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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 25 de novembro de 2014

Balcão, bebiba, barra, Biro

por Carlos Conte*

O bar do Biro é o melhor que eu conheço. Baiano albino, o Biro tem esse apelido por causa do ex-volante corintiano dos anos 80, o Biro-Biro (que o presidente Mateus certa vez chamou de Lero-Lero...). O Biro me lembra um personagem sertanejo da Rachel de Queiroz chamado José Alexandre, “caboclo hercúleo” que vivia isolado numa fazendinha no Ceará e que pelo fato de falar muito pouco sua voz era sempre rouca, “como a de um bicho que aprendesse a falar”. O Biro também não é de falar muito e está sempre rouco. Algumas pessoas são roucas por natureza e acho que esse é o caso do Biro. Por isso, pra ser escutado no meio do barulho do boteco, ele é obrigado a forçar a voz: “vai uma seLEta?”, ele pergunta, com ênfase na tônica, como se levasse um susto no meio da frase.

Crônica tem um quê de conversa de bar. E tem bares que merecem uma crônica. Já escrevi sobre o Silveirinha, poderia escrever sobre o Valadares, o Biu, o bar do Paulo, o bar do finado Vavá... Esses são os meus bares. Meus bares! Com pronome possessivo e tudo. Desses todos, porém, o Biro é o meu predileto, pois no quesito mais importante que existe quando se julga um bar, o Biro vence.

Variedade de cervejas? Sem dúvida esse quesito é importante, mas o Sagarana não é o meu bar preferido, muito menos o Frangó lá da Freguesia. Petiscos? Claro, são fundamentais (aliás, descobri que tem um bar de happy-hour numa travessa da Paulista que tem rodízio de petiscos, mas nunca fui). Atendimento? Limpeza? Serviço delivery?...

Quando elejo o Biro, não me refiro a nenhum desses quesitos adotados pelos críticos dos Guias e Revistas de São Paulo, até porque o Biro perderia em todos, exceto atendimento, pois simpatia e solicitude são a marca registrada do Biro, auxiliado por seu fiel escudeiro Geladeira (porque ele sempre está atrás do balcão, de pé, parado, como uma geladeira... Apelidos de bar é um tema que daria outra crônica).

Para mim, o principal aspecto quando se avalia um bar é tão subjetivo quanto o conceito de liberdade: cada um sente de um jeito diferente, cada um pode relatar experiências, manifestações reais, efêmeras ou duradouras, mais intensas ou menos, mas é difícil cravar “liberdade é isso”, “felicidade é aquilo”, como para mim é difícil encontrar a melhor palavra que defina essa adoração que tenho pelo bar do Biro.

Tem a ver com acolhimento. Sem dúvida. O Biro é meu refúgio. Eu procuro isso num bar. Nem sempre, é claro. Algumas vezes procuro mulheres. E cada vez mais elas estão indo ao Biro. O Biro é um bar que o Antônio Prata chamaria de “meio intelectual, meio de esquerda”, com seu balcão velho de fórmica, os bancos gastos, um enorme mapa múndi, um barrilzinho de pinga com o distintivo do Corinthians, a mesa de sinuca no fundo (onde as caçapas são tão apertadas que às vezes parece que o jogo não vai acabar nunca), mas o principal são os dois grandes painéis laterais, retratando cavalgadas e paisagens bucólicas. Esses painéis são realmente incríveis, eu não me canso de olhar para eles. A típica coisa brega/autêntica que a galera pira, e eu já me acostumei tanto com aqueles cavalos ali, me olhando, que não imagino como seria o bar sem eles. Até que um dia, dando na telha ou entrando um dinheiro extra, o Biro manda passar uma tinta, faz uma parede com textura ou algo do tipo, mais “moderno”, mais fácil de limpar, e acaba com a graça da galera hipster.

Voltando ao meu critério para preferir o Biro, refiro-me a um estado de bem-estar simples, absolutamente trivial: encostar-me ao balcão, tendo a minha frente uma garrafa de cerveja e um copo americano. Isso é o básico de um bar. O resto é acessório. Isso remonta, sem dúvida, ao primeiro bar da história da humanidade e ao seu primeiro frequentador, que certamente saiu de lá, montando em seu cavalo, satisfeito e surpreso com aquela experiência incrível, tão simples, tão fundamental: sentar-se ao balcão e beber, se possível beliscando um amendoim, mas isso já é secundário. O principal: balcão, bebida, barra. Sem pentelhação, sem encheção de saco, ninguém tagarelando na orelha. Balcão, bebida, barra – com aliteração e tudo! Sem dar satisfação, sem olhar o cardápio, sem ter que xavecar ninguém, sem ter que escolher a roupa antes de sair de casa. Balcão, bebida, barra e foda-se a menina que você tem que paquerar, que você tem que dar em cima, senão algum filho da puta incansável vai levar a melhor nessa história. Balcão, bebida, barra e não preciso me posicionar politicamente, nem falar de trabalho, nem convencer ninguém sobre nada. Balcão, bebida, barra, Biro e foda-se o mundo, amanhã eu volto a me preocupar com ele...

Tudo isso eu encontro lá, talvez você encontre em outro bar, talvez isso não faça o menor sentido pra você, e neste caso eu recomendo o happy-hour-rodízio-de-petiscos da Paulista ou qualquer lugar novo na Vila Madalena onde a gente não consegue nem escutar o próprio pensamento.

Sobre a barra, o Migue, amigo que entende de bar como poucos e que por isso adora o Biro, me contou que foi ela, a barra, que deu origem ao nome “bar”. Ela é essencial. É onde a gente apoia os pés – quer coisa mais importante do que isso? Mas não é todo mundo que tem consciência da importância dessa barra, sem a qual a gente começa a sentir desconfortos terríveis nas pernas e nas costas. Muito dono de bar não sabe disso e simplesmente manda tirar, como se não fosse fazer falta.

Do outro lado do balcão, está o Biro, solícito, honesto, atento (qualidades que lembram o seu Zé, o garçom que fez tanta fama que acabou dando nome ao bar das empanadas chilenas. Que fim ele teve?). Ali está o Biro e toda vez eu tenho vontade de dizer pra ele como eu gosto do seu bar, como para mim é bom estar ali olhando os cavalos, o mapa, o Geladeira, as bolas numeradas correndo pra lá e pra cá, escutando os frequentadores da velha guarda combinando seus churrascos de aniversário, suas caravanas para o litoral... Enquanto isso, amigos de facebook fumam seu cigarro na calçada. Enquanto isso, eu medito, e bebo.

* * * * * * *

Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Arquétipos do busão

por Maria Shirts*

Quem anda de busão já deve ter notado que o transporte é cheio dos arquétipos.

Só de cobradores eu consigo tipificar uns 3. Por exemplo:

O cobrador que dorme

Quem usa o Bilhete Único não se relaciona com o cobrador que dorme . Mas quando a tarjeta eletrônica se esvai de créditos, é preciso passar por aquela situação do sorriso amarelo na cara, da delicada-cutucada na mão do sujeito que abre os olhos, assustado, enquanto pega o dinheiro estendido no ar.

O cobrador sociável

É o mais bacana dos cobradores. Faz piada, enche o saco do motorista e te conta milhões de casos que, provavelmente, não aconteceram de verdade. É o Forest Gump dos cobradores.

O cobrador xavequeiro

Tá sempre de óculos escuros e escutando música. E mesmo com os olhos escondidos é possível saber que ele mira a bunda de todas as meninas que passam pela catraca.

Falando em escutar música, quase todo ônibus tem o cara da música alta, que pode não ser o cobrador xavequeiro, mas sim um passageiro inconveniente que acha que todos merecem partilhar de seu gosto melódico. Quem não quer cantar junto que ponha os fones de ouvido, oras.

Do fone de ouvido

Sou eu, no caso. Fico balançando a cabeça junto do balancê do busão e paro de cantar, um pouco avexada, quando percebo que estou sendo observada por exceder os decibéis permitidos a uma cantante amadora no transporte público.

Do escandaloso do celular

Ele não fala, mas berra ao telefone móvel. Apesar da indiscrição, devo confessar que eu gosto um pouco do escandaloso do celular porque eu adoro ouvir conversa alheia. Quase sempre rende uma boa crônica.

Do babão

Aquele que dorme. Profundamente. (Eu não sei como essas pessoas não perdem o ponto. Ou perdem, né, vai saber.)

Do perdido

Para o busão pra perguntar pra onde ele vai, empata a fila da catraca pra perguntar onde para, não sabe se senta ou fica de pé e atrapalha toda dinâmica espaço-temporal do coletivo.

Do antisocial

É o que eu mais desgosto: senta na cadeira do corredor só para evitar que as pessoas sentem do seu lado. Constrangidos, os demais passageiros desistem de pedir licença para sentar na janela e escolhem outro assento.

E, por fim, há o motorista alucinado que simula cenas de Velocidade Máxima com gosto.

* * * * * * * * *

Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Historietas Urbanas


por Maria Shirts* 

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Da Solidariedade

Ambiente: Ônibus na Avenida Angélica

O motorista estaciona no meio da Avenida Angélica, em Higienópolis, bairro central da capital paulista. Em meio às muitas buzinas dos Audis detrás do ônibus, ele fala com o passageiro do primeiro banco:

– Vamos lá André?

Os passageiros, atônitos, procuram ver o homem, que se levanta com agilidade e uma bengala própria para cegos na mão.

O motorista abre a porta do veículo, pega André pelo braço, cruza a Angélica parando, mais uma vez, o trânsito de carros. Volta correndinho, entra e retoma o caminho.

***

Histeria sem noção

Ambiente: Rua Coronel José Eusébio

Vindo a mais de 60 por hora numa rua estreita e pequena, a senhora teve que freiar suas 2 toneladas de carro quando uma mãe com seu pequeno filho atravessava a rua, uns 20 metros antes da faixa de pedestres.

Ela, que vinha buzinando histericamente há bons 50 metros parou e começou a bater palma ironicamente, ao mesmo tempo em que gritava “DÁ PRÓXIMA VEZ VAI PELA FAIXA SUA SEM NOÇÃO”.

***

Em inglês

Ambiente: Busão na Avenida Sumaré

Dei sinal para descer e me levantei para esperar o meu ponto de ônibus junto à porta. Estava lendo O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald, em inglês. Já chegando em meu destino o cobrador perguntou:

– Você fala inglês?

– Falo sim

– Demorou pra aprender?

– Com certeza, acho que fiz uns 10 anos de aula

Levantou as sobrancelhas em expressão de surpresa e disse:

– Deve ser legal falar inglês

Emudeci. E desci no ponto.

***

Xavequeiros Indecisos

Ambiente: Rua Aspicuelta

Passaram por mim buzinando. Eram quatro homens num só carro:

– Gostosaaa!!!! Gostosa!!!! Uhuu!!!!

Respondi:

– Vai à merdaaa!!! Bando de folgado!!!!

O trânsito, parado, os fez frear. Eu, a pé, continuei pela calçada que beirava o veículo do quarteto fantástico. Sem delongas, gritaram: - Fiu fiu! Que princesa hein!!! Gostosaaaa!!!

Me limitei a fazer um tradicional e obsceno gesto com as mãos.

Eles, ofendidos, gritaram:

– Vai se fudêê! Gordaaaaa!! Feiaaa!!!

* * * * * * * * * 

Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Três vivas para a conversinha sobre o tempo


por Tomás Chiaverini     ilustração Victor Zalma*

 Ele mal dá seta e já para na sua frente. Você para em seguida e leva um buzinaço que não lhe cabe. Mas que filho da puta! E ainda vai entrar na garagem do seu prédio. Agora fica aí, enrolando pra abrir o portão eletrônico. É só apertar o botão do controle, filho, não tem mistério não. Custa comprar uma bateria nova? Pronto, finalmente, um ano depois... Agora mais meia hora pra conseguir engatar a primeira. Mas foi. Aleluia, irmão!

Cacete! Não é que a vaga dele é mais fácil que a sua? Que filho da puta, com esse carrão enorme, todo automático, com sensor que apita em tudo que é canto. Tá na cara que é um desses novos ricos da Dilma. Deve pagar um por fora pro síndico. Agora você fica aí, fazendo manobra e o sujeitinho já parou, já se escapuliu do carrão, saiu todo apressado e vai tomar o elevador sem nem te esperar. Ok, esperou. Mas te fez correr. Fica embaçando no carro e agora dá de apressadinho aí, segurando a porta. Tem pressa de que? Piriri?

E esse terno? Lã fria risca de giz, camisa sob medida... Capaz que ganhe o dobro que você. Por isso corre tanto. Tem de subir logo pra abrir o Ipad e ver se não tem nenhum email do patrãozinho. Bem feito.

Rá, seu andar é mais alto. Mas o apartamento dele deve ser de dois quartos, cheio de televisores de led, home theaters e sofás reclináveis de veludo. Fica do outro lado do prédio, então a vista deve ser melhor também. Mas o que importa? Se tem de correr tanto pra responder o email nem deve conseguir parar em casa, muito menos olhar a vista.

Você pensa, tentando não olhar pro sujeitinho enquanto são içados juntos rumo ao céu, no caixote de metal espremido em meio a toneladas de concreto. E lá vem aquele silêncio constrangedor maldito. Ou:

- Esquentou, né?

- Pois é...

- Previsão disse que ia mudar o tempo, mas firmou.

- Parece que vai virar no fim de semana.

- Putz, é sempre assim. Sempre no fim de semana né? Quando o pessoal vai viajar, chove.

- Pois é.

- Boa noite.

- Boa.

E não é que o cara parece ser gente fina?

* * * * * *

Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de Victor Zalma, especial para o texto

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Brincadeira


por Carlos Conte   ilustração Marcelo Martins Ferreira*

Aproveitando a tranquilidade da tarde de sábado, levei a cadeira de praia para o quintal da frente e abri um livro. Notei, entre uma página e outra, que um grupo de meninos curtia o dia de sol brincando no terraço da casa da frente. Não jogavam futebol nem empinavam pipa. Talvez já tivessem esgotado o rol de brincadeiras possíveis e, sem ter mais o que fazer, começaram a me importunar.

Do outro lado da rua, gritaram:

– Tio, ô tio!...

Ainda não me acostumei com essa história de ser chamado de “tio” por moleques de 10 anos de idade. Não faz muito tempo, eu que chamava os mais velhos de “tio”, e até hoje, carinhosamente, trato de “tia” a Ivani do bar da Rua Aurélia, e ela me chama carinhosamente de “teacher”.

Mas não era com carinho que os moleques me chamavam de “tio”. Empoleirados no terraço do vizinho, uns três ou quatro metros acima do nível da calçada, eles acabavam de eleger o alvo de suas brincadeiras.

– Tio, ô tio!...

Ora, tenho apenas 28! Tio é a mãe! O que esses moleques estavam pensando?... – Olha pra cá, tio! Olha pra cá!...

Claro que eu não olhava. Não lhes daria esse prazer. Além do mais, não estava a fim de papo. Só queria ler e ficar em paz. Por isso optei pela estratégia tão usada para acalmar ânimos infantis: não dar corda.

Mas a indiferença não funcionou. O coro, que começou baixo, foi ganhando força. Eram quatro, cinco, seis – não sei ao certo quantos meninos, porque evitava olhar diretamente para eles, demonstrando que eu nem me importava. Meia dúzia de moleques que decidiram tirar o sossego do meu sábado.

Quanto mais os ignorava, mais insistentes ficavam. Ah, crianças! Pobres crianças... Uma hora dessas, os pais deviam estar largados no sofá, em frente à TV, comemorando silenciosamente a tranquilidade temporária que o filho e os amiguinhos lhes davam. Mas à custa de quem?

– Ô tio! Olha pra gente! Ô do bigode!

Decidi que não olharia, em hipótese alguma. Pronto! Caísse a árvore da rua, caísse o mundo, não faria a vontade deles. Discretamente, por cima do livro, arrisquei uma olhadela: estavam todos voltados para mim, alguns debruçados perigosamente no parapeito. E confesso que, por alguns instantes, não que tenha desejado o pior, mas cheguei a imaginar como seria se o pior acontecesse. Daquela altura, do terraço até o chão... Um grito agudo, um crânio rachado, sangue escorrendo pela calçada em direção ao meio-fio, tragédia na Vila Romana... Mas afastei rapidamente esses pensamentos malignos da minha cabeça. Ora, os pais que se preocupassem com a segurança dos filhos!

– Ô do bigode! Não vai olhar? Fala alguma coisa, pô!

Não, não queria falar. Só queria ler... E pra isso precisava de silêncio. Com crianças por perto, eu sabia, seria difícil. Aliás, um dos motivos de eu ter me esquivado até hoje da ideia de ter um filho é justamente este: a encheção de saco. Sei que algum dia vai dar vontade. Sei que filhos, apesar de todas as dúvidas, é melhor tê-los. E sei que algum dia voltarei a pensar nesse assunto. Por enquanto, não. Só quero ler meus livros e beber com os amigos. Nada de filhos. Já me basta a semana na escola lidando com os filhos dos outros. Sábado não!

– Ô tio! Ô do bigode!...

Bom, nem preciso dizer que a essa altura minha concentração tinha ido pras cucuias e, quando me preparava para jogar a toalha, levantar acampamento e me instalar no quintal dos fundos, veio a primeira ofensa:

– Fala alguma coisa, veado! Ô veado!...

Em seguida, completaram:

– É veado e maconheiro!

– Veado, maconheiro e careca!

E o coro de impropérios, cada vez mais alto e teimoso, encontrou seus melhores adjetivos: careca, veado e maconheiro. Ofensas infantis, eu pensei. Mas ofensas infantis somente pelo fato de serem proferidas por crianças, pois na verdade não têm nada de infantis. Fosse mulher, talvez emendassem “puta”. Fosse negro, “crioulo”, “tição”. Fosse pobre, “mendigo”, “fracassado”, “fodido”. Ficava, então, sendo velho, pela calvície, além de veado e maconheiro, por terem encontrado algum motivo na minha aparência, ou quem sabe na má fama da minha casa, para me chamar de veado e maconheiro. Registrei todas as injúrias na folha de rosto do livro que estava lendo e, ao me ver escrevendo, um dos moleques gritou:

– Já sei: ele tá escrevendo um livro. Vai postar no facebook, no site dos idiotas... Era a gota d’água: “Site dos idiotas?!”. Esses moleques mereciam uma surra, isso sim. Tinha ficado na moita até agora, sem reagir, feito adulto. Mas já fui moleque um dia. Um moleque nervoso, de estopim curto, como diz minha tia. Os palavrões me subiram, fervendo. Os piores nomes que conheço!

Mas não deu tempo. Já estava com as quatro pedras na mão, quando anunciaram a retirada: – V’ambora, gente. Ele é surdo, deixa ele em paz...

Um a um, foram se afastando do parapeito e saíram do terraço, atrás de outra coisa para brincar.

* * * * * *
*Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Ilustração de Marcelo Martins Ferreira, design e músico, especial para o texto

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O pão, a pomba e as sandálias prateadas



por Tomás Chiaverini ilustração Victor Zalma*

Segunda-feira. Acordo com uma sensação estranha e intensa de que nada faz sentido. Levantar da cama, sobretudo, não faz sentido. São nove horas, um horário ridiculamente preguiçoso para qualquer cidadão de bem. Mesmo assim programo o celular para tocar trinta minutos mais tarde. Não chego a dormir de novo. Fico lá, debaixo das cobertas, imaginando a manhã fria e tentando entender o que, afinal, não faz sentido com tanta força.

Foi um bom fim de semana. Priscila veio ficar comigo, bebemos vinho sem moderação, saímos para jantar, assistimos a filmes velhos na TV. No domingo fizemos torta de maçã, com uma receita indicada pela Clau. Estava um dia muito frio, mas mesmo assim fomos a pé comprar os ingredientes. Quando saímos havia uma pomba parada bem ao lado da entrada do prédio, numa esquina do bairro das Perdizes. Estava muito quieta e não voou quando nos aproximamos. Provável que estivesse doente ou machucada.

Na volta do supermercado, dobramos a esquina conversando animados e um homem fez um gesto com a mão, pedindo que parássemos ou que nos aproximássemos devagar. Estava agachado ao lado da pomba, com uma caixa de papelão nas mãos. – Parece que ela está doente – disse.

Nós concordamos em silêncio e entramos. Fizemos a torta e um caldo verde. Quando ficou tudo pronto, saímos para comprar pãezinhos frescos. A pomba não estava mais lá, nem o homem. Apenas a caixa de papelão vazia. E um par de sandálias. Sandálias prateadas, de salto alto, colocadas juntinhas sobre a calçada, perto da parede externa do prédio. Não faz sentido nenhum. A pomba, o homem a sandália. Também essa crônica não faz sentido nenhum.

E agora, lá se vão mais de sete horas desde que acordei. Tomei café, revisei algumas páginas do próximo romance que não fica pronto nunca, fiz exercícios, tomei banho, almocei os restos do caldo verde com duas fatias grossas de pão integral. Cheguei tarde na redação e o dia está mal parado. Passei o olho pelos jornais, facebook, conversei com amigos pelo comunicador instantâneo, depois me ocupei em escrever este texto. O fato é que a coisa não melhorou. Muito pelo contrário.

Cada vez mais, nada faz sentido.

*Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de Victor Zalma

quarta-feira, 31 de março de 2010

À margem, a Atibaia que não sai no slogan de "melhor clima do mundo"

Entro nas ruas estreitas de terra batida da Vila São José. As casas são erguidas com tábuas, lâminas de metal, placas e faixas de publicidade que servem de suporte para paredes e telhados. A sensação é sufocante. O barro abundante e a sujeira não incomodam as crianças que brincam ao risco de contaminação. O saneamento básico inexiste.Ali moram 540 famílias, aproximadamente 2.500 pessoas numa área de “ocupação irregular”, que não tem iluminação pública e sem CEP, o que dificulta a chegada dos correios e a obtenção de outros serviços básicos.
Outrora conhecida como lixão, a Vila São José fica ao lado esquerdo da rodovia Fernão Dias, sentido São Paulo/Belo Horizonte, a aproximadamente 60 quilômetros da capital paulista.
Próximo da entrada avista-se a usina de reciclagem, onde catadores trabalham em cooperativa. Atibaia, segundo melhor clima do mundo, segundo a UNESCO, é conhecida pela expressão de “paraíso quase possível na terra”, mas oculta por trás de slogans da prefeitura – “vivendo o melhor clima” – seu quinhão menos badalado.

Quem vive o melhor clima?
No local, segundo dados da prefeitura, 65,8% das instalações de água são regulares, 6,2% são empréstimo e 14,1% de uso coletivo. Dos serviços essenciais, o tratamento de esgoto é o ponto mais crítico com 34% das moradias utilizando fossa, 14% com ligações irregulares, os chamados “gatos”, e 12,7% com córrego a céu aberto.
O cheiro desagradável, a presença de ratos constante e o lixo espalhado confundem a vista. O resultado, considerada a forte enchente que começou em dezembro, é dramático: 900 famílias atingidas num total de sete bairros. Cento e uma ainda sem lar.
Historicamente, as famílias começaram a chegar à região logo após a desativação da Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RFFSA), que depois de extinta, teve os bens e imóveis transferidos para a União.Segundo o Departamento de Habitação da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social do município, há mais de nove anos administrado pelo Partido Verde (PV), em 2001 iniciou-se o levantamento do trecho da ferrovia e, no ano de 2004, foi feito o cadastramento de todas as famílias que ali residiam. Ainda de acordo com o poder público, os dados permitiram a criação de planos “para promover a melhoria nas condições de habitabilidade e a recuperação urbana do local”. No núcleo da Vila São José, a área seria urbanizada e dez prédios seriam erguidos com 240 apartamentos. O projeto, entretanto, ainda não vingou.O motivo alegado pelas administrações para não mexer nas áreas da extinta RFFSA são imbróglios jurídicos e administrativos que impediriam a chegada de benefícios ao bairro.

Vivem em contêineres
Após as enchentes, algumas famílias desabrigadas da Vila São José foram “alojadas” em contêineres. O local escolhido foi o popular “Campo Santa Clara” (na imagem), terreno que também pertencia à ferrovia.
E não só os “módulos metálicos habitacionais” foram instalados. Agora, frágeis e minúsculas estruturas à base de madeira são erguidas para que o povo more por dois anos até que apartamentos sejam entregues. Ou seja, os que vivem em caixas de metal passarão às caixas de madeira. “A prefeitura sempre afirmou que não podia construir nada aqui. Que não podia fazer melhorias porque era área irregular. Depois da enchente estão construindo no campo e prometendo até apartamentos por perto”, aponta José Lopes de Lima, presidente da Associação dos Moradores da Vila São José.
Caminho e lembro de Sandra dos Santos, que conheci em 2008, numa reportagem. De Guarulhos, ela e o marido, Roberto, trabalhavam como catadores de sucata. Os filhos mais velhos ajudavam. Uma delas, com 20 anos, grávida. Entre os menores, a menina Sandrinha, nome da mãe, de 12 anos, tinha o corpo paralisado parcialmente e, mesmo com as dificuldades de locomoção, todos os dias ia à escola caminhando. “Ela volta sempre com os pés inchados e com dores no corpo”, contou a mãe à época.

A água subiu, correria
As expressões sofridas e desconfiadas pedem atenção. Querem falar. Ao menos, como forma de aliviar as aflições. José Carlos da Silva mora há 20 anos no pedaço. Idoso, convive com uma deficiência nas pernas e com a constante ameaça de inundação. “Não foi só neste ano. Quando a água sobe é uma correria. Um pouquinho de chuva basta para ter que colocar os móveis para o alto e sair da casa”, desabafa.
Embora José observe que o problema é recorrente, o potencial destrutivo da última enchente causou danos maiores que os habituais. “Aqui, chuva sempre foi certeza de prejuízo. Não existe estrutura que faça a água correr. O rio transborda e não tem escoamento”, explica Pedro Camargo, outro morador, há dez anos no local.
Pedro e José são solícitos com a reportagem do Nota de Rodapé e decidem mostrar o rio Atibaia, que corta o fim de uma das ruas. A visão é chocante e não precisa ser especialista para perceber que a água pode subir facilmente.
Na outra margem, o imponente Hotel Resort Bourbon (ao fundo, na imagem) nos observa, impoluto. Em dias de chuva, enquanto a água suja e fria desalenta os moradores, os hóspedes podem se deliciar com uma piscina aquecida pela bagatela, “em promoção”, de 1.556 reais por um final de semana.
Penso na estrutura dada ao resort e nas concessões feitas pelo município para a instalação do complexo que abriga convenções de grandes empresas, encontros políticos e concentrações de times de futebol, público que, geralmente, não sai das luxuosas dependências para conhecer a cidade.
Ao que parece, o lado esquecido de Atibaia só desperta a lembrança dos administradores públicos depois da ocorrência de tragédias. Como num passe de mágica, as amarras burocráticas para tomada de providências nas “áreas irregulares” da Vila São José foram desatadas quando a cidade virou notícia nacional por causa das inundações. Aos moradores não resta opção, morar em contêineres ou casas de madeira não é o ideal, mas a migalha provisória que não se pode recusar.
Observo a garoa fina fechando o dia e torço para que não chova mais forte na vila da Sandra, do José e do Pedro, brasileiros à espera do que é básico e constitucional: moradia digna e ambiente saudável.

Moriti Neto é jornalista, paulistano de nascença, atibaiense de coração e colunista do Nota de Rodapé. (Imagens: Moriti Neto/NotadeRodapé)

quinta-feira, 25 de março de 2010

São Paulo é uma cidade com obesidade mórbida, mas e daí, quem liga?

SP está se degenerando a cada chuva, a cada trânsito de centenas de quilômetros, a cada morte sem sentido no farol, a cada árvore que cai ou favela que desaba, a cada recorde de vendas no comércio, a cada shopping a mais, a cada bolo de aniversário. Uma cidade que não se suporta, que virou uma obesa mórbida, com vícios que levam ao “sem sentido” diário. Assim é São Paulo, o meu quintal, o meu jardim de cimento que todos os dias apronta uma molecagem com seus mais de 11 milhões de habitantes.
É a cada porrada dolorida que vamos levando a rotina. E a gente se conforma. Será que no fundo a gente gosta? O trânsito virou o óbvio e a volta para casa uma corrida ao tesouro que para uns pode ser o deitar no sofá, ver a novela, usar a sua droga, brigar ou namorar com a sua vida singular. Trabalhar e ir pra casa. Ir pra casa e trabalhar.
Isso aqui me parece um refúgio de doidos. Todos, do pobre ao rico, em seus carros e motos e nesses prédios todos. Ou o povão suado e esfolado que todos os dias enfrenta filas infindáveis a espera das lotações que são paus de arara em versão moderna. Tem o aquecimento global que ninguém liga; tem os alagados paulistanos do Jardim Pantanal e Romano que servem de “notícia”; tem a miséria na esquina da sua casa ou defronte ao seu prédio de luxo; tem tudo isso aí que estamos cansados de ver, cheirar e mastigar. Ouvir a mediocridade é um prazer cotidiano.
Qual o sentido de habitar, então? De conviver? Me digam, vai, os especialistas...
O tempo, os dois, o do relógio e do clima se estapeiam para ver quem leva a melhor em nos deixar, por nossa culpa, na pior. A gente criou o monstro da convivência desproporcional e, na boa, ninguém sabe resolver. Eu mesmo escrevo esse texto egoisticamente, porque voltei para casa da Vila Madalena até a Lapa de Baixo de moto, cortando trânsito, na busca do meu refúgio, da minha ilha. O lema é economizar o tempo.
Uma amiga me liga à tarde. “Minha rua virou um rio. Estou ilhada, nos vemos outro dia” Dizer o que? Ah, a culpa é dos governantes, a gente paga nossos impostos e esses filhos de uma puta só nos fodem. Mentira! Não é só isso. A tal da mobilização popular virou item em descompasso com a atual realidade. Quem se mobiliza? A minoria. E a minoria, a não ser que tenha o poder da caneta mágica, não consegue transformar.
Essa porra toda é fruto da nossa criação. A cidade só faz crescer em número de carros, prédios, estacionamentos, restaurantes, estradas... Só faz crescer em consumo de energia, de água, de comida. A cidade e quem vive nela só pensa em metas. Cumprir metas de crescimento. “Vai, vai, vai!”. Produção!
Já não vejo árvore na minha rua. Só existem postes e um horizonte interrompido por um prédio. Longe de ser poético, longe de ser mais ácido do que consigo com esse desabafo, pense, reflita aqui vai, só um pouco: o lugar onde você vive melhorou ou piorou nos últimos 10 anos?
Há tempos entrevistei a filósofa Olgária Mattos. O tema era o tempo. Me disse: “Esse sentimento de não ter tempo é a manifestação de algo estrutural na sociedade, que é o trabalho. O trabalho é totalmente esvaziado de sentido, no mundo capitalista, com a automação do movimento do gesto do trabalhador (...) O trabalho continua sendo o trabalho alienado que esmaga fisicamente ou espiritualmente, porque não tem sentido nenhum. Agora, a monotonia contemporânea é o tempo da longa duração, e no capitalismo essa longa duração é insuportável, por isso as pessoas querem matar o tempo, porque não sabem o que fazer com o tempo livre.”
O tempo livre, diria mais, é solapado nessa volta para casa. Mas se só piora é porque, bem lá no fundinho, gostamos assim, de sofrer, de ter motivo.
Não posso pensar ou planejar sem me angustiar. Sair do trabalho e exercer qualquer atividade não laboral se tornou um obstáculo fruto da nossa falta de inteligência social. Simplesmente não comporta mais. Viver o “seu tempo” é uma espécie de “assédio moral”. Viramos uma sociedade desconectada de sentido. O desenvolvimento alucinado serve a quem? A maioria é que não é. Mas e daí, quem liga?

Thiago Domenici, jornalista

"O Ser e a Náusea" trata o problema do lixo eletrônico com criatividade

"Os Cinestésicos é um coletivo de ação, discussão e experimentação audiovisual, procurando espaço na produção de vídeo independente, nas áreas de educação com projetos de oficinas e exibições e captação de recursos para tais, e também presentes cada vez mais no plano virtual, buscando mais conteúdos e compartilhamento de informação, além de participação nos fóruns. Hoje em dia, não é tão simples fazer cinema, e as novas mídias digitais abrem espaço para quem está em baixo poder expressar sua opinião e ideia. Ideias que se aderidas podem ser propagadas pela rede. Com o lixo eletrônico do MetaProjeto fizemos um boneco de lixo e na sequência, surgiu isso aí, uma experiência, tudo improvisado e rápido, mas foi isso, e espero que curtam. O microcurta foi inscrito no Claro Curtas, e dos quase 2000 que entraram na disputa com o tema "Ser Digital", já estamos entre os 100 classificados, o que para nossa experiência e ideia já é uma conquista." Conheça o blogue do Coletivo Cinestésicos.




Lucas Duarte de Souza, especial para o Nota de Rodapé

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

As águas confusas de Atibaia

Não sabia bem como entrar nesta história. Na verdade, planejava a estreia no Nota de Rodapé de outra maneira. Foi quando o amigo Thiago Domenici lembrou: “Robert Fisk, meu caro, Robert Fisk”.
Fisk, uma grande referência do jornalismo mundial, realmente tem momentos marcantes na carreira e uma frase sua, emblemática, sintetiza a forma de trabalhar a informação com honestidade intelectual: “como jornalista, você tem de estar do lado da justiça, do equilíbrio, da decência, tem de se posicionar”. Além disso, o correspondente internacional, de larga experiência em coberturas de conflitos, como no Oriente Médio, diz que é “impossível não se envolver no desenrolar dos acontecimentos”. Assim, recuso-me a ser um jornalista robô, preso aos manuais de redação que defendem o distanciamento. Passo, a partir deste texto, a produzir uma série sobre a terra que me acolheu sem medo de vivenciar cada instante apurado ou reportado.
Pois bem. Sou paulistano de nascença, trabalho na megalópole, mas apesar das idas e vindas, minha família fixou residência em Atibaia, quando tinha oito anos de idade, em 1981. Fundada em 1665, a cidade fica a 65 km de distância de São Paulo e tem, aproximadamente, 120 mil habitantes. Fora a capital, está próxima de outros municípios e regiões importantes, como Campinas e Vale do Paraíba. Teoricamente, uma posição estratégica. Teoricamente.
Pouco comentada pela mídia, Atibaia é noticiada, parcas vezes, como a cidade do vôo livre – com a Pedra Grande e seus 1.450 metros de altitude – pelas plantações de flores e morangos ou por receber times de futebol para pré-temporadas e concentrações, principalmente Corinthians e Palmeiras.
Contudo, nos últimos dias, foi mostrada insistentemente por diversos veículos da grande mídia. Era mais um território invadido pelas enchentes. As reportagens, exibidas repetidamente, captavam tragédias familiares, os desabrigados, choros convulsivos, com pontas e mais pontas de sensacionalismo e, na maioria das vezes, vinham cheias de informações superficiais, que não buscavam as causas e menos ainda as consequências dos alagamentos.
Nas matérias aqui no Rodapé, a ideia é apresentar a cidade de maneira realista e abordar questões pouco ou nada exploradas pelo noticiário, como a expansão imobiliária desenfreada, o loteamento indiscriminado, as invasões de áreas de várzea, de preservação ambiental, o déficit habitacional, a história de uma das maiores favelas do interior de São Paulo e desmistificar algumas “lendas” que cercam o município, casos dos slogans/chamarizes de "paraíso quase possível na terra" e "segundo melhor clima do mundo", apenas factóides criados por interesses políticos/econômicos que geraram a falsa imagem de cidade turística, inflacionaram os preços para os moradores e trouxeram, sim, o turismo, mas meramente imobiliário.

Terra retaliada

É só circular pela cidade para notar que ela pode ser considerada uma verdadeira colcha de retalhos. Por dois motivos. Primeiro, duas grandes rodovias a entrecortam, a Dom Pedro e a Fernão Dias, sendo que a última se encarrega (a impressão é de que calculadamente) de dividir o município em dois. Para quem sai de São Paulo em direção a Minas Gerais, do lado direito, o olhar encontra os bairros “mais nobres” com construções opulentas e as chamadas áreas turísticas. Já do lado esquerdo, para onde os visitantes não vão, a visão é encoberta. A pobreza, as grandes deficiências estruturais e a consequente desigualdade ficam oportunamente camufladas.
Outro aspecto é que as terras atibaienses vêm sendo loteadas, fatiadas como um bolo de aniversário, em que cada “convidado”, ao final da “festa”, leva sua parte. Isso ocorre desde a década de 60 e poucas foram as medidas adotadas pelas administrações locais para conter o avanço indiscriminado dos “empreendedores” do ramo imobiliário que promoveram, com a concordância do poder público, a expansão desordenada da construção civil.
Nesse contexto, dois resultados são destacáveis: a dificuldade de levar infraestrutura adequada aos bairros e a edificação de moradias em pontos inapropriados, exemplo das áreas de várzea, margeando os rios.

Natureza culpada?
Não há dúvida de que as tais causas naturais, as chuvas que caíram sobre a região desde dezembro do ano passado, constantemente, contribuíram para que 900 famílias, quase quatro mil pessoas, fossem desalojadas pelas enchentes. Porém há bastante a ser contado e refletido sobre Atibaia, uma cidade maquiada e que, curiosamente, entre as possíveis origens do seu nome, traduzidas do tupi para o português, tem como opção “águas confusas”, que agora parecem querer retomar o que antes lhes pertencia.

Moriti Neto é jornalista, paulistano de nascença, atibaiense de coração e estreia a coluna Escarafunchar neste Nota de Rodapé.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Meneghetti: no Dops, salva pelo U do nome?

Zilda Meneguetti, nome de solteira, é minha mãe. Na década de 60 e perto dos 20 anos a então empregada doméstica com sotaque do norte do Paraná, Sertanópolis, vivia suas histórias. Cresci cercado por elas, sempre marcadas por uma narração precisa, com detalhes e ambiente. Um desses causos da minha infância é sobre Gino Meneghetti (1878-1976), o ladrão italiano que marcou época em São Paulo por seu estilo particular de assaltar, ganhando fama por seus roubos e fugas espetaculares.
Apelidado de “o bom ladrão” e tendo o mesmo sobrenome de minha mãe, nunca tivemos certeza se era ou não nosso parente. Dona Zilda soube de sua existência no lugar mais inóspito possível, o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Ao chegar com uma amiga para tirar a identidade o enquadro: “A senhorita conhece ou é parente do Gino Meneguetti?”, perguntou o Feijoada, nome do fulano responsável pela emissão do documento. “Quem?”, respondeu.
Detida por 6 horas para averiguação, o tal do Feijoada, um “negro miúdo”, achou que ela podia estar acobertando o bandido histórico, que havia fugido mais uma vez da cadeia. Após interrogatório no qual só não perguntaram para qual time de futebol torcia a liberaram com o argumento. “É, você não tem cara de malandra e sua certidão é MenegUetti e não MenegHetti. Essa H salvou você”.
De fato, o U e o H são letras distintas no sobrenome de ambos. A argumentação do Feijoada é que me intrigou. Bem sabemos que erros são comuns em registros de nomes. A dúvida do parentesco permanece. Sorte da minha mãe que se livrou do infeliz e nada sofreu, uma raridade naqueles tempos. Afinal, ser ainda uma menina numa época de repressão braba pode tê-la ajudado. “Lembro que o Feijoada queria colocar, depois de tudo, azul como cor dos meus olhos. São verdes. Quer dizer, fico detida e ele ainda quer mudar a cor dos meu olhos no documento?”, lembrou minha mãe. A identidade ela tem guardada até hoje. Precisou, depois de mais de 40 anos, tirar uma nova para poder receber sua aposentadoria.

“Meneghetti, honestamente ladrão”
Essa história trago para refrescar as memórias da infância e indicar que Mouzar Benedito lança, nesta quinta-feira, 28 de janeiro, na livraria da Vila, a partir das 19h, o livro de sua autoria com pesquisa de Antonio Biondi e Marcel Gomes, intitulado “Meneghetti, honestamente ladrão”. Lançado pela Boitempo Editorial, o livro traz ainda uma história em quadrinhos de Luiz Gê - que inspirou o curta-metragem de Beto Brant - publicada no jornal Versus em 1976. O livro (136 páginas) faz parte da coleção Pauliceia, coordenada por Emir Sader. A Livraria da Vila fica na rua Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena, São Paulo, SP. O telefone é: (11) 3814-5811.

Documentário: Dov´è Meneghetti?
Beto Brant (1989/12 minutos)
"Minha primeira visão do mundo foi a cidade de Pisa, com sua torre inclinada. Tal como a torre, também o meu destino estaria sempre inclinado, cai-não-cai

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Sai pra lá Serra

Existe algum lugar do mundo a salvo da publicidade de José Serra? O governador de São Paulo, nos últimos meses, ansioso que está por ser presidente da República, bombardeia propagandas na televisão, internet, jornais, rádio. Não bastasse tudo isso, vê-se publicidade de Serra no metrô e nos ônibus de São Paulo.
Domingo retrasado, eis que estou no cinema quando, em meio aos trailers, surge mais uma das peças publicitárias do governador. A sensação é de que, onde quer que se vá, lá estará José Serra.
Fico imaginando que, se não ocorreu, ainda vai ocorrer: está lá o casal no motel, o clima indo maravilhosamente bem, quando alguém tem a péssima ideia de observar a parceira (ou parceiro, tanto faz), no espelho do teto. E eis que se depara com um enorme adesivo ostentando a cara do governador. O clima, claro, vai por água baixo.

- Amor, vamos lá pra banheira. Aqui, não vai rolar.
Mas, ao chegar ao banheiro, eis que está lá, no fundo do piso, a face de José Serra.
- Meu Deus, não acredito. E agora?
- Olha só: a gente vai lá pro quarto, pede uma bebida, relaxa, liga a tevê num daqueles filmes e faz de ladinho. Assim, ninguém precisa olhar pro teto.
- Boa ideia. Liga a tevê, então.

“O governo de São Paulo está preocupado com sua saúde sexual. Pensando nisso, desenvolvemos programas de combate às doenças venéreas. Com a palavra, o governador José Serra: Você tem usado preservativo em todas suas relações? O Governo do Estado, com apoio da iniciativa privada, distribuiu dois milhões de camisinhas este ano.
É o governo de São Paulo, trabalhando por você.”


Bom, quem sabe no mato ainda dê para se livrar da publicidade de José Serra.

João Peres é jornalista e colunista do Nota de Rodapé

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Magrão, Argentina e Copa do Mundo

O amigo madrugador Thiago Barbieri que me perdoe, mas nesta e na próxima coluna arrisco-me pelas veredas futebolísticas. Não que queira tomar seu lugar neste blogue, longe disso. No fundo, importa mesmo é provocar esse ex-companheiro da mais triste das redações paulistanas e outros tantos amantes da redonda. Além disso, em nenhum dos dois vou sair da área de América Latina, afinal falarei de boleiros brasileiros e argentinos.
Aprendi a ver futebol com aquele São Paulo de Telê. Na verdade, naqueles anos de infância, o São Paulo era de Raí. A molecada não tinha essa cisma de ser zagueiro, lateral, volante. Ou era matador, ou era camisa dez. E o dez do tricolor era inspiração pra toda uma geração.
Naqueles tempos, não sabia bem quem era Sócrates. Rezava o pensamento infantil que, se era corintiano, tanto fazia, boa gente não era. Só muito tempo depois fui ouvir falar em Democracia Corintiana, e para mim aquilo nada significava.
Passou mais um tempo até entender de que se tratava tal democracia, e um outro tanto para saber quem era Sócrates Brasileiro. Até hoje, admito, não sei qual o grau de categoria do Doutor dentro de campo – sei, claro, que era muito, mas o que de verdade me importa é saber sobre as movimentações extracampo daquele Corinthians da década de 80.
Desde que entendi a Democracia Corintiana, a admiração por Magrão só faz crescer, ao mesmo tempo em que aumenta o desprezo por Émerson Leão. Fico até chateado quando perco um Cartão Verde, de quinta-feira, na Cultura – dá-me a sensação de que perdi a chance de ganhar um pouco de genialidade, rara constatação quando estamos em frente à tevê.
Hoje, tenho certeza de que Raí foi um grande jogador da história do São Paulo. Magrão foi um grande militante da sociologia do futebol. E não tenho dúvida de qual dos dois foi mais importante.
Faz umas semanas, encontrei Sócrates e tive a oportunidade de conversar rapidamente com ele. A conversa, em si, nada demais teve, apenas uma troca de impressões sobre o filme Lula, o filho do Brasil, mas o suficiente para entrar na minha lista de coisas que justificam amar o jornalismo.
Bem, tudo isso para dizer que, num desses chuvosos fins de semana, Magrão concedeu prolongada entrevista para a TV Cultura. Uma bela entrevista. Quem quiser ver tudo pode buscar na internet, porque cá eu já falei demais e chega a hora de irmos ao assunto de fato. De tudo o que ele falou, seleciono a parte em que dá uma forte declaração: “A Copa do Mundo é uma grande feira de futebol. Você vai ali, expõe seu produto e o público é quem decide pelo sucesso”.
Seguindo no raciocínio, diz Sócrates que quem ganha o Mundial passa a ser copiado durante o período subseqüente. E eis que a Itália, que sei pela boca dos outros, pois não era mais que um projeto de ser humano, ganhou em 1982, selando o destino do futebol daí por diante: o jogo mais sisudo, de força e de resultado, sobrepôs-se à técnica e à arte mostradas pela Seleção Brasileira.
Some-se a isso uma recente coluna de Tostão, outro mestre das chuteiras, na Folha de S. Paulo. Filosofava o ex-jogador sobre a entrevista dada por Defederico, jogador do Corinthians, ao jornal Olé. Tostão alertou para as críticas de Defederico ao futebol brasileiro: engordou quase cinco quilos desde que chegou, fruto de bombas e vitaminas, e todos ficam bravos quando ele para a bola no meio-campo para pensar o jogo.
Pois bem, os pensamentos de Tostão e Sócrates podem dar uma importante indicação de o porquê de a Argentina estar há mais de quinze anos em jejum de títulos com o time profissional – nem uma mísera Copa América, Copa Ouro, nada. Os argentinos, talvez, não tenham se adaptado tão bem quanto o Brasil ao futebol de resultados, talvez cismem nessa coisa chata de jogar bonito. Continuam sofrendo de um antigo problema sul-americano, que são as zagas ruins, algo que o Brasil superou há mais de uma década com seus zagueirões made for export.
Talvez isso explique também porque a Argentina continua fabricando camisas dez em razoável ritmo. Riquelme é o principal deles, mas há outros. E talvez por isso continuem tendo um toque de bola bonito de ver.
Sócrates, na supracitada entrevista, afirmou que a Argentina de 1994 foi a mais bela Argentina que ele viu jogar – claro, até Maradona ser sacado pelo doping. Se lembrarmos as últimas copas, em quase toda os argentinos chegam com um lindo toque, jogam uma primeira fase magistral, mas caem pelo caminho. Para Magrão, não importa. Dando mais um motivo para que possamos julgá-lo, no mínimo, diferenciado, Sócrates fala que o título não tem qualquer valor, é só mais uma representação de casta da sociedade. Ele pensa: “Quer fazer alguma coisa que de fato ficará para a sociedade, que de fato pode representar algo? Escreva”.
Bem, aqui o faço. Ou tento, pelo menos.

João Peres é jornalista e colunista do Nota de Rodapé

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Democracia em perigo?

O lamentável episódio envolvendo o cidadão e cientista político Cesar Benjamim e o jornal Folha de S. Paulo, além de ter uma repercussão exagerada nos principais blogues jornalísticos brasileiros, revela – quanto a mim - parte dos caminhos tortuosos pelos quais vai avançando a incipiente democracia brasileira.
Analisemos as premissas acima. Por que uma repercussão exagerada? Porque os blogues caíram na armadilha da FSP e acabaram por transformar o artigo de um conhecido oportunista político num documento de contestação ao governo do presidente Lula, privilegiando o acusador sem ouvir o acusado. Oportunista político que se coloca, antes da acusação sem provas, como mártir e herói combatente da ditadura civil e militar que infelicitou o país entre os anos de 1964 e 1984. Ninguém, em princípio, é mártir ou herói por lutar contra um regime de exceção. Trata-se de uma opção política individual que, embasada numa consciência de viés ideológico, transforma-se em luta coletiva para mudar a sociedade, com a perspectiva de melhorá-la, torná-la mais justa, equânime, solidária. Muitos fizeram conscientemente essa opção nos anos 60 e 70 e, no Brasil, centenas de cidadãos morreram por suas ideias. A esses, sim, poderíamos chamar de mártires. Portanto, o passado de lutas contra a ditadura não oferece a ninguém, em princípio, base moral para – nos dias atuais – se arvorar em dono da verdade. Muito menos para acusações que não se podem comprovar.
E por que caminhos tortuosos? Porque passada a tempestade da repressão e da censura, das prisões e das torturas e desaparecimentos, o país imaginou que voltaria ao leito das águas calmas da democracia. Isto é verdade até certo ponto, pois cabe perguntar: como funciona a democracia brasileira? Muitos entendem ser a democracia burguesa o melhor dos regimes políticos. Prova-o a velha e surrada frase de Winston Churchill, usada logo após a Segunda Guerra Mundial, e volta e meia citada: “A democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras já experimentadas”. Churchill talvez tenha se esquecido de que a História Política é uma ciência dinâmica e cria mecanismos de transformação conforme a humanidade avança.
Afinal, qual é a compreensão que tem o brasileiro do que seja a democracia? O que se defende por aí no varejo é que a democracia é “o governo do povo, pelo povo e para o povo”, na qual se pratica a “liberdade de imprensa”, “onde é livre a manifestação de opinião e de religião”, “onde o cidadão exerce o seu direito de ir e vir, sem cerceamento, o seu direito de votar”, enfim, esse conjunto de frases que se tornam vazias fora do contexto social em que se inserem e que servem para sustentar a democracia representativa burguesa, mas na verdade podendo se transformar num conjunto de lugares comuns mais condizentes e apropriados com a prática política daquilo que cada um de nós pensa num determinado momento histórico.
Em outras palavras: a democracia representativa brasileira, essa que nos é dada viver nesse início de século 21, é a expressão máxima de representação e dos direitos do poder econômico no país, da liberdade de ir e vir do capital, de alguma cartelização e da livre circulação de mercadorias. E também da regulamentação rígida do trabalho e dos deveres dos trabalhadores.
Fazendeiros, ruralistas, latifundiários, banqueiros, agiotas, doleiros, grandes e médios empresários, comerciantes importadores e exportadores, grandes cadeias de supermercados e lojas de varejo, mineradores, fabricantes de cimento, aço, ferro, papel, donos de grandes jornais, revistas, canais de televisão, rádios, donos de imobiliárias e revendas de automóveis, as grandes lojas de luxo, os cartéis da cerveja e dos refrigerantes, multinacionais do petróleo, as grandes agências de publicidade, vendedores de planos de saúde, os fabricantes de cigarros e os grandes traficantes de drogas, toda essa gente é grande defensora da democracia representativa burguesa, ou seja, seus representantes, através de lobbies e eleições apoiadas em campanhas milionárias, têm parte substancial dos assentos no Congresso Nacional, nas Assembléias Legislativas estaduais e nas câmaras de vereadores por todo o país. São eleitos governadores e prefeitos. Pois é o poder econômico, com minoritárias e muito dignas e honrosas exceções, que os elegem. Enfim, são os que fazem as leis, a Constituição e a própria democracia. A democracia deles.

Enquanto isso...
Do outro lado da balança, o povo, a grande maioria dos cidadãos. Os bancários, os comerciários, profissionais liberais, os metalúrgicos, os têxteis, as empregadas domésticas, os motoristas e cobradores de ônibus, os metroviários, os varredores de ruas, os empregados de bares, os lixeiros, os trabalhadores do campo, com ou sem terras, os taxistas, os motoboys, os garçons, as diaristas, os ambulantes, os artistas, os professores primários e universitários, os trabalhadores em construção, os mecânicos, os pipoqueiros, os frentistas de postos, os carteiros, os boias frias, os catadores de papel, os porteiros de edifícios, os bilheteiros, as manicures, os borracheiros, os enfermeiros, os jornaleiros, os funcionários públicos civis e militares. Enfim, toda essa chusma e mais alguma que cumpre e sofre as leis e as regras da democracia representativa.
Pessoas mais bem preparadas que eu chamam de luta de classes. E onde há desigualdade social e injustiça não floresce a democracia, mesmo que representativa. Onde só um dos lados tem voz, não há justiça e onde não há justiça não existe democracia.
Como também não há democracia quando se quer transformar os direitos que ela contempla em direitos da minoria e os deveres em deveres da maioria, quando se quer manipular e estratificar consciências, induzindo os cidadãos a pensar que só existe um tipo de democracia, aquela em que eu acredito. Aquela em que eu voto, mesmo que esse voto nem sempre seja respeitado.
Muitas dos artigos e das opiniões que li sobre o episódio Cesar Benjamim, deixaram-me com a impressão de que a nossa democracia ainda é frágil e corre perigo. E que a temporada de psicanálise sobre a luta contra a ditadura está aberta. Quem foi mais revolucionário? Quem sofreu mais nas prisões? Quem foi mais torturado? Ter combatido a ditadura capacita-me moralmente a fazer hoje qualquer tipo de crítica aos que, neste momento, governam o país? Em muitos casos sim, quando a crítica tem a preocupação do bem comum, dos benefícios para a maioria, da continuada luta pela correção das mazelas sociais que ainda são significativas no Brasil. Mas não como no caso do cidadão Cesar Benjamim que, covardemente usou as páginas de um jornal para lançar suspeitas sobre o passado de um Presidente da República, numa inegável atitude eleitoreira, para dizer o menos.
Repito: o episódio é emblemático da atual democracia brasileira, democracia que se quer para muitos, a de mão única, sem direito à defesa e ao contraditório, a da dúvida, da suspeita, da retaliação, da prática e do elogio à mentira, a democracia do “você é culpado até prova em contrário”. Sem saber, ou até mesmo sem o querer, podemos estar entrando na ante-sala do fascismo, onde a delação, em si só já condenável, não precisa de provas. Basta que se lancem as dúvidas.

Izaías Almada é autor, entre outros, do livro VENEZUELA POVO E FORÇAS ARMADAS e colunista do Nota de Rodapé.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Copenhague não é brincadeira, se liga!

As discussões em Copenhague sobre as mudanças climáticas e os acordos políticos sobre o tema tem a ver com cada um de nós. Vai influenciar no nosso dia a dia. Se liga, o mundo está mais quente! O Brasil teve o Furacão Catarina, o primeiro no Atlântico Sul, foram mais de 32 mil casas atingidas, 13 mil desabrigados e 11 mortos. O nível do mar está subindo sim. E pode vir mais por aí. Isso é só um exemplo trágico do que a ação humana vem realizando com seu consumo exagerado e desnecessário. Estamos matando o planeta. Repito, matando o planeta. E lembre-se, estamos nele, ou seja, matar o planeta é matar a nós mesmos. E na tevê vejo - na já entupida cidade de SP - que neste final de semana no autódromo de Interlagos um saldão de novos e semi-novos unindo pela primeira vez todas as concessionárias será realizado. É ou não é contraditório? Mais carros, mais engarrafamento, mais CO2, mais facadas no planeta. Abaixo um documentário fundamental do Greepeace de como o Aquecimento Global já causa impactos no Brasil. Tem 50 minutos, mas na boa, vale a pena assistir. Outros dois mais curtos, um animado, para a criançada entender e outro, de 30 segundos, muito interessante.





quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

“Se estava na rua era bandido”. Era gari

Os documentos estavam no bolso, inclusive um holerite marcado com sangue. “Se estava na rua era bandido”, disseram os policiais que assassinaram o gari Edson Rogério, 29 anos, filho de Débora Maria da Silva que coordena o grupo Mães de Maio, que reúne mulheres que perderam os filhos na chacina de maio de 2006, chamado de “ataque do PCC (Primeiro Comando da Capital)” e que ganhou as telas recentemente com o filme "Salve Geral", indicação brasileira para tentar concorrer ao Oscar 2010. Foram quatro tiros em Edson, nove policiais envolvidos e o processo arquivado. A história do Gari é uma entre centenas que acontecerem entre 12 e 20 de maio de 2006, quando 564 pessoas foram assassinadas, quase 90% civis. Desse total, apenas 6% com antecedentes criminais. A maioria deles, jovens de baixa escolaridade. Essas mulheres e mães alegam que tiveram seus filhos assassinados por esquadrões da morte e pela polícia paulista. Considerando os números, mais gente morreu no período do que em toda a ditadura militar: 564 contra 424 nos anos de chumbo. Atualmente, 60% dos processos estão arquivados e as “Mães de Maio” exigem o desarquivamento dos crimes praticados. A repórter e colunista deste Nota de Rodapé, Andrea Dip, foi ouvir a história do maior trauma que uma mãe pode sofrer, a perda brutal de um filho. Edson não era bandido, era Gari e foi assassinado na mesma calçada que havia varrido pela manhã.

Como começou tudo?
O pai do meu menino morreu da mesma forma. Nós nunca descobrimos quem matou. O Rogério, meu filho, já trabalhava há sete anos em uma firma de limpeza urbana. Para tudo me pedia opinião. Era meu bebê. Nós compramos uma casinha no morro para ele morar e ele pegou um empréstimo no banco para comprar o piso e reformar. Um dia ele estava deitado no sofá e perguntei: “Você está feliz, filho?” E ele respondeu “Muito, mãe. Muito feliz”. Depois da casa ele comprou uma moto. Aí uns dias antes do que aconteceu ele teve de fazer uma cirurgia na boca, veio aqui e pediu “mãe faz um cozido pra mim, eu vou bater no liquidificador” por causa do dente. Ele operou no dia 10 de maio de 2006. Aí passou o dia das mães aqui comigo, fizeram um bolinho para mim porque tinha sido meu aniversario. Ele comeu um pedaço de carne, bateu no dente e começou a sangrar, acabou o dia para ele. Aí se deitou, tomou um remédio. Às seis da tarde as meninas o chamaram para cantar os parabéns para a mãe. E já estava na televisão aquela matança, a gente chorou também. Ele pegou um pouquinho de comida que a gente tinha dividido do churrasco. Tinha que trabalhar no dia seguinte porque não entregou o atestado com medo de ser mandado embora. Me pediu um beijo e foi embora. Foi o último dia que passei com o meu filho.

Ele foi assassinado no dia das mães?
No dia seguinte recebi um aviso de um policial amigo da família dizendo que era para as pessoas “de bem” não saírem na rua porque quem tivesse na rua era inimigo da polícia. Eu ligava para o celular do meu filho e não conseguia falar. E aquela dor no meu coração. Quando deu uma hora da tarde deu pane nos telefones, até hoje a gente não sabe o que aconteceu. A Telefônica nunca disse. Fui para o meio da rua, achava que estava ficando louca. Sentia um cheiro de carne com sangue no meu nariz me sufocando. Queria saber notícias do Rogério e não conseguia sair do lugar. Aquela agonia. Ele apareceu aqui atrás de um remédio, com muita dor de dente. “Filho, o que você está fazendo na rua, fica aqui, não sai”. Ele me pediu 10 reais para colocar gasolina na moto, pegou o remédio e foi embora.

Ele foi pego nesse momento...
No meio do caminho, segundo os frentistas do posto. Ele ia subir o morro e acabou a gasolina, ele até caiu da moto. Foi empurrando a moto até o posto. Os frentistas não quiseram vender a gasolina porque o posto estava fechado e estava cheio de câmera, aí ele pediu ajuda pra um amigo do morro e quando o amigo chegou no posto, chegaram três viaturas e uma Blazer. Não consegui dormir a noite toda. De manhã liguei o rádio e ouvi: “houve uma matança aqui na nossa região e 16 corpos estão no IML. Eu vou dar primeiro os nomes da nossa região”. Deu o primeiro, o segundo, o terceiro era o nome do meu filho. Comecei a gritar “mataram meu filho, mataram meu filho”. Liguei para o mercado perto da casa dele para saber se ele tinha ido comprar pão, ninguém sabia, ninguém falava nada. Minha filha tinha acabado de ganhar gêmeos, o peito dela até secou. Minha outra filha foi lá reconhecer, mas não deixaram ela entrar no IML porque eram muitos corpos, inclusive de uma moça grávida de nove meses que tinham matado também. As testemunhas contaram que o Rogério dizia para os policiais “mas eu sou trabalhador” e eles respondiam “Se morreu era bandido”.

Andrea Dip é jornalista e colunista do Nota de Rodapé.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

IPTU: só pelo prazer de criticar

Muita polêmica foi causada pela notícia de que a Prefeitura de São Paulo apresentou à Câmara de Vereadores projeto de atualização da Planta Genérica de Valores (PGV). Durante as últimas semanas fomos bombardeados com notícias incorretas ou pouco precisas, opiniões de cunho partidário - sejam elas de apoio ou de oposição ao Prefeito – além da enxurrada de especialistas em Direito Tributário, a grande maioria falando bobagem.
A PGV compreende os padrões de avaliação de imóveis, por metro quadrado, segundo fatores tais como localização, acabamento, antiguidade. A ideia de se criar uma planta de valores surgiu da óbvia incapacidade, por parte das prefeituras, de determinar, caso a caso, o valor venal dos imóveis.
Não é a primeira vez que a PGV causou furor em nossa cidade. No começo deste ano, a Câmara dos Vereadores instaurou uma CPI, presidida pelo vereador Aurélio Miguel (PR), para averiguar possíveis irregularidades na planta.
Na época, o presidente da comissão questionou ao diretor da Divisão de Mapas e Valores da Secretaria de Finanças, Ricardo Neves. “Como o valor do metro quadrado do Shopping Bourbon é diferente do valor do Parque Antártica se estão na mesma quadra? Não dá para entender porque em 2008 se cobrou R$ 684,00 o metro quadrado no Bourbon enquanto no Parque Antártica o valor lançando foi de R$1.017,00”.
Lembro de, naquela ocasião, ter lido muitos artigos colocando sob suspeita a avaliação da Planta Genérica e cobrando imediatas providências do Poder Público
Em São Paulo a última revisão da planta foi feita em 2001, na gestão da ex-prefeita Marta Suplicy. Desde aquela época, os valores do IPTU sofreram as correções anuais da inflação.
O órgão responsável pela revisão da planta é a Comissão de Valores Imobiliários, conselho composto por 14 membros que, desde 2002 se reúnem a cada 40 dias. Dentre os membros da comissão estão representantes do Poder Público e da Sociedade Civil (inclusive da FIESP).
Para a sociedade, a Planta Genérica de Valores tem relevante importância, pois dá bases à definição do “valor venal” dos imóveis e, em consequência, ao montante devido de IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano), bem como do ITBI (Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis) e das indenizações por desapropriações.
Aí é que começou a confusão. Reajustando-se a Planta Genérica, atualizou-se, compulsoriamente, também, o valor do IPTU. Pronto! Foi o estopim da discórdia! Enquanto a pimenta ardia nos olhos dos outros (leia-se Shopping Bourbon) estava tudo certo e o reajuste na Planta era plenamente válido. Agora, quando a “bala ricocheteou”, a história foi outra!
O artigo 33 do Código Tributário Nacional estabeleceu que o a base de cálculo do IPTU seria o valor venal do imóvel. Entretanto, ainda que o legislador tenha trazido à baila o instituto do valor venal, não teve o cuidado de definí-lo.
Em face desta lacuna, a doutrina buscou formas de definir o citado conceito. Houve um consenso de que o valor venal do imóvel seria o preço alcançado em uma operação de compra e venda à vista, em condições normais do mercado imobiliário, admitindo-se a diferença de até 10% para mais ou para menos (Cf. HARADA, Kiyoshi. Direito financeiro-tributário, 17ª edição, Atlas, 2008, p. 423).
Ocorre que, no mundo do Direito Tributário tais lacunas não podem existir. Ainda que a doutrina tenha se aproximado de uma definição comum, no que tange ao “mundo dos tributos” é a Lei o instrumento apropriado para tal tarefa. É inclusive o que diz o Código Tributário Nacional, que, em seu artigo 97, IV, determina que a fixação de Base de Cálculo de tributos somente poderá ser estabelecida através de Lei.
Em consequência, e se tratando especificamente sobre a base de cálculo do IPTU, o município de São Paulo, por meio da Lei nº 10.235/86 (que aprovou a PGV), trouxe seis tabelas anexas contendo listagem de valores, possibilitando a apuração do valor unitário do metro quadrado de construção e do terreno.
Em outras palavras, a Lei 10.235/86 alcançou o denominador que, para fins da definição de valor venal, aproximou-se do valor de mercado. Determinou, por exemplo, que o valor venal seria apurado pela soma do valor do metro quadrado da região do imóvel com o valor do metro quadrado da construção.
Hipocrisias e choradeiras à parte, todo o proprietário de imóvel sabe que o valor venal corresponde a quantia muito abaixo do valor de mercado, muito inferior à margem de 10%. Em muitos casos, o valor venal equivale a 30% do efetivo valor de mercado. Nada mais justo que ocorra uma atualização para que essa discrepância seja minimizada.
Pode-se verificar que as maiores correções ocorrerão justamente nos bairros que tiveram as mais vultosas valorizações imobiliárias nos últimos anos, tais quais, Anália Franco, Pinheiros, Vila Leopoldina e a Vila Andrade (região da Giovanni Gronchi, Morumbi), além daquelas regiões que sofreram profundas revitalizações (Brás, Largo da Batata etc.).
Ora, não é cabível pretender que o bairro do Anália Franco tenha o valor do seu metro quadrado próximo ao valor do metro quadrado dos bairros de Carrão e da Penha. É justo que haja correção acompanhando a valorização da região.
Cabe lembrar que todo aquele que entender que tenha ocorrido um reajuste acima da valorização imobiliária tem em seu alcance medidas combativas, sejam elas administrativas ou judiciais.
Então, é justo que haja a correção do valor do metro do terreno, vez que, em 8 anos, muitas benfeitorias foram feitas no município de São Paulo. Por outro lado, verificando o texto da nova lei, constata-se que além da atualização sobre o valor do terreno, a municipalidade atualizou, em média, 74% do valor da área construída.
Em outras palavras, segundo a nova lei, todo e qualquer imóvel teve a sua área construída valorizada em 74% (média), independentemente do lugar em que está localizado.
Exemplificando. Uma residência de 3 dormitórios, sala, cozinha, banheiro e garagem (Classificação - 1C) que antes tinha seu metro quadrado construído valendo R$ 350,00, pela nova lei passará a valer R$ 635,00, seja ela erguida no Capão Redondo, seja na Vila Nova Conceição. Não me parece razoável. Não vejo expansão imobiliária que possa justificar tal reajuste.
Enfim, justo ou não, ressalta-se que o reajuste na PGV beneficiará aqueles que, por ventura, tenham seu imóvel desapropriado pela administração, visto que as indenizações também levarão por base o novo valor venal do imóvel.
Cumpre ressaltar, ainda, que muitos tributaristas, alguns deles auto intitulados “especialistas” defendem que o pretendido aumento no valor venal do imóvel, e consequentemente do IPTU, seria uma afronta ao principio da Capacidade Contributiva.
Pura ignorância. Tal princípio constitucional estabelece que, sempre que possível (leia-se sempre que não for impossível), os impostos terão caráter pessoal e serão graduados segundo a capacidade econômica do contribuinte.
Ora, diferenciar o valor do metro quadrado e a consequente tributação de bairros cuja valorização ocorreu de maneira distinta contribui com o respeito ao princípio. Ou seja, é a constatação de que aqueles que compraram um imóvel no Jardim Anália Franco tem mais capacidade de contribuir do que aqueles que compraram seu imóvel na Penha, ambos, atualmente, tributados de maneira bem semelhante.
Destaca-se que o IPTU é um tributo direto, que incide sobre o patrimônio, e é progressivo, por expressa determinação constitucional. Sendo assim, segundo estabelece a Constituição, os imóveis mais valorizados devem ser tributados de modo mais oneroso, a fim de que os mais modestos possam ter a tributação reduzida ou suprimida.
Complementando, como próprio nome diz, o IPTU se enquadra na espécie tributária “Imposto”, ou seja, trata-se de uma obrigação tributária que não está ligada a qualquer atividade estatal específica. Em outras palavras, o valor que os contribuintes pagam a título de imposto são remetidos diretamente para os cofres públicos, servindo para o pagamento das despesas da cidade de uma maneira geral.
No caso concreto, considerando a cidade de São Paulo temos que o valor de imposto arrecadado neste ano servirá para o custeio do orçamento do município. Em 2010, segundo a proposta orçamentária enviada pela Prefeitura à Câmara Municipal em setembro deste ano poderá ultrapassar R$ 28,1 bilhões. Deste valor, as áreas de Educação e Saúde foram as mais beneficiadas, respectivamente com R$ 7,3 bilhões e 5,5 bilhões (31% e 19% das receitas de impostos), cumprindo o que determina a Constituição Federal.
Portanto, analisando todos os argumentos veiculados pela imprensa, temos que frases do tipo “KASSAB vai aumentar o IPTU”, “O IPTU deveria reverter-se em benefícios. Mas na prática, o que vemos é mais impostos e menos serviços”, “As pessoas mais pobres estão sempre pagando mais tributos”, ou “Não há nenhum critério técnico dizendo que as regiões foram valorizadas porque houve uma intervenção do município...”, somente espelham a profunda ignorância daqueles que as propagam, ou, na melhor das hipóteses, a vontade incontrolável de criticar e criar polêmica.

Guilherme Ablas, advogado tributarista, jornalista e sócio do escritório Lins e Silva, Braghette, Bueno & Ablas. Mande suas perguntas e dúvidas para rodapejuridico@notaderodape.com.br

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Luiza Erundina ganha apoio em blogue

A ex-prefeita de São Paulo e atual deputada federal pelo PSB, Luiza Erundina, tem passado maus bocados desde que foi condenada a pagar uma dívida de R$ 350 mil aos cofres públicos por conta de uma condenação judicial – da qual não pode recorrer, está transitada em julgado – decorrente de um texto publicado no jornal Folha de S. Paulo em 1989, à época em que comandava a prefeitura da capital paulista.
No anúncio publicado no jornal a ex-prefeita defendia a greve nacional dos transportes, alegando, por exemplo, que os ônibus não deveriam sair da garagem para envitar que ficassem mais deteriorados do que já estavam. Alvo de uma Ação Popular (no mesmo ano de 1989) de um paulistano desgostoso com a atitude, Luiza teve, neste abril de 2009, ou seja, exatos 20 anos depois do ocorrido, todos os seus bens penhorados: o apartamento, o automóvel e 10% do salário que recebe como deputada federal. A ação impetrada pelo cidadão Gamez Nunes pede que Erundina devolva o dinheiro que a Prefeitura utilizou na publicação em que ela se posicionou favoravelmente ao movimento grevista. A deputada que tem a casa como único bem - o que por lei bloqueia a penhorabilidade - abriu mão desta prerrogativa para arcar com pequena parte da dívida.
O que parece piada pronta não é. A política honesta que pagando o pato de muitos desonestos. A Rede Brasil Atual com o repórter e colunista deste blogue, João Peres (Extremo Ocidente), noticiou o ocorrido. Disse Erundina que “jamais” poderá pagar essa dívida (corrigida pela inflação ao longo desses anos todos) e que sofre com preconceito por ser de esquerda. João Peres escreveu belo texto sobre o primeiro jantar de apoio para arrecadar verba – iniciativa dos amigos e que muito emocionou Luiza.
Agora, para dar sequencia, foi criado o Blog Luiza Apoio Você com os dados da conta da campanha e depoimentos dos apoiadores. Você também pode deixar o seu depoimento. Para os que puderem contribuir aí vai a conta: Banco do Brasil - Agência 4884-4 - Conta corrente 2009-5.

"Tem muito canalha lá"
Nunca me esqueço da entrevista na qual participei com Erundina, em que, emocionada, falou do povo e do quão delicada foi ao discorrer sobre o seu ex-partido, o PT. Certa altura da entrevista, realizada em 2007, quando perguntei sobre o congresso me respondeu: "O que a mídia transmite sobre o Congresso não é real. Ou real em parte, por que a mídia só projeta aquilo que é destrutivo para o poder, sobretudo a Câmara. Se há uma instituição na democracia burguesa mais representativa do povo, é a Câmara. Por isso que uma certa mídia faz campanha tão sistemática para destruir o poder, para com isso enfraquecer a democracia. A grande parte dessa mídia não tem compromisso com a democracia, porque não pagou por ela. Não podemos correr riscos, e a forma como uma certa mídia desmoraliza o Poder Legislativo... não obstante todos os canalhas que têm lá. E tem muito canalha lá, de todos os partidos. Mas eu valorizo tudo o que se produz de bom naquele Congresso e se produz muita coisa boa. Acompanhem as comissões temáticas, os seminários que se realizam, as audiências públicas, as discussões de projetos de iniciativa do governo, de iniciativa do próprio Congresso. Agora mesmo temos uma discussão riquíssima na Comissão de Ciência, Tecnologia, Comunicação Informática, sobre a revisão das normas de outorga e renovação de concessão." Erundina tem meu apoio e falo apenas por mim, não falo nem em nome deste blogue ou dos seus colunistas.

Ferréz: Cronista de um Tempo Ruim

O escritor e embaixador da periferia, morador do Capão Redondo, Ferréz, lança nesta terça-feira (24) o livro "Cronista de um Tempo Ruim", no auditório da Ação Educativa, rua General Jardim, 660, Vila Buarque, Centro. O livro é o primeiro de uma série do selo Povo, que o próprio Ferréz criou. Com 130 páginas será vendido a R$ 5,00, uma raridade no país dos livros caros. É a boa literatura a preços populares e com edição e acabamento da melhor qualidade.

Promoção Rodapé
A partir de agora todos os leitores deste blogue que se cadastrarem no "Boletim Rodapé" (ao lado) concorrem a um total de cinco livros (Cronista de um Tempo Ruim) autografados pelo escritor; eles serão sorteados no dia 5 de dezembro e o resultado divulgado no blogue no dia 6.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Trabalhadores da Flaskô contam sua história na tevê

O nome é esquisito, mas sua história é exemplar. A Flaskô é uma fábrica de materiais plásticos, localizada no município de Sumaré, na região de Campinas, e que desde 2003 está sob controle dos trabalhadores. Hoje, sexta da consciência negra, 20, na tevê fechada, no programa Conexões Urbanas do Canal Multishow será exibido um programa sobre a sua história, pouco conhecida do grande público. O recado é curto e grosso. "Como já devem imaginar, as lutas autênticas dos trabalhadores não têm espaço na mídia controlada pelo grande capital. Portanto, quando conseguimos cavar um espaço, por menor que seja - e mesmo sendo num horário difícil e em canal fechado - devemos buscar utilizar ao máximo", disse um dos coordenadores. Fica o convite para conhecer mais no site deles.

Lembrando
: hoje, 20/11 (Sexta-Feira feriado), no canal Multishow (TV a cabo), às 23:00 será exibido um programa (Conexões Urbanas) sobre a Flaskô. Horários alternativos: Sábado, 21/11 - 14h15 / Domingo, 22/11 - 8h30 / Segunda, 23/11 - 13h / Terça, 24/11 / 16h / Quarta, 25/11 - 5h30

Histórico
2003. 12 de junho. Após três meses de salários atrasados e na iminência do fechamento da empresa pelos patrões os trabalhadores da Flaskô que fabrica materiais plásticos em Sumaré, na Região Metropolitana de Campinas, ocuparam e assumiram o controle da fábrica. Estes trabalhadores lutam para manter as fábricas em funcionamento e garantir os postos de trabalho. A reivindicação é que o governo assuma o controle destas empresas, através da estatização.

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