.

.
30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
Mostrando postagens com marcador festa da lavadeira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador festa da lavadeira. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 6 de maio de 2014

1º de maio também é dia de Festa da Lavadeira! Ou era...


por Aleksander Aguilar*

Desde 1888, num episódio de luta, e tragédia, nos Estados Unidos, o dia 1º de Maio passou a ganhar referência em todos os continentes - é uma data fundamental na história da resistência popular de abrangência realmente mundial. Deveria ser lembrado como um dia de reflexão sobre o papel do trabalhador na sociedade e pela construção da cidadania popular, mas no Brasil a data é muitas vezes apenas um dia de feriado, distribuição de prêmios e de grandes shows nos principais centros do país.

E embora isso se reflita também em Pernambuco, aqui o 1º de maio também é dia de algo mais: é o dia da Festa da Lavadeira. Patrimônio Cultural Imaterial do Estado, é um fundamental evento de cultura popular tradicional e de terreiro da região que, desta vez, se fez de forma atípica numa área central do Recife, na Avenida Nossa Senhora do Carmo. Desde que foi criado, em 1987, o encontro que reúne diversas manifestações da cultura popular pernambucana, tomava conta mesmo era da beira-mar, na praia do Paiva, num dia inteiro de festividades de cunho popular/religioso, com direito ao tradicional banho de lama durante esta poderosa reunião de expressões culturais, artísticas e religiosas de matriz afro-brasileira como Afoxés, Nações de Maracatu, Cirandas, Cocos, Caboclinho, Jurema e Caboclos de lança.

A praia do Paiva, no município do Cabo de Santo Agostinho – região metropolitana da Grande Recife e centro dos bilionários investimentos do Complexo Portuário-Industrial de Suape – foi sede durante 25 anos dessa importante expressão cultural, mas os “brincantes”, como se denominam aqueles que vivem e mantem vivas essas tradições, e as cerca de 30 mil pessoas que costumavam a prestigiar o evento, foram obrigados, por conta da força do capital, a deixar a natureza e ir para o asfalto.

Participei em 2011 da última edição da Festa da Lavadeira na praia do Paiva, que teve pelo menos um terço da sua tradicional força, mas foi o suficiente para se envolver, admirar e respeitar. A Lavadeira é um ancestral filho do Orixá Iemanjá. Em maio de 1987, a escultura de uma “lavadeira” foi colocada em frente a uma casa na praia do Paiva. A estátua despertou o interesse da comunidade nativa da praia que a nominaram de “mulher” e a visitavam, levando oferendas. É uma festa essencialmente de matizes negros e índios que agrega, congrega os povos. A Lavadeira é instrumento dos Orixás, Mestres, Mestras, Caboclos, Exús e Trunqueiros, uma forte demonstração das manifestações culturais brasileiras do Nordeste.

A Festa da Lavadeira, ao longo do tempo, ganhou contornos de resistência popular em defesa das matrizes destas expressões culturais contra a mercantilização da arte. Ela sempre acontece no do Dia do Trabalhador, e já chegou a reunir cerca de 100 mil pessoas. Já recebeu por duas vezes o Prêmio IPHAN de melhor projeto de divulgação da cultura popular no nordeste, em 1998 e em 2008. E em 2007 recebeu o “Prêmio Culturas Populares” do Ministério da Cultura.

Mas toda esta simbologia cultural foi relegada a segundo plano por conta dos interesses econômicos que se sobrepõem sem pudor à cultura popular. Grandes empreiteiras construíram imponentes condomínios fechados de luxo no Paiva e ajudaram a privatizar a praia, que já conta com pedágios para segregar o acesso público – instalado precisamente para promover divisões.

Em 2010, a festa só aconteceu por força de um termo de ajuste de conduta feito no Ministério Público. E na sequência a Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho, através de uma lei municipal descaradamente aprovada para atender os interesses da construtora, estabeleceu limitações à presença da população na área denominada Loteamento Reserva do Paiva, na praia onde ocorre a Festa. A Construtora Odebrecht, quando quis aprovar seu projeto milionário no Paiva, em seu site afirmava que iria respeitar as manifestações culturais da região e o desenvolvimento sustentável das comunidades vizinhas. Exatamente por isto a área onde acontece a Festa da Lavadeira foi garantida no projeto Reserva do Paiva como área de uso comum, área pública, para permitir a manutenção e desenvolvimento da manifestação popular.

Através, porém, de legislação a prefeitura local aprovou ato de segregação em relação ao público da Festa da Lavadeira constituído, em sua grande maioria, por mulheres e homens da classe trabalhadora. Esta atitude gerou um dano moral coletivo à cultura popular. Não teve como objetivo a preservação do meio ambiente, mas a preservação do poder econômico privado.

O evento deste 1 de maio que seria a 28° edição da Festa, no centro da capital, foi na verdade um cortejo-protesto, e fazia uma alusão à Festa, pois a edição de fato deste ano foi cancelada por falta de investimentos públicos. Intitulada de Vamos Passear a manifestação comemorativa ocorreu sob protestos, As críticas não foram apenas sobre a mudança de local, pois os brincantes exigem mais ajuda dos órgãos governamentais. O ato religioso tradicional virou um ato de protesto disperso e frágil, e a Festa da Lavadeira está sob o risco de acabar se o seu caráter de resistência não se apresentar ainda com mais força e garantir suas expressões.

* * * * * * *

*Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé
Web Analytics