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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Recortado


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

O tempo roda e a gente, que mora longe, vai se esquecendo de que aqui nesta cidade aconteceu aquela tragédia. Num dia como outro qualquer, uma terça-feira, se não me engano, alguém entrou correndo no escritório falando que um avião de passageiros havia se chocado contra um enorme edifício de escritórios em Nova York. Ligamos a televisão da sala de reuniões e assistimos ao vivo, entre incrédulos e apavorados, o choque do segundo avião contra o segundo prédio, num episódio que já dispensa qualquer outro comentário ou descrição.

Um memorial foi construído no local exato do acontecido. Dois enormes tanques de água quadrados e idênticos, tendo ao fundo e ao centro outro quadrado menor, escuro e profundo, para dentro do qual jorra incessantemente a água, que parece brotar nas bordas e desce pelas paredes verticais. Nas bordas externas, ao longo de toda a volta deles, estão gravados, ou melhor, recortados em chapas metálicas, os nomes de todos os que foram ali imolados aos deuses e deusas que infestam e infelicitam o nosso mundo. Meu coração, apertado e acelerado ao mesmo tempo, passou o recibo da emoção de estar ali e do impacto causado por esse simbolismo genial, que tem água em movimento e o abismo sugando tudo.

Num contraponto virtuoso, igualmente capaz de tirar o fôlego, as colagens de Henri Matisse expostas no MoMA dialogam com o que de melhor pode haver dentro do peito de qualquer criatura viva. Experimente com a série “Véspera de Natal”, aí mesmo, na tela do seu computador.

Estranha e fascinante cidade, um enclave de tolerância e diversidade numa das portas de entrada de um jovem país puritano e obstinado em seu propósito de dominar o mundo. Caminhar por suas calçadas planas, impecáveis e intermináveis é toda uma experiência. Neste quesito, o destaque da semana foi a mulher elegante, que fazia uma pausa para escrever algo no teclado do celular, trazendo pela coleira um grande porco com ares cosmopolitas, como deve ser. Ambos muito compenetrados.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

terça-feira, 4 de novembro de 2014

A prosa centenária de Carolina Maria de Jesus

por Ana Paula Santos, especial para o NR

 “Estou escrevendo e pretendo escrever, continuar a escrever. Agora que eu estou encaixada dentro do meu ideal que é escrever”
Carolina de Jesus

Dois mil e quatorze é um ano especial na história da literatura brasileira. Para a tradição literária negra, um marco garante ao ano corrente a imortalidade na memória coletiva de um povo. Há cem anos, completados em março, nasceu em Minas Gerais, a escritora Carolina Maria de Jesus. Dona de uma escrita sensível e poética, Carolina narrou na obra Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada (1960), as mazelas do cotidiano dos primeiros moradores de favela do Canindé em São Paulo. A autora, mãe de três filhos, além de escrever, trabalhava como doméstica e catadora de lixo. É neste contexto que nascem os seus escritos, transmitindo com voracidade as relações imbricadas das desigualdades de raça e classe e o peso de quem está na base que sustenta as estruturas de poder. Em uma escrita negra, feminina, favelada e em primeira pessoa, a obra da autora facilmente se enquadraria nas características do período realista da literatura brasileira. Mas Carolina jamais frequentou os círculos tradicionais dos escritores da época.

Quarto de Despejo sua primeira e mais famosa obra, vendeu mais de 50 mil exemplares no Brasil e no exterior, tornou-se best-seller na Europa sendo traduzido para 13 idiomas. A escritora ainda publicou mais quatro livros: Casa de Alvenaria (1961), Pedaços de fome (1963), Provérbios (1963) e o Diário de Bitita (1982, póstumo). Carolina Maria de Jesus quebrou paradigmas no século 20 ao apresentar uma prática literária divergente com o padrão eurocêntrico comum a literatura brasileira.

Ela seguia os passos de outra preta, que talvez jamais ouvira falar, a maranhense Maria Firmina dos Reis. Firmina lançou em 1848 o romance Úrsula. Estas mulheres, por muita competência, conseguiram o extraordinário: romperam a barreira falocêntrica e racista do mercado editorial brasileiro, descortinaram o caminho para que outras negras, em seguida, imortalizassem na linguagem escrita a tradição literária preta, tão viva na tradição oral. Esmeralda Ribeiro, Conceição Evaristo, Cidinha da Silva (colunista do Nota de Rodapé) e Cristiane Sobral são algumas de muitas escritoras negras descendentes de Carolina.

“Carolina Maria de Jesus imprimiu uma rasura no cânone com seus escurecimentos necessários, sua escrita periférica em um tempo em que o ponto de vista dos excluídos não costumava ser apresentado no universo das letras. Sua visão particular reflete sobre questões de gênero, sobre a identidade negra, sobre a política, para citar alguns dos temas, em um tempo em que o próprio ambiente onde morava, a favela do Canindé, dificilmente era retratado além das páginas policiais”, disse certa vez a escritora Cristiane Sobral.

Seu legado inspirou estudos e grupos de pesquisas como o Etnicidades no Instituto de letras da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Literafro da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Coletivo Carolinas ao vento, Centenária e Atemporal entre outras iniciativas que promovem reflexões sobre a escritora.

Carolina Maria de Jesus faleceu em 14 de agosto de 1977. Conforme cita em uma de suas obras: “não tenho força física, mas minhas palavras ferem mais do que espada”.

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Ana Paula Santos é soteropolitana, jornalista, radialista, produtora, apresentadora e repórter com formação em televisão. Colabora com o Jornal Brasil de Fato e edita o Blog Literatura Subversiva.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Discoteca de músico: Cesinha Pivetta

por Marcos Grinspum Ferraz   Ilustração de Victor Zalma*

Um defensor engajado do samba tradicional e da cultura popular. É assim o Cesinha Pivetta (no retrato de Marcos Hermes), jovem cantor e compositor paulistano que lançou este ano seu primeiro disco solo, “Nossa Bandeira”, e que desde 2007 é um dos cabeças do Samba do Bule – grupo que se reúne para pesquisar e tocar sambas, e que promove mensalmente uma concorrida roda no Teatro Popular União e Olho Vivo, no Bom Retiro (São Paulo). Quem já assistiu de perto o Bule ou um show do Cesinha – e quem ainda não, deveria – percebe logo sua paixão pela música de raiz brasileira. E assim é feito seu samba, com intensidade.

Seguindo com a proposta de reunir nesta “Discoteca de Músico” artistas dos mais variados estilos, convidei o Pivetta, que conheço desde os tempos de colégio, para fazer aqui as escolhas de discos e clipes que marcaram sua vida. Depois de Tim Bernardes, Rashid, Bruna Caram, Gabriel Basile e Flora Poppovic, ele é o sexto entrevistado da série, que mensalmente traz um artista respondendo às mesmas cinco questões. A ideia é ter, no fim do processo, uma espécie de discoteca/videoteca virtual feita pelos músicos, voltada para o público que quer conhecer mais os artistas ou mesmo que busca sugestões do que ver e ouvir.

E por ser tão mais ligado às linguagens musicais tradicionais, Cesinha subverteu um pouco as regras do jogo aqui na coluna – na parte audiovisual – o que foi muito bem-vindo. Como bom bamba, se saiu bem do impasse de não saber dizer quais os videoclipes que o marcaram positivamente durante a vida. E, ao meu ver, o bom é saber que há de tudo na nova geração da música brasileira: quem faça rock, rap, pop, reggae, música eletrônica, funk, quem misture tudo e também quem se dedique a não deixar a chama do samba tradicional morrer. Vale a pena conhecer o som de Cesinha Pivetta, do Samba do Bule, de Lello di Sarno, do Nervos de Aço e tantos outros.

Um disco brasileiro que marcou sua formação musical

“Partido em 5”. Esse é o registro puro de uma roda de samba. Marcou profundamente pra mim pois ouvi ali o que diversas vezes havia vivido perambulando por aí. Velha, Casquinha, Wilson Moreira, Anézio e Joãozinho da Pecadora contaram com a participação de mestre Candeia e não utilizam recurso especial nenhum para a gravação, ao vivo, de uma sequência de sambas de partido-alto que fui reconhecendo e nunca soube de onde vinham. Neste disco figuram também Luna e Marçal, dois monstros na cozinha que são referência para qualquer amante de batucada como eu.

Um disco gringo que marcou sua formação musical

“Bob Marley and the Wailers, Live” – ‘Nossa, isso é legal também!’. Essa foi minha primeira reação ao escutar esse disco. Sempre fui muito restrito ao samba e em certo momento também ao próprio pagodão, mas em alguns momentos me deixei levar pela música gringa por influência dos colegas, primos... Em casa jazz e blues já tinham o gosto de minha mãe, e sempre passou legal pelos meus ouvidos, fazendo também parte da minha formação. Mas foi quando ouvi Bob que descobri algo que me fizesse querer entender melhor a língua inglesa, que sempre rejeitei. Vi ali um sujeito parecido com bambas do nosso samba, falando e mostrando sua simplicidade e quem sabe, daí, a transformação, a busca de um mundo mais justo.

Um disco lançado nos últimos anos que te marcou profundamente

“Lamento do Samba”, do Paulo César Pinheiro. Este disco me fez ver o samba de uma maneira diferente. Estes versos para mim se tornaram mantras: “O segredo da força do samba/ É a vivência do seu fundamento/ O que faz ser eterno um bom samba/ É a beleza que tem seu lamento.” O samba “Nomes de Favela”, que só conheci com o lançamento deste disco, em 2003, considero um verdadeiro hino.

Um videoclipe que marcou sua formação

“Brincadeira de Criança”, do Molejo. Falar de clipe pra mim é muito difícil, pois nunca tive o costume de acompanhar MTV, etc. Mas lembro bem deste clipe, ele me marcou, talvez negativamente (tinha pesadelos) mas duvido que alguém não se lembre!



Um videoclipe lançado nos últimos anos que te marcou profundamente

Olha....impossível eu conseguir um clipe que tenha me marcado profundamente na última década... não lembro nem de um que tenha visto... Então resolvi inverter tudo aqui sem saber se vale ou não. Vai um curta metragem bem mais velho que a última década sobre partido alto.



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Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. llustração de Victor Zalma, especial para a série

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Discoteca de músico: Flora Poppovic


por Marcos Grinspum Ferraz    Ilustração de Victor Zalma*

A convidada deste mês do Discoteca de Músico, Flora Poppovic, é a voz feminina do Pitanga em Pé de Amora, grupo paulistano que reúne cinco jovens músicos muito talentosos e que deve lançar este ano seu segundo disco. Como a banda não tem bateria, é a Flora também quem dá o pulso em boa parte das canções, tocando os instrumentos de percussão que aprendeu a “batucar” desde cedo.

crédito: Camila Passos
Foi justamente essa faceta percussionista da Flora que conheci primeiro, antes de saber que ela tinha também uma bela voz. Pois desde a adolescência até poucos anos atrás, por cerca de uma década, ela foi integrante do Batuntã, outro grupo destacado da cena paulistana e que é bastante focado nos instrumentos de percussão. Hoje ela é também professora de percussão no Instituto Brincante e no Brincantinho (braço infantil do espaço criado por Antonio Nóbrega), atividade que concilia com os ensaios e shows do Pitanga.

Pois bem. Depois de Tim Bernardes, Rashid, Bruna Caram e Gabriel Basile, a Flora é a quinta entrevistada da série “Discoteca de Músico”, que mensalmente traz um artista respondendo às mesmas cinco questões, sobre discos e videoclipes que marcaram seus caminhos na música e na vida. Discos e vídeos antigos ou atuais, já que parto aqui da constatação de que música boa não para nunca de ser produzida.

A ideia da série é ter, no fim do processo, uma espécie de discoteca/videoteca virtual feita pelos músicos – de variadas idades e adeptos de diferentes estilos –, voltada para o público que quer conhecer mais os artistas ou mesmo que busca sugestões do que ver e ouvir.

Um disco brasileiro que marcou sua formação musical

“Antônio Brasileiro”, do Tom Jobim. Bom, minha mãe é daquelas que quando gosta de um disco dá play de novo assim que ele acaba. E esse foi um dos que a gente escutou milhares de vezes no repeat! Eu decorei todas as músicas e queria muito ser a Maria Luiza, filha do Tom que canta com ele em duas faixas. Mais tarde, quando comecei a tocar percussão e conhecer um pouco sobre o universo da cultura popular brasileira, me encantei mais ainda com esse disco que trazia samba, bossa nova, jazz, baião, maracatu, peças instrumentais maravilhosas e até poema musicado do Manuel Bandeira. Hoje eu ainda ouço muito ele, e me sinto numa viagem passando por paisagens diferentes... Esse disco me traz paz.

Um disco gringo que marcou sua formação musical

“Kind of Blue”, do Miles Davis. Eu demorei muito para ouvir discos gringos. Fui conhecer melhor só aos 18 anos, quando fui apresentada ao “Kind of Blue”. E mudou minha vida! Eu estava numa fase de muita música instrumental, ouvindo choro pra caramba, e esse disco caiu como uma bomba! Era sublime! Era calmo e revolto, melancólico e me deixava feliz... Anos depois, quando entrei na Groove Escola de Música para estudar, esse disco era muito usado nas aulas, seja para cantar a linha de baixo, fazer exercícios com baqueta, e a impossível tarefa de cantar os solos em “All Blues”. Me apaixonei ainda mais! Era como se eu estivesse conhecendo de novo o cd, e até hoje ainda sinto que tem muita coisa "escondida" nele pra descobrir! Esse disco é música pura!

Um disco lançado nos últimos anos que te marcou profundamente

“Vem Ver”, Vanessa Moreno e Fi Maróstica, lançado em 2013. Em primeiro lugar, esse disco me marcou por ser extremamente corajoso: é o primeiro disco solo da carreira de dois jovens muito talentosos e é um duo de baixo e voz. Baixo e voz? Sim. E é impressionante como os dois se viram muito bem nessa corda bamba. A Vanessa com suas lindas interpretações nos leva a lugares de extrema ternura e a outros de malandragem pura. Faz coro com muitas vozes... Enfim, faz o que ela quiser! É uma danada! E o Fi é um baixista de fino trato, toca todos os baixos possíveis, batuca pra caramba e ainda enfeita com vozes de fundo em algumas faixas. O CD conta também com percussão, percussão corporal e vocal, e participações de Chico Pinheiro, Rafael Altério, Sergio Santos entre outros. Os arranjos são bonitos, criativos e a maioria das músicas desconhecidas. É um disco inspirador!

Um videoclipe que marcou sua formação

Stomp Out Loud- Kitchen, Stomp. O Stomp sempre foi uma referência pra mim!! A música está completamente integrada ao movimento, e sempre em instrumentos que não são instrumentos. Ele une música, pesquisa de timbres e humor, ou seja: diversão garantida. Por muito tempo o Stomp foi norteador de pesquisa para o Batuntã, grupo que eu fiz parte dos 14 aos 24 anos. Esse DVD inteiro me fascina, mas o vídeo que eu mais gosto é esse da cozinha, filmado todo num plano só, sem cortes, onde as coisas e a música vão acontecendo. Legumes cortados, panelas sujas, chefe mal-humorado, tudo vira som!!!



Um videoclipe lançado nos últimos anos que te marcou profundamente

The Writting's On the Wall, Ok Go. Esse clipe é demais! Muito criativo, muito bem feito. Ele é todo filmado sem cortes, e numa sala gigante cheia de coisas que te enganam e vão mudando conforme a câmera muda. É um jogo de perspectiva. A gente é surpreendido o tempo todo!




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Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. llustração de Victor Zalma, especial para a série

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Não me nego e faço gosto

por Júnia Puglia*

Quando a palavra radialista ainda nem existia, meu pai manteve um programa de rádio evangélico diário por mais de dez anos, na emissora líder da cidade, que, dizia-se, tinha um enorme alcance em ondas curtas. Acho que era mais que um ufanismo interiorano, porque ele recebia cartas, muitas cartas, dos lugares mais remotos do Brasil.

Algumas vezes, ele nos levava ao estúdio. Como o programa entrava no ar, ao vivo, às sete e meia da manhã, era preciso se levantar cedo para acompanhá-lo. O estúdio comunicava-se com um pequeno auditório, onde às vezes acontecia o programa, quando havia números especiais de música ao vivo ou alguma celebração aberta para o público. Numa placa de bronze ostentada à entrada, lia-se: “aqui se apresentou, na data tal, o tenor italiano Tito Schipa, glória da cena lírica mundial”. Eu achava lindo e muito chique.

Em todo o interior paulista, o horário das cinco às sete da manhã era ocupado por programas de música caipira. Era a hora de os trabalhadores da roça pegarem no batente. A praça próxima à minha casa ficava cheia de bóias-frias, homens e mulheres, que eram recolhidos por caminhões e levados, em pé nas carrocerias abertas, para os canaviais e laranjais. Os da cana iam vestidos dos pés à cabeça, com panos amarrados por todo lado, como proteção contra as longas folhas em formato de facas, que lhes rasgavam as carnes. Tudo muito natural e pré-determinado desde o início dos tempos.

Cada um levava consigo seu energético, o radinho de pilha, que ajudava a empurrar o facão em jornadas intermináveis medidas pela produção. Enquanto esperavam o transporte, os rádios formavam uma cacofonia de duplas caipiras tocando suas modas na longa sequência matinal do programa do Nhô Zélio. Tonico e Tinoco eram os maiorais, mas havia também Tião Carreiro e Pardinho, Alvarenga e Ranchinho, Jararaca e Ratinho e muitos outros. Eu ficava sentada no estúdio, ou quase sempre na cozinha de casa, esperando meu pai entrar no ar, ouvindo aquela música que estava impregnada nos nossos genes, apesar dos narizes torcidos do pessoal que se considerava “da cidade” e lutava vigorosamente para esquecer sua origem rural. Chique mesmo era ser urbano.

Quem chegou agora e adora um sertanejo universitário não tem ideia do que estou falando. Depois de alguns anos de um esquecimento que era visto como um alívio, a música caipira ressuscitou na voz de novas duplas. Já não falava da miséria, do trabalho no campo, da Rosinha, da filharada, choupana, vaquinhas, passarinhos e cavalos xucros. Começou a era do caipira urbano, da música de bordel de beira de estrada, levada na boleia dos caminhões que fizeram o “Brasil grande” nos anos setenta e oitenta, até se fixar definitivamente nas cidades e chegar às metrópoles e ao mundo, aos shows gigantescos e aos negócios bilionários. Atravessou um longo período de romantismo tipo tritura coração e agora está na fase da animação da balada, onde a letra é o que menos importa. Eu mesma já identifiquei algumas das canções atuais tocando em lojas e trens de metrô em lugares insólitos pelas Europas. E tive uma sensação estranhíssima, de total desencontro entre a música e o lugar.

O sertanejo de antes, que evidentemente não morreu, é a música de raiz que mais fundo me bate. Como diz a Inezita Barroso, “sou sertaneja, não me nego e faço gosto, tá escrito no meu rosto, só não enxerga quem não quer”. Mentira. Também sou urbana, mas adoro as modas de viola e a poesia sertaneja feita de terra e cheiro de mato.

Esta avalanche de hoje, conheço muito pouco, porque não me diz nada, mas tem o mérito inegável de ter capturado o grande mercado musical para o produto nacional, espantando o pop estrangeiro de péssima qualidade. Não é pouca coisa, e tem o meu respeito.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Discoteca de músico: Gabriel Sader Basile


por Marcos Grinspum Ferraz    Ilustração de Victor Zalma*

Os três primeiros entrevistados desta Discoteca de Músico foram artistas acostumados a estar à frente nos palcos. Mais expostos, vocalistas naturalmente costumam chamar a atenção. O convidado desta vez, de outro modo, é um instrumentista que está quase sempre no fundo da cena, mas que de modo algum é menos importante. Aliás, se dizem que o baterista é a alma de uma banda, o Gabriel Sader Basile – ou Biel – é a alma logo de três: Memórias de Um Caramujo, Grand Bazaar e Noite Torta. Isso, além de ser percussionista do Charlie e Os Marretas e de acompanhar atualmente o compositor Maurício Pereira.

crédito: Amanda Amaral de Oliveira
Com apenas 25 anos, o Biel já tem um bom tempo de estrada, e apesar de eu já ter tido alguns contatos anteriores, só conheci melhor seus trabalhos de uns dois anos para cá. Impressiona (para além do carisma, diga-se de passagem) a capacidade com que ele transita de modo tão natural pelos mais variados gêneros musicais – do samba ao rock, do funk à música cigana –, sempre dando seus toques pessoais. E está claro, vendo o alto nível dos discos lançados pelas bandas das quais participa, que essa trajetória está apenas começando.

Pois bem. Depois de Tim Bernardes, Rashid e Bruna Caram, o Biel é o quarto entrevistado da série “Discoteca de Músico”, que mensalmente traz um artista respondendo às mesmas cinco questões, sobre discos e videoclipes que marcaram seus caminhos na música e na vida. Discos e vídeos antigos ou atuais, já que parto aqui da constatação de que música boa não para nunca de ser produzida.

A ideia da série é ter, no fim do processo, uma espécie de discoteca/videoteca virtual feita pelos músicos – de variadas idades e adeptos de diferentes estilos –, voltada para o público que quer conhecer mais os artistas ou mesmo que busca sugestões do que ver e ouvir.

Um disco brasileiro que marcou sua formação musical  

O “Clube da Esquina”, de 1972, com certeza é um deles. É um clássico! As músicas, os músicos, arranjos, timbres, histórias… tudo é lindo. E eu descobri esse disco de um jeito meio coletivo. Foi uma época em que entrei na onda da "mineirice" junto com um grupo de amigos músicos muito queridos. Sempre alguém vinha e mostrava alguma coisa nova que tinha descoberto no disco ou alguma música que tinha tirado. Ouvimos muita música juntos, que é uma coisa que acho preciosa e que cada vez fazemos menos.

Um disco gringo que marcou sua formação
O “With a Little Help From My Friends”, do Joe Cocker. Gosto demais desse disco! É uma mistura de rock com soul que me pega no coração. Acho que são minhas duas maiores influências gringas. É um desses discos que se começa a tocar não dá pra prestar a atenção em outra coisa. Eu entro na onda na hora. A voz do cara é absurda e a banda é fantástica! Tem o Jimmy Page e o Steve Winwood, que é um cara que também curto a beça. Além disso tudo, a gravação tem uma cara de “ao vivo” que gosto muito. Parece que a galera entrou no estúdio, fez um take de cada música, e no fim do dia o disco tava pronto. Dá a sensação que estava tudo entalado na garganta dele há uma eternidade, ele chegou e vomitou tudo no microfone. Fora que nesse disco tem a melhor versão de uma música dos Beatles. Não é pouca coisa…

Um disco lançado nos últimos anos que te marcou profundamente
Pô, tenho ouvido muita coisa boa ser produzida hoje em dia, tanto no Brasil quanto na gringa. Acho que estamos em um momento bem fértil musicalmente. Já faz uns anos, mas em 2010 foi lançada a “Caixa Preta” com a obra completa do Itamar Assumpção. Nessa caixa vieram dois discos com composições inéditas que foram produzidas e arranjadas para a ocasião. Um deles, o Pretobrás II, foi muito importante pra mim nesses últimos anos. Não preciso falar sobre as composições nem sobre o compositor, porque isso todo mundo já sabe que são fora de série e não são dessa década… Mas esse álbum me abriu a porta para começar a entender o que é a produção de um disco. Me chamou muito a atenção como praticamente só com timbres e ostinatos colocados nos lugares certos, os arranjos – feitos em cima de algumas gravações de voz deixadas pelo Itamar – se sustentam cheios de interesse. Também tem muita coisa de produção de música eletrônica feita com MPC, que é um caminho que tenho gostado cada vez mais e tem se tornado mais frequente em sons que tenho ouvido. Gol do Beto Villares, que produziu o disco.

Um videoclipe que marcou sua formação
O clipe “Drop”, do The Pharcyde. Nem faz tanto tempo que vi esse clipe pela primeira vez, mas me marcou bastante. Acho genial como o Spike Jonze, que dirigiu o clipe, conseguiu pegar a ideia musical da base em reverse que o J Dilla fez e usar no vídeo. Rola uma sintonia forte entre música e clipe, um fortalece o outro.



Um videoclipe lançado nos últimos anos que te marcou profundamente
Curti muito o “Happy”, do Pharrell. É um clipe que conseguiu usar a internet de um jeito muito criativo. É totalmente pensado para estar nela. São 24 horas ininterruptas de pessoas dançando a música da forma que bem entendem. A música começa, a música termina, aparece uma nova pessoa, a música começa outra vez e o dia vai passando… Dá pra ficar meia hora vendo o clipe, fácil! E se quiser ver de novo no outro dia dificilmente vai ver as mesmas cenas. O clipe se auto recicla, é muito bem bolado.
http://24hoursofhappy.com/

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Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. llustração de Victor Zalma, especial para a série

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Discoteca de músico: Bruna Caram


por Marcos Grinspum Ferraz  Ilustração de Victor Zalma*

Foi ouvindo ela cantar em pequenas rodas de violão com amigos que tive os primeiros contatos com a musicalidade da Bruninha. Ou melhor, da Bruna Caram, como é mais conhecida. E eu ficava ali olhando impressionado, com a potência e, ao mesmo tempo, doçura daquela voz – quando ela cantava canções como “Maré Baixa” (Diego Casas/ Daniel Altman) e “Catavento e Girassol” (Guinga/ Aldir Blanc), entre outras, acompanhada pelo Diego no violão.

Isso faz quase dez anos, mas a gente já sabia, naquela altura, que a coisa ia longe. Hoje, com apenas 27 anos, a Bruna já tem três discos lançados – “Essa Menina” (2006), “Feriado Pessoal” (2009) e “Será Bem Vindo Qualquer Sorriso” (2012) – e uma carreira consolidada. E se faz tempo que não a vejo cantar em pequenas rodas de violão, sigo acompanhando sua voz pelas rádios ou em shows por aí.

Pois bem. Depois de Tim Bernardes (leia aqui) e Rashid (leia aqui), Bruna Caram é a terceira entrevistada da série “Discoteca de Músico”, que mensalmente traz um artista respondendo às mesmas cinco questões, sobre discos e videoclipes que marcaram seus caminhos na música e na vida. Discos e vídeos antigos ou atuais, já que parto aqui da constatação de que música boa não para nunca de ser produzida.

A ideia da série é ter, no fim do processo, uma espécie de discoteca/videoteca virtual feita pelos músicos – de variadas idades e adeptos de diferentes estilos –, voltada para o público que quer conhecer mais os artistas ou mesmo que busca sugestões do que ver e ouvir.

Um disco brasileiro que marcou sua formação musical
“Elis e Tom”. Conhecer o trabalho da Elis, quando eu ainda era adolescente, não mudou, mas confirmou meu destino. Já cantava desde menina mas não tinha consciência de que isso poderia ser um trabalho, um sacerdócio sério, uma profissão, já que aprendi a cantar em casa, e na minha família todo mundo faz música para se divertir e estar junto. Algo dentro de mim procurava o lado seríssimo de cantar. Esse lado eu reconheci no trabalho da Elis. E Tom, meu amor da minha vida, eu aprendi a ouvir com minha mãe. Minha tia Ana Caram gravou com Tom num dos discos dela e eu desde menina pensei nele como um grandioso maravilhoso parente distante. A união desses dois marcos da minha vida num só álbum é imbatível, é meu disco número 1.

Um disco gringo que marcou sua formação musical
Vocês me perdoem por citar uma coletânea. Pode soar mal educado! Rs! Mas acho que os álbuns originais da Piaf nem existem a não ser em vinil, total raridade, e a realidade é que eu sou dessa era internética do download. O disco gringo que me vem mais forte à memória e ao coração é “Non Je Ne Regrette Rien”, uma compilação de canções na voz da Edith Piaf, uma das minhas maiores referências na carreira. Pela maneira de cantar extremamente sincera e intensa. Com Piaf aprendi que o grande cantor precisa emocionar não só através da letra, mas para além dela. Nunca falei muito bem francês, mas sempre chorei e ri ouvindo Piaf. Isso sempre me inspirou. Esse é o tipo de cantora que eu gosto de ouvir e que eu vou passar a vida tentando ser.

Um disco lançado nos últimos anos que te marcou profundamente
“Back to Black”, da Amy Winehouse. Vigoroso, doloroso, quente, dançante e verdadeiríssimo. Amy talvez seja a cantora que mais amei nos últimos 10 anos.

Um videoclipe que marcou sua formação
Sinceramente? “Remember the Time”, do Michael Jackson! Um dos meus maiores amores também! E embora minha música não esteja muito claramente relacionada à dele, a minha marca registrada, de unir todas as artes no palco – música, dança, teatro – tem muito, muito, muito da influência de Michael Jackson. Meu pai era muito fã e eu e meu irmão quando crianças víamos esse clipe duzentas mil vezes, chocados com a cena em que ele se dissolve, dourado-mágico. Música é mágica.



Um videoclipe lançado nos últimos anos (nesta década) que te marcou profundamente
“It's Oh So Quiet”, da Bjork. Nasceu clássico! Tudo o que eu amo: dança, música, cor, humor, interpretação, intenção, dinâmica, tudo num clipe absolutamente fantástico. Aplaudo!




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Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. llustração de Victor Zalma, especial para a série

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Discoteca de músico: Rashid


por Marcos Grinspum Ferraz    Ilustração de Victor Zalma*

Michel Dias Costa, o Rashid, não teve um caminho fácil para chegar aonde chegou. Com pouca grana e estrutura, mas muito vigor criativo, começou ainda na adolescência a participar das batalhas de MC e a escrever seus primeiros versos. Nascido na zona norte de São Paulo em 1988, conquistou espaço aos poucos e é considerado um dos principais nomes da nova geração do rap nacional na atualidade. Porque se a vida não deu facilidades, ela “deu caneta e papel”, como ele canta em verso de “Nada Pra Ninguém”.

Rashid na foto de Rafael Kent
Conheci o rap de Rashid no ano passado, por meio do disco “Confundindo Sábios”. Quanto mais ouvi, mais gostei do estilo e das letras, que para além da crítica social e das narrativas urbanas, explicitam também essa energia de Rashid para seguir fazendo música independente de qualidade, sem se deslumbrar com o sucesso. “Sabe por que eu vim?/ Porque eu quero entregar o melhor/ Nem que eu pague com meu suor/ Se esse é o preço pra sonhar”, diz outro verso do MC.

Em janeiro deste ano entrevistei Rashid para a revista Brasileiros (leia aqui) e o papo rendeu bastante. Agora, depois da estreia com Tim Bernardes da banda O Terno (leia aqui) é a vez do rapper ser o entrevistado da série “Discoteca de Músico”, que a cada mês trará um artista respondendo às mesmas cinco questões, sobre discos e videoclipes que marcaram seus caminhos na música e na vida. Discos e vídeos antigos ou atuais, já que parto aqui da constatação de que música boa não para nunca de ser produzida.

A ideia da série é ter, no fim do processo, uma espécie de discoteca/videoteca virtual feita pelos músicos – de variadas idades e adeptos de diferentes estilos –, voltada para o público que quer conhecer mais os artistas ou mesmo que busca sugestões do que ver e ouvir.

Um disco brasileiro que marcou sua formação musical

“Cartola”, os dois, de 1974 e de 1976. Esses discos são de uma riqueza incrível. Alguns clássicos da música brasileira estão aí. Cartola me inspira muito pela sensibilidade e simplicidade da sua escrita, que é crua e extremamente rica ao mesmo tempo. O sofrimento (de amor principalmente) virava uma coisa muito bonita nas palavras dele.

Um disco gringo que marcou sua formação musical

O “Reasonable Doubt”, do Jay-Z. Ele é um dos caras que mais curto lá de fora, e esse disco é um clássico. É o primeiro disco dele. Tem muita coisa boa aí, desde os times de produtores até o conteúdo das letras, que nessa época falavam muito da vida dele no tráfico.

Um disco lançado nos últimos anos (nesta década) que te marcou profundamente

Brasileiro, “Se Me Chamar, Ô Sorte”, do Wilson das Neves. Estrangeiro, “Good Kid, Mad City”, do Kendrick Lamar. O disco do Wilson das Neves foi umas das melhores coisas que escutei ano passado, tanto liricamente, quanto nos arranjos. Um samba muito elegante e de muito bom gosto. Já o do Kendrick foi praticamente uma unanimidade quando saiu (em 2012). Ele trouxe uma riqueza poética que há tempos o Rap “mainstream” norte-americano não apresentava. Esse cara é muito bom, virei fã!

Um videoclipe que marcou sua formação

O Rappa, “O Que Sobrou do Céu”. A música é forte, e quando você junta a essas imagens, vira uma bomba. O roteiro desse clipe é muito bom, e a locação, os atores, todo mundo foi muito bem na minha opinião! Todas as vezes que assisto, ele causa um impacto. Sou fã dos caras também, sempre curti muito, posso dizer que são parte das minhas referências musicais.



Um videoclipe lançado nos últimos anos (nesta década) que te marcou profundamente

Inquérito, “Meu Super Herói”. Inquérito é um grupo de Rap de Campinas, e os caras são bons demais. O Renan é um ótimo letrista e esse clipe é lindo, cara. Fala sobre a falta que o pai dele faz, sobre as lembranças e tal… As imagens são de um bom gosto incrível, e o moleque que é o personagem principal, mandou muito bem. Foi gravado na Favela do Flamengo, na zona norte de São Paulo, perto da minha casa. A direção é do Levi Vatavuk. Foi o primeiro trampo que vi dele, e pirei!




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Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. llustração de Victor Zalma, especial para a série

terça-feira, 6 de maio de 2014

1º de maio também é dia de Festa da Lavadeira! Ou era...


por Aleksander Aguilar*

Desde 1888, num episódio de luta, e tragédia, nos Estados Unidos, o dia 1º de Maio passou a ganhar referência em todos os continentes - é uma data fundamental na história da resistência popular de abrangência realmente mundial. Deveria ser lembrado como um dia de reflexão sobre o papel do trabalhador na sociedade e pela construção da cidadania popular, mas no Brasil a data é muitas vezes apenas um dia de feriado, distribuição de prêmios e de grandes shows nos principais centros do país.

E embora isso se reflita também em Pernambuco, aqui o 1º de maio também é dia de algo mais: é o dia da Festa da Lavadeira. Patrimônio Cultural Imaterial do Estado, é um fundamental evento de cultura popular tradicional e de terreiro da região que, desta vez, se fez de forma atípica numa área central do Recife, na Avenida Nossa Senhora do Carmo. Desde que foi criado, em 1987, o encontro que reúne diversas manifestações da cultura popular pernambucana, tomava conta mesmo era da beira-mar, na praia do Paiva, num dia inteiro de festividades de cunho popular/religioso, com direito ao tradicional banho de lama durante esta poderosa reunião de expressões culturais, artísticas e religiosas de matriz afro-brasileira como Afoxés, Nações de Maracatu, Cirandas, Cocos, Caboclinho, Jurema e Caboclos de lança.

A praia do Paiva, no município do Cabo de Santo Agostinho – região metropolitana da Grande Recife e centro dos bilionários investimentos do Complexo Portuário-Industrial de Suape – foi sede durante 25 anos dessa importante expressão cultural, mas os “brincantes”, como se denominam aqueles que vivem e mantem vivas essas tradições, e as cerca de 30 mil pessoas que costumavam a prestigiar o evento, foram obrigados, por conta da força do capital, a deixar a natureza e ir para o asfalto.

Participei em 2011 da última edição da Festa da Lavadeira na praia do Paiva, que teve pelo menos um terço da sua tradicional força, mas foi o suficiente para se envolver, admirar e respeitar. A Lavadeira é um ancestral filho do Orixá Iemanjá. Em maio de 1987, a escultura de uma “lavadeira” foi colocada em frente a uma casa na praia do Paiva. A estátua despertou o interesse da comunidade nativa da praia que a nominaram de “mulher” e a visitavam, levando oferendas. É uma festa essencialmente de matizes negros e índios que agrega, congrega os povos. A Lavadeira é instrumento dos Orixás, Mestres, Mestras, Caboclos, Exús e Trunqueiros, uma forte demonstração das manifestações culturais brasileiras do Nordeste.

A Festa da Lavadeira, ao longo do tempo, ganhou contornos de resistência popular em defesa das matrizes destas expressões culturais contra a mercantilização da arte. Ela sempre acontece no do Dia do Trabalhador, e já chegou a reunir cerca de 100 mil pessoas. Já recebeu por duas vezes o Prêmio IPHAN de melhor projeto de divulgação da cultura popular no nordeste, em 1998 e em 2008. E em 2007 recebeu o “Prêmio Culturas Populares” do Ministério da Cultura.

Mas toda esta simbologia cultural foi relegada a segundo plano por conta dos interesses econômicos que se sobrepõem sem pudor à cultura popular. Grandes empreiteiras construíram imponentes condomínios fechados de luxo no Paiva e ajudaram a privatizar a praia, que já conta com pedágios para segregar o acesso público – instalado precisamente para promover divisões.

Em 2010, a festa só aconteceu por força de um termo de ajuste de conduta feito no Ministério Público. E na sequência a Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho, através de uma lei municipal descaradamente aprovada para atender os interesses da construtora, estabeleceu limitações à presença da população na área denominada Loteamento Reserva do Paiva, na praia onde ocorre a Festa. A Construtora Odebrecht, quando quis aprovar seu projeto milionário no Paiva, em seu site afirmava que iria respeitar as manifestações culturais da região e o desenvolvimento sustentável das comunidades vizinhas. Exatamente por isto a área onde acontece a Festa da Lavadeira foi garantida no projeto Reserva do Paiva como área de uso comum, área pública, para permitir a manutenção e desenvolvimento da manifestação popular.

Através, porém, de legislação a prefeitura local aprovou ato de segregação em relação ao público da Festa da Lavadeira constituído, em sua grande maioria, por mulheres e homens da classe trabalhadora. Esta atitude gerou um dano moral coletivo à cultura popular. Não teve como objetivo a preservação do meio ambiente, mas a preservação do poder econômico privado.

O evento deste 1 de maio que seria a 28° edição da Festa, no centro da capital, foi na verdade um cortejo-protesto, e fazia uma alusão à Festa, pois a edição de fato deste ano foi cancelada por falta de investimentos públicos. Intitulada de Vamos Passear a manifestação comemorativa ocorreu sob protestos, As críticas não foram apenas sobre a mudança de local, pois os brincantes exigem mais ajuda dos órgãos governamentais. O ato religioso tradicional virou um ato de protesto disperso e frágil, e a Festa da Lavadeira está sob o risco de acabar se o seu caráter de resistência não se apresentar ainda com mais força e garantir suas expressões.

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*Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Discoteca de músico: Tim Bernardes da banda O Terno

por Marcos Grinspum Ferraz  Ilustração de Victor Zalma*

Antes mesmo de conhecer o Tim, eu já tinha ouvido falar – por meio de alguns amigos – de um tal “moleque” que, com menos de 20 anos, era um baita músico talentoso, tocava muita guitarra e compunha belas músicas. De fato, Martim Bernardes, agora aos 22, tem todas essas qualidades, e isso ficou evidente para mim quando o vi pela primeira vez, em 2012, num show da banda O Terno – da qual ele é membro ao lado de Victor Chaves e Guilherme d’Almeida.

Tim Bernardes na foto de Sérgio Galvão
Foi justamente naquele ano que o power trio de rock’n’roll brasileiro lançou seu primeiro disco, “66”, e começou a fazer shows pelo País. Depois de gravar com Tom Zé em 2013, eles preparam para este ano o segundo álbum da banda, que deve ser lançado em agosto. Ainda bastante jovens, mas mais maduros, certamente vão colocar coisa boa no mundo...

Pois bem. É com Tim Bernardes como entrevistado que estreio aqui no Nota de Rodapé a série “Discoteca de Músico”, que a cada mês trará um artista respondendo às mesmas cinco questões, sobre discos e videoclipes que marcaram seus caminhos na música e na vida. Discos e vídeos antigos ou atuais, vale ressaltar, já que parto aqui da constatação de que música boa não para nunca de ser produzida.

A ideia da série é ter, no fim do processo, uma espécie de discoteca/videoteca virtual feita pelos músicos – de variadas idades e adeptos de diferentes estilos –, voltada para o público que quer conhecer mais os artistas ou mesmo que busca sugestões do que ver e ouvir. Sejam benvindos!

Um disco brasileiro que marcou sua formação musical

Difícil ser só um, hein... Por mais que que eu possa escolher qualquer um da discografia dos Mutantes, vou na verdade escolher o segundo disco do Cassiano. "Apresentamos Nosso Cassiano", de 1973. Desde que eu era muito pequeno esse disco morou no rádio do carro lá em casa e foi dos poucos que eu nunca cansei de ouvir. Pelo contrário, só fui achando ele mais foda a cada uma das milhões de vezes que eu ouvi. Os sons de bateria são insuperáveis, as orquestras, os hammonds, as guitarrinhas toscas (na verdade nada toscas), soa tudo muito bem. As músicas são incríveis, esquisitas, ele canta esganiçado e é lindo ao mesmo tempo... Demais!

Um disco gringo que marcou sua formação musical

O “Pet Sounds”, do Beach Boys, de 1966, é outro que eu conheci quando era criança e fui redescobrindo em várias fases da minha vida. Teve épocas que eu ficava de cara com os vocais, outras que eu pirava na sonoridade, os reverbs, os arranjos, a massaroca fina que é a instrumentação desse disco... Já pirei nas harmonias, em como são mega simples e mega sofisticadas ao mesmo tempo, cheio daquelas inversões lindas que vão se encadeando com uma puta classe. Isso sem falar nas composições. Pra mim, o Brian Wilson não tinha nem que ter grilado no “Sgt. Peppers” dos Beatles porque o “Pet Sounds” ganha de todo mundo.

Um disco lançado nos últimos anos (nesta década) que te marcou profundamente

Teve vários também, especificamente o “Helplessness Blues” dos Fleet Foxes pra mim é uma obra prima. Impressionante o capricho em cada aspecto do disco. Desde cada canção em si como nos jeitos que elas se agrupam no disco. Os arranjos e o som do disco são chocantes, muito fino, muito lindo. Vai além da canção folk, parece um filme foda.

Um videoclipe que marcou sua formação

“Your Life Is A Lie”, do MGMT. Esse clipe é muito doido, uma metralhadora de cenas incríveis meio nonsense, meio engraçado, com uma estética impecável à la Wes Anderson.



Um videoclipe lançado nos últimos anos (nesta década) que te marcou profundamente

Acho que os clipes que mais me marcaram são a maioria de 2010 pra cá. A produção independente de clipes chegou a uma qualidade incrível, então as ideias doidas estão virando clipes fodas sem precisar de gravadora, muita grana, ou um equipamento hollywoodiano. Um cara que eu sou fã dos clipes recentemente é o Tyler, The Creator. O clipe da música "IFHY" é sinistro.



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Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. llustração de Victor Zalma, especial para a série

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Revista Cesárea vem para "subverter o óbvio"


Nascida como “banda de garagem”, revista literária que acaba de surgir propõe resistência e renovação do jornalismo cultural

por Ricardo Viel*

No final de agosto recebi um e-mail de Schneider Carpeggiani (acima, à direita) que dizia assim: “Ricardo, eu estou num projeto de fazer uma revista de literatura pra tablet, a ideia é ver se lanço o primeiro volume dela em novembro como piloto, para ver o mercado. Queria ver se a gente podia conversar sobre esse projeto. Toparia?”. Eu respondi que, se tivesse dinheiro, pagaria para entrar. Três meses depois, a revista está em trabalho de parto. Na próxima quarta-feira, dia 27, a Cesárea – assim se chama – estará à venda nas lojas on-line (nesse primeiro número eu assino um perfil de Daniel Mordzinski, “o fotógrafo dos escritores”).

Schneider e eu não nos conhecemos pessoalmente, mas há mais de um ano trocamos e-mails com frequência. Ele é editor de uma publicação para a qual colaboro, o Suplemento Pernambuco. Do primeiro correio que lhe mandei, em que o chamava de “estimado senhor Schneider Carpeggiani”, até hoje muita água passou debaixo da ponte. Descobri que o editor com nome de personagem histórico tem mais ou menos a minha idade, corte de cabelo moderno – como esses que a juventude de hoje usa, diria minha avó –, que é dj nas horas vagas, e que é um cara simples e cheio de ideias. Nesses meses trocamos impressões sobre jornalismo, literatura e sobre a vida (sobre fracassos, amores e sonhos), e agora estamos ansiosos com a tal Cesárea.

Desde o começo do projeto fiquei curioso para saber como tinha surgido a ideia, quem mais participaria, como seria etc. Até que achei que valia fazer uma entrevista com o Schneider para que mais gente pudesse conhecer a história.

Nota de Rodapé  –  O que é a Cesárea? O leitor pode esperar o que dessa nova revista?
Schneider Carpegianni – Cesárea é uma revista de literatura, a princípio, para iPad, que será vendida trimestralmente na loja da Apple por US$1, 99. Eu não gosto de pensar que a revista vai seguir essa ou aquela linha editorial, apenas parto do princípio de que a base é literatura, ou seja: uma narrativa, real ou não, que subverte o óbvio. Acho que é isso o que me move como editor de texto e a edição de arte de Jaine Cintra (acima, à esquerda), minha sócia. Provavelmente, o segundo número da revista não terá nada a ver com o primeiro, porque pensamos que a edição precisa ser sempre uma espécie de mostra artística, um work in progress. Além da questão dessa raiz literária a revista é pensada a partir da perspectiva de trazer várias vozes e colocar essas vozes diversas de forma horizontal, sem hierarquia para o leitor: nessa edição, por exemplo, temos nomes consagrados como Silviano Santiago, José Castello e outros, ao lado de autores praticamente inéditos. Misturar essas vozes é meio que a nossa pretensão. Acho que é isso o que o leitor poderá esperar a cada três meses: novas visões de um work in progress e um coro heterogêneo falando para ele.

Cesárea é uma revista de literatura, a princípio, para iPad, que será vendida trimestralmente na loja da Apple por US$1, 99. Eu não gosto de pensar que a revista vai seguir essa ou aquela linha editorial, apenas parto do princípio de que a base é literatura, ou seja: uma narrativa, real ou não, que subverte o óbvio. 

NR –  Por que o nome Cesárea?
Cesárea Tinajero é uma personagem do livro “Detetives Selvagens” do Roberto Bolaño, um autor que sou especialista por conta do doutorado que fiz sobre ele. Cesárea desapareceu do mapa e acabou despertando a curiosidade desses detetives selvagens, que acreditam que ao encontrarem Cesárea, encontrarão a salvação na poesia. Bolaño é mestre em criar essas tramas em que somos atraídos por miragens, que seguimos coisas que não se mexem. Acho que em tempos de crise como vivemos, em que todo mundo procura uma solução, uma saída, a metáfora da Cesárea seria perfeita; além disso é um nome próprio, e o Brasil tem tradição de nomes próprios para batizar suas publicações; e esse título também tem razões bem pessoais para mim, na verdade um problema que decidi colocar uma luz neon em cima ao usar o nome Cesárea. Mas a criação é um pouco por aí, sempre.

NR – Como surgiu a ideia da revista? Por que faze-la para plataforma virtual?
A Cesárea surgiu por vários fatores: Jaine Cintra, minha sócia, havia chegado de um ano de curso para publicações para ipad num Portugal corroído pela crise, em que as pessoas estavam desesperadas e pessoas desesperadas do it better, criam soluções; eu estava frustrado após um projeto frustrado com uma revista impressa, que era legal, a ArtFliporto, mas que justamente por ser impressa acabava tropeçando nos problemas das outras, distribuição, falta de controle da editora, essas coisas. Aí juntamos o olhar dela do desespero criativo e a minha criatividade diante da frustração, isso fez surgir a Cesárea. O iPad é a plataforma meio que como o estúdio caseiro, que possibilitou tanta gente a fazer música sem grandes gravadoras. iPad, o tablet, a tecnologia de forma geral é o verdadeiro punk rock: traz independência, ajuda você a fazer as coisas por você mesmo.

A Cesárea é uma forma de resistência, eu não sei ainda se estou resistindo certo, mas estou resistindo. Acho que mais do que um momento de se trazer a verdade absoluta, esse é o momento das pessoas trazerem novas propostas.

NR –  A Bravo! e Sabático morreram. Outros jornais cortaram páginas dos cadernos de Cultura. Criar uma revista literária/cultural numa época dessa é uma forma de resistência?
Eu pelo menos sou de uma geração que é dita migrante, a geração que nasceu no analógico e que vai morrer no digital. Eu não gosto de segurar uma bandeira dizendo: isso é o futuro, tudo acabou e tal. Mas o jornal como é feito hoje em dia é um cadáver em praça pública. Não apenas por conta das notícias que já sabemos na véspera (quando havia só tv nós já sabíamos tudo na véspera), mas por conta de uma certa forma como ele é pensado que datou, esta anacrônico, sobretudo ideologicamente: o jornal ainda quer que a gente acredite que é ele é imparcial. Não existe isenção ou imparcialidade, por favor... A crise no jornalismo é extremamente bem-vinda. Mas estamos no meio dela e não sabemos direito o que fazer com ela, como sair dela, mas é preciso tentar alguma coisa. A Cesárea é uma forma de resistência, eu não sei ainda se estou resistindo certo, mas estou resistindo. Acho que mais do que um momento de se trazer a verdade absoluta, esse é o momento das pessoas trazerem novas propostas. Talvez o futuro seja mais de novas propostas do que de grandes verdades. Se for assim, vou achar ótimo.

NR – Quais as maiores dificuldades que encontrou em colocar em marcha o projeto? Como a revista pretende se financiar? Que significa isso de que funcionará como cooperativa?
Já não é novidade que talvez o futuro do jornalismo seja a cooperativa: um grupo se une e divide os lucros pela venda, como uma grande sociedade; e talvez o futuro seja esse especialização, publicações cada vez mais segmentadas. É arriscado fazer futurologia, mas sem palpite ninguém sai de casa. Todo mundo que participar da Cesárea receberá igualmente uma porcentagem pelas vendas. A diferença vai ser nessa primeira edição, que os primeiros mil downloads serão para pagar o startup do projeto. Como é uma cooperativa, estão todos envolvidos. Eu e minha sócia, Jaine Cintra, tivemos muita sorte porque reunimos alguns dos melhores profissionais do mercado para fazer a revista. Acho que a parte mais difícil vai ser agora, dar continuidade ao projeto, fazer com que ele não morra, ajudar esse projeto a inspirar outras iniciativas semelhantes.

Não é possível hoje em dia ser jornalista sem pensar em design;  ou ser design sem pensar na importância do conteúdo. Uma coisa está atrelada a outra. Acho que isso faz parte da mudança.

NR –  Quem é o Schneider? Quem mais comanda esse barco? 
Digamos que existem Os Cesáreos, algo como uma dupla sertaneja, eu e Jaine Cintra que é diretora de arte e design. Tudo é feito em conjunto, como se fosse um coral, a gente pensa muito parecido em termos visuais e de texto, então é fácil. Não é possível hoje em dia ser jornalista sem pensar em design;  ou ser design sem pensar na importância do conteúdo. Uma coisa está atrelada a outra. Acho que isso faz parte da mudança.

NR –  A Cesárea tem alguma publicação como modelo/inspiração?
Na verdade, é como colocar uma bandeira na lua com essa revista. Em geral as revistas para iPad que tenho observado elas são muito mais de imagem do que texto, o texto é algo meio que decorativo, na verdade as revistas no Brasil de forma geral caíram na falácia de que o leitor quer menos palavras, que quer facilitação, eu não acredito nisso. Com exceção acho que da Piauí as revistas brasileiras têm textos minúsculos, e como nem todo mundo sabe a força de ser sintético, o material acaba ficando superficial. A ideia é justamente fazer uma revista com muito texto, muita palavra, nosso material é literatura, então precisávamos ver como a palavra em si vai se adequar ao universo do tablet.

Tenho muita sorte porque Jaíne Cintra, minha sócia, é genial em transformar o óbvio e o simples em coisas surpreendentes e perturbadoras – na verdade isso é um pouco o que a própria literatura faz, não? 

NR –  O fato de ser virtual significa algumas limitações em relação a uma publicação impressa, mas ao mesmo tempo uma enormidade de vantagens, a começar pelo custo, não é? Tentarão explorar alternativas multimídias?
Eu gosto de dizer que a Cesárea é um projeto punk-rock por excelência. O punk dos anos 70 colocou um pouco isso: você não precisa ser um exímio cantor ou um grande músico para fazer música, você precisava simplesmente fazer. A tecnologia atual, que tanto está afundando as grandes corporações, é punk: qualquer um pode fazer sua revista, seu livro e tal. A revolução digital é muito mais aguda que aquela dos anos 1960, que a gente olha de forma tão romântica, sobretudo porque não vivemos aquele momento. Eu sentia a falta da literatura, do texto da literatura, de entrar nesse universo, é como se a literatura estivesse meio vivendo à margem dessa mudança, o que é uma bobagem, afinal o século 21 é o século da palavra, como o século 20 foi o da imagem. É a palavra que norteia tudo o que fazemos. A Cesárea ainda é, em termos de multimídia, simples. Precisamos de mais recursos. Mas é um work in progress. Nesse primeiro número, por exemplo, há um leitura arrepiante de Luis Henrique Pellanda de uma crônica dele; no segundo número, haverá mais recursos multimídia. Tenho muita sorte porque Jaíne Cintra é genial em transformar o óbvio e o simples em coisas surpreendentes e perturbadoras – na verdade isso é um pouco o que a própria literatura faz, não? Nós temos também uma página no Facebook para divulgar a revista e também notícias de literatura que tenham a ver com o tom da Cesárea e também uma página no mixcloud onde iremos disponibilizar mixtapes para os leitores. O bom de trabalhar nesse tipo de plataforma é justamente oferecer essas outras coisas, que não são necessariamente enfeites da literatura; o problema é que temos ainda uma visão muito restrita do que implica a palavra literatura.

NR –  Só quem tem iPad poderá ler a revista? Como se compra?
A princípio sim, porque até então é a plataforma das empresas que trabalham com revistas desse tipo no Brasil. Mas a partir do ano que vem a revista deve passar para outras plataformas. O leitor poderá comprar a Cesárea na loja da Apple por US$ 1, 99, o valor médio de um app.

 

Bob Dylan e a consciência negra

Hoje, dia 20 de novembro, se comemora o Dia da Consciência Negra no Brasil. Uma data importantíssima, comemorada em 1047 cidades brasileiras. A data tornou-se um marco de combate ao racismo e promoção de políticas públicas de inclusão negra e remete à morte, em 1965, do líder quilombola Zumbi dos Palmares, que lutou pela libertação dos negros escravizados.

Para lembrar a data nacional, Nota de Rodapé recorre ao fantástico Bob Dylan e a música Hurricane (O furação), que inspirou o filme de mesmo nome.

A história é a seguinte: nos EUA em 1966, Rubin "Hurricane" Carter era uma grande promessa do boxe mundial. Estava prestes a disputar o cinturão dos pesos pesados. No auge, Hurricane foi injustamente condenado a prisão perpétua após o assassinato de três pessoas num bar na cidade de Nova Jersey.

Naquela noite, voltando para sua casa de carro, o lutador foi erroneamente preso como um dos assassinos. A música de Bob Dylan conta essa história e é, sem dúvida, das mais incríveis formas de protesto. É universal.

Anos mais tarde, Carter publicou um memorial (The 16th round) em que conta esse episódio de sua vida. O livro inspirou um adolescente do Brooklyn e três ativistas canadenses a juntarem forças com apoio do próprio Carter em busca da inocência do lutador. Carter, oras, era negro. Negro no racista EUA daquele período.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Martinho de Angola

por André Carvalho   ilustração Kelvin Koubik "Kino"*

“Eu sou brasileiro e estou realizando meu grande sonho, que é pisar este solo africano. Me emociona muito estar aqui em Angola, talvez a terra dos meus bisavós. Lá no Brasil, se comemora o sesquicentenário da nossa independência. Espero quando aqui voltar encontrar um país livre”.

Ao proferir estas palavras no imenso teatro N’Gola Cine, lotado de angolanos, em 7 de setembro de 1972, Martinho da Vila plantava em Luanda a semente da liberdade, do sonho de uma pátria livre, de um país que deixaria de ser Colônia, que rejeitaria de uma vez por todas a Metrópole portuguesa.

Passados 150 anos da “independência” do Brasil, os negros brasileiros ainda sofriam com a falta de oportunidades, o preconceito social e a intensa marginalização no campo de trabalho, fruto da inexistência de políticas sociais voltadas a eles. Os negros angolanos, por outro lado, ainda buscavam, além da emancipação cultural, social e racial, a liberdade política, na própria terra natal.

A presença de Martinho em solo africano marcaria, no entanto, o início de uma forte relação cultural, social e artística entre os dois países e entre os dois continentes – relação que até então, e por séculos a fio, foi feita no campo da escravidão, com pessoas sendo arrancadas de seu pedaço de chão, desterradas e coisificadas em um novo continente, afligidas pelo “banzo”, a imensa saudade da Mãe África.

Em Angola estava, ainda, as raízes musicais do samba, ritmo que fez de Martinho José Ferreira o Martinho da Vila. O “semba”, expressão folclórica autêntica do país africano chegaria ao Brasil com os escravos em forma de batuque e se moldaria, com o tempo, como um gênero musical popular urbano. A ida de Martinho ao país representaria ao sambista, então, mais do que uma busca às suas origens raciais – faria com que o compositor reconhecesse, em outro continente, muitos elementos comuns e outros tantos inspiradores, motivadores, que dariam origem ao ritmo nacional brasileiro, o samba.

O sambista viajaria ao país africano com um pandeiro à mão. Seria de importância fundamental para explicar aos músicos que o acompanhariam na excursão pelo território angolano como se toca o ritmo brasileiro. “Os Cunhas” era o nome do grupo africano, formado por um pianista, um baterista, dois violeiros e dois percussionistas. Os músicos conseguiram pegar o ritmo do samba, ainda que nas apresentações os partido altos de Martinho ficassem um tanto quanto “merengados”.

O brasileiro, após cantar para os negros angolanos, faria uma apresentação para a elite portuguesa, no Cinema Avis (hoje Cinema Karl Marx). Vendo a multidão de angolanos na porta do local, ansiosa para vê-lo cantar, pediu que deixassem que eles entrassem para assistir ao show. Com a resposta afirmativa por parte dos organizadores, uma plateia com colonizadores e colonizados se formou, algo raro à época no país.

A viagem de Martinho ao continente africano se estenderia por vários dias, com o artista popular brasileiro conhecendo as mais distantes localidades do país, celebrando com o povo de lá a cultura comum dos negros brasileiros e angolanos, inclusive em noitadas regadas à caparroto – a cachaça dos angolanos –, em musseques (favelas locais) localizados no subúrbio de Luanda. Esta experiência o marcaria de forma indelével, fazendo com que a negritude, a africanidade e a lusofonia ganhassem um papel preponderante na obra de Martinho da Vila.

Origens

Nascido em Duas Barras, interior do Rio de Janeiro, filho de lavradores da Fazenda do Cedro Grande, ainda criança se mudaria para Serra dos Pretos Forros, na capital fluminense. Sua criação se deu, portanto, em um ambiente rural, à princípio, e depois em uma favela carioca. Sendo assim, sua conscientização a respeito da importância da preservação das raízes e da valorização da cultura negra vem de berço. Angola, de uma maneira ou outra, está presente em sua vida desde o seu nascimento, é uma herança familiar.

Com a viagem ao país, então uma colônia portuguesa, Martinho da Vila passa a trazer as referências, a sonoridade, o folclore e os ritmos angolanos para sua música. Em 1973, no disco “Origens”, grava uma faixa batizada de “Som Africano”, com uma sequência de canções folclóricas angolanas cantadas em dialetos falados no país. Dez anos depois, em “Novas Palavras”, registra um “semba” que fazia sucesso no carnaval angolano, “Foi Ela”, de Adelino Tavares e Ana Maria Mascarenhas. Com compositores locais Rui Mingas e Manoel Rui, o brasileiro compõe e grava “À volta da fogueira”. Por fim, com seu parceiro Rildo Hora, faz um “semba”, “Negros Odores”, onde celebra a independência dos povos africanos, recém-conquistada.

Com o passar dos anos, o tema da lusofonia fica cada vez mais presente em sua obra, culminando com um CD inteiramente dedicado a música dos países onde se fala o português: “Lusofonia”, lançado em 2000. Seis anos depois, editaria o romance “Os lusófonos”, na esteira de suas pesquisas sobre o assunto.

Em 1975, três anos depois da viagem de Martinho a Angola, o país tornaria-se independente, mergulhando, todavia, em uma sangrenta guerra civil que perduraria até 2002. Na segunda metade da década de 1970, quando o recém-criado Estado independente ainda não possuía diplomatas no Brasil, foi o sambista quem estreitou os laços entre os dois países, sendo consultado a respeito de todos os intercâmbios realizados entre os dois países, especialmente na área cultural. Martinho era, de fato, o Embaixador Cultural de Angola no Brasil.

“Projeto Kalunga”

Por conta de sua intensa relação com o país africano, em 1980, quando Fernando Faro e Chico Buarque idealizam o “Projeto Kalunga”, que levaria uma caravana de músicos brasileiros para atuar no país, Martinho da Vila foi um dos primeiros nomes a receber o convite – assim, ele cumpriria a promessa de retornar ao país independente. Participaram, ainda, da excursão: Clara Nunes, Elba Ramalho, Dona Ivone Lara, Djavan, Miúcha, Cristina Buarque, João do Vale, Francis e Olívia Hime, Geraldo Azevedo, Quinteto Violado, Wanda Sá, MPB-4, Conjunto Nosso Samba, Edu Lobo e João Nogueira.

Apesar da extrema importância do projeto, um marco na relação cultural entre Brasil e Angola, entre América do Sul e África, a mídia brasileira ignorou completamente a excursão dos artistas brasileiros ao país africano. Angola, recém-independente e em guerra civil, era um Estado comunista e a ditadura militar vigente no Brasil, zelando pelas determinações imperialistas estadunidenses em tempos de Guerra Fria, não recomendava à imprensa que se noticiassem notas positivas a respeitos de países alinhados com a União Soviética.

“Canto Livre de Angola”

Três anos depois da realização do Projeto Kalunga, Martinho resolveu produzir um projeto inverso ao “Kalunga”. Desta vez, foram os músicos angolanos que vieram para o Brasil. Batizado de “Canto Livre de Angola”, o programa trouxe, para apresentações no Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador, marimbas, tishumbas e dizanlkas angolanos, que ressoaram junto a nomes como Mestre Geraldo, Mana Sofia, Velho Bastos, Carlos Burity, Pedrito, Dina Santos, Joi Artur, André Mingas, Felipe Mukenga, Robertinho, Carlitos Vieira Dias, Candinho, Rodolfo Kituxi, Paulo Kaita e Elias Dias Kimuezo. A apresentação na Sala Cecília Meirelles, no Rio, foi gravada para um disco homônimo. A parte alta da apresentação, que arrancou lágrimas dos olhos dos presentes, se deu quando os angolanos se puseram a cantar: “Chê Menino / Posso morrer / Já vi Angola independente”.

“Kizomba”

Martinho destinaria, durante a década de 1980, grande parte de sua energia para o intercâmbio cultural entre Brasil e Angola. Motivado pelo sucesso do “Canto Livre de Angola”, o sambista criou um grupo de estudos para realizar os Encontros Internacionais de Artes Negras. Chamado de “Kizomba”, que no dialeto quimbundo significa “encontro de identidades”, “congregação”, “festa de confraternização”, o projeto contou com a participação de nomes como Benedita da Silva, Antônio Pitanga, Milton Gonçalves, Jorge Coutinho, entre muitos outros colaboradores.

De 1984 até 1990, foram realizados diversos eventos, com artistas angolanos e de outras localidades: vieram para o Brasil músicos de 30 países, entre os quais estavam Moçambique, Nigéria, Congo, Guiana Francesa, Estados Unidos e África do Sul.

1988: Centenário da Abolição da Escravatura

O protagonismo de Martinho da Vila frente às comemorações do Centenário da Abolição da Escravatura no Brasil teve início ainda em 1987, quando foi convidado pela direção da Rede Globo para compor o tema da vinheta de ano novo da emissora. Naquele ano, em vez da tradicional música “Um novo tempo”, de Marcos Valle, Paulo Sérgio Valle e Nelson Motta, outra canção, que fizesse referência ao Centenário da Abolição – celebrado no ano de 1988 que adentrava – teria espaço. E ninguém mais propício para realizar a tarefa que Martinho.

O compositor criou um tema comovente, que a princípio causou estranheza nos diretores globais, mas logo seria aceito: tratava-se de um ijexá, “Axé para todo mundo”, onde o sambista canta, de forma quase a entoar um mantra, os versos “Muito axé pra todo mundo, axé/ Eu, negro brasileiro / Desejo para esse Brasil / De todas as raças / De todos os credos / Axé”.

O ano começava de forma promissora. No Carnaval, em fevereiro, realizaria o maior sonho de sua vida, vendo sua Escola de Samba de coração, a Unidos de Vila Isabel, vencer a disputa, com um samba-enredo épico, criado a partir de um enredo concebido por ele: “Kizomba, Festa da Raça”, composto por Luiz Carlos da Vila, Rodolpho e Jonas. Em pleno Centenário da Abolição, a Vila faria história com um desfile magistral, exaltando a negritude. Martinho da Vila estava realizado – tal como os angolanos livres da colonização de Portugal, já podia morrer feliz.

Estas experiências vividas em 1988, bem como detalhes das viagens de Martinho a Angola estão pormenorizadas no livro "Kizombas, andanças e festanças”, lançado em 1992, de autoria do próprio sambista.

Concerto negro - Celebração da cidadania

Foi no ano de 1988, emblemático para vida e obra do compositor, que nasceu o convívio com o maestro Leonardo Bruno. À época, atuaram em um projeto de integração entre a música popular e a música clássica.

Sete anos depois, criaram o “Concerto negro - Celebração da cidadania”, um espetáculo em que foi exposta a participação do negro na música erudita, e contou com a participação da Orquestra Sinfônica do Rio, da pianista Sarah Higino, da soprano Elizeth Gomes, do violoncelista João Cândido, do barítono Pedro Alcântara, além do Coral da Família Alcântara, grupo que preserva a tradição do canto lírico desde o século XVIII, quando vieram trabalhar na mineração em Minas Gerais.

O espetáculo teve direção geral de Antonio Pitanga e Ricardo Cravo Albin e direção de produção de Antônio Pompêo. Depois de compor músicas, promover espetáculos, realizar encontros, escrever um livro e organizar ideias em palestras e seminários, uma peça de teatro era o que faltava para o sambista exaltar a negritude.

Martinho da Vila, do Carnaval, do Brasil, da África, de Angola

Martinho da Vila nasceu em pleno sábado de carnaval e a fascinação pelo tríduo momesco o acompanha desde então. Martinho é compositor de primeira, partideiro de mão cheia, sambista de patente, um bamba.

Martinho é militante da causa negra. Lusófono. Um batalhador pela valorização da cultura popular brasileira. Embaixador cultural da cultura africana no Brasil.

Martinho é carnaval, é samba, é negro, é lusofonia, é cultura popular. Martinho é África. Martinho é Angola. Uma terra de onde vieram seus ancestrais, de onde vieram os elementos que dariam origem ao samba.

Músicas angolanas cantadas por Martinho
(e outras compostas por ele em homenagem ao país):



1 - Som africano (folclore angolano) - 1973
2 - Negros odores (Rildo Hora / Martinho da Vila) - 1983
3 - Foi ela (Adelino Tavares / Ana Maria Mascarenhas) - 1983
4 - À volta da fogueira (Rui Mingas / Manoel Rui / Martinho da Vila) - 1983
5 - Axé pra todo mundo (Martinho da Vila) - 1988
6 - Kizomba, festa da raça (Rodolfo / Jonas / Luis Carlos da Vila) - 1988
7 - Hino da madrugada (Dom Kikas) - 2000


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*André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba. Ilustração de Kelvin Koubik, "Kino", colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre
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