No final dos anos setenta, morei uns tempos no Rio, trabalhando no apoio à produção de um programa de TV evangélico. Sair de casa e encarar a vida adulta, um sonho acalentado fazia tempo, foi a confirmação do meu pendor por desafiar o previamente definido e as expectativas sobre mim. Ao desembarcar no Rio, eu era uma pirralha de vinte anos metida a gente grande, que tomava e executava decisões radicais.
Tempos complicados aqueles, com coisas demais pra aprender, absorver e rearrumar. O redemoinho interno girava, parava alguns segundos, girava mais, desorganizava mais, girava mais um tanto, invertia o sentido e me apertava. Foram muitas horas sentada num banco de frente para o mar em Ipanema, nas tardes de sábado, vestida da cabeça aos pés, olhando o movimento das ondas e tentando dar nome ao que sentia. Eu não era, aliás, não sou, dada a rompantes emotivos. Sou das que viajam doze horas de carro, com muito gosto, mas não encaram vinte minutos numa montanha russa, nem mesmo ao lado do George Clooney.
Passados alguns meses, comecei a participar de um grupo de conversação em inglês, uma vez por semana, no horário do almoço. De maneira simples e eficaz, um artigo de revista lido em voz alta dava o mote para a conversa, facilitada por uma norte-americana. Foram poucas reuniões, porém, apesar de breve, aquela foi para mim uma experiência singular.
Na primeira vez que, motivada pela conversa, comentei referências e fatos da minha vida, ainda que de maneira superficial, tive a nítida sensação de estar falando de outra pessoa. Como se ao mudar o idioma eu tomasse distância de mim e assim pudesse me ver de forma mais objetiva e generosa, daquele jeito que nos veem as pessoas a quem damos acesso ao nosso lado de dentro. Como se, em pleno giro, se abrisse uma fresta no redemoinho e eu pudesse vislumbrar o que estava lá bem no centro dele, mas que só se revelou claramente muito depois.
Sem saber, sem nem desconfiar, eu embarcava no trem do autoconhecimento e iniciava uma viagem só de ida, às vezes trágica, às vezes cômica, sempre intensa, inescapável, que transforma tudo, inclusive os redemoinhos e as lembranças.
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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.
por Maria Shirts ilustração de estreia Camila Rocun*
Na semana passada comecei a assistir Breaking Bad. Segundo todos os amigos, a internet, os professores da faculdade e quiçá a Dilma, a melhor coisa desde o pão fatiado.
O seriado é, de fato, bem cativante. Apesar de já ter acabado nos Estados Unidos em setembro, ainda passa no Brasil no canal AXN todas as sextas às 22h. Quem tiver a assinatura pode assistir via Netflix também.
Pra quem não sabe, se é que alguém não sabe, a série trata da vida de um professor de química pra lá de mal pago que descobre estar com câncer terminal. Para ganhar um extra que possa deixar para a família (um filho com deficiência e uma esposa grávida), resolve fabricar cristais de metanfetamina.
Como um bom químico, o nosso protagonista Walter (Bryan Cranston) consegue produzir o melhor cristal da praça, que se diferencia dos outros pela cor azul. E assim segue o enredo vivendo sua dupla personalidade de pai exemplar da classe média americana e produtor de drogas pesadas. Por vezes não sabemos qual delas é pior.
Independente da trama, que é bem pensada e roteirizada, o que tenho achado mais interessante em Breaking Bad é a complexidade da personagem de Walter. Quer dizer, como “engolir” um professor de química classe média que opta pela vida clandestina e ilícita do tráfico? É no mínimo arrojado.
Mas por nenhum momento se questiona a verossimilhança dessa personagem. Ao contrário, torcemos cegamente por ele, sem colocar em xeque nossos valores morais e bons costumes. É como se a opção de ganhar um troco com o mundo da metanfetamina não fosse tão horrível assim, “ok, poxa, sempre vejo isso por aí.”
É verdade que a atuação de Bryan Cranston ajuda a convencer-nos da trama, tendo ganhado elogios até de Antony Hopkins (leia a carta de Hopkins a Cranston).
De qualquer forma, já tem um tempo que comecei a reparar nessas personagens ambíguas dos programas contemporâneos. Não sei se é uma particularidade das novas tramas. Mas me parece ser um recurso cada vez mais popular.
É o caso, por exemplo, do vilão da novela Amor à Vida, ainda em exibição no horário nobre da Rede Globo. O Félix (Mateus Solano) carrega o mal em praticamente todas as suas ações. Deixou a sobrinha numa caçamba quando ainda recém-nascida, internou a irmã num hospício barra pesada, chantageou pessoas para chegar à presidência da empresa da família… entre outras peripécias dignas de um vilão da Rede Globo.
Mas em vários momentos o espectador sente uma compaixão pela personagem. Ri de suas piadas, sente muito quando ele é reprimido pelo pai por ser homossexual… Ainda essa semana, por exemplo, meus olhos lacrimejaram quando ele declarou amor pelo filho o qual descobriu não ser o pai.
Essas ambiguidades de Félix e Walter permitem, ao público, se identificar melhor com esse tipo de personagem. Claro que as caracterizações são mais exageradas que na vida real. Quer dizer, ainda não conheci nenhum professor meu que traficasse drogas (mas, quem sabe?). No entanto, só o fato deles serem mais complexos que simples mocinhos ou bandidos faz com que o espectador não se sinta (tão) subestimado pelos teledramas.
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*Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, estreia no NR a coluna mensal Transeunte Urbana. Ilustração de Camila Rocun, graduanda em Design Digital, ilustradora e apaixonada por cinema, divide seu tempo entre fazer arte pelo Portal R7 e ser mãe do Léo. Estreia hoje no NR.
Ele mal dá seta e já para na sua frente. Você para em seguida e leva um buzinaço que não lhe cabe. Mas que filho da puta! E ainda vai entrar na garagem do seu prédio. Agora fica aí, enrolando pra abrir o portão eletrônico. É só apertar o botão do controle, filho, não tem mistério não. Custa comprar uma bateria nova? Pronto, finalmente, um ano depois... Agora mais meia hora pra conseguir engatar a primeira. Mas foi. Aleluia, irmão!
Cacete! Não é que a vaga dele é mais fácil que a sua? Que filho da puta, com esse carrão enorme, todo automático, com sensor que apita em tudo que é canto. Tá na cara que é um desses novos ricos da Dilma. Deve pagar um por fora pro síndico. Agora você fica aí, fazendo manobra e o sujeitinho já parou, já se escapuliu do carrão, saiu todo apressado e vai tomar o elevador sem nem te esperar. Ok, esperou. Mas te fez correr. Fica embaçando no carro e agora dá de apressadinho aí, segurando a porta. Tem pressa de que? Piriri?
E esse terno? Lã fria risca de giz, camisa sob medida... Capaz que ganhe o dobro que você. Por isso corre tanto. Tem de subir logo pra abrir o Ipad e ver se não tem nenhum email do patrãozinho. Bem feito.
Rá, seu andar é mais alto. Mas o apartamento dele deve ser de dois quartos, cheio de televisores de led, home theaters e sofás reclináveis de veludo. Fica do outro lado do prédio, então a vista deve ser melhor também. Mas o que importa? Se tem de correr tanto pra responder o email nem deve conseguir parar em casa, muito menos olhar a vista.
Você pensa, tentando não olhar pro sujeitinho enquanto são içados juntos rumo ao céu, no caixote de metal espremido em meio a toneladas de concreto. E lá vem aquele silêncio constrangedor maldito. Ou:
- Esquentou, né?
- Pois é...
- Previsão disse que ia mudar o tempo, mas firmou.
- Parece que vai virar no fim de semana.
- Putz, é sempre assim. Sempre no fim de semana né? Quando o pessoal vai viajar, chove.
- Pois é.
- Boa noite.
- Boa.
E não é que o cara parece ser gente fina?
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Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de Victor Zalma, especial para o texto
Fico atordoada quando penso nela. Eu aqui, batucando num teclado macio e silencioso, tento colocar na tela pensamentos e frases que façam sentido para quem vier a ler, e também para mim, que tenho muita dificuldade com o que não me faz sentido. Quando acho que consegui alinhavar algo com começo, meio e fim, e que reflita o que estou querendo transmitir, me dou por satisfeita, faço uma boa faxina e declaro o texto pronto. Depois de receber uma ilustração saída dos neurônios e sentimentos de outra pessoa, será enviado ao editor e publicado na próxima sexta-feira. A partir daí, perco o rastro do que fiz. No máximo, consigo monitorar quantas pessoas se sentiram estimuladas a “curtir” ou comentar determinada crônica, na própria página digital ou por mensagens de correio eletrônico.
Para mim, essa tal rede é um mistério, tão grave e profundo quanto o da origem de todas as coisas. Juro. Um maravilhoso mistério. Tudo o que eu quiser saber, sobre qualquer assunto, pergunto a ela. Às vezes, a resposta é um tanto estranha, enviesada, mas sempre me dá dicas sobre como procurar melhor. Aliás, desconfio que as respostas esquisitas são muito mais um produto de perguntas imprecisas do que da capacidade de resposta. Ou vice-versa, se partirmos da perspectiva de que a precisão é um produto da inteligência, e não o contrário. É que, apesar da impressão de inteligência que nos causa, a rede não pensa. Nadinha. Ela só executa o que lhe comandam. E comando pode vir de tudo que é cabeça, né não? Por isso inventaram a hierarquia.
Impossível para mim captar as dimensões do que acontece. Não basta pensar no meu próprio país, com esse mundo de gente dentro, acessando milhões de computadores – e ainda longe de chegar a todos os lugares. As contas andam na casa dos bilhões de seres humanos fuçando o espaço digital, cada um buscando atender seus interesses e sua curiosidade. Muitos já participam de redes dentro da rede, compartilhando interesses comuns e retransmitindo exaustivamente todo tipo de conteúdo.
Daí a ocupar o lugar do contato pessoal e do olho no olho, é um passo. Basta um descuido ou uma acomodação à cadeira e ao teclado. A conexão wi-fi disponível em lugares públicos está aí para isso mesmo. Acho que cheguei aonde queria quando comecei este texto. Não consigo pensar na vida sem ver, sentir, tocar e falar com gente de carne e osso. Passear pelas redes sociais, visitar a Muralha da China e as pirâmides egípcias, comprar bugigangas, ler notícias, artigos, livros, ouvir música, assistir a vídeos sobre tudo quanto há, conversar com amigos distantes, vale tudo. Mas o calor e a emoção de lidar com pessoas e coisas concretas ainda vale muito mais.
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*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.
por Carlos Conte ilustração Marcelo Martins Ferreira*
Outro dia, enquanto lia o “Conto de Escola”, de Machado de Assis, e discorria sobre o dilema ético da história, um aluno me perguntou se alguma vez já colei ou recebi cola. Dizer o que para crianças de 12 anos? Ainda mais quando se é professor de uma disciplina chamada Orientação de Estudos, cujo objetivo deveria ser ensinar técnicas, ferramentas de estudo, não a cola. Sorri ao me lembrar do provérbio aprendido na adolescência: “Quem não cola não sai da escola”. Nada de “contaminar” os meninos!, pensei. Mas ao mesmo tempo, lembrei-me do Filipe, meu amigo moçambicano da época da faculdade, e resolvi contar-lhes sobre a minha última cola.
Filipe estava terminando o intercâmbio na Faculdade de Economia da USP. Nós nos conhecemos no curso de Estatística do IME, obrigatório para economistas e aspirantes a cientistas sociais, como eu. Sempre o via na fila da monitoria, antes do início das aulas do período noturno, e logo nos identificamos: ambos odiávamos as aulas de Estatística. Eu, na verdade, porque não entendia patavina, e minha primeira reação diante daquilo que não entendo é detestar. Já o Filipe se saía melhor com os números, mas pelo fato de estar cursando simultaneamente cinco disciplinas – as cinco disciplinas do seu último semestre de intercâmbio –, não tinha muito tempo para se dedicar a cada uma delas.
Graças ao Filipe, tirei cinco na primeira prova. Nossas sessões de estudo na cantina, à base de Coca-Cola e esfirra de calabresa, tinham funcionado. Filipe tirou sete. Mas poucos colegas tinham conseguido ficar acima da média, confirmando a má fama dos professores do IME de serem os maiores carrascos do campus. Todos estávamos no mesmo barco – cientistas sociais, economistas. Todos deveríamos passar pela dura provação que era convencer os professores de Estatística de que tínhamos aprendido minimante sua disciplina.
Filipe, então, deu uma sumida. Começou até a faltar nas aulas, o que não era comum. Não o via mais nos plantões para tirar dúvidas, nem na cantina para estudar. Um dia ele apareceu no samba da Biologia: estava uma pilha de nervos. Nas vésperas da segunda prova, ele acumulava muitas faltas e ainda nem tinha começado a estudar. Compreensível, porque cursava, além dessa, mais quatro disciplinas na Economia e por isso não lhe sobrava tempo. Mas o pior de tudo, confessou-me virando a cerveja, era que não poderia nem pensar em ir mal nesse segundo exame; seu pai o trucidaria! Isso porque não poderia fazer a terceira prova (uma última oportunidade para os que não atingiram a média), que seria aplicada em meados de dezembro, época em que Filipe já deveria estar em Maputo, onde seria padrinho do casamento da irmã. Seu pai já havia inclusive comprado a passagem.
Impossível, mesmo para o bom matemático que era o Filipe, pegar a matéria em poucos dias. Eu vinha me matando há semanas para aquela segunda prova. Pedi-lhe calma. Pensaríamos numa saída. Comprei meia dúzia de fichas de cerveja. Filipe já estava caindo na cachaça. Seria uma tragédia familiar caso tivesse que ficar em São Paulo para fazer a terceira prova! Para sempre seria lembrado como o padrinho relapso, o irmão desnaturado. A solução emergiu do estudante malandro que um dia já fui, mas que ainda vive meio escondido no meu âmago. Cola! Ora, Filipe, uma medida emergencial para uma situação desesperadora. Ninguém vai ficar sabendo, meu chapa. Um dia escreverei uma crônica sobre isso, mas prometo que mudo seu nome.
No dia da prova, fingindo estar resfriado, deixei um rolo de papel higiênico em cima da mesa. À minha direita, duas carteiras ao lado (porque o professor exigia que uma carteira ficasse vazia entre nós), estava Filipe, aparentemente concentrado. Meia hora depois, o sinal: deixei a caneta cair no chão. Filipe desatou a tossir e espirrar (que atuação!), a ponto de ficar vermelho. Educadamente, levantei-me e lhe passei o papel para assoar o nariz. As respostas estavam numa folha amassada dentro do rolo. Com essa cola, punha em risco minha nota, meus créditos, minha vida acadêmica.
Valeu a pena ver a felicidade de Filipe uma semana depois, quando chegou o resultado. Sete e meio! Desce meia dúzia de Brahma! Prometeu-me nunca mais se esquecer do meu ato de generosidade e que, se um dia for a Maputo, me receberia na sua casa e me levaria aos melhores lugares da cidade. Eu, seu amigo brasileiro. Filipe, meu amigo moçambicano. Disse aos meus alunos, para encerrar, que a cola é uma prática condenável, reprovável (e todo esse papo aranha que a gente ouve desde pequeno...), mas que em alguns casos, só em alguns casos!, ela se justifica.
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*Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Ilustração de Marcelo Martins Ferreira, design e músico, especial para o texto
*Ilustrador e caricaturista, Carvall é um dos grandes nomes da ilustração brasileira; professor do Senac há quase 20 anos, mantém o Estúdio Saci e colabora com o NR desde 2011
por André Carvalho ilustração Kelvin Koubik "Kino"*
Hildemar Dinizrecebeu o apelido que carregaria para o resto de sua vida aos 6 anos de idade. Vivia em Nova Iguaçu, que naquela época (final da década de 1930) estava mais para roça do que para subúrbio urbano. Certo dia, quando um amigo lia um gibi, em voz alta, para toda a turma, achou graça na parte da história que falava do “grande monarca”. Na sapecagem de criança, os amigos começaram, então, a lhe chamar de “Monarca”. Com o tempo, virou “Monarco”, nome com o qual o futuro portelense se tornaria conhecido.
Monarco celebrou, no último dia 17 de agosto, a chegada da 80ª primavera em sua vida e a festa de comemoração não poderia ser melhor. Na quadra de sua Escola de Samba do coração, o “Portelão”, cantou, sambou e festejou cada instante das oito décadas intensamente vividas, ao lado de amigos e familiares. Memória viva da Portela, Monarco, desde maio deste ano, é presidente de honra da agremiação, o que representa um sopro de esperança para uma legião de portelenses que, nas últimas décadas, viram interesses econômicos sobrepujarem toda uma tradição e uma história de cultura popular.
A chapa de oposição à antiga diretoria – que fez a Portela se acostumar a não mais brigar por títulos, sendo obscurecida por rivais menos tradicionais e com menos gabarito no quesito “samba” – venceu as eleições e pretende expurgar a conduta, nociva, de valorizar mais o aspecto financeiro ao cultural dentro de uma Escola de Samba. Apesar do jejum de 29 anos sem títulos, Portela ainda é a maior vencedora do Carnaval carioca. Nesta nova gestão, tão significativo quanto à presença de Monarco na composição da diretoria é o fato de o próprio presidente ser intimamente ligado à memória musical da Portela – Serginho Procópio, o novo mandatário, é cavaquinista da Velha Guarda, filho de um dos maiores instrumentistas que já passaram por lá, Osmar do Cavaco.
Sendo assim, a celebração de seu 80º aniversário foi, de fato, uma ode à Velha Portela. Estavam lá Waldir 59 – sócio número 1 da Escola –, Wilma Nascimento, Dodô, Noca, Cabelinho, Tia Surica, Tia Eunice, além de toda a Velha Guarda, incluindo seu padrinho, Paulinho da Viola. Familiares, como o filho Marquinhos Diniz e a neta Juliana Diniz, bem como amigos caros ao velho bamba, como as cantoras Cristina Buarque e Teresa Cristina, o veterano sambista mangueirense Nelson Sargento e o cartunista Lan também marcaram presença.
Aos 80, Monarco recebeu o cargo e o diploma de guardião da memória portelense, algo que sempre o fez, de maneira espontânea. Nesse contexto, os festejos terem sido realizados no “Portelão”, e não na “Portelinha”, primeira sede da escola, foi emblemático – a nova diretoria faz questão de fazer da sede oficial a casa da Velha Guarda, de modo a ressaltar a união entre a Escola de Samba, moderna, atual, inserida em um contexto de competitividade, e a memória musical desta mesma (a tradição), representada naqueles velhos bambas da Portela de outrora. A “Portelinha” foi casa da Velha Guarda durante os anos nebulosos da antiga administração. Assim, apesar de sua beleza, de seu significado e seu charme, ficou estigmatizada como o local onde se relegavam os “velhos”, que não poderia representar a Portela “oficial”, em detrimento do “novo”, moderno e mais adequado aos tempos atuais, esvaziado da tradição portelense.
Memória dos mais velhos, legado para os mais novos
Monarco é a memória da Portela. Sempre foi. Agora, está oficialmente legitimado nessa função. Para os sambistas mais novos que se interessam pela bagagem cultural, pelo acervo valiosíssimo que faz da Portela uma Escola de Samba rica em tradição, o velho sambista também é a principal referência.
Sambistas de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, desvinculados de uma trajetória feita dentro de Escolas de Samba – longe, inclusive, da Portela – celebram o compositor frequentemente, promovendo rodas de samba com o portelense e aprendendo antigos sambas – muitos, quase totalmente esquecidos –, de forma a recuperar e tirar do ostracismo verdadeiras pérolas do nosso cancioneiro.
Monarco é a pessoa certa para lembrar aquele samba inédito do Alvaiade, dos irmãos Andrade, a melodia do Quininho, a “segunda” que nunca foi gravada, o verso original do samba que fez sucesso, o samba de terreiro de Paulo da Portela que a Escola desfilou nos anos 30 etc. A facilidade para lembrar sambas compostos há mais de meio século é herança de outro grande sambista da Portela, parceiro de primeira hora de Monarco em tempos passados: Alcides, o Malandro Histórico.
Desde cedo, Monarco fez questão de se associar aos sambistas mais velhos da Portela, procurando adotar, inclusive, a mesma linha de composição dos veteranos. Entre seus parceiros na Escola, estão nomes como Manacéa, Francisco Santana, Mijinha, Antônio Caetano e Alvaiade, bem como o grande baluarte da escola, Paulo da Portela, com o qual fez uma série de parcerias póstumas, colocando “segundas” em sambas curtos criados pelo bamba.
Curiosamente, o compositor pouco se associou aos sambistas da sua mesma faixa etária, como Candeia (com ele, fez apenas um samba, o clássico “Portela é uma família reunida”), Casquinha e Picolino (conhecidos como a Turma do Muro), preferindo manter a tradicional linha de composição dos mais velhos - depois superada e modificada por esta nova geração, inclusive, nas disputas de samba enredo.
Velha guarda, aos 37 anos
Foi pelo fato de manter esta linha e caminhar lado a lado com os sambistas que participaram da fundação da Portela e edificaram o estilo de composição portelense, que Monarco, aos 37 anos, foi convidado a integrar a primeira formação da Velha Guarda da Portela, em 1970, idealizada por Paulinho da Viola.
Dotado de voz potente, Monarco era presença marcante nas rodas de samba no terreiro da Portela, tirando da mente sambas das mais diversas procedências – inclusive seus -, cantados em uma afinação impecável. Assim, foi um dos selecionados para o registro pioneiro da Velha Guarda da Portela, tendo a honra de ter sua composição elevada a nome do disco: “Portela, Passado de Glória”. Trabalhando duro, como peixeiro, entretanto, o sambista não pôde comparecer no estúdio, no dia da gravação (não havia, à época, para cidadãos suburbanos pobres, a opção de querer, ou tentar, levar vida de “artista” – a necessidade falava mais alto).
Esta frustração foi dissipada nas gravações seguintes da Velha Guarda, já nos anos 80, quando Monarco foi intérprete de várias faixas, atuando ativamente, também, na elaboração do repertório, fruto de sua memória sagaz. Seu cantar, desde o primeiro registro, tornou-se evidente a beleza e a força. Tem “gogó” de sambista de terreiro, que canta alto para fazer-se ouvir em meio ao rufar de tamborins, pandeiros e cuícas. Lançou o primeiro disco solo em 1976, pela Continental, com capa ricamente ilustrada por Lan. Outros quatro viriam depois.
Um compositor portelense
Como compositor, emplacou grandes sucessos. Sozinho ou com seus parceiros da Portela, teve registrado sambas por João Nogueira, Martinho da Vila, Roberto Ribeiro, Beth Carvalho, Clara Nunes, Paulinho da Viola, entre outros. Clássicos, como “Tudo menos amor” (com Walter Rosa), “Quitandeiro” (com Paulo da Portela) e “Lenço” (com Francisco Santana) foram fartamente executados em uma grande parcela de lares brasileiros, nos anos 70.
A partir dos anos 80, Monarco formou uma parceria com o compositor Ratinho que seria muito gravada por Zeca Pagodinho e resultaria em sucessos retumbantes (que ajudaram a melhorar a condição de vida do sambista), como “Coração em desalinho” e “Vai vadiar”. Além das dezenas de músicas gravadas, o compositor possui, ainda, uma série de inéditas – e, claro, traz na lembrança outras tantas composições de portelenses de outrora.
Por muito tempo, essa linha de sambas da Portela, bem como a própria tradição portelense perderam espaço. Nas rodas de samba poucos se lembravam dos sambas de terreiro dos compositores da antiga. Dentro da Escola então, nem se fala.
Monarco se viu nesta aridez por muitos anos, muitas gestões. Agora, é chegada a hora da Águia da Portela voar, altaneira, novamente. No belo samba de Argemiro do Pandeiro e Francisco Santana, feito quando os títulos começaram a escassear, já há várias décadas, o estado de espírito dos portelenses era retratado nos seguintes versos: “Vitória para a Portela era banalidade, mas da vitória estou sentindo saudade”. Nos últimos anos, Monarco concordou, triste e resignado. Agora, porém, quer que as glórias do passado voltem a ser, novamente, doces trivialidades.
"Escute, na íntegra, o disco de estreia de Monarco, lançado pela Continental, em 1976"
*André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba. Ilustração de Kelvin Koubik, "Kino", colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre
O logo da rede Globo é uma síntese perfeita do que
deveria ser a função de uma tv aberta.
O tempo mostrou, contudo, que os papéis de sujeito (o mundo)
e espelho (a tv) se inverteram.
Hoje o mundo é um espelho da tv!
*Ilustrador e caricaturista, Carvall é um dos grandes nomes da ilustração brasileira; professor do Senac há quase 20 anos, mantém o Estúdio Saci e colabora com o NR desde 2011
Vivi muitos anos dentro de ambientes corporativos bastante variados, em empresas privadas e estatais, órgãos públicos e agências de cooperação internacional. Posso dizer que conheço bem a vida nos escritórios, gabinetes, reuniões e eventos. Inúmeros são os causos colecionados, exemplos de grandeza, mesquinharia, vexames e alegrias, as pastilhas do mosaico do nosso dia-a-dia na ralação.
No mundo moderno, urbano e globalizado, trabalhar em escritórios tornou-se quase inescapável. Não importa se você está num órgão de governo, numa empresa de alta tecnologia, ONG ou transnacional de produtos químicos, ou ainda num banco, os escritórios são todos muito parecidos. Lembro-me de ter encontrado em muitos locais a missão da empresa ou instituição exposta com destaque e certo orgulho. Quase sempre, falava em busca da excelência nos produtos ou serviços, ética, bem-estar do ser humano, respeito ao meio ambiente, satisfação do cliente e outras expressões grandes e edificantes. Nenhuma delas menciona lucro acima de tudo, acionistas ávidos, entraves burocráticos, corrupção, jogo político, disputas de poder e outras lindezas que efetivamente determinam as práticas e os resultados.
Tampouco a estratégica responsabilização de quem está embaixo na pirâmide hierárquica, quando a vaca vai pro brejo, aparece em qualquer manual de conduta ou de gestão, mas quem já esteve ou está nos andares inferiores sabe bem como é. E digo mais: burocratas aplicados e convictos sempre se dão bem, por maior que seja sua cara e recheio de nada. Nos ambientes burocráticos, conhecer as engrenagens e se apropriar delas é tudo. A pessoa alérgica a graxa nunca vai usufruir das benesses reservadas a quem lê os protocolos e manuais com a determinação de descobrir saborosas e suculentas justificativas e benefícios cifrados, que jamais serão divulgados.
A propósito, engana-se quem supuser que os setores de recursos humanos sejam dedicados às pessoas; eles são peças essenciais da engrenagem das conveniências, lucros e vantagens da empresa ou do executivo principal, a despeito da legislação, da “missão”, das políticas de humanização do trabalho blábláblá.
Dito isto, de forma um tanto atabalhoada, quero deixar registrado que trabalhar é muito bom, principalmente quando a gente consegue ver o resultado daquilo que faz, que com frequência pouco tem a ver com metas, planos e estratégias. Também, o quanto figuras carismáticas, inspiradoras e bem humoradas podem fazer a diferença no trampo, tornando o ambiente de trabalho mais equilibrado, leve, sensível e divertido, apesar do piano a ser carregado nas costas. Estas, que estão na pasta “inesquecíveis” do meu arquivo pessoal, e que, mesmo sem o saber, muitas vezes me impediram de desistir nos vários momentos de exasperação, melhoram tudo.
*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.
Há um incômodo novo me atazanando o juízo. Se estou lendo, dirigindo, cozinhando ou acordada no meio da noite, ela me aparece e demora para ir embora. Desde que tomei conhecimento do assunto, tem sido assim. Por qualquer coisa, Belén me vem à cabeça. A menina chilena de onze anos, que está grávida do padrasto, por quem foi seguidamente abusada, com a conivência de sua mãe. O aborto é radicalmente proibido lá, em qualquer circunstância. Portanto, apesar de algumas tentativas de argumentar que a gestação põe em risco a vida de Belén (ela tem onze anos!), e que caíram no vazio legal e na indiferença do Estado, ela terá o bebê. Ponto final. Belén que se dane.
São tantos elementos de hipocrisia, crueldade e cinismo, que fico imaginando a sensação de impotência e a frustração das várias pessoas sensatas e solidárias que, em diferentes níveis, tentaram interferir em favor da menina. A tragédia de Belén é completa, profunda e irreparável.
Não quero alimentar este incômodo, nem me ocupar de domá-lo até que se dissolva. Ele só me terá alguma serventia se puder contaminar você. E a hora é agora. Aqui no Brasil, os novos e velhos arautos da hipocrisia estão tentando se aproveitar de uma conjuntura aparentemente favorável para fazer aprovar uma nova legislação, que jogará o aborto na ilegalidade total, além de promover vários outros absurdos sobre o estupro e os direitos das mulheres. Incríveis absurdos, pelo que representam de obscurantismo e ignorância – sem falar do cinismo, onipresente quando se trata dos temas relacionados à sexualidade.
Conheço bem os argumentos de quem defende a manutenção de qualquer gestação em qualquer circunstância, quase todos de natureza religiosa. Não me cabe questionar crenças ou convicções, mas não posso deixar de observar que tais argumentos deliberadamente prescindem de dois elementos a meu ver essenciais para a defesa daquilo que entendemos como civilização humana: o respeito ao direito de decisão sobre temas de foro íntimo e a compaixão.
Incomode-se junto comigo e contamine. Precisamos mas é de andar para a frente, não para trás. O retrocesso não vai salvar nada nem ninguém. Quem diz que vai sabe que está mentindo.
Enquanto eu pensava e escrevia esse texto, nasceram, na mesma semana, os dois bebês que eu já havia mencionado aqui. Desejados, esperados e recebidos como celebrações da vida. A chegada deles só reforça ainda mais tudo o que eu disse acima.
*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.
por Tomás Chiaverini ilustração Marcelo Martins Ferreira*
O ser humano é um bicho estranho. E não estou falando de um ser humano específico, daquele taxista incrivelmente gordo, da cunhada estrábica, do comentarista de futebol com seu bigode gigante amarelado de nicotina. Estou falando do ser humano arquetípico. Estou falando de Scarlett Johansson.
Pensem na Scarlett, caros leitores desocupados. Pensem na Scarlett nua, vaporosa, saindo do banho ou levantando da sua cama king size numa ensolarada manhã hollywoodiana. Lindo? Pois bem, pensem mais um pouco.
Primeiro há essa pele estranhamente lisa. Scarlett não tem escamas, como os peixes; não tem penas, como os pássaros; e, a despeito de ser um mamífero, quase não tem pelos (isso descontando raspagens e depilações).
E os parcos pelos que Scarlett tem são estranhamente simétricos. Tufos cobrindo parcialmente os órgãos sexuais, embaixo dos braços e, o mais bizarro, um enorme penacho brotando da cabeça, e da cabeça apenas. Um tipo curioso de pelo que não para nunca de crescer e que, apesar de sua aparente inutilidade evolutiva e evidente comicidade estética, ganha especial atenção de Scarlett. Ela devota horas de seu dia a limpar, hidratar, alisar e pentear essa pelagem, facilmente humilhada por qualquer gato doméstico.
Aliás, há quem chame Scarlett de gata, mas, convenhamos... Scarlett sequer tem cauda. Pensem, caros leitores desocupados. Que outro mamífero é miseravelmente desprovido de calda? Pois Scarlett é. Que tristeza. Imaginem a cerimônia do Oscar com belas caldas felpudas e enfeitadas, brotando dos vestidos Versace. E como seriam mais fáceis os primeiros encontros. Scarlett está abanando o rabo, as chances são boas. O rabo da Scarlett está parado, melhor mudar o papo que está dando sono. Espetado para cima, algo está irritando a moça...
Mas Scarlett não tem rabo. Anda por aí com esse racho no meio da bunda. E, por falar em andar, que postura mais esquisita. Em pé, com a barriga e as vísceras à mostra, expostas a qualquer eventual ataque inimigo. E os seios? Duas inexplicavelmente exageradas porções de gordura, atarraxadas bem no alto do tronco, num evidente erro de projeto, que prejudicam sobremaneira o equilíbrio de Scarlett.
Há também os braços e as pernas. Ah, as longas pernas da Scarlett. Mas tão longas? Alguém já viu um bicho com membros tão compridos? E não é que Scarlett vá sair correndo e saltando por aí, nada disso. Tem esses membros longuíssimos e pra que? Cruzar e descruzar as pernas completamente livres de pelos, penas e escamas?
E nas extremidades há os pesinhos e as mãozinhas da Scarlett. Eca. Dedos desproporcionalmente longos e cravejados de rugas. Unhas à mostra, sem qualquer cobertura e, mais uma vez, com pouquíssima utilidade, uma vez que, livre de pêlos, Scarlett raramente se vê acometida de pulgas ou piolhos. Isso sem falar nas veias e nos ossinhos à mostra embaixo da pele fina, qual o intestino de uma lagartixa.
Por fim, há o rosto. E o Woody que me desculpe, mas Scarlett tem o rosto achatado. Ao contrário de praticamente todos os mamíferos, não tem focinho e sim essa boca embutida, rasgada no meio da cara. O nariz teve de ser colocado lá no meio, de qualquer jeito, embaixo dos olhos estupidamente juntos, e ainda por cima arrematados por um tufinho ridículo de pelos.
Ao lado dessa aberração evolutiva, um caso à parte. As orelhas. Sério. Que coisa mais asquerosa! Dois apêndices de pele pelada, enrugada, presos do lado de fora da cabeça, e, pra piorar desprovidos de músculos que os movimentem em busca do som inimigo.
Pois é. Um desastre completo. E agora imaginem, caros leitores, como os bichanos, com toda a sua elegância, seu pelo naturalmente liso e sedoso, sua longa calda sinuosa, sua postura elegante, suas genitálias ocultas, seus membros proporcionais, suas patinhas cobertas e acolchoadas, suas unhas retráteis, seu focinho saliente, e suas ágeis orelhas triangulares deve se ofender quando alguém olha para uma foto da Scarlett e irresponsavelmente sentencia: “que gata”.
*Com a ilustre colaboração do biólogo contrariado Dario Chiaverini. *Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de estreia de Marcelo Martins Ferreira, ilustrador, design e músico.
Esses meninos e meninas desafiando a versão limpinha de país que passou a frequentar os estádios, e que queriam que exibíssemos aos gringos no embalo das copas e olimpíadas. A perplexidade geral da nação diante da mobilização das pessoas por causas supostamente incompreensíveis ou menores, justo agora, quando estávamos nos achando tão classe média. A incompetência renitente dos senhores do poder para lidar com gente atrevida, que não aceita participar do show “na maior arquibancada do Brasil”, esta não me surpreende.
Continuarmos existindo como país e como sociedade, a despeito de todas as atrocidades, injustiças, corrupção, escravidão e roubalheira perpetradas, primeiro pelos invasores europeus e depois por seu legado cultural e político, suficientes para aniquilar qualquer possibilidade de futuro. Constatar que estamos longe de ser um caso único no mundo e que, diferentemente do que muitos de nós acreditamos, nada disso é exclusividade dos brasileiros.
A legitimação do estupro estar sendo considerada em proposta de legislação nacional – sem falar do malfadado tema da “cura gay”. Mulheres tratadas como viveiros de plantas em pleno século 21. Que se tenha aberto tanto espaço para o fundamentalismo religioso na agenda pública, na base da chantagem eleitoral. Dá pra acreditar?
Presenciar a solidez dos jornais, revistas, livros, discos, CDs, dicionários, enciclopédias, editoras e redes de televisão desmanchar-se no não-lugar da internet, que é tudo e nada ao mesmo tempo. Ficar sabendo que os americanos estão sendo vigiados na privacidade de seus computadores e telefones, igualzinho a Stasi e a KGB faziam no passado.
Sair de casa e ter que driblar esta quantidade inacreditável de carros nas ruas; ainda não me acostumei. O contato retomado, graças ao Facebook, com pessoas que faziam parte da minha vida há trinta, quarenta anos. Ouvir “Pra sonhar” no rádio pela primeira vez, desavisada. Cada página da poesia do Leminski. O delicioso absurdo semanal do “Pé na cova”, brincando com a vida e a morte sem frescura. Um pungente ensaio fotográfico sobre travestis na Piauí.
Sentir o tempo passar e mesmo assim duvidar de que tanto tempo passou.
*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.
por André Carvalho ilustração Kelvin Koubik "Kino"*
Uma grande fila se formava em frente ao sobrado localizado na Rua da Carioca, 53, no centro do Rio de Janeiro. Todos queriam ver de perto aqueles baluartes, que por muito tempo ficaram escondidos da indústria fonográfica e do público. Naquela noite, o que se ouviria não seria mais o bolero e o samba-canção, ritmos que dominaram as rádios nos anos 50, e tampouco a bossa nova, que ainda ressoava com força naquele ano de 1963. Era tempo de samba, novamente o samba. Cartola e Dona Zica eram os anfitriões. Cada um fazendo o que mais sabia. Ele, cantando suas belas composições, ao som de seu violão. Ela, cozinhando seus saborosos quitutes. A combinação encantava, fascinava e atraía multidões. Tempos de Zicartola.
A roda já estava formada. Manoelzinho da Flauta se aquecia solando um choro de Pixinguinha, acompanhado pelos violões dos irmãos Walter e Waldir e o pandeiro de Jorge dos Cabritos. Enquanto Caçula afinava o cavaquinho, notava-se a satisfação dos presentes. Os músicos formavam o conjunto regional da casa e iriam acompanhar, em poucos instantes, o lendário sambista Zé Keti.
Zé Keti foi o primeiro a se apresentar e trazia em seu rosto um sorriso sincero. Poder viver o samba em sua plenitude, em um espaço onde aqueles bambas eram, novamente, protagonistas, era motivo de celebração. Pouco antes de subir ao palco, travou uma parceria inédita, criando a melodia para os versos de outra figura proeminente do local, Hermínio Bello de Carvalho. Antes de entoar o novo samba - “Pobre não é um / Pobre é mais de cem / Muito mais de mil / Mais de um milhão” -, o sambista da Portela cantou alguns de seus clássicos, como “A voz do morro” e “Mascarada”, acompanhado do regional da casa.
A apresentação do sambista portelense agradava em cheio os presentes. A cerveja era bebida em profusão, sendo servida por quatro copeiras, mulatas de Mangueira vestidas à rigor, em verde e rosa, mesma cor da louça e da decoração da casa. Na plateia, amigos de Zé Keti se acotovelavam nas mesas, espremidas naquele espaço de celebração à música brasileira.
Quitutes caprichados, preparados com carinho pela anfitriã Dona Zica, eram servidos. Pratos como rabada, mocotó, carne seca com abóbora e doces dos mais diversos tipos ganhavam sugestivos nomes no cardápio, cuja ilustração fora criada por Heitor dos Prazeres. Os clientes, então, esbaldavam-se ao pedir o “Filé à Ismael Silva”, o “Doce de coco à Elizeth”, entre outras iguarias.
Dentre as amizades recentes firmadas por Zé Keti estava Carlos Lyra, músico ligado à bossa nova que se encantava com a força da tradição contida nas composições daqueles sambistas. Junto a ele, jovens integrantes do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC–UNE), na ilegalidade por conta do Golpe Militar, faziam daquele espaço, além de uma trincheira cultural, um centro de resistência política.
A nova safra de sambas de Zé Keti trazia outras criações inspiradas. Uma delas causou grande impressão nos presentes. Havia pouco, a ditadura militar instaurara-se no Brasil, gerando um clima de medo e desconfiança. Apesar disso, Zé Keti não se calou. Pediu um sol maior, sendo prontamente atendido pelo cavaco de Caçula, e atacou: “Podem me prender / Podem me bater / Podem até deixar-me sem comer / Que eu não mudo de opinião / Daqui do morro eu não saio não”. O samba daria origem ao espetáculo “Opinião”, um musical de protesto à Ditadura Militar que juntava ao palco Zé Keti, João do Vale e Nara Leão, e contava com texto de Armando Costa, Paulo Pontes e Oduvaldo Vianna Filho (integrantes do CPC-UNE), direção de Augusto Boal e direção musical de Dori Caymmi.
Zé Keti atuava como mestre de cerimônia, diretor musical, anfitrião... Cartola gostava de encontrar os amigos, cantar e tocar, mas se incomodava com o tumulto, a falta de tranquilidade e intimidade para ficar quieto tocando o seu violão, compondo suas músicas. Era reservado. Sobrava para seus amigos, como Zé Keti, Hermínio Bello de Carvalho, Sérgio Cabral e Albino Pinheiro, então, a tarefa de organizar e conduzir tudo.
Os versos de “Opinião” ainda ecoavam pelo Zicartola, causando admiração nos presentes – e também preocupação (e se houvesse algum agente da repressão infiltrado ali?) –, quando subiu ao palco o jovem bancário Paulo César, que logo entraria para a história da música brasileira. Havia um porém: Paulo César não era nome de sambista. Inspirados em Mano Décio da Viola, sambista do Império Serrano, então, Zé Keti e Sérgio Cabral decidiram que, a partir daquele dia, aquele jovem de 20 e poucos anos de idade seria o “Paulinho da Viola”, nome que se tornaria grande cartaz na música popular brasileira.
Para o número de Paulinho, foram convidados a se apresentar com ele Elton Medeiros, na caixinha de fósforo, Nelson Sargento, ao violão, Jair do Cavaquinho, com suas palhetadas que faziam inveja até mesmo a Jacob do Bandolim, e o tamborim bem ritmado de Anescarzinho do Salgueiro.
Enquanto se apresentavam, Hermínio Bello de Carvalho tomava uma cachacinha com Clementina de Jesus na cozinha. Entre uma dose e outra, o jornalista Lúcio Rangel apareceu, apresentando ao compositor e produtor musical uma das grandes estrelas da música brasileira do começo do século, que amargava, há anos, um triste ostracismo, Aracy Côrtes. Hermínio olhou para os lados, viu aquelas duas mulheres talentosas e desconhecidas da nova geração, mirou a roda de samba, formada por aqueles sambistas de Escolas de Samba, cada vez mais desalojados de seus próprios terreiros, e pensou: “E se eu reunisse esse time em um palco? Acho que isso dá samba!” (pouco tempo depois, Hermínio Bello escreveria o espetáculo “Rosa de Ouro”, musical que reunia as duas cantoras veteranas, além de Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Nelson Sargento, Anescarzinho do Salgueiro e Jair do Cavaquinho).
Após os músicos “da casa” se apresentarem, era hora do Divino Cartola mostrar toda a beleza de seu repertório. Dona Zica, então, tinha que acordar seu companheiro, que não gostava de bagunça, madrugada e sereno – seu negócio era a boemia vespertina. De chinelo, contrariado e emburrado, ele cantava alguns sambas, antes de voltar a fazer o que mais gostava naquele horário: dormir.
Depois da apresentação do anfitrião Cartola, Hermínio Bello de Carvalho assumiria o posto de mestre de cerimônias para apresentar o último ato da noite. Era chegada a hora de homenagear os grandes nomes da música popular brasileira com a “Ordem da Cartola Dourada”, honraria idealizada pelo jovem poeta. Naquela noite, a celebração seria destinada a Ciro Monteiro. Satisfeito, feliz, realizado, o sambista que fez história na Era de Ouro do Rádio recebia o reconhecimento por sua destacada obra.
Ciro Monteiro estava emocionado, feliz em poder cantar seus grandes sucessos para aquela plateia, que ouvia tudo compenetrada, absorvendo cada instante, cada acorde, cada síncope, cada divisão: “Baiana que entra na roda só fica parada / Não canta, não samba, não bole, nem nada / Não sabe deixar a mocidade louca...”. Grandes clássicos do samba, como “Falsa baiana”, de Geraldo Pereira, eram cantados por ele e acompanhados por todos. Uma grande animação pairava no ar.
Se dependesse do anfitrião Cartola, no entanto, o samba não demoraria muito para acabar. Irremediavelmente, ele fazia com que a casa fechasse às 23h, levando o público a buscar outras alternativas de diversão nas redondezas, como a Gafieira Estudantina.
O saldo final das noites era pouco dinheiro, muita conta pendurada (“parecia uma mangueira cheia de galho, de tanta pendura que tinha”, dizia Dona Zica), e a certeza de que o casal não nascera para ser empresários da noite. Cartola era sambista e Dona Zica, quituteira. O Zicartola não duraria muito, encerrando suas atividades em 1965.
Neste curto tempo de existência, o restaurante foi palco da consagração definitiva de Cartola e do reconhecimento de gênios como Nelson Cavaquinho e Zé Keti (até então lembrados apenas no meio musical, entre compositores e sambistas de Escolas de Samba), além de ter dado o pontapé inicial na carreira de Paulinho da Viola, uma das mais sólidas entre os sambistas de todos os tempos.
O Zicartola foi um templo do samba, um espaço onde se reunia a fina flor da música popular, entre veteranos compositores de Escolas de Samba e jovens sambistas, que iniciavam ali trajetórias musicais de grande relevância. Em tempos em que se destacava no meio musical a bossa nova, o bolero, o samba-canção e até mesmo a novidade do rock, graças a Cartola e Dona Zica, os sambistas reencontraram um lar, um espaço para cantar, compor, tocar samba, celebrar a arte que brotava espontânea entre aqueles compositores populares. No Zicartola, o samba voltava a triunfar.
1 - Cicatriz (Zé Keti – Hermínio Bello de Carvalho) – Zé Keti (1967) 2 – Opinião (Zé Keti) – Zé Keti (1996) 3 –Falsa baiana (Geraldo Pereira) – Ciro Monteiro (1944) 4 – Pout-porri Rosa de Ouro I (Vários compositores) –Conjunto Rosa de Ouro (1965) 5 – Pout-porri Rosa de Ouro II (Vários compositores) –Conjunto Rosa de Ouro (1967) 6 – Coração vulgar (Paulinho da Viola) – Conjunto A Voz do Morro (1965) 7 – Sorri (Zé Keti – Elton Medeiros) - Conjunto A Voz do Morro (1965) 8 – Cuidado (Nelson Sargento - Marreta) – Conjunto A Voz do Morro (1966) 9 – Tive sim (Cartola) – Cartola (1974) 10 – O sol nascerá (Cartola – Elton Medeiros) – Cartola (1974) 11 – Pode sorrir (Nelson Cavaquinho – Guilherme de Brito) – Nelson Cavaquinho (1973)
*André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba. Ilustração de Kelvin Koubik, "Kino", colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre
Depois de vários dias de viagem, tudo o que eu queria era voltar pra casa, mas no meu caminho havia uma greve de controladores de voo. Nenhum avião circulava pelo espaço aéreo da Bélgica durante a greve, que inicialmente não tinha duração prevista, mas acabou sendo de apenas oito horas. Só que naquele momento ninguém sabia disso.
A empresa aérea decidiu, então, nos mandar de ônibus para o aeroporto francês mais próximo, e de lá para o nosso destino, Lisboa, de avião. Essa operação demorou muito mais do que o tempo do voo cancelado, e eu perdi minha conexão de Lisboa para Brasília. Raiva, frustração e o estresse de um dia que parecia não ter fim. Até que, noite bem entrada, cheguei a um hotel designado pela companhia. Só poderia seguir viagem na noite seguinte.
Ao acordar, de manhã, e olhar pela janela, perdi o fôlego. Estava num andar muito alto, de frente para o Tejo, com uma ampla vista da cidade. Era inevitável pensar no “inevitável” e na opção de relaxar e gozar. Fui nessa.
Peguei um táxi rumo à Praça do Comércio, que, na minha memória de mais de dez anos atrás, era enorme e muito linda. O sol e o céu estavam indecentes, e se completavam com uma temperatura perfeita de início de outono. Fiquei pensando na inquietação e na ousadia que fizeram com que, há mais de quinhentos anos, uns malucos lusitanos se lançassem dali pelo mar em busca do resto do mundo, e cheguei à conclusão de que não há feito humano que se compare aos descobrimentos daqueles tempos, para mal e para bem, incluindo a exploração do espaço sideral.
Perambulei pela Rua Augusta, pelas lojas lotadas de turistas, quase todos brasileiros ou russos, cheguei à Praça da Figueira, almocei sardinhas assadas divinas numa tasca mais que popular, observando e sentindo ao máximo o lugar e a adorável gente portuguesa.
Barriga cheia, subi a Rua da Madalena. Lá no alto, virei à esquerda e me enfiei pelo labirinto da Alfama. Quando mais eu andava, mais beleza encontrava. Não sei se por viver numa cidade caçula do mundo, muito plana e onde tudo tem menos de cinquenta anos, os ângulos e a perspectiva proporcionados pelas ladeiras e pelos belos edifícios centenários me enchiam os olhos de tal forma, que transbordava. Ali, tudo era puro prazer.
Passei por restaurantes supersofisticados, ateliês de arte, muitos edifícios protegidos pelo patrimônio histórico, e fui andando. De repente, uma placa indicando “Museu Teatro Romano”. Incrédula, visitei escavações que vão aos poucos revelando um teatro completo, datado do final do primeiro século da era cristã. Lá dentro, além do nó na garganta pelo que encontrei, fui assaltada pela mais deslumbrante vista do rio e da parte baixa da cidade.
Consegui voltar à rua e subir mais um pouco, até o Largo de São Martinho, onde tomei um café e um tempo para digerir o que tinha acabado de ver e sentir.
Caminhei mais um tanto pelos becos e ruelas do bairro, até que tive que tomar um táxi de volta ao hotel, e dali para o aeroporto. Decolei de Lisboa leve, feliz e emocionada com a visita inesperada e tão profundamente prazerosa. Bendita greve! Não sabia a quem agradecer. Provavelmente, a algum líder sindical belga briguento e mal humorado.
*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.
Este valente arbusto, que todo mês de maio reveste-se inteiro com um véu de delicadas flores brancas. O surto de grávidas ao meu redor, cada qual com uma expressão mais luminosa que a outra. Pernas e braços enroscados, nós dois ocupando metade do espaço da cama, e o silêncio. Os oitenta anos da minha mãe, feliz como uma debutante.
“Janela da alma”, do João Jardim, que chega a doer de tão bonito. Afeto gratuito e espontâneo. O senhor centenário ao meu lado na grande mesa de almoço, há poucos dias, me chamando de menina e me contando que toma duas doses diárias de uísque e vive pensando no futuro. Um diálogo inesperado e profundo, via computador, com gente querida que não vejo há muito tempo. Caminhar sem destino por lugares que me surpreendem. Pensar na minha própria velhice.
Cantar o Hino Nacional num grande auditório cheio. O documentário “Questão de gênero” sobre transexuais. “Amor e seu tempo”, do Drummond, e “Casamento”, da Adélia Prado. Lembrar da infância nos tórridos verões de Lins. Pensar que tudo já me foi tão mais doloroso. Ir à casa da minha filha. Ter visitado Praga com o meu filho. Uma certa história sobre Higienópolis contada pela Cidinha da Silva. O vídeo “Me gritaron negra”, com Victoria Santa Cruz, em preto e branco.
“Noite sobre Alcântara”, de Josué Montello. Quase tudo, na voz de Maria Bethânia. Pessoas queridas que morrem. Ter assunto com gente muito mais jovem que eu. Fotos dos sobrinhos-netos branquelos. O sol iluminando as orquídeas no meio da exuberância verde do sítio das amigas em Pirenópolis. A luta da comadre contra a maldita depressão. Hospedar pessoas amadas. A curva do mar no Arpoador.
Pensar que você me lê, numa tela iluminada, em algum lugar por aí. O que te comove?
*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.
São oito da manhã de uma sexta-feira de abril. Àquela hora já passaram pela plataforma de embarque do metrô Palmeiras-Barra Funda, no sentido Corinthians-Itaquera, algumas milhares de pessoas. Na minha distração sonolenta, observando o vai e vem de uma escada rolante, o trem se aproximava. No mesmo momento, senti um solavanco leve nas costas.
Na esquiva instintiva, virei e topei um cego e seu cão-guia. Dei licença o mais rápido que pude, enquanto os dois, bem jovens, se falavam apressadamente sobre o destino. “Direita, para a plataforma de embarque”, pediu o rapaz, roupa social esportiva bem cortada. A cadela, uma beleza de labradora de pelo curto caramelo o olhava de soslaio como quem diz, “eu sei chefe, mas isso aqui tá uma bagunça”.
Com sua coleira adaptada para a situação, ela decifrou o caminho com seu jeitão apaixonante. O vagão lotou em segundos assim que a porta se abriu. Uma senhora pequena dessas com cara de avó, já sentada na cadeira azul clarinha – das que são reservadas por lei para idosos, grávidas, mulheres com crianças de colo e pessoas com deficiência – ficou confusa com aquele rapaz que, de surpresa, surgia com uma cachorra diante dela.
Após um vai não vai de segundos, ele solicitou com gentileza que ela sentasse na cadeira imediatamente ao lado, ao que foi atendido com um sorriso largo, benevolente, que diz tanta coisa sem dizer em verbo. Não tinha capricho nenhum naquele pedido, mas uma questão simples: quanto mais perto da saída, menos enrosco.
Acomodados, ele sacou do bolso um petisco que a cadela engoliu num piscar de olhos. Em seguida, ele fuçou um celular com teclado que puxou do bolso, colocou fones de ouvido brancos e se confortou ao som de alguma música que se iniciava. Na ligeireza habitué, o metrô corria pela estação Santa Cecília, a segunda da linha vermelha, a partir do nosso ponto de partida. Eu os observava de perto, num misto de admiração e encantamento.
Jogada no chão com seu focinho rente ao assoalho, ali no meio da passagem, com ar clássico de cachorro que deixa a gente babando e com vontade de fazer uma carícia, as pessoas desviavam de sua dócil cabeça, enquanto ela acompanhava com olhar de pouca importância.
Desci na estação República e os dois seguiram em frente. A cena ficou em mim. Coincidentemente, eu havia lido na Folha de S. Paulo no dia anterior um texto que dizia das dificuldades dos deficientes visuais em conseguir um anjo de quatro patas. Logo, conclui sem esforço, que a batalha foi árdua para aqueles dois estarem no metrô naquele dia.
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De fato, somente 80 deficientes visuais têm cães-guia no país, num universo que, segundo o IBGE, passa dos 2 milhões. É uma dificuldade atender a demanda de quem deseja um companheiro de quatro patas. Primeiro, por ser muito custosa a formação e treinamento, em média entre 20 e 40 mil reais fora do país. E a maioria dos bichos vem justamente do exterior, principalmente dos EUA, pois aqui, diz a matéria da FSP, a formação esbarra “na falta de boas linhagens e treinamento correto”. Do que pesquisei, posso dizer que o trabalho de quem busca dar conformo ao deficiente visual por meio de um companheiro cão é louvável. As iniciativas, como em tantas outras questões que merecem atenção pública, vem dos particulares que se organizam.
Também é recente (de 2005) a Lei que “Dispõe sobre o direito do portador de deficiência visual de ingressar e permanecer em ambientes de uso coletivo acompanhado de cão-guia.” Ou seja, todo restaurante, shopping, teatro, supermercado, casa noturna e meio de transporte não pode negar acesso sob risco de multa.
Mas o que significa ter um cão-guia? A parte do fato de ajudar o cego a desviar de obstáculos, atravessar a rua com segurança, encontrar caminhos mais simples e dar, sobretudo, autonomia e liberdade, o bichano faz companhia – é amor que se constrói –, traz aprendizado e desperta sorrisos gratuitos.
Outra vantagem é em relação à bengala, pois o cão-guia ajuda a desviar de objetos que estão acima do chão. Um deficiente visual, numa declaração que pesquei na internet, explica que com a bengala ele tem domínio de um metro e meio à frente o que torna mais difícil perceber um orelhão ou um galho de árvore, por exemplo.
Paciência na fila de espera de uma ONG por tempo indeterminado, ou tentar comprar o cão em outro país é, por enquanto, o principal caminho. Essa espera, no entanto, no Instituto IRIS – De Responsabilidade e Inclusão Social, chega a 4 mil pessoas, todas na expectativa de voltar a enxergar pelos olhos de um cão.
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E AOS INTERESSADOS: o site do Instituto IRIS, entidade sem fins lucrativos, fundada em 2002 em São Paulo, das poucas que trabalha na formação de cães-guia, traz mais detalhes sobre o assunto. A sua fundadora, a advogada Thays Martinez, também deficiente visual, contou sua experiência com o cão-guia Bóris no livro - e áudio livro - "Minha vida com Bóris". Bóris (que já faleceu) em 2004 foi o pioneiro ao abrir caminho na Justiça para deficientes visuais terem o direito de entrar no Metrô de São Paulo.
Além do IRIS, outro projeto, Cão Guia Brasil, treina cães para guiar pessoas com deficiência visual. E a escola de Cães Guia, Helen Keller, também está na rede. Para saber mais sobre deficiência visual vale se informar na Fundação Dorina Nowill para cegos.
*Thiago Domenici, jornalista, é editor e coordenador do Nota de Rodapé. Ilustração de Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, especial para o texto
Uma festa dionisíaca. Música alta sem ligar pros vizinhos, intervenções artísticas nas paredes, stripers, pirofagia, fogos de artifício. A festa da demolição. Era o mínimo que poderíamos fazer pelo predinho de dois andares, encravado no âmago da boemia paulistana: Arthur de Azevedo, quase esquina com a Fradique Coutinho. A Casa da Vó.
A primeira vez, pus os pés sobre os tapetes persas puídos que forravam o chão de tacos da Casa da Vó foi há algo como quinze anos. Estava no colegial e usava um vergonhoso porém bem cuidado rabo-de-cavalo. Devia ser pouco mais de dez da noite e lembro bem do meu grande amigo Arpad entrando pé-ante-pé na minha frente, do som alto e da luz azulada da televisão vindo do quarto da Dona Alzira.
– Vó?... – Ele gritou da sala, com a voz cheia de receio. – Trouxe um amigo pra dormir aqui, tudo bem?
– Contanto que não durma comigo!... – Foi a resposta bradada num português arquetipicamente alentejano.
Dona Alzira era assim. Baixota e gorducha, dona de um mau-humor tão direto e evidente que ganhava contornos cômicos. Lúcida e ativa, sabia da fama de birrenta e usava isso a seu favor, às vezes (talvez na maior parte delas) apenas por diversão. Tinha uma vitalidade incomum para os oitenta anos e estava sempre viajando, o que, ao longo de uma década e meia, nos deu oportunidade de realizar um sem número de festas dionisíacas no seu apartamento recheado de fotos antigas e flores de plástico.
Não lembro quantas vezes dormi embriagado nos lençóis de Dona Alzira enquanto ela viajava pelo Brasil em excursões da terceira idade. Mas lembro bem de algumas em que sucumbi às carícias femininas, pecaminosamente alheio ao Cristo de madeira, obrigado a assistir a tudo com as mãos pregadas na parede da cabeceira.
Dona Alzira sofria com nossa boemia, com a boemia do bairro e, em especial, com a boemia do neto. Um desabafo dela ao próprio tornou-se anedota recorrente no fabulário da Casa da Vó. Estava inconformada com a morte de duas plantas postas em dois grandes vasos na calçada, ao lado da porta da frente.
– Toda noite esses bêbados sem-vergonha mijam nas minhas plantas – revoltava-se sem saber que a fonte da ureia mortífera era, vejam só, a bexiga de seu próprio neto.
Há cerca de dois anos, Dona Alzira ficou doente. Na verdade foram vários problemas na sequência, um agravando o outro. Ela perdeu a vitalidade numa velocidade espantosa e em pouco tempo já não podia morar sozinha. Há pouco mais de um ano, mudou-se para a casa da filha, e alugou o apartamento para o neto, que convidou outra amiga, a Marilia, para dividir a casa e as despesas.
A vocação ainda mais festiva da nova configuração já se evidenciou na mudança. Pleno sábado de carnaval, uma van, três amigos, daí passamos na casa do Paulo que incrivelmente estava de bobeira na calçada, pensando no que fazer da tarde modorrenta, e foi imediatamente sequestrado junto com a Nat, e logo era tudo uma confusão de coisas velhas sendo jogadas fora e perucas da Dona Alzira distribuídas para acompanharmos o bloco de rua que logo passou na nossa porta, como aconteceria se a vida fosse um filme de Felini.
Em pouco tempo, o que era um ponto de apoio à boemia, logo se tornou o centro da nossa interação social, zona franca dos prazeres mundanos. Por um regulamento nunca escrito ou sequer falado, alguns membros subjetivamente eleitos daquele grupo tinham liberdade de marcar comemorações, aniversários ou churrascos na Casa da Vó.
Alheia às alegrias que sua ex-casa nos proporcionava, Dona Alzira ficou novamente doente. Foi internada algumas vezes, por períodos progressivamente mais longos... Até que, já viram... Há alguns meses Dona Alzira não está mais entre nós. E algum tempo após a sua morte, a família finalmente capitulou às investidas de uma construtora.
Não havia escolha. Ou vendiam o predinho por uma polpuda quantia de reais, ou teriam de conviver com uma obra que se estenderia durante anos e faria da Casa da Vó uma verruga encravada em mais um arranha-céu neoclássico. Isso se as velhas fundações resistissem aos bate-estacas.
Daí, portanto, a ideia da festa da demolição. Uma última homenagem ao prédio moribundo. Um misto de comemoração, catarse e funeral, uma histérica e dolorosa ode a Shiva e à inclemência do tempo. Chegamos a planejar as intervenções artísticas e até escolhemos a data. Não aconteceu na primeira e adiamos, sem muita certeza. Também não aconteceu na segunda.
E, novamente, já viram... A festa da demolição nunca se concretizou. Meu grande amigo Arpad arrancou as peças dos banheiros, as janelas e as portas para instalar na sua nova casa, num sítio no extremo da Zona Sul. O máximo que pude fazer foi quebrar um pedaço de parede com um ponta-pé. E hoje nosso querido sobrado não passa da uma pilha de escombros.
Aos leitores, peço perdão pelo anticlímax final. Mas assim parece ser a vida, uma vertiginoso desfile de caprichos e picuinhas do tempo. Poderia, talvez, terminar com o doloroso clichê de que éramos felizes e não sabíamos. Mas não seria verdade. Éramos felizes e sabíamos muito bem disso.
*Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de Ligia Morresi, designer e ilustradora, especial para o texto
Lá nas bandas de onde eu vim, branco era branco, preto era preto, pobre era pobre e rico era rico. Todos católicos, menos nós e mais uns gatos pingados, que o cônego italiano adorava infernizar.
Sanduíche de mortadela era a delícia suprema no lanche da escola, quando nossa pobreza me permitia uns trocados pra gastar na padaria. Melhor do que isso, só as maçãs argentinas, que comia escondida no banheiro da escola “pra não dar vontade nos outros”, dizia a professora. Escola pública de antes da universalização do ensino; lá aprendi tudo o que sei.
A cidade era cercada de canaviais e laranjais. Depois que se instalou a primeira fábrica de suco para exportação, todas as tardes subia o doce cheiro de bolo de laranja, provavelmente resultado do processamento da casca da fruta. A cana era cuidadosamente descascada e picada em pedaços tão pequenos que cabiam inteiros na boca. Dela se fazia a garapa, que mais tarde ganhou o nome bobo de caldo de cana.
Seguia mansa a vida. Minha mãe trazia tecidos da loja da minha avó, que morava em outra cidade. Íamos juntas levá-los à costureira Mercedes, que os transformava nos figurinos das revistas. A modista vivia ao lado do quartel do exército, com o marido ferroviário e muitas filhas. Fascinava-me a quantidade de tecidos, retalhos, aviamentos, moldes de papel, fitas métricas e carretéis de linha colorida amontoados por todos os lados. Misturavam-se crianças, cachorros, café e o cheiro do refogado do arroz.
Os professores estão em greve, ouvi um dia ao chegar à escola. Hoje não tem aula. E não teve por meses a fio. Depois foram os ferroviários, em assembléia permanente num galpão do centro da cidade. Meus pais participavam de mutirões que preparavam sanduíches de queijo para os grevistas.
Até aquele dia. A cidade se encheu de soldados. “Finalmente se tomou uma providência para por ordem neste país” – explicou a professora – “estudantes e sindicalistas só querem baderna”. Era dezembro, mas os dias eram cinzentos e eu sentia um frio na barriga.
Quando voltamos à costureira, soubemos que o marido estava preso no quartel vizinho. Por quê?, perguntei, espantada, pois para mim cadeia era coisa de ladrões e bêbados. Ninguém respondeu. Meu pai foi chamado para um interrogatório. Quase morremos de medo durante as horas que ele passou lá. Voltou ileso, mas amansou seu discurso sobre os milicos, que sempre havia desprezado e ridicularizado.
Minha vida continuou sem sobressaltos, no entanto nunca mais foi a mesma. Embora não entendesse o que se passava, sentia o medo, a vigilância constante, via velhos apresentando documentos a soldados adolescentes e aprendi que os adultos tinham sempre que provar quem diziam ser.
Uma nova matéria foi incluída no currículo escolar. Chamava-se Educação Moral e Cívica. Falava da importância da religião católica, da família e dos valores ditos cívicos, como patriotismo e guerra ao comunismo e à subversão, tudo misturado no mesmo balaio. Tentaram explicar o que se passava, com louvações aos heróis militares e canções de amor ao Brasil, “meu coração é verde, amarelo, branco e azul anil”. No começo, até fui na onda, mas perguntava muito, e a falta de respostas só me fazia pensar mais. Levei uns bons anos para entender.
*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.
Uma das melhores contribuições da cultura internet, creio, é fragilizar a dinâmica do isso ou aquilo, do fla ou flu, do feminino ou masculino, do pensar ou agir. Como se estivéssemos nos preparando para adotar comportamentos unissex, unirracias, unitudo.
Estamos começando a civilização do E. Do isto e aquilo. Leio jornal e portal. Visto saia e coturno. Uso email e sussurro no pé do ouvido. Quero desenvolvimento econômico e natureza. Tenho vida online e offline. Em suma, estamos no tudo ao mesmo tempo.
Mas não é fácil. Estou com cinquenta e sete anos. Fui educada na lógica das oposições. Do sólido ou do líquido. Da esquerda ou da direita. Do amigo ou inimigo. Do sim ou do não. De uma certa maneira, venho de um mundo confortável. No qual, você é ou não é. Ponto sem com.
Tendo sido configurada desse jeito, me custou - e ainda me custa - certo esforço para embarcar no universo líquido, onde os muros perdem vigas de sustentação. E tremem. Também não sou bobinha para acreditar que diferenças e conflitos ficaram para trás. É claro que não.
A sociedade humana segue classista, sexista, racista, injusta. O que mudou, a meu ver, são as formas de transformação. Agora, posso conjugar ativismo físico com ativismo online. Posso misturar maneiras de estar. Posso postar meu comentário (meu grafite mental) em quase-infinitos espaços.
Antes não. Para que minha expressão, opinião, protesto, aplauso fossem publicados, eu precisava de intermediários. Um veículo, um editor, um pistolão, uma panelinha. Entre o poema na gaveta e ele na página, havia uma paisagem de obstáculos. Em resumo: poucos vitoriosos para uma multidão de perdedores.
A cultura internet mexe com nossos neurônios. Ela faz a parede virar janela. Demonstra que a interação e o compartilhamento não são opções. São fatos. Impossível querer crescer, inovar, produzir, acontecer sem considerar a fala, o comentário, o medo, a coragem do outro.
O outro toca a campainha da nossa cabeça. Sem pedir licença, despeja suas necessidades, demandas e desejos. Ele acha que se expressar é direito inalienável. É um outro enxerido, caprichoso, cheio de si.
Paciência. Mas também esse cidadão digital nos lembra de um óbvio muitas vezes esquecido. Nos lembra que só existe escritor se houver leitor, mercado se houver consumidor, poema se houver sonho. Clique que segue.
Resumo da crônica: não sou eu OU ele. Sou eu E ele. Nós no líquido.
fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto
Tive que bater pernas – e anote que moro em Sampa – para achar alguém que consertasse o relógio carrilhão de propriedade da minha mãe. Para os mais jovens explico: o carrilhão soa horas e meias horas com badaladas. O exemplar foi comprado por meu bisavô Cassiano, nascido na época da carochinha, no Minuto Inglês no bairro carioca Estácio de Sá.
Por fim, em uma obscura galeria da Brigadeiro Luís Antônio, consegui um mago capaz de manipulá-lo. Um velho japonês, encurvado e seco. Numa simples olhada, disse o problema e o orçamento. Uma semana depois, mamãe sorria feliz com o som do carrilhão.
Fiquei pensando que afinal as pessoas morrem. O velho japonês não ficará para semente. E não deixará seguidores. Com a imposição de objetos cada vez mais descartáveis, relojoeiros, técnicos de máquinas de lavar e congêneres estão a meio passo da extinção.
Mas não só técnicos de coisas tangíveis correm perigo. Também os doutores da palavra entram na fila para o além. Por exemplo, está cada vez mais complicado encontrar revisores. E quando os encontramos, não nos atendem de tão assoberbados.
É claro que não me refiro a revisores de conveniência. Ou seja, a secretária que foi boa aluna em português, o colega que nunca desgruda de um livro, o autor do texto. Aliás, este último é o menos indicado. Pois por ter escrito, ele fica cegueta na hora de revisar.
Faço menção aos revisores que conhecem a língua como a quebradeira, o coco. Aquele pessoal que zela pela correção e elegância. Que manja de sintaxe e semântica. Os que saboreiam conjugar, concordar, ritmar.
Alguém lembrará: esse "desparecimento" ocorreu em massa com os bancários. Quando entraram as caixas eletrônicas e bancos onlines, a categoria murchou. Minha irmã, uma bancária aposentada, costuma dizer: "Os correntistas foram transformados em bancários. Esse é o melhor do mundo para o lucro dos banqueiros."
Alguém que goste de história dirá que sempre foi assim. Profissões desparecem e outras nascem. Citará o que ocorreu na Revolução Industrial, no século dezoito. Artesãos se tornaram operários. O feito à mão perdeu espaço para o feito à máquina.
Hoje com a revolução digital, numa aceleração espantosa, profissões e profissionais são descartados, ao mesmo tempo que centenas de ofícios surgem a cada manhã. As pessoas, notadamente as mais velhas, reagem ora com nostalgia, ora com depressão, ora com entusiasmo.
Eu estou na turma das entusiastas. Acredito que o reino da internet veio para incluir e potencializar interações. Macaqueando o slogan da loja de hamburger, amo muito tudo isso. Filha da Remington e da Olivetti tento me adaptar no máximo.
No entanto, isso não impede que me arrepie ao calcular quanto de experiência e conhecimento irão morrer. Assistimos ao velório da arte de consertar relógios, somar números, revisar palavras. É o momento em que o real esvanece para no futuro ressuscitar como mito.
*fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto