ficou sabendo, e muita gente desconfiou de que havia uma culpada. E então o Joaquim esperou passar umas semanas, deixou a poeira assentar, e foi todo perfumado e com ramo de flor na mão para conquistar Liliane Dutra Buaventura. Recebeu foi um tremendo não no meio do peito. Aquilo lhe doeu mais do que fosse uma navalhada nas carnes. Lembro-me de encontra-lo na praça umas quantas vezes perdido, só, e sem dizer coisa com coisa. Por conta da bebida, perdeu o emprego na companhia. Cheguei a vê-lo dormindo na rua num domingo antes da missa. E eu, como estava bem, feliz, casado e cheio de planos, evitava cada vez mais o contato.

Uma das últimas vezes que o vi foi no velório do Raimundo. Espero que tenham lhe contado... Foi terrível, pobre homem. Pobre e azarado, porque no trem ia muita gente, mas só morreu ele. Demoraram quase um mês para trazer o corpo dos confins da Bahia. A família endividou-se, precisou pedir dinheiro a todos, e o caixão veio lacrado. Sabe-se lá se o corpo que havia ali era o do Raimundo. Nem sei se ali havia um corpo.

O Joaquim apareceu bem vestido, mesmo terno que hoje o enterraram, cabelo penteado, barba feita, mas era impossível disfarçar a miséria de vida que levava. Contou-me que tinha planos de abrir um negócio, que precisava de um capital. Antecipei-me, e disse que se ele soubesse como conseguir que por favor me dissesse porque eu também necessitava dinheiro para trocar minhas máquinas. Dali fomos tomar umas cachaças, e falarmos de ti. E da Maria, que parece ser que não sai de casa e disse que não quer saber de homem mais na vida. E logo surgiu o tema Lili. Joaquim disse que o que mais lhe doía era que cada vez que a via ela estava mais bonita e encantadora, enquanto ele era aquele farrapo sem trabalho e sem sonhos.

João, depois da terceira dose ele começou a chorar, e falou que não valia a pena viver, que o bom mesmo era dar um fim. Disse assim, João, “dar um fim nas coisas”, e eu me fiz de desentendido, olhei o relógio, disse que era tarde, paguei a conta (faço questão de pagar, eu disse com o peito cheio), dei um tapa nas costas dele, e fui embora achando-me um homem bom, um sujeito que havia vencido na vida, não como o Joaquim.

Isso faz uns seis meses. Foi a última vez que nos falamos. E ontem ele cumpriu com o que tinha dito. Deve ter sofrido um bocado o nosso amigo. Lembro-me tanto dele menino, de todos nós, das nossas farras, das nossas conversas e dos nossos projetos. Nada saiu como planejávamos, verdade?

No velório, já entrada a noite, apareceu a Lili. Ia acompanhada de um tal de João Pinto, parece ser que é filho do Fernandes da Carniçaria, você conhece? Abraçou a dona Dolores, cumprimentou-me com um cordial e falso inclinar de cabeça, e foi-se embora com cara de triunfo tomada da mão daquele homem que eu nunca tinha visto na vida. E fiquei a pensar que se ela tivesse escolhido o Joaquim, eu estaria agora era escrevendo uma carta para contar da festa de casamento, ou do batizado da criança que acabara de nascer. Mas não, não é assim, e a Lili não conseguia disfarçar a alegria mórbida de estar ali, de estar acompanhada, de ter optado pelo filho do Fernandes e não pelo Joaquim, que não era filho de ninguém e tampouco será o pai de alguém.

Só não foi pior porque por lá apareceu o Carlos, que há anos se foi para a capital e pouco aparece por aqui. Contou-me que a faculdade de farmácia não lhe serviu para grandes coisas, que o seu negócio é mesmo escrever, e que está metido em um projeto de um livro de poesia. Disse que prepara surpresas. É o mesmo de sempre: elegante, discreto, e genial. Tenho certo que se falará muito dele no futuro.

Pois era isso, meu caro amigo. O pedido de desculpas é pelo sumiço. É inadmissível que nos percamos dessa maneira. Mande notícias, de preferência boas, eu tratarei de fazer o mesmo. Um abraço forte,

Edu Coutinho

Pós-escrito: e de Teresa, sabe algo?

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Ricardo Viel, jornalista, atualmente em Lisboa, Portugal. Ilustração: ROBERT BEATTY SURREAL-SCAPES

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Boas lembranças de Roberto Manera

por Thiago Domenici*

Aprendi que é fundamental homenagear os nossos mestres, amigos e pessoas que queremos bem, que nos dão energia positiva sem pedir paga. A vida é um sopro, já dizia Oscar Niemeyer. Penso que achar formas e tempos de registrar pessoas memoráveis, sejam públicas ou não, é mais do que um dever; é uma forma de eternizar aquilo que tem significado para nós, que toca a gente e pode, por consequência, chegar a outras pessoas.

Roberto Manera, desconhecido para a maioria dos que vão ler esse texto, é uma dessas figuras que merecem minha lembrança com carinho. Havia tempos, precisamente desde 2008, que eu não sabia de seu paradeiro. Uma notícia aqui e ali dava conta de que teria se mudado para a região Sul, em Florianópolis. Tentei contato de algumas maneiras, mas sem sucesso. Eu e Natalia, minha esposa, e amigos, como Rodrigo Menitto, sempre falávamos dele com muito carinho, no sentido de preocupação pela sua saúde e pela vontade de estar perto dele. Não deu.

Acho que seu objetivo era mesmo se isolar, perder contato com mundo, com as pessoas. Quando um bando de gente saiu de Caros Amigos em 2008, incluindo eu, o Maneirita, como eu o chamava, nos deu muito apoio e ficou ao nosso lado. Mostrava pra gente, do seu jeito, que não estávamos fazendo nada de errado, muito ao contrário, seguíamos o curso natural dos acontecimentos.

Já naquele período, ele lutava meio marotamente, como quem não se importa, e acho que não se importava mesmo, contra as agruras de uma diabetes que o debilitou muito e que foi o motivo de seu falecimento. Mas não se rendia, pelo menos não publicamente. Desde as mais inusitadas, saborosas e engraçadas, era um grande contador de histórias. O papo com Manera nunca era banal. Sempre se aproveitava algo, sempre tinha alguma informação ou lição, de vida e de jornalismo.

"nosso ofício tem de ser sério, mas não pode deixar de ser prazeroso, e que o prazer pode vicejar além da redação, em torno de uma mesa de sinuca, de futebol de botão ou de bar. Qualquer lugar em que se possa pensar”.

Com Natalia, por exemplo, teve um episódio que a marcou muito. Era seu primeiro emprego em jornalismo, vindo de uma faculdade de Letras. Insegura, caindo num universo com muita gente experiente e sem nenhuma formação na área, mas com desejo de fazer parte e aprender, certa vez, num evento social ela sentiu segurança para contar a Manera uma ideia que não conseguira compartilhar com ninguém até então. “Ele passava uma segurança, por isso tomei coragem e falei”. A ideia era crua, sobre fascículos sobre mulheres, mas sem saber exatamente o foco a ser dado. No papo, Manera incentivava e questionava para que ela desenvolvesse a ideia, mas sempre de um jeito muito amável e cuidadoso. “Uma firmeza acolhedora. Aquele papo de igual pra igual que dá confiança para alguém que está no começo de carreira.”

Quando de sua apresentação em uma reunião de pauta, o Serjão, um dos criadores e o editor da revista, disse a todos que Manera era um dos “grandes jornalistas” do país. Os dois eram muito amigos. Foi Manera que apresentou Serjão a Raduan Nassar, autor de Lavoura Arcaica. Foram parceiros de Globo Rural, da editora Abril, onde se conheceram na década de 1970, se não me engano, época em que a revista chegou a ser a mensal de maior circulação no país. Lá tinha gente como José Hamilton Ribeiro, José Trajano e a minha amiga Marina Amaral, hoje diretora da Agência Pública de Jornalismo Investigativo.

Na edição especial que fizemos após a morte do Serjão, ainda em 2008, Manera escreveu que para além do gosto comum em cavalos, "não tanto pela corrida, mais pelo animal", aprendera com Serjão “que nosso ofício tem de ser sério, mas não pode deixar de ser prazeroso, e que o prazer pode vicejar além da redação, em torno de uma mesa de sinuca, de futebol de botão ou de bar. Qualquer lugar em que se possa pensar”.

Com a notícia de sua morte, na última sexta-feira, a qual soube somente ontem, fiquei muito triste. Outra perda irreparável, como a de Ruy Fernando Barboza, no mês passado. Os bons se vão, infelizmente. Escrevo esse texto meio torto para registrar minha admiração e meu muito obrigado ao amigo que eu gostaria de ter ficado em contato. Adjetivos que o enquadrem são vários, mas seu sorriso maroto, humor irônico, charme e generosidade, além de grande texto e inteligência, serão sempre marcantes para mim. Uma das grandes tristezas de Manera foi a perda de seu filho Júlio, de três anos, numa madrugada de inverno, em 1990. Desde então, “nunca mais fui o mesmo”, lembro de me contar certa vez na feijoada da Lana, local na Vila Madalena que frequentávamos quase diariamente.

Fizemos juntos uma viagem ao Rio de Janeiro, para entrevistar o cantor Ney Matogrosso. Ele arranjou hospedagem na casa de um amigo, na Barra da Tijuca. A entrevista foi muito bacana e a viagem divertida, apesar de estarmos nos recuperando da morte do Serjão. É provável que tenha sido um de seus últimos trabalhos jornalísticos. O jornalista José Antonio Severo escreveu sobre ele no Jornal Já (leia aqui) e pontuou muito bem um pouco de sua trajetória. Diz, inclusive, algo que não sabia: que Manera foi um grande fotógrafo. Mas, infelizmente, pouco se acha sobre ele na rede, nem mesmo uma boa fotografia sua. Uma pena. Uma injustiça.

E nenhum texto, por melhor intenção que tenha, conseguirá captar aquela figura que tomava cerveja comigo enquanto comia uma feijoada. Pesa pensar, como descreve Severo, que Manera morreu sozinho, longe da maioria dos amigos e dos filhos. Mas se foi sua escolha, prefiro acreditar nisso, só mostra que grandes decisões são tomadas por pessoas com muita coragem. Manera fará imensa falta por aqui.

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Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR

sexta-feira, 31 de maio de 2013

O que me comove?


por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna*

Este valente arbusto, que todo mês de maio reveste-se inteiro com um véu de delicadas flores brancas. O surto de grávidas ao meu redor, cada qual com uma expressão mais luminosa que a outra. Pernas e braços enroscados, nós dois ocupando metade do espaço da cama, e o silêncio. Os oitenta anos da minha mãe, feliz como uma debutante.

“Janela da alma”, do João Jardim, que chega a doer de tão bonito. Afeto gratuito e espontâneo. O senhor centenário ao meu lado na grande mesa de almoço, há poucos dias, me chamando de menina e me contando que toma duas doses diárias de uísque e vive pensando no futuro. Um diálogo inesperado e profundo, via computador, com gente querida que não vejo há muito tempo. Caminhar sem destino por lugares que me surpreendem. Pensar na minha própria velhice.

Cantar o Hino Nacional num grande auditório cheio. O documentário “Questão de gênero” sobre transexuais. “Amor e seu tempo”, do Drummond, e “Casamento”, da Adélia Prado. Lembrar da infância nos tórridos verões de Lins. Pensar que tudo já me foi tão mais doloroso. Ir à casa da minha filha. Ter visitado Praga com o meu filho. Uma certa história sobre Higienópolis contada pela Cidinha da Silva. O vídeo “Me gritaron negra”, com Victoria Santa Cruz, em preto e branco.

“Noite sobre Alcântara”, de Josué Montello. Quase tudo, na voz de Maria Bethânia. Pessoas queridas que morrem. Ter assunto com gente muito mais jovem que eu. Fotos dos sobrinhos-netos branquelos. O sol iluminando as orquídeas no meio da exuberância verde do sítio das amigas em Pirenópolis. A luta da comadre contra a maldita depressão. Hospedar pessoas amadas. A curva do mar no Arpoador.

Pensar que você me lê, numa tela iluminada, em algum lugar por aí. O que te comove?

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Serenata



por Júnia Puglia     ilustração Fernando Vianna*

Será que ele me ama mesmo, assim bem muito, do jeito que eu quero e preciso tanto?

Fingindo não repetir clichês, será que os meus filhos sentem o que eu sinto por eles e apreciam meu jeito metido a não-clichê de ser mãe?

Esses textos que eu escrevo porque preciso, e ficam dormindo no computador, será que algum dia vão acordar e sair por aí?

Quero muito me livrar do sufoco de trabalhar tanto, dessas viagens que se multiplicam, de avião e espera em aeroporto, de quarto e cardápio de hotel, de tanta reunião, seminário, plano estratégico e relatório, mas como vai ficar a vida sem este compromisso essencial? Quem serei eu após essa carreira farta de sobrenomes?

Como será ter cinquenta anos? E sessenta? Como lidar com reuniões de família, e por que resisto tanto a elas? E a morte, que não pergunta nada, chega e pronto; como será morrer? E tudo misturado, rodando na cabeça de madrugada em alta rotação, dentro daquela batedeira sem botão?

Os cinquenta e o fim da carreira chegaram e se foram com surpreendente suavidade e gosto de café com bolo de canela. Continuo viva, virei blogueira e serei avó postiça em breve. Confirmaram-me, no furdunço do Facebook, que a paixão passa, o amor lava e cozinha. O tempo fica rindo de mim pelos cantos, de tão solto que o deixo.

Mergulhei fundo no infinito lago de dentro. Guiada por uma lanterna em mãos hábeis e meio mágicas, nadei, nadei e nadei. O bate-estaca dos miolos nas madrugadas foi serenando, serenando, serenou.

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. 
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