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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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domingo, 25 de maio de 2014

Real e Atlético de Madrid na Liga dos Campeões

por Pedro Mox*

Sete quilômetros separam, em Madri, o estádio Santiago Bernabéu do Vicente Calderón. O primeiro é casa do Real Madrid Club de Fútbol: time recheado de estrelas, mais vezes campeão continental, elenco mais caro do mundo. O segundo, casa do Club Atlético de Madrid: atual campeão nacional, rival citadino do Real, “primo pobre” da capital espanhola. Quis o destino que a primeira final da Liga dos Campeões da Uefa entre clubes da mesma cidade colocasse frente a frente os rivais madrilenhos.

595 quilômetros separarou a terra dos finalistas do palco do jogo, Lisboa. O Estádio da Luz, casa do Benfica, foi o escolhido para receber a final da temporada 2013/2014. Ao Atlético seria a glória, a confirmação de uma temporada perfeita. Treinado desde 2011 pelo argentino Diego Simeone, seria o ápice após levantar, nos últimos anos, La Liga, Copa do Rei e Liga Europa. Ao Real, a salvação após péssima campanha no nacional. Coube ao experiente Carlo Ancelotti arrumar os vestiários e tentar dar rumo ao galáctico plantel madridista.

Com a bola rolando, a estratégia do argentino parecia funcionar – a despeito da substituição de Diego Costa com menos de dez minutos. Consistente marcação no meio de campo, aliada a ataques rápidos pelos lados, encontravam um adversário perdido, apesar da qualidade de seus delanteros. O gol do uruguaio Godín, aos 36 minutos do primeiro tempo, era o que os atleticanos precisavam para manter a tática e erguer a taça “orelhuda”. O segundo tempo não trouxe muitas mudanças, até a entrada de Marcelo e Isco.

Mantivesse sua linha de quatro homens marcando no meio campo, e eventualmente estocando o gol de Iker Casillas, porventura o resultado seria outro. Mas o Atlético, com o passar do tempo, parecia sentir cada vez mas a troféu em suas mãos; e tal ansiedade em campo significou chamar o Real para sua área. E na desorganização ofensiva dos merengues versus nervosismo defensivo colchonero, a primeira levou a melhor.

Cinco minutos separavam os atletis da consagração. Entretanto, é difícil segurar Di Maria, Cristiano Ronaldo e cia. E foi num chute do argentino que Bale aproveitou o rebote, empatando o derby nos acréscimos da etapa final. O resultado improvável, tão próximo aos comandados de Simeone, começava a ruir. O gol, àquela altura, no placar representava apenas o empate; porém, na alma, era uma derrota.

Na prorrogação apenas uma equipe jogou. O peso da desgastante temporada era nítido nas pernas do reduzido grupo rojiblanco. A luta, a entrega, a dedicação que propiciou épicas vitórias sucumbiu ante o vigor e a qualidade do Real – o gol de Marcelo é prova disso. A torcida que passou todo o tempo quieta agora vibrava; a que cantou durante 90 minutos calou.

Nem de longe o futebol é um esporte justo, e fosse minha torcida o caneco teria ido para o Vicente Calderón. Quiseram os deuses do futebol que, em vez de um inédito vencedor, essa temporada da Liga se transformasse em la décima, o décimo título do Real Madrid. Entretanto, há de ser reconhecido, e muito, o vice campeão. O placar de 4x1 não representa em nada a história da partida, na qual o 11 espartano do atlético lutou como pode contra os persas madridistas.

O reconhecimento da torcida colchonera, que ao final da partida aplaudiu seus heróis, demonstra o quanto a equipe conquistou. A taça não veio, mas para mim, nada separa esse Atlético de um time que fez história.

***

Em tempo: Note-se a bela organização pré-jogo da Uefa. Tanto a cerimônia no gramado quanto as opções fora do estádio aos torcedores. Tornam o entretenimento maior que os 90 (nesse caso, 120) minutos de bola rolando; o ideal é chegar com duas horas de antecedência para sentir o clima, passear pelos estandes, comprar um souvenir. Da ideia do quanto a Conmebol poderia aprender.

* * * * * * *

*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Futebol e “jornalismo do apocalipse”: tudo a ver


por Moriti Neto  ilustração Victor Zalma*

O que se faz, aproveitando o reforço das escassas inteligências e do quase zero de seriedade constantes no meio do jornalismo esportivo, é apostar maximamente no descartável, mola essencial da sociedade de consumo.

Deparei-me com exemplo disso no último dia 1º de maio, à tarde, um feriado, quando assistir ao jogo de volta entre Barcelona e Bayern Munique, disputado na Espanha, pelas semifinais da Liga dos Campeões da Europa, parecia boa opção. Parecia. Com a partida transmitida em sinal aberto pelas emissoras Bandeirantes e Globo, o que vi foi uma exibição de mau jornalismo, total descompromisso com a informação.

A vitória do time alemão por 3 x 0 e a incontestável classificação (o time bávaro já havia vencido a primeira partida pelo placar de 4 x 0) transformou o Bayern em novo xodó da mídia esportiva internacional, brasileira incluída. Mais do que isso, expõe a irresponsabilidade das equipes “jornalísticas” que transmitem competições esportivas de alto nível, já que alcançam – e influenciam – tantas pessoas.

O modelo do time a ser admirado nem é o problema. Isso vai de gosto pessoal. A questão é a falta de embasamento. O que leva narradores e comentaristas a afirmarem que “um gigante surge” e “o fim de uma era”?

Sim, o Bayern é ótimo. Apresenta valores individuais de excelente nível e bom jogo coletivo. Ganhou o último campeonato alemão de forma notável. Contudo, o que exatamente serve de parâmetro para guindá-lo ao gigantismo internacional promovido pelos Galvões da vida?

Os reis das obviedades tomam como fundamento duas partidas. Absolutamente nada que escape às duas derrotas impostas ao Barcelona, este, de fato, o gigante da história do futebol contemporâneo tanto pela qualidade técnica como por grandeza de títulos conquistados (vale ressaltar que, no momento, o Barça está claramente em declínio, motivado por diversos itens que vão muito além da ausência, na ocasião da partida, do contundido Lionel Messi).

Nem mesmo é possível classificar a recente alçada midiática do Bayern à condição de time mais forte do mundo como resultado de anos de construção. O projeto que colocou o clube em três finais da Liga dos Campões nas quatro últimas competições disputadas não é considerado. Está longe de ser o parâmetro para a conclusão dos gênios da cobertura esportiva, já que mal citado é.

Sai o Barcelona, entra o Bayern Munique. Numa simples operação que não leva em conta nenhum fator a não ser a busca de audiência e a venda da publicidade. Aqui entra a aposta no descartável. Mexe-se na prateleira, substitui-se um produto por outro e esquece-se a missão de informar.

Não estou aqui a defender o mau humor, mas a seriedade. São conceitos bem diferentes. O futebol, esporte mais popular do planeta, não é só diversão. É patrimônio cultural da humanidade. Merece precisão e responsabilidade na transmissão da informação, que é bem de interesse público.

No entanto, na ânsia pela venda do produto, o que prevalece são as bobagens ditas por falsos profetas, principalmente os do apocalipse. Eles adoram gritar fins e surgimentos. Amam antever os rumos do mundo. Triste. Ainda mais entristecedor é que isso vá bem além de uma transmissão esportiva. Invade as várias áreas do jornalismo. Sem piedade, a irresponsabilidade informativa vista em Barcelona x Bayern Munique atravessa a vida de quem acompanha as editorias de cada dia.

Precisão? Que se dane!

Só para reforçar o quanto o futebol serve de referência sobre a falta de competência na apuração e o quão são irresponsáveis as coberturas jornalísticas atuais, vale lembrar casos envolvendo os jogadores Neymar e Paulo Henrique Ganso, hoje no Santos e no São Paulo, respectivamente.

No limite da irresponsabilidade, tem veículo de comunicação que reforça o erro de outro, site que aposta em astrologia para fazer “jornalismo” e interesses nada nobres em jogo.

-- Ganso troca Santos por Corinthians

-- Astrologa prevê lesão de Ronaldo, alcoolismo de Neymar e queda do Vasco

-- A cruzada da mídia contra Neymar


*Moriti Neto, jornalista. ilustração de Victor Zalma, especial para o texto, faz sua estreia no time de colunistas do NR

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Capoeira, o corpo pensa

O mês de novembro é bastante significativo para pensarmos os rumos das relações de poder dentro da nossa sociedade por dois motivos: o primeiro, por conta do dia da Consciência Negra. O segundo, por se comemorar hoje o nascimento de Manoel dos Reis Machado, o famoso mestre Bimba, grande propulsor da capoeira no Brasil, manifestação cultural que pode ser considerada a expressão da ironia do negro no país.

Há mais de quinze anos, me dedico a esse ritual de jogar capoeira e reconheço que um dos grandes falseamentos do homem moderno é o desprezo pelo corpo e a hipervalorização do pensamento e da consciência.

O que isso significa? Basta olharmos para os templos da atualidade – as academias – para nos depararmos com legiões de corpos hiperestimulados, num verdadeiro culto à forma física.

A questão a ser discutida aqui, caro leitor, é justamente essa “forma”. Na verdade, não valorizamos o corpo em si, mas sim uma ideia de forma corporal. Um padrão idealizado e imposto por uma cultura que despreza o risco, a vulnerabilidade, o que envelhece e tudo aquilo que nos remete a nossa humanidade.

Como educador físico, eu faria um esforço para convencê-los de que o esporte ocidental – onde incluo as atividades em academias – se caracteriza por um conjunto de técnicas que levarão o praticante a desenvolver capacidades físicas e um corpo quase invencível, forte, flexível, belo, com uma boa postura e um ótimo tônus muscular.

O corpo na capoeira é um corpo que se assumi emocional, pulsional e falível. Já dizia a velha cantiga: “na vida se cai se leva rasteira, quem nunca caiu não é capoeira”.

O problema nessa concepção, na visão de Muniz Sodré, por exemplo, é que ela “mantém a separação entre corpo e espírito, ambos em uma mútua relação agressiva.” Sodré diz ainda que a institucionalização do esporte “termina imbuído do mesmo espírito competitivo vigente nas relações de produção dominantes”.

Como capoeirista afirmo: antes de ser um esporte, a capoeira sempre foi jogo, ou seja, linguagem não conceitual de gestos, imagens e cantos, onde o corpo ganha centralidade. Mas que corpo é esse? Qual é a diferença?

O corpo na capoeira é um corpo que se assume emocional, pulsional e falível. Já dizia a velha cantiga: “na vida se cai, se leva rasteira, quem nunca caiu não é capoeira”.

Um bom capoeira assume o risco como condição primeira de um bom jogo e joga com, nunca contra. Uma das características fundamentais do jogo é o diálogo, expressão corporal simbólica da dor, da alegria, da agressividade, da sensualidade, do ataque, da defesa, do encontro.

Na capoeira não há tempo para a dualidade corpo/mente, nela o movimento se torna pensamento em ação e o pensamento é já uma ação em movimento. Mestre Camisa, do alto de sua sabedoria, brinca: “na capoeira não pode pensar para dar o golpe e nem dar o golpe sem pensar”.

A capoeira pode ser vivenciada como uma forma autêntica de exercício em busca da liberdade, onde os elementos de criatividade artística, o improviso, a surpresa e a malícia são ingredientes fundamentais. É um jogo de desequilíbrio e de desconstrução dos rígidos padrões corporais ocidentais, padrões esses que engessam o corpo em formas vendidas por uma sociedade mercadológica.

Enfim, jogar capoeira pode ser considerado uma ação eminentemente política. Axé!


Alexandre Luzzi, Professor de Educação Física, capoeirista, coordena o espaço Tai Ken, especial para o Nota de Rodapé. Ilustração de Caco Bressane, especial para o texto. 

sábado, 11 de agosto de 2012

Ah, o tão sonhado ouro


Esbravejei quando o meia Oscar, sozinho, errou a cabeçada no último lance contra o México, na final do futebol masculino hoje pela manhã. Poderia ter empatado o jogo, levado para a prorrogação e, quem sabe, ter ganhado a partida. Mas isso não aconteceu. Instantes depois vi o meia-atacante Lucas, que entrou no jogo aos 40 minutos da etapa final, chorar copiosamente no ombro de um integrante da comissão técnica.

Neymar, sentado no gramado, exausto, joelhos abraçados, provavelmente pensava o quão difícil foi chegar até ali. Sabedor da responsabilidade que carrega estava a tomar novo fôlego para a enxurrada de criticas que viria em sua direção. Quem acha que eles estavam em campo para perder, por favor, não leia a sequência do texto.

Esses três jogadores têm em comum a pouca idade, contratos milionários e a enorme esperança que o torcedor deposita neles. Você há de concordar, então, que ganhando milhões era mais do que obrigação obter sucesso nas olimpíadas, certo? Errado. Eles tiveram êxito. E muito. A prata, a tão desprezada prata, tão “olímpica” para um país que não tem investimento esportivo, sobretudo nos esportes menos populares, deveria ter mais valor.

Enquanto as imagens da comemoração mexicana rolavam alternadamente com a tristeza dos jogadores brasileiros ouvi o comentarista, ex-jogador e deputado federal Romário enxovalhar o técnico Mano Menezes pela derrota. “Fraco” e “Espero que não vista a camisa da seleção” foram duas de suas declarações sobre o técnico. E advertiu: “venho falando isso desde o Pan”.

Romário, que tem ácida opinião, decepcionou-me com suas declarações. Não pela critica a Mano Menezes, mas pela postura diante da derrota. Algo que ele já vivenciou algumas vezes. Como Neymar, Oscar e Lucas, o deputado já ganhou a prata pela seleção na década de 80. Ao menos se corrigiu no sentido de não rotular os meninos como “geração de perdedores”. Deveria, a meu ver, exaltar a conquista do segundo lugar como um passo para um time que pode se tornar muito vitorioso.

Ressabiado com a falta de percepção de Romário, que deve ter influenciado a opinião de muita gente, fui ver a repercussão na internet. E nossa imprensa, parte dela pelo menos, também menosprezou a conquista da prata. Mesmo se mantendo no auge tantos anos, o nadador Cesar Cielo sentiu a veia torcedora da imprensa quando “decepcionou” com o bronze nos 50 metros nado livre.

No caso do futebol a FSP online escreveu: "Brasil repete fiasco de 84 e 88 no futebol e fica apenas com a prata". Fica “apenas” com a Prata? Fiasco, veja só, é "Fracasso completo, insucesso ridículo e vexatório." Que jogo ou competição eles assistiram?

Só posso crer que o autor de tal manchete buscava os "indignados" ou o grupo do "efeito manada" que diante de uma derrota age sem pensar e corre para o lado da maioria: xingamentos, criticas sem fundamento, desvalorização do atleta e choramingos.

Das duas uma: a  sensação que tenho é que estamos distantes de uma postura menos mimada diante das adversidades no esporte ou temos mesmo falta de capacidade de assimilar o óbvio: perder é parte do jogo, por mais incômodo emocional que isso possa causar.

Como bem lembrou um colunista dessa mesma FSP pela manhã: "o espírito de porco de boa parte da torcida brasileira [incluo a imprensa] vai dar o tom brasileiro, nenhum esforço pode ser reconhecido a não ser que se ganhe sempre”.

É... se o aforismo de Carlos Drummond fosse uma máxima: "o mérito da derrota consiste em insentar o derrotado das responsabilidades da vitória" não estaria aqui a escrever esse texto.

PANO RÁPIDO
Enquanto finalizo essas linhas nossa seleção feminina de Voleibol ganha o ouro dos EUA para amenizar a dor da manhã enquanto o narrador diz que o time “se superou na competição na hora certa”. Existe hora certa para se superar?

Thiago Domenici, jornalista

sexta-feira, 6 de julho de 2012

eternamenTITE

Tite: campeão da libertadores pelo Corinthians (AE)
Adenor Leonardo Bacchi, ou simplesmente Tite, entra para um seleto grupo de técnicos que são considerados ídolos de um time. Depois de conquistar um Campeonato Brasileiro e uma Libertadores pelo Corinthians, o gaúcho deixa definitivamente seu nome na história do clube, seguindo os passos do também gaúcho Osvaldo Brandão, multicampeão pelo alvi-negro, com destaque para o título do Quarto Centenário, em 1954, e do Paulista de 1977, encerrando o jejum de conquistas iniciado há exatamente 23 anos.

O primeiro contato do Corinthians com o técnico Tite não foi agradável para a nação alvi-negra. Em 2001, o jovem treinador despontava para o cenário nacional do futebol conquistando a Copa do Brasil pelo Grêmio, em pleno Morumbi, superando tática e tecnicamente o Corinthians, então comandado por Vanderlei Luxemburgo. Começava ali um flerte.

Três anos mais tarde, o gaúcho era anunciado no Parque São Jorge como novo técnico do Corinthians. A missão era das mais difíceis: livrar o time do risco de rebaixamento no Brasileiro. Tite organizou a defesa da equipe e equilibrou o time, que conseguiu uma recuperação fantástica e terminou a competição em quinto, quase classificado para a Libertadores. A torcida já reconhecia a qualidade do trabalho do treinador: “Olê, olê, olê, olê... Tite, Tite!” era o grito que ecoava nas arquibancadas do Pacaembu.

Em 2005, com a chegada da MSI e sua constelação de jogadores, encabeçada por Tévez, Tite foi demitido injustamente após o aventureiro que comandava a “parceira” do Corinthians violar o sagrado território do vestiário para cobrar o técnico depois de um clássico contra o São Paulo. “Um dia eu volto para terminar o que não deixaram”, afirmara Tite na época.

A partir daí ele passou por clubes como Atlético Mineiro, Palmeiras e Internacional, realizando bons trabalhos e conquistando títulos, mas nunca deixou de respeitar o Corinthians, principalmente quando dirigiu o rival alvi-verde, assim como sempre que tem a oportunidade lembra das experiências no Grêmio e das dificuldades no início da carreira em clubes menores do Rio Grande do Sul. A dignidade e o caráter de Tite não permitem que ele apague ou desmereça seu passado.

Em outubro de 2010, depois de uma curta passagem pelo do Al-Wahda, dos Emirados Árabes, o treinador abriu mão de disputar o Mundial de Clubes da Fifa para cumprir a promessa feita em 2005 e completar o trabalho que fora interrompido. Mais uma vez faz boa campanha no Brasileiro e consegue vaga para a Libertadores. No ano seguinte, nem o Fenômeno Ronaldo impediu a humilhante desclassificação na competição sul-americana. Com apoio da direção, Tite pode reconstruir a equipe, talhar os jogadores, dar um padrão de jogo, uma consciência tática ao grupo e, com seriedade, conquistou o pentacampeonato Brasileiro.

A Libertadores de 2012 era o grande objetivo. Com um grupo fortalecido, unido e empenhado, Tite liderou o Corinthians em uma campanha invicta, incontestável e merecida que deu à Fiel o primeiro título da América. Jogos tensos e adversários fortíssimos, como Vasco, Santos e Boca Juniors valorizaram ainda mais o feito inédito. Em um time sem estrela, onde o conjunto é a grande virtude, o técnico conquistou de vez o coração do corinthiano e, com certeza, passou a ter um coração um pouco mais corinthiano. Treinabilidade, intensidade, merecimento, etc. Muitas palavras marcam a trajetória de Tite no Corinthians. Para mim, basta uma: Gratidão.

Thiago Barbieri, jornalista, autor do livro 23 anos em 7 segundos, editora Azul, especial para o NR

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Cruz Credo!

No mar quase infinito de imagens, algumas de tão vistas viram marcas nas nossas mentes. Uma espécie de segunda pele. O sorriso da Monalisa, o bigodinho de Hitler, o cogumelo de Hiroshima, os aviões atravessando as Torres Gêmeas, o gol do uruguaio Alcides Ghiggia na final da Copa de 1950.

Mesmo os que estavam longe de encarnar, já viram o pé, o chute; a bola estufando a rede, o goleiro Barbosa curvando-se. Ouviram o Maracanã silenciar incrédulo e chorar crédulo. Em Sampa, o imperdível Museu do Futebol tem uma sala exclusiva para passar o filme dessa derrota. Assustador. A sala parece uma morgue.

Como o Brasil precisava apenas empatar, a euforia era tremenda. Governo, imprensa, população embarcaram na canoinha furada de cantar a vitória antes dela mesma. O roteiro do jogo é conhecido: o brasileiro Friaça abriu o placar. Schiaffino empatou para a Celeste. Aos 34 minutos do segundo tempo, Ghiggia liquidou o riso. Uruguai 2 x Brasil 1.

O Maracanã, erguido especialmente para Copa de 50, sendo na época o maior do mundo, tremeu. Não de alegria. Tremelicou de decepção. Meu pai, então com 20 anos, estava lá. Tornou-se, junto com mais de 190 mil pessoas, testemunha ocular e sonora do pior desastre futebolístico do país.

Naturalmente, os uruguaios deliraram. Apelidaram o acontecido de Maracanazo e jamais esqueceram o 16 de julho em que, contra todos os prognósticos, se tornaram bicampeões do mundo. Pouco importa que depois não tenham repetido o feito. No país vizinho, a história dessa vitória é repetida de pais para filhos. Toda vez que as duas seleções duelam, a palavra Maracanazo é evocada como um mantra.

Mas tudo isso é passado, água rolada, ponte derrubada, fósforo queimado. O que significa dizer, aquilo que não é possível mudar. Aquilo que só pode ser contado e contado. Melhor é focar no futuro. O novo, o bem-feito, o brilhante. Futuro que só pode ser imaginado e imaginado.

No caso do futebol, o futuro é a Copa de 2014. Até lá, o Brasil tem uma caprichosa lição de casa: construir os novos estádios, melhorar a infra dos aeroportos e estradas, resolver a equação do trânsito, aparelhar a rede hoteleira, ficar de olho na segurança, concluir a reforma do Maracanã. Este mais uma vez será a arena da grande final.

Porém não é o bastante. Precisa muito além de cimento, argamassa, ferro. Precisa de uma seleção que nos faça sonhar. Para disputar a Final, ela terá que melhorar muitíssimo seu presente. Pois até agora o que vimos é um time sem jogadas, sem ímpeto, sem inspiração. E, principalmente, sem gols!

Já a Celeste traz a memória fresca do quarto lugar na última Copa do Mundo, a taça da Copa América 2011, e anda liderando as eliminatórias sul-americanas. Tremam corações ao imaginar o Uruguai levantando o caneco no mesmo Maracanã, com o detalhe de 64 anos depois.

Segurem-se corações ao imaginar os netos, bisnetos e até tataranetos, daqueles que choraram em 1950, chorando novamente. Ao imaginar os netos, bisnetos e até tataranetos, dos que festejaram em 1950, refestejando um Maracanazo 2.

Fernanda Pompeu, escritora e redatora freelancer,colunista do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Carvall, especial para o texto.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Roller Derby envolve ginga, visual e habilidade sobre patins

o filme inspirado
no Roller Derby
Esporte interessantíssimo praticado pela colaboradora deste NR, a nossa Mãe em Surto, Andrea Dip, o Roller Derby foi tema de matéria do Catraca Livre, que explicou no vídeo da também colaboradora Natalia Mendes (com Clara Caldeira) como funciona a peleja sobre patins entre as moças. O Roller Derby já foi tema de filme, dirigido por Drew Barrymore, em 2009, Whip It (traduzido como Garota Fantástica por aqui), que tem no elenco a atriz do filme Juno, Ellen Page. Esporte ainda em formação no Brasil e pouco conhecido do grande público, as meninas da Ladies of Hell Town treinam no parque do Ibirapuera e estão em busca de patrocinadores. Ou melhor dizendo, colaboradores, já que não buscam necessariamente grana, mas um espaço fixo para treino - o parque é menos adequado ao treino - ou mesmo gente para a equipe médica, material esportivo etc. Segundo o site das moças o Brasil vai participar em 2011 da liga mundial do esporte, o Roller Derby Word Cup 2011, em Toronto, Canadá. "As três ligas brasileiras ativas estão trabalhando juntas pra montar a seleção, que já tem a equipe técnica definida." Estima-se que mais de 30 mil mulheres pratiquem o esporte em 16 países. Para saber mais assista ao vídeo abaixo que mostra como se joga o Roller Derby.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Cobertura da Copa com bom humor e informação

A excelente equipe do Futepoca fez uma parceria para cobertura da Copa do Mundo com o site da Rede Brasil Atual no qual trabalhei em 2009. Fica a dica para ver e saber sobre o mundial com uma abordagem bem humorada e sem deixar a informação de lado. A parceria ganhou o nome de Copa na Rede.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Magrão, Argentina e Copa do Mundo 2

Com atraso venho responder ao amigo João Peres, pessoa de caráter que enfrentou comigo o calvário de uma redação onde tal qualidade passava longe. A discussão sobre futebol é apaixonante e nunca tive a pretensão de ser o único entendido do assunto. Também cresci com a geração de garotos que sonhavam em ser o camisa 10, ou 8, no caso do Dr. Sócrates, que reinava, esbanjava talento e não se cansava de fazer passes de calcanhar com a camisa que hoje é associada aos volantes marcadores, aos valorizados “destruidores” de jogo, do jogo que antes encantava e hoje valoriza o resultado (normalmente empate sem gols fora de casa e 1 x 0 em casa são considerados goleadas...). Aliás, só para citar outros dois jogadores diferenciados que honraram a 8 do Doutor, Rincón e Edmundo, encheram os olhos de quem começou a acompanhar o futebol depois do tetra, quando o jogo burocrático só foi vencido pela genialidade de um tal Romário, imortalizado com a 11.
A Democracia Corinthiana foi um movimento muito além da simples rebeldia de jogadores que eram contrários à concentração. O sentimento de brigar pelos próprios direitos tomava conta da nação corinthiana, da palmeirense, da sãopaulina, da santista, da flamenguista, da gremista, da cruzeirense, enfim, da nação brasileira. Sócrates, Wladimir e Casagrande encabeçaram o movimento no Parque São Jorge, mas contaram com o apoio de artistas, músicos, jornalistas, professores, médicos e todos os outros que lutavam contra a repressão. Aquela campanha, coroada dentro de campo com títulos, foi vítima de tentativa de boicote por parte da imprensa ligada aos generais, mas, aos poucos, foi inevitável esconder a verdade: milhões de pessoas que se manifestavam nas ruas queriam as Diretas Já. Boa parte vestia preto e branco, mas aquela festa não era apenas uma comemoração futebolística. Confesso que não me lembro de tal época, porque estava ainda na inocência da minha infância, mas tenho uma boa noção do que se passava e das mudanças que aconteceram a partir daí.
Bom, quem sou eu para discutir com o Sócrates quando ele diz que a Copa é uma feira? Hoje em dia vivemos os anos do futebol profissional, onde até comemoração de gol é patrocinada. As imagens de jogadores são criadas e moldadas para que “Cristianos Ronaldos” sejam comparadas a “Pelés”. Nada contra o português, mas que o cara joga menos do que pensa e muuuiiiiito menos que se vende, isso lá é verdade. Um grande exemplo foi o lançamento de um livro oficial do Real Madrid onde o primeiro volume de grande ídolos do clube é dedicado ao “craque” Ronaldo (como ele se chama agora, talvez para se aproximar um pouco do Fenômeno). Bom, tirando alguns gols e um bom tempo machucado, o gajo não conquistou NADA com a camisa merengue. Outros verdadeiros ídolos foram deixados de lado em prol do “lance comercial”. E a Copa do Mundo, como definiu bem Sócrates, é uma prateleira de exposição de produtos. Claro que a competição mexe com nossas emoções, afinal quando a bola começa a rolar, esquecemos que o Robinho só pensa nos contratos milionários e torcemos para ele pedalar pra cima de qualquer zagueiro.
Vamos ao tema principal da discussão: o futebol arte tem sido desvalorizado ao longo dos tempos, graças a vários insucessos. A seleção brasileira de 82, que encantou o mundo, mas não foi campeã é um exemplo, assim, como o famoso “Carrossel Holandês”, a Argentina de 94, antes do doping, e tantas outras seleções que encantavam, mas paravam em adversários que tinham fortes marcadores e apostavam uma jogada para “golear”, por 1 a 0.
Discordo, porém dos doutores Sócrates e Tostão com relação ao jejum de títulos da Argentina. Nossos hermanos, recordistas de títulos da Libertadores, sabem melhor do que ninguém como entrar numa competição dura. As tradicionais linhas de 4, com um volante que funciona de enganche, ou seja, um homem de criação que pensa o jogo são marcas argentinas. Os inúmeros títulos do Boca Juniors, comandados por Riquelme são os primeiros que me vêm à memória (até por razões afetivas), mas o Estudiantes de Veron, atual campeão da América, não foge à regra. O problema da seleção, acredito, é a cobrança exagerada por se montar uma equipe imbatível. Messi, Tevez, Aguero, Riquelme, Veron, Cambiasso, Mascherano e outros têm talento e têm raça, mas falta conjunto ao time. Para não me estender mais por hoje, a mudança principal deve acontecer no comando – Maradona não é técnico.
Mas para que a discussão continue em 2010, vamos torcer para que os argentinos esperem mais alguns anos na fila...

Thiago Barbieri é jornalista; autor do livro sobre o Corinthians "23 anos em 7 segundos", editor do jornal Primeira Hora da Rádio Bandeirandes e colunista do Nota de Rodapé.

Leia também: - Magrão, Argentina e Copa do Mundo 1

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Magrão, Argentina e Copa do Mundo

O amigo madrugador Thiago Barbieri que me perdoe, mas nesta e na próxima coluna arrisco-me pelas veredas futebolísticas. Não que queira tomar seu lugar neste blogue, longe disso. No fundo, importa mesmo é provocar esse ex-companheiro da mais triste das redações paulistanas e outros tantos amantes da redonda. Além disso, em nenhum dos dois vou sair da área de América Latina, afinal falarei de boleiros brasileiros e argentinos.
Aprendi a ver futebol com aquele São Paulo de Telê. Na verdade, naqueles anos de infância, o São Paulo era de Raí. A molecada não tinha essa cisma de ser zagueiro, lateral, volante. Ou era matador, ou era camisa dez. E o dez do tricolor era inspiração pra toda uma geração.
Naqueles tempos, não sabia bem quem era Sócrates. Rezava o pensamento infantil que, se era corintiano, tanto fazia, boa gente não era. Só muito tempo depois fui ouvir falar em Democracia Corintiana, e para mim aquilo nada significava.
Passou mais um tempo até entender de que se tratava tal democracia, e um outro tanto para saber quem era Sócrates Brasileiro. Até hoje, admito, não sei qual o grau de categoria do Doutor dentro de campo – sei, claro, que era muito, mas o que de verdade me importa é saber sobre as movimentações extracampo daquele Corinthians da década de 80.
Desde que entendi a Democracia Corintiana, a admiração por Magrão só faz crescer, ao mesmo tempo em que aumenta o desprezo por Émerson Leão. Fico até chateado quando perco um Cartão Verde, de quinta-feira, na Cultura – dá-me a sensação de que perdi a chance de ganhar um pouco de genialidade, rara constatação quando estamos em frente à tevê.
Hoje, tenho certeza de que Raí foi um grande jogador da história do São Paulo. Magrão foi um grande militante da sociologia do futebol. E não tenho dúvida de qual dos dois foi mais importante.
Faz umas semanas, encontrei Sócrates e tive a oportunidade de conversar rapidamente com ele. A conversa, em si, nada demais teve, apenas uma troca de impressões sobre o filme Lula, o filho do Brasil, mas o suficiente para entrar na minha lista de coisas que justificam amar o jornalismo.
Bem, tudo isso para dizer que, num desses chuvosos fins de semana, Magrão concedeu prolongada entrevista para a TV Cultura. Uma bela entrevista. Quem quiser ver tudo pode buscar na internet, porque cá eu já falei demais e chega a hora de irmos ao assunto de fato. De tudo o que ele falou, seleciono a parte em que dá uma forte declaração: “A Copa do Mundo é uma grande feira de futebol. Você vai ali, expõe seu produto e o público é quem decide pelo sucesso”.
Seguindo no raciocínio, diz Sócrates que quem ganha o Mundial passa a ser copiado durante o período subseqüente. E eis que a Itália, que sei pela boca dos outros, pois não era mais que um projeto de ser humano, ganhou em 1982, selando o destino do futebol daí por diante: o jogo mais sisudo, de força e de resultado, sobrepôs-se à técnica e à arte mostradas pela Seleção Brasileira.
Some-se a isso uma recente coluna de Tostão, outro mestre das chuteiras, na Folha de S. Paulo. Filosofava o ex-jogador sobre a entrevista dada por Defederico, jogador do Corinthians, ao jornal Olé. Tostão alertou para as críticas de Defederico ao futebol brasileiro: engordou quase cinco quilos desde que chegou, fruto de bombas e vitaminas, e todos ficam bravos quando ele para a bola no meio-campo para pensar o jogo.
Pois bem, os pensamentos de Tostão e Sócrates podem dar uma importante indicação de o porquê de a Argentina estar há mais de quinze anos em jejum de títulos com o time profissional – nem uma mísera Copa América, Copa Ouro, nada. Os argentinos, talvez, não tenham se adaptado tão bem quanto o Brasil ao futebol de resultados, talvez cismem nessa coisa chata de jogar bonito. Continuam sofrendo de um antigo problema sul-americano, que são as zagas ruins, algo que o Brasil superou há mais de uma década com seus zagueirões made for export.
Talvez isso explique também porque a Argentina continua fabricando camisas dez em razoável ritmo. Riquelme é o principal deles, mas há outros. E talvez por isso continuem tendo um toque de bola bonito de ver.
Sócrates, na supracitada entrevista, afirmou que a Argentina de 1994 foi a mais bela Argentina que ele viu jogar – claro, até Maradona ser sacado pelo doping. Se lembrarmos as últimas copas, em quase toda os argentinos chegam com um lindo toque, jogam uma primeira fase magistral, mas caem pelo caminho. Para Magrão, não importa. Dando mais um motivo para que possamos julgá-lo, no mínimo, diferenciado, Sócrates fala que o título não tem qualquer valor, é só mais uma representação de casta da sociedade. Ele pensa: “Quer fazer alguma coisa que de fato ficará para a sociedade, que de fato pode representar algo? Escreva”.
Bem, aqui o faço. Ou tento, pelo menos.

João Peres é jornalista e colunista do Nota de Rodapé

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Hexa: o título mais desejado no país

Finalmente terminou o Campeonato Brasileiro. Depois de 38 rodadas, onde muitos cobiçaram e jogaram fora o título, o Flamengo, justamente, ficou com a taça. Méritos à enorme torcida e ao grupo rubro-negros, com destaques ao “incompetente” técnico Andrade, ao “ex-jogador em atividade” Petkovic e ao “baladeiro, mas artilheiro” Adriano, segundo análises dos maiores “especialistas” em futebol do país, ainda na metade do campeonato, quando o Palmeiras nadava de braçadas na ponta da tabela e o time carioca sequer sonhava com uma vaga no G-4.
Mas os analistas não contavam com o imprevisível e a emoção, as duas maiores forças que movem a máquina futebol. Enquanto o Palmeiras, o Atlético Mineiro, o São Paulo, o Internacional e o Cruzeiro eram exaltados, o Flamengo era ridicularizado. Foi então que os deuses do futebol fizeram das suas e, em uma reviravolta incrível, o Flamengo cresceu, ao contrário dos adversários, que jogo após jogo, trocavam a certeza no título pela desconfiança.
A reação do Mengão foi épica, assim como a do rival Fluminense na luta contra o fantasma da Segundona (e como as séries B e C assustam os tricolores...). Os dois times do Rio honraram suas tradições e calaram todos, menos suas apaixonadas torcidas. Até o Botafogo, que estava entregue, brilhou em casa contra o São Paulo e o Palmeiras e se livrou de mais uma queda. Parabéns ao futebol carioca, que ainda foi coroado com o retorno do Vasco à elite do esporte nacional. E só para não passar em branco, já que não pretendo dar espaço para criminosos: lamentável as cenas de guerra em Curitiba e no Rio de Janeiro (entre torcedores do time campeão)...
Taça na mão, festas, comemorações, brigas e surge a polêmica: o Flamengo é penta ou hexa? A discussão aí vai longe e todos os argumentos, prós e contras, são válidos. Emblematicamente, o Hexa é um título muito desejado no país, desde a Copa de 2006. Aquela seleção de Kaká, Adriano, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e companhia, tem pesadelos até hoje com o gol de Henry (desta vez sem a ajuda da mão) e com as mãos de Roberto Carlos que teimaram em ficar nas meias do lateral. Passado o trauma na Alemanha, o futebol nacional produziu o primeiro hexa: o São Paulo. A rivalidade entre o tricolor paulista e o Flamengo cresceu, principalmente após a briga pela taça de bolinhas, que até hoje não se sabe quem é o real detentor. Mas isso é tema para outra discussão.
Voltemos à obsessão pelo Hexa. Ano que vem tem Copa de novo e o desejo da torcida é ver o Brasil conquistar a sexta estrela no seu uniforme. Mas o caminho será duro. A parte mais bonita do sorteio da Copa da África do Sul foi a maravilhosa presença de Charlize Theron. Mas a loira só encantou enquanto o assunto futebol não entrou em campo, já que o grupo do Brasil não é lá dos mais tranquilos.
Não sabemos o que esperar da desconhecida Coréia do Norte, mas podemos apostar em um time de muita correria, característica comum nas equipes asiáticas. Tudo pode acontecer, principalmente se o time de Dunga sentir o peso da estreia e não conseguir o que seria a vitória mais fácil do grupo.
Costa do Marfim e Portugal são equipes mais fortes e com certeza vão dar trabalho ao Brasil, que se bobear pode não ficar em primeiro na chave e ter o indigesto confronto com a Espanha logo nas oitavas-de-final.
É claro que o trabalho de Dunga até aqui tem sido muito bom, apesar das críticas. Mas a Copa do Mundo é uma competição diferente. Se os jogadores não estiverem concentrados exclusivamente no trabalho em campo, o sonho do Hexa vai continuar sendo um sonho.

Thiago Barbieri é jornalista; autor do livro sobre o Corinthians "23 anos em 7 segundos", editor do jornal Primeira Hora da Rádio Bandeirandes e colunista do Nota de Rodapé.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A seleção precisa de um Fenômeno para brilhar na África

Passados meses de disputas intensas nos continentes, estão definidos os 32 países que vão disputar a Copa da África do Sul em 2010. Todos os sete campeões mundiais (Brasil, Itália, Alemanha, Argentina, França, Inglaterra e Uruguai) estão garantidos e nenhuma grande ausência será sentida.

A seleção brasileira, mais uma vez, vai chegar a uma Copa do Mundo como favorita ao título. A amarelinha por si só já impõe respeito aos adversários e a campanha da equipe sob o comando de Dunga anima os torcedores.
Depois de ser muito questionado, o capitão do tetra mostrou competência ao promover a reformulação no grupo pós-trauma da Copa da Alemanha-2006.
O time conquistou a Copa América, a Copa das Confederações, já em território sul-africano, e fez uma campanha sólida nas Eliminatórias Sul-Americanas.
 Apesar dos méritos da equipe de Dunga, há que se ressaltar algumas falhas a serem corrigidas.
O treinador montou uma base boa para a disputa do mundial de 2010, com uma defesa sólida e um esquema que aposta na velocidade, nos avanços dos bons laterais Maicon e Daniel Alves.
Do meio para trás, estamos tranquilos, com uma dúvida ainda para a lateral-esquerda, posição carente de um titular absoluto desde a saída de Roberto Carlos (se ele não tivesse se abaixado para arrumar a meia contra a França, talvez ainda estivesse no grupo...).

O problema para Dunga fechar o grupo está na parte ofensiva do time. O talento de Kaká e o oportunismo do artilheiro Luís Fabiano são as principais armas da seleção, mas acho pouco para conquistar o tão sonhado hexa. Nilmar tem aproveitado as oportunidades e parece ser o parceiro ideal do Fabuloso na frente.
Robinho, que não joga há muito tempo, ou porque está machucado, ou porque está preocupado com a próxima negociação da sua carreira, conta com a confiança do Dunga, mas eu deixaria o ex-menino da Vila assintindo a Copa pela TV.

Ainda sobre o Robinho, vale um comentário: é um jogador que tem muita habilidade, não é gênio e joga muito menos do que pensa. Ultimamente tem se especializado em criar situações adversas para romper contratos e conseguir ser negociado: a próxima vítima é o Manchester City, que deve perder o “pedalador” para o Barcelona.
Alexandre Pato, que tem crescido muito no Milan, merece outra chance com a amarelinha. Kaká vai para a terceira Copa e chega com status de estrela principal do time, com méritos, mas é preciso alternativas para não diminuir a já existente dependência do time às arrancadas dele.
O ex-santista Diego, que está comendo a bola na Juventus, é uma boa opção para substituir Kaká, o único armador do time.
Diego Souza foi testado, mas não convenceu, além de não repetir, há tempos, no Palmeiras as boas atuações que o levaram a ser convocado.
Ainda no ataque, Dunga deveria pensar com carinho em um nome que já vem sendo citado há algum tempo: Ronaldo. O jogador, mesmo fora de forma durante boa parte da temporada 2009 foi o principal nome do Corinthians e ajudou o time paulista a conquistar o campeonato estadual e a Copa do Brasil, além de ser o principal artilheiro da equipe no ano.
Ele provou, mais uma vez, que, motivado e focado em jogar bola, ele desequilibra. E Ronaldo já declarou que vai fazer o maior esforço da carreira para poder disputar mais um mundial (se não sofrer nenhuma lesão no primeiro semestre, o cara vai comer a bola... além do mais, seria mais um nome forte para dividir a responsabilidade com Kaká.)

Depois de inúmeras contusões nos joelhos, o atacante readaptou seu estilo de jogo ao novo porte físico. A explosão e as arrancadas ainda são armas perigosas do Fenômeno, mas hoje ele sabe que não consegue correr o campo inteiro durante 90 minutos, usa os atalhos do campo para ser mais cerebral e eficiente.
A capacidade técnica de Ronaldo é incomparável com qualquer atacante – ele realmente domina todos os fundamentos como poucos, dribla, passa e chuta com as duas pernas. Claro que a camisa 9 será de Luís Fabiano na Copa, mas seria ótimo contar com a experiência de Ronaldo na competição, mesmo que ele fique no banco.
Os recentes testes feitos por Dunga mostram que ainda há espaço para o dentuço, ou alguém acredita que Hulk, chamado recentemente pelo técnico da seleção, é um reserva ideal para uma Copa do Mundo?
A seleção precisa de um Fenômeno para brilhar na África.
Outro que merece estar no grupo é o goleiro Marcos, do Palmeiras. O pentacampeão pode ajudar muito o grupo com sua experiência. Seria um bom nome para terceiro goleiro, já que Júlio César vive fase extraordinária e Doni tem a confiança de Dunga (só dele...).
Bom, dia 04 de dezembro a Copa começa de verdade, com o sorteio dos grupos. Encerraremos o ano já sabendo os primeiros adversários na África. Boa sorte, Brasil!

Thiago Barbieri é jornalista; autor do livro sobre o Corinthians "23 anos em 7 segundos", editor do jornal Primeira Hora da Rádio Bandeirandes e colunista do Blog Rodapé.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Manchetes Rejeitadas # 15

Tietê Campos do jogo Fluminense x Palmeiras no Maraca...

Muricy Ramalho continua trabalhando para o São Paulo
Não botou o Pierre e tirou o Obina

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Manchetes Rejeitadas # 11


Pelé ou Maradona. Quem é melhor?


"Pelé é melhor. Participou de quatro Copas, ganhou três, fez mais de mil gols, mas, mais do que isso, era craque em todas as posições, inclusive a de goleiro e, acima de tudo, inventou jogadas, como o chute a gol do meio-de-campo e tantas outras. Maradona não inventou nenhuma jogada, apenas executou à perfeição o que já havia no repertório do futebol."

Tietê Campos é jornalista e escritor.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Extremo Ocidente # 2


Galo, forte e brigador


A palavra de ordem era “secar”. Torcedor gosta de agourar o time alheio e há mesmo quem prefira jogar maus ares para o oponente do que enviar boas vibrações à própria esquadra.
Quando foi chegando a data da viagem para Belo Horizonte, apressei-me em conferir a tabela. Brasileirão, Galo e Vitória. O Galo, que de fogo de palha passou a candidato ao título, este time que resolveu interferir nos planos do meu Tricolor, não merece comiseração: a ordem é secar.
Chegando a BH, a bilheteria do Mineirão esperava. Problemas de ingressos à parte, consegui entrar no estádio. No início, até pensei que a função de secador pressupunha sentar na torcida baiana. Ainda bem que não deu certo, teria sido um enorme arrependimento. Ficar lá, no meio da torcida do Galo, é beleza pura.
Mineirão lotado, bonito de ver. O Atlético vive seu momento divino, maravilhoso, em que precisa estar atento e forte, sem tempo de temer a morte. A ordem é secar e, por isso, cabe olhar torto pra casa cheia, achar que isso é coisa de quem não ganha título há décadas, feito de torcida carente, moço.
É hora de o Galo vir a campo. Torcida em uníssono é algo fantástico, só se arrepia quem vê. É um dos poucos momentos em que vale a pena integrar um rebanho, penso eu. A torcida é linda, mas a decisão é de secar. Para isso estou. Aliás, todo o resto de BH, a Pampulha, a Praça Sete, os botecos, que tudo fique menor frente ao jogo, a ordem é secar. Que caia o Galo.
A bola rola, a torcida segue cantando bonito. O time está longe de ser o melhor do torneio, mas tem fibra. Sabe de suas limitações, assimila seus problemas, não olha com empáfia para o adversário. Sabe que, se não correr, perde. E a torcida canta bonito, empurra o time.
Não, já não dá pra secar. Um time que dá o sangue, uma torcida que lota a casa e vai pra cima, não dá pra secar. Que vença o Galo. Tardelli, atacante que parece ter cansado de dar problema, marca o gol. É o único do jogo, é aquilo que o time precisa.
A torcida, empolgada, quer agora ver o retorno de Marques, cavaleiro de mil andanças que fica melhor à medida que passa o tempo. Entendeu que, quando já não era veloz, precisava ganhar classe, e assim o fez. Vai andando como é, vai sendo como pode, joga seu corpo no mundo, anda por todos os cantos. Pela lei natural dos encontros, deixa e recebe um tanto.
No segundo tempo, o Vitória melhora. Bola na trave. Por um momento, hesito e penso em voltar a secar, mas logo a torcida do Galo empurra de novo e deixo de lado o papel de agouro. Há tempo para Tardelli sofrer e perder um penal, não importa: o Galo é forte e brigador.
E merece ganhar. Depois de uma tarde-noite no Mineirão, penso que, se não for para o Tricolor, que seja para o Galo.

João Peres é jornalista e foi a BH numa promoção dessas imperdíveis de passagens aéreas. Viu Atlético Mineiro x Vitória, no 24 de outubro, e conheceu o Mineirão.

domingo, 25 de outubro de 2009

Madrugador # 1


Rio-2016: a realidade não é tão bela quanto o filme de Fernando Meirelles


Passei os últimos dias digerindo a escolha do Rio de Janeiro para sediar a Olimpíada de 2016.
Não sou daqueles que torcem contra ou adeptos da política do “quanto pior, melhor” e, como brasileiro, comemorei o fato. Não há dúvidas que organizar o maior evento esportivo do mundo é uma grande oportunidade de desenvolvimento.
Além de investir em infraestrutura e transporte, o povo brasileiro terá a chance de crescer culturalmente. Mas tampouco sou inocente a ponto de não enxergar e me preocupar com alguns pontos negativos da campanha olímpica.
O possível superfaturamento de obras deixa os contribuintes de cabelo em pé, já que quase 100% das reformas serão custeadas com dinheiro público, principalmente após o Pan-Americano, também no Rio, quando o orçamento inicial foi extrapolado em quase dez vezes. A fiscalização desta vez deverá ser mais rigorosa e a punição em caso de irregularidade, mais eficiente.
Outro ponto que me deixa inquieto é a falta de políticas no país voltadas à formação de atletas e ao incentivo de práticas esportivas. A herança negativa vem de décadas: poucos clubes ou escolas têm a estrutura suficiente para treinamentos, o que prejudica o desenvolvimento do aspirante a qualquer modalidade esportiva. Salvo algumas exceções, os heróis olímpicos brasileiros de 2016 sofrerão, como as outras gerações, com a falta de patrocínio. Os investimentos públicos e privados deveriam ser intensificados a partir de já, mas, provavelmente, só quem tiver uma vaga garantida no desfile de abertura dos Jogos vai conseguir alguma ajuda. Quem não tiver que se preocupar em dividir os treinos com o trabalho pode comemorar. Mas todos os integrantes da delegação brasileira vão sofrer a pressão por um bom resultado diante da própria torcida. E como a torcida brasileira cobra... A nossa cultura não valoriza sequer o segundo colocado, quem dirá o atleta de badminton, que se não fosse o fato de o Brasil sediar a Olimpíada, talvez nem se classificasse para a competição.
A única obrigação dos nossos atletas será honrar nossas cores durante as provas. Medalhas?! É bom termos a consciência de que poucos serão premiados com os discos de bronze, prata e ouro.
Para terminar, as notícias que foram divulgadas pelo mundo nos últimos dias sobre a violência na Cidade Maravilhosa é o ponto mais crítico da nossa Olimpíada. Os investimentos em segurança em competições internacionais foram intensificados após os atentados de 11 de setembro de 2001. O treinamento de equipes de resgate e o combate a riscos de bombas foram exaustivos nos Jogos de Pequim, por exemplo. O grande problema do Rio, em comparação com outros lugares, é que no nosso caso, a luta é contra um terrorista que já está em nosso território. Os traficantes donos dos morros cariocas não são uma ameaça às nossas fronteiras, mas uma realidade presente no cotidiano da cidade. Combater um inimigo externo, como um terrorista taleban, parece mais fácil do que expulsar o mal que ameaça vidas inocentes no Rio. Lamentável ainda é o despreparo da polícia carioca e nem o BOPE intimida os traficantes. As políticas de segurança pública não passam de ações pontuais, como o envio de Forças Armadas para os morros, que não resolvem o problema e deixam a população desamparada.
Com certeza a operação vai ser repetida em 2016, pelo menos, no período olímpico, mas assim que a pira for apagada, as balas perdidas e a guerrilha dos traficantes voltarão à rotina dos cariocas. Gostaria muito de estar errado.

Thiago Barbieri é jornalista; autor do livro sobre o Corinthians "23 anos em 7 segundos" e editor do jornal Primeira Hora da Rádio Bandeirandes. Estreia hoje sua coluna no Blog Rodapé.

O vídeo de Fernando Meirelles

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Corinthians: 23 anos em 7 segundos

Thiago Barbieri que concedeu esta entrevista ao Blog Rodapé é jornalista desde 2002 com passagens por Rádio Eldorado, Rádio BandNews FM, Rádio USP, Canal RIT Notícias e Rádio Bandeirantes, onde atualmente ocupa a função de editor do Jornal Primeira Hora. Thiago é o autor do livro 23 anos em 7 segundos, que faz parte do box especial que inclue o documentário de mesmo nome de Di Moretti e Julio Xavier. Heitor Paixão foi o editor do livro e Julia Grassetti fez a arte gráfica que conta a história do fim do jejum corintiano em 1977 com o famoso gol de Basílio. Barbieri, já adianto, será mais um colunista - para breve - do Blog Rodapé. Reforço e tanto!

O que vai ler o corintiano ou interessado que adquirir o livro?
O livro conta mais que a história do fim do jejum de títulos do Corinthians, fala do sentimento que o time provoca em milhões de pessoas. Ao escrever o livro tentei aproximar o torcedor do ambiente mágico que o envolve numa partida de futebol, mostrar os bastidores de um jogo, as reações da arquibancada e o clima de vestiários. Espero que o amante do futebol, mesmo quem não é corinthiano, goste da leitura.

O que o livro traz a mais que o documentário? Como foi feito?
O livro e o documentário são complementares. O filme nasceu primeiro e o roteiro inspirou boa parte da narração, mas o livro tem uma linguagem específica, que mexe com o imaginário do leitor, os detalhes são mais explorados. Apesar de ter como base a história do documentário, tive a liberdade de contar experiências pessoais como torcedor e usar outros personagens que não estão no vídeo.

Você é jornalista e corintiano. Qual a sua emoção ao escrever um livro que fala de data tão importante para a história do time?
Realmente o título de 1977 ficou muito marcado para todos os corinthianos. Não há um torcedor sequer que não conheça a história do jejum. Mesmo tendo nascido depois da quebra do tabu, eu lembro de histórias que meu tio me contava sobre o sofrimento que os corinthianos viveram. Para mim foi uma honra fazer parte deste projeto.

Quem você entrevistou para o livro? Como é que foi? O que disseram?
Muitos depoimentos que estão no livro foram tirados do próprio documentário, mas alguns corinthianos ilustres, como o Marcelo Duarte e o Pedro Luis Ronco, e outros tantos anônimos enriqueceram a história. Alguns torcedores contaram fatos marcantes daquela época nas arquibancadas do Pacaembu, durante o intervalo de jogos que assisti. Mas como o tempo para entregar o livro era curto não pude me aprofundar muito nas entrevistas.

O livro é uma edição especial?
Sim, é um projeto inovador, que resgata a memória do torcedor brasileiro. O livro é comercializado em um box especial, junto com o documentário. São cinco mil exemplares, numerados, na primeira edição. Não sei se haverá novos exemplares.

Ser corintiano é?
Como disse no livro, ser corinthiano é indescritível, é mais do que torcer para um time de futebol. Quem é corinthiano sabe exatamente o que isso significa e não precisa explicar para outro corinthiano. Quem não é corinthiano nunca vai saber...


segunda-feira, 22 de junho de 2009

Muricy, o vizinho do 74

Texto do jornalista José Trajano no site da ESPN muito legal sobre o Muricy Ramalho. Achei legal postar aqui. Espero que gostem.

Somos vizinhos há mais de dez anos. E raramente nos vemos no condomínio. Moramos em prédios diferentes, e jamais fora a seu apartamento. Nossos filhos, porém, são amigos. Jogam bola e participam de torneios de videogame no salão de festas. Na noite de sexta-feira, o vizinho do 74 era o nome mais falado da cidade. Todos os telejornais e sites divulgavam com alarde que ele havia sido demitido do emprego. Um emprego e tanto! E, então, decidi visitá-lo.

Resolvi interfonar para não usar a prerrogativa de ser vizinho. Ele não estava, mas deixei recado com sua mulher que se chegasse e estivesse disposto a conversar, me telefonasse. Poucos minutos depois, ele ligou e pediu que fosse até lá. No caminho, fiquei pensando que deveria estar cercado de gente, de amigos, ex-companheiros de clube ou coisa parecida. Qual não foi a minha surpresa quando me recebeu com a porta já aberta e sozinho na sala.

Ao contrário do que imaginava, estava tranquilo e sereno. Sem nenhuma ponta de mágoa, rancor, bronca. Parecia ter tirado um peso das costas. Seu rosto revelava a certeza de que havia saído de cabeça erguida e com a sensação do dever cumprido. Fora o momento que se queixou de Cuca, por ter ligado ao presidente Juvenal para pedir conselho se deveria sair ou continuar no Flamengo, atitude que ele enxergou como falta de ética, o vizinho conversou sobre tudo com muita tranquilidade.

Para ele, a diretoria anda mais preocupada com o Morumbi do que com o time. Os cartolas só pensam no estádio, na Copa do Mundo de 2014, e os problemas do time ficaram em segundo plano. E havia problemas no elenco. Falta de parceria, disse. Que eu entendi como ciumeira de alguns jogadores com os novos que chegaram este ano.

Sem levantar a voz ou tentar se desculpar pelos maus resultados, o vizinho lamentou não ter conseguido Conca como reforço. “Ele esteve duas vezes aqui, mas o negócio não vingou”, disse. Um bom meia de ligação teria feito o time jogar diferente, com mais liga entre a defesa e o ataque, sem precisar jogar à base de lançamentos longos para o setor ofensivo.

O vizinho desconfiava que, mais cedo ou mais tarde, a demissão iria acontecer, porque ele não tem o jeitão que alguns dirigentes imaginam para um técnico do São Paulo. Não é de frequentar bons restaurantes para fazer companhia aos cartolas, não gosta de interferências na contratação de reforços e acredita até que a maneira de se vestir deixava essa turma incomodada. “É o meu jeito, simples, sem frescura, sem afetação, que as vezes eles não gostam.”

Toquei na decisão que tomamos em não mais ouvi-lo depois de uma entrevista que achei grosseira . Ele disse que não guardou mágoa e que somos meio parecidos na defesa de quem trabalha com a gente. Até os filhos brincaram com ele, achando que andava meio rabugento.

Já era de madrugada quando fui embora. Um pouquinho antes de sair, chegaram Pi e Fabinho, dois de seus três filhos. O vizinho me contou que o Pi (sou testemunha que joga muita bola) voltou muito irritado do Morumbi depois da derrota para o Cruzeiro e prometeu não torcer mais pelo São Paulo. O vizinho discordou do filho e disse que não podia abrir mão de sua paixão, que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Voltei para casa com a impressão de que meu vizinho é mesmo aquilo que diz. Gosta de ficar em casa, em companhia da família, dos cachorrinhos que leva sempre para passear, de lavar louça para passar a ansiedade e de ir ao sítio em Ibiúna para descansar. É um cara simples, um trabalhador do esporte. Sem banca, sem arrogância, não tem nada de “professor”.

Ele sabe que foi a derrota da arquibancada para a numerada. Mas sabe também que saiu por cima. A torcida gritou seu nome a todo instante, e isso ele não esquecerá nunca. Quer dar uma parada, já jogou no lixo tempos atrás uma proposta milionária do Catar, mas não creio que fique parado por muito tempo. Continuo achando que precisa ter mais educação nas entrevistas, após uma partida, mas me conquistou pela sinceridade e autenticidade.

É um bom sujeito o vizinho do 74. Boa sorte para ele.

sábado, 20 de junho de 2009

Entrevista Muricy Ramalho

Entrevista realizada em janeiro de 2009 para a Revista-DVD oficial do Hexacampeonato do São Paulo. Ao contrário do que imaginei, Muricy foi super tranquilo, respondeu tudo com paciência, apesar da pressa. Foram 15 minutos. Repito o que disse no twitter sobre sua saída do São Paulo que ele é das poucas coisas que tiram o futebol da merda e da mesmice de sempre. Incrível como a história parece se repetir. Dessa vez, com final infeliz. Reproduzo a entrevista como saiu na revista e peço que se reproduzirem citem a fonte.

O NOVO MESTRE

Eleito o melhor técnico nos últimos quatro campeonatos brasileiros e único tricampeão da competição pelo mesmo clube, o comandante tricolor e discípulo do mestre Têle Santana dispara: “a torcida do São Paulo foi tudo pra mim”

O que um título como o Tri-Hexa traz para o futuro do clube?
É importante, afinal um time ser tricampeão inédito no Brasil onde todos os times se preparam para ganhar é complicado. O marketing melhora, a torcida, o maior patrimônio do São Paulo, aumenta muito, você vê as crianças torcendo para o São Paulo porque é um time vencedor. Com certeza, daqui alguns anos, o São Paulo vai ser uma das maiores torcidas do Brasil.

E ser o único técnico tricampeão brasileiro por um mesmo clube?
Além da satisfação, o que mais gosto é quando analisam e reconhecem o meu trabalho. Se o meu trabalho está sendo bom, as minhas conquistas me dão mais orgulho. E não posso parar porque o futebol é bom, mas às vezes é ingrato, você ganha muito, mas se perde um jogo, uma decisão, todo mundo vem em cima e não gosto de sentir esse sabor ruim, então tenho que brigar muito para continuar vencendo, e é o que vou tentar fazer, vencer novamente.

A pressão é o principal sentimento que carrega um técnico?
É o pior que tem sim, é da nossa cultura. Diante de um resultado negativo o técnico é o único cara que perde, porque ninguém divide a derrota, a verdade é essa. Estou acostumado com a pressão, sei sair muito bem dela quando acontece, mas é desgastante, porque vira uma coisa quase que pessoal, várias pessoas acusando uma só, se não tiver uma cabeça boa, você cai.

Nas horas de pressão você faz o quê?
Me fecho, falo pouco, converso muito com a minha esposa e com a minha família e não vou em programa de televisão.

O Hexa-Tri foi o título da superação?
Sem dúvida. A comissão técnica é responsável por 25 por cento, a diferença é a qualidade do jogador, mas nesse título tivemos um valor muito maior. No momento da desconfiança fui muito forte e houve uma superação muito grande, reuni os caras, peguei duro demais, falei coisas muito fortes e treinamos muito.

Dá pra contar o quê você disse?
Se tenho dúvida não deixo passar, chamo individualmente ou falo forte no coletivo. A conversa foi depois do empate com o Atlético Mineiro, em Minas, que pelo resultado era razoável, mas a equipe empatou com um futebol horrível e eu não aceitei aquilo. E quando acerta o time é difícil parar o São Paulo.

E a importância do torcedor na conquista?
A torcida foi tudo pra mim. Eu estava para sair depois da Libertadores, de saco cheio e com muitas propostas. Só que no jogo do Morumbi contra o Atlético Mineiro, entrei em campo e a torcida começou a gritar meu nome. Falei para minha mulher “não vou sair, tem alguma coisa muito boa reservada pra mim.”

Então você não saiu por causa da torcida?
Tive sempre o apoio do Seu Juvenal, mas a torcida foi fundamental, se não eu não estaria no São Paulo.

Se o Telê Santana estivesse vivo o que ele te diria?
Daria os parabéns com aquele jeito mineiro de ser, bem duro e ficaria bastante orgulhoso mais pelo trabalho do que pelo título: “pô, você aprendeu bastante comigo”.
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