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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Os dois postes de Lula
Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, colunista do NR, atualmente mantém a série A Fábrica de Brinquedos Pau-brasil. + do autor
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
E agora, José Serra? #Minicraques da política
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quinta-feira, 21 de outubro de 2010
O peso eleitoral da bolinha de papel no cucuruto de Serra
Reportagem do SBT se opõe a da Rede Globo. Segundo a assessoria de José Serra, um “pesado objeto” o atingiu em passeata na Zona Oeste do Rio. E teria sido atirado por militantes do PT. Mas, como mostra o vídeo abaixo, se não era uma pedra e nem um rolo de adevisos, o que era? Uma bolinha de papel com peso eleitoral. As imagens, a meu ver, me parecem bem fidedignas de que nada pesado foi jogado no tucano. O presidente Lula comparou Serra ao goleiro Rojas (em alusão ao goleiro chileno Roberto Rojas que fingiu ser atingido por um morteiro em uma partida contra o Brasil) e disse que agressão é 'mentira descarada'. "A mentira que foi produzida ontem pela equipe de publicidade do candidato José Serra é uma coisa vergonhosa. Ontem deveria ser conhecido como dia da farsa, dia da mentira", disse Lula, após inaugurar um estaleiro em Rio Grande (RS). Como não poderia ser diferente, a história virou febre no twitter, com as hastags #boladepapelfacts e o #serrarojas liderando os trendtopics (espécie de ranking dos assuntos mais comentados). Já não é a primeira e nem a segunda vez que o tucano faz manobras marketeiras de impacto para impressionar negativamente o eleitor.
Virou jogo
O episódio do tumulto na caminhada no Rio de Janeiro já virou um game virtual. No joguinho, o internauta tem que acertar uma bolinha de papel na figura recortada de Serra, que se esquiva das investidas. Ao fim de 30 segundos, um resultado de tomografia indica os acertos. O fundo do jogo é a bancada do Jornal Nacional. Clique aqui para jogar. Abaixo, veja o vídeo com a reportagem do JN e do SBT.
Virou jogo
O episódio do tumulto na caminhada no Rio de Janeiro já virou um game virtual. No joguinho, o internauta tem que acertar uma bolinha de papel na figura recortada de Serra, que se esquiva das investidas. Ao fim de 30 segundos, um resultado de tomografia indica os acertos. O fundo do jogo é a bancada do Jornal Nacional. Clique aqui para jogar. Abaixo, veja o vídeo com a reportagem do JN e do SBT.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Serra, Caô Caô e as propostas na era tuiteira
Tucano, talvez por soberba, resume em 140 caracteres suas propostas, que, analisadas a fundo, mostram despreparo exatamente de quem se orgulha de um passado acadêmico tão belo
É interessante tentar analisar a fundo as propostas do candidato do PSDB à Presidência, José Serra. É bom analisar a fundo essas promessas exatamente porque elas não têm fundo. São rasas. São propostas que estão de acordo com este momento do mundo em que alguém consegue expressar todo um pensamento em 140 toques.
Não quero, com isso, dizer que Serra tem grande capacidade de síntese. Não tem. Assim como não tem propostas que devam ser levadas a sério. As propostas de Serra são tuiteiras, se resumem a uma, duas linhas: salário mínimo a R$ 600, 13º para beneficiários do Bolsa Família e reajuste de 10% para as aposentadorias.
Estive, nestas eleições, em alguns eventos com a presença do tucano. Não foram raras as ocasiões em que, perguntado sobre como levaria adiante determinada proposta, Serra falou coisas do gênero “Não sei, precisa estudar, analisar, mas dá pra fazer”. Assim, em 52 caracteres, Serra resume seu pensamento.
E, para quem está um cadinho mais atento, entrega seu despreparo. O ex-governador, que tanto se orgulha de seu passado acadêmico, parece não ter estudado o suficiente para ser presidente do país. É esperado que um candidato, ainda mais um que figura entre os favoritos, tenha clareza em suas propostas e possa explicá-las a fundo, inclusive apontando de que forma e com que dinheiro seriam executadas. Serra, não sei se por soberba, não sabe fazê-lo.
Quando recebe uma pergunta desfavorável, sai-se com simplificações demonizantes, como a que ocorreu na última semana, quando acusou o repórter do Valor Econômico – publicação das organizações Globo – de “fazer capa para a propaganda do PT”. Um grunhido de 34 caracteres, emburrecedor do debate, mas que se presta àquilo que deseja o PSDB em uma era em que propostas tuiteiras são aceitas como verdades inteiras.
Agrotóxico genérico
Poderia citar inúmeras aqui e mostrar como nenhuma passa de duas ou três frases. Fico apenas com a última, e sugiro ao leitor que preste atenção daqui por diante nesta característica serrista. No sábado (16), o tucano defendeu suas propostas para a agricultura. Falou que vai criar o “agrotóxico genérico”. Isso mesmo. Ou Serra é desinformado ou aposta na desinformação dos brasileiros. Se bem entendi este grunhido, a ideia é um agrotóxico sem patente. Oras, é evidente que se trata de algo absolutamente impossível para um neoliberal: Monsanto e suas parceiras fabricantes de venenos mandam em boa parte do Congresso, em especial nas bancadas de DEM, PSDB e PMDB. Parece que Serra, de tanto gostar dos remédios genéricos, resolveu adotar as propostas genéricas.
Caô Caô
Com tantas promessas, impossível deixar de lembrar do mítico personagem construído por Bezerra da Silva em “Candidato Caô Caô”. Com sua inigualável simplicidade, Bezerra descreve o candidato que sobe o morro sem gravata, diz que gosta da raça, toma cachaça e até dá um tapinha. Mostrando que é mesmo do povão, vai lá na macumba pedir ajuda e... o tiro sai pela culatra:
A entidade que estava incorporada
Disse esse político é safado
Cuidado na hora de votar
Também disse:
Meu irmão se liga
No que eu vou lhe dizer
Hoje ele pede seu voto
Amanhã manda a polícia lhe bater
A diferença é que Serra, em vez da macumba, vai à igreja, papa-hóstia e reza o Pai Nosso como nunca. Mas apareceu um padre lá no Ceará que resolveu incorporar a entidade de Bezerra e recusar o uso político da religião. Tasso Jereissati, ex-presidente do PSDB e grunhidor profissional, resumiu em menos de 140 caracteres tratar-se de um “padre petista” que “provoca problemas à igreja”. Só um pouquinho de tanta verdade. Só um grunhido contra a mentira. Como diriam os cariocas, contra o caô. Como diria Serra, contra o trololó.
Último Grunhido
Serra, no último debate do primeiro turno, afirmou em 350 toques que São Luiz do Paraitinga, cidade do interior paulista devastada pelas enchentes, está reconstruída. “De tudo que tinha de mais importante já foi entregue”, resumiu. Estive em São Luiz. Precisei de mais de 350 toques para explicar que a cidade está longe da reconstrução.
João Peres é jornalista e colunista do NR
domingo, 10 de outubro de 2010
Ou abortamos o aborto, ou abortamos o Brasil
Como havia feito no primeiro turno, afirmo meu voto em Dilma Rousseff nesta enquete do Nota de Rodapé. Como havia feito no primeiro turno, reafirmo que apenas a terrível campanha de desinformação pode vencer a petista.
Se as eleições forem (fossem?) sérias e houvesse real debate de propostas, não haveria como este governo ser derrotado para um representante das ideias da década passada. Mas, como pontuei em coluna para este blogue antes do começo das eleições, se o governo Lula perder, terá perdido para sua falta de ousadia. Uma gestão com tamanha aprovação tinha a obrigação de promover mudanças estruturais. Uma das mais prementes é o câmbio radical no setor de comunicação.
Daqui por diante, em nome da elevação do nível do debate, deixo os leitores com as palavras da professora e filósofa Marilena Chaui, que seguramente tem argumentos mais bem trabalhados que os meus. Na sexta-feira (8), Marilena esteve em um ato pró-Dilma, no qual manifestou a necessidade de combater a agenda da mídia comercial e as velhas oligarquias do agronegócio, e de reforçar a democracia.
“Temos que impedir que três famílias pautem a agenda desse processo eleitoral. Quando digo que essas três famílias, que confundem seus lucros no mercado com a liberdade de expressão, porque é isso que acontece, a mídia está querendo agendar a temática desse processo eleitoral. E o que entra é a controvertida questão do aborto”, afirmou a professora, que considera que Serra é um candidato sem programa: “A ausência desse programa faz com que se procure inventar um assunto que possa ocupar a opinião pública, sobretudo por intermédio de uma intervenção de tipo religioso.”
Serra, oportunista, é agora religioso e ambientalista. Sobre o primeiro, não há necessidade de tecer comentários. Sobre o segundo, basta lembrar as obras do Rodoanel e da ampliação da Marginal do Rio Tietê. Mananciais e árvores? Não, Serra é da turma do cimento. Ou alguém que cogitou ter como vice Kátia Abreu, pilar-mor da bancada ruralista no Congresso, pode ser ambientalista?
Oras, o Brasil está saindo lentamente da longa noite dos quinhentos anos. Os trabalhadores, pela primeira vez, não têm de se agachar aos patrões – bem pelo contrário. O país, pela primeira vez, não tem de se agachar aos interesses de outras nações. Então, ou se aborta essa discussão oportunista sobre o aborto, ou acabaremos por abortar a conquista de nossa soberania. Por consequência, será abortado o fim da longa noite dos quinhentos anos. Voltaremos ao tempo em que mandavam os outros?
Único PS: está no pé da matéria sobre a pesquisa Datafolha, mas está: apenas 10% ainda cogitam mudar o voto. Como a diferença entre Dilma e Serra é de oito pontos, e o ponto que passa de um vai pra outro, as eleições, em tese, estão praticamente definidas. Mas, como o Datafolha conversa com gente de opinião volátil, tudo pode mudar. Principalmente na pesquisa de 30 de outubro.
João Peres é jornalista e colunista do NR
Se as eleições forem (fossem?) sérias e houvesse real debate de propostas, não haveria como este governo ser derrotado para um representante das ideias da década passada. Mas, como pontuei em coluna para este blogue antes do começo das eleições, se o governo Lula perder, terá perdido para sua falta de ousadia. Uma gestão com tamanha aprovação tinha a obrigação de promover mudanças estruturais. Uma das mais prementes é o câmbio radical no setor de comunicação.
Daqui por diante, em nome da elevação do nível do debate, deixo os leitores com as palavras da professora e filósofa Marilena Chaui, que seguramente tem argumentos mais bem trabalhados que os meus. Na sexta-feira (8), Marilena esteve em um ato pró-Dilma, no qual manifestou a necessidade de combater a agenda da mídia comercial e as velhas oligarquias do agronegócio, e de reforçar a democracia.
“Temos que impedir que três famílias pautem a agenda desse processo eleitoral. Quando digo que essas três famílias, que confundem seus lucros no mercado com a liberdade de expressão, porque é isso que acontece, a mídia está querendo agendar a temática desse processo eleitoral. E o que entra é a controvertida questão do aborto”, afirmou a professora, que considera que Serra é um candidato sem programa: “A ausência desse programa faz com que se procure inventar um assunto que possa ocupar a opinião pública, sobretudo por intermédio de uma intervenção de tipo religioso.”
Serra, oportunista, é agora religioso e ambientalista. Sobre o primeiro, não há necessidade de tecer comentários. Sobre o segundo, basta lembrar as obras do Rodoanel e da ampliação da Marginal do Rio Tietê. Mananciais e árvores? Não, Serra é da turma do cimento. Ou alguém que cogitou ter como vice Kátia Abreu, pilar-mor da bancada ruralista no Congresso, pode ser ambientalista?
Oras, o Brasil está saindo lentamente da longa noite dos quinhentos anos. Os trabalhadores, pela primeira vez, não têm de se agachar aos patrões – bem pelo contrário. O país, pela primeira vez, não tem de se agachar aos interesses de outras nações. Então, ou se aborta essa discussão oportunista sobre o aborto, ou acabaremos por abortar a conquista de nossa soberania. Por consequência, será abortado o fim da longa noite dos quinhentos anos. Voltaremos ao tempo em que mandavam os outros?
Único PS: está no pé da matéria sobre a pesquisa Datafolha, mas está: apenas 10% ainda cogitam mudar o voto. Como a diferença entre Dilma e Serra é de oito pontos, e o ponto que passa de um vai pra outro, as eleições, em tese, estão praticamente definidas. Mas, como o Datafolha conversa com gente de opinião volátil, tudo pode mudar. Principalmente na pesquisa de 30 de outubro.
João Peres é jornalista e colunista do NR
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Serra, essa não, Verônica não é a Lurian
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| Jornal da Globo: Serra acusa Dilma de usar método de Collor |
Serra e Dilma não me agradam e não cabe aqui e agora os meus motivos políticos. E também não escrevo por um viés petista alucinado que tenta defender a candidata de Lula a todo o custo. Não sou petista. O que me irrita é o factóide. É o José Serra comparar Dilma Rousseff a Fernando Collor e acusa-la de usar contra ele “o mesmo jogo sujo". “O Collor utilizou uma filha do Lula, [...] para ganhar em 89. E o Collor ganhou. Agora, a turma da Dilma está fazendo a mesma coisa, pegando minha filha”.
Serra está atrás nas pesquisas (pode nem ir ao segundo turno) e tenta sujar as eleições 2010. Se alguém fez cagada na Receita que se apure - antes das eleições, de preferência - para que se jogue luz sobre o fato. Se foi gente do PT ou a pedido do partido que se puna exemplarmente. Agora, não antecipe acusações para tentar ganhar votos e se fazer de vítima. A vítima aqui é o eleitor que fica confuso em meio a porcas informações desencontradas às vésperas do pleito. Se as informações fiscais de Verônica foram acessadas, em setembro de 2009, pela analista tributária Lúcia Fátima Milan, que se investigue o fato de acordo com a lei vigente.
A mídia deu corda ao que disse Serra porque assim lhe interessa. E ninguém - tirando os amigos da blogosfera - o questiona. Sua verborragia e postura fazem mal a política. Fiquei, sinceramente, enojado ao nível em que chegou o candidato tucano. E olha que conheço gente bem próxima que diz que Serra é um grande democrata e gestor. Não nesse caso. Serra, cá entre nós, você sabe que exagerou. Sua filha Verônica não é a Lurian e nem Dilma é Collor.
Thiago Domenici é jornalista e anda decepcionado em acompanhar a política nacional (vide Tiririca e afins).
terça-feira, 24 de agosto de 2010
A travessura de Plínio
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| Plínio conseguiu romper o anonimato |
Plínio, Marina, Serra e Dilma aparecem com mais ou menos frequência na televisão, no rádio, nos jornais e nas revistas de grande circulação e impacto na opinião pública. Claro, a candidatura de cada um também é abordada com diferentes enfoques, dependendo da posição política e dos interesses de quem publica. Não é novidade para ninguém que os candidatos do PT e do PSDB são os favoritos da imprensa — estes mais do que aqueles.
Serra e Dilma estão na dianteira em todas as pesquisas de opinião e diariamente ganham manchetes país afora. Marina aparece em terceiro lugar nas intenções de voto e também na preferência dos jornalistas. O raciocínio segue com o representante do PSOL, em quarto, chamando muito pouca atenção dos holofotes. Há outros concorrentes, claro, mas a liberdade de imprensa vigente no Brasil não tem espaço para sua insignificância eleitoral.
Talvez pela distribuição desigual de atenções, Plínio de Arruda Sampaio é, de longe e de perto, o postulante ao Planalto que mais recorre ao Twitter. Depois vem Marina Silva, seguida por José Serra e Dilma Rousseff. O ranking dos presidenciáveis tuiteiros é exatamente oposto ao espaço que cada um deles — seja pela letra da Lei Eleitoral, seja pela vontade da imprensa — possui junto aos meios de comunicação.
Plínio está vidrado nesta (já não tão) nova ferramenta da internet. Antes da campanha deslanchar, já anunciava no YouTube sua adesão ao serviço gratuito que permite disseminar mensagens de até 140 caracteres diretamente a quem quiser ou puder lê-las. E lá se vão mais de duas mil, escritas de próprio punho ou pelos dedos da assessoria do PSOL. Os assuntos são variados. Plínio comenta os debates, reforça suas propostas de campanha, critica seus adversários e responde os internautas que lhe perguntam sobre tudo. Como só tem tempo de tuitar tarde da noite, batizou sua atividade internética noturna de Comando da Madrugada.
Tuitaço
Mas o grande feito do Plínio tuiteiro aconteceu no debate organizado em conjunto pelo jornal Folha de S. Paulo e pelo portal UOL. Foi o primeiro evento do tipo transmitido ao vivo pela rede. Ao contrário do que aconteceu na Bandeirantes e, mais recentemente, na TV católica Canção Nova, o candidato do PSOL simplesmente não foi convidado. Porém, marcou presença. Como? Pelo Twitter, oras. Plínio lançou mão da twitcam, uma ferramenta que permite ao tuiteiro tuitar, em tempo real, com voz e imagem, através de uma câmera instalada no computador. Como o debate da Folha/UOL se deu integralmente na internet, o candidato excluído se fez notar como um internauta qualquer que estivesse participando e interagindo com os debatedores oficiais.
Mas, claro, não se tratava de um internauta qualquer, e sim de um presidenciável. A travessura de Plínio, portanto, foi além.
“Para surpresa geral, o número de pessoas interagindo com o candidato do PSOL pela twitcam chegou a superar a quantidade de participantes das salas de bate-papo do debate Folha/UOL. O fato foi registrado pelos serviços de informação disponibilizados pela internet”, comenta o próprio candidato num artigo publicado na edição online da revista CartaCapital.
Empolgado, Plínio até criou um neologismo para resumir seu êxito cibernético contra o bloqueio dos grandes meios de comunicação: tuitaço.
Num país como o Brasil, em que a internet chega a apenas 50 e tantos por cento dos domicílios, o tuitaço de Plínio pode parecer empolgação barata de um candidato de um partido sem base social, que não tem a menor chance de vencer as eleições e que, exatamente por isso, se contenta em celebrar como grandes conquistas pequenos episódios isolados e sem maiores impactos no pleito de outubro.
Mas é importante levar em consideração o fato de que “nunca antes na história deste país” um candidato rotulado como nanico e com uma porcentagem sofrível de intenções de voto conseguiu impor sua participação, ainda que de forma paralela e extra-oficial, num debate presidencial. Até porque, antes do aparecimento das novas ferramentas da internet, Twitter entre elas, entrar de bicão no circo midiático eleitoral era tarefa impossível. O feito de Plínio foi ter reconduzido, ainda que timidamente, as ideias e posições políticas ao centro do debate, passando ao largo dos desígnios dos grandes meios de comunicação. Se o tuitaço teve mais audiência que o programa em si, é porque o candidato do PSOL tinha algo a dizer. E havia gente interessada em ouvi-lo.
A Folha e o UOL quiseram limar Plínio do debate que promoveram na internet e, além de não terem conseguido, não tiveram como detê-lo. Por isso, o presidenciável pode ter razão ao escrever que “as forças democráticas da nação precisam se debruçar sobre o fenômeno, porque ele pode representar um instrumento poderosíssimo para ajudar a reverter o sombrio panorama da política mundial neste inicio de século.”
É esperar (e agir) pra ver, levando em conta que o Plano Nacional de Banda Larga está prestes a arrancar e difundir um pouco mais a internet no Brasil.
Tadeu Breda é jornalista, colunista do NR e vive em Latitude Sul.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
Países-exemplo de Serra lideram produção mundial de drogas
Colômbia e Peru aparecem no topo da lista, mesmo sem fazer o “corpo mole” da Bolívia
Os países tidos como exemplo por José Serra no combate às drogas são os líderes mundiais no setor. Relatório a ser divulgado esta semana pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc, na sigla em inglês) irá mostrar a Colômbia no topo do ranking do cultivo de coca, seguida pelo Peru.
Alguns dados da Unodc são sempre alvo de dúvida pelo fato de setores da agência terem uma posição excessivamente pró-EUA, ou seja, de culpar os países nos quais as substâncias são produzidas e determinar que os mesmos tratem de reprimir a tudo e a todos. Mas, considerando que Peru e Colômbia são os países que seguiram à risca a cartilha do Departamento Antidrogas da Casa Branca, não me parece que esse estudo, especificamente, deva ser motivo de dúvida. De acordo com a agência, no geral houve recuo dos cultivos na Colômbia, e o Peru, a manter o ritmo atual, será líder nesta produção em não muito tempo.
São as duas nações que mais tiveram injeção de recursos da ONU e dos Estados Unidos neste setor. Talvez por concordarem com a ingerência externa, talvez por gostarem de repressão, são vistos como modelos pelo candidato do PSDB à Presidência da República. Pensemos em que modelo é este: a Colômbia tem dezenas de milhares de mortos graças aos conflitos entre paramilitares, guerrilhas e Exército. O paraEstado, esse gracioso Estado paralelo, continua existindo, como mostram escutas telefônicas que envolvem desde o mais baixo funcionário do atual governo até o presidente Álvaro Uribe, passando pelo eleito Juan Manuel Santos. Na Colômbia, liberdades de imprensa e de atividade laboral não são respeitadas. Sindicalistas que tentam denunciar abusos de poder e falta de democracia acabam assassinados, o mesmo valendo para indígenas e outras minorias.
Deslocamento sem erradicação
Ao que parece, quando se trata de drogas, José Serra não teve o cuidado de falar com Fernando Henrique Cardoso, de quem foi ministro da Saúde. FHC, lembro-me bem porque vi com estes olhos, afirmou há alguns meses que não adianta reprimir cultivo, pois ocorre o que se vê nas nações-modelo do ex-governador: deslocamento sem erradicação.
Serra, quando elogia a Colômbia falando que o país de Uribe não faz corpo mole contra o tráfico, presta uma triste homenagem a um povo extremamente sofrido. Apenas para não esquecer, estamos no mês dos refugiados. Outra agência da ONU, a Acnur, lembra-nos que a Colômbia tem a maior massa interna de deslocamentos. Se a memória não falha, algo como quatro milhões de colombianos viram-se obrigados a deixar seus lugares de origem por conta dos conflitos internos estimulados pelo paraEstado.
Ao mesmo tempo, o tucano mostra todo seu preconceito contra duas questões diferentes. Uma, a de acreditar que a Bolívia não é capaz de guiar seu próprio destino, devendo aceitar tudo aquilo que dizem os Estados Unidos. Outra, a de não entender que uma boa parte de produção de coca boliviana tem uso local, milenar, que nada tem a ver com tráfico internacional de drogas.
Serra, que segundo a Piauí Herald é especialista em trolologia, lembra-me a âncora da emissora de TV Fox News que ficou espantada ao descobrir que “o ditador” da Bolívia masca folhas de cacau (dá pra lincar o Oliver Stone). Talvez a candidata do PV, Marina Silva, tenha entendido qual o sentido da fala do opositor: "Tenho dúvidas, se talvez o governo da Bolívia fosse outro que não do Evo, um índio, se isso seria dito com tanta naturalidade. É apenas uma dúvida.” Alguém duvida?
PS 1: lamentavelmente, a candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, tampouco tem demonstrado estar à altura de um bom debate sobre drogas. Tem partido sempre para o lado da repressão, que rende mais votos entre os setores assustadiços da sociedade, sem levar em conta os aspectos socioculturais que envolvem um tema muito mais complexo que cassetete e internação. Desconheço as propostas de Marina para o setor.
PS 2: estou a tentar entender a aparição de José Serra no SPTV de terça-feira (22). Se o jornal é regional, por que um candidato ao Planalto precisa aparecer falando de suas propostas para a saúde, por que precisa ir a uma inauguração de um projeto do governo do estado ao qual não pertence? Ou se fala de todos os candidatos, ou não se fala. Se o critério obscuro é mostrar candidatos paulistas, posso me lembrar de ao menos outros dois que são deste estado. Se o critério é colocar trololólogos para falar, posso me lembrar de uns duzentos numa área de cinco quilômetros. Lá vem a emissora de Marinho, outra vez com trololices. Se formos trolos, seremos novamente trololados.
João Peres é jornalista e colunista do Nota de Rodapé
segunda-feira, 21 de junho de 2010
No limite da irresponsabilidade
Há qualquer coisa de sinistro na figura do candidato José Serra. Não digo isso com qualquer intenção de atacar gratuitamente um candidato à presidência da República, nem para fazer coro com os que, com ou sem razão, tentam desprestigiá-lo. Devo confessar que nunca prestei muita atenção ao homem público José Serra, mas desde que ficou evidente a sua obstinação em ser um dia presidente do Brasil, obstinação cada vez mais acentuada nos últimos anos, tornou-se impossível não acompanhar algumas das suas falas, das suas atitudes ou mesmo de seus atos como administrador. É o mínimo que um eleitor pode e deve fazer.
O fato de um dia ter sido considerado um homem de esquerda e hoje construir o seu discurso mais ao gosto do conservadorismo de vários matizes não é o que mais impressiona. A História está cheia de exemplos de pessoas que passaram de um extremo ao outro no arco da ideologia e de sua representação em termos de política partidária. Temos no Brasil dois exemplos emblemáticos dessa migração de ideias ou de ideais, para ser mais preciso: Carlos Lacerda e Dom Helder Câmara.
Não. O que verdadeiramente impressiona e chama a atenção no atual candidato do PSDB à presidência, nesses últimos oito anos, pelo menos, é a dissintonia existente entre o que fala, como age e o que faz com os cargos políticos que ocupa ou aspira. Inventa dados (algumas entrevistas sobre economia), distorce fatos (entrevistas sobre enchentes em São Paulo), acusa sem provas (diz que o governo da Bolívia facilita o envio de cocaína para o Brasil), mente (sobre completar o mandato na prefeitura de São Paulo), age às escondidas (os blogs de baixaria contra a candidatura de ministra Dilma Roussef) e – o que me parece bem grave – quando confrontado com um dado concreto da realidade, como a epidemia da gripe suína, por exemplo, faz categóricas afirmações destituídas de um mínimo de conhecimento sobre o qual foi questionado, beirando ao ridículo. (Serra afirmou em entrevista que para se evitar a gripe suína bastaria a pessoa não ter contato muito próximo com os porquinhos)
A tal ponto José Serra vai se enveredando por um caminho político tortuoso, que já é possível identificar aqui e ali alguns sintomas do seu destempero. Um jornalista equilibrado como Luiz Nassif assim se expressou recentemente em seu blog: “Serra tem um monte de defeitos, mas o que anda dizendo não bate com seu histórico. Sempre foi um sujeito cartesiano, dono da boa opinião. Por tal, entenda-se a capacidade de assimilar conceitos inovadores divulgados pela mídia. Nunca foi de se aprofundar em nenhum tema, de assimilar nenhum conceito mais complexo – não por falta de capacidade, mas de gosto. Fora os temas das contas públicas – para os quais tem dois excelentes professores, o José Roberto Afonso e o Mauro Ricardo e de comércio exterior – não se conhece uma área em que tenha aprofundado os estudos. Mas o que anda dizendo, o linguajar chulo, as bobagens diplomáticas não batem com seu histórico de sujeito racional.”
Mais prudência
Nassif é um homem educado, vê-se logo. Deve saber muito bem o que está falando nas linhas e nas entrelinhas. O assessor presidencial Marco Aurélio Garcia afirmou ainda que Serra "deveria ser mais prudente" em suas declarações, que não são compatíveis com as suas "aspirações" ao cargo de presidente.
Colocado no palco da disputa eleitoral mais importante da sua vida, o que não é segredo para ninguém, a impressão que fica é a de que José Serra tem mais ambição do que competência. Tem mais vontade do que discernimento. Não é um homem preparado para a função que almeja, ao contrário do que prega. E aqui volto à abertura do artigo, o lado sinistro de Serra. Por quê toda essa obsessão em fazer uma coisa para a qual não está preparado. O que Serra pensa? Qual sua visão do mundo atual? Qual seu programa de governo? Perguntas simples, mas que cada vez mais se tornam difíceis de serem respondidas pelo candidato da oposição.
José Serra parou no tempo. Vive, para dizer o menos, nos anos 80 e não percebeu que o mundo mudou de século. Que o Brasil mudou de norte. Que a vida se faz com alegria e entrega, com solidariedade, e não com acusações e cara amarrada. Com respeito e não com inveja. Serra representa um retrocesso perigoso para um país que, a duras penas, vai tentando organizar sua economia e aplicar melhor seus recursos em programas sociais. Quem insiste em não enxergar esse quadro, como Serra, está no limite do suicídio político, pois não distingue a realidade dos seus desejos interiores.
Izaías Almada é escritor, dramaturgo e colunista do Nota de Rodapé
O fato de um dia ter sido considerado um homem de esquerda e hoje construir o seu discurso mais ao gosto do conservadorismo de vários matizes não é o que mais impressiona. A História está cheia de exemplos de pessoas que passaram de um extremo ao outro no arco da ideologia e de sua representação em termos de política partidária. Temos no Brasil dois exemplos emblemáticos dessa migração de ideias ou de ideais, para ser mais preciso: Carlos Lacerda e Dom Helder Câmara.
Não. O que verdadeiramente impressiona e chama a atenção no atual candidato do PSDB à presidência, nesses últimos oito anos, pelo menos, é a dissintonia existente entre o que fala, como age e o que faz com os cargos políticos que ocupa ou aspira. Inventa dados (algumas entrevistas sobre economia), distorce fatos (entrevistas sobre enchentes em São Paulo), acusa sem provas (diz que o governo da Bolívia facilita o envio de cocaína para o Brasil), mente (sobre completar o mandato na prefeitura de São Paulo), age às escondidas (os blogs de baixaria contra a candidatura de ministra Dilma Roussef) e – o que me parece bem grave – quando confrontado com um dado concreto da realidade, como a epidemia da gripe suína, por exemplo, faz categóricas afirmações destituídas de um mínimo de conhecimento sobre o qual foi questionado, beirando ao ridículo. (Serra afirmou em entrevista que para se evitar a gripe suína bastaria a pessoa não ter contato muito próximo com os porquinhos)
A tal ponto José Serra vai se enveredando por um caminho político tortuoso, que já é possível identificar aqui e ali alguns sintomas do seu destempero. Um jornalista equilibrado como Luiz Nassif assim se expressou recentemente em seu blog: “Serra tem um monte de defeitos, mas o que anda dizendo não bate com seu histórico. Sempre foi um sujeito cartesiano, dono da boa opinião. Por tal, entenda-se a capacidade de assimilar conceitos inovadores divulgados pela mídia. Nunca foi de se aprofundar em nenhum tema, de assimilar nenhum conceito mais complexo – não por falta de capacidade, mas de gosto. Fora os temas das contas públicas – para os quais tem dois excelentes professores, o José Roberto Afonso e o Mauro Ricardo e de comércio exterior – não se conhece uma área em que tenha aprofundado os estudos. Mas o que anda dizendo, o linguajar chulo, as bobagens diplomáticas não batem com seu histórico de sujeito racional.”
Mais prudência
Nassif é um homem educado, vê-se logo. Deve saber muito bem o que está falando nas linhas e nas entrelinhas. O assessor presidencial Marco Aurélio Garcia afirmou ainda que Serra "deveria ser mais prudente" em suas declarações, que não são compatíveis com as suas "aspirações" ao cargo de presidente.
Colocado no palco da disputa eleitoral mais importante da sua vida, o que não é segredo para ninguém, a impressão que fica é a de que José Serra tem mais ambição do que competência. Tem mais vontade do que discernimento. Não é um homem preparado para a função que almeja, ao contrário do que prega. E aqui volto à abertura do artigo, o lado sinistro de Serra. Por quê toda essa obsessão em fazer uma coisa para a qual não está preparado. O que Serra pensa? Qual sua visão do mundo atual? Qual seu programa de governo? Perguntas simples, mas que cada vez mais se tornam difíceis de serem respondidas pelo candidato da oposição.
José Serra parou no tempo. Vive, para dizer o menos, nos anos 80 e não percebeu que o mundo mudou de século. Que o Brasil mudou de norte. Que a vida se faz com alegria e entrega, com solidariedade, e não com acusações e cara amarrada. Com respeito e não com inveja. Serra representa um retrocesso perigoso para um país que, a duras penas, vai tentando organizar sua economia e aplicar melhor seus recursos em programas sociais. Quem insiste em não enxergar esse quadro, como Serra, está no limite do suicídio político, pois não distingue a realidade dos seus desejos interiores.
Izaías Almada é escritor, dramaturgo e colunista do Nota de Rodapé
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