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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 21 de abril de 2014

Gracias, Gabo


por Ricardo Viel*

O mar traz a uma pequena vila de pescadores um afogado que, de tão grande, é confundido pelos meninos que brincam na praia com uma baleia. Retirado do mar, vê-se que se trata de um morto desconhecido. É limpo e cuidado pelas mulheres da localidade, que se apaixonam ao verem sua beleza e virilidade. Os homens o invejam e o respeitam. Depois de um esplêndido funeral, digno da altura e beleza do morto, a vila cai em um desamparo. “Não tiveram necessidade de olhar-se uns aos outro para perceber que já não estavam completos, nem voltariam a estar jamais. Mas também sabiam que tudo seria diferente a partir de então, que suas casas passariam a ter as portas mais largas, os tetos mais altos, os pisos mais firmes, para que a lembrança de Esteban pudesse andar por todas as partes sem tropeçar com traves”. Embelezariam a vila com flores para que de longe percebessem que aquele era o lugar de Esteban.

Assim como o afogado do seu conto, Gabriel García Márquez deixou marcas indeléveis em nossas vidas. Um antes e um depois. Já não somos os mesmos após ler sobre a solidão dos Buendía, a saga dos amores contrariados de Florentino e Fermina e Maria de Los Placeres, a absurda morte de Santiago Nasar, a infinita tristeza de Cândida Erêndira. E tanto é assim, que já não nos contentamos com chama-lo de García Márquez. É nosso Gabo, mudou nossas vidas, passou a pertencer a nosso espaço e como o afogado Esteban criou entre nós (seus leitores) laços familiares.

Eu, particularmente, a Gabo lhe devo muito desde aquele verão ainda do século passado quando comprei em algum lugar do Peru ou Bolívia dois livrinhos usados, gastos, com o objetivo de me entreter na viagem e tentar aprender espanhol. Era “Crônica de uma morte anunciada” e “Relato de um náufrago”. Depois daquele dia eu já não seria o mesmo. Quis aprender espanhol para ler Gabo. Li e reli tudo dele e sobre ele, e nunca nenhum escritor voltou a me maravilhar tanto. A ele devo em boa parte o fato de ter me tornado jornalista, e lhe sou grato pelo mês mais intenso e enriquecedor da minha vida que passei em Cartagena fazendo um curso na fundação Gabriel García Márquez.

Gabo dizia que escrevia para que seus amigos o amassem mais. Conseguiu mais do que isso. Conseguiu que uma legião de pessoas espalhadas pelo mundo o amassem e o considerassem amigo ao ponto de chama-lo simplesmente de Gabo. Mas seu sucesso foi também um castigo que o impedia de ter uma vida normal. Comparava a fama com o poder pela solidão a que ambos condenavam. Numa conversa com Plínio Apuyelo disse que o livro que passou a vida escrevendo não era o de Macondo, mas sim “o livro da solidão”. É por isso que foto de Daniel Mordzinski (que ilustra essa texto) em que Gabo aparece vestido de branco e amarelo sentado na beira de cama de sua casa em Cartagena é a imagem definitiva. Está só e tem um olhar perdido e sereno, que provoca afeto e certa pena. Para mim, a foto dá a exata dimensão do tamanho daquele homem e de sua solidão.

Na quinta-feira, 17 de abril, logo após o anúncio da sua morte, recebi mensagem de muita gente querida que dizia basicamente que havia lembrado de mim. Gente que sabia o quanto eu amava e era grato àquele homem a quem nunca conheci, mas que tanto fez e fará parte da minha vida. Minha dívida só não é maior do que minha admiração. Muchas gracias, Gabo.

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Ricardo Viel, jornalista, atualmente mora e trabalha em Lisboa, Portugal. Imagem: Daniel Mordzinski

sexta-feira, 18 de abril de 2014

De como Gabo transformava mentiras em verdades




por Ricardo Viel*

Morreu ontem, 17 de abril, aos 87 anos, um dos mais influentes e brilhantes escritores de todos os tempos: o colombiano Gabriel García Márquez, vencedor do Nobel de Literatura de 1982. Em 2010, nosso colunista Ricardo Viel fez uma reportagem sobre Márquez que achamos por bem republicá-la. Gabo, como era carinhosamente chamado, disse certa vez: “A vida não é aquilo que vivemos, senão o que recordamos e como recordamos para contar.” Para Ricardo, as muralhas que protegem a cidade colombiana de Cartagena de Índias, de calor inclemente, com sacadas das típicas casas do centro antigo, tornou difícil sua missão de dizer qual a lembrança mais marcante da “cidade mais bela do mundo”, segundo o próprio escritor. Na reportagem, você vai conhecer um pouco mais os lugares e histórias das pessoas que fazem parte da obra do colombiano. “De lá, além das histórias, trouxe uma semente de amêndoa, árvore presente nos relatos de Gabo”, relembra o repórter.

Dizem que uma mulher de vermelho anda pelos corredores

Um senhor de estatura mediana, óculos exageradamente grandes, pele morena e cabelos e bigodes grisalhos, caminha pelo pátio do convento de Santa Clara, em Cartagena de Índias, no Caribe colombiano. Misturado aos engenheiros, arquitetos e operários que trabalham na restauração do prédio, o homem vestido de branco e com um chapéu panamá enterrado na cabeça transita pelo mosteiro em busca de inspiração para sua nova novela. Na visita a uma tumba, o escritor, um colombiano conhecido mundialmente como Gabo, se recorda de uma visita que fez ao convento, quarenta anos antes, por conta de uma reportagem. Lembrança tão viva como se tivesse voltado ao meio dia daquele outubro de 1949 e vivesse aquilo pela primeira vez.

Gabriel Garcia Márquez venceu com dificuldade as poucas quadras que separavam a redação do “El Universal” do convento de Santa Clara. Buscou refúgio na sombra das varandas coloridas do centro da histórica cidade, mas chegou ao mosteiro empapado de suor e descrente de que a tarefa de acompanhar a desocupação das tumbas poderia render muito mais do que alguns centímetros no jornal do dia seguinte. O prédio do século 17 estava prestes a mudar de função: sairiam as freiras e entrariam os hóspedes de um hotel de luxo – motivo da retirada dos restos mortais. Nos fundos da capela, o processo da desocupação das tumbas onde, há séculos, repousavam religiosos e nobres da cidade, já estava em marcha. De um buraco no chão, imersos em uma nuvem de poeira, três operários, em um ritual silencioso e coordenado, retiravam os ossos, faziam com eles pequenos montes e os identificavam. Quando da abertura da terceira cripta, que trazia escrito o nome sem sobrenome de Sierva Maria de Todos los Ángeles, o repórter se deu conta de que aquele 26 de outubro de 1949 ficaria marcado para sempre em sua vida. Quarenta e cinco anos depois, Gabo dedicaria o prólogo de seu livro “Do Amor e de Outros Demônios” a contar essa história.

Na terceira urna, ao lado do evangelho, ali estava a notícia. A lápide se espedaçou com o primeiro golpe de picareta, e uma cabeleira viva, de uma cor de cobre intenso, se derramou para fora da cripta [...] Estendida no chão, a cabeleira esplendida media vinte e dois metros e onze centímetros.

A novela é inspirada na lenda, contada por sua avó, de uma marquesa, dona de uma cabeleira ruiva, tão grande "que se arrastava como véu de noiva", que após morrer de raiva aos 12 anos de idade passou a ser venerada no Caribe por seus milagres. "A ideia de que essa tumba pudesse ser a sua, foi minha notícia daquele dia e a origem deste livro."

Uma catacumba é o atrativo

O antigo convento de Santa Clara é hoje um hotel cinco estrelas, o mais luxuoso da cidade. Em 1987, a rede Sofitel comprou o prédio com a condição de restaurá-lo e preservar suas características. A capela, os quartos das freiras clarissas (transformados em habitações para os hóspedes) e as criptas funerárias, foi recuperado em um processo que durou quase uma década. E são justamente as catacumbas do prédio, em especial uma delas, o maior atrativo do lugar. No centro de um bar estilo “lounge”, entre um sofá e outro, escondida pela pouca luz do ambiente, há uma escada. Três metros abaixo do nível do chão, em uma salinha pequena, sufocante, e decorada com um candelabro, está a tumba aberta e vazia de Sierva Maria de Todos los Ángeles.

“Não gosto muito de ficar aqui. Não sei, me dá um pouco de medo”, cochicha Yanelis Sepúlveda enquanto desce os seis degraus que levam à cripta. A mulata de 28 anos, bela e elegante, é consierge do hotel Santa Clara desde 2002. Está acostumada a mostrar a "hóspedes especiais" (leia-se autoridades e afins) o amplo jardim do antigo convento onde as clarissas cultivavam rosas, os túneis que ligavam clandestinamente as freiras ao mundo exterior e as antigas habitações do mosteiro.

Com um sorriso no rosto, apresenta aos visitantes a capela barroca, o antigo refeitório (hoje um luxuoso restaurante) e lhes pousa Clara, um simpático tucano, nos braços para fotos. Mas se não for solicitado, Yanelis desvia das lápides e das celas onde as freiras de mau-comportamento (como Sierva Maria de Todos los Ángeles no livro de García Márquez) eram enclausuradas. Para ela, o lugar é assombrado.

“Dizem que há uma mulher, vestida de vermelho, que costuma andar pelos corredores. Eu nunca vi. Mas também nunca ando sozinha aqui de noite. Nunca vi nada, mas já escutei uma gargalhada muito alta vinda de um quarto que estava desocupado. Também já senti uma respiração no meu pescoço quando eu entrava na capela”, mostra o braço com os pêlos levantados.

Leitora atenta de Garcia Márquez, Yanelis consegue identificar no convento os cenários descritos pelo escritor na novela, mas traz consigo uma dúvida: “Gostaria de perguntar a ele, saber o que é sua criação e o que é verdade nessa história toda. Se ele realmente entrou na cripta, se a Sierva Maria estava lá. O que ele viu, de verdade, quando entrou lá”.

A pergunta poderia ter sido feita pessoalmente ao escritor em duas oportunidades, mas faltou coragem à mulata. “Em uma delas, era para um encontro muito confidencial. Estava cheio de seguranças, ele ia se encontrar com alguém para mediar um processo de paz. Alguma coisa a ver com a ONU. Não me atrevi. Da outra, era uma festa. Eu vi aquele velhinho tão divino e fiquei com vergonha de atrapalhar a festa dele”, lamenta.

O hotel, cuja hospedagem mais econômica custa 350 dólares, permanece algumas horas do dia aberto à visitação. Diariamente, curiosos acudem à sala das criptas. Em um livro de presença aberto sobre à lápide os amantes da prosa de García Márquez deixam suas mensagens; em geral, registros de passagem como este: “No dia 11 de agosto de 2009, Vinicius e Carolina estiveram em Cartagena e visitaram a tumba de Sierva Maria de Todos los Ángeles.” Há muitos anos, a história dos metros de cabelos encanta e comove leitores do mundo todo.

"É preciso pinçar o que ele escreve"

A poucos metros do convento, um muro alto alaranjado esconde um sobrado de esquina, com um jardim amplo e bem cuidado. O morador do número 38-205 da rua Del Curato, era Gabriel Garcia Márquez. A construção da casa do escritor – que desde os anos 60 vivia no México –, explica muito da história de Sierva Maria de Todos los Ángeles. “Na época em que escreveu o livro, Gabito passou muitos meses em Cartagena, porque acompanhava as obras em sua casa. Seguramente a restauração do convento o influenciou a escrever a história”, conta Jaime García Márquez, um dos 14 irmãos do escritor e diretor da fundação criada em 1995 por Gabo para fomentar o jornalismo na América Latina, a FNPI.

Quanto à reportagem citada no início do livro, Jaime García faz uma observação enigmática: “É preciso pinçar o que ele escreve”.

A explicação para o comentário surge quando as peças do quebra-cabeça são aproximadas. Elas não se encaixam. O convento de Santa Clara foi o hospital local universitário de Cartagena até a metade dos anos 1970. Abandonado e em ruínas, o prédio foi comprado pela cadeia de hotéis Sofitel em 1987. Gabriel Garcia Márquez pode até ter visitado o local em 1949, mas não acompanhou nenhuma remoção, pelo simples fato de que elas, se de fato existiram, aconteceram quarenta anos depois, na época da restauração.

Os textos de García Márquez em sua época de repórter em Cartagena e Barranquilla foram recompilados, mas não há nenhuma reportagem sobre o convento de Santa Clara. O jornalista colombiano Gustavo Arango, autor do livro “Un ramo de no me olvides: Gabriel García Márquez en El Universal” (inédito no Brasil), buscou e jamais encontrou a reportagem de Gabo no convento.

“O que ele fez no prólogo do livro foi sobrepor eventos. Detrás das imprecisões dos fatos por ele narrados, há verdades muito certeiras. Acredito que a mais importante é apontar essa época como muito importante em sua vida. Suas primeiras experiências como repórter e a influência de Clemente Manuel Zabala no seu início [o nome de Zabala, primeiro chefe e mentor de Gabo, é citado na introdução do livro]”, explica Arango. Segundo o pesquisador, tampouco é de toda verdadeira a afirmação de Gabo de que dia 26 de outubro de 1949 não foi um “dia de grandes notícias” em Cartagena.

“Me dediquei a procurar o que havia acontecido nesse dia, e de fato, na Assembléia Municipal, houve uma violenta briga entre os políticos. Aqueles dias foram intensos em matéria política”, acrescenta.

Arango também teoriza sobre a data citada pelo novelista no prólogo do livro. “Fiz várias conjecturas, talvez descabeladas. Gabo gosta muito do mês de outubro. Em 'Ninguém escreve ao coronel' (1961) ele fala de outubro, das chuvas de outubro. Em muitos outros livros aparecem 'outubros chuvosos'. O 'Outono do Patriarca' (1975) está cheio de outubros. Quanto à data exata, há um dado curioso: em alguns livros antigos fala-se que o momento em que Deus diz: 'faça-se a luz' foi em 26 de outubro. Aproximadamente às nove da manhã.”

Jaime García Márquez também lê o prólogo de "Do Amor e de Outros Demônios" como uma homenagem a Clemente Manuel Zabala. Uma forma que o escritor encontrou de "reconhecer a importância do chefe em seu começo de carreira como jornalista". Para ele, a chave para entender toda a obra do irmão está na autobiografia “Viver para Contar” (2002), mas precisamente na frase fundamental do livro: “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda e como recorda para contá-la”. Para Jaime, a mensagem é endereçada aos amigos e familiares e tem como objetivo dizer-lhes: não busquem incoerências ou equívocos em minha biografia, essa foi minha vida porque assim são minhas lembranças. “Com essa frase ele nos venceu”, sorri, resignado, o irmão do Nobel de Literatura 1982.

Mas o próprio irmão, que largou o trabalho como engenheiro para assumir a fundação criada por Gabo, certa vez o indagou sobre uma passagem do livro em que é citado. “Ele diz que eu dividia quarto com dois irmãos mais novos e passava noites pregando aos menores sobre filosofia e matemática. Eu nunca dormi no terceiro andar daquela casa, nunca dividi quarto com os irmãos que ele cita... Eu tinha três anos, como podia falar sobre matemática com alguém?”. A resposta foi simples e irrefutável: “Você não entende nada. Se você tivesse, naquela época, divido quarto com eles e fosse mais velho, com certeza passaria todo o tempo falando de filosofia e matemática”.

Verdades do coração

A anedota contada pelo irmão Jaime faz crer que de certa forma nem o próprio escritor consegue delimitar exatamente onde termina a realidade e onde começa sua criação. “Não há em minhas novelas uma linha que não esteja baseada na realidade”, costumava repetir Gabo. “Acho que ele aplicou em seu trabalho como escritor um pouco da ideia de um de seus mestres, William Faulkner, que fala sobre as verdades do coração. A história pode não ser completamente fiel aos fatos, mas, mesmo quando se inventam detalhes, há um respeito profundo pelas verdades do coração”, analisa Gustavo Arango.

A fronteira nebulosa entre o real e o fantástico existente na obra do Nobel colombiano às vezes chega ao cúmulo de ser o limite entre a história pré e pós-García Márquez. Em alguns momentos, mais do que moldar-la, o escritor consegue, alterar a história. O chamado “massacre dos bananeiros” (1928) quando os funcionários da United Fruit Company resolveram protestar pelas péssimas condições de trabalho e foram violentamente reprimidos pelas forças armadas colombianas é exemplar. Revisto após a publicação de “Cem Anos de Solidão (1967)”, o episódio tem hoje uma importância histórica muito maior do que há algumas décadas. Inclusive o número de mortos na matança que costuma ser o mencionado – os 3 mil que Gabo cita no livro é muito maior do que o estimado por historiadores. Ou seja, depois de 1967 o que foi uma violenta repressão virou um massacre com milhares de mortos.

Jaime Garcia conta que nos anos 1970 recebeu uma bonita carta do irmão que falava do futuro deles e do país e terminando com uma incumbência: levantar dados sobre o massacre, em especial o número de mortos. Depois de meses de pesquisa, mandou a resposta ao irmão: comprovadas, haviam oito mortes, 2.992 menos do que as citadas pelo escritor em sua obra.

A história de Sierva Maria de Todos los Ángeles é outro exemplo dessa capacidade de Gabo de transformar a realidade. A cripta é visitada diariamente, e a reportagem que nunca existiu não raramente é citada como uma das melhores do escritor, não só por seus leitores, mas no meio acadêmico.

“O que ele faz ao mencionar a reportagem que não existiu é usar um expediente para dar verossimilhança à obra, uma coisa comum entre os escritores. Todos sabiamos que não era verdade aquilo, mas hoje há peregrinação para visitar o túmulo”, diverte-se Eric Nepomuceno, escritor e amigo pessoal de Garcia Márquez. Tradutor de alguns livros de Gabo, entre eles “Viver para Contar”, Nepomuceno minimiza a importância de se separar o real da criação na obra de García Márquez: “Quem conhece a América Latina sabe que tudo o que está na obra dele pode ou poderia ter acontecido”.

Em 1982, em seu discurso de recepção do Prêmio Nobel de Literatura, Gabriel García Márquez fez questão de falar sobre o tal realismo fantástico. Segundo ele, a realidade desse universo latino-americano é tão rica, que é preciso pedir “muito pouco” à imaginação. "O desafio maior para nós [latino-americanos] tem sido a insuficiência de recursos convencionais para fazer críveis nossa vida. Este é, amigos, o nó da nossa solidão."

Historinhas

Gabo recebeu pedido para mudar o final do livro

Ao finalizar “Do Amor e de Otros Demônios”, Gabo entregou o manuscrito do livro ao irmão Jaime e a cunhada Margarita. Eles já sabiam da história do livro, mas não conheciam o final. Margarita passou a noite lendo o manuscrito e, no dia seguinte, quando encontrou Gabo, lhe fez um comentário e um pedido: havia gostado muito da novela e nem um pouco do final. Tentou convencê-lo de que Sierva Maria não podia morrer. “Argumentou que em todos os seus livros, exceto ‘O Amor nos Tempos do Cólera’ (1985) tinham finais tristes e de que os personagens, desta vez, mereciam ser felizes”, conta Jaime.

Solidário à dor da cunhada, García Márquez tentou convencê-la de que, no contexto da obra, Cayetano Delaura não tinha outro destino do que aquele, permanecer só. Fez Margarita entender que ele, apenas um escritor, não podia mudar o final daquela história, que já estava escrita havia séculos antes de publicada. Só pôde, ao lado da cunhada, lamentar a má sorte que tiveram Sierva Maria e Cayetano Delaura, reféns, não de um escritor e seus desejos, mas de um destino que sabe quem governa com uma força imutável há séculos. E Margatina aceitou os argumentos de Gabo? “Não. De modo algum”, responde, risonho, Jaime García.

Presente

O título do livro escrito por García Márquez em 1994 foi dado de presente a ele pelo cineasta brasileiro Ruy Guerra. Quem conta a história é Eric Nepomuceno. "Em 1991, o Ruy me chamou para escrever um roteiro de um filme com ele, que se chamaria 'Lua Negra'. No meio do trabalho, ele mudou o nome para 'Do Amor e de Outros Demônios', título que para mim não dizia nada. Então veio o Collor, o filme nunca foi rodado, e um dia o Ruy contou essa história para o Gabo. Ele ficou encantado com o título e disse que seria perfeito para uma novela que estava escrevendo. O Ruy, então, deu pra ele de presente esse título."

“Dou de presente para você os direitos. Faça”.

Em 2005, em uma oficina de cinema em Cuba, Gabriel García Márquez conheceu a cineasta costarriquense Hilda Hidalgo. Durante o curso, em uma conversa, ela comentou com o escritor que achava que de todas as suas novelas a que melhor poderia ser adaptada ao cinema era “Do Amor e de Outros Demônios”. Lamentou que ninguém nunca tivesse feito. Gabo então lhe disse: “Dou de presente para você os direitos. Faça”.

Hilda Hidalgo precisou de dois anos para escrever o roteiro e encontrar os atores. A colombiana Elisa Triana, de 13 anos, foi a escolhida para fazer Sierva Maria de Todos Los Ángeles. Cayetano Delaura será o espanhol Pablo Derqui, de 28 anos.


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 Ricardo Viel, jornalista, atualmente mora e trabalha em Lisboa, Portugal.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Um toureiro chamado Renato Borghetti


por Ricardo Viel, de Lisboa*

 “Não sei o que de comunicativo tem o acordeão que quando o escutamos nos encolhe o sentimento”, escreveu Gabriel García Márquez em uma crônica sobre o vallenato, típico ritmo da costa caribenha colombiana. Pois essa sentença do genial Gabo me veio à cabeça tão logo Renato Borghetti abriu seu fole em cima do palco, na sexta-feira, 17 de maio, em Lisboa.

Em escassos metros de palco e por quase uma hora o músico de origem gaúcha domou diante de mim (e uma centena mais de afortunados) um animal arisco que insistia em expandir-se e contrair-se. Parecia querer fugir, mas ao mesmo tempo aparentava deleitar-se ao cerco a que foi submetido. E suas queixas tinham algo de lamento e de desabafo.

Contorciam-se ambos, mas o homem era sempre quem tinha o comando. Sabia o momento exato de cada gesto, o começo e o fim de cada ato. Às vezes, deixava a fera tomar ar, afastar-se, para logo em seguida encolhe-la sobre seu regaço. Com os olhos fechados, o artista media os movimentos – que variavam entre brutalidade e a candura – e por ora parecia desafiar aquela fera ao dançar de rosto colado com ela.

Já pela terceira música concluí que sem saber eu havia entrado numa tourada cujo touro fora substituído por um acordeão (para ser mais correto uma gaita de ponto).

O matador, vestido de negro, com um cinto de pano e um chapéu na cabeça, tinha seus auxiliares, como há de ser. Mas esses, em vez de portarem capas e lanças, traziam clarinete, violão e teclado. E o ajudavam, estavam a seu lado, cientes do que acontecia e atentos para se preciso fosse agirem no intento de evitar um fatal escorregão. Mas era óbvio: o duelo mesmo era entre o fole e o homem. Caminhavam pelo palco agarrados, amarrados peito com peito, desenhando invisíveis caminhos.

Foi uma linda e emotiva tourada. Cheia de arte, como deve ser, mas sem humilhação. A vitória de um não foi a derrota de outro. Não houve marca de sangue no solo, nenhuma agonia, nenhuma traiçoeira estocada. Não aplaudimos a morte, mas a vitória sobre ela.

E findo o ato, quando Renato Borghetti afastou as mãos da fera, foi como se dela tivesse arrancado a alma. A vi estática, retraída, depositada em um caixote sem qualquer resistência. Nem de longe lembrava o animal imponente que segundos atrás mostrava seu esplendor ao desafiar o artista diante do público. Parecia mesmo sentir falta daquele homem que, ao tê-la nos braços, a havia encantado. A ela e a um mortal que, sentado logo na primeira fileira, parecia encolhido em seus sentimentos.


*Ricardo Viel, jornalista, atualmente em Lisboa, Portugal, é colunista do NR

segunda-feira, 25 de junho de 2012

A memória de Gabo

“A vida não é aquilo que vivemos, senão o que recordamos
e como recordamos para contar.”
Plinio Apuleyo Mendoza, amigo de García Márquez e autor de um delicioso livro de entrevistas com ele chamado “El olor de la guayaba”, disse publicamente o que há alguns anos se comenta em privado: Gabo está perdendo a memória.

Um conhecido, que no ano passado esteve com o escritor colombiano em um jantar, contou a mesma coisa. Disse que ele tem a saúde debilitada e que lhe custa muito seguir uma conversa. Há anos Gabo não escreve nada e não é visto em eventos públicos.

Apuleyo contou também que o amigo tem dificuldade para reconhecer pessoas e lembrar de situações que aconteceram recentemente, mas que guarda intacta a memória do que viu e viveu há 30, 40 anos.

Claro que é triste tudo isso, mas por sorte lhe resta intactas as lembranças do passado. E como disse o próprio em sua autobiografia: “A vida não é aquilo que vivemos, senão o que recordamos e como recordamos para contar.”

Tenho a impressão de que García Márquez se sente cada vez mais sozinho e deslocado nesse mundo. A maioria dos amigos já se foi, a mudança pela qual militou e sonhou não veio, o tipo de jornalismo que fez é cada vez mais raro.

Refugiar-se no passado é, penso eu, uma maneira de seguir desfrutando da vida. Difícil imaginar um lugar mais adequado para guardar as recordações do que aquela Paris do final dos anos cinquenta. Gabo era pobre e desconhecido, e sonhava em escrever livros inesquecíveis como Cortázar, a quem espreitava com curiosidade e timidez nos cafés.

Ricardo Viel, jornalista, escreve às segundas, de Salamanca, Espanha

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Gabo recebeu pedido para mudar o final do livro

reportagem especial

(Parte 4)

Ao finalizar “Do Amor e de Otros Demônios”, Gabo entregou o manuscrito do livro ao irmão Jaime e a cunhada Margarita. Eles já sabiam da história do livro, mas não conheciam o final. Margarita passou a noite lendo o manuscrito e, no dia seguinte, quando encontrou Gabo, lhe fez um comentário e um pedido: havia gostado muito da novela e nem um pouco do final. Tentou convencê-lo de que Sierva Maria não podia morrer. “Argumentou que em todos os seus livros, exceto ‘O Amor nos Tempos do Cólera’ (1985) tinham finais tristes e de que os personagens, desta vez, mereciam ser felizes”, conta Jaime.
Solidário à dor da cunhada, García Márquez tentou convencê-la de que, no contexto da obra, Cayetano Delaura não tinha outro destino do que aquele, permanecer só. Fez Margarita entender que ele, apenas um escritor, não podia mudar o final daquela história, que já estava escrita havia séculos antes de publicada. Só pôde, ao lado da cunhada, lamentar a má sorte que tiveram Sierva Maria e Cayetano Delaura, reféns, não de um escritor e seus desejos, mas de um destino que sabe quem governa com uma força imutável há séculos.
E Margatina aceitou os argumentos de Gabo?
“Não. De modo algum”, responde, risonho, Jaime García.

Título do livro foi presente
O título do livro escrito por García Márquez em 1994 foi dado de presente a ele pelo cineasta brasileiro Ruy Guerra. Quem conta a história é Eric Nepomuceno. "Em 1991, o Ruy me chamou para escrever um roteiro de um filme com ele, que se chamaria 'Lua Negra'. No meio do trabalho, ele mudou o nome para 'Do Amor e de Outros Demônios', título que para mim não dizia nada. Então veio o Collor, o filme nunca foi rodado, e um dia o Ruy contou essa história para o Gabo. Ele ficou encantado com o título e disse que seria perfeito para uma novela que estava escrevendo. O Ruy, então, deu pra ele de presente esse título."

“Dou de presente para você os direitos. Faça”.
Em 2005, em uma oficina de cinema em Cuba, Gabriel García Márquez conheceu a cineasta costarriquense Hilda Hidalgo. Durante o curso, em uma conversa, ela comentou com o escritor que achava que de todas as suas novelas a que melhor poderia ser adaptada ao cinema era “Do Amor e de Outros Demônios”. Lamentou que ninguém nunca tivesse feito. Gabo então lhe disse: “Dou de presente para você os direitos. Faça”.
Hilda Hidalgo precisou de dois anos para escrever o roteiro e encontrar os atores. A colombiana Elisa Triana, de 13 anos, foi a escolhida para fazer Sierva Maria de Todos Los Ángeles. Cayetano Delaura será o espanhol Pablo Derqui, de 28 anos. O filme estreou na Colômbia e Costa Rica no mês de abril. Não há previsão da estreia no Brasil.

- (leia a parte 1: Dizem que uma mulher de vermelho anda pelos corredores)
- (leia a parte 2: É preciso pinçar o que ele escreve)
- (leia a parte 3: Verdades do coração)
- (leia a parte 4 (final): Escritor recebeu pedido para mudar o final do livro)




Ricardo Viel é jornalista e colunista do Nota de Rodapé.
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