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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Nas mesmas mãos de sempre


por Pedro Mox*

Depois do papelão sofrido diante da Alemanha, a seleção brasileira voltou a reunir-se, contra seu adversário das quartas de final, a Colômbia, em Miami. Venceu o jogo por um a zero. Também ganhou do Equador, ontem, pelo mesmo placar. Em tese, vida nova; ou não, se levarmos em conta as expectativas criadas pela Copa e, sobretudo, pelo fim desastroso vivido pelo nosso onze. Muito falou-se em mudanças no futebol do país, reformulação na Confederação Brasileira de Futebol, adequação e profissionalização...

O visto na prática, contudo, não foi nada disso – o que era, convenhamos, previsível. Mudar nunca foi muito o forte da CBF. No máximo, mudar para permanecer o mesmo, como o ideário abordado em O Leopardo, clássico de Luchino Visconti.

Paulo Vinicius Coelho, da ESPN, publicou em seu blog texto com o seguinte título: Em vinte anos, seleção teve mesmo número de técnicos da Alemanha em um século e da Espanha em 45 anos. A lógica de demitir treinadores, comum em nossos clubes, repete-se na seleção: desde a campanha do tetra, em 1994, tivemos dez mudanças de treinadores, sendo que quatro (contando o retorno de Dunga) tiveram duas passagens. Já a Alemanha, desde a copa dos EUA, teve cinco treinadores; nenhum repetido. Joachim Löw, campeão no Brasil, está desde 2006 no cargo; antes de assumir o Nationalelf foi assistente de Klinsmann durante dois anos. Tal trabalho de longo prazo inexiste no futebol de resultados aqui encontrado.

Na cartolagem a situação se inverte: de 1980 para cá, a CBF foi comandada por apenas quatro homens, com destaque ao reinado de Ricardo Teixeira: assumiu em 1989 e só saiu em 2012 – ou melhor, renunciou em meio a escândalos de corrupção. Passada a turbulência, leva uma vida sossegada em Miami. José Maria Marin herdou o cargo, e vai presidir a entidade até o final deste ano.

Para fazer um candidato (inscrever uma chapa) é necessário apoio de ao menos seis clubes e oito federações. No último pleito, realizado em abril deste ano, uma segunda chapa sequer existiu. A candidatura única de Marco Polo Del Nero – apoiado por Marin – elegeu-se com impressionantes 46 votos a favor e dois em branco. Na prática, será  uma troca de cadeiras.

Votam nas eleições para presidente da entidade máxima do futebol brasileiro presidentes das 27 federações estaduais e dos 20 times da primeira divisão. Portanto, não é estranho que a mesma falta de oxigenação encontre-se nas federações: Eduardo José Farah assumiu a Federação Paulista de Futebol em 1988, seguido por Del Nero desde 2003. (Del Nero é também atual vice da CBF). A Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, desde sua fundação em 1978, teve três presidentes. A federação catarinense está sob a batuta de Delfim de Pádua Peixoto há mais de 25 anos, enquanto o ex-presidente da federação paranaense Onaireves Rolin de Moura ocupou o cargo por 22 anos.

A própria posição da confederação ao final do mundial deixou claro que sua preocupação é a seleção brasileira, não o futebol brasileiro. Assim, enquanto deveria zelar pelo esporte e pelos que o praticam/admiram, aparenta mais disposição para arrumar seu 17º patrocinador. Além disso, divulga o calendário do próximo ano com sequer um mês de pré-temporada. Vale lembrar que a entidade, até 2009, nem mesmo responsabilizava-se pela organização da Série B, que ficava a cargo da Futebol Brasil Associados.

A escolha do atual treinador foi, portanto, natural. Não pelo aspecto futebolístico, mas político: alguém com uma posição mais crítica a respeito do esporte dificilmente se encaixaria nos moldes conservadores da Confederação. O futebol brasileiro está nas mesmas mãos de quem sempre esteve, por isto seria demais esperar qualquer mudança radical antes do anúncio de Dunga. As preocupações destes homens, infelizmente, nem sempre dizem respeito ao melhor para o futebol.

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*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O Brasil precisa de Serra e FHC

Sem paixões partidárias, sem extremismos ideológicos, preconceitos e com moralismos à parte, seria interessante que se fizesse nos dias atuais uma pesquisa de opinião pública mais específica em que se pudessem estabelecer comparações pormenorizadas entre o Brasil que veio até o final dos anos 90 e o Brasil que se inicia após a eleição do presidente Luis Inácio Lula da Silva.

Uma pesquisa de opinião que não fosse apenas para servir a campanhas eleitorais ou programas televisivos de partidos, onde por vezes a emoção conta mais que a razão, mas levantando questões efetivamente alicerçadas sobre a nova realidade do país, construída nos últimos oito anos nos campos econômicos, políticos e sociais, avaliando – com mais dados – suas causas e seus efeitos práticos.

É natural que em toda atividade humana o avanço, o progresso e o bem estar da sociedade sejam desejados, sonhados, trabalhados e – sobretudo – muitas vezes conquistados. Nem sempre, entretanto, na história das nações, essa premissa se fez valer. No caso do Brasil, desde o nosso descobrimento, diga-se a bem da verdade.

Vamos apenas citar como exemplo, já que mais recente, o golpe civil/militar de 1964/68, muito embora até aí se possam pinçar, mesmo com o retrocesso político e a supressão das liberdades democráticas, alguns avanços estruturais e superestruturais no país.

Fruto de uma opção ideológica e de um alinhamento total com a política de estado norte americana nos anos após a Segunda Grande Guerra, fugindo da “órbita soviética”, as elites brasileiras, seus estratos mais conservadores e reacionários, ao darem um golpe de estado no início da década de 60, expulsaram do poder político os setores mais liberais e de esquerda que vinham conquistando posições de destaque em governos como os de Getúlio Vargas, Juscelino Kubstcheck e João Goulart.

Esses governos, embora de origem, natureza e alianças partidárias distintas, tinham em comum, cada um à sua maneira, uma visão de futuro para o país. Mais do que isso, uma visão de independência, de autodeterminação e de criação e defesa de um parque industrial brasileiro. Muitos de seus integrantes abraçavam causas nacionalistas, populares e até mesmo a idéia de uma nação socialista.

A quebra da legalidade democrática em 1964/68, fruto do alinhamento estratégico acima citado, levou milhares e milhares de brasileiros a uma oposição que, tolhida pela censura, mas consentida e subjugada no Congresso, ainda assim venceu algumas eleições estaduais em 1965.

Com as prisões, cassações e perseguições, chegou a pegar em armas. Durante 21 anos a repressão entre nós se fez e de forma violenta, batendo e arrebentando segundo o eufemismo castrense, chegando a reunir opositores cujo leque ideológico variou de uma direita propositiva e nacionalista, passando por católicos conservadores e progressistas até uma esquerda guerrilheira socialista e internacionalista.

Com o correr dos anos e da reconquista da democracia, contudo, para desespero dos espíritos autoritários e saudosos de um regime fechado, o poder volta a ser disputado nas urnas. Através de sucessivas eleições o exercício desse poder é aceito e consagrado dentro de um mundo de configuração ainda capitalista, agora com suas regras neoliberais fortemente colocadas no tabuleiro, mas também aberto e cativo das possíveis opções, para milhões de seres humanos, entre as economias socialistas e capitalistas. Opção e conflito particularmente intenso nos países em desenvolvimento do chamado terceiro mundo, vítimas seculares da predação capitalista.

Nesse novo cenário, onde prosperaram as ideias do fim da História, do Estado mínimo, da economia regulada pelo mercado, das especulações financeiras sem regulamentação legal e, sobretudo, pela desintegração do bloco socialista na Europa de leste com o fim da União Soviética, com o surgimento de dúvidas e inseguranças ideológicas por aí geradas, era natural que se desse novo realinhamento no terreno da prática econômica e política mundial e, por conseguinte, na brasileira. As peças no tabuleiro se movimentavam com o propósito do cheque mate à opção socialista, com a palavra e a atitude agressiva da globalização econômica substituindo eufemisticamente o uso do substantivo imperialismo.

A emblemática queda do muro de Berlim e o esfacelamento de inúmeros Partidos Comunistas ao redor do mundo, além de lançar na orfandade milhões de cidadãos que ansiavam pelas transformações e avanços sociais, acabou por despertar nos esquerdistas de ocasião ou arrependidos, nos ‘pragmáticos’ liberais, e nas novas gerações crescidas dentro da propaganda neoliberal, a oportunidade de revelarem – aqueles – o seu verdadeiro caráter e ideologia há tantos anos sufocada e reprimida, e nas novas gerações o sonho do enriquecimento fácil e do consumismo desbragado. Isto para não nos aprofundarmos nas decisões “pragmáticas” tantas vezes invocadas em defesa do status quo. E no fechar de olhos à crescente cultura da corrupção.

Creio que não saiu de moda o aforismo “a ocasião faz o ladrão”. Pode-se, igualmente, também dizer que em política as circunstâncias fazem as opções ideológicas e partidárias. Não será de um, de cem ou de mil o número de pessoas que transitam de um lado para outro do espectro das ideias e da política partidária, consoante o canto da sereia. Essa liberdade de escolha, em si, não é condenável.

Qualquer um de nós tem o direito e a liberdade de fazer as escolhas e as opções políticas que quiser. É isso, pelo menos, o que pregam os democratas convictos da velha guarda ou os arrivistas. Temos é que manter alguma coerência com essas opções. Ou justificá-las com alguma honradez quando nos levamos a sério.

O que parece condenável, a meu ver, é constatar que homens minimamente dotados de conhecimentos que os credenciam à vida pública prepararem-se para o exercício do poder político mercê do jogo sujo e oportunista de se adaptarem às circunstancias de momento, a assumirem uma demagogia de linguagem rebuscada e pseudocientífica, a nadarem sempre a favor da correnteza, a dançarem conforme a música lhes é agradável e de ritmo conveniente.

Será essa, com certeza, a história política brasileira contemporânea que, entre inúmeros exemplos, evidencia o caso dos cidadãos José Serra e Fernando Henrique Cardoso, dois expoentes de uma, seja dita, esquerda política, que nada mais representou até hoje do que o sonho social democrata em ninhos de esquerda de matizes socialistas, enquanto ser de esquerda era a “moda”, ainda que arriscada e perigosa. Em particular dentro do âmbito muitas vezes elitista e acadêmico das universidades. Os caminhos do exílio e do banimento durante e após o golpe de 64 têm, a esse respeito, histórias bem diferentes para serem contadas.

A trajetória desses dois expoentes do PSDB é emblemática em vários sentidos: FHC pelo exercício aligeirado e elegante do mando político, mas desprovido de maior conteúdo; Serra pela obsessão em chegar à presidência da república, gabando-se de ser um dos brasileiros mais preparados para isso.

FHC comandou um país subalterno e dependente economicamente de empréstimos obtidos junto ao Fundo Monetário Internacional, vendendo a trinta dinheiros várias empresas públicas, incentivando o verdadeiro mensalão para a aprovação da reeleição em causa própria, deixando varrer para debaixo do tapete a grande negociata das privatizações, eliminando conquistas trabalhistas de décadas, mantendo um salário mínimo de fome, sucateando e mercantilizando a educação e as escolas e universidades, negligenciando a saúde, para lá indicando seu fiel escudeiro e até então protegido.

Essa escola de “bem governar”, que pretendeu permanecer 20 anos ou mais no poder federal (em parte conseguindo o seu intento no governo de São Paulo), foi – enquanto isso – gerando em seu ninho um quadro que levasse à frente o programa neoliberal com algumas tinturas menos ortodoxas, fazendo-o caminhar pelas instâncias do Ministério da Saúde, do governo do Estado de São Paulo e da prefeitura de São Paulo, mandatos nem todos eles concluídos, é bom lembrar, tamanha a obsessão do candidato ao cargo pretendido.

O Brasil desses dois homens, nesses tempos informatizados, em que a realidade muda com grande rapidez, se transformou também rapidamente num Brasil do passado; no Brasil dos envergonhados de serem brasileiros; no Brasil dos subalternos, da política externa submissa, dos que adoram encher a boca para falar mal do seu país; no Brasil dos arrogantes de títulos acadêmicos e de togas acima do bem e do mal, dos que comem peru e pensam arrotar caviar; no Brasil das citações de pé de página; no Brasil em que muitos insistem na justiça mais flexível para a Casa Grande e na mais rígida obediência às leis para a senzala; no Brasil dos que ainda anseiam por golpes militares; no Brasil da improvisação no lugar do conhecimento, muitas vezes maquiada de competência; no Brasil dos armários cheios de esqueletos físicos e morais; no Brasil de um passado que tem medo da verdade; no Brasil de uma imprensa chantagista e irresponsável, legando aos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Roussef, o pesado fardo de consertar muita sujeira e muita incompetência de se passado mais recente, tão evidente e tão escondido pela mídia.

Vistos os fatos por essa perspectiva, mas com os olhos confiantes postos no futuro e nas transformações que vão, pouco a pouco acontecendo interna e externamente, é que se pode afirmar: O BRASIL PRECISA DE SERRA E FHC!

O Brasil precisa de Serra e FHC para esquecer o passado;

O Brasil precisa de Serra e FHC para se lembrar de não mais abaixar servilmente a cabeça para países arrogantes e de natureza imperialista;

O Brasil precisa de Serra e FHC para mostrar a si mesmo e ao mundo que outro país é possível;

O Brasil precisa de Serra e de FHC para sempre se lembrar que não é preciso chegar ao limite da irresponsabilidade;

O Brasil precisa de Serra e de FHC para, desmentindo-os, jamais privatizar sua riqueza e entregar o país a grupos internacionais;

O Brasil precisa de Serra e FHC para mostrar, na prática, que criar 15 milhões de empregos em carteira não é uma questão de promessa eleitoral;

O Brasil precisa de Serra e FHC para, paradoxalmente ignorando-os, mostrar ao povo brasileiro como é possível manter em mãos do país uma empresa como a Petrobrás, sem descaracterizá-la ou entregá-la a grupos estrangeiros;

O Brasil precisa de Serra e FHC para, ao contrário deles, perceber que o mundo começa à nossa volta, com os nossos vizinhos da América do Sul e do Caribe;

O Brasil precisa de Serra e FHC, enfim, para sacudir a poeira do atraso, o colonialismo cultural e assumir em definitivo o seu destino de grande nação.

Na parede da ante-sala desse novo país que, tudo indica, está sendo construído, será preciso colocar o retrato emoldurado desses dois personagens. E olhando-o, sem qualquer saudade, ainda assim invocarmos o grande poeta mineiro usando o tempo do verbo de nossa lamentação no passado: “E como doeu!”.

Izaías Almada, escritor e dramaturgo, colunista do NR. Ilustrações do blog do ilustrador e caricaturista Baptistão.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Tony Porter: um chamado (necessário) para os homens

“Nos ensinavam que homens precisam ser valentes, fortes, precisam ser corajosos, dominantes. Sem dor, sem emoções (...) e definitivamente sem medo. Que os homens estão no comando, e isso significa que as mulheres não.”
Tony Porter é cofundador da organização “A Call to Men - Commited to Ending Violence Against Women” (em português, algo como “Um chamado para os homens - compromisso com o fim da violência contra as mulheres”).

Ele deu uma palestra no Ted (no vídeo abaixo) muito interessante - e corajosa. Tony conta histórias fortes sobre sua infância e sobre a educação que deu aos filhos (um menino e uma menina) relatando a diferença com que tratava os dois.
 “Quando eles tinham cinco ou seis anos, (o menino é um ano mais velho que a menina), Jay vinha até mim chorando. Não importava o porquê ela chorava, ela podia sentar no meu colo, assoar o nariz na minha manga (...). Mas Kendall, por outro lado (...), ele vinha chorando, e no momento que eu o ouvia chorar o cronômetro ligava. Dava ao garoto cerca de 30 segundos, o que significava que quando ele chegava eu já estava dizendo ‘por que está chorando?’”
Tony ajuda a entender porque a educação que costuma ser dada aos homens - tantos ensinamentos machistas - pode causar (e provavelmente vai) o desrespeito e a violência contra a mulher.

Diz Tony, em outro trecho da palestra.
“Quando se diz que mulher tem menos valor, são propriedades dos homens, são objetos, particularmente objetos sexuais. Mais tarde descobri que essa era a socialização coletiva dos homens, mais conhecida como a ‘caixa do macho’. A caixa de macho tem todos os ingredientes do que significa ser um homem. Antes quero dizer, sem dúvida alguma, que há coisas maravilhosas, muito boas mesmo, em ser homem. Mas ao mesmo tempo existem algumas coisas que estão erradas.”
É muito importante que falas como a de Tony Porter sejam ouvidas e tenham repercussão. Nos faz pensar, nos faz compreender muita coisa e nos ensina. O vídeo tem 11 minutos, mas parece que tem 3. Não é chato, não é maçante e pode fazer muita diferença.

É por esse tipo de coisa que acho importante que a gente não queira ser “normal” como escreveu a jornalista Eliane Brum num artigo recente.




Natalia Mendes é jornalista, colunista do NR

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Liberdade para mentir

Naquilo que foi considerada a primeira crise política do governo Dilma Roussef, com o defenestramento de um ministro, muito se discutiu sobre moral e ética. Opiniões, as mais diversas e desencontradas, pipocaram por quase três semanas em jornais, revistas, televisões e boa parte da blogosfera.

Para uma sociedade que, pelo menos na aparência, se mostra paradoxalmente mais preocupada com a corrupção e ao mesmo tempo mais corrupta a cada dia que passa, ativa ou passivamente, não importa, a proporção do debate quase atingiu as raias do paroxismo.

Contudo, e não estamos apontando nenhuma novidade, no quesito corrupção, a volúpia acusatória tem pendido sempre mais para um lado da balança do que para outro, sendo o Partido dos Trabalhadores o alvo preferencial da mídia. Entende-se: é a luta pelo poder político, dirão muitos.

Não só, ouso dizer, é também a luta de classes. E é também o entendimento atual daquilo que muitos brasileiros conhecem ou mesmo aprenderam sobre o pensar e o fazer político. É provável que muitos até já se esqueceram, é verdade, seja pelo vazio de ideias e pela repressão causada pelo golpe de 64, seja pelo canto do cisne das políticas neoliberais dos anos 80/90 ou mesmo do emblemático desaparecimento da União Soviética, onde muitos acreditaram que uma ideologia e um modelo de organização econômico social haviam chegado ao fim.

Lembrei-me, em meio a essas calorosas discussões sobre ética e moral, da leitura que fiz já há alguns bons anos de um livro intitulado “Marxismo e Moral”, de autoria do professor William Ash, norte americano que se mudou para a Inglaterra, cujo original foi publicado na Monthly Review Press em 1964 e editado no Brasil em 1965.

O livro, de linguagem fluente e fácil, procura discutir os conceitos morais dentro das condições materiais em que vivemos em sociedade ou, em outras palavras, o que nos leva a emitir juízos de valores morais numa sociedade capitalista, por exemplo, como essa que nos é dado viver.

Nos quatro longos capítulos em que procura sistematizar o seu pensamento, o autor faz referências a algumas obras e pensamentos de Marx, alguns dos quais nunca é demais lembrar. Por exemplo: “As ideias da classe dominante são, em qualquer época, as ideias predominantes”. Simples e cristalino. Só não entende quem não quer ou não se dá ao trabalho de pensar.

Na atual situação política brasileira, a ética tem sido usada como arma de combate entre adversários políticos de quase todos os partidos, sem exceção, sendo que os representantes desses partidos, seja no âmbito federal, estadual ou mesmo municipal, em sua grande maioria, representam interesses em sua maior parte, da classe dominante, mesmo que seus programas partidários e sua militância, quando ela existe, apontem noutra direção.

Contudo, nessa troca de acusações, muitas delas sem provas, o que tem vergonhosamente caracterizado uma quebra do princípio jurídico da inocência presumida, a quase totalidade da imprensa tem – sempre que pode – tentado fazer a balança pender para um dos lados.

Diz William Ash em sua obra acima citada: “Os moralistas que se identificam com uma classe que tenha desfrutado o poder e é ameaçada pelas bases têm uma compreensível tendência para ressaltar a obediência ou o dever como de primordial significação ética.”

Como já surgem indícios aqui e ali de que se torna cada vez mais tênue a linha que divide situação e a oposição no Brasil atual, pelo menos essa que coloca de um lado partidos como o PT e o PMDB, e de outro legendas como o DEM, o PSDB e o PPS, começa haver um vácuo de representatividade no país. Pergunta-se: obediência a quem? Dever para com quem?

A reforma política adquire cada vez mais importância e urgência, pois o poder político não admite o vácuo. Em momentos de indecisões, recuos ou mesmo de reflexões para novos avanços, há sempre alguém (grupos eu diria) que se aproveita para reconquistar ou manter posições conservadoras ou mesmo inibidoras de políticas econômicas menos ortodoxas. E nisso, contam com o apoio de uma imprensa que defende a sua liberdade ou a liberdade de opinião (a sua) sempre em proveito próprio ou de grupos a quem tradicionalmente se alia.

E nesse jogo de interesses, as ideias predominantes continuam sendo as ideias da classe dominante, dos que detêm o poder econômico, porque a liberdade por esses defendida é a liberdade de continuarem no poder a qualquer custo, mesmo que para isso usem da chantagem, da mentira, dos fatos sem comprovação, da intriga.

Diz William Ash, lembrando Marx mais uma vez: “A ‘livre empresa’, não é senão a liberdade de explorar o trabalho dos outros. Tal como a ‘liberdade de imprensa’ é a liberdade que os capitalistas têm de comprar jornais e jornalistas no interesse de criar uma opinião pública favorável à burguesia”.

Palavras que ainda encontram ressonância nos dias em que vivemos. A burguesia brasileira, que se formou logo ao receber da Coroa portuguesa as capitanias hereditárias, até hoje não as devolveu. E continua a agir como se estivéssemos no século XIX.

Basta acompanhar o que acontece no setor agropecuário, onde a violência tem mão única. Quantos trabalhadores rurais foram assassinados no Brasil nos últimos anos? E quantos donos de terras? Ou acompanhar a vergonhosa defesa do crime de colarinho branco pelo poder judiciário. A justiça brasileira é uma justiça de classe. E quanto à mídia? O que dizer das inúmeras denúncias irresponsáveis ou matérias fabricadas, manipuladas, para servirem a interesses particulares e não aos interesses do país?

A liberdade de opinião e a liberdade de imprensa que se defende no Brasil, essas que continuam a favorecer umas tantas “famiglias”, trazem hipócrita e cinicamente escondidas em sua defesa um único e insofismável propósito: a liberdade para mentir.

Izaías Almada é dramaturgo, escritor e colunista do NR.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

E a novela continua...

Acredite quem quiser, mas a novela “Amor e Revolução” continua o seu calvário no SBT. A última pesquisa do Ibope (06 de junho) apresentava um índice de audiência de 3%, o mais baixo entre as novelas que estão sendo apresentadas no momento. Segundo o Instituto de pesquisa, para cada 100 televisores ligados no horário, apenas seis estavam sintonizados na novela. E isso é mau, segundo os especialistas no assunto.

Até aí nada de mais, pois sempre haverá um dos folhetins eletrônicos que ocupará a última posição na pesquisa, até mesmo com índices de audiência maiores do que este apresentado por “Amor e Revolução”. O grande problema é que os autores ainda não conseguiram encontrar o norte, o rumo certo para o enrosco em que se meteram. E tenho sérias dúvidas se o encontrarão.

Não me parece que o gênero telenovela, tal qual é feito no Brasil, aceite qualquer tema para ser dramatizado, sobretudo quando se trata de “contar histórias” a partir da realidade. E quando essa realidade envolve questões políticas, opções ideológicas, luta de classes, o confronto visceral entre ditadura e democracia, por exemplo, e ainda traz no seu bojo feridas não de todo cicatrizadas pela sociedade brasileira, torna-se necessário que seus autores conheçam minimamente o assunto que escolheram. E esse, definitivamente, não é o caso.


E não lamento. Ao contrário: quando ainda tenho paciência para ver algum capítulo e as situações e diálogos ridículos e inconsistentes que tentam fazer avançar uma história sem pés nem cabeça, compadeço-me com o desrespeito à memória de homens e mulheres como Carlos Marighella, Mário Alves, Heleny Guariba, Iara Yavelberg, Eduardo Leite (o Bacuri), Joaquim Câmara Ferreira, Carlos Lamarca, Aurora do Nascimento Furtado, Vladimir Herzog, Maria Lucia Petit, Rubens Paiva, Maurício Grabois e tantos outros que perderam a vida para que o Brasil não só recuperasse a democracia que lhe haviam aprisionado com baionetas e canhões, mas que pudesse também ser um país de maior igualdade e justiça social.

Não deixa de ser curioso que um grupo de militares, assim que os primeiros capítulos foram ao ar, manifestassem a intenção de impedir a exibição da novela sob a alegação de que ela dava uma ideia preconceituosa de nossas FFAA. Atitude, quanto a mim ridícula e desnecessária, pois além de afirmarem na prática o sentimento autoritário que caracterizou os seus pares nos anos 60/70, não atentaram para o fato de que a estrutura da novela, digamos desse modo, ridicularizava também a esquerda revolucionária.

A tal ponto, que mais recentemente um grupo de militantes da época organizou um abaixo assinado na internet pedindo que os autores da novela excluíssem dos depoimentos finais as opiniões de defensores do golpe e dos métodos empregados para livrar o Brasil do comunismo, sob o argumento de que o país está para aprovar a Comissão da Verdade justamente para passar a limpo esse período e punir os torturadores.

Concordo com o argumento, mas não concordo com o método, pois seria também uma forma de censura e o que é pior: daria subsídios aos criadores da novela para que, falaciosamente, argumentassem que faziam uma novela “democrática”, dando voz aos dois lados da contenda.

Com essa fraca audiência, a pergunta que se torna necessária é a seguinte: se a novela, de grande realismo – segundo os autores – pretendia mostrar às novas gerações o que foi o Brasil dos anos 60/70 (assunto para o qual não se prepararam, insisto) o que explica audiência tão baixa? Estão as novas gerações desinteressadas do assunto ou perceberam que estão diante de uma tentativa de se vender gato por lebre?

Izaías Almada é autor entre outros do livro “Teatro de Arena: uma estética de resistência” (Editora Boitempo) e colunista do NR.

sábado, 30 de abril de 2011

Tentativas

Música do Nazareth se mistura com o que tenho que escrever, noite de balada para uns, noite de balada de certa forma para outros.
A rádio some e finalmente os pensamentos se soltam, disparam como a turnê de Clapton em 2001 vista num dvd pirata comprado no Jardim Comercial, numa barraca abarrotada de lançamentos e catálogos, todos devidamente separados por nomes e fichas internas, não foi lá que tive o prazer de adquirir Floyd, depois de tantos anos saiu em dvd o Pulse, e por mais alto que eu consigo deixar, o barulho do funk estremece e grita.
Quem senta, senta, senta, senta se concentra.
O Gol prata finalmente vira a rua e Al Pacino me encara da estante, ele pensa que com sua roupa branca e uma pistola na mão pode me intimidar, mal sabe ele onde está.
O caderno de anotações está cheio, versos para letras de músicas, inícios de textos que nunca serão terminados, desabafos, trechos de pensamentos tumultuados, idéias que não serão realizadas e dicas de livros que nunca serão comprados, tudo ao lado de uma garrafa azul vazia a algumas horas.
Kirby e Colin disputam traços em minha mente, mas é Paulo Sérgio que quer chamar atenção e um de seus discos caem em cima da única agulha Ortofon que tenho, ao lado tem outra garrafa azul, dessa vez é uma de café, a anterior era de água, a de café me foi dada pela mãe de um parceiro.
Stan Lee não, ele não, por exemplo o Surfista, quem criou ele? e quem fez o Capitão América? Vamos ser sinceros, o que Lee fez ultimamente além de programas de televisão, sendo somente uma caricatura dele mesmo?
É o mesmo que comparar Roberto Carlos com Amado Batista, um tem mídia, mas o povo tá mesmo com o Amado.
O Peixe Peludo se levanta e assim como Rourke em O Lutador, ele sabe que não será fácil ficar vivo e que só a vida pode leva-lo a nocaute.
Seus desgraçados, agente só para quando quiser, quer dizer, eu só paro quando quiser, eu acho.
A madrugada vem chegando, o ar que entra pela janela agora é mais para uma brisa, fica mais frio, eu tiro a camisa para saber realmente que ainda posso sentir algo, sei como Saramago, que a felicidade é só algo inventado para suportarmos a vida, e sei também que as meninas que passam agora por esse asfalto logo abaixo, só querem um pouco de diversão, mesmo sem ser a solução, a madrugada ainda pode oferecer algo melhor do que o pequeno barraco, recheado de familiares com mais sonhos que realizações e metros quadrados, o maldito Gol cinza passa novamente e o que sai lá de dentro ainda estremece o sobrado.
Piroca, piroca, piroca.
A palavra é repetida sem parar, um som grave estremece a casa, penso se isso fosse um texto Kafkiano ou eu virava um piroca e deslizava mole pelas escadas até sair no portão e começar a esmagar pessoas na rua, ou uma piroca gigante entraria pelo teto e destruiria toda a casa, ainda bem que não é.
Lixo toma espaço da rua, os pedestres que se fodam, quem dirige carro acha que não é pedestre, nunca foi e nunca será, tem nojo dessa raça.
Carros toma toda a calçada enquanto uma senhora caminha pela rua, em meio a motos e seus motores disparando tiros imaginários, entre a viela e o muro branco do sítio um casal se aperta e prova que aquela coisa ainda pode estar no ar.
Adolfo Aizen vem na minha cabeça, deve ter sido por ter a alguns dias lido o catálogo da Ebal, que Edição Maravilhosa, embora mais raro eu acho é Raio Vermelho, o primeiro lançamento da Abril, quando nem chamava editora Abril, outra revista em quadrinhos que procuro é Raimundo o Cangaceiro, pois José Lanzellotti além dos quadrinhos fez uma grande documentação histórica ao criar o personagem, mas talvez o motivo também seja pelo nome do personagem, mesmo nome do meu pai.
A corrente de ar diminui, alguém chega e diz que minha filha está perguntando porque estou demorando, agora tiro os olhos do monitor e vejo minha esposa, embora suas palavras sejam ditas em nome da menina, sinto que são suas, vou ver a pequena na cama, paro de escrever o texto.
Ela barganha para ir dormir com a mãe enquanto eu não chego, concordo, ninguém aguenta um sorriso misturado com sono, volto para meu cômodo entulhado de celulose, mergulho no texto, mas as vozes na rua me tiram do que tinha pensado em escrever, fogos de artificio tornam ainda mais estranha a madrugada, quem seria o maldito que as altas horas soltaria esses fogos, talvez seja algum jogo na televisão, embora não seja horário nobre, bem longe disso, ou mesmo um balão, como os fogos continuam vou até a janela e não vejo balão nenhum, queria ser Tintin e chegar em algum lugar antes de todos, assim como ele chegou na lua em 1950, tantos anos antes de Neil Armstrong, mas mesmo assim é Armstrong que recebe flores em sua estátua.
O jornalista na televisão diz que a culpa é das pessoas que agora podem ter carro, não é simples assim, a culpa é você poder ter e não saber usar, pra que tanto som? Equipar carro com som na quebrada virou moda, mas quem vai aguentar viver com tanto barulho? Enquanto educação e cultura não forem prioridade o dinheiro só vai servir para transformar a favela num inferno, onde se compra um guarda-roupa novo e o velho se joga na rua, onde o sofá usado agora está dentro do córrego, consumir sem conhecimento, é empinar moto, usar farinha demais, tomar whisky com energético, Catuaba com Schweppes, parar em todo posto para abastecer o carro e abastecer o corpo com cerveja (porque postos de gasolina vendem cerveja, se a idéia e não dirigir depois de beber?).
O dinheiro adquirido, o poder aquisitivo tão esperado, com 3 governos de esquerda, deveriam ser usados para todos se melhorarem como seres humanos, aprender, estudar, saber o grande potencial da cultura, adquirir senso critico, e isso tudo banhando com diversão também, uma boa peça de teatro, um show ao vivo, uma exposição de quadros, nada como ver uma obra ao vivo, bons livros, fotografar ou ir a exposições de fotografia, boas revistas em quadrinhos, as possibilidades são ilimitadas, e se tudo isso estiver longe, vá a algum sarau, são vários na quebrada graças a militância de alguns, mas para isso precisamos começar imediatamente a pregar algo além do consumismo suicida.
Ouço a música ao longe novamente, e abaixo meu velho receiver para entender a letra, impossível, mas indo a janela vejo o maldito Gol cinza e tudo estremece.
Uma buzina é pressionada por vários minutos sem parar, parece de uma bicicleta, o menino já treina para no futuro gerar barulho, meus dedos não conseguem digitar, o coração está mais rápido, tento olhar um pouco para a TV, ela sempre me deixa mais na moral, agora ouço um disparo, já não parece mais fogos, então vou fechar a janela, Rex Mundi livro dois está a minha espera, o primeiro Guardião do templo foi uma grande diversão, não tanta como Os Beats, uma graphic novel coletiva com roteiros de Pekar, Peters e um monte de gente bacana, são trabalhos que me tiram daqui por algumas horas, morar no tema é foda demais, para pegar distância tenho que ir dos livros clássicos até os fanzines que saíram essa semana.
Logo abaixo de Os Beats está Grendel de Matt Wagner, uma edição que oscila entre lirismo e algumas histórias já batidas, o que menos interessa do apanhado é o personagem principal, e isso remete muito a Spirit de Eisner, mas não é Um contrato com Deus que interessa, dá para ver 100 balas e quem lê algo de Azzarello sabe o que digo, nem os Escapistas conseguiriam parar de virar as páginas, agora que meus dedos estão travando e minha mente tenta não ouvir Queem de novo na rádio, Aberrações no coração da América ou Sinal e ruído de Gaiman e Mckean vão terminar minha noite, embora eu não me encaixe nas pessoas que sobem a montanha para esperar a virada do século, porque na verdade estou mais para o escritor que não quer fazer os exames. O clima de Sinal e ruído é perfeito para se pensar a vida através da ameaça de perde-la.
O resto de Pizza ainda está em cima do sofá na sala, e como tive que andar muito para comprar, porque nessa rua não tem uma pizzaria, e na rua de cima, as madeiras usadas no forno são restos de móveis, então como sou um pouco informado para comer algo misturado com produtos químicos vindos da fumaça, e aqui não tem sequer ou uma padaria, tive que andar muito mesmo para trazer essa pizza.
Em alguns lugares é tão comum, porque aqui não? e olha que não estou exigindo nada demais, comida japonesa? Frango Frito? não, só uma maldita pizzaria.
Paro o texto, por aqui já chega de escrever, vou até a cozinha, ponho água para esquentar, não consigo comer pizza com refrigerante, meu negócio é café com leite, volto para a sala mas antes que eu me encaixe no sofá e comece a foliar os desenhos de Mckean, a casa estremece e sei que é o maldito Gol cinca novamente.
- Quem senta, senta, senta, senta se concentra.

Ferréz é escritor (publicado originalmente no blog do autor)

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Da glória à palhaçada

Um menino encantou o mundo do futebol quando, entre os 17 e 18 anos de idade ajudou o Brasil a conquistar o seu primeiro campeonato mundial na Suécia em 1958. Edson Arantes do Nascimento, o até então desconhecido Pelé, partia para sua fulgurante carreira, sendo até hoje considerado o rei do futebol, mesmo tendo ao seu lado grandes nomes como Puskas, Di Stefano, Leônidas da Silva, Garrincha, Maradona.
Conquistou títulos e mais títulos com o seu Santos Futebol Clube e com a Seleção Brasileira e foi ao lado de Garrincha, na minha modesta opinião, um jogador que sabia fazer do futebol uma arte, um espetáculo que ultrapassava as paixões clubísticas e a possibilidade da mesmice dentro das quatro linhas de um estádio.
O mundo mudou e com ele, é claro, o futebol. Aos poucos o “produto” futebol superou o esporte e se transformou numa das maiores máquinas de ganhar dinheiro no mundo. Não demorou muito e o mercenarismo apareceu, bem como a fábrica de jogadores para serem vendidos a preço de ouro. E nesse novo mundo, tudo vale para transformar o craque ou o perna de pau num bom negócio.
O Santos de Pelé também mudou muito e depois de muitos anos ameaçou montar um novo e fantástico time. Apenas ameaçou, pois como se tornou usual nos dias que correm, assim que um novo craque desponta, todos os interesse ao redor dele se manifestam das maneiras mais ambiciosas e mesquinhas. Foi aí que apareceu o também garoto Neymar. Bom jogador, ninguém discute, mas ainda longe daquilo que foi Pelé.
A fama subiu-lhe à cabeça antes da hora e, em menos de dois anos, foi transformado em celebridade e um bom e lucrativo negócio. Com os gols marcados, alguns muito bonitos, ajudou a criar uma coreografia debochada para a comemoração desses gols, desrespeitando o adversário e sua torcida. Depois, a indisciplina contra o seu técnico Dorival Júnior, com o clube dispensando o técnico e passando a mão na cabeça do menino. Por último, a expulsão de campo por comemorar um gol com o uso de uma máscara, prejudicando o Santos numa competição internacional.
Isso resume um pouco a história do futebol brasileiro: da glória de Pelé à palhaçada do Neymar.

Izaías Almada é dramaturgo e escritor, colunista do NR e do Escrevinhador

domingo, 20 de fevereiro de 2011

A encruzilhada norte-americana

Não consigo entender a razão que me impede de ser um grande admirador dos Estados Unidos da América do Norte. E olhe que já tentei: comprei um chapeuzinho do Mickey na Disneylândia, fantasiei-me de Homem Aranha no Carnaval, compadeci-me com os assassinatos de John Kennedy e Martin Luther King, tenho uma nota de um dólar guardada como talismã, mas não tem jeito, não consigo engolir o tal ‘american way of life’.
Devo confessar, inclusive, que tenho grande admiração pela produção cultural norte americana, sua literatura, seu teatro dramático e musical, o blues e o soul na música, muitos de seus filmes, poetas como Whitman e Auden, dramaturgos como Albee, Miller e Tennessee Williams, escritores do talento de Faulkner e Baldwin... E a lista aqui seria extensa.
Mas quanto à sua decantada democracia e o seu papel de polícia do mundo, não. Aí, não... Aí o assunto se reveste de inquestionável transcendência. O mundo já está cansado da intromissão direta de siglas como CIA, DEA, FBI, MARINES ou indireta como FMI, ONU, OEA, OTAN (onde prevalece a ‘visão norte americana’ e corporativa do mundo capitalista) e outras menos conhecidas pelo grande público, mas não menos importantes ou perniciosas.
Desde que a Segunda Grande Guerra desmontou o poder hegemônico da Europa sobre o mundo, inclusive expondo as vísceras de um colonialismo perverso e ultrajante de países como a Alemanha, a Holanda, a Inglaterra, a Itália, Espanha, França, esse lugar foi ocupado pelos Estados Unidos da América do Norte, que soube, mais do que ninguém se aproveitar da oportunidade oferecida pelas circunstâncias da luta contra o nazi/fascismo, entre outros fatores, e assumir o papel de gendarme da humanidade.
Ao ajudar combater o eixo Roma/Berlim/Tóquio e eliminar o fantasma de um mundo governado por um psicopata como Adolpho Hitler, os EUA envolveram-se num manto de simpatia mundial que muito bem souberam canalizar para a defesa de seus interesses econômicos e estratégicos, aos poucos disseminado e sustentado por uma poderosa máquina de manipular ideias e consciências por meio do rádio, da imprensa, do cinema e da televisão.
Pode-se mesmo dizer que os últimos 70 anos vividos pela humanidade, se caracterizaram por uma monumental propaganda em favor de um sistema econômico que transforma a água em vinho, multiplica os pães, mas deixa na miséria, ou quase, 90% da população mundial. E, o que é mais grave, crucifica a todos aqueles que não rezam pela sua cartilha. E não são poucos os Pilatos que lavam as mãos diante de tal situação.
Coréia, Vietnam, Indonésia, ditaduras pela América Central e do Sul nos anos que se seguiram à Segunda Grande Guerra, apoio a genocidas africanos, apoio a golpes de estado em países como Chile, Brasil, Argentina, Bolívia, Uruguai, nos anos 60/70, Kosovo (Bálcãs), Haiti, Honduras em anos mais recentes dão, apesar do volume de ações, uma pálida idéia da intromissão de um país autoritário e arrogante na vida política de outros povos.
A livre concorrência e a defesa de interesses econômicos dão aos EUA, no limite dos direitos adquiridos e na prática de uma diplomacia minimamente civilizada, consoante as próprias leis que regem o sistema capitalista, a possibilidade de se fazerem ouvir em qualquer ponto do globo terrestre. Contudo, direito igual têm todos os outros países da comunidade internacional.
No entanto, não é esse o filme a que se assiste. Apoiado por uma poderosa máquina de guerra, onde se destacam as armas nucleares (negadas ou permitidas a outros países conforme as alianças que se fazem), a hipocrisia (para dizer o menos) da política norte americana é de transformar o Iago da tragédia shakespeariana numa verdadeira Madre Tereza de Calcutá.
Mistificando suas ações de combate ao terrorismo e ao narcotráfico, o Departamento de Estado e sua diplomacia feita de chantagens e espionagem, conforme revelações mais recentes do site Wikileaks, parecem ter chegado a um impasse nessa primeira década do século XXI. Sua economia vai mal, seu poder de barganha diminui, sua influência na América Latina e agora no Oriente Médio declina.
Conseguirá o presidente Barack Obama mostrar que foi merecedor de um prêmio Nobel de Paz ou esse galardão se desmoraliza em definitivo?

Izaías Almada é dramaturgo, escritor e colunista do Nota de Rodapé e do Escrevinhador

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Eu também sou filho da puta, senador!

Antes de tudo, minha total solidariedade ao jornalista e colega João Peres. E votos de que continue a desempenhar corajosamente a sua missão de informar.
A arrogância e o desespero dos incompetentes e dos traidores das causas populares têm mostrado a sua face mais obscena nessa campanha eleitoral por parte de um partido que, em tempos nem tão distantes assim, quis representar no Brasil o pensamento de esquerda seja dito “civilizado”. Caiu a máscara!
Com a perspectiva de que venha a público e, mais do que isso, temendo o julgamento popular e da própria justiça brasileira, a nata do PSDB e da oposição como um todo, entrou em queda livre e quer melar o jogo da democracia no país.
O discurso, por vezes inflamado, de vários desses atores, já desliza pela linguagem de esgoto, muito provavelmente a mesma linguagem com que se tratam uns aos outros na hora em que vêm seus interesses contrariados nas grandes jogadas de corrupção em que se envolveram no governo de São Paulo ou na comemoração dos seus patrióticos “negócios”
Com a palavra o ex-vice governador e atual senador eleito por São Paulo Aloysio Nunes Ferreira que, do alto da sua ignorância e falta de educação ataca um jornalista no cumprimento de sua missão.
Quem é filho da puta, senador? O jornalista ou os que recebem propina da Cia. Alston, essa empresa das licitações do metrô de SP, conforme inquérito que está em julgamento na Europa?
Quem é filho da puta, senador? O profissional de imprensa independente ou amigos que desviam dinheiro do Caixa 2 do PSDB e ameaçam com chantagem se não forem defendidos?
Quem é filho da puta, senador? Quem diz a verdade ou quem vicia processos de licitação em benefício próprio, botando a mão no dinheiro público?
Quem é filho da puta, senador? Quem defende a soberania nacional ou quem entrega a riqueza do país a empresas internacionais, vendendo-as a preço de banana? E que um dia já se disse “revolucionário”?
A lista de perguntas é bem mais extensa, mas não vou maçá-lo com questões que têm a ver com a consciência dos homens que, de fato, são sinceros e honestos na sua trajetória política. Seria esse o seu caso?
Orgulho-me, sinceramente, de não pertencer ao seu grupo social e político. Entre o meu Brasil e o seu, de homens verdadeiramente “íntegros”, prefiro ser um filho da puta, mas com a dignidade de quem não se vende por trezentos dinheiros. E não sou pelego filiado ao Partido dos Trabalhadores.
O fascismo enrustido não passará!

Izaías Almada é dramaturgo e escritor, colunista do NR e do Escrivinhador

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O peso eleitoral da bolinha de papel, o retorno

Na edição de ontem, 21, o Jornal Nacional (e depois o Jornal da Globo) mostrou que José Serra do PSDB havia sido atingido por uma bolinha de papel e numa outra imagem, feita por um repórter da Folha de S.Paulo (do celular) por um objeto "mais pesado". O JN dedicou um bom tempo (mais de 7 minutos) para dizer que não errou na reportagem do dia anterior, questionada veementemente em blogs e redes sociais, a partir de uma reportagem do canal concorrente, o SBT, que mostrava o candidato atingido por uma bolinha de papel. Serra afirmou, não sobre a bolinha de papel, mas sobre o outro objeto (o voador não identificado), que ficou "tonto" só que não a ponto de "desmaiar". E que fez uma tomografia em seguida. Um exagero.
A questão de ser agredido é forçar a barra. A intenção é criar medo e pânico colando a ideia de que petistas e Dilma são agressivos. Lembrem-se, estamos há oito dias do pleito e a Globo, a Folha e o Estadão, nitidamente, estão em campanha por José Serra. Seria uma forma de abafar a história de Paulo Preto e desviar o foco? Concordo que errou, sim, quem jogou alguma coisa em Serra, isso é patético, mas pior é usar tal episódio para capitalizar eleitoralmente em seu favor como fez no horário eleitoral e nos eventos em que participou. Pior é ver a matéria do JN induzindo o telespectador, como bem esclarece o texto do Azenha "Em menos de 24 horas, objeto sólido que atingiu Serra encolheu de 2kg para 0,5 kg". Sem falar na sorte do repórter da Folha. Com um celular, na muvuca, captar o momento exato - com imagem pouco clara - em que o objeto voador não identificado (que o perito usado no JN diz ser uma rolo de fita) acerta o tucano.
E hoje, como se nada tivesse acontecido, a divulgação pela Folha e pela TV Globo da pesquisa realizada pelo instituto Datafolha sobre as intenções de voto à Presidência mostra a candidata Dilma Rousseff (PT) com 50% das intenções e o candidato José Serra (PSDB) com 40% - foram ouvidos 4.037 eleitores no dia 21 de outubro. Ou seja, Dilma vai a 56% dos válidos e abre 12 pontos sobre Serra. Com o episódio, eles já devem estar alucinados por outra pesquisa para ver se Dilma perde uns pontinhos - coisa que o Serra não levou na cabeça.


Reportagem do JN de ontem, 21 de outubro


Vídeo "Farsa em 6 partes" de hoje, 22 de outubro

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Voltam as chiliquentas das eleições

As chiliquentas têm se tornado figuras frequentes nas eleições brasileiras. Não preciso enumerá-las. Gostaria apenas de falar da última aparição dessa espécie de “formador de opinião”.
Fui deprimentemente apresentado ao vídeo (abaixo) da participação do comediante Marcelo Madureira, de Casseta&Planeta, no Manhattan Conection, do canal GNT. Durante alguns segundos, o também integrante do Instituto Millenium destila desaforos ao presidente. Chama Lula de “vagabundo” e “picareta”.
Madureira, de uns anos pra cá sabemos, integra o Clube dos 4%. São aqueles 4% que acham o governo Lula ruim ou péssimo – único ponto aparente de consenso entre as pesquisas Ibope, Datafolha, Vox Populi e Sensus. Mas nenhum deles consegue apresentar um motivo. Unzinho.
“O pior destes oito anos de governo Lula foi transformar a política definitivamente numa coisa de chacota” é tudo o que consegue falar o comediante. Madureira, demorou oito anos para você conseguir elaborar uma frase de efeito, uma “crítica” ao governo Lula?
O Clube dos 4% não consegue entender que um metalúrgico tenha governado melhor o país do que eles fizeram ao longo de 502 anos (talvez 504). O comediante está entre os 4% que acreditam que Lula quer cercear a liberdade de imprensa. Madureira, você acredita honestamente que um presidente que aguentou ser chamado de mula (que trocadalho, hein?) durante oito anos quer censurar alguma coisa?
As piadas do Casseta&Planeta, que se confundem com os “argumentos” desta gente, foram sempre as mesmas. Lula teve as seguintes opções: burro e vagabundo (preconceito de classe), incapaz de falar o português das elites (novamente, preconceito de classe), piada com a perda do dedo mindinho (preconceito físico, outrora chamado de fascismo), bêbado (como definir uma dessas?). Passaram-se oito anos, Madureira, e vocês não conseguiram renovar o estoque de piadas. Será que é o presidente que tem preguiça?



João Peres é jornalista e colunista do NR

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Eleições, direto de Brasília

A avaliação de vários setores da base aliada é de que a campanha de boataria foi decisiva para levar a campanha ao segundo turno. Durante encontro em Brasília, perguntei ao deputado federal José Eduardo Cardozo, um dos coordenadores da campanha de Dilma Rousseff (PT), sobre o papel de parte da imprensa na disseminação de tais boatos, em especial sobre o aborto.

- Sempre defendemos a imprensa livre. Cabe ao leitor, ou ao telespectador, ou ao ouvinte, julgar a forma como cada veículo se comporta. Esse não é um julgamento que deve ser feito por nós – foi a resposta do deputado. Bastante diplomática.

Ciro Gomes, muito menos poupador de palavras, considera que é preciso mostrar a cada brasileiro qual a posição ideológica dos veículos. O deputado, agora integrado à campanha de Dilma, entende que faz parte da vida democrática que a Veja possa existir e se manifestar livremente, mas pondera que deve ficar clara a posição reacionária do veículo da editora Abril.

- Que a Veja tenha longa vida, mas que todos fiquem sabendo que a Veja não é uma observadora neutra da vida brasileira: ela está a serviço dos interesses internacionais, da privataria, da escória brasileira. Isso sempre foi – respondeu à questão que apresentei sobre o papel de Veja no primeiro turno. A conversa na íntegra está publicada na página da Rede Brasil Atual.

Imprensa Candanga
Muita gente da imprensa candanga ficou eufórica no domingo ao descobrir que haveria segundo turno. Enrolados na bandeira azul e amarela, esses representantes da democracia circulam pela capital federal com um microfone na mão e algumas ideias, próprias ou não, na cabeça. Uma delas, claro, é fazer com que aves da fauna nacional voltem a frequentar o Planalto.
Quando chegou a uma reunião da base aliada, o senador eleito Roberto Requião (PMDB-PR) foi questionado se o Senado não ficaria governista demais a partir de 2011.

- E como você queria o Senado? – assustou-se o ex-governador.
- Equilibrado. E-QUI-LI-BRA-DO – vociferou uma outra representante do jornalismo embandeirado.

Entendi tudo: a festa da democracia, tão propalada por alguns veículos, só é boa quando serve à manutenção de certos interesses. Se os vencedores forem os outros, há risco à ordem institucional, concentração de poder, personalismo político. E, claro, a democracia brasileira é frágil, está por um fio... Ah, como sofre essa gente.

A Globo da Argentina
Só pra concluir, uma rápida da Argentina, mas que tem tudo a ver com o Brasil. Os jornais brasileiros de grande (ou média, com viés de baixa) circulação nesta quinta-feira comemoram o veto apresentado pela Corte Suprema da Argentina à Ley de Medios, que visa à democratização da comunicação no país vizinho.
Os jornais daqui entenderam, ou quiseram entender, que a Corte avaliou que o Clarín, a Globo de lá, não precisa vender parte de suas concessões de rádio e de TV, uma medida prevista para desconcentrar o poder dos veículos de comunicação. Não é bem assim. Os ministros da Corte pontuaram que não podem se posicionar sobre o prazo da medida cautelar apresentada pelo Clarín, que entende que não poderia cumprir essa venda em um ano, como previa o prazo inicial. Em essência, o grupo mais poderoso da comunicação argentina terá de se livrar, sim, de suas concessões. Apenas o que não se tem, neste momento, é o prazo para que isso ocorra.

João Peres é jornalista e colunista do NR

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

As opções de quem faz o NR para essas eleições

Como havia postado no último domingo, os participantes do Nota de Rodapé aceitaram a ideia sugerida de abrir seu voto. É uma forma, como escrevi no e-mail que enviei a todos, de que um veículo de comunicação - por menor que seja - deve se posicionar sempre; ao menos, divulgar as preferências de um modo geral. É honesto com o leitor. Aqui, divulgo o resultado. E como podem ver, é uma pequena amostra da pluralidade de opiniões e posições existente neste espaço. Somos em 15 no total.

5 optaram pelo candidato do PSOL, Plínio de Arruda Sampaio;
5 pela candidata do PT, Dilma Rousseff;
3 pela candidata do PV, Marina Silva;
1 pelo candidato do PSDB, José Serra;
1 ainda não decidiu seu voto.

Alguns pediram para abrir voto e nome com um texto de argumentação.
Em breve, assim que os textos chegarem para mim. Ao lado, uma enquete em que você leitor do NR pode deixar seu registro de preferência.

Thiago Domenici, editor e coordenador do NR

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Folha e as imagens que contradizem

A Folha trouxe nesta semana uma matéria sobre como o ataque da seleção canarinho é violento, o 2º que mais tem feito faltas nessa Copa.
Mas as imagens que ilustram a teoria não atestam a notícia. A legenda diz: "Luis Fabiano, Kaká, Robinho e Elano perseguem rivais no jogo com a Costa do Marfim".
As fotos selecionadas a dedo mostram o Luis Fabiano sendo surpreendido pela marcação que aparece em sua frente; Kaká, no momento em que é puxado pela nuca; e Elano, tocando na bola enquanto recebe uma "solada" na canela – jogada que provavelmente irá tirar o jogador da partida contra Portugal.
Para quem não viu o jogo (se é que alguém não viu) a Folha passou informações que não remetem a realidade, por puro descuido. Pode parecer bobo, mas as imagens são uma importante ferramenta para o texto e, neste caso, elas mentem. “Concordo com sua avaliação”, disse a ombudsman, Suzana Singer. A editoria de Esportes, para variar, não respondeu.

Diogo Ruic é jornalista e editor assistente do NR

segunda-feira, 21 de junho de 2010

No limite da irresponsabilidade

Há qualquer coisa de sinistro na figura do candidato José Serra. Não digo isso com qualquer intenção de atacar gratuitamente um candidato à presidência da República, nem para fazer coro com os que, com ou sem razão, tentam desprestigiá-lo. Devo confessar que nunca prestei muita atenção ao homem público José Serra, mas desde que ficou evidente a sua obstinação em ser um dia presidente do Brasil, obstinação cada vez mais acentuada nos últimos anos, tornou-se impossível não acompanhar algumas das suas falas, das suas atitudes ou mesmo de seus atos como administrador. É o mínimo que um eleitor pode e deve fazer.
O fato de um dia ter sido considerado um homem de esquerda e hoje construir o seu discurso mais ao gosto do conservadorismo de vários matizes não é o que mais impressiona. A História está cheia de exemplos de pessoas que passaram de um extremo ao outro no arco da ideologia e de sua representação em termos de política partidária. Temos no Brasil dois exemplos emblemáticos dessa migração de ideias ou de ideais, para ser mais preciso: Carlos Lacerda e Dom Helder Câmara.
Não. O que verdadeiramente impressiona e chama a atenção no atual candidato do PSDB à presidência, nesses últimos oito anos, pelo menos, é a dissintonia existente entre o que fala, como age e o que faz com os cargos políticos que ocupa ou aspira. Inventa dados (algumas entrevistas sobre economia), distorce fatos (entrevistas sobre enchentes em São Paulo), acusa sem provas (diz que o governo da Bolívia facilita o envio de cocaína para o Brasil), mente (sobre completar o mandato na prefeitura de São Paulo), age às escondidas (os blogs de baixaria contra a candidatura de ministra Dilma Roussef) e – o que me parece bem grave – quando confrontado com um dado concreto da realidade, como a epidemia da gripe suína, por exemplo, faz categóricas afirmações destituídas de um mínimo de conhecimento sobre o qual foi questionado, beirando ao ridículo. (Serra afirmou em entrevista que para se evitar a gripe suína bastaria a pessoa não ter contato muito próximo com os porquinhos)
A tal ponto José Serra vai se enveredando por um caminho político tortuoso, que já é possível identificar aqui e ali alguns sintomas do seu destempero. Um jornalista equilibrado como Luiz Nassif assim se expressou recentemente em seu blog: “Serra tem um monte de defeitos, mas o que anda dizendo não bate com seu histórico. Sempre foi um sujeito cartesiano, dono da boa opinião. Por tal, entenda-se a capacidade de assimilar conceitos inovadores divulgados pela mídia. Nunca foi de se aprofundar em nenhum tema, de assimilar nenhum conceito mais complexo – não por falta de capacidade, mas de gosto. Fora os temas das contas públicas – para os quais tem dois excelentes professores, o José Roberto Afonso e o Mauro Ricardo e de comércio exterior – não se conhece uma área em que tenha aprofundado os estudos. Mas o que anda dizendo, o linguajar chulo, as bobagens diplomáticas não batem com seu histórico de sujeito racional.”

Mais prudência
Nassif é um homem educado, vê-se logo. Deve saber muito bem o que está falando nas linhas e nas entrelinhas. O assessor presidencial Marco Aurélio Garcia afirmou ainda que Serra "deveria ser mais prudente" em suas declarações, que não são compatíveis com as suas "aspirações" ao cargo de presidente.
Colocado no palco da disputa eleitoral mais importante da sua vida, o que não é segredo para ninguém, a impressão que fica é a de que José Serra tem mais ambição do que competência. Tem mais vontade do que discernimento. Não é um homem preparado para a função que almeja, ao contrário do que prega. E aqui volto à abertura do artigo, o lado sinistro de Serra. Por quê toda essa obsessão em fazer uma coisa para a qual não está preparado. O que Serra pensa? Qual sua visão do mundo atual? Qual seu programa de governo? Perguntas simples, mas que cada vez mais se tornam difíceis de serem respondidas pelo candidato da oposição.
José Serra parou no tempo. Vive, para dizer o menos, nos anos 80 e não percebeu que o mundo mudou de século. Que o Brasil mudou de norte. Que a vida se faz com alegria e entrega, com solidariedade, e não com acusações e cara amarrada. Com respeito e não com inveja. Serra representa um retrocesso perigoso para um país que, a duras penas, vai tentando organizar sua economia e aplicar melhor seus recursos em programas sociais. Quem insiste em não enxergar esse quadro, como Serra, está no limite do suicídio político, pois não distingue a realidade dos seus desejos interiores.

Izaías Almada é escritor, dramaturgo e colunista do Nota de Rodapé

domingo, 18 de abril de 2010

Ser um filho de desaparecido na Argentina

A voz dos vencedores calou a todo um povo e junto com ela a história de seus lutadores por longos anos. Boa parte dos fatos da ditadura militar e dos homens e mulheres que deram sua vida por um país melhor virou silêncio de cemitério, algo maldito, ou nos melhores dos casos, mal visto. A única resistência foram a mães da Praça de Maio, consideradas “loucas” na tímida democracia dos anos de 1983.

-Teus país estão viajando.
-E quando eles voltam vó?
-Pronto meu querido, pronto...

Muitos filhos ficaram sem pais e sem respostas. Muitas vezes parentes próximos inventavam mentiras piedosas por não saber o que dizer ou com vergonha por seus netos ou sobrinhos. Uma infância de brincadeiras e ausências.
Cada um deles achava que isso só acontecia com eles, mas não. O terrorismo de estado massacrou na Argentina e 30 mil pessoas. Eles cresceram e as perguntas começaram a quebrar os tijolos da enorme parede. A faculdade, a política, as pessoas, as discussões, os encontros.
Então os murmúrios se fizeram ideias. Criado numa bolha, respirava confundido os jornais, livros, músicas, e então a universidade me recebeu com uma bofetada de realidade. A liberdade, as novas experiências, tudo chegou de uma vez para mim.
Numa classe de filosofia contemporânea me disseram:

-Aquele tá procurando um cara pra rachar um apê.
-Beleza.
-O cara é maneiro.
"eu tinha esperança
de que ele e minha mãe
voltassem
"
O nome dele é Camilo Cagni, magro, cabelo comprido, preto, liso, fanático por rock argentino. Foi difícil fazê-lo escutar The Doors, mas curtiu muito depois.
Compartilhamos uma quitinete no centro da cidade de La Plata, capital do estado de Buenos Aires e principal centro universitário da região. Um armário no meio separava as camas de um lado e uma mesa redonda com quatro cadeiras velhas e som do outro. Numa noite, com apenas a luz do abajur acesa, me disse: as única coisa que tenho do meu pai é são fotos e essa borracha escrita por ele que diz FAR (Forças Armadas Revolucionárias). Até os doze eu tinha esperança de que ele e minha mãe voltassem.
No geral uma casa de estudantes não amanhecia até o meio-dia, no entanto a nossa era geograficamente e por desgraça bem localizada. Às nove da manhã um carteiro amigo sempre tocava a campanhia para nos acordar pra fazer tempo. De altura média, olhos verdes, cabelo longo encaracolado, voz grave e energética. Assim é Carlos Rios, mais conhecido como Charly. Foi o primeiro a dizer a Hebe de Bonafini, presidente das Mães da Praça de Maio, que os filhos de desaparecidos tinham que ter sua própria organização de direitos humanos. Como todo jovem teve que ouvir a típica resposta: vocês são muitos jovens, os partidos vão manipular vocês. No entanto, para os anos de 1995 as organizações de filhos de desaparecidos já tinham pipocado pelo país inteiro. E assim como outras organizações de direitos humanos os partidos caíram em cima.
Por este motivo, na minha quitinete se faziam reuniões paralelas com a vanguarda do que se deveria ter feito. Naquele momento, La Plata era a referência a nível nacional da organização. E grandes propostas saíram dali.

-Os assassinos dos nossos pais estão livres e contentes.
-É. Eu vi um deles hoje.
-Onde?
-Aqui mesmo.
-Filho da puta!!!!
-Porra!!! Não pode ficar assim.
-E se a gente juntar todo mundo e marcar o lugar onde ele mora?

Foram poucos na primeira, mas o barulho foi enorme. Não dava mais para ser indiferente. "Senhoras, senhores: o teu vizinho é um assassino e torturador." E cantávamos a viva voz: “Assim como aos nazistas lhes aconteceu, onde vais, nós iremos atrás”. H.I.J.O.S (Filhos e Filhas pela Identidade e a Justiça contra o Esquecimento e o Silencio), acordou a muitos e a mim, inclusive.

Rodrigo Menitto é jornalista, filho de terras argentinas e brasileiras, estreia sua coluna Crônicas do Sul.
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