Em meio ao pinga fogo entre oposição e governo para desnudar as atividades da empresa Projeto, do ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, acusado de ter o seu patrimônio multiplicado por 20 vezes em quatro anos, surge pela primeira vez a versão (de outro caso) da Caixa Econômica Federal responsabilizando o atual-ex-ministro pela violação do sigilo bancário, em 2006, do caseiro Francenildo dos Santos Costa, lembram?
“Por que ele não explicou de onde veio
o dinheiro? Na minha época eu tive que explicar”
A Caixa informou à Justiça Federal que o responsável pela violação dos dados bancários do caseiro foi o gabinete do então ministro da Fazenda do governo Lula, hoje ministro da Casa Civil. Essa informação faz parte da apelação feita junto à Justiça que condenou a Caixa a indenizar o caseiro em 600 milhões de reais. Diz a apelação. "Nem mesmo a Polícia Federal tem dúvida de que o assessor [Netto] do Ministério da Fazenda foi o responsável pela entrega das informações bancárias do autor à imprensa, com consequente divulgação, a partir de quando houve a quebra do sigilo".
Em entrevista recente o caseiro disse sobre a nova polêmica de Palocci. “Por que ele não explicou de onde veio o dinheiro? Na minha época eu tive que explicar”. A revista Piauí, no texto de João Moreira Salles, fez um perfil de Francenildo, numa ótima reportagem de uns tempos atrás que começa assim: "Francenildo dos Santos Costa era caseiro, tinha 24 anos, quatro bermudas, três calças jeans, cinco camisetas, três camisas, cinco cuecas, três pares de meia, dois pares de tênis, um sapato e um salário de 370 reais quando tudo começou, em março de 2006." Francenildo, ao que se sabe, não é mais caseiro. Anda fazendo bicos de jardineiro. Ao que todos sabem, Palocci ganhou muito dinheiro deste então e voltou a ser ministro. (Thiago Domenici)
Um motivo para acreditar que sim, o bom senso. E outros motivos para apostar que não, não pode
Seu estilo discreto é fruto de Marketing como supõe a Folha
de S.Paulo? Ou são características pessoais?
Ao fim do primeiro mês de governo Dilma Rousseff, restam mais perguntas que respostas – normal. Diz a regra, ditada não se sabe por quem, que há que esperar os primeiros cem dias para uma avaliação mais profunda. Ao fim do primeiro ano, será possível saber com um pouco menos de imprecisão se Dilma tem condições de realizar o improvável: ter mais popularidade do que Lula.
Este é um campo em que há apenas duas possibilidades: sim e não, e o divertido é começar pelo insensato. Sim, Dilma pode ter aprovação maior que a de Lula. Se há uma questão que ficou clara nestas primeiras semanas, trata-se do estilo Dilma de governar. O viés mais discreto, com menos aparições públicas, tem o poder de agradar aos famosos 3% que viam o governo Lula como “ruim/péssimo” e mesmo aos 13% que aceitaram, de malgrado, engolir a gestão anterior como “regular”.
Pouco importa se o estilo discreto é fruto de marketing, como supõe a Folha de S. Paulo, ou de características pessoais, como supõe o bom senso. A bem da verdade, já que ora se fala neste assunto, Dilma parece gostar de falar pelas entrelinhas: foi a ato contra o Holocausto em Porto Alegre e fez questão de se reunir com as Mães da Praça de Maio em Buenos Aires.
É importante lembrar que, entre os que desaprovavam Lula, há uma dose nada desprezível – ou muito desprezível? – de preconceito. Gente que “teve” de aguentar durante oito anos o estilo nordestino-sindicalista de Lula está a admirar o estilo gaúcho-técnico da presidenta. A mídia brasileira, em nossa fábula da vida política, deu a Dilma o papel da pessoa séria e rigorosa, dois atributos deveras valorizados pelas classes médias e altas que tanto odiavam a Lula. O gaúcho foi o mais próximo que chegamos da Europa, que saudades da Europa, com seu lenço no pescoço, o semblante fechado e o vinho no lugar da cerveja. O rigoroso é a incorporação do trabalho duro, sem espaço para desvios de conduta, bem diferente da “república sindicalista” de Lulla – sim, eles adoram lembrar de Collor.
Mostras desse segundo atributo foram dadas neste primeiro mês, com a condenação aos problemas de direitos humanos no Irã e em Cuba, a demora em receber as centrais sindicais e a ordem para cortar geral no Orçamento, temas com grande poder de penetração no cérebro modelo Jornal Nacional das classes médias e altas. Os governos iraniano e cubano são, para o clube dos 3%, o exemplo do que há de pior no mundo, e com os quais Lula foi “conivente”. As “torneiras abertas” dos cofres públicos e o mundo sindical caem como uma luva no imaginário autoflagelador dos ricos brasileiros, sempre queixosos da alta carga tributária e das classes políticas, assim genericamente denominadas.
De boatos e silêncios
Por tudo isso, Dilma poderia angariar uma popularidade altíssima e reaproximar o PT das classes médias, levando-o a um êxito maior nas eleições municipais de 2012. Ocorre que é improvável que se consiga ganhar de um lado sem perder de outro, e aí vem a análise menos divertida da situação geral. A primeira questão é óbvia: contraria a lógica que alguém possa obter mais aprovação que o presidente mais popular de que se tem notícia.
Depois disso, o estilo discreto de Dilma, se agrada os outrora “reprovantes”, pode ser lido como um silêncio incômodo sob o olhar de parte dos eleitores do novo governo. A presidenta sabe, ou poderia ter aprendido com o primeiro turno das eleições, que o boato prospera principalmente onde há silêncio e incerteza. É aí que podem ser plantadas notícias, caírem ministros e, mais que nada, serem criados imensos mal-entendidos.
Imagina-se que Dilma virá a público mais vezes após esta fase inicial de montagem de gabinete e rateio de cargos, e parece necessário que o faça para não permitir que acabe falando pela boca de terceiros. Há dubiedade, até agora, sobre a real intenção do governo em relação a pontos tidos como fundamentais por apoiadores mais “ideológicos”, como o marco regulatório das comunicações e a criação da Comissão da Verdade. Dilma sabe que, para seguir em frente nestes dois assuntos, vai comprar brigas exatamente com o piso de cima da sociedade, e até mesmo com os estratos de baixo influenciados pelos setores conservadores da imprensa. Será preciso esperar os cem dias, e talvez mais, para saber se vai ou não aceitar essas pelejas – e se sua arma será a peixeira ou a boleadeira.
João Peres é jornalista, colunista do Nota de Rodapé
A primeira entrevista concedida por um presidente da república, numa espécie de coletiva de imprensa, nesta semana. Entre tantos assuntos abordados, falou da regulamentação da mídia, do 3º Plano Nacional de Direitos Humanos, da abertura dos arquivos da ditadura, entre outros assuntos. Ao final da entrevista Lula declarou que pretende tirar a limpo a mal contada história do mensalão, assim que deixar a Presidência da República, além de ser blogueiro e tuiteiro.
Bem que o Brasil do atraso tentou, o Brasil da calúnia, da infâmia, da subserviência, o Brasil que perdeu a noção da História e da realidade em que vive e da realidade que o cerca. Não adiantou o cidadão e candidato José Serra e a oposição que representa construírem uma estratégia eleitoral torpe, baseada no ódio, na intolerância e no preconceito, pois o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostrou que parte de sua acertada estratégia política está cumprida ao eleger sua candidata e sucessora.
Vitória da perspicácia, da sensibilidade no trato das coisas políticas, da coragem pessoal em confrontar, à sua maneira, a oligarquia que deixou o governo em 2002. E o fez com paciência e tentativas de diálogo e – sobretudo – com o conhecimento do seu povo. É preciso reconhecer: haja sociologia para explicar 83% de aprovação popular a um governo no Brasil. Já disse alguém que a política é a arte do possível. Para muitos, infelizmente, ainda é difícil entender isso. À direita e à esquerda.
No 31 de outubro de 2010, venceu o Brasil que quer continuar mudando, que busca alternativas para se tornar um país mais soberano e menos injusto. Venceu o povo brasileiro mais sofrido e humilde. Venceu novamente a esperança. Ou, para os menos otimistas, a possibilidade de se continuar tendo esperança. E ouso dizer também que, mais do que o Brasil, venceu a nova América Latina de Chávez, Morales, Correa, Lugo, Cristina e Néstor, Castro, Funes, Mujica e Ortega.
O desejo sincero venceu
Os miasmas da intolerância e de um fascismo travestido de faniquitos democráticos não muito bem explicados em manifestos e editoriais jornalísticos, em telejornais e revistas de final de semana, em violência e profanação religiosa, em tentativa de manipulação da opinião do eleitor, nos últimos três meses, ou se quisermos, nos últimos oito anos, não foram suficientes para desviar milhões de eleitores brasileiros da rota de um desejo sincero de ver o Brasil mais justo, mais independente e de olhos postos no futuro e não no passado.
Retomando a História interrompida com a morte de Getúlio Vargas e traumatizada pelo golpe civil/militar de 1964, que derrubou um governo eleito democraticamente, a vitória de Dilma Roussef faz uma ponte com nosso passado ainda recente e relança as bases de um protagonismo popular para o futuro, fazendo o país voltar ao leito democrático de onde foi retirado pela força de tanques e baionetas apoiados pelo Departamento de Estado norte americano, esse mesmo Estado que continua a insistir com sua política de desestabilizar governos eleitos democraticamente, como a Venezuela de Chávez, a Bolívia de Evo Morales, a Honduras de Manuel Zelaya ou o Equador de Rafael Correa. E que, com certeza, não dará tréguas ao governo de Dilma Roussef. É bom que não nos esqueçamos disto no calor e na alegria da vitória.
No vácuo da repressão policial/militar da ditadura, com a sua falta de garantias democráticas plenas, instalou-se também no Brasil, em anos mais recentes, a ditadura do poder econômico, impondo-se entre nós o pensamento e a prática hegemônica neoliberal, assumida por uma social democracia encantada com a possibilidade de chegar ao poder político, como de fato chegou, com a chamada redemocratização do país na metade dos anos oitenta. E com o sonho de lá permanecer por pelo menos 20 anos, no dizer de alguns de seus caciques, começando com a imoral compra de votos para a reeleição do seu até então maior ideólogo, Fernando Henrique Cardoso, o presidente das privatarias e traidor do povo brasileiro. Essa prática política encantou àqueles que olharam o país e a História com o binóculo posto ao contrário.
Nesses últimos cinquenta anos de História, tanto uma, a ditadura, quanto o outro, o poder econômico imposto pelo Consenso de Washington, tiveram a seu lado aquele que pode ser considerado o mais forte aliado do mundo contemporâneo: a força do quarto poder, a mídia. Jornais, rádios, televisões, revistas, em grande parte subsidiados ideologicamente por pensadores e acadêmicos de dentro e de fora do país, fizeram de seus editoriais e matérias jornalísticas a apologia diária do paraíso para o capital transnacional, com seus deslumbrados e submissos defensores internos, ao mesmo tempo em que combatiam e dilapidavam as garantias e a defesa dos direitos dos trabalhadores por meio do arrocho salarial, da terceirização de serviços, do aumento do desemprego, do desestímulo às reivindicações de inúmeras categorias profissionais, da privatização de empresas nacionais estratégicas, agindo contra os interesses nacionais, da criminalização dos movimentos sociais, mantendo intacto – de certa maneira – o arcabouço repressivo ditatorial com um inquestionável conservadorismo na sua prática política.
Mecanismo anacrônico
Tudo isso sustentado por uma democracia e uma Constituição, aquela que melhor se pôde arranjar em 1988, a tal Constituição Cidadã, um imenso tratado com quase quinhentos artigos, tamanho o número de interesses a serem contemplados e acomodados, e que ainda assim, na prática, vem sendo solapada e substituída no dia a dia por um mecanismo anacrônico denominado Medida Provisória, que sempre poderá agradar ou desagradar a gregos e troianos, conforme os interesses de momento e o grupo que estiver no poder político.
Em verdade, passamos a viver a partir da segunda metade dos anos 80 um arremedo de democracia. Dá para o gasto, é claro, pois sempre podemos encher a boca e dizer que vivemos num país democrático, e sob vários aspectos isso é verdade, muito embora os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, com as honrosas exceções de sempre, se deixaram ou ainda se deixam escorregar tentadoramente por caminhos tortuosos, para dizer o menos, quando fica bastante evidente a verdadeira luta de classes no país.
A recente campanha eleitoral deixou à mostra como muitos brasileiros entendem a democracia: um regime de privilégios que é preciso manter a ferro e fogo, sempre e quando para isso se use tais “privilégios” para arrasar o adversário, assassinar sua reputação, atribuindo-lhe as piores qualidades morais e profissionais. São os democratas de fins de semana, dos almoços dominicais com a família. Hipocrisia que a campanha do candidato José Serra mostrou à perfeição.
Nesse quadro político e institucional, os homens que queriam governar “por 20 anos” descuidaram-se e o sentimento de mudanças que permeava partidos de esquerda e movimentos sociais desde o período ditatorial, soube se movimentar, mesmo com suas divergências, contradições e até defecções, criando condições para que o país buscasse alternativas para o sufoco neoliberal.
Bajuladores da “Casa Grande”
Incrédulos com a vitória do metalúrgico semi-analfabeto em 2002, os serviçais e bajuladores da “Casa Grande”, fiéis leitores da cartilha econômica do neoliberalismo, apostaram suas fichas no fracasso e na incompetência do operário, sem jamais esconder o seu preconceito de classe e seu espírito impatriótico. À medida que o tempo avançou e o fracasso esperado do governo Lula não vinha, os órgãos de comunicação social foram mais uma vez acionados com bastante virulência no ano de 2005, pois nova derrota eleitoral seria o início do desastre.
De nada adiantou a campanha moralista naquela altura, curiosamente liderada por alguns dos políticos mais imorais e corruptos do país, alguns deles felizmente defenestrados nas recentes eleições, ou as CPIs policialescas instaladas nas duas casas do Congresso Nacional, na qual a pregação intolerante contra o Partido dos Trabalhadores e a esquerda de um modo geral chegou a ser defendida com o chamamento à eliminação “dessa gente” da política brasileira. Bravatas, arrogância e intolerância substituíam os discursos políticos daquilo que se poderia esperar de uma oposição minimamente civilizada, se é que se pode chamar de civilizados um grande número de dilapidadores do patrimônio nacional em beneficio próprio.
Sai o operário e entra uma mulher
Acuado, o governo soube esperar a hora do contra ataque. E o fez no seu segundo mandato, aprofundando as suas políticas sociais e de infraestrutura econômica. Lula se reelegeu em 2006 e chega a 2010, no final do seu governo, com um índice de popularidade “nunca visto antes na história desse país”. E mais: sai o operário e entra uma mulher. Impensável no Brasil de dez anos atrás.
O desafio que tem pela frente a presidente Dilma Roussef é enorme, a começar pela guerra diária que lhe imporá a vetusta oligarquia brasileira e sua velha mídia incompetente, desonesta e oportunista.
Mas, guerra é guerra e o povo, atento e organizado, sempre que chamado, irá se manifestar através de sindicatos, dos movimentos sociais, das entidades estudantis e dos partidos políticos comprometidos com a soberania do país e das suas conquistas sociais, fazendo avançar essas conquistas. E também por meio de uma nova mídia que se forma pela internet ou – o que espera o país – ver alguns jornais, revistas e televisões tendo que se ajustar a um novo marco regulatório para a comunicação social, tornando-a verdadeiramente democrática.
De hoje em diante toda atenção é pouca, porque o conservadorismo, agora efetivamente de mãos dadas com o emergente fascismo tupiniquim não irá descansar. E essa é uma união mais do que perigosa. Alguém já disse que para onde pender o Brasil, deverá pender a América Latina. Não deixemos que a vitória nos faça esquecer que o inimigo é forte e continuará sua insidiosa luta no dia a dia das calúnias, das mentiras, dos factóides, tentando minar a confiança do povo no seu novo governo. Felicidades, presidente Dilma Roussef! Seja bem-vinda.
Izaías Almada é escritor, dramaturgo, autor – entre outros – do livro “Teatro de Arena: uma estética de resistência” (Boitempo) e “Venezuela povo e Forças Armadas” (Caros Amigos).