Por Aleksander Aguilar*
Después de ver como se mueven las guerras y las guerrillas
tu crees que le voy a tener miedo a tu pandilla?
(Adentro – Calle 13)
Tomei um ônibus em El Salvador para uma longa viagem até a Costa Rica, atravessando quase todo o istmo centro-americano, na madrugada deste último 28 de julho. Durante todo o trajeto de 20 horas, interrompido pelas descidas obrigatórias fronteiriças, pensava nas impressões das duas últimas semanas que passei no “pulgarcito de América”, logo de sete anos sem visitar a terra paterna, e na necessidade de escrever sobre a sensação de paranoia que testemunhei entre os conterrâneos.
Pequenos, e significativos, exemplos do cotidiano: andar armado no país resulta quase óbvio, e em qualquer estabelecimento comercial, qualquer mesmo, desde uma farmácia até uma sorveteria, haverá dois seguranças com o armamento bem visível no intento de intimidar. Durante um café, numa reunião acadêmica, no jantar familiar com pupusas, os tópicos de conversa, naturais e quase banalizados, são constantes: o perigo, o medo, a morte. Jornalistas, poetas, professores do país escrevem sobre assassinados e decapitados. O sangue está nas artes, nas mentes e no ar salvadorenho.
E nesse estado em que se encontra o país de Roque Dalton, a mobilidade é uma questão-chave. Se você não tiver carro, você está sob um risco ainda maior do que se o tivesse. Todos temem parar num semáforo em qualquer hora do dia e mover-se a pé, mesmo em curtas distâncias, também vai seguido por constante sensação de insegurança, ao ponto de as pessoas terem receio de parar para dar informação para quem simplesmente pergunta por uma localização. A desconfiança é generalizada.
Temem-se, porém, ainda mais ônibus. Precária, para não dizer patética latas-velha, a frota de ônibus do país, controlada por consórcios de empresários infiltrados e sequestrados pelo crime organizado, são alvos diários de assaltos aos passageiros e de extorsões aos motoristas. A verdade é que El Salvador funciona sob um toque de recolher tácito. Na própria região metropolitana, a maioria das linhas desses cacos ambulantes que chamam de transporte público tem suas últimas viagens às 19h! Ainda se encontram algumas rotas até pouco passado das 20h, e muito raramente às 21h, horário em que apenas os mais bravos, e/ou sem outra alternativa, atrevem-se a subir.
Pais mais zelosos literalmente proíbem os filhos de fazerem suas atividades do dia-a-dia em ônibus, preferindo sempre pagar caro por um táxi. Saídas de lazer e entretenimento, tão corriqueiras como ir ao cinema, são absolutamente estritas a um detalhado planejamento sujeito a boas companhias e esquemas de mobilidade, que significa dispor de um taxista de confiança com horário da corrida previamente arranjado, porque nem o taxista vai a qualquer lugar nem a qualquer hora por uma corrida, nem o passageiro aborda qualquer táxi que cruza pelas ruas. Ninguém confia em ninguém, salvo pelos fortes laços familiares e de amizade, duramente cultivados e celebrados. A sociedade salvadorenha vive encarcerada em si mesma.
Enquanto reflito sobre tudo isso – que é uma conjuntura piorada mas semelhante à que vivi morando em El Salvador, em 2008 – mais um choque de uma realidade em curto-circuito: no mesmo do dia em que viajei, o país amanheceu com a notícia, que é sintoma não de um processo mental paranoico e sim de uma realidade quase surreal, da proibição da circulação do transporte público por ordem dos líderes das forças do crime organizado (as chamadas “maras”, forma coloquial para o espanhol pandillas) Barrio 18, Mara Salvatrucha, e a mais recente, 18 Revolucionários – um racha da primeira e que já se consolidou com a terceira força criminosa do país.
A paranoia fundamentada
Não foi a primeira vez que as pandillas desestabilizaram El Salvador. Em setembro de 2010 ameaçaram com chamadas telefônicas, agressões nas paradas de ônibus e folhetos aterrorizantes entregues de mão em mão. Dessa vez, os mareros não apenas ameaçaram, mas executaram logo de saída nove motoristas, e os empresários e os funcionários suspenderam completamente o serviço. O país parou. Até 31 de julho, o boicote e/ou a sabotagem resultaram em nove motoristas assassinados, centenas de unidades de transporte paralisadas e várias incendiadas, serviços hospitalares comprometidos e aulas canceladas, milhares de salvadorenhos amontoados em precários veículos clandestinos e viajando sob custódia policial e militar. Imediatamente à ação das maras, o governo salvadorenho colocou 600 efetivos militares nas unidades de transporte do país para somar-se aos já 7.500 soldados que estão diariamente nas ruas em atividades de segurança pública, como parte da verdadeira atitude de guerra que existe hoje no país entre o governo e as pandillas.
Logo de cinco dias de estado de emergência no país, 90% das rotas de ônibus havia voltado às atividades, mas o ministro de Segurança, Benito Lara, manteve o estado de emergência e a militarização do cotidiano. O emprego das Forças Armadas na segurança pública já é uma praxe na América Central, e excede em muito, e cada vez mais, sua implementação como uma política pública dita necessária. Esta “semana del paro” em El Salvador que o diga. Os números, porém, são de guerra não apenas no território cuzcatleco: em Honduras, 2.000 soldados das tropas do exército estão nas ruas; na Guatemala, são 4.500 soldados e, em El Salvador, além dos mais de 7 mil soldados no cotidiano, e outros 600 convocados pela emergência do transporte, foram suspensas as licenças da Polícia Nacional e o efetivo total chamado chega a 23 mil agentes.
A realidade institucional de El Salvador hoje é de extrema polarização entre as mesmas forças políticas que há 30 anos também se enfrentavam, mas sob hostilidade bélica: a ARENA, Alianza Republicana Nacionalista, reduto da uma direita conservadora e reacionária, e a FMLN, a ex-guerrilha Frente Farabundo Marti de Liberación Nacional, convertida em partido político como parte dos Acordos de Paz alcançados para barrar a sangrenta guerra civil que durou de 1980 a 1992. Além da “paz”, a diferença é que logo de 20 anos ininterruptos de ARENA no governo, hoje é a FMLN quem dirige o país. Isso leva a muita especulação sobre a possibilidade de que as pandillas tenham sido partidariamente instrumentalizadas para causar desgaste político.
O poder pandillero
Atuando praticamente como uma terceira grande força política no país, as pandillas já obtiveram capacidade de articulação conjunta, apesar da mortal rivalidade entre elas, como na “trégua”, até hoje não reconhecida pelo governo salvadorenho, pactuada com o Poder Executivo entre 2012 e 2015, e que resultou num período de inegável diminuição dos homicídios na pequena nação assolada pela cultura da violência. Portanto, o ocorrido nessa semana em El Salvador, histórica desde várias formas de análise, é uma potente demonstração de força dessas gangues, e uma forma de buscar ser ouvidos, num contexto sem precedente de repressão contra elas.
Os governos da ARENA implementaram, e foram muito criticados por isso, os planos Mano Dura e Super Mano Dura, para combater as pandillas. Não conseguiram barrar sua expansão e serviram para sua evolução. A estratégia atual do governo é de impor ainda maior peso repressivo. Parece que as gangues quiseram demonstrar que, mesmo com todo o atual investimento em operações militares policiais, sua capacidade para desestabilizar a sociedade se mantém, e assim o fizeram.
O prestigioso periódico digital salvadorenho El Faro cita os dados oficiais sobre o atual tamanho do fenômeno em El Salvador: 60 mil membros, que junto com seu entorno social (colaboradores, simpatizantes, família), chegam a meio milhão de salvadorenhos, ou 8% da população do país. O caminho único da repressão dá mostras de ser inviável, pois as pandillas têm suas origens no agoniante processo social desigualdade-migrações-deportações-violência que configura a própria sociedade salvadorenha. Em muitas comunidades e bairros do país, a figura do pandillero é uma referência de sucesso que faz com que cada vez mais jovens, com famílias desagregadas pela migração, em condição de pobreza, sem perspectivas e profunda precariedade estrutural diante da ausência do Estado, queiram incorporar-se.
A atualidade da tragédia salvadorenha é particular pelo absurdo que a situação dessa semana representou, mas análoga pelo menos nesses países do chamado Triângulo Norte da região centro-americana: El Salvador, Guatemala e Honduras. Enquanto assistimos ao recrudescimento das grandes tensões geopolíticas de âmbito global, representado, entre outros, pelas guerras na Ucrânia, pelas reações do radicalismo islâmico no Ocidente e pela desintegração da experiência europeia a partir da humilhação grega, há no nosso próprio continente uma longa e arrastada crise que se visualiza num dramático mosaico de conflitos sociopolíticos – entre as causas mais recentes, destaca-se a violenta espoliação promovida pelo capitalismo neoliberal na região – que atentam contra a própria dignidade humana e flertam com o caos no “invisível” espaço centro-americano. Nem quando toma proporções de grotesco, como nesse momento, o tema é abordado pela mídia corporativa tradicional em nível internacional, e no Brasil em particular, ainda tão alheio à América Latina em geral.
A Organização das Nações Unidas considera o Triângulo Norte como a região mais violenta do mundo há vários anos. Mas a violência na América Central não é apenas um problema social, senão um desastre político que consome todos os dias e ininterruptamente a carne, o espírito e a sobriedade mental dos centro-americanos, talvez com densa particularidade em El Salvador, epicentro da organização das pandillas que ocuparam quase todo o istmo e com representações organizativas e laços de origem na Europa e na América do Norte. Como assinala o jornalista basco Unai Aranzadi, citado por Andres Ramirez no site brasileiro especializado em América Central, O Istmo, “analisando a realidade a partir do território, e de uma perspectiva histórica, quiçá seria mais justo qualificar esta sociedade de violentada. Desde o genocídio do mal-chamado 'descobrimento', até o estabelecimento do neoliberalismo, a América Central tem sofrido terrivelmente, e não é coincidência que fenômenos ultraviolentos aparentemente únicos e desprovidos de ideologias, como, por exemplo, as maras tenham surgido nesse espaço e nesse tempo”.
Há paranoia, particularmente, em El Salvador, mas quem poderá dizer que sem fundamento? Não é raro, e se fez ainda mais comum durante esses dias, ouvir que o país voltou ao estado de guerra de 30 anos atrás, com dinâmicas sociais típicas daquele período. Mas as novas gerações não conhecem apenas dois grupos em conflito, senão um medo generalizado e permanente atravessado em várias esferas do cotidiano. E retroalimentado constantemente pelos meios de comunicação. As capas dos principais jornais do país diária e sistematicamente apresentam manchetes e fotos sobre crimes e conflitos realizados pelas gangues.
No passado recente, a luta armada foi entendida por certos setores da sociedade como a única forma de serem ouvidos diante do fechamento de espaços políticos. Hoje as pandillas são protagonistas de uma guerra social e através da força cada vez mais se fazem atores políticos que exigem que os governos as escutem. Como consequência, a epígrafe utilizada na abertura desse texto, uma frase de uma canção da dupla porto-riquenha Calle 13, ao tempo que é um estímulo a resistência, tem cada vez menos ressonância na realidade salvadorenha. O povo salvadorenho conhece como poucos todos os comportamentos, as dores, e os arrasos de uma longa hostilidade bélica entre grupos confrontados, mas hoje está cada vez mais sufocado, temeroso e refém da sua realidade gerada pelo próprio pós-guerra.
Aleksander Aguilar é jornalista, linguista e doutorando em Ciência Política. Coordena a plataforma-rede O ISTMO (www.oistmo.com)
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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 13 de agosto de 2015
sábado, 25 de outubro de 2014
Desse vermelho
por Aleksander Aguilar*
Primeira coisa: “Voto na Dilma é veto contra o Aécio”, parafraseando o deputado federal Marcelo Freixo (Psol). Um mote que deve ser levado muito a sério na atual conjuntura, mas sem descuidar da reflexão cuidadosa que se exige sobre esta eleição 2014 no Brasil – a mais disputada e interessante dos últimos anos, de forma a amenizar os perigos do maniqueísmo construído na narrativa desse pleito e a falta de juízo crítico diante das estripulias, digamos assim, do Partido dos Trabalhadores (PT).
“Tá serto”, PT. Votaremos em vocês outra vez, mas entenda este voto-veto como um marco, definitivo, porque também é preciso humildade para o reconhecimento e autocrítica para a ação. A esquerda do país, mesmo a de discernimento e principalmente a deslumbrada, fisiológica ou acrítica, considera que o senador Aécio Neves (PSDB) na condução do Estado hoje representaria um dos maiores retrocessos da história da república brasileira, e por isso, pese a existência e o fundamento da campanha pelo voto nulo, há uma aliança tácita entre alguns, e barulhenta entre muitos, para apoiar mais um mandato petista, em que se cria uma atmosfera de terror maniqueísta, supostamente justificada, novamente, pela urgência eleitoral, que tergiversa nossa conjuntura. No entanto, a realidade deve ser, inadiavelmente, pontuada de forma assertiva e clara.
Felizmente entre os críticos esse apoio não se dá sem polêmicas ou desconfianças, algo que se entende observando três grandes traços do pleito e da dinâmica política do país que se arrasta há anos sobre os quais podemos apontar:
1- O crescimento da direita e da bancada ruralista no congresso nacional no primeiro turno – a chamada Frente Parlamentar da Agroindústria, como aponta o professor Nildo Ourique, da UFSC, tem hoje 257 deputados e senadores, metade do parlamento, e está comprometida com as estruturas atrasadas da propriedade da terra e do latifúndio. Um quadro conservador que fez relevo e expressa os extraordinários benefícios que esse setor obteve nos governos petistas, notoriamente amarrado a suas contradições. Ao ponto de uma das principais lideranças desse grupo, a senadora Katia Abreu (PMDB), figura notória da direita do país, ter declarado apoio a Dilma, além, claro, do apoio de outros personagens esdrúxulos da política brasileira, como Fernando Collor, ex-presidente por impeachment, que nunca deveria ter saído do ostracismo, mas que o PT acolhe sob a empáfia retórica do aclamado pragmatismo político.
2- O discurso entre o bem e o mal – o maniqueísmo com que foi construída a narrativa do processo eleitoral, supostamente representado, respectivamente, pelo PT e pelo PSDB, que ignora, convenientemente, as bizarras contradições políticas, principalmente petistas, e a difusão ideológica que caracteriza os partidos políticos brasileiros atualmente, encarcerados, com gosto ou não, pela pressão da governabilidade. Essa é uma reflexão fundamental para evitar o voto acrítico em Dilma, impulsionado pela retórica dos militantes, ou dependentes, do partido que propositalmente deixam de lembrar que o atual modelo não consegue fugir da equação que associa qualidade de vida e crescimento econômico segundo a lógica do capital.
3- Os atuais desafios do PT e da esquerda – ganhando ou perdendo estas eleições, o PT terá que se reavaliar. Durante vários anos os governos do PT tiveram índices elevados de popularidade, e houve acomodação do partido. Depois das “jornadas de junho de 2013”, o quadro se alterou, deixando várias perguntas em aberto e tensão no debate eleitoral. Se ganhar, o partido será pressionado a não mais se contentar com sua ortodoxia econômica com alguma preocupação social, e deverá avaliar seus compromissos com a classe trabalhadora, deverá se esforçar mais para sair do modelo de capitalismo de mercado. Se perder, haverá uma interessante e pesada avaliação do seu papel, e erros, na experiência democrática brasileira com importante repercussões na reorganização das forças políticas de esquerda do país.
OS PROJETOS EM DISPUTA – Mesmo considerando essas generalizações, pode-se ainda afirmar que há, guardadas suas grandes e inegáveis semelhanças, dois projetos brasileiros em disputa: um social-desenvolvementista, baseado em alguma preocupação com inclusão social e distribuição de renda; e outro neoliberal, baseado em ajuste fiscal, redução do papel do Estado e radicalização do tripé macroeconômico liberal (meta de inflação, superávit fiscal e câmbio flutuante).
O primeiro projeto é incompatível em larga medida com o modelo macroeconômico exercido pelo PT, que é, essencialmente, o mesmo desde o governo Fernando Henrique Cardoso. De modo que o PT, aferrado a sua tese de gradualismo, usa, em uma forma especifica, o mesmo slogan de governos autoritários do passado do Brasil de “ transformação lenta e gradual”, agora, porém, em lugar do objetivo de democratizar as instituições nacionais sem afetar a ordem nem apontar culpados, busca avançar em políticas públicas que favoreçam os mais pobres, mas mantendo e ampliando o poder do capital.
O Partido dos Trabalhadores em 12 anos de governo sequer tentou mudar os marcos institucionais e constitucionais dos governos neoliberais que o antecederam – a exemplo do que fizeram outras nações latino-americanas com governos progressistas – e se contentou em fazer o que chama de “governo do possível”. Mesmo com a retórica progressista, o PT nunca prescindiu do capital transnacional que lhe dá suporte e acesso a mercados, e em troca o Estado facilita créditos e recursos a grandes empresas em detrimento de investimento social, algo que Frei Betto chamou de “processo exportador-extorsivo”. Esses recursos são de ordem energética, agrária e financeira e caracteriza a contradição desse modelo neodesenvolvementista que, ao fim e ao cabo, anula as diferenças estruturais entre esquerda e direita, fazendo com que o chamado processo pós-neoliberal, em tese em curso, aceite a hegemonia capitalista. Mas o segundo projeto, representado por Neves, é ainda pior, porque a economia funcionará atendendo ainda mais os interesses do capitalismo financeiro, diminuindo, por exemplo, o papel dos bancos públicos no funcionamento da infraestrutura social em favor de bancos privados. O condicionamento fiscal que se dará para atender promessas de redução da meta de inflação restringirá o gasto público em políticas sociais, gerando desemprego e recessão, aumentando as desigualdades. E as desigualdades são o centro nevrálgico dos problemas de um Brasil que não precisa focar em fazer mais riquezas, senão distribuir a existente, radicalmente.
CAMINHOS DA JUSTIÇA SOCIAL – Para realmente mover-se em direção a um futuro focado na libertação dos nossos povos e na conquista de uma sociedade pós-capitalista verdadeiramente emancipada, dois pressupostos básicos sãos necessários: separar crescimento de igualdade e reinventar a democracia. O primeiro exige superar o estruturalismo econômico, ir além dos instrumentos econômicos tradicionais que, por vezes, quando combinados com vontade política, permitem redução de assimetrias. A luta por igualdade não pode depender de crescimento econômico, porque crescer hoje significa aumentar também o uso de energias poluidoras, como petróleo e carvão, que está concretamente extinguindo o planeta. O crescimento não é infinito porque os recursos e o planeta são finitos. O crescimento, sem ser pensando criticamente, produz e reproduz pobreza. De forma que a transição social é inseparável da transição ecológica.
As desigualdades aumentaram em todo o mundo nos últimos 30 anos com a hegemonia neoliberal, e esse tipo de capitalismo destruiu a capacidade humana de viver como iguais, e força-nos a viver como consumidores. O neoliberalismo destrói nossas liberdades e nos deixa refém de um sistema financeiro que capta a renda produzido pelo trabalho. Igualdade já não pode ser entendida apenas como uma questão de distribuição de riquezas, mas como uma filosofia de ação social, como afirma o intelectual francês Pierre Rosanvallon.
O segundo pensa a democracia, como regime, que tem progredido em todo o mundo, mas degradando-se como forma de vida em sociedade. Ou seja, cresce o sufrágio universal e a liberdade liberal, mas se retrai a ideia de bem-viver comum. A democracia liberal foi capturada pelo poder econômico e distanciou-se da cidadania. A democracia está descolada das aspirações da sociedade e, no caso do Brasil, o sistema eleitoral vigente impõem um presidencialismo de coalizão que gera alianças de interesses fisiológicos, e degradação ideológica, portanto descolada de real emancipação social, em nome da governabilidade. A reforma política, assim, é um tema essencial desta eleição brasileira porque nos dá uma chance, mesmo que institucional, de “democratizar a democracia”, que deveria passar não apenas por tópicos eleitorais, mas por aumento da participação cidadã na gestão pública, garantia do acesso público à informação, extinção do Senado, reavaliação do sentido de representação e discussão da relação justiça versus controle democrático.
UM CRITÉRIO CLARO – Entre o jogo das semelhanças/diferenças, o projeto de política externa é o que deixa mais claro marcações entre Dilma Roussef e Aécio Neves. Enquanto a maioria dos analistas internacionais sérios defendem a continuidade da integração latino-americana que o Brasil promoveu na última década, o programa de Aécio fala em “flexibilizar o Mercosul”, ou seja, atacar uma das mais importantes iniciativas de integração na América do Sul, e que não se limita ao comércio.
O PSDB, defendendo a velha lógica da integração apenas pela via comercial, quer se alinhar com a Aliança do Pacífico, de países com governos atualmente de orientação conservadora, e regressar ao alinhamento assujeitado às potências tradicionais como Estados Unidos, Japão e União Europeia, que não deixa margem para o questionamento da arquitetura internacional, que deve fortalecer os relacionamentos Sul-Sul. O Brasil precisa aprofundar o seu compromisso político e econômico com a região e sua presença no Sul Global e não ignorar as relações Norte-Sul, relacionar-se com esses países como igual.
Já o PT pretende avançar na projeção internacional “ativa e altiva”, como definiu certa vez o ministro Celso Amorim, e isso se expressa na promoção de uma identidade terceiro-mundista, mas com participação entre grandes atores emergentes, como o BRICS, a defesa do multipolarismo, a reforma do multilateralismo, a ênfase na Unasul e na Celac – opções contra as quais o PSDB e seus seguidores se manifesta reiteradamente.
AVANÇAR É SUPERAR –De modo que há hoje no Brasil, mais do que nunca, uma disputa entre elites, com a diferença que no PT, por conta do seu DNA, ainda há quem queira continuar expandindo salários reais, direitos sociais e bens públicos, enquanto que o PSDB considera que o “peso” democrático gera irracionalidades econômicas que acabam prejudicando o cidadão.
Um dos grandes traços problemáticos é que governo viável, segundo o que as lideranças petistas e seus seguidores não cansam de repetir e executar, só se dá quando assentado nessa ladainha monotemática que celebra o “pragmatismo”, e a “governabilidade”, relevando, propositalmente, sua indisposição para que o parâmetro da universalização da cidadania que, a melhor juízo, tentam promover, não fosse apenas o do cidadão-consumidor, que acaba introduzindo na sociedade valores de mercantilização de diversas dimensões da vida e da natureza e, em última análise, reforçando o conservadorismo. Concretamente é isso o que ocorre hoje, em lugar de projetar alternativas ao capitalismo, em largo prazo e, em curto prazo, ao menos combinar certas medidas inegavelmente assistencialistas em vigência – necessárias porque urgentes – com processos de formação e organização políticas que evitassem a acusação de má-fé com a criação de redutos eleitorais que reforçam esse ciclo vicioso.
Na lógica histórica da esquerda latino-americana nunca se materializou a ideia de superação etapista do capitalismo. Essa suposta realidade de hoje exige muito cuidado para impedir que os avanços, tímidos mas reais, sejam revertidos pela restauração conservadora e para que a desesperança não se imponha definitiva e irreversivelmente. O PT, como governo, tem mais uma oportunidade de fazer valer o seu vermelho, mas o desafio também abrange outros partidos e movimentos sociais, no jogo da pressão, e comprometidos com a ampliação da nossa imaginação emancipatória.
Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé
Não me diga que conheces esta cor.
Se queres vista-a, calce-a, enrola-te em bandeira,
faça fotos, poses e publique-as na rede com essa cor que pretendes,
cobre-te o calvo pelas conveniências que te esgueiras.
Mas não te atrevas a dizer que a conheces.
Porque é sangue, poeira da terra, queimadura do sol, queimadura de gelo, vergonha, digna raiva.
É tudo o que ouvistes contar, e não entendes.
É triste hoje te ver pela rua
com essa estrela que em ti não brilha, decora; essa cor que em ti é fantasia, revolta.
Fiques certo: essa cor que vestes, assim, é quase escárnio.
Essa cor que vestes não é tua.
Primeira coisa: “Voto na Dilma é veto contra o Aécio”, parafraseando o deputado federal Marcelo Freixo (Psol). Um mote que deve ser levado muito a sério na atual conjuntura, mas sem descuidar da reflexão cuidadosa que se exige sobre esta eleição 2014 no Brasil – a mais disputada e interessante dos últimos anos, de forma a amenizar os perigos do maniqueísmo construído na narrativa desse pleito e a falta de juízo crítico diante das estripulias, digamos assim, do Partido dos Trabalhadores (PT).
“Tá serto”, PT. Votaremos em vocês outra vez, mas entenda este voto-veto como um marco, definitivo, porque também é preciso humildade para o reconhecimento e autocrítica para a ação. A esquerda do país, mesmo a de discernimento e principalmente a deslumbrada, fisiológica ou acrítica, considera que o senador Aécio Neves (PSDB) na condução do Estado hoje representaria um dos maiores retrocessos da história da república brasileira, e por isso, pese a existência e o fundamento da campanha pelo voto nulo, há uma aliança tácita entre alguns, e barulhenta entre muitos, para apoiar mais um mandato petista, em que se cria uma atmosfera de terror maniqueísta, supostamente justificada, novamente, pela urgência eleitoral, que tergiversa nossa conjuntura. No entanto, a realidade deve ser, inadiavelmente, pontuada de forma assertiva e clara.
Felizmente entre os críticos esse apoio não se dá sem polêmicas ou desconfianças, algo que se entende observando três grandes traços do pleito e da dinâmica política do país que se arrasta há anos sobre os quais podemos apontar:
1- O crescimento da direita e da bancada ruralista no congresso nacional no primeiro turno – a chamada Frente Parlamentar da Agroindústria, como aponta o professor Nildo Ourique, da UFSC, tem hoje 257 deputados e senadores, metade do parlamento, e está comprometida com as estruturas atrasadas da propriedade da terra e do latifúndio. Um quadro conservador que fez relevo e expressa os extraordinários benefícios que esse setor obteve nos governos petistas, notoriamente amarrado a suas contradições. Ao ponto de uma das principais lideranças desse grupo, a senadora Katia Abreu (PMDB), figura notória da direita do país, ter declarado apoio a Dilma, além, claro, do apoio de outros personagens esdrúxulos da política brasileira, como Fernando Collor, ex-presidente por impeachment, que nunca deveria ter saído do ostracismo, mas que o PT acolhe sob a empáfia retórica do aclamado pragmatismo político.
2- O discurso entre o bem e o mal – o maniqueísmo com que foi construída a narrativa do processo eleitoral, supostamente representado, respectivamente, pelo PT e pelo PSDB, que ignora, convenientemente, as bizarras contradições políticas, principalmente petistas, e a difusão ideológica que caracteriza os partidos políticos brasileiros atualmente, encarcerados, com gosto ou não, pela pressão da governabilidade. Essa é uma reflexão fundamental para evitar o voto acrítico em Dilma, impulsionado pela retórica dos militantes, ou dependentes, do partido que propositalmente deixam de lembrar que o atual modelo não consegue fugir da equação que associa qualidade de vida e crescimento econômico segundo a lógica do capital.
3- Os atuais desafios do PT e da esquerda – ganhando ou perdendo estas eleições, o PT terá que se reavaliar. Durante vários anos os governos do PT tiveram índices elevados de popularidade, e houve acomodação do partido. Depois das “jornadas de junho de 2013”, o quadro se alterou, deixando várias perguntas em aberto e tensão no debate eleitoral. Se ganhar, o partido será pressionado a não mais se contentar com sua ortodoxia econômica com alguma preocupação social, e deverá avaliar seus compromissos com a classe trabalhadora, deverá se esforçar mais para sair do modelo de capitalismo de mercado. Se perder, haverá uma interessante e pesada avaliação do seu papel, e erros, na experiência democrática brasileira com importante repercussões na reorganização das forças políticas de esquerda do país.
OS PROJETOS EM DISPUTA – Mesmo considerando essas generalizações, pode-se ainda afirmar que há, guardadas suas grandes e inegáveis semelhanças, dois projetos brasileiros em disputa: um social-desenvolvementista, baseado em alguma preocupação com inclusão social e distribuição de renda; e outro neoliberal, baseado em ajuste fiscal, redução do papel do Estado e radicalização do tripé macroeconômico liberal (meta de inflação, superávit fiscal e câmbio flutuante).
O primeiro projeto é incompatível em larga medida com o modelo macroeconômico exercido pelo PT, que é, essencialmente, o mesmo desde o governo Fernando Henrique Cardoso. De modo que o PT, aferrado a sua tese de gradualismo, usa, em uma forma especifica, o mesmo slogan de governos autoritários do passado do Brasil de “ transformação lenta e gradual”, agora, porém, em lugar do objetivo de democratizar as instituições nacionais sem afetar a ordem nem apontar culpados, busca avançar em políticas públicas que favoreçam os mais pobres, mas mantendo e ampliando o poder do capital.
O Partido dos Trabalhadores em 12 anos de governo sequer tentou mudar os marcos institucionais e constitucionais dos governos neoliberais que o antecederam – a exemplo do que fizeram outras nações latino-americanas com governos progressistas – e se contentou em fazer o que chama de “governo do possível”. Mesmo com a retórica progressista, o PT nunca prescindiu do capital transnacional que lhe dá suporte e acesso a mercados, e em troca o Estado facilita créditos e recursos a grandes empresas em detrimento de investimento social, algo que Frei Betto chamou de “processo exportador-extorsivo”. Esses recursos são de ordem energética, agrária e financeira e caracteriza a contradição desse modelo neodesenvolvementista que, ao fim e ao cabo, anula as diferenças estruturais entre esquerda e direita, fazendo com que o chamado processo pós-neoliberal, em tese em curso, aceite a hegemonia capitalista. Mas o segundo projeto, representado por Neves, é ainda pior, porque a economia funcionará atendendo ainda mais os interesses do capitalismo financeiro, diminuindo, por exemplo, o papel dos bancos públicos no funcionamento da infraestrutura social em favor de bancos privados. O condicionamento fiscal que se dará para atender promessas de redução da meta de inflação restringirá o gasto público em políticas sociais, gerando desemprego e recessão, aumentando as desigualdades. E as desigualdades são o centro nevrálgico dos problemas de um Brasil que não precisa focar em fazer mais riquezas, senão distribuir a existente, radicalmente.
CAMINHOS DA JUSTIÇA SOCIAL – Para realmente mover-se em direção a um futuro focado na libertação dos nossos povos e na conquista de uma sociedade pós-capitalista verdadeiramente emancipada, dois pressupostos básicos sãos necessários: separar crescimento de igualdade e reinventar a democracia. O primeiro exige superar o estruturalismo econômico, ir além dos instrumentos econômicos tradicionais que, por vezes, quando combinados com vontade política, permitem redução de assimetrias. A luta por igualdade não pode depender de crescimento econômico, porque crescer hoje significa aumentar também o uso de energias poluidoras, como petróleo e carvão, que está concretamente extinguindo o planeta. O crescimento não é infinito porque os recursos e o planeta são finitos. O crescimento, sem ser pensando criticamente, produz e reproduz pobreza. De forma que a transição social é inseparável da transição ecológica.
As desigualdades aumentaram em todo o mundo nos últimos 30 anos com a hegemonia neoliberal, e esse tipo de capitalismo destruiu a capacidade humana de viver como iguais, e força-nos a viver como consumidores. O neoliberalismo destrói nossas liberdades e nos deixa refém de um sistema financeiro que capta a renda produzido pelo trabalho. Igualdade já não pode ser entendida apenas como uma questão de distribuição de riquezas, mas como uma filosofia de ação social, como afirma o intelectual francês Pierre Rosanvallon.
O segundo pensa a democracia, como regime, que tem progredido em todo o mundo, mas degradando-se como forma de vida em sociedade. Ou seja, cresce o sufrágio universal e a liberdade liberal, mas se retrai a ideia de bem-viver comum. A democracia liberal foi capturada pelo poder econômico e distanciou-se da cidadania. A democracia está descolada das aspirações da sociedade e, no caso do Brasil, o sistema eleitoral vigente impõem um presidencialismo de coalizão que gera alianças de interesses fisiológicos, e degradação ideológica, portanto descolada de real emancipação social, em nome da governabilidade. A reforma política, assim, é um tema essencial desta eleição brasileira porque nos dá uma chance, mesmo que institucional, de “democratizar a democracia”, que deveria passar não apenas por tópicos eleitorais, mas por aumento da participação cidadã na gestão pública, garantia do acesso público à informação, extinção do Senado, reavaliação do sentido de representação e discussão da relação justiça versus controle democrático.
UM CRITÉRIO CLARO – Entre o jogo das semelhanças/diferenças, o projeto de política externa é o que deixa mais claro marcações entre Dilma Roussef e Aécio Neves. Enquanto a maioria dos analistas internacionais sérios defendem a continuidade da integração latino-americana que o Brasil promoveu na última década, o programa de Aécio fala em “flexibilizar o Mercosul”, ou seja, atacar uma das mais importantes iniciativas de integração na América do Sul, e que não se limita ao comércio.
O PSDB, defendendo a velha lógica da integração apenas pela via comercial, quer se alinhar com a Aliança do Pacífico, de países com governos atualmente de orientação conservadora, e regressar ao alinhamento assujeitado às potências tradicionais como Estados Unidos, Japão e União Europeia, que não deixa margem para o questionamento da arquitetura internacional, que deve fortalecer os relacionamentos Sul-Sul. O Brasil precisa aprofundar o seu compromisso político e econômico com a região e sua presença no Sul Global e não ignorar as relações Norte-Sul, relacionar-se com esses países como igual.
Já o PT pretende avançar na projeção internacional “ativa e altiva”, como definiu certa vez o ministro Celso Amorim, e isso se expressa na promoção de uma identidade terceiro-mundista, mas com participação entre grandes atores emergentes, como o BRICS, a defesa do multipolarismo, a reforma do multilateralismo, a ênfase na Unasul e na Celac – opções contra as quais o PSDB e seus seguidores se manifesta reiteradamente.
AVANÇAR É SUPERAR –De modo que há hoje no Brasil, mais do que nunca, uma disputa entre elites, com a diferença que no PT, por conta do seu DNA, ainda há quem queira continuar expandindo salários reais, direitos sociais e bens públicos, enquanto que o PSDB considera que o “peso” democrático gera irracionalidades econômicas que acabam prejudicando o cidadão.
Um dos grandes traços problemáticos é que governo viável, segundo o que as lideranças petistas e seus seguidores não cansam de repetir e executar, só se dá quando assentado nessa ladainha monotemática que celebra o “pragmatismo”, e a “governabilidade”, relevando, propositalmente, sua indisposição para que o parâmetro da universalização da cidadania que, a melhor juízo, tentam promover, não fosse apenas o do cidadão-consumidor, que acaba introduzindo na sociedade valores de mercantilização de diversas dimensões da vida e da natureza e, em última análise, reforçando o conservadorismo. Concretamente é isso o que ocorre hoje, em lugar de projetar alternativas ao capitalismo, em largo prazo e, em curto prazo, ao menos combinar certas medidas inegavelmente assistencialistas em vigência – necessárias porque urgentes – com processos de formação e organização políticas que evitassem a acusação de má-fé com a criação de redutos eleitorais que reforçam esse ciclo vicioso.
Na lógica histórica da esquerda latino-americana nunca se materializou a ideia de superação etapista do capitalismo. Essa suposta realidade de hoje exige muito cuidado para impedir que os avanços, tímidos mas reais, sejam revertidos pela restauração conservadora e para que a desesperança não se imponha definitiva e irreversivelmente. O PT, como governo, tem mais uma oportunidade de fazer valer o seu vermelho, mas o desafio também abrange outros partidos e movimentos sociais, no jogo da pressão, e comprometidos com a ampliação da nossa imaginação emancipatória.
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Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé
domingo, 10 de agosto de 2014
As crianças migrantes centro-americanas estão no limbo
Ao cruzar a fronteira entre os Estados Unidos e o México, aproximadamente 60 mil crianças provenientes da América Central foram detidas desde outubro de 2013 até junho desse ano. Essa situação reacendeu o debate sobre as políticas migratórias dos Estados Unidos, onde 11 milhões de migrantes indocumentados são altamente vulneráveis ao abuso dos seus direitos básicos que são garantidos pelas leis do país e pela legislação internacional.
por Aleksander Aguilar*
Já são 60 mil em menos de um ano. Uma grande quantidade de crianças de idades tão tenras quanto cinco anos. Elas viajam a partir de atravessadores (coyotes) até quatro mil km em lanchas, a pé, clandestinamente em trens de carga e ônibus, passando fome e enfrentando assédio, violência, assaltos, e inclusive o risco de sequestro de máfias narcotraficantes que os infligem cirurgias clandestinas de extração de seus órgãos para a venda.
Não estamos falando, pese que a intensidade do relato assim o faça soar, de algum roteiro hollywoodiano de imaginação fértil. Tampouco de distantes rincões na Síria ou em Gaza e dos refugiados de suas atuais guerras. Enquanto assiste-se estarrecido a absurda violência de Israel sobre a Palestina, o Brasil e grande parte do planeta ainda percebe pouco e ignora muito uma outra realidade, regional, dramática e nefanda, que se dá no nosso continente. Ela se inicia bem ali, logo acima da Venezuela, nesta região latino-americana que infelizmente para a maioria dos brasileiros ainda soa tão exótica quanto a longínqua região do Oriente Médio – a América Central. E conforma um contexto em que se misturam violência social, segurança regional e narcotráfico internacional.
A atual crise das crianças migrantes centro-americanas evidencia não apenas um grave problema migratório, mas revela a avassaladora situação de precariedade socioeconômica em que se encontra a América Central, principalmente nos países do chamado Triangulo Norte do istmo – El Salvador, Guatemala e Honduras. Desde essas nações, que estão entre as mais vulneráveis do continente, essa multidão de crianças atravessa todo o México até encontrar o “muro da vergonha”, que separa a América Latina dos Estados Unidos, onde se encontrarão com um limbo migratório: nem podem permanecer, nem podem serem enviadas de volta.
O drama social é evidente, e revela a desumanidade do nosso sistema internacional estatal – nem os Estados de origens dessas crianças, nem o Estado de destino as desejam. Não há um território que busque a realização dos seus direitos e as crianças migrantes centro-americanos transformaram-se em relegados sociais internacionais.
Uma verdadeira emergência humanitária que tem como uma de suas principais causas o corrente modelo econômico, característico da atual América Central, de dependência crônica das remessas – o dinheiro que os imigrantes, legais ou ilegais, centro-americanos que vivem na América do Norte enviam para os seus parentes nos países de origem – e é responsável, em larga medida, por manter a economia do istmo girando. Nos últimos 20 anos os centro-americanos enviaram aos seus países valores em remessas que alcançam 120 bilhões de dólares. Isso criou na região uma economia de consumo financiada artificialmente, e em que os lucros acabam concentrados nas mãos das oligarquias tradicionalmente dominantes, já que são os ricos que controlam os espaços de bens de consumo. Tal concentração, por sua vez, aumenta a desigualdade social que, como sabemos, também faz aumentar a violência. O desemprego crônico gera a migração massiva e investimentos produtivos são feitos em outros países, mesmo nos da região, melhor estruturados, como Costa Rica e Panamá. Assim exportar pobres se converte num negócio mais lucrativo do que buscar reduzir a imigração com tentativas de construção de uma matriz produtiva sólida.
O fator “maras” centro-americanas
É uma sequência perversa, e que relaciona migração com violência. Mas a situação econômica não totaliza a explicação. A Nicarágua tem uma economia talvez ainda mais vulnerável, mas suas crianças não fazem parte desta crise.
Porque entre essas pontas há o fator “maras”, as famosas gangues centro-americanas, que estão centradas no Triângulo Norte, e não no país Sandinista, que tem números de violência muito menores que os dos seus vizinhos. As gangues, ou no espanhol “pandillas”, é um fenômeno resultante do grande número de famílias fragmentadas, consequência direta das guerras civis que convulsionaram a América Central entre os anos 1960 e 1990, e da degeneração do tecido social familiar e comunitário que a migração produz. Milhares de centro-americanos da diáspora dessas guerras foram deportados pelo governo Bush (pai) a partir dos anos 1990.
Em terreno fértil para a violência, como são os territórios socialmente precários centro-americanos, e sem expectativas de bem-estar via “sistema”, consolidou-se dois grupos poderosos e rivais: a Mara Salvatrucha 13 e Pandilla Barrio 18, hoje consideradas duas das maiores gangues do mundo.
Muitas escolas públicas de bairros periféricos de Guatemala, El Salvador e Honduras, em lugar de proporcionar segurança e oportunidade para a juventude local, tornam-se espaços de recrutamento das pandillas. Os jovens que se negam são ameaçados e muitos assassinados, e a migração começa por aí – esses cidadãos sem segurança mínima nos seus próprios países são obrigados a sair de casa para não serem obrigados a se unir às gangues, e o caminho natural é a rota ao Norte. As maras dominam bairros inteiros e afetam diretamente a vida dos mais pobres, cobrando extorsão desde a entrada de transporte público em seus territórios até a entrega de jornal nessas áreas que comandam. Essas pandillas estão presentes nos três países e associadas em redes transnacionais. A perseguição de gangues e o recrutamento começaram a se impor como principais motivadores da fuga para os Estados Unidos.
A migração centro-americana hoje é uma catástrofe social para os pobres e um grande negócio para os ricos.
Dinheiro estadunidense resolve?
Os presidentes dos países do Triângulo Norte centro-americano, em reunião com Obama em Washington em julho deste ano, apontam parte da culpa nos Estados Unidos e utilizam a crise para solicitar mais investimento em segurança regional por parte do país, baseado no que foi o Plano Colômbia e na Iniciativa Mérida (para o México) mas há poucos indícios de que norte-americanos se dediquem a ações de mesma dimensão.
Os líderes da América Central argumentam que esses planos – essencialmente polêmicos programas de combate ao narcotráfico de bilhões de dólares financiados pelos Estados Unidos – foram exitosos nas regiões ondem foram implementados, mas empurraram o tráfico internacional para a América Central. Tal sucesso, porém, é tema de grande controvérsia, pois seus resultados positivos são parciais, frágeis e acompanhados de um inaceitavelmente alto custo humano, com dezenas de milhares de mortes associadas, cuja principal lição deveria ser a de não se tornar modelo para coisa alguma.
O governo Obama, na verdade, possui desde 2009 uma iniciativa especifica para a América Central com objetivo semelhante ao Colômbia e Mérida (chamado CARSI, na sigla em inglês), mas os impactos foram mínimos, pois sua alocação de recursos para os centro-americanos até agora foi de 642 milhões de dólares – um valor irrisório quando se pensa nos 90 bilhões de dólares que os Estados Unidos investiram em segurança fronteiriça repressiva nos últimos dez anos.
“Pobreza não garante status de refugiado”
Atualmente, as crianças migrantes centro-americanas que chegam aos muros do “mundo livre” são detidas na patrulha de fronteira dos Estados Unidos e em até 72 horas são deslocadas para albergues onde recebem cuidados médicos e psicológicos e assessoria jurídica. Devem então esperar que seu caso seja julgado por um tribunal, o que pode levar meses.
Essa situação reacendeu o debate sobre as políticas migratórias dos Estados Unidos, onde 11 milhões de migrantes indocumentados são altamente vulneráveis ao abuso dos seus direitos básicos que são garantidos pelas leis do país e pela legislação internacional. Uma significativa reforma migratória nos Estados Unidos é parte da solução, de forma a respeitar famílias, proteger direitos laborais dos migrantes, e garantir o acesso ao processo legal.
Como lembra a internacionalista Juliana Vitorino, nesse cenário, “o governo dos EUA não é isento de culpa, já que foi, ele mesmo, promotor de desestabilizações políticas, ingerências, financiador de guerras civis na América Central, além de ter transplantado e piorado o problema da violência do pós-guerra com a deportação de membros de gangues para El Salvador, Guatemala e Honduras, países onde nasceram esses novos migrantes indesejáveis”.
Entre as razões dessa cumplicidade dos Estados Unidos às condições que forçam a migração centro-americana estão o apoio histórico às ditaduras militares e regimes de violência na região, a promoção de acordos de livre comércio e políticas econômicas que arrasam a agricultura familiar e degradam os serviços públicos, e a adoção de políticas migratórias cada vez mais duras, que separam famílias com acirrada deportação.
Mas enquanto os presidentes centro-americanos buscam receber mais ajuda financeira dos Estados Unidos para manejar a crise, o governo norte-americano demonstra que sua resposta à questão descansa em outras prioridades. A melhor solução para o governo Obama é retirar o problema da sua porta o mais breve possível. E assim a primeira medida do presidente estadunidense diante da crise foi solicitar recursos especiais ao Congresso de 3.700 bilhões de dólares para mitigar a crise, aumentando o número de agentes de fronteira e de juízes migratórios. Obama deixou claro que sua intenção é repatriar as crianças que chegam aos Estados Unidos porque, em suas palavras, “o status de refugiado não é outorgado a alguém apenas porque sua família vive em uma região ruim ou em pobreza”.
A estimativa é de que até o final de 2014 o número de crianças centro-americanas que chegarão à fronteira dos Estados Unidos alcance as 90 mil.
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Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e editor do projeto-blog O ISTMO - rede de analistas de temas centro-americanos, especial para o Nota de Rodapé
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domingo, 13 de julho de 2014
Ainda bem que tivemos “los ticos”!
por Aleksander Aguilar*
Ah, Costa Rica! O que teria sido de nós, brasileiros, nesta Copa sem ti. Pensar na tua história neste Mundial, especialmente depois do trauma do Brasil na semifinal “Mineiraço”, é um alento e uma inusitada forma de olhar a toda nuestra América. Exemplo, sim, que futebol mistura-se com política, que só aumentou o imprevisto, mas merecido, reconhecimento da tua seleção por parte desta “impávida” nação sul-americana – e por extensão do teu país, e por ampliação de toda a região da América Central.
Para mim, filho de salvadorenho, a Costa Rica era, sim, a América Central no Mundial! Admito que cada vez que eu ouvia a massa gritar em coro, meu orgulho centro-americano silenciosamente se manifestava: "¡oé-oé-oé-oé, ticos, ticoooos!". Eram os anfitriões, nas ruas durante as partidas costarriquenhas, entoando o nome, com tanta empolgação e carinho quanto com sotaque brasileiro, que para eles é o apelido da seleção costarriquenha – a equipe de um país da América Central! Mas não, não, compatriotas. Ticos é um gentilício coloquial para todo o povo da Costa Rica, algo que ocorre com vários países centro-americanos. Os hondurenhos são os Catrachos, os salvadorenhos são os Guanacos, os guatemaltecos são os Chapines, e cada um desses apelidos possui uma explicação sociohistórica.
Quem no Brasil, além de um grupo muito específico como aqueles que estudamos esta região quase invisível do mapa-mundi, saberia disso ou se importaria? No Brasil, nação onde a paixão por futebol não é apenas um simples cliché, a seleção desse país centro-americano tornou-se um xodó nesta Copa, pelo incontestável brilhantismo do seu desempenho, deixando o campeonato de forma invicta após enfrentar, e vencer a maioria, grandes potências do esporte mais popular do planeta. Ao derrotar Uruguai e Itália, empatar com Inglaterra, eliminar a Grécia e levar a Holanda para a decisão nos pênaltis numa quarta-de-final, a imprensa mundial aborrecidamente insistiu que ninguém imaginava que a seleção deste pequeno e “exótico” país iria tão longe num campeonato de grandes potências esportivas. E para a maioria da mídia aqui no Brasil, o importante era justamente esse feito. E só. Ao ponto de para muitos a Costa Rica ser uma seleção “caribenha” (afinal, América Central e Caribe é tudo igual, tudo perto por ali no mapa...)
Ocorre que o significado da participação da Costa Rica neste Mundial nunca fez tão evidente a oposição ao adágio popular de que política e futebol não se discutem. Na América Latina discutem-se, inclusive e de preferência, conjuntamente. Importa mesmo é constatar que importantes meios de comunicação no Brasil destacam de repente a história e os índices de desenvolvimento deste país da América Central. Surpresa mesmo, e satisfação, é ver os brasileiros pela primeira vez curiosos com fatos como a Costa Rica não ter exército (mais de 60 anos de sua extinção) mas ter um ganhador do Prêmio Nobel. O Brasil, via futebol, desenvolveu quase sem querer um sentimento de latino-americanidade, expresso neste caso precisamente pela invisibilizada região centro-americana, e demonstra ter mais interesse em saber quem são esses países do istmo.
Muito futebol, muita política
E por isso o atual futebol da Costa Rica fez-se uma dupla metáfora nessa fronteira futebol/política: enfeixa por um lado o paralelo das relações geopolíticas centro-periferia no mundo com o das disputas dos grandes atores globais do futebol no contexto – quadrado – dos meganegócios desse esporte na globalização hipercapitalista; e por outro o paralelo dos imbricados debates entre nacionalismos e identidade nacional com a questão da integração regional centro-americana e a projeção internacional dessa região.
A Costa Rica é um país da América Central. E enquanto através desse momentum no esporte demarcou para si mesmo uma janela de visibilidade e presença nas cartografias geopolíticas desse mundo cada vez mais multipolar – em que a articulação entre países do chamado Sul Global torna-se uma via para um sistema internacional mais igualitário – trouxe a reboque para uma pequena, mas importante, vitrine toda a região deste istmo socialmente convulsionado. Aos poucos, os centro-americanos passaram a ver o país Tico, que deixava mais e mais potências esportivas boquiabertas, como um representante de todos, permitindo o mundo ver que nem só de terremotos e guerras civis vive uma região. Devagar, porque, claro, internamente na América Central há rivalidades, ranços, já que historicamente as relações no istmo viram-se em altos e baixos, com divisões por conflitos políticos e limítrofes.
Entende-se. Em nome de uma suposta identidade regional, um gaúcho colorado torceria para o Grêmio durante uma Libertadores, e vice-versa? Um pernambucano torcedor do Sport apoiaria o Náutico num campeonato brasileiro, e vice –versa? De sociologia do futebol deixa-se para os especialistas, mas não se pode negar a força desse esporte em todo o continente como fator de unidade. No caso da Costa Rica, o país verdadeiramente possui diferenças enquanto Estado democrático de direito bem marcadas de vizinhos como os do chamado grupo CA-4. El Salvador, Nicarágua, Guatemala e Honduras, o que coloca o próprio debate sobre centro-americanidade e integração regional do istmo como questão.
A América Central hoje
Designada por uma espécie de destino geográfico, uma das especificidades da América Central no contexto latino-americano é justamente a de uma região de trânsito entre os dois oceanos, posição que marcou sua história sociopolítica no passado e lhe influencia no presente, dando-lhe peso geopolítico e características identitárias que a colocam em condições particulares para converter-se em um âmbito que merece análise especifico. Mesmo na América Latina, contudo, esse istmo é frequentemente abordado de forma marginal ou omissa, tangencial ou superficialmente, deixando-se de tratar, precisamente, seus singulares problemas e especificidade sociopolítica no continente. É a situação que levou o crítico literário guatelmateco Arturo Arias a caracterizá-la como “una región marginal dentro de la marginalidad”.
A chamada América Central, a que o poeta Pablo Neruda denominou “la dulce cintura de América” tem pouco mais de 500 mil km² (o Brasil sozinho tem mais de oito milhões de km²) abrigam sete Estados – (Belize, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e Panamá) com uma população de quase 50 milhões de habitantes. Atualmente, cerca de 47% dos centro-americanos vivem em condição de pobreza e 18.6% em pobreza extrema. Mais de quatro milhões de centro-americanos e descendentes moram fora do istmo, especialmente nos Estados Unidos. Ditos emigrantes enviam anualmente cerca de US$ 13 bilhões aos seus familiares nos países de origem, o que no caso de El Salvador, por exemplo, chega representar 17% do total do PIB do país.
Ao longo da história centro-americana, e depois da declaração de independência em 1821, o tema da integração regional – primeiro em suas manifestações unionistas e mais tarde nos esquemas comerciais, econômicos, políticos e institucionais – tem sido uma constante. No entanto, nas últimas décadas, especialmente depois do estabelecimento do Sistema de la Integración Centroamericana (SICA), em 1991, o interesse pelo processo integracionista aumentou e tem chamado a atenção de um número crescente de setores sociopolíticos e econômicos no istmo. Hoje a violência e as migrações, conforme entende o acadêmico da Guatemala radicado na Costa Rica, Rafael Cueva Molina, são grandes e poderosos traços que caracterizam a região e que tem como uma de suas causas primordiais as guerras civis dos anos 1980, embora certamente não a única. As guerras civis centro-americanas conformam uma fase arrebatadora da história sociopolítica do istmo cujas consequências constituíram-se como o principal marco contemporâneo para os sentidos de centro-americanidade.
Essas diversidades de sentidos expressam-se nessa diferença da Costa Rica do seu entorno. Os ticos queixam-se das deficiências dos seus serviços sociais básicos, como saúde e educação, das má-condições das suas estradas, persistência da desigualdade e da pobreza e, mais recentemente, igualmente a outros países centro-americanos, da crescente força do narcotráfico internacional no seu território. Ainda assim, a Costa Rica é um país chamado de renda média, como o Brasil, e tem alguns melhores índices econômicos e sociais do istmo e de todo o continente, com uma expectativa de vida alta de 79,4 anos (a do Brasil é de 74,6) e uma média de homicídios baixa de 8,9 por 100.000 habitantes (a de Honduras é dez vezes maior). O país atrai pela sua estabilidade política, tendo recebido diversos exilados políticos das ditaduras anos 70 e 80, tanto da América do Sul como dos vizinhos da América Central que efervesciam em guerras. Foi classificado em 2011 como o de maior liberdade de imprensa da América Latina, ocupando a posição 19 em nível mundial, de acordo com o ranking da Organização Repórteres Sem Fronteiras, e impressiona até hoje aqueles que ainda desconhecem que aboliu o seu exército em 1948, em nome de uma proposta, fruto de anos de trabalho, de aumentar a participação cidadã e evitar golpes militares de estado.
Contudo, a Costa Rica ainda não conseguiu articular respostas para alterar a tendência dos últimos anos de lentos e incertos progressos em desenvolvimento humano. Como lembra, entretanto, a acadêmica e analista política salvadorenha, Carmen Elena Villacorta, chama a atenção sobre o atual contexto político centro-americano que os partidos das chamadas esquerdas em vários países da região, como El Salvador, Nicarágua, Costa Rica, algumas antes guerrilhas e agora no poder pela via eleitoral, movam-se cada vez mais ao centro ao verem-se confrontadas por sociedades civis cada vez mais plurais e diversas, mais politizadas e exigentes, e menos leais em termos ideológicos, conscientes do poder político do voto.
No momento, por cima das limitações, sua seleção de futebol, “os filhos prediletos da nação”, como foram chamados no país, mantem ainda mais por cima a autoestima dos ticos, e de toda a América Central. Porém, acima ainda do futebol, a Costa Rica, e todo o istmo, veem-se hoje num lugar em que, como assevera o jornalista e acadêmico costarriquenho Andrés Mora Ramirez, nunca, desde a sua independência da Espanha, a região teve que enfrentar uma necessidade tão marcada de seguir por entre diferentes padrões de crescimento e de desenvolvimento para buscar sua inserção internacional.
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Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé
terça-feira, 6 de maio de 2014
1º de maio também é dia de Festa da Lavadeira! Ou era...
por Aleksander Aguilar*
Desde 1888, num episódio de luta, e tragédia, nos Estados Unidos, o dia 1º de Maio passou a ganhar referência em todos os continentes - é uma data fundamental na história da resistência popular de abrangência realmente mundial. Deveria ser lembrado como um dia de reflexão sobre o papel do trabalhador na sociedade e pela construção da cidadania popular, mas no Brasil a data é muitas vezes apenas um dia de feriado, distribuição de prêmios e de grandes shows nos principais centros do país.
E embora isso se reflita também em Pernambuco, aqui o 1º de maio também é dia de algo mais: é o dia da Festa da Lavadeira. Patrimônio Cultural Imaterial do Estado, é um fundamental evento de cultura popular tradicional e de terreiro da região que, desta vez, se fez de forma atípica numa área central do Recife, na Avenida Nossa Senhora do Carmo. Desde que foi criado, em 1987, o encontro que reúne diversas manifestações da cultura popular pernambucana, tomava conta mesmo era da beira-mar, na praia do Paiva, num dia inteiro de festividades de cunho popular/religioso, com direito ao tradicional banho de lama durante esta poderosa reunião de expressões culturais, artísticas e religiosas de matriz afro-brasileira como Afoxés, Nações de Maracatu, Cirandas, Cocos, Caboclinho, Jurema e Caboclos de lança.
A praia do Paiva, no município do Cabo de Santo Agostinho – região metropolitana da Grande Recife e centro dos bilionários investimentos do Complexo Portuário-Industrial de Suape – foi sede durante 25 anos dessa importante expressão cultural, mas os “brincantes”, como se denominam aqueles que vivem e mantem vivas essas tradições, e as cerca de 30 mil pessoas que costumavam a prestigiar o evento, foram obrigados, por conta da força do capital, a deixar a natureza e ir para o asfalto.
Participei em 2011 da última edição da Festa da Lavadeira na praia do Paiva, que teve pelo menos um terço da sua tradicional força, mas foi o suficiente para se envolver, admirar e respeitar. A Lavadeira é um ancestral filho do Orixá Iemanjá. Em maio de 1987, a escultura de uma “lavadeira” foi colocada em frente a uma casa na praia do Paiva. A estátua despertou o interesse da comunidade nativa da praia que a nominaram de “mulher” e a visitavam, levando oferendas. É uma festa essencialmente de matizes negros e índios que agrega, congrega os povos. A Lavadeira é instrumento dos Orixás, Mestres, Mestras, Caboclos, Exús e Trunqueiros, uma forte demonstração das manifestações culturais brasileiras do Nordeste.
A Festa da Lavadeira, ao longo do tempo, ganhou contornos de resistência popular em defesa das matrizes destas expressões culturais contra a mercantilização da arte. Ela sempre acontece no do Dia do Trabalhador, e já chegou a reunir cerca de 100 mil pessoas. Já recebeu por duas vezes o Prêmio IPHAN de melhor projeto de divulgação da cultura popular no nordeste, em 1998 e em 2008. E em 2007 recebeu o “Prêmio Culturas Populares” do Ministério da Cultura.
Mas toda esta simbologia cultural foi relegada a segundo plano por conta dos interesses econômicos que se sobrepõem sem pudor à cultura popular. Grandes empreiteiras construíram imponentes condomínios fechados de luxo no Paiva e ajudaram a privatizar a praia, que já conta com pedágios para segregar o acesso público – instalado precisamente para promover divisões.
Em 2010, a festa só aconteceu por força de um termo de ajuste de conduta feito no Ministério Público. E na sequência a Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho, através de uma lei municipal descaradamente aprovada para atender os interesses da construtora, estabeleceu limitações à presença da população na área denominada Loteamento Reserva do Paiva, na praia onde ocorre a Festa. A Construtora Odebrecht, quando quis aprovar seu projeto milionário no Paiva, em seu site afirmava que iria respeitar as manifestações culturais da região e o desenvolvimento sustentável das comunidades vizinhas. Exatamente por isto a área onde acontece a Festa da Lavadeira foi garantida no projeto Reserva do Paiva como área de uso comum, área pública, para permitir a manutenção e desenvolvimento da manifestação popular.
Através, porém, de legislação a prefeitura local aprovou ato de segregação em relação ao público da Festa da Lavadeira constituído, em sua grande maioria, por mulheres e homens da classe trabalhadora. Esta atitude gerou um dano moral coletivo à cultura popular. Não teve como objetivo a preservação do meio ambiente, mas a preservação do poder econômico privado.
O evento deste 1 de maio que seria a 28° edição da Festa, no centro da capital, foi na verdade um cortejo-protesto, e fazia uma alusão à Festa, pois a edição de fato deste ano foi cancelada por falta de investimentos públicos. Intitulada de Vamos Passear a manifestação comemorativa ocorreu sob protestos, As críticas não foram apenas sobre a mudança de local, pois os brincantes exigem mais ajuda dos órgãos governamentais. O ato religioso tradicional virou um ato de protesto disperso e frágil, e a Festa da Lavadeira está sob o risco de acabar se o seu caráter de resistência não se apresentar ainda com mais força e garantir suas expressões.
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*Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Eleições 2014 na América Central: o que está em jogo
por Aleksander Aguilar*
Amanhã (2 de fevereiro) é uma data de extrema relevância para a América Central. Dois países do pequeno istmo entre o Norte e Sul do continente, situado na periferia do sistema pese estar no centro geográfico e ter uma importância estratégica em política internacional, realizam suas eleições gerais: Costa Rica e El Salvador. Novo período de eleições livres e universais é sem dúvida um momento de celebração das liberdades civis para toda a região, dado o amplo retrospecto de crises e autoritarismo dos países que a compõem, mas também uma ocasião para a reflexão, que deve ser exercido com o voto de cada cidadão, sobre projetos políticos que efetivamente contribuam para fazer avançar Centroamérica em emancipações, autonomias e bem-viver.
De forma geral veem-se duas grandes linhas na atual conjuntura política centro-americana: o espaço para governos vistos como progressistas e a tendência a polarização partidária.
Estão em jogo nessas eleições concepções diferenciadas sobre relações estatais, mercado e sociedade, em que se confrontam projetos, insistentes e impertinentes, de corte neoliberal, e outro de cunho nacional-popular, mais comprometidos em tese com o social.
Na década de 90 as forças políticas ligadas a esquerda enfrentaram um panorama desencorajador, com o avanço forte do receituário neoliberal no istmo; uma situação que se via por toda a América Latina, mas particularmente sentidas em Centroamérica em função dos contextos das recém finalizadas revoluções populares que não alteraram a estrutura profunda do status quo do poder.
Essa ordem começou mudar, porém, a partir dos anos 2000 na América do Sul, mas na América Central ainda um pouco mais tarde, com as posições reformistas de Manuel Zelaya em Honduras, com a vitória da esquerda em El Salvador em 2009, com o retorno dos Sandinistas ao governo da Nicarágua. O golpe de Estado em Honduras, aliás, também em 2009, pode ser visto como um alerta para essa reorganização progressista na região de que as forças da elite dominante não permitiriam medidas muito avançadas no campo social, caso isso mexesse com as arcaicas e excludentes estruturas de poder dos seus países, por parte dos novos governos que conquistaram espaço nas frágeis democracias eleitorais a pouco estabelecidas.
Há agora uma renovação das oportunidades para o progressismo. Em Honduras, nas polêmicas e ainda debatidas eleições do final de 2013, o partido LIBRE dos Zelaya rompeu o tradicional e perverso bipartidarismo elitista do país e influi nos rumos do governo. Na Nicaragua, apesar de posturas impopulares e muitos questionamentos, o atual governo sandinista de Daniel Ortega ainda conta com altos índices de aprovação. Em El Salvador a disputa se dá entre as duas forças consolidadas depois dos Acordos de Paz de 1992, o do retrógrado conservadorismo e neoliberalismo da Alianza Republicana Nacionalista (ARENA) e aglutinação de esquerda Frente Farabundo Martí para la Liberación Nacional (FMLN), que ainda reúne forças da sociedade civil e de movimentos sociais. E na Costa Rica a coalizão progressista do Frente Amplio gera expectativas e esperança de vitória.
O FMLN salvadorenho tem vantagem nas pesquisas eleitorais e disputa a reeleição, pois conseguiu uma vitória histórica nas eleições de 2009 com Mauricio Funes, um jornalista sem militância na antiga organização guerrilheira mas com capacidade gerencial e que reivindicou uma gestão de estilo do ex-presidente brasileiro Lula, amigo e conselheiro, permitindo uma aproximação inédita também do Brasil no istmo.
Funes foi muito criticado por não ter atendido com intensidade as expectativas de “cambio” proposto por sua campanha, pese ter feito um governo mais socialmente avançado do que as duas décadas de neoliberalismo arenista que o antecederam. O atual candidato da FMLN, Salvador Sanchez Ceren, é um líder histórico da Frente, foi um dos comandantes da guerrilha, e trabalha uma proposta de governo em três eixos: aprofundar as mudanças iniciadas por Funes, consolidar a democracia e o Estado constitucional, social, democrático e de direito, e acelerar a integração regional para avançar a união centro-americana.
Na Costa Rica as forças progressistas também levam vantagem, pequena, nas pesquisas eleitorais. A disputa se dá entre um modelo neoliberal representado pelos partidos de direita, Partido Liberación Nacional, e Movimiento Libertario, e uma proposta mais socialmente orientada, preocupada em combater a pobreza e a desigualdade social, representada pelo Frente Amplio, e Partido Acción Ciudadana, tendo à frente o jovem candidato José María Villalta.
O clima nos dois países é de incertezas e os cenários estão abertos. Centroamérica necessita justiça social, já que as características mais tristes e evidentes da região, como migrações, pobreza, desigualdades e violência são consequências da injustiça vigente. Muitas instituições dos países do istmo funcionam a serviço de elites, e não a serviço de todos e todas, menos ainda preocupados com os mais vulneráveis. O crescimento econômico é importante para se obter recursos para investimentos sociais, mas quando este não vai acompanhado de um desenvolvimento inclusivo, os problemas aprofundam-se. Centroamérica merece um desenvolvimento social equitativo que ofereça possiblidades de cultivar plenamente suas capacidades humanas e políticas.
Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé
Amanhã (2 de fevereiro) é uma data de extrema relevância para a América Central. Dois países do pequeno istmo entre o Norte e Sul do continente, situado na periferia do sistema pese estar no centro geográfico e ter uma importância estratégica em política internacional, realizam suas eleições gerais: Costa Rica e El Salvador. Novo período de eleições livres e universais é sem dúvida um momento de celebração das liberdades civis para toda a região, dado o amplo retrospecto de crises e autoritarismo dos países que a compõem, mas também uma ocasião para a reflexão, que deve ser exercido com o voto de cada cidadão, sobre projetos políticos que efetivamente contribuam para fazer avançar Centroamérica em emancipações, autonomias e bem-viver.
De forma geral veem-se duas grandes linhas na atual conjuntura política centro-americana: o espaço para governos vistos como progressistas e a tendência a polarização partidária.
Estão em jogo nessas eleições concepções diferenciadas sobre relações estatais, mercado e sociedade, em que se confrontam projetos, insistentes e impertinentes, de corte neoliberal, e outro de cunho nacional-popular, mais comprometidos em tese com o social.
Na década de 90 as forças políticas ligadas a esquerda enfrentaram um panorama desencorajador, com o avanço forte do receituário neoliberal no istmo; uma situação que se via por toda a América Latina, mas particularmente sentidas em Centroamérica em função dos contextos das recém finalizadas revoluções populares que não alteraram a estrutura profunda do status quo do poder.
Essa ordem começou mudar, porém, a partir dos anos 2000 na América do Sul, mas na América Central ainda um pouco mais tarde, com as posições reformistas de Manuel Zelaya em Honduras, com a vitória da esquerda em El Salvador em 2009, com o retorno dos Sandinistas ao governo da Nicarágua. O golpe de Estado em Honduras, aliás, também em 2009, pode ser visto como um alerta para essa reorganização progressista na região de que as forças da elite dominante não permitiriam medidas muito avançadas no campo social, caso isso mexesse com as arcaicas e excludentes estruturas de poder dos seus países, por parte dos novos governos que conquistaram espaço nas frágeis democracias eleitorais a pouco estabelecidas.
Há agora uma renovação das oportunidades para o progressismo. Em Honduras, nas polêmicas e ainda debatidas eleições do final de 2013, o partido LIBRE dos Zelaya rompeu o tradicional e perverso bipartidarismo elitista do país e influi nos rumos do governo. Na Nicaragua, apesar de posturas impopulares e muitos questionamentos, o atual governo sandinista de Daniel Ortega ainda conta com altos índices de aprovação. Em El Salvador a disputa se dá entre as duas forças consolidadas depois dos Acordos de Paz de 1992, o do retrógrado conservadorismo e neoliberalismo da Alianza Republicana Nacionalista (ARENA) e aglutinação de esquerda Frente Farabundo Martí para la Liberación Nacional (FMLN), que ainda reúne forças da sociedade civil e de movimentos sociais. E na Costa Rica a coalizão progressista do Frente Amplio gera expectativas e esperança de vitória.
O FMLN salvadorenho tem vantagem nas pesquisas eleitorais e disputa a reeleição, pois conseguiu uma vitória histórica nas eleições de 2009 com Mauricio Funes, um jornalista sem militância na antiga organização guerrilheira mas com capacidade gerencial e que reivindicou uma gestão de estilo do ex-presidente brasileiro Lula, amigo e conselheiro, permitindo uma aproximação inédita também do Brasil no istmo.
Funes foi muito criticado por não ter atendido com intensidade as expectativas de “cambio” proposto por sua campanha, pese ter feito um governo mais socialmente avançado do que as duas décadas de neoliberalismo arenista que o antecederam. O atual candidato da FMLN, Salvador Sanchez Ceren, é um líder histórico da Frente, foi um dos comandantes da guerrilha, e trabalha uma proposta de governo em três eixos: aprofundar as mudanças iniciadas por Funes, consolidar a democracia e o Estado constitucional, social, democrático e de direito, e acelerar a integração regional para avançar a união centro-americana.
Na Costa Rica as forças progressistas também levam vantagem, pequena, nas pesquisas eleitorais. A disputa se dá entre um modelo neoliberal representado pelos partidos de direita, Partido Liberación Nacional, e Movimiento Libertario, e uma proposta mais socialmente orientada, preocupada em combater a pobreza e a desigualdade social, representada pelo Frente Amplio, e Partido Acción Ciudadana, tendo à frente o jovem candidato José María Villalta.
O clima nos dois países é de incertezas e os cenários estão abertos. Centroamérica necessita justiça social, já que as características mais tristes e evidentes da região, como migrações, pobreza, desigualdades e violência são consequências da injustiça vigente. Muitas instituições dos países do istmo funcionam a serviço de elites, e não a serviço de todos e todas, menos ainda preocupados com os mais vulneráveis. O crescimento econômico é importante para se obter recursos para investimentos sociais, mas quando este não vai acompanhado de um desenvolvimento inclusivo, os problemas aprofundam-se. Centroamérica merece um desenvolvimento social equitativo que ofereça possiblidades de cultivar plenamente suas capacidades humanas e políticas.
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Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé
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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Bruno Maranhão, presente
por Aleksander Aguilar*
Teimoso, polêmico, dedicado, afetuoso, louco, aberração. De todos os muitos adjetivos usados para descrever Bruno Maranhão o último, que pode ser visto como o mais curioso e pesado, é paradoxalmente o que dá o melhor sentido para justificar a celebração da sua da sua vida, pela qual lutou, como fez em toda sua trajetória política, até o dia 25 de janeiro deste ano.
Bruno, filho de usineiros de açúcar por parte de mãe e de pai, um herdeiro típico da alta burguesia tradicional pernambucana, legada diretamente da relação Casa Grande/Senzala, fez-se aberração suficiente para deixar o chicote opressor e lutar pelas emancipações dos oprimidos ao lado dos mais destacados comunistas da época das revoluções guerrilheiras no Brasil, e seguir lutando ao longo de toda sua existência. De sucessor da estrutura de dominação social pela terra, passou a vida em militância por reforma agrária.
“Origem de classe não tem a ver com consciência de classe”, me disse em uma das inúmeras reuniões que tivemos no seu escritório no bairro Casa Amarela, em Recife. Bruno fez muitos amigos e amigas em sua história política, de tão longa data como da clandestinidade na ditadura e do exilio no exterior. Eu, porém, tive apenas a oportunidade de conviver com ele durante os últimos seis meses do vigor da sua militância, em 2011, quando nos reuníamos quase que diariamente, em Pernambuco e outros estados, para organizar a “Marcha da Reforma Agrária do Século XXI”, do Movimento de Libertação do Sem Terra (MLST), do qual ele foi um dos principais coordenadores.
Bruno tinha uma inquietude otimista motivadora, e gostava muitas vezes de desafiar as “condições objetivas”, acreditava que só lançando-se aos projetos poderia faze-los realidade.
− Vai ser muito difícil conseguir a condição ideal pra caminhar 250 km com quase 1000 militantes, Bruno, em tão pouco tempo, argumentava-se.
− Nem sempre há tempo para conseguir o ideal, companheiro, mas ao fazermos já vencemos, respondia.
Levamos 20 dias naquele ano, de agosto até o 7 de setembro, para caminhar da capital do Estado de Goiás, até Brasília. “Aperte a mão de quem o alimenta!” foi o lema, e a Marcha promoveu pelas cidades onde passou seminários para evidenciar a importância e a necessidade da reforma agrária para a superação da pobreza no Brasil. Essa atividade idealizada pelo Bruno foi sua última grande articulação de movimentos populares. Ele infelizmente não pode conclui-la, pois justamente ali se iniciou a manifestação da doença que levou o lutador. As fotos que fiz durante a Marcha são suas últimas imagens em plena militância, no ato de lançamento da jornada, em que o vimos com punho levantado e de microfone à mão, como o foi na sua história de lutas por emancipação.
Em plena ditadura militar brasileira, aos 20 e poucos anos ingressou no Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) e integrou o Comitê Central ao lado de lendas como Apolônio de Carvalho, Jacob Gorender e Mário Alves. Foi exilado político, e no retorno ao país ajudou a fundar o PT, tendo sido membro da Executiva nacional, e já com mais de 50 anos fui fundador do MLST, onde militou até a sua morte, aos 74 anos de idade.
Sua capacidade de liderança era inegável e era tão destacada quanto o seu carisma. Bruno ensinou gerações de militantes, do campo e da cidade, de movimentos sociais e de partido, aquelas particularidades do comportamento político, do trato com o adversário, da hora de ser firme, de negociar, de flexibilizar, que só a experiência forjada em muitos anos de prática podem dar. Desde a roda de camponeses em um galpão de pouca cobertura no interior do Nordeste até o gabinete do governador do Estado, pelos assentamentos e acampamentos sem-terra à reuniões ministeriais no Distrito Federal, via-se aquela postura e leitura sociopolítica inabalável da realidade. Era o que lhe motivava a apostar e entregar-se a necessidade de transformações estruturais no país que, vista como uma grande excentricidade por parte de muitos, foi justamente o que lhe garantiu o respeito e um lugar certeiro na história da esquerda brasileira; uma coerência e chama sempre acesa por justiça social que fez de Bruno um militante revolucionário na juventude, na idade adulta e mesmo na terceira idade.
Bruno Maranhão foi um brasileiro que teve uma história particular. Na dedicatória do livro Os Colares e as Contas (2012), a síntese poética de uma experiência política, segundo seu próprio autor, o jornalista Marcelo Mario de Melo, que também foi militante do PCBR, aparece a homenagem a Bruno entre aqueles “que se mantém socialistas e de esquerda depois dos 60 anos”. E Bruno ainda depois dessa idade não apenas manteve suas ideias como as expressou constantemente desde caixotes improvisados em assembleias e reuniões camponesas nos campos desse Brasil. Só se pode respeitar uma trajetória assim. O sonho e a luta por reforma agrária permanecem vivos na memória de Bruno Maranhão.
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Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé
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terça-feira, 15 de outubro de 2013
O prisioneiro argelino
por Aleksander Aguilar*
Ótimo! Ônibus praticamente vazio. No andar de cima junto à janela, o banco da frente está desocupado. Logo, a viagem de relativos 25 minutos de Holborn até Caledonian Road, ainda que houvesse algum trafego à frente, seria razoavelmente fácil, quase agradável. Sentar nesse banco específico dos famosos ônibus vermelhos double deck é uma das melhores formas de observar as ruas de Londres – do alto, em movimento e, de preferência, em silêncio.
Mas Mohammed (nome fictício e ilustrativamente escolhido por ser um dos nomes mais populares na Grã-Bretanha) queria falar. Libertado naquela manhã após cumprir dois anos de pena na prisão para imigrantes de Canterbury (agora fechada), o argelino de bigode largo e escuro, de pouco mais de 35 anos de idade, mas com olhar tão cheio de energia que passaria por menos, estava comemorando. “Desculpe se estou incomodando, mas eu tô muito animado”, explicou-se ao perceber minha falta de reciprocidade a sua curiosa empolgação.
Ele havia decidido sentar no banco vazio ao lado do meu e um típico comentário sobre o miserável clima inglês, especialmente péssimo naquele verão, foi a estratégia de Mohammed para tentar iniciar uma conversa. Observações triviais com estranhos em ônibus não são muito comuns em Londres e, diante da minha aborrecida resposta com um movimento de cabeça, a vontade de papear de Mohammed acabaria frustrada. De início não acreditei que ele era um recém-libertado, mas quando percebi o entusiasmo do meu interlocutor interagi verbalmente. A prisão inglesa é terrível, segundo o que ele me contou. “Já estive preso na França e na Espanha também, mas aqui é a pior de todas”.
Mas Mohammed não deu detalhes. Apenas suspirou e olhou aliviado pela janela o movimento cinzento da cidade. Roubo e fraude foram os crimes do experiente ex-prisioneiro que naquele momento se dirigia a casa de um amigo para buscar o gato de estimação que havia deixado lá. Documentos como carteira de motorista e número de seguro social eram as suas especialidades. “E você vai seguir nesse negócio?”, pergunto sorridente. “É claro! Neste país você tem que ser rápido, ou eles te devoram”, responde convicto.
Não tive tempo de perguntar mais nada. Duas paradas antes da Blundell Street, ele apertou minha mão, perguntou meu nome e desceu correndo as escadas com uma animação juvenil, animado por ir ao reencontro do seu gato.
PAVILHÃO 9
A população carcerária na Inglaterra, segundo os dados estatísticos de setembro deste ano do Ministério da Justiça do Reino Unido, é de cerca de 85 mil presos, e corresponde a 98% da capacidade do seu sistema prisional. Há também brasileiros nas prisões inglesas, e bastante, de acordo com Mohammed.
Mas no Brasil, estima-se que o número de prisioneiros, apertados nos mais 1700 estabelecimentos do sistema penitenciário do país, é de aproximadamente 500 mil presos, o que faz do país a quarta maior população carcerária do mundo e com um sistema prisional superlotado que ainda assim tem um déficit de 200 mil vagas.
No começo deste mês, o massacre do Carandiru completou sua maioridade absoluta, 21 anos. O extermínio de 111 presos em 1992 na Casa de Detenção de São Paulo foi um episódio decisivo para a fundação da facção criminosa que atua dentro e fora do sistema prisional paulista, o PCC (Primeiro Comando da Capital) e tornou-se um símbolo internacional de violação de direitos humanos. O conhecido filme sobre a tragédia, do diretor Hector Babenco baseado num livro de Drauzio Varella, pode ser encontrado em lojas em todo o mundo, inclusive em Londres, e a realidade caótica do sistema penitenciário brasileiro também segue sendo vista diariamente no país.
Em agosto deste ano foram condenados 25 policiais acusados de participação na morte de 52 presos do Carandiru, num julgamento que demonstrou ao mundo a complexidade do sistema judiciário brasileiro. Conflitos na condução do processo, que envolveram diversas instituições e instâncias e confusão de competência entre os ramos militar e comum da Justiça, protelaram a decisão do caso em mais de duas décadas. Organizações internacionais de direitos humanos ressaltaram que os longos anos de espera por um resultado de condenação no Brasil favorecem a uma cultura de impunidade no país. E, para as Nações Unidas (relatório do ano passado da Revisão Periódica Universal - instrumento de fiscalização do Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU), as péssimas condições das prisões superlotadas são um dos principais problemas de direitos humanos no país.
Os réus do Carandiru receberam uma pena de 624 anos de prisão em regime fechado e a perda do cargo público. Eles ainda têm o direito de recorrer da decisão em liberdade. Já o comandante da ação que resultou na invasão de 330 policiais no pavilhão 9 do Carandiru naquele ano, o coronel da reserva Ubiratan Guimarães chegou a ser condenado criminalmente em 2001 a 632 anos de prisão, mas também com direito a recorrer da pena em liberdade. No ano seguinte, (vejam só!) elegeu-se deputado estadual com o número "111" na cédula e beneficiado pelo foro privilegiado da condição de parlamentar, em 2006 acabou sendo absolvido pelo órgão especial do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.
No mesmo ano, o policial foi assassinado a tiros em seu apartamento nos Jardins, área nobre de São Paulo. Acusada pelo assassinato, a ex-namorada do coronel, a advogada Carla Cepollina, foi absolvida pelo crime em júri popular por falta de provas.
O prédio da antiga prisão foi implodido, mas ao que parece, a incompetência e a impunidade no Brasil mantêm-se em pé sobre os escombros. Espera-se que Mohammed, antes de seguir “na correria” um dia também assista Carandiru.
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domingo, 18 de agosto de 2013
10 anos de autonomia Zapatista
por Aleksander Aguilar*
Poucos questionaram o direito deles à indignação. A pobreza na região chegava a quase 60% da população, nas comunidades rurais cerca de 20% das crianças morriam antes de completarem cinco anos de idade e a maioria das famílias não tinha acesso a saúde básica e educação enquanto uma pequena elite controlava as terras agricultáveis em condições semi-feudais.
Nesse contexto, no primeiro dia de 1994 cerca de três mil indígenas, precariamente armados, deram inicio a uma rebelião e tomaram seis cidades em Chiapas, o estado mais ao sul do México. Nos dias seguintes, quase 100 mil pessoas marcharam na capital, Ciudad de Mexico, gritando “¡Somos todos zapatistas”!
Eles fizeram a data da rebelião coincidir com a implementação do NAFTA, o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, entre Canadá, Estados Unidos e México, chamado pelos Zapatistas de “uma sentença de morte”. A estridente oposição ao NAFTA deu aos rebeldes o apoio de organizações da sociedade civil, sindicatos e movimentos sociais de diversas partes do mundo.
São quase 20 anos desde que as marchas por terra e liberdade dos Zapatistas tomaram as montanhas de Chiapas, numa luta de um povo indígena longamente negligenciado na região. São dez anos, desde 2003, de construção de autonomia Zapatista, “sem pedir a permissão de ninguém”, quando os rebeldes cansaram do diálogo surdo com as autoridades mexicanas e abandonaram a política de demandas, e com isso todo o contato com o Estado. No lugar disso, eles preferiram concentrar-se na construção de formas horizontais de auto-governo dentro dos seus próprios territórios e com seus próprios meios, los Caracoles.
Esses dez anos de atividades emancipatórias do projeto Zapatista, que não ignoram o peso das críticas que tem recebido com essa experiência, foram celebrados neste mês de agosto na Escuelita para la Libertad según los Zapatista, em Chiapas.
ESCOLA PARA A LIBERDADE
No dia 9 de agosto de 2003, os Zapatistas anunciaram o nascimento dos seus Caracóis, em número de cinco, cada um com sua própria Junta de Buen Gobierno (JBG) e tendo, assim, responsabilidade pela sua própria Zona Municipal Rebelde de Autonomia Zapatista, que ao total englobam quase 100 mil pessoas. Cada Caracol possui seu próprio posto de saúde autônomo, escola primaria e secundária e envolve-se em pelo menos um dos cinco grandes projetos Zapatistas: saúde, educação, agroecologia, política, e tecnologia da informação.
No ano que a rebelião iniciou, em 1994, o jornal New York Times denominou-a como a “primeira revolução pós-moderna latino-americana”. Muito dessa ideia era marcada pela sua maneira de falar, particularmente nas palavras do rosto-público-fumando-cachimbo da organização, Subcomandante Marcos, que expressava uma postura nova e entusiasta para um grupo insurgente. Diferentemente dos marxistas revolucionários que os precederam, os Zapatistas não falavam com imposições e determinismos, suas mensagens eram mais poesia do que bravatas. Eles apresentavam uma imensa imaginação política e usam desde o inicio da rebelião a internet e as novas tecnologias da comunicação com satisfatório êxito.
Mas desde La Sexta Declaración de la Selva Lacandona, em junho de 2005 (La Sexta), e do começo da La otra campaña, em janeiro de 2006, os Zapatistas estiveram afastados da mídia, numa, denominada pela imprensa, “tática do silêncio” e interpretada por muitos como um enfraquecimento dos rebeldes. Ainda há muita pobreza nas comunidades zapatistas. No entanto, há também conquistas materiais, tangíveis, e não apenas avanços em dignidade e conceitos abstratos.
Os cerca de 1500 ativistas convidados para visitar Chiapas observaram o que foi dedicado neste tempo de distancia dos holofotes. Estudaram e receberam aulas dos próprios indígenas Zapatistas, de três equipes de professores e professoras que contaram com material didático, quatro livros e dois dvd´s, sobre Governo autônomo, participação de mulheres e liberdade, sobre sua experiência com autonomia. Os estudantes foram hospedados pelas próprias famílias nas suas terras e casas para aprenderem como é ser membro de uma base de apoio Zapatista.
Algumas críticas ao Zapatismo consideram os rebeldes uma força desgastada, com grande retórica, mas pequena capacidade, incapaz de projetar-se para alem de suas bases rurais: “O exemplo Zapatista não pode ser seguido em todos os lugares, nós não vivemos nas selvas de Chiapas para criar exércitos rebeldes e comunidades autônomas”. A resposta, porém, é simples: os Zapatistas nunca se projetaram como o modelo a ser copiado. Eles construíram um mundo no qual eles realizaram sua própria visão de liberdade e autonomia, e continuam lutando por um mundo onde outros mundos sejam possíveis, e na celebração de suas experiências convidam o mundo para vê-las.
*Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé
Poucos questionaram o direito deles à indignação. A pobreza na região chegava a quase 60% da população, nas comunidades rurais cerca de 20% das crianças morriam antes de completarem cinco anos de idade e a maioria das famílias não tinha acesso a saúde básica e educação enquanto uma pequena elite controlava as terras agricultáveis em condições semi-feudais.
Nesse contexto, no primeiro dia de 1994 cerca de três mil indígenas, precariamente armados, deram inicio a uma rebelião e tomaram seis cidades em Chiapas, o estado mais ao sul do México. Nos dias seguintes, quase 100 mil pessoas marcharam na capital, Ciudad de Mexico, gritando “¡Somos todos zapatistas”!
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| [Foto: Moysés Zúñiga Santiago] |
São quase 20 anos desde que as marchas por terra e liberdade dos Zapatistas tomaram as montanhas de Chiapas, numa luta de um povo indígena longamente negligenciado na região. São dez anos, desde 2003, de construção de autonomia Zapatista, “sem pedir a permissão de ninguém”, quando os rebeldes cansaram do diálogo surdo com as autoridades mexicanas e abandonaram a política de demandas, e com isso todo o contato com o Estado. No lugar disso, eles preferiram concentrar-se na construção de formas horizontais de auto-governo dentro dos seus próprios territórios e com seus próprios meios, los Caracoles.
Esses dez anos de atividades emancipatórias do projeto Zapatista, que não ignoram o peso das críticas que tem recebido com essa experiência, foram celebrados neste mês de agosto na Escuelita para la Libertad según los Zapatista, em Chiapas.
ESCOLA PARA A LIBERDADE
No dia 9 de agosto de 2003, os Zapatistas anunciaram o nascimento dos seus Caracóis, em número de cinco, cada um com sua própria Junta de Buen Gobierno (JBG) e tendo, assim, responsabilidade pela sua própria Zona Municipal Rebelde de Autonomia Zapatista, que ao total englobam quase 100 mil pessoas. Cada Caracol possui seu próprio posto de saúde autônomo, escola primaria e secundária e envolve-se em pelo menos um dos cinco grandes projetos Zapatistas: saúde, educação, agroecologia, política, e tecnologia da informação.
No ano que a rebelião iniciou, em 1994, o jornal New York Times denominou-a como a “primeira revolução pós-moderna latino-americana”. Muito dessa ideia era marcada pela sua maneira de falar, particularmente nas palavras do rosto-público-fumando-cachimbo da organização, Subcomandante Marcos, que expressava uma postura nova e entusiasta para um grupo insurgente. Diferentemente dos marxistas revolucionários que os precederam, os Zapatistas não falavam com imposições e determinismos, suas mensagens eram mais poesia do que bravatas. Eles apresentavam uma imensa imaginação política e usam desde o inicio da rebelião a internet e as novas tecnologias da comunicação com satisfatório êxito.
Mas desde La Sexta Declaración de la Selva Lacandona, em junho de 2005 (La Sexta), e do começo da La otra campaña, em janeiro de 2006, os Zapatistas estiveram afastados da mídia, numa, denominada pela imprensa, “tática do silêncio” e interpretada por muitos como um enfraquecimento dos rebeldes. Ainda há muita pobreza nas comunidades zapatistas. No entanto, há também conquistas materiais, tangíveis, e não apenas avanços em dignidade e conceitos abstratos.
Os cerca de 1500 ativistas convidados para visitar Chiapas observaram o que foi dedicado neste tempo de distancia dos holofotes. Estudaram e receberam aulas dos próprios indígenas Zapatistas, de três equipes de professores e professoras que contaram com material didático, quatro livros e dois dvd´s, sobre Governo autônomo, participação de mulheres e liberdade, sobre sua experiência com autonomia. Os estudantes foram hospedados pelas próprias famílias nas suas terras e casas para aprenderem como é ser membro de uma base de apoio Zapatista.
Por quê tudo isso?
“¿Será porque acaso intuyen, saben, conocen, que la luz no viene de arriba, sino que nace y se crece desde abajo? ¿Que no es producto de un líder, jefe, caudillo, sabio, sino del común de la gente? ¿Será que en sus cuentas lo grande empieza pequeño y lo que sacude al mundo cada tanto, inicia con apenas un murmullo, quedo, bajo, casi imperceptible? O tal vez imaginan cómo es el estruendo de un mundo cuando se desmorona. Tal vez saben que los mundos nuevos se nacen con los más pequeños.”
Algumas críticas ao Zapatismo consideram os rebeldes uma força desgastada, com grande retórica, mas pequena capacidade, incapaz de projetar-se para alem de suas bases rurais: “O exemplo Zapatista não pode ser seguido em todos os lugares, nós não vivemos nas selvas de Chiapas para criar exércitos rebeldes e comunidades autônomas”. A resposta, porém, é simples: os Zapatistas nunca se projetaram como o modelo a ser copiado. Eles construíram um mundo no qual eles realizaram sua própria visão de liberdade e autonomia, e continuam lutando por um mundo onde outros mundos sejam possíveis, e na celebração de suas experiências convidam o mundo para vê-las.
*Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé
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quarta-feira, 26 de junho de 2013
Recife sob combustão espontânea
por Aleksander Aguilar*
Então, vale a pena falar um pouco de como está em Recife? Pois na cidade proeminente do tantas vezes longínquo Nordeste brasileiro o quadro é similar, sim, ao do Brasil atual e sinistramente unido por nossas análises igualmente preocupadas que encurtaram nossas distâncias. E por que não seria?
Por exemplo: ”O mais importante é parabenizar a população pela maneira pacífica com que realizou o ato". Sim, sim, foi o Geraldo que disse! O prefeito da capital pernambucana, que é amicíssimo, para dizer o mínimo, do governador do mesmo Estado, Eduardo Campos. E os comuns: “Então graças a deus que aqui foi tranquilo, né? Não teve toda a baderna lá do Sul”, disse ao telefone agora a senhorinha vizinha no prédio, evangélica de devotada disciplina ao rádio a todo o volume em canais cristãos, religiosamente todos os dias às 7h da manha.
Não, aqui não é São Paulo, porra! Mas e daí? É a capital “mais vibrante do Nordeste” ainda assim reproduzindo ufanismos vazios, típicos de “revoluções de twitter” e de outras expressões cunhadas no afã midiático de criar nomes de impacto, que permanece num nível tão superficial quanto o dessas paradas cívicas e protofascistas (neste momento, porque podem mudar de natureza) que começaram chamando-se atos políticos. Tão apressadas quanto foi a mídia progressista – façamos a autocrítica – achando tudo lindo no início dos protestos antes de entender o que estava em jogo.
Reconheçamos que há uma crise urbana que a classe média assumiu e que ajuda a configurar uma crise da democracia representativa como um todo. A melhora do padrão de renda dos últimos anos tem paradoxalmente, e em especial nas grandes cidades, piorado a vida em alguns aspectos como a mobilidade urbana, estopim desta crise.
Nesse contexto, no ato do dia 20 de junho foram pelo menos 52 mil pessoas nas ruas, segundo a Secretaria de Defesa Social do Estado, e constituiu um dia histórico em Recife, assim como o foi em várias outras cidades brasileiras. Tudo tranquilo, “o mais pacífico do país”, com pequenos e breves incidentes rapidamente controlados e no máximo bombas de fogos de artifício lançadas pra fazer barulho. Até a Polícia Militar trabalhou com braçais brancos nas mangas indicando paz e chegou a abrir faixas de apoio ao movimento. E assim Recife não fez se fez pioneiro ou vanguardista; replica um sentimento bastante generalizado nesse 20 de junho que efetivamente parou o Brasil ao mesmo tempo que pôs todas as antenas progressistas em alerta. Um movimento imenso e sem comando: perigo! A horizontalidade é perigosa? Com que tipo de aventura estamos lidando?
Recife, uma das cidades símbolo do atual e dificilmente negável processo brasileiro de redução de injustiças sociais – porque tem um crescimento econômico destacado na região do país com desigualdade socioeconômica de amplo e conhecido lastro – a surpresa com que todos foram tomados na organização das gigantescas manifestações de rua ajudam a amplificar um típico debate sobre estratégia e organização. Aquele que remonta à velha discussão organização e espontaneidade das massas, travada já desde 1905 entre o contexto alemão e russo, mas agora diante de uma dinâmica organizacional da era Web 2.0.
Há espaço para que nos movamos mais adiante da polarização conceitual entre partidos vanguardistas vistos como muito rígidos e redes de articulação virtual vistas como muito frouxas? É possível que os movimentos contemporâneos transcendam o espontaneismo pejorativo e sejam articulados como novas formas de criação e de organização?
Seja como seja que evoluamos nesse debate, está na hora de politizar o momento, de capitalizar os movimentos sociais vivos, e de pautar um horizonte de emancipação social. O esvaziamento político daquilo que começou como atos propositivos, e agora tem como tom predominante o de paradas cívicas moralistas e conservadoras, precisa ser preenchido. Propostas emancipatórias radicais precisam ser construídas, debatidas e massificadas de modo a se ter um objetivo sociopolítico estruturalmente transformador.
*Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor e viajante a Ítaca. Especial para o NR.
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terça-feira, 21 de maio de 2013
Reais-ficções de carnaval
por Aleksander Aguilar*
Na finaleira mesmo, na madrugada de quarta pra quinta, quando só estão de pé os mais aguerridos e/ou desesperados foliões, um bloco de massa muito conhecido do carnaval de Olinda faz sua passada arrastando, literalmente, multidões pelas ruazinhas de paralelepípedo da Cidade Alta. E segundo o que dizem os que por ali já suaram o ambiente é tenso, “só dá os mala”.
A empolgação que se extravasa às vezes vai pro nível da provocação. Desta vez sobrou foi é pro carro da polícia meio que pelo meio do caminho do bloco e da massa animada: cocos e latas de cerveja direto no veículo das autoridades, que se arretaram e foram atrás dos mala, descendo o cacete mesmo em quem quer que parecesse suspeito, incluindo Fernando, que nem tinha feito nada, mas que tava por ali parado (parado justamente por não ter feito nada) estando, assim, no lugar errado na hora em que o apetite da resposta policial era o mais voraz.
Preto e de longos dreadlocks, Fernando já foi arrastado direto pro camburão, enquanto o amigo Jair protestava, até esbravejando bem por perto a música Porcos Fardados do Planet Hemp, mas bem branquinho, galego, que era, não lhe aconteceu nada, nem tocaram, nele, já o neguinho...
E apanhou que só, visse! Bateram, bateram, e foi passar a noite na delegacia de Olinda, ali na Praça do Carmo, numa cela “nojenta”, segundo ele, e num estado todo esgualepado, diríamos no Sul, tendo que lidar com sua perda.
Sim, Fernando perdeu, e a faca, os seus longos dreads. Cortaram só de maldade – como parte da punição que a autoridade sentenciou e executou sem julgamento – as maçarocas de cabelo cuidadosamente cultivadas, pro divertimento dos guardinhas no plantão, provavelmente aborrecidos e recalcados de terem trabalhado durante todo o carnaval. Pela manhã Fernando foi jogado no meio da rua, ali por perto da Faculdade, e lhe atiraram por cima a carteirinha plástica onde guardava a identidade, os passes para o ônibus e o dinheirinho dobrado que entocara para uma emergência, mas agora sem o dinheiro, nem os passes.
E sem nem poder pegar um ônibus, Fernando tão desorientando quanto descabelado, e todo dolorido, teve que conseguir que uma das vans que fazia a linha Olinda-Recife na época, lhe desse uma carona.
Teve sorte e conseguiu ir até a Praça do Derby, e de lá sem outro remédio senão seguir a pé pela avenida Caxangá a fora, pensando no caminho até a zona do Cordeiro o que fazer com a sua história. Tomado de indignação, encheu-se de coragem, e denunciou tudo aos órgãos judiciais competentes, que abriram investigação e cordialmente lhe recomendaram: “É melhor você sair daqui por algum tempo”.
Risco de revanche policial dizem que é foda! Fernando falou com a sua mãe, e os dois realmente saíram, pra a capital de um Estado vizinho de Pernambuco, que é pra não ficar muito longe. Além do cabelo, Fernando perdeu liberdade, e quem ganhou foi a impunidade e o medo. Agora Recife/Olinda é só de visita duas ou três vezes por ano, mas incluindo o carnaval!
*Aleksander Aguilar, jornalista, acadêmico, candidato a escritor e viajante à “Ítaca”, especial para o Nota de Rodapé
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