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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Qual classe média, presidenta?

 Geraldo e Dilma em evento na semana passada em SP
A afirmação feita por Dilma Rousseff na última semana em São Paulo é sintetizadora da visão que a presidenta vem expondo ao longo de pouco mais de um ano de mandato.

“Queremos um país com pessoas ricas e prósperas, mas principalmente um país de classe média. E ninguém é classe média se não tiver sua casa. Ninguém”, afirmou ao lado do amigo tucano Geraldo Alckmin durante assinatura de convênio para o programa Minha Casa, Minha Vida 2.

A frase mostra que a presidenta, a exemplo dos caciques do PSDB, confunde cidadania com consumo, conceitos nada parecidos. Não há problema algum na intenção de compra da casa própria, e é algo economicamente estimulado em uma cidade como São Paulo, em que o valor do aluguel pode superar o valor da parcela do financiamento imobiliário.

Mas daí a achar que se trata de um pré-requisito para ingressar na classe média guarda-se uma distância. Ser classe média, no caso brasileiro, deveria significar a garantia financeira de cumprimento das funções básicas (alimentação, vestuário) e o acesso aos serviços públicos fundamentais (saúde, educação, transporte). Dilma, porém, parece nutrir uma visão não muito diferente da patética classe média resumida na música feita em 2006 por Max Gonzaga.
“Sou classe média
Compro roupa e gasolina no cartão
Odeio coletivos
E vou de carro que comprei a prestação”
Em vez de valorizar propostas coletivas de construção da cidadania, Dilma parece preferir iniciativas galgadas na conquista individual, estimulando ao crescimento da massa trancafiada em seus automóveis nas grandes cidades e em condomínios cercados em todas as demais.

Obviamente, não se trata de desprezar realizações do primeiro ano do novo mandato, ainda que poucas e, em geral, de continuidade e melhoria da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva.

Nesta linha de pensamento, e de novo próxima ao ideário tucano, Dilma prioriza as liberdades individuais às liberdades coletivas, o que explica o veto ao kit contra homofobia produzido pelo Ministério da Educação.

"Não aceito propaganda de opções sexuais. Não podemos intervir na vida privada das pessoas" foi a infeliz afirmação feita à ocasião, submetendo o dever do Estado de combater o preconceito ao “direito” individual de ser homofóbico.

Com um balanço assim, difícil imaginar que Dilma queira avançar na regulação da comunicação. Até hoje evitou posição clara sobre o assunto. Nas poucas vezes em que comentou indiretamente a questão, no entanto, deu a entender que só gosta do controle remoto, abrindo mão do papel do Estado de regular um setor que descumpre quatro artigos da Constituição. Haja equívoco.

João Peres, jornalista, mantém a coluna mensal Extremo Ocidente no NR

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Estadão, boo!

Estadão, que reescreve diariamente a história do Brasil, assusta-se com revisão da história argentina

Não deveria causar espanto a notícia de que a presidenta da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, criou um instituto para revisar a história do país. Primeiro porque não é novidade. Segundo porque é necessário para dar a genocidas o lugar que lhes reserva a história: o de genocidas, e nada mais.

A notícia incomodou o jornal aristocrata O Estado de S. Paulo, a ponto de ao Instituto de Revisionismo Histórico Argentino e Iberoamericano dedicar uma reportagem e um editorial acusando a presidenta de querer “reescrever a história argentina”.

Os comandantes do diário paulista podem sofrer de inúmeros defeitos, mas sabem bastante bem a diferença entre “reescrever” e “revisar”. Reescrever ganha o contorno de manipular, mentir, distorcer, escrever sem rigor científico. Revisar, o verbo que figura oficialmente como motivo da nova entidade, é passar a limpo.

É digno de estranhamento que um jornal que se dedica diariamente a reescrever a história do Brasil se espante com a iniciativa argentina. Notório o caso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem o Estadão tenta constantemente acirrar com Dilma Rousseff, ignorando as seguidas declarações desta em favor daquele.

Exercício
constante

Passar a limpo deveria ser um exercício constante de uma sociedade, como a brasileira, que ora tenta passar a limpo o ocorrido durante a ditadura (1964-85).

Diz o decreto assinado esta semana por Cristina que a instituição terá o papel de “estudiar, investigar y difundir la vida y la obra de personalidades y circunstancias destacadas de nuestra historia que no han recibido el reconocimiento adecuado en un ámbito institucional de carácter académico, acorde con las rigurosas exigencias del saber científico”.

Evidente que não se coloca a mão no fogo por ninguém na política, menos ainda na política argentina. Não seria sensato atribuir à presidenta uma atitude desprovida de interesses, guiada unicamente pelo conhecimento da verdade e pelo resgate da memória.

O Instituto de Revisionismo Histórico não tem, claramente, a intenção de ser o reduto da neutralidade, simplesmente porque não se dá à ingenuidade de supor que possa haver tal elemento na historiografia ou em qualquer atividade humana, sempre guiada por um conjunto de valores intrínsecos que, por si, eliminam a possibilidade de uma visão neutra da realidade.

O decreto, novamente, não deixa dúvidas de que a finalidade da instituição “será el estudio, la ponderación y la enseñanza de la vida y obra de las personalidades de nuestra historia y de la Historia Iberoamericana, que obligan a revisar el lugar y el sentido que les fuera adjudicado por la historia oficial, escrita por los vencedores de las guerras civiles del siglo XIX”.

A presidenta enumera quais personalidades acredita estarem incluídas neste grupo, como Evita Perón e Juan Domingo Perón, José de San Martín e Hipólito Yrigoyen.

Mais que enaltecer o trabalho desta ou daquela figura, o instituto terá utilidade se contribuir para que se revisem os livros de história apresentados em colégios argentinos, ainda capazes de atribuir a Julio Argentino Roca, general e presidente da virada dos séculos XIX e XX, um papel positivo na chamada “conquista da Patagônia”. Q

ue a nota mais valiosa de um país – no caso, a de cem pesos – seja estampada por um genocida que matou 1.300 indígenas e fez 12 mil prisioneiros é algo que diz muito, que fala por si, e que precisa dar lugar a uma nova história.

É bem verdade que é preciso se preocupar com as falsificações da versão oficial. Foi a ladainha repetida ao longo de décadas que permitiu que o litígio com a Inglaterra no caso das Malvinas ocupasse uma reserva de luxo na política externa argentina.

Ao menor sinal de dificuldade, o governo de turno poderia apelar ao conflito com os ingleses ciente de que uma população adestrada durante meio século sobre o assunto lhes apoiaria, e foi isso que levou os militares, em 1982, a empreenderem um combate ensandecido que resultou na morte de argentinos e que lhes deu o tempo necessário para a pilhagem final do Estado.

Bem antes disso, representações cartográficas tendenciosas colocadas em livros escolares foram o mote para um acirramento das posições argentinas e chilenas em torno dos territórios ao Sul, que só não resultaram em guerras de grande gravidade para o continente por conta de negociações pontuais.

Estanislao Zeballos, por três vezes chanceler argentino entre os séculos XIX e XX, valeu-se de mapas fajutos na tentativa de levar ao conflito bélico – o ministro xenófobo e racista também tinha intenção de ocupar militarmente o Brasil, é bom que se lembre.

É destes vencedores que Cristina fala em seu decreto. O Estadão, barão do café, ruralista e aristocrata, vencedor desde o século XIX, tem muito a se arrepiar com a revisão da história. Caso o fizéssemos no Brasil, seria reservado ao jornal o lugar que lhe é de direito.

João Peres, jornalista, colunista do Nota de Rodapé e repórter da Rede Brasil Atual

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

CBF e AFA mantêm homenagem ao exterminador de indígenas

As seleções nacionais de futebol de Brasil e de Argentina disputam nos dias 14 e 28 de setembro a Copa Roca, torneio amistoso que, após mais de trinta anos de intervalo, volta a ser disputado. Para os saudosistas do futebol, um momento para relembrar grandes partidas. Para as sociedades das duas nações, um fato a ser lamentado.

Ainda que se intitule oficialmente o encontro como Superclássico das Américas, cartolas e jornalistas têm adotado o nome de Copa Roca.Nada contra o torneio. Que seja prazeroso o futebol jogado. Tudo contra seu nome.

É de se assustar que em tempos democráticos, e superadas parcialmente duas sanguinárias ditaduras, Brasil e Argentina se coloquem a render homenagem a Julio Argentino Roca, o General Roca, como gostava de ser chamado, ministro da Guerra responsável pela “colonização” do interior argentino, particularmente da Patagônia, em uma campanha que deixou 1.300 mortos e mais de doze mil prisioneiros.

Foi ao longo de dois meses, em 1879, que Roca realizou a campanha-relâmpago destinada a povoar com argentinos – indígenas eram outra sorte de gente, na cabeça dele – as secas e frias regiões.

Estavam em jogo duas questões. A primeira, de uma nação europeizada, de acabar com a incômoda presença de nativos. A segunda, central, era a disputa territorial com o Chile pelo direito às terras patagônicas. Baseavam-se as duas nações no antigo princípio do uti possi detis – uso, logo possuo –, o que fazia premente ter habitantes pátrios nestas regiões (do lado chileno, as vítimas foram os mapuche).

Grandona da AFA e Teixeira da CBF
“A meu ver, o melhor sistema de concluir (sic) com os índios, seja extinguindo-os ou jogando-os ao outro lado do Rio Negro, é o da guerra ofensiva (…) É necessário ir buscar o índio diretamente em sua morada, para submetê-lo ou expulsá-lo”, anotava Roca em correspondência reproduzida pelo jornalista Jorge Lanata no livro “Argentinos – quinientos años entre el cielo y el infierno”. Como prêmio, anos depois Roca ascendeu à presidência.

Obviamente, para o torcedor a Taça Roca nada tem a ver com o exterminador de indígenas, ligando-se à saudosa ideia de um futebol bem jogado e de uma rivalidade antiga. Tampouco seria de se esperar que os presidentes da CBF, Ricardo Teixeira, e da Associação de Futebol Argentino, Julio Humberto Grondona, tivessem qualquer cuidado histórico. Ainda que quisessem reconhecer a verdade sobre Roca, não é improvável que vissem com bons olhos uma atuação autoritária, haja visto as próprias gestões à frente das entidades que ocupam.

Mas as sociedades dos dois países deveriam estar preocupadas em garantir ao general o lugar que lhe cabe na história: o de genocida.

João Peres, jornalista, repórter da Rede Brasil Atual e colaborador do NR

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Cada vez mais patético

A cada dia do governo Dilma Rouselff, fica mais patético o patético vídeo pit bull da patética campanha do PSDB

Transcorridos 150 dias do governo Dilma Rousseff, a esquerda aguarda sentada por sinais de que os rumos mudarão. Enquanto isso, assiste de camarote ao avanço conservador no Palácio do Planalto. Comissão da Verdade e regulação da comunicação, consensos ocos de primeira hora, são tratados a banho maria.

A esta altura, o apocalíptico vídeo lançado “na miúda” pelo PSDB durante a campanha eleitoral de 2010 soa cada vez mais digno de gargalhadas. Se há ainda algum motivo para rir em relação ao governo Dilma, eis-lo. As imagens que mostravam que o presidente Lula não conseguiria segurar os pit bulls do PT, uma alusão aos “radicais” do partido, soam a cada dia mais patéticas.

Se àquela altura não havia motivo para acreditar na estapafúrdia hipótese, hoje a peça publicitária poderia ser refeita para mostrar que o difícil é segurar os exaltados do PMDB, do PR, do PTB, do PSC, do PDT e de tudo quanto é P, mais ou menos conservador, que integra a base aliada.

Colocado em posição incômoda pelos próprios erros, pelos erros do PT e pelo erro de acreditar na aliança com partidos que representam o que há de pior no país, Dilma vai desenhando um primeiro ano de gestão absolutamente conservador. Não faz falta falar sobre a decisão de privatizar aeroportos.

A essa altura, um vídeo igualmente patético que quisesse parecer verossímil poderia mostrar a presidenta rompendo com Lula, mas não para instalar o “autoritarismo de esquerda” no país, como queriam fazer crer os tucanos, e sim para reforçar a agenda ultraconservadora do PSDB, apenas parcialmente alijada do centro das propostas para o país durante o governo anterior.

No campo econômico, prevalece a ortodoxia, aceitando quase tudo quanto é imposto pelo mercado e pela imprensa comercial, em sua criminosa campanha a favor da inflação. No campo social, reafirma-se a crença na mitigação dos deletérios efeitos do capitalismo, como demonstrado no lançamento do Brasil Sem Miséria, em detrimento da construção de modelos alternativos baseados na economia solidária e na superação das contradições inerentes ao atual sistema.

Foi de assustar não apenas a decisão de vetar o kit para combater a homofobia nas escolas, mas a justificativa apresentada publicamente pela presidenta, por não achar correto “nenhum órgão do governo fazer propaganda de opções sexuais”, discurso é idêntico ao da bancada religiosa no Congresso, responsável direta pela suspensão do material elaborado pelo MEC.

O erro de utilizar “opções sexuais” no lugar de “orientações” apenas reforça aquilo que já se sabe, de que Dilma não tem histórico de debate junto a movimentos que batalham por conquistas sociais. Lula devia satisfações a estas organizações e aos sindicatos, inscritos em seu DNA. Dilma não deve explicações nem mesmo ao PT, do qual jamais foi um quadro forte, histórico ou simbólico.

Ainda na seara social, o governo atual diz não ao massacre de camponeses na Amazônia Legal, mas trabalha loucamente para iniciar as obras de hidrelétricas e rodovias que resultarão em mais desmatamento, levando a novos conflitos agrários e a novos assassinatos de populações marginalizadas.

Reafirma-se o poder de coronéis locais com os quais, aliás, esta e a anterior gestão não fizeram questão de romper, como demonstra o caso de José Sarney – apenas para ficar no exemplo mais óbvio.
Ainda a este respeito, soou desmedida e descuidada a reação às críticas feitas pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) sobre o processo de concessão das licenças para construção de Belo Monte.

A destacar-se a fala de Nelson Jobim, o ministro fardado, que pediu que a Organização dos Estados Americanos (OEA) vá cuidar de outros assuntos. Mais felizes as palavras de Frei Betto em entrevista a este repórter: “Se o Brasil está insatisfeito com o que seria uma ingerência da OEA em assuntos internos, siga o exemplo de Cuba: rompa. Agora, se o Brasil continua como signatário e membro da OEA, precisa respeitar as decisões da OEA.”

Preocupa também a postura do chanceler Antonio Patriota, que dá seguidas demonstrações de inclinação aos Estados Unidos e aos países ricos em geral, podendo deixar em segundo plano a tão bem sucedida política de Celso Amorim, que acertou em cheio ao priorizar a construção de relações mais sólidas dentro do Hemisfério Sul.

É curioso notar que Patriota, José Eduardo Cardozo, Gilberto Carvalho, Guido Mantega e Miriam Belchior, apenas para citar parte do núcleo central de ministros, falam todos a mesma língua. Afinar o discurso que será feito da porta para fora do Planalto pode ser acertado para evitar a lavagem de roupa suja por meio da imprensa, mas é irritante notar que Maria do Rosário e Jobim, no governo Dilma, às vezes parecem a mesma pessoa, o que – definitivamente – não são. Irrita ainda mais notar que o discurso uníssono se dá também em mão única: em direção aos conservadores. A esquerda, Dilma, aqui estamos, por vós esperamos.

João Peres é jornalista e colunista do Nota de Rodapé

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Argentina decadente, Brasil latente

Há um não-sei-que de Brasil de 1990 na Argentina de 2011; E mais: Cesar Maia vale-se de documentos coloniais para justificar sua visão colonialista. Estranho?

Lê-se na revista Sueños Compartidos, editada pelas Mães da Praça de Maio, que foi com Néstor Kirchner que a “Argentina encontrou seu verdadeiro lugar no mundo: a América Latina”. Há meias-verdades que a licença poética criada pela morte nos permite criar, penso eu, mas me permito discordar.
É certo dizer que o Pinguim, falecido em outubro último, aumentou a integração argentina com a América Latina, e aí está a União de Nações Sul-americanas (Unasul) para não nos deixar mentir. Mas a verdade é que os argentinos nos descobriram – os latino-americanos – um tempinho antes, e não foi exatamente um encontro romântico, algo como Evita-Juan Domingo. Quando a Argentina nos viu, após séculos de chamegos com a Europa, certamente não ronrronou “Ó, mi general” - mais justo com a história seria um “Mira, boludo, !que cagada! La puta que lo parió, che”.
Os argentinos, até então, sabiam da existência de uns certos sudacas – sudamericanos cagones –, mas ainda não haviam se dado conta de que dividiam conosco este cortiço, que enxergavam como um apartamento triplex com direito a vista pro mar. Foi nos anos 1990. Quem ainda não havia se dado conta dos efeitos da ditadura pré-neoliberal começou, enfim, a sentir os efeitos da pré-democracia neoliberal. Houve ainda retardatários, que só se deram conta quando a vaca já habitava o brejo, entre 2001 e 2002.
Andando pela Argentina dos dias de hoje, tenho a inevitável sensação de que este país tem um não-sei-que do Brasil de 1990. A falta de combustível nos postos simplesmente por alguma decisão estúpida e, nas filas, carros mais esfarelados que a zaga do último Mundial esperando que alguém lhes avise que é hora de parar. A falta de notas de dinheiro nos caixas eletrônicos porque, por algum motivo, o Banco Central não as imprimiu em quantidade suficiente. As moedas guardadas com um preciosismo impressionante, mais importantes que joias, raras que são por estas bandas, sabe Deus qual o motivo.

Poderia ter sido, mas não foi
A admiração pelo clássico de Buenos Aires, a lembrar-nos - aos brasileiros - nosso papel de demolidores de prédios históricos, já não se repete como antigamente. Tenho a impressão de que a capital vizinha, em algum momento dos últimos anos, deixou de ser clássica: é velha, anda desgastada (mas ainda linda, viva, vívida). Em documentário, Fernando “Pino” Solanas fala da Argentina Latente, daquela que poderia ter sido, mas não foi.
Até há pouco tempo, fazia sucesso falar do Brasil que não chegou a ser, que abortou. Uma das diferenças fundamentais entre as últimas duas décadas diz respeito a isso: autoestima. Os programas de humor dos 90 tinham como pressuposto básico de qualquer piada um país que jamais daria certo. Hoje, tirar sarro de algumas situações é mais que válido, mas o país como um todo se leva a sério, e é impopular menosprezá-lo – talvez isso explique porque o Casseta & Planeta se viu forçado a parar seu carrinho no “martelinho de ouro”.
Os argentinos, por outro lado, incorporaram com o dramatismo clássico a situação reversa, de baixa autoestima, a crença de que os problemas não têm solução. No caso deles, há uma diferença básica: a Argentina vem na trajetória de queda, há um passado semiglorioso a ser lamentado; no Brasil, a década de 1990 tinha como único significado a sequência de um grande embuste, estávamos apenas na manutenção daquilo que já vinha de há muito, tanto fazia estar fodido ou muito fodido.
Há, em boa parte dos argentinos, a sensação de que o subdesenvolvimento obtido graças a décadas de incansáveis trabalhos não vai embora – lembra como era sentir isso? Não que o nosso tenha ido embora, longe disso, mas pelo menos se pode acreditar que algum dia irá. Não é difícil recordar que, antes, dizer-se brasileiro era motivo de uma ponta de vergonha para muita gente. Nossa alteridade frente ao mundo todo se construía sobre o futebol: Pelé, Ronaldo: e nada mais. Agora, como ser brasileiro virou coisa fashion, até os ricos gostam de exibir umas notinhas de reais por aí. Inútil achar que 1990 e 2000-10 são a mesma coisa. A história é bem diferente.

Mascando coca com Cesar Maia
O artigo de Cesar Maia, ex-prefeito do Rio, na Folha do último sábado (5) é digno de nota (ou de choro?). Imbuído de excelentes intenções, o cacique do DEM vale-se de artigos de cronistas espanhóis dos tempos coloniais para desmerecer o uso da folha de coca pelos povos andinos, numa tentativa de simplificar a empreitada de Evo Morales pela despenalização do vegetal – não do pó. Entre outras coisas, cita passagem em que se fala sobre o uso constante da folha: "demônio, que é o inventor dos vícios, faz notável colheita de almas".
Quisesse realmente estudar o assunto, buscaria falar com os próprios andinos. Ou, caso não queira ir tão longe, pode buscar na internet estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS) feito na década de 1990 comprovando que nada há de mal no acullico, o ato de mascar coca pelos indígenas. Poderia também ler os relatos de outros cronistas espanhóis sobre outras substâncias, como o mate. Caso Maia desconheça, a substância também foi tida como maleva, demoníaca e coisa de vagabundos durante o século XVI – poucas décadas depois, transformada em monopólio dos jesuítas, seria desdemonizada. Ou será que o ex-prefeito conhece alguém que tome mate e saia por aí dando piruetas, correndo alucinadamente pela rua, dançando durante quinze horas numa balada? Fossem os franceses a mascar coca, Maia daria a mesma peitada?
A argumentação de Maia é tão válida quanto lançar mão de depoimento obtido sob tortura para montar o perfil, digamos, de uma presidente eleita. Isso, sabemos, não ocorrerá: só mesmo um jornal ditabroso seria capaz de atitude tão desonesta. No Brasil, em que temos uma mídia aberta, respeitosa e democrática, uma reportagem deste cunho está descartada.

João Peres é jornalista e colunista do Nota de Rodapé

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Dilma pode ter aprovação maior que a de Lula?

Um motivo para acreditar que sim, o bom senso. E outros motivos para apostar que não, não pode

Seu estilo discreto é fruto de Marketing como supõe a Folha
de S.Paulo? Ou são características pessoais?
Ao fim do primeiro mês de governo Dilma Rousseff, restam mais perguntas que respostas – normal. Diz a regra, ditada não se sabe por quem, que há que esperar os primeiros cem dias para uma avaliação mais profunda. Ao fim do primeiro ano, será possível saber com um pouco menos de imprecisão se Dilma tem condições de realizar o improvável: ter mais popularidade do que Lula.
Este é um campo em que há apenas duas possibilidades: sim e não, e o divertido é começar pelo insensato. Sim, Dilma pode ter aprovação maior que a de Lula. Se há uma questão que ficou clara nestas primeiras semanas, trata-se do estilo Dilma de governar. O viés mais discreto, com menos aparições públicas, tem o poder de agradar aos famosos 3% que viam o governo Lula como “ruim/péssimo” e mesmo aos 13% que aceitaram, de malgrado, engolir a gestão anterior como “regular”.
Pouco importa se o estilo discreto é fruto de marketing, como supõe a Folha de S. Paulo, ou de características pessoais, como supõe o bom senso. A bem da verdade, já que ora se fala neste assunto, Dilma parece gostar de falar pelas entrelinhas: foi a ato contra o Holocausto em Porto Alegre e fez questão de se reunir com as Mães da Praça de Maio em Buenos Aires.
É importante lembrar que, entre os que desaprovavam Lula, há uma dose nada desprezível – ou muito desprezível? – de preconceito. Gente que “teve” de aguentar durante oito anos o estilo nordestino-sindicalista de Lula está a admirar o estilo gaúcho-técnico da presidenta. A mídia brasileira, em nossa fábula da vida política, deu a Dilma o papel da pessoa séria e rigorosa, dois atributos deveras valorizados pelas classes médias e altas que tanto odiavam a Lula. O gaúcho foi o mais próximo que chegamos da Europa, que saudades da Europa, com seu lenço no pescoço, o semblante fechado e o vinho no lugar da cerveja. O rigoroso é a incorporação do trabalho duro, sem espaço para desvios de conduta, bem diferente da “república sindicalista” de Lulla – sim, eles adoram lembrar de Collor.
Mostras desse segundo atributo foram dadas neste primeiro mês, com a condenação aos problemas de direitos humanos no Irã e em Cuba, a demora em receber as centrais sindicais e a ordem para cortar geral no Orçamento, temas com grande poder de penetração no cérebro modelo Jornal Nacional das classes médias e altas. Os governos iraniano e cubano são, para o clube dos 3%, o exemplo do que há de pior no mundo, e com os quais Lula foi “conivente”. As “torneiras abertas” dos cofres públicos e o mundo sindical caem como uma luva no imaginário autoflagelador dos ricos brasileiros, sempre queixosos da alta carga tributária e das classes políticas, assim genericamente denominadas.

De boatos e silêncios
Por tudo isso, Dilma poderia angariar uma popularidade altíssima e reaproximar o PT das classes médias, levando-o a um êxito maior nas eleições municipais de 2012. Ocorre que é improvável que se consiga ganhar de um lado sem perder de outro, e aí vem a análise menos divertida da situação geral. A primeira questão é óbvia: contraria a lógica que alguém possa obter mais aprovação que o presidente mais popular de que se tem notícia.
Depois disso, o estilo discreto de Dilma, se agrada os outrora “reprovantes”, pode ser lido como um silêncio incômodo sob o olhar de parte dos eleitores do novo governo. A presidenta sabe, ou poderia ter aprendido com o primeiro turno das eleições, que o boato prospera principalmente onde há silêncio e incerteza. É aí que podem ser plantadas notícias, caírem ministros e, mais que nada, serem criados imensos mal-entendidos.
Imagina-se que Dilma virá a público mais vezes após esta fase inicial de montagem de gabinete e rateio de cargos, e parece necessário que o faça para não permitir que acabe falando pela boca de terceiros. Há dubiedade, até agora, sobre a real intenção do governo em relação a pontos tidos como fundamentais por apoiadores mais “ideológicos”, como o marco regulatório das comunicações e a criação da Comissão da Verdade. Dilma sabe que, para seguir em frente nestes dois assuntos, vai comprar brigas exatamente com o piso de cima da sociedade, e até mesmo com os estratos de baixo influenciados pelos setores conservadores da imprensa. Será preciso esperar os cem dias, e talvez mais, para saber se vai ou não aceitar essas pelejas – e se sua arma será a peixeira ou a boleadeira.

 João Peres é jornalista, colunista do Nota de Rodapé

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Aeroportos: frases que vamos ouvir nos próximos dias

Galeão Cumbica:
"No aaaaaaaaaaar!"
"Atenção passageiros
com destino a
....
Portadores de ficha da cor
..,
especifiqueeeeeeee!!!
Prepara-se para quinta-feira (23), no mais tardar sexta (24), uma “crise” nos aeroportos brasileiros. A notícia de que haverá greve dos aeroviários coloca setores da grande imprensa de cabelo em pé. Pouco atentos ao caos do metrô de São Paulo ou aos ônibus mais escassos e mais lotados que nos brinda a administração paulistana, os colegas jornalistas insistem em se fazer porta-vozes da classe média – para se aprofundar nesse tema, sugiro leitura de texto escrito no meio deste ano.
O fato é que o noticiário dos próximos dias, a se confirmarem os atrasos nos voos, estará recheado de frases deliciosas sobre impostos e direito de ir e vir. Decidi não ficar de fora do movimento: pedi dispensa do trabalho e, na quinta-feira, darei minha contribuição ao Jornal Nacional. Vou vestir uma camisa pólo simuladamente comprada nas últimas férias em Miami, pedirei ao camelô que me venda a melhor imitação de óculos de sol marca “Classe Alta”, e irei para Congonhas – porque Cumbica é muito longe, um horror, tem de atravessar a zona leste toda, Congonhas é muito mais chique.
Ainda preciso ver se algum parente permite que leve uma criança para tornar a situação mais real. Acompanhado de uma mulher maquiada como se fosse ao baile de gala, com vestido longo e tudo o mais a que se tem direito, entrarei na frente da câmera da Globo disposto a ganhar destaque nas manchetes do JN. Imaginem a escalada da noite de quinta-feira:

William Bonner: Caos nos aeroportos
Fátima Bernardes: Atrasos e cancelamentos transformam em um inferno a vida dos brasileiros

Entra minha fala – sempre entremeando momentos de fúria e de total descontrole, aos prantos. “Eu só quero viajar. Quero o direito de minha família de viajar” - essa é a parte da fúria. “Meu Deus, eu paguei impostos o ano inteiro, trabalhei, e agora não tenho o direito de levar minha família para descansar na Europa?” - essa é a parte do choro, à qual se segue uma cena tatu-bola, que é aquela em que um adulto rola no saguão do aeroporto feito criancinha, chorando muito e clamando por uma solução. Enfim, terei dado minha contribuição ao noticiário da classe média e, de quebra, serei famoso. Um dia incrível.

PS: para boa parte dos que estarão nos aeroportos, será um dia de muita alegria, com o primeiro voo de suas vidas. A eles, a todos, uma boa viagem.

João Peres é jornalista e colunista do Nota de Rodapé

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Retrospectivas: escolha o texto piegas que será dispensado aos mineiros chilenos

Dezembro trará consigo as retrospectivas na televisão. Via de regra, textos dinâmicos recheados de lugares-comuns farão conexões improváveis entre os fatos, numa torrente de informações que destina 15 segundos a cada tema.
Os assuntos considerados importantes ganham 30 segundos. Como me cabe no Nota de Rodapé falar também de América Latina, seguramente o resgate dos mineiros chilenos figurará entre estes temas. Vale se antecipar, ludicamente, sobre qual a característica coletiva que será mais exaltada no texto piegas destinado a este reality show mais reality do que se poderia desejar. Quem quiser arriscar um palpite, que fique à vontade:

1. Solidariedade (“A solidariedade foi a chave para que os mineiros chilenos sobrevivessem às dificuldades 600 metros abaixo do solo”);
2. Coragem (“Os mineiros chilenos foram uma prova de que a coragem vence as barreiras mais difíceis, como a vida durante mais de um mês em um buraco 600 metros abaixo do solo”);
3. Superação (“A superação dos mineiros chilenos foi uma inspiração para o mundo todo, que acompanhou atônito, em silêncio, a um resgate dramático");
4. Persistência (“Durante mais de 30 dias, os mineiros chilenos deram uma aula de persistência, sobrevivendo com pouca água e pouca comida às terríveis dificuldades).

Por último, alguém se lembrará que, antes de heróis, os mineiros chilenos são vítimas de uma legislação trabalhista flexibilizada pelo ideário neoliberal? Terá, alguma das retrospectivas, a preocupação em mostrar o estado atual dos mineiros, alguns com problemas psicológicos decorrentes da vida no buraco e da superexposição a que foram submetidos após a saída?

João Peres é jornalista, colunista do NR e repórter da Rede Brasil Atual

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Eleições, direto de Brasília

A avaliação de vários setores da base aliada é de que a campanha de boataria foi decisiva para levar a campanha ao segundo turno. Durante encontro em Brasília, perguntei ao deputado federal José Eduardo Cardozo, um dos coordenadores da campanha de Dilma Rousseff (PT), sobre o papel de parte da imprensa na disseminação de tais boatos, em especial sobre o aborto.

- Sempre defendemos a imprensa livre. Cabe ao leitor, ou ao telespectador, ou ao ouvinte, julgar a forma como cada veículo se comporta. Esse não é um julgamento que deve ser feito por nós – foi a resposta do deputado. Bastante diplomática.

Ciro Gomes, muito menos poupador de palavras, considera que é preciso mostrar a cada brasileiro qual a posição ideológica dos veículos. O deputado, agora integrado à campanha de Dilma, entende que faz parte da vida democrática que a Veja possa existir e se manifestar livremente, mas pondera que deve ficar clara a posição reacionária do veículo da editora Abril.

- Que a Veja tenha longa vida, mas que todos fiquem sabendo que a Veja não é uma observadora neutra da vida brasileira: ela está a serviço dos interesses internacionais, da privataria, da escória brasileira. Isso sempre foi – respondeu à questão que apresentei sobre o papel de Veja no primeiro turno. A conversa na íntegra está publicada na página da Rede Brasil Atual.

Imprensa Candanga
Muita gente da imprensa candanga ficou eufórica no domingo ao descobrir que haveria segundo turno. Enrolados na bandeira azul e amarela, esses representantes da democracia circulam pela capital federal com um microfone na mão e algumas ideias, próprias ou não, na cabeça. Uma delas, claro, é fazer com que aves da fauna nacional voltem a frequentar o Planalto.
Quando chegou a uma reunião da base aliada, o senador eleito Roberto Requião (PMDB-PR) foi questionado se o Senado não ficaria governista demais a partir de 2011.

- E como você queria o Senado? – assustou-se o ex-governador.
- Equilibrado. E-QUI-LI-BRA-DO – vociferou uma outra representante do jornalismo embandeirado.

Entendi tudo: a festa da democracia, tão propalada por alguns veículos, só é boa quando serve à manutenção de certos interesses. Se os vencedores forem os outros, há risco à ordem institucional, concentração de poder, personalismo político. E, claro, a democracia brasileira é frágil, está por um fio... Ah, como sofre essa gente.

A Globo da Argentina
Só pra concluir, uma rápida da Argentina, mas que tem tudo a ver com o Brasil. Os jornais brasileiros de grande (ou média, com viés de baixa) circulação nesta quinta-feira comemoram o veto apresentado pela Corte Suprema da Argentina à Ley de Medios, que visa à democratização da comunicação no país vizinho.
Os jornais daqui entenderam, ou quiseram entender, que a Corte avaliou que o Clarín, a Globo de lá, não precisa vender parte de suas concessões de rádio e de TV, uma medida prevista para desconcentrar o poder dos veículos de comunicação. Não é bem assim. Os ministros da Corte pontuaram que não podem se posicionar sobre o prazo da medida cautelar apresentada pelo Clarín, que entende que não poderia cumprir essa venda em um ano, como previa o prazo inicial. Em essência, o grupo mais poderoso da comunicação argentina terá de se livrar, sim, de suas concessões. Apenas o que não se tem, neste momento, é o prazo para que isso ocorra.

João Peres é jornalista e colunista do NR

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

É fato: somos parte da República Unida da Soja


Brasil, Argentina e Paraguai: 130 milhões de tonelada
Um estudo divulgado pela ONG Repórter Brasil em parceria com a Base Investigaciones Sociales confirma: a República Unida da Soja está consolidada. “Os impactos socioambientais da soja no Paraguai – 2010” é um daqueles materiais para serem guardados com carinho.
Este ano, Brasil, Argentina e Paraguai devem colher, juntos, 130 milhões de toneladas de soja, pouco mais da metade do total mundial. Como lembra a Repórter Brasil, há algumas explicações para a rápida expansão experimentada nestes lugares: clima, desenvolvimento de variedades locais e presença de cultura agropecuária.
Há um fator, no entanto, que está acima, bem acima dos demais. E aqui não é o estudo que diz, mas me permito a liberdade de dizer. As grandes empresas de biotecnologia, em um rasgo de sinceridade de um de seus altos executivos, confessaram a real intenção que têm para a região formada por Argentina, Paraguai, Brasil e Bolívia: um cinturão apelidado carinhosamente de República Unida da Soja.
É sempre bom relembrar como a soja transgênica entrou nestes locais. Depois de conseguir ingresso na Argentina, as empresas conseguiram, por meio de promessas a produtores, inserir as sementes geneticamente modificadas no Brasil – veja bem, foram contrabandeadas.
O governo Lula, ao constatar a situação, em vez de dar um basta por ali resolveu editar Medida Provisória para assegurar a acolhida da soja transgênica, num episódio que por pouco não antecipou em muito a saída de Marina Silva do Ministério do Meio Ambiente. Depois disso, as sementes foram viajando ao Paraguai, país no qual, obviamente, contou com todas as benesses. E eis que se formou nossa republiqueta sojicultora. Segundo dados de 2006 do IBGE, naquele momento a soja transgênica já respondia por 46% da produção nacional do grão – não por coincidência, o Brasil é atualmente o maior consumidor de agrotóxicos do mundo.
Há algumas perguntas, mas as respostas ficam para outro dia. Quanto a produção de soja, aliada à cana-de-açúcar do etanol, prejudica a produção de alimentos? Quanto aumenta a concentração de terras? Quanto diminui em termos de soberania alimentar da região? Há uma série de variáveis que ora, por falta de tempo, ficam pra depois.

No Paraguai
Ainda no Paraguai, a oposição arrumou uma nova desculpa para derrubar Fernando Lugo. Agora, dizem que o presidente, atualmente em tratamento por um câncer linfático, não tem condições de seguir. Antes, o argumento era de que o governo tinha desempenho fraco. É interessante levar em conta a relação histórica entre os produtores rurais, principalmente os brasileiros, e a oposição paraguaia – que foi situação durante quase um século inteiro.

Mimo a Colômbia

Os Estados Unidos liberaram a última parcela anual do Plano Colômbia. O Departamento de Estado de Hillary Clinton achou que o país sul-americano cumpriu direitinho as recomendações e avançou na política de direitos humanos. Agora, o governo de Manuel Santos terá direito a mais US$ 30 milhões. O México, que seguiu a mesma receita proposta pelos Estados Unidos nas últimas N décadas, estuda agora assinar seu próprio Plano Colômbia em meio a uma enorme onda de violência. Que beleza: país soberano é outra coisa.

Marina soltinha
Lamentável a afirmação de Marina Silva sobre o Irã. Não se sabe se terá se sentido impulsionada por Carlos Nascimento, que havia chamado o MST de tudo quanto é nome, mas o fato é que se soltou na bancada do Jornal do SBT. Insultou parte de seu próprio passado ao afirmar que o Irã quer produzir a bomba atômica. Como, na visão da candidata, o país asiático não tem democracia, ela não se relacionaria com Mahmoud Ahmadinejad. Com quais outros teria de cortar os laços? Guantánamo é motivo suficiente neste caso?

João Peres é jornalista e colunista do NR

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Morre Fogwill, o que escreveu seu melhor livro em seis dias e doze gramas

Rodolfo Enrique Fogwill (1941-2010)

O dia 22 de agosto começou com um ritmo estranho. Recebi do amigo Juan Morris, de Buenos Aires, uma informação inesperada: “Hoy se murió Fogwill. Un día negro para la literatura argentina.” Assim, como uma linha perdida no meio de um email, a morte de Rodolfo Enrique Fogwill (1941-2010) tornou-se ainda mais estranha. Não esperava, ainda que o ritmo de vida de Fogwill sempre o deixasse na lista dos que podiam passar dessa pra melhor de hora pra outra – informam os jornais argentinos que a morte foi provocada pelo cigarro.
Fogwill, bem titulou o Clarín, era o “último maldito” da literatura do país vizinho. Sem pudores, sem papas na língua, sem freios em sua literatura. Há alguns meses, andei apressadamente por livrarias de Buenos Aires em busca de Los pichiciegos, livro que, dizem, é sua obra-prima: não encontrei. Trata-se de uma narrativa sobre a Guerra das Malvinas escrita em seis dias e doze gramas de cocaína. Foi na loucura da droga que Fogwill, que durante muito tempo ganhou a vida como publicitário, fez-se escritor – nem por isso, diga-se de passagem, sentiu-se na condição de recomendar o uso de cocaína.
Li recentemente um perfil que agora, para minha tristeza, não consigo recordar qual foi o veículo que publicou – caso o encontrasse, teria prazer em dividi-lo com os amigos deste blogue. Na entrevista, Fogwill mostra como seguia seu ritmo intenso, como estava ranzinza com a literatura que anda se fazendo, como passava confusamente de um tema a outro, até se cansar do repórter e trocá-lo por outro que estava à espera.
Descobri o incrível talento de Fogwill em Vivir afuera, obra sobre a vida dos moradores da periferia de Buenos Aires em meio à decadência do país. No livro, a cocaína passa do autor aos personagens, entorpecidos pelo cotidiano. Três histórias de duas duplas (ou seriam casais?) se desenvolvem separadamente, mas o leitor sabe que haverão de se cruzar. Um retrato excelente de um momento da história latino-americana.
Procurando na página do jornal Perfil, do qual Fogwill era colunista, encontro uma coluna de março, uma das últimas, que trata de um poema irlandês. Parece adequado para o momento. “Sé que la muerte me encontrará en algún lugar entre las nubes. No odio a quienes combato, y a quienes defiendo no los amo. Mi patria es Kiltartan, mi comarca de Irlanda. Mis compatriotas son los pobres de Kiltartan. Ningún desenlace podrá derrotarlos. Tampoco los hará más felices que antes. No hay deber, ley, líder, ni multitudes que me muevan a pelear: sólo un impulso por placer me trajo a este tumulto entre las nubes. Calculé todo, fui consciente de todo. El futuro no valía la pena, mi pasado tampoco. En armonía con esta vida, esta muerte.” Somente um impulso por prazer deve ter levado Fogiwll a este tumulto entre as nuvens.

João Peres é jornalista e colunista do NR

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Recuerdo de la muerte


Já que me aventurei pela seara literária, eis mais uma indicação. Recuerdo de la muerte é um excelente livro do jornalista e político argentino Miguel Bonasso. Escrito na reta final da última ditadura militar argentina (1976-83), é um retrato fenomenalmente detalhado de um aspecto específico daquele regime.
O centro da narrativa é a história de Jaime Dri, militante político dos Montoneros, grupo peronista, nacionalista e tão complicado quanto qualquer aspecto da vivência política argentina. Dri, ou Pelado, descobre uma faceta ensandecedora da ditadura ao ser raptado pelos militares: os chupados, ou seja, os militantes políticos que passavam a colaborar com o regime depois do rapto. Um daqueles livros para agarrar na leitura e ficar o tempo inteiro na tensão à espera do desfecho de sucessivos episódios. Pelado vai ou não passar para o lado dos milicos? Será morto na tortura? Quais os companheiros que realmente traíram o movimento? Fortíssima a narrativa de Bonasso, que escreveu também El Palácio y la Calle, no qual narra – bem, mas de maneira não tão empolgante – os bastidores da derrocada argentina de 2001-02.

João Peres é jornalista e colunista do NR

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Calendário do Poder, leitura pré-eleitoral

Acabo de ler Calendário do Poder, de Frei Betto. Casualmente, o momento pré-eleitoral foi muito interessante para a leitura. A obra soma-se a Mosca Azul na contemplação sobre o período em que Frei Betto ocupou o cargo de Assessor Especial do governo Lula (2003-04), tendo como incumbência a mobilização da sociedade civil – e a consequente atuação desta no governo.
O livro é extremamente interessante por ser constituído, em sua espinha dorsal, pelo diário de Betto ao longo deste período no Planalto. Em primeiro plano, a trajetória das impressões do escritor “casa” com as de milhares de brasileiros: a imensa esperança com a eleição de Lula, a desconfiança de que algo não caminha bem, a certeza de que muita coisa não caminha bem.
Betto é o observador privilegiado da trama do primeiro mandato. A elite tradicional, amiga de última hora de Lula, apropria-se com sabedoria de várias instâncias de governo. A política econômica de Antonio Palocci, definida como neoliberal, desagrada aos antigos quadros do PT: a obsessão pelo superavit primário conduz a cortes nas áreas sociais. Alguns dos nomes mais representativos da esquerda brasileira pós-ditadura vão se desapontando e, um por um, deixando o governo. No meio do turbilhão está Lula, que confidencia a Betto sua decepção com o andamento de muitas vertentes do governo, mas tarda em tomar decisões. O escritor, no entanto, não culpa o presidente, amigo de muitos anos: prefere constatar, não sem tristeza, que uma coisa é chegar ao governo; outra, bem diferente, é chegar ao poder.
Se em Mosca Azul estão registrados os exemplos de como o poder, por sua vez, mexe com ânimos, instintos e personalidades, Calendário do Poder também é farto em situações do gênero. São ministros fritando ministros, reuniões que vazam à imprensa, dados que aparecem ao acaso e acabam por derrubar cabeças. Enfim, uma boa leitura.

João Peres é jornalista e colunista do NR.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Caraíva, no sul da Bahia, é destino perfeito para quem quer sossego e paraíso

Carros são proibidos de entrar nas ruas
Daqui, desta rede de balanço, vislumbra-se paradisíaco o cenário. São coqueiros aos montes, sempre bem acompanhados de diversas outras plantas. O mar, não se vê: ouve-se. Aqui, como em qualquer parte do vilarejo, constante, a estourar uma onda a cada par de segundos.
Este vilarejo de Caraíva, mais antigo do Brasil em criação, não se orgulha de ser primeiro, mas único: em beleza. A uns poucos passos desta rede está o mar, este que se ouve, e dali adiante se vê, verde, seguido por uma imensa praia, de quilômetros a se perder de vista, mas não de conta, que são doze os necessários para chegar à outra ponta, onde se aninha outro povo, o de Corumbau, igualmente belo. Pelo caminho, antes e depois de passar pela comunidade pataxó, há piscinas naturais, de verdes ainda mais verdes, e infindáveis coqueiros, além do ligeiro Paraçuaí, de 9 anos, rápido no criar coisas para vender e ainda mais rápido no criar os preços das coisas que vende.
Para a outra ponta, essa aqui colada, encontram-se o rio e o mar, amando-se o tempo todo, como costuma ocorrer em todas partes, que ao que se sabe as águas não são de ter preconceitos entre si. Há, para além do rio, um bocado de outras praias no caminho a Trancoso, Arraial d'Ajuda, Porto Seguro, enfim, a Costa do Descobrimento. Há, por exemplo, a Praia do Satu, que tem esse nome por conta de seu habitante, Satu, hoje não mais sozinho: tem a companhia de umas cinco ou dez pessoas.
De volta à rede – sendo aqui mais comum a de balanço; a de computadores praticamente ausente – tem-se aqui do lado uma rua de areia, com muitas árvores, como de areias e de árvores são todas as cinco ou seis ruas deste vilarejo que não deve guardar mais que cinco ou seis mil humanos – aqui ainda não se perdeu a humanidade, logo não é exagero chamá-los humanos. Como os carros são proibidos, brincam as crianças tranquilas nas ruas, e como brincam. E quantas são (?): aqui, como não foram recolhidas aos lares engradados, vê-se que são muitas, parece que mais que em outras partes.
Praias, um deslumbre de beleza e tranquilidade
Sendo proibidos os carros, e sendo difícil o acesso, por estrada de terra, ficam um pouco mais caros os produtos que aqui chegam. Mas não vá o leitor Cosmopolita-Rouba-mas-faz imaginar que isso constitui motivo para construir estradas, viadutos, pontes majestosas: Caraíva está assim, assim quer ficar. O único que tem direito a tapar o sol nesta praia é o chapéu-de-sol, por graça do nome, e apenas quando finda a tarde, pois quem tinha de aproveitar, aproveitou.
Acendem-se então as luzes, que faz pouco que a energia elétrica chegou a Caraíva, mas se acendem poucas e com discrição, que é pra não quebrar o clima. E para não atrapalhar a lua, que nem mesmo mil lâmpadas poderiam substituí-la em magnitude e em beleza na hora de alumiar o mar, o mesmo que se ouve de toda parte. Só não ouvem aqueles que decidiram fazer uma música na beira do rio. Porque novela, com essa lua, com essa vista, com essa companhia acolhedora, não dá audiência. Melhor ficar na rede. Daqui se ouve o mar. E só o mar.

João Peres é jornalista. Viajou a Caraíva a convite da Associação do Jornalismo de Estresse Pré-eleitoral.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Países-exemplo de Serra lideram produção mundial de drogas

Colômbia e Peru aparecem no topo da lista, mesmo sem fazer o “corpo mole” da Bolívia

Os países tidos como exemplo por José Serra no combate às drogas são os líderes mundiais no setor. Relatório a ser divulgado esta semana pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc, na sigla em inglês) irá mostrar a Colômbia no topo do ranking do cultivo de coca, seguida pelo Peru.
Alguns dados da Unodc são sempre alvo de dúvida pelo fato de setores da agência terem uma posição excessivamente pró-EUA, ou seja, de culpar os países nos quais as substâncias são produzidas e determinar que os mesmos tratem de reprimir a tudo e a todos. Mas, considerando que Peru e Colômbia são os países que seguiram à risca a cartilha do Departamento Antidrogas da Casa Branca, não me parece que esse estudo, especificamente, deva ser motivo de dúvida. De acordo com a agência, no geral houve recuo dos cultivos na Colômbia, e o Peru, a manter o ritmo atual, será líder nesta produção em não muito tempo.
São as duas nações que mais tiveram injeção de recursos da ONU e dos Estados Unidos neste setor. Talvez por concordarem com a ingerência externa, talvez por gostarem de repressão, são vistos como modelos pelo candidato do PSDB à Presidência da República. Pensemos em que modelo é este: a Colômbia tem dezenas de milhares de mortos graças aos conflitos entre paramilitares, guerrilhas e Exército. O paraEstado, esse gracioso Estado paralelo, continua existindo, como mostram escutas telefônicas que envolvem desde o mais baixo funcionário do atual governo até o presidente Álvaro Uribe, passando pelo eleito Juan Manuel Santos. Na Colômbia, liberdades de imprensa e de atividade laboral não são respeitadas. Sindicalistas que tentam denunciar abusos de poder e falta de democracia acabam assassinados, o mesmo valendo para indígenas e outras minorias.

Deslocamento sem erradicação

Ao que parece, quando se trata de drogas, José Serra não teve o cuidado de falar com Fernando Henrique Cardoso, de quem foi ministro da Saúde. FHC, lembro-me bem porque vi com estes olhos, afirmou há alguns meses que não adianta reprimir cultivo, pois ocorre o que se vê nas nações-modelo do ex-governador: deslocamento sem erradicação.
Serra, quando elogia a Colômbia falando que o país de Uribe não faz corpo mole contra o tráfico, presta uma triste homenagem a um povo extremamente sofrido. Apenas para não esquecer, estamos no mês dos refugiados. Outra agência da ONU, a Acnur, lembra-nos que a Colômbia tem a maior massa interna de deslocamentos. Se a memória não falha, algo como quatro milhões de colombianos viram-se obrigados a deixar seus lugares de origem por conta dos conflitos internos estimulados pelo paraEstado.
Ao mesmo tempo, o tucano mostra todo seu preconceito contra duas questões diferentes. Uma, a de acreditar que a Bolívia não é capaz de guiar seu próprio destino, devendo aceitar tudo aquilo que dizem os Estados Unidos. Outra, a de não entender que uma boa parte de produção de coca boliviana tem uso local, milenar, que nada tem a ver com tráfico internacional de drogas.
Serra, que segundo a Piauí Herald é especialista em trolologia, lembra-me a âncora da emissora de TV Fox News que ficou espantada ao descobrir que “o ditador” da Bolívia masca folhas de cacau (dá pra lincar o Oliver Stone). Talvez a candidata do PV, Marina Silva, tenha entendido qual o sentido da fala do opositor: "Tenho dúvidas, se talvez o governo da Bolívia fosse outro que não do Evo, um índio, se isso seria dito com tanta naturalidade. É apenas uma dúvida.” Alguém duvida?

PS 1: lamentavelmente, a candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, tampouco tem demonstrado estar à altura de um bom debate sobre drogas. Tem partido sempre para o lado da repressão, que rende mais votos entre os setores assustadiços da sociedade, sem levar em conta os aspectos socioculturais que envolvem um tema muito mais complexo que cassetete e internação. Desconheço as propostas de Marina para o setor.

PS 2: estou a tentar entender a aparição de José Serra no SPTV de terça-feira (22). Se o jornal é regional, por que um candidato ao Planalto precisa aparecer falando de suas propostas para a saúde, por que precisa ir a uma inauguração de um projeto do governo do estado ao qual não pertence? Ou se fala de todos os candidatos, ou não se fala. Se o critério obscuro é mostrar candidatos paulistas, posso me lembrar de ao menos outros dois que são deste estado. Se o critério é colocar trololólogos para falar, posso me lembrar de uns duzentos numa área de cinco quilômetros. Lá vem a emissora de Marinho, outra vez com trololices. Se formos trolos, seremos novamente trololados.

João Peres
é jornalista e colunista do Nota de Rodapé

sexta-feira, 11 de junho de 2010

É preciso romper com o "Kakasismo" neoliberal

Acabo de ler Futebol ao sol e à sombra. Sem dúvida, um excelente acompanhamento para este Mundial que começa. Principalmente se levarmos em conta que encontrar poesia nas linhas de Eduardo Galeano é certo, é garantido. Nos campos da África do Sul, a tarefa é mais difícil, talvez fiquemos a pinçar bons momentos – tomara que não.
Galeano conta a história deste esporte em seu consagrado estilo: notas curtas, pequenos episódios que se somam para formar um todo inequivocamente bom. Os melhores jogadores, as melhores esquadras, os mais lindos mundiais, tudo isso o escritor uruguaio registra magistralmente. E, como não poderia deixar de ser, consciente que é, denuncia com ironia e um humor azedo os abusos e a corrupção fora das quatro linhas. Demonstra o velho amargor, também, ao notar o sumiço do futebol sul-americano autêntico, como no Brasil de 1994, burocrático e aborrecedor.
Crítico contumaz da Fifa, não poupa tabefes a João Havelange para, depois, dizer que o brasileiro ficou parecendo um carneirinho comparado a Joseph Blatter. Registre-se especialmente a fala de Blatter sobre a formação, no pós-Copa de 1994, de um sindicato internacional de jogadores. Questionado a respeito, Blatter afirmou que os atletas deveriam se contentar em serem funcionários dos clubes e que a Fifa não fala com os empregados.
Coincidentemente, vi numa manhã desta semana uma resposta do jogador Elano a um questionamento sobre o cronograma, a organização da Seleção Brasileira. Aborreceu-me:
Sou um empregado da CBF. Acordo às sete, tomo café às sete e meia, subo no ônibus e vou treinar. É esse meu trabalho – foi mais ou menos o que ele disse.
A fala de Elano não é um a toa. É de jogadores assim, cordatos, que Dunga gosta. É de jogadores assim, cordatos, que a CBF gosta. É de jogadores assim, cordatos, que a Fifa gosta. Sinto saudades do que falava Romário. E torço para que Marcos, o goleiro, jogue mais alguns anos, só pelo prazer de ver um jogador que não abre mão de pensar. Tenho esperança de que Ganso, Neymar, esse pessoal que está vindo, rompa com o “kakasismo” neoliberal que tomou conta do nosso futebol.   Galeano talvez ainda não saiba, mas odeia o dunguismo. Vai descobrir isso na terça-feira.

João Peres é jornalista e colunista do Nota de Rodapé

terça-feira, 8 de junho de 2010

Filme de Stone vale a pena. Com ressalvas

Vale a pena ver o filme de Oliver Stone sobre essas nossas terras ao Sul do mundo. Apesar de algumas generalizações desnecessárias, “Ao sul da fronteira” guarda boas críticas e, na pior das hipóteses, é uma diversão.
A cena inicial é magistral para conduzir aos fins que Stone quer. Se a ideia é mostrar a desinformação da mídia e da sociedade atingida por ela, o começo não poderia ter sido melhor. Uma apresentadora da Fox afirma que o “ditador” da Bolívia, Evo Morales, mastiga “folhas de cacau”. Bendito seja, que loucura essa mistura de saliva e cacau, que sonho atingir tamanho barato. Em uma só frase, uma incrível reunião de ignorância: Evo não é ditador, a folha mastigada é de coca, não de cacau, e não se constitui, absolutamente, em um ato de gravidade a mastigação, tão antiga quanto os povos andinos.
Stone começa ali a desmontar as mentiras contadas por parte da imprensa dos Estados Unidos que, sob as correntes do patriotismo, coloca-se a reproduzir todas as mentiras que a Casa Branca queira contar. (Aliás, vale um parêntese. Algumas das mentiras dos EUA sobre drogas na Bolívia, lembra um amigo que também viu o filme, são as mesmas contadas por José Serra nas últimas semanas, afirmando que o governo da Bolívia é cúmplice do narcotráfico).

Chávez não é o centro
O diretor, no entanto, cai logo em seguida num erro. Se a intenção era mostrar os movimentos que estão ocorrendo na América do Sul como um todo, Stone não deveria ter dedicado tanto espaço a Hugo Chávez. Ainda que o venezuelano seja aquele que há mais tempo está no cargo e, de alguma maneira, represente o início da virada à esquerda na região, ele não é o líder do processo. Quem vir o filme sem conhecer a realidade local – e tomara que muitos o vejam nos Estados Unidos – sai com a impressão de que Chávez é o centro de tudo.
A bem da verdade, cada país tem encontrado as próprias respostas para uma crise neoliberal que, esta sim, foi comum entre nós todos. Quando sai da Venezuela, Stone põe-se a entrevistar muy rapidamente cada presidente, não se aprofunda nas questões locais e, por consequência, recorre a simplificações equivocadas.
Como, por exemplo, quando afirma que Cristina Kirchner é bolivariana. Mesmo que se aceite o rótulo “bolivariano” para os governos que têm se dedicado a uma agenda mais autônoma para seus países, certamente não é o caso de Cristina. Tampouco seria o caso de Lula. Talvez nem mesmo o de Rafael Correa, do Equador.
De todo modo, vale a pena ver. Recomendo fortemente uma sessão especial para Leitão, Cantanhêde, Kramer e Jabor. Estarão quase a olhar-se no espelho ao ver outro âncora da Fox que, na falta de argumento melhor, chama Daniel Ortega, da Nicarágua, de “maior pedófilo do Ocidente”.
Se puder recomendar outros dois filmes sobre nós outros, prefiro citar “Crise é nosso negócio” e “A revolução não será televisionada”. O primeiro pode ser encontrado em lojas por aí. O segundo deve estar por YouTube ou afins.



João Peres é jornalista e colunista do Nota de Rodapé

quinta-feira, 20 de maio de 2010

EUA anunciam fechamento de embaixada no Brasil

A Casa Branca comunicou nesta quinta-feira, 20, que irá fechar sua representação diplomática no Brasil. A medida foi adotada durante reunião de mais de três horas entre a chefe do Departamento de Estado, Hillary Clinton, e o embaixador no Brasil, Thomas Shannon.
O encontro, segundo a reportagem apurou, ocorreu sob forte tensão e com acusações de Hillary a Shannon. Hillary teria chegado a dizer que Shannon se comportou feito “uma mocinha comunista” durante a negociação do acordo na área nuclear entre Brasil, Irã e Turquia. “Você não é um patriota. A América (sic) paga seu salário para ficar aí, no meio dessa horda de subdesenvolvidos, sem fazer nada”, teria afirmado a dama-de-ferro durante o encontro em Washington.
Shannon, na saída da reunião, confirmou o fechamento da embaixada e dos consulados dos Estados Unidos em território brasileiro e ressaltou que o acordo Brasil-Irã teve papel fundamental na decisão, mas negou que tenha sido ríspido o tom da conversa com Hillary.
A conclusão, segundo disse o embaixador, é de que já não faz sentido ter representações diplomáticas em um país no qual os Estados Unidos estão amplamente representados. “Você viu como a Globo, a Folha e o Estadão se comportaram durante essa história do acordo? Afirmando que a proposta do Brasil nem era tudo isso e que o Irã é um baita mentiroso? Nem um comunicado do Departamento de Estado seria tão favorável aos interesses da Casa Branca. Logo, perdeu sentido que eu continue por aqui. Vou ter de procurar outro emprego. Pior que de editorialista não dá: o Brasil está cheio”, afirmou, claramente abatido, aos jornalistas presentes à saída do encontro.

Serviço
A partir de 1º de junho, os brasileiros que desejarem tirar passaporte ou gozar de qualquer outro serviço diplomático devem se dirigir aos seguintes lugares:

- Folha de S. Paulo
- O Estado de S. Paulo
- O Globo
- Qualquer emissora da Rede Globo em território nacional.

João Peres é jornalista e colunista do Nota de Rodapé. Este texto é uma crônica, portanto, aos que acham que é verdadeira a notícia, a piada irônica teve o efeito desejado.

terça-feira, 18 de maio de 2010

A esposa de Borges e a pequena Buenos Aires

Buenos Aires é algo como São Paulo com alguns milhões de habitantes a menos. OK, uma constatação um tanto quanto óbvia e extremamente reducionista em relação às inúmeras diferenças. Mas o que importa é dizer que esses muitos milhões a menos criam um “esvaziamento demográfico” que, além de melhorias à qualidade de vida, gera situações que, para quem passou os últimos anos na capital paulista, parecem passadas em pequenos povoados deste mundo.
Você está almoçando e, de repente, passa pela porta o cineasta Pablo Trapero (Família Rodante e Leonera). Está tomando o chá da tarde e se depara com Bielsa, não El Loco Bielsa, mas seu irmão, Rafael, ex-ministro de Relações Exteriores.
Quando resolve ir ao Museu Jorge Luis Borges, vê na porta Gabriela Michetti, espécie de ministra-chefe do governo da cidade de Buenos Aires. Como não fosse suficiente, na sequência sai Maurício Macri, o chefe em si, com sua “cara de nada”.
O mais interessante nessas últimas andanças, no entanto, ocorreu dois minutos depois. Quando entro no museu, após superar o borbulho da saída macrista, uma senhora de irretocável elegância, cabelos meio brancos e meio pretos – não são grisalhos, não nos confundamos, passa a explicar-me a visitação com uma incrível quantidade de detalhes.
Alguém a chama pelo nome – Maria – e, por um segundo, passa pela cabeça que pode ser a esposa de Borges. Mas não, não poderia ser. Eu, leigo em Borges, tudo o que sabia sobre sua esposa é que era uma pessoa muito mais jovem que ele. Mas seria, achava eu, impossível que fosse tão mais jovem a ponto de seguir ativa vinte anos depois da morte do escritor, com cara de senhora recém-ingressada nas artes da 3ª idade. E mesmo que se mantivesse desta maneira, não ficaria à porta do museu recebendo as pessoas.
Eis que alguém lhe chama e entrega um envelope: Maria Kodama. Sim, é ela. Nisso já se haviam passado muitos minutos de conversa com a esposa de Borges sem sabê-lo. Me senti um dos maiores idiotas da face da Terra. Estava ali, na minha frente, e não sabia. Nos minutos que se seguiram, duas pessoas se somaram à conversa e Maria passou a nos apresentar o museu – que, caso alguém se interesse, fica na Calle Anchorena, Barrio Norte, paralela à Avenida Puerreydon.
Contou que abriu tudo na raça, com dinheiro que Borges ganhou em um prêmio. A casa abriga alguns escritos, muitas lembranças, milhares de livros. Em cada um deles, o escritor fazia observações na contracapa. Em um deles, em letra miúda, Borges anotou contradições que encontrou ao longo do enredo. “Depois disso, nunca mais deixei anotações em livros. Você vê o quanto elas revelam da personalidade das pessoas”, afirma, quase tietante, admirada com a inteligência e a concentração de Borges.
Ainda há um apartamento abarrotado de coisas do autor, mas falta apoio para expandir o museu. No entanto, a melhor guia turística sobre Borges está segura que, no próximo ano, tudo vai sair do papel. Ela conta que a casa ao lado é aonde o escritor viveu quando era criança. Maria tentou comprar o imóvel mas, quando contou ao dono que ali havia vivido Borges, a transação se tornou impossível.

− Você venderia? - pergunta
− De jeito nenhum – respondo
− Pois bem. Eu entendo – afirma Maria.

E dá por encerrada a visita.

João Peres é jornalista e colunista deste Nota de Rodapé

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Em nome do índice de atraso do busão

Perdoem-me por manter o tom “pau na imprensa”, mas é que os motivos são muitos. “Eles dão muita brecha”, expressaria o bom português-brasileiro. Tento, alguns minutos por dia, ouvir a Rádio CBN. Digo “tento” porque não está fácil. Não é só a aproximação da campanha eleitoral que deixa os conservadores colunistas ouriçados, mas também alguns episódios que atiçam a ira dos chefões de redação.
Como mencionei na coluna anterior, alguns chefes acham que algumas pautas são importantes porque nunca andaram de ônibus e nem a pé. A dos aeroportos é uma delas. Basta cair uma gota que lá se vai um repórter para Congonhas para mais um episódio de “Como sofre essa classe média”. Pode haver um atrasinho de nada, mas não será difícil encontrar algum candidato ao choro em rede nacional porque faz três horas que tenta embarcar para férias em Miami, Madrid ou Bahrein.
A CBN está preocupada com essa gente. E resolveu dedicar sua “Charge do dia”, espaço de texto editorializado e quase sempre de tom político, para contar os problemas de quem passa pelo aeroporto. Na visão da rádio do Grupo Globo, os aeroportos, como agora há mais gente viajando, “mais se parecem com terminais rodoviários”. A emissora carioca entende que terminais rodoviários têm banheiros sujos, pátios lotados, atrasos – isso está expresso no texto, bem como a fala do presidente Lula ressaltando que mais pobres estão viajando de avião. Aeroportos não podem ser assim. Há gente passando horas na fila na tentativa de embarcar, veja que drama. É muito, mesmo se comparado a quem passa anos na fila de transplante ou na espera das mais diversas cirurgias. Como sofre essa gente.
Ao fazer a comparação entre aeroportos e rodoviárias, o texto, lido por Heródoto Barbeiro na terça-feira (6), conclui com o famoso “Nada contra”. Não sei a que o “Nada contra” remete ao leitor. A mim, lembra uma pessoa que conta uma piada racista, machista ou homofóbica e, ao concluir, manda o tradicional “Nada contra, cada um com seus problemas”. Claro, afinal ser mulher, negro ou homossexual é um problema, todos sabemos desde sempre, e falamos esse “Nada contra” como forma de expressar que não temos absolutamente nenhum preconceito, imagina só.
Ao ouvir a charge da CBN, lembrei-me imediatamente de um texto da edição 42 da Revista Piauí, de fevereiro último. Não acompanho a boa revista desde o começo, mas tenho certeza de que se trata dos mais infelizes relatos da história da publicação. “Safári sonoro em Congonhas” narra as “aventuras” de uma típica representante da classe alta que está incomodada com o aumento do número de pobres nos aeroportos. Ao reclamar da poluição sonora em Congonhas, a autora sai-se com a seguinte afirmação: “São brasileiros das classes C e D que estrearam no turismo aéreo. É para eles que a Gol mantém a frequência das três chamadas, sem contar os incontáveis apelos individuais aos retardatários perdidos pelo saguão. A empresa não tem dúvida de que esse segmento ainda precisa de colo e não se aborrece com a barulheira”.
Essa preocupação toda com os aeroportos, como disse antes, reflete a falta de preocupação com quem está no ônibus. Trabalhei em uma infeliz rádio que dava à exaustão o índice de atrasos nos vôos em tudo quanto é canto. Oras, não seria mais útil dar o índice de atraso no terminal Santo Amaro, por onde passam dezenas de milhares, talvez mais de um milhão de pessoas por dia?
“Aqui no Terminal Santo Amaro, 30 das 90 saídas previstas para ocorrer entre dez e onze da manhã sofreram atrasos superiores a 15 minutos. A pior situação foi registrada na linha Y, que faz o trajeto entre A e B. Uma alternativa é pegar a linha Z, que vai até C, e depois fazer a baldeação, utilizando o ônibus W”.
A quem pode interessar essa informação? A milhares de pessoas. Mas são essas pessoas que, na visão da CBN e dos demais meios de massa, estão sujando os terminais aéreos da classe A. Perdão, senhores, não vai se repetir. Aí vem o PSDB e estamos todos prontos para voltar à senzala. Desculpem pelos transtornos causados nos anos de alforria.

João Peres é jornalista e colunista do Nota de Rodapé
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