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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 6 de julho de 2015

A mídia comanda o retrocesso

por Celso Vicenzi*

Uma fotomontagem em que a presidenta Dilma Roussef aparece de pernas abertas, na boca de um tanque de gasolina de automóvel, jogou mais combustível na fogueira de ódio e insensatez que se espalha por todo o país. A imagem é chocante e não ofende apenas a mais alta autoridade do país, mas todos os cidadãos e, principalmente, as mulheres, no Brasil e no mundo. A metáfora visual é a de uma penetração sexual, de um estupro.

Essa afronta não é um caso isolado. Pelo contrário, a passividade das principais autoridades do país tem autorizado uma série de crimes, contra a democracia e contra a dignidade humana. Por trás de gestos mais raivosos, tresloucados e imbecilizados, foi tecida uma competente estratégia de propagar o ódio e promover a agitação social necessária à aplicação de um golpe de estado para o qual só parece faltar o acerto de data. Mais que um golpe contra o resultado das urnas, seria um golpe contra boa parte dos avanços civilizatórios duramente conquistados desde o fim da ditadura de 64. Some-se a isso uma intolerância religiosa que era até então desconhecida no país e que hoje grita seus slogans medievais muito além dos púlpitos, nos parlamentos e nas emissoras de rádio e tevê.

Depois da quarta derrota eleitoral à presidência, os setores mais conservadores da sociedade brasileira perceberam que, pela via democrática, suas chances de ascender ao Palácio do Planalto tornaram-se remotas. Se não foi possível convencer pelo voto, importantes setores da mídia, do parlamento e do judiciário desenharam nova estratégia. Os principais veículos de comunicação passaram a desenvolver, diariamente, uma estratégia que consiste em omitir o que há de positivo no país e exagerar na análise pessimista. Mais que isso: o que poderia ser uma excelente oportunidade para desnudar como funciona o esquema de financiamento de campanhas políticas e o uso da máquina pública e de empresas estatais para troca de favores – em todas as esferas, federais, estaduais e municipais – resultou em uma justiça caolha, uma mídia manipuladora e um Congresso Nacional retrógrado, centrados no objetivo de criminalizar um único partido, um único governo e, especialmente, Lula e Dilma.

O festival de imagens agressivas vem sendo produzido há muito tempo. Um dos casos mais recentes ocorreu na coluna do jornalista Ricardo Noblat, no jornal O Globo (29/6/2015), que pôs a cabeça degolada da presidenta Dilma em uma bandeja. O título acompanha o “primor” da ilustração: “Em jogo, a cabeça de Dilma”.

O jornal Correio Braziliense publicou no dia 8/9/2014, na capa, uma foto de Beto Barata em que uma metralhadora é apontada contra a face da presidenta, durante desfile militar de 7 de Setembro. O mesmo truque de angulação – usado à exaustão e, portanto, já sem nenhuma originalidade – deu a Wilton Júnior (O Estado de S. Paulo) o Prêmio Esso de Fotografia de 2012. Ilusoriamente uma espada trespassa o corpo da presidenta durante uma cerimônia na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ).

Se alguns dos principais veículos de comunicação, por repetidas vezes, simulam que a presidenta deve ser executada – e aí não há nenhuma possibilidade de inocência nessa metáfora de “morte à presidenta” –, porque deveríamos estranhar que essa convocação à “malhação de Judas” não encontraria campo fértil em meio a milhares de internautas ávidos por exibir toda a sanha reacionária e a falta de escrúpulo no debate político? Por que nos surpreenderíamos com tantos cartazes pedindo a volta da ditadura em passeatas que a mídia louva como a fina flor da democracia? Por que nos espantaríamos com as bancadas evangélicas, da bala e do latifúndio a vociferar contra os direitos humanos?

Houve quem tenha se recusado a reproduzir, nas redes sociais, a imagem sórdida de uma mulher, de pernas abertas na boca do tanque de combustível de um automóvel. Compreendo e louvo a tentativa de evitar a banalização da cena. Inclino-me, no entanto, na direção contrária, por uma razão: não podemos deixar de ver, compreender e estar alerta contra o que ameaça destruir a dignidade humana. Ver para não se iludir sobre o crescimento da barbárie. Ver para denunciar o ódio que cega tantas pessoas que se consideram humanas, amorosas.

Estranhamente, começaram a surgir, também na internet, os indignados contra quem se indignou. Houve muitas críticas aos que optaram por mostrar as imagens anexas aos textos de protesto a esse ato de misoginia. Boa parte dos críticos não atacou os autores da fotomontagem que escandalizou o país. Preferiu desviar o foco do debate, para tentar atingir apenas aqueles que se disseram profundamente impactados pelo ato vil.

A imagem é grosseira e não cabe banalizá-la com reproduções gratuitas e comentários machistas. Mas é preciso mostrá-la a quem ainda não viu, para que percebam a extensão do que acontece hoje no Brasil, e acordem a tempo de evitar o pior. Há uma profusão de atentados à democracia e à dignidade humana. E, por serem desferidas contra o atual governo, contra Lula, Dilma e o PT, não faltam incentivadores desse ódio que brota de nossas raízes racistas, conservadoras e elitistas.

Há coisas que precisam ser vistas. Não há como esconder as atrocidades que o ser humano já foi capaz de perpetrar, ao longo de milênios. Algumas imagens têm o poder de alertar contra a fera humana, sempre numa tênue fronteira entre civilização e barbárie.

A imagem que repugnou o país é somente o ápice de uma ação que tem os donos da mídia como principais articuladores. É um movimento que também grita contra os direitos humanos, que não se conforma com a inclusão social, não se importa em entregar as riquezas e o futuro do país aos interesses do capital internacional, não se importa com uma justiça de duas caras, dois pesos e duas medidas, que não aceita as mudanças que ocorreram nos últimos anos beneficiando sobretudo os mais pobres. Essa imagem é só uma amostra do nível de degradação a que estaremos expostos se as forças reacionárias dominarem novamente o Brasil.


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Celso Vicenzi, jornalista, mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

segunda-feira, 16 de março de 2015

A lição de seu Valter


Protesto gigantesco na Paulista pede fim da corrupção e impeachment de Dilma, que continua apostando numa conciliação nacional difícil de vislumbrar


por João Peres e Tadeu Breda, Nota de Rodapé

Seu Valter não quer ser Fla nem Flu. E hoje, domingo, é dia de Fla-Flu – ou melhor, de Fla, porque o Flu teve a chance na sexta-feira. Seu Valter não quer abrir mão de princípios apenas para agradar a um dos lados e ganhar mais dinheiro. “A concorrência tá brava”, queixa-se, num fim de tarde em que os negócios andaram muito mal. Os demais vendedores cobram o dobro, mas entregam o produto mais desejado e seguem a máxima de que o cliente sempre tem razão: “Fora, Dilma”.

Seu Valter é um comerciante mais moderado, menos capitalismo selvagem. “Optei por um produto mais neutro.” Optou e se deu mal. Pelo menos, financeiramente: volta para casa carregado das faixinhas “Brasil, pátria amada” que oferecia a R$ 2,50 cada – as outras, antipetistas, não custavam menos de R$ 5. Não volta pra casa feliz, mas em sintonia com a consciência. “Teria de mudar todos os políticos. Não tem prova contra a Dilma.” Não deixa de ser curioso que uma mensagem tão verde-amarela encalhe num dia marcado por camisas canarinho, caras pintadas, bandeiras e hino nacionais a rodo.

Claramente, não era momento para ficar em cima do muro ou tecer algumas ponderações políticas. É um dia para mensagens explícitas, com grito bem claro e alvo definido. É também dia para algumas poucas certezas, muitas dúvidas, dezenas de questões. Uma perplexidade tão grande que desespera. O que está acontecendo? A data – 15 de março de 2015 – ainda será debatida e disputada durante um bom tempo, até que se desdobre e ganhe significados para os torcedores do Fla e do Flu. E também para o resto que não veste nenhuma camisa. Nem a verde-amarela que se imagina ser de todos os brasileiros.

Uma coisa é certa entre a multidão que compareceu à avenida Paulista: a saída imediata de Dilma Rousseff do Palácio do Planalto, melhor ainda se acompanhada pela extinção do PT e tudo que possa recordá-lo na face da Terra. Também parece ser clarividente que a maioria dos presentes é favorável ao impeachment como método para defenestrar a presidenta, apesar de parcela significativa ser entusiasta da “intervenção militar”, ora desavergonhadamente reconhecida como golpe, ora defendida como direito constitucional. O resto, uma enxurrada de cartazes, gritos e chiliques, é mote para debate.

Ainda não eram 15 horas e a avenida Paulista já estava cheia. É possível que certa “ansiedade revolucionária” tenha forçado paulistanos a sacrificarem o sacrossanto almoço de domingo por uma missão para eles ainda mais nobre que a família reunida em torno à mesa: “salvar o país”. Também é possível que a cobertura ao vivo de protestos que ocorriam logo pela manhã, em outras capitais, tenha empurrado para as ruas, antes do horário combinado, parte expressiva da população da maior cidade do país. Copacabana repleta de manifestantes às 11h deve ter ajudado. Imagens de cidadãos felizes envoltos nas cores nacionais, com crianças e policiais sorridentes, idem.

Nunca se viu a avenida Paulista tão cheia. Talvez nas paradas gays. Talvez no reveillón. Talvez em junho de 2013. Mas não dá para negar que havia um oceano de gente. Entrar na discussão sobre se eram 210 mil, como garante o DataFolha, recém alçado a oráculo da verdade pelos simpatizantes do governo, ou 1 milhão, como estima a Polícia Militar, é uma picuinha sem tamanho. Para efeitos comparativos com a marcha petista da sexta-feira, 13 de março, não é necessário recorrer às contagens do instituto ou da corporação. Se a ideia de alguém era medir forças, os que pediram “Fora, Dilma” foram incomparavelmente mais numerosos do que os que cobraram a permanência dela. Não estavam apenas na Paulista, mas também nas ruas adjacentes. Quem saísse alguns minutinhos da muvuca veria muitos verde-amarelos pela alameda Santos. E sabe-se lá onde mais.

A dinâmica da manifestação teve semelhanças com os dias finais das jornadas de junho, há dois anos, quando os movimentos de esquerda se viram rodeados de pessoas que jamais haviam sido vistas protestando. Gente andando pra lá e pra cá, alguns blocos coesos, gritarias localizadas, pluralidade de cartazes, desfile de reivindicações. Uma profusão de individualidades que, se se colocasse a dialogar entre si, não chegariam a um consenso sobre tantas “urgências” políticas, com exceção da mais urgente de todas: fim da corrupção e destituição de Dilma, que para eles parecem ser ingênuos sinônimos.

“Não se pode acabar com a corrupção sem acabar com o PT. O PT é a corrupção”, definiu um jovem rapaz que discursava no trio elétrico do Movimento Brasil Livre. “Vocês acham que a Dilma sabia? Sabia, né? E se ela sabe, é mais um crime que vai configurar o impeachment.”

Havia bastante sintonia entre quem falava do alto dos caminhões e as pessoas que estavam no asfalto, especialmente nas primeiras horas, em que a energia estava a mil e pequenas divergências podiam ser ignoradas em favor de um ideal unificador: “Fora PT” foi um dos gritos mais ecoados ao longo de todo o dia. A execução do hino nacional a torto e a direito, com todas as estrofes, até o fim, funcionou como outro elemento agregador aos manifestantes. “Esta é a música que nos unifica”, disse um dos oradores da tarde.

Muitas das ideias defendidas no domingo pareciam impensáveis três ou quatro anos atrás. A visão de que o PT é uma força a serviço do comunismo global, prestes a transformar o Brasil em uma extensão do eixo Cuba-Venezuela, já não é palavra de ordem de meia dúzia: arrasta milhares. “We won't be another Venezuela”, dizia um entre centenas de cartazes alusivos ao suposto perigo representado pela conexão entre Lula, Fidel Castro e Hugo Chávez. O Foro de São Paulo, articulação de partidos de esquerda latino-americanos, voltou a ser lembrado como tentáculo da ameaça soviética nestas bandas do mundo.

A ojeriza ao vermelho do PT, por outro lado, não representa exatamente uma novidade. “É uma cor tão bonita, pena que foi sequestrada pelos petralhas”, lamentava um rapaz do alto do carro de som. O sentimento ruim pelos tons escarlates e a interpretação sobre o que ela representa parecem seguir intactos desde a Guerra Fria para parte dos manifestantes do domingo. Novo é o fato de que multidões gritem ao mesmo tempo: “A nossa bandeira jamais será vermelha”. Eram muitos e, por muitas vezes, a demonstrar qual é a cor mais quente do momento político nacional.

VPR é, para a história brasileira, sigla que designa a Vanguarda Popular Revolucionária, grupo de resistência à ditadura que teve Dilma Rousseff como integrante. Para quem esteve na Paulista, porém, VPR é Vem pra Rua, um dos movimentos que coordenaram o ato com seu trio-elétrico-ostentação estacionado na transversal sobre quase toda a largura da avenida. A enorme carreta exibia uma faixa igualmente grande: “O Brasil não é do PT. É dos brasileiros. Fora Cuba. Fora Venezuela.” Enquanto isso, um rapaz vestido de Tio Sam, com cartola e bandeira dos Estados Unidos, desfilava debaixo de inofensivos gracejos.

Outros caminhões agitaram a tarde de protesto verde-amarela. Cada movimento tinha seu próprio aparelho de som e os manifestantes circulavam entre os veículos, paravam, ouviam e interagiam quando lhes agradava. Frequentemente se cantava o hino nacional. Com menos assiduidade, mas com fervor parecido, rezou-se o pai-nosso. Também houve músicas do Legião Urbana (“Que país é esse”), O Rappa (“Vem pra rua”), Raul Seixas (“Aluga-se”) e Gabriel Pensador (“Até quando”). Um jingle gravado especialmente para o momento, “Impeachment”, de uma dupla chamada Os Reaças, embalou a rebeldia dominical ao lado de uma versão antipetista de “Caminhando”, de Geraldo Vandré: “Dilma, vai embora, que o Brasil não quer você. Aproveita e leva o Lula e os vagabundos do PT.”

Entre preces e canções, apareciam palavras de ordem. Clássicos da esquerda latino-americana, como “O povo unido jamais será vencido”, foram ressignificados. Os manifestantes riram e saltaram ao bradar “Quem não pula é comunista”. Xingamentos machistas contra Dilma não deram o tom, ainda que tenham sido ouvidos aqui e acolá. “Eu vim de graça”, em referência à ajuda de custo paga pela Central Única dos Trabalhadores a parte dos manifestantes no protesto governista de sexta-feira, teve força. Alguns complementavam o grito com “E ainda paguei metrô”, em referência aos ônibus fretados pelos sindicalistas. “Lula, cachaceiro, devolve meu dinheiro” foi bastante entoado, inclusive por animados jovens que secavam no bico uma garrafa de catuaba, respingando as camisetas brancas com a inscrição “A culpa não é minha, votei no Aécio”.

A turma saudosa da ditadura se identificou rapidamente com os caminhões parados em frente ao parque Trianon. Eram dois e ostentavam faixas como “Intervenção militar já. O Brasil exige ordem e progresso” ou “Impeachment é coisa de otário, patriota mesmo exige intervenção militar”. Como nos anos 1960, bradaram contra os comunas. Um rapaz lembrou que na Coreia do Norte existe canibalismo. Outro xingou um tal “Che Pega na Vara”, em referência ao revolucionário argentino, a quem criticou por ser homofóbico.

Entediados com a falação, os partidários do golpe logo concordaram em deixar a companhia dos frouxos que pediam reforma política na Paulista e que, por vezes, vaiavam a estética milica, para caminhar até o quartel mais próximo, onde pediriam à caserna que resolvesse a questão. “Viva o Brasil. Militares, nós amamos vocês. Militares, nós precisamos de vocês. A nação está em perigo. Os militares são nossos anjos da guarda.”

Uma senhora, provavelmente com mais de 60 anos, brindava sorrisos angelicais para câmeras que a filmavam exibindo uma cartolina com os dizeres “SOS Militares”. Depois, dizia: “Quero que a Dilma vá para o inferno”. A frase, provavelmente, não coube no cartaz e precisou ser trazida verbalmente ao protesto. Minutos depois, ela subiria ao caminhão para confessar as saudades da ditadura. “O Brasil virou uma bagunça. Todo mundo só canta e dança funk. Brasília tem uma corja de vermelhinhos. Estou cansada disso. As crianças estão perdendo a referência de tudo, de pátria, de família, de Deus.”

Cuidado com as palavras, argumentos embasados e discursos elaborados, por sinal, não foram o forte da manifestação de domingo. Do chão da rua e especialmente do alto dos caminhões jorravam conclusões estapafúrdias e informações de fácil contestação. Uma avalanche de besteiras e mentiras que não são exclusividade dos antipetistas, mas que por eles foram carinhosamente cultivadas nas redes sociais até desabrocharem na avenida como flores rasteiras verde e amarelas.

Marcello Reis, fundador do grupo Revoltados Online, trajou terno para comandar os liderados. A elegância, disse, era porque minutos antes estava conversando com os Estados Unidos. “Acabei de receber a informação de que Washington vai provar que as urnas foram fraudadas”, bradou, para delírio geral, sem dar maiores detalhes sobre com que Estados Unidos falara e qual Washington provaria a fraude eleitoral. Logo depois, chorou de emoção, ladeado por faixas louvando o heroismo da Polícia Federal e do juiz Sérgio Moro, da Justiça Federal de Curitiba, responsável pelas investigações na Petrobras.

Tirando todas as faixas contra Lula, Dilma e o PT, o ministro José Antonio Dias Toffoli foi o homem mais citado da tarde – o que não significa que tenha sido um campeão de audiência, longe disso. Alguns manifestantes estavam indignados pelo fato de um ex-advogado-geral da União e ex-advogado de José Dirceu ser agora o relator do inquérito relativo à Operação Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal. Se o protesto ocorresse quatro anos atrás, provavelmente haveria uma grita contra Joaquim Barbosa, relator do mensalão, hoje convertido em herói nacional e paladino da justiça.

Depois de Toffoli, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, foi lembrado em alguns cartazes e discursos. Uma cartolina dizia “Je Suis Janot”, em curiosa referência aos atentados terroristas que vitimaram cartunistas do jornal Charlie Hebdo na França. Parte dos manifestantes apoiam o chefe do Ministério Publico por ter oferecido denúncia contra vários políticos acusados de corrupção. Outros o odeiam por não ter incluído o nome de Dilma Rousseff na lista de suspeitos encaminhada ao Supremo. “A presidenta foi citada onze vezes nas delações”, indignaram-se. Menções aos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros, réus em potencial da Lava Jato, foram ínfimas.

Se algum policial militar um dia sonhou em ser herói, esse sonho pôde ser realizado no domingo. Membros da tropa de choque nunca tiveram de concordar com tantos abraços e apertos de mão, nunca receberam tantos sorrisos e tapinhas nas costas durante um protesto. Nunca foram tão requisitados para fotos. A satisfação dos homens fardados era flagrante. Alguns se esforçavam para sustentar a cara fechada do ofício, mas, por mais que tentassem manter-se carrancudos, uma risadinha escapava pelo canto da boca. Carregaram crianças no colo. Posaram para selfies. Uma mulher fez questão de demonstrar excitação após sentir o toque da mão de um soldado sobre seu ombro nu. E ruidosos aplausos recebiam pequenas patrulhas que caminhavam pela multidão.

Frente a uma manifestação inédita, o governo ofereceu, mais uma vez, respostas convencionais. Os ministros da Justiça, José Eduardo Cardozo, e da Secretaria-Geral da Presidência da República, Miguel Rossetto, foram os escolhidos para dar as caras após o protesto, ainda no começo da noite de domingo. Garantiram que o Palácio do Planalto tinha plena consciência de quais vontades foram expressadas nas ruas e por quem. Voltaram a dizer que a contestação e as crises foram superadas várias vezes ao longo de doze anos. E prometeram, novamente, que Dilma apresentará nos próximos dias um extenso pacote anticorrupção, a exemplo do que foi dito na esteira das manifestações de junho de 2013 e durante todo o desenrolar do processo eleitoral.

Enquanto os ministros falavam na televisão, panelas voltavam a bater pelo país. E Aécio se deixava ser fotografado na sacada de seu apartamento, em Ipanema, no Rio de Janeiro, com uma camisa verde-amarelo. Mais tarde postou um vídeo no Facebook basicamente repisando as louvações utilizadas durante a campanha, interpretando que os brasileiros agora se reencontram com valores e virtudes. “Depois de refletir muito, eu optei por não estar nas ruas neste domingo, para deixar muito claro quem é o grande protagonista destas manifestações. E ele é o povo brasileiro, o povo cansado de tantos desmandos, cansado de tanta corrupção.”

Marina Silva, que antes dos protestos havia cobrado respeito à vitória eleitoral de Dilma Rousseff e adotado tom mais cauteloso, comparou o protesto ao espírito presente nas jornadas de junho, classificando-o como “livre e autoral”, mas desta vez com um objetivo claro de se colocar contra o governo e a corrupção. “O povo brasileiro exige uma posição da presidente da República em resposta aos seus justos e legítimos reclames. Esta, sim, é a hora de falar e dizer a verdade. Reconhecer os erros, assumir a responsabilidade por seus atos, propor soluções para os problemas, nada mais e nada menos que isso. Uma fala da presidente, não do marketing.”

Mas, quando veio, na tarde do dia seguinte, a fala da presidenta fez oferecer certezas de que a visão transmitida na véspera por seus ministros não era um caso à parte. Dilma repisou a necessidade de respeitar as urnas, a importância da democracia, a necessidade do combate à corrupção e da reforma política, a disposição de seu governo para o diálogo com quem queira dialogar. Não apresentou nenhuma diferença no tom usado nas últimas semanas, nos últimos meses, nos últimos anos, inclusive na acusação de que há na classe política partidários do “quanto pior, melhor”.

Reiterou o otimismo com uma suposta solidez democrática do país e um também suposto apego da população à construção do Estado democrático. Disse que governa para todos os brasileiros, independente de preferência partidária ou participação em manifestações contra o governo. E buscou a todo instante dizer que saberá reconhecer seus erros, sempre que indicados. “Ouvir é a palavra. Dialogar é a ação. O sentimento tem de ser de humildade e firmeza.” Desta vez, seu discurso não foi recebido com panelaços.

Depois de escutar a voz das ruas e dos palácios, é possível perceber que Dilma e seu Valter, o vendedor de fitinhas, têm pelo menos um ponto em comum: não querem ser Fla, nem Flu. Mas com uma diferença crucial. Enquanto a presidenta esconde as bandeiras vermelhas de quem a elegeu no ano passado e acena para seus detratores com as faixinhas verde-amarelas da conciliação nacional, o comerciante tem plena consciência de que a neutralidade não é boa em se tratando de ganhar a vida com política.

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João Peres, jornalista e editor do Nota de Rodapé. Tadeu Breda, jornalista, especial para o NR. Imagem: Paulo Pinto | Fotos Públicas

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Uma presidenta a caminho do Campo da Pólvora

Dilma parece dirigir tranquilamente rumo a uma explosão. Alckmin e Eduardo Cunha têm algumas toneladas de dinamite para emprestar. Estamos vivendo uma situação pré-revolta?

por João Peres*

Poucas imagens definem tão bem um governo. Poucos governos são tão infelizes em seu autorretrato. Em 11 de junho de 2014, Dilma Rousseff foi a Salvador. Era um evento de grande força. Depois de anos e anos de enrolação entre prefeitura e governo da Bahia, o metrô da capital entrava em operação graças aos recursos enviados pela administração federal. Uma data perfeita: às vésperas do começo do Mundial, um retorno efetivo dos investimentos provocados pelo evento da Fifa. Uma agenda positiva a poucos meses de eleições que se avizinhavam difíceis em todos os níveis.

Os assessores de Dilma planejaram uma foto tradicional para o momento: coloca-se a presidenta dentro da cabine de operação de um trem, ela sorri, acena e vai embora, com missão cumprida. Nenhum assessor ou ministro, porém, parece ter notado uma piada de caráter tragicômico – ou, se notou, não contou. O fotógrafo Roberto Stuckert Filho, integrante do clã que há décadas registra os poderosos de Brasília, flagrou a presidenta a caminho do Campo da Pólvora. A culpa não é dele, obviamente. Mas ninguém por ali parece se ter dado conta de que o nome da estação a que se dirigiria aquela composição era esta infeliz coincidência do destino. “Em teste”, “Viva Salvador”, “Metrô”: qualquer nome escrito no letreiro serviria. Até “Bonde do ACM” estaria melhor. Havia meia dúzia de nomes de outras paradas que poderiam ter sido usados. Não, não foram: Dilma comandou um trem que rumava para um lugar, digamos, explosivo.

Pesquisar fotos da presidenta para uso em reportagens sempre foi difícil. No período Lula havia sempre dezenas e dezenas de opções. Com Dilma, não. Predominam as imagens carrancudas, reveladoras de um corpo endurecido, sem grande capacidade de expressão. Quando não se vai por esse caminho, a seleção oficial de imagens prioriza as que ela aparece no corpo a corpo, em fotos posadas ao lado de populares ou de uma claque que claramente não está à vontade com a cena.

Durante as eleições, a equipe de campanha tentou fazer de Dilma o seu oposto: não havia nos álbuns de imagens uma foto que não mostrasse um largo sorriso. Era uma candidata eternamente sorridente numa campanha em que havia poucos motivos para isso. Quem procurava por retratos simbólicos da gravidade do momento tinha de apelar a agências de notícias, ainda que, por vezes, estas pecassem por fazer o caminho exatamente contrário ao da versão oficial.

E eis que um belo dia, no programa eleitoral na televisão, surgiu a foto de Dilma na inauguração do metrô de Salvador. A repetição de um erro simbólico revela o que todos já sabemos, ou seja, que a assessoria de comunicação do entorno da presidenta é distraída, para dizer o mínimo. Olhada em perspectiva, aquela imagem intensifica seu caráter tragicômico. A presidenta exibe seu sorriso amarelo, alheia a seu entorno, na sua antinatural alegria. Junto com ela está a maquinista. Não está ali Aloizio Mercadante, o ministro-chefe da Casa Civil, afeito a aparições públicas forçadas por sua cada vez menos implícita pretensão de ser candidato ao Planalto em 2018. Não estão ali seus ministros das Cidades, do Planejamento, da Fazenda. A presidenta está sozinha enquanto toma o rumo da explosão.

Não parece que se passaram apenas oito meses desde que foi feita. A fotometáfora produzida ao acaso pela equipe presidencial não poderia ser mais adequada a nosso presente. Dilma dirige um trem que vai para o Campo da Pólvora sem que tenha sido informada por seus assessores. Está ali, dirigindo alegremente, sem notar que caminha à santíssima merda. Quem está do lado de fora abana as mãos, dá tchauzinhos, torce para que os explosivos estejam bem longe do ponto de partida para que se salvem.

O problema é a impressão de que estamos todos dentro daquela cabine. Ou quase todos, porque os mais espertos sempre se salvarão. Dilma, com o devido respeito, não cabe nesse último grupo. Como todos sabemos, faltam-lhe comunicação, habilidade política, rapidez administrativa, confiança nos outros e uma série de outros quesitos que fazem do presidente um estadista. Dela nem pedimos tanto. Não era possível esperar nada além de um aperfeiçoamento do período anterior.

Caro eleitor de Aécio Neves, terás mais ajuste fiscal do que querias. A pesquisa Datafolha divulgada no último fim de semana apenas quantifica o que já se sabia: quando o candidato vencedor implementa a agenda do candidato derrotado, causa um estrago imenso. Nela, a taxa dos que consideram o governo Dilma ótimo ou bom despenca de 42% para 23%, e os que o enxergam como ruim ou péssimo vão de 23% para 44%. Sim, uma exata inversão de curvas. A maior queda se observou entre os cidadãos com escolaridade e renda mais baixas, desmentindo pela enésima vez a tese de Fernando Henrique Cardoso de que os “grotões” são mal informados e acéfalos. A presidenta perdeu força também no Nordeste e no interior, regiões que lhe foram extremamente favoráveis na disputa eleitora.

A plataforma de corte de direitos trabalhistas, aumento de impostos e redução de investimentos fez, como era fácil prever, com que a população reforçasse a ideia de que entre o discurso e a prática nada existe. 46% dizem que Dilma falou mais mentiras do que verdades durante as eleições, 47% a consideram desonesta (contra 39% que pensam o contrário) e 54% dizem que é falsa, um crescimento de 41 pontos de 2012 para cá.

As explicações encontradas pelo entorno presidencial para a queda drástica na aprovação vão do ridículo ao bizarro. "Já convivemos com períodos de baixa aprovação nesses últimos 12 anos e mostramos que, com trabalho, somos capazes de recuperar", disse o ministro Miguel Rossetto, da Secretaria-Geral da Presidência, esse cargo que parece ter sido criado para transmitir explicações implausíveis.

Mais infeliz é o argumento de que faltou comunicação para deixar claro ao povo que os ajustes feitos agora são necessários para manter a trajetória de criação de postos de trabalho e aumento de renda. Claro, faz todo sentido: todos vamos entender que um pouco a mais de desemprego e um pouco a menos de dinheiro são bons, especialmente para garantir que o mercado financeiro aumente seus lucros mediante o aumento da taxa básica de juros e o desestímulo ao investimento produtivo.

Dilma não dá sinais de que tenha capacidade para reverter o divórcio que está ajudando a promover entre a população e o mundo da política institucional. É bem verdade que essa separação começou muito, muito antes que ela surgisse em cena, mas o cruzamento de uma série de fatores históricos e conjunturais pode fazer com que seja agraciada com o direito de jogar a pá de cal numa relação desgastada. A água de Geraldo Alckmin e a Câmara de Eduardo Cunha se somarão à herança mal resolvida das manifestações de 2013 e ao inesperado desgaste da imagem presidencial, catapultado em novembro e catalisado em janeiro.

Se a sondagem divulgada pela Folha de S. Paulo guarda espaço para uma surpresa, esta reside no fato de que Alckmin e Fernando Haddad também sofreram um enorme desgaste. Cada um por seus motivos, voltam todos a mergulhar na vala em que estiveram metidos em junho e julho de 2013. Vejamos os resultados: Dilma foi reeleita de forma sofrível graças à ajuda de uma militância que trabalhou aguerrida e calada, e aos esforços de alguns quadros políticos graúdos; Haddad perde a cada dia mais apoiadores e sofre resistências dentro de seu partido, não sabendo nem mesmo se concorre a um novo mandato em 2016; Alckmin ganhou mais um mandato de governador com os dois pés nas costas.

A conclusão que se tira disso é a óbvia: o tucano, ou as forças que ele representa, sairá deste buraco do mesmo jeito que entrou. Dilma, Haddad e o PT, não. A incapacidade de autocrítica continua como regra entre o comando petista, mesmo depois que as eleições do ano passado mostraram um partido em decadência após um período de crescimento vertiginoso garantido por um líder político único. Passado o turbilhão, as correntes que demandavam uma refundação foram escanteadas, vencidas por aquelas que consideram que o mais importante é ajeitar-se na máquina do poder e garantir um lucro individual em detrimento de uma história de lutas e avanços.

O PT, ou os quadros que mandam no PT, continuam a fingir que não são meros emergentes no meio dos quatrocentões. Hoje são chamados para as altas rodas porque bancam o baile e as bebidas. Amanhã, afastados do poder emanado do dinheiro, voltarão a frequentar o rala-coxa e o batidão, onde receberão olhares reprovadores de quem se sente traído.

“Falando francamente: muitos de nós estão mais preocupados em manter – e se manter – nessas estruturas de poder do que em fazer a militância partidária que estava na origem do PT.” Luiz Inácio Lula da Silva parece ser o único líder político que reúne os predicados necessários para algum resgate da crebilidade das instituições. Durante o discurso pelos 35 anos de seu partido, celebrados em Belo Horizonte no último sábado, ele começou mal. Apostou na retomada do Fla-Flu eleitoral, aquele que diz que a oposição não tem moral algum para criticar um partido que transformou o país. Valeu-se da ideia de que os derrotados nas urnas estão buscando abertamente a via da instabilidade, o que é verdade, mas não é suficiente: a via da instabilidade é mantida aberta por um governo que em três meses contraria todo o discurso que o elegeu, que permite o fisiologismo e a corrupção, que perde o poder da criatividade.

Lula voltou a deixar claro que entende, ao menos nas linhas gerais, o que está acontecendo: seu partido perdeu contato com a sociedade, eliminou as pontes que o garantiam o papel da inovação, frustrou admiradores novos e antigos. “Há muito mais preocupação em vencer eleições, em manter e reproduzir mandatos, do que em vitalizar o partido. As direções, tanto as regionais quanto a nacional, ficaram prisioneiras dessa lógica. Tornaram-se burocráticas, pouco representativas da nossa base social, ou então apresentam uma representação meramente artificial de setores sociais.”

Se os números do Datafolha estiverem corretos, e os dados da realidade nos permitem dizer que são verossímeis, temos uma repetição de junho de 2013 em termos de desgaste do sistema político. Por enquanto, um junho sem ruas. Vivemos uma situação pré-revolta? Se tivermos uma revolta, como será? Certamente não será a sonhada pela esquerda, aquela que conduz a uma situação protorrevolucionária capaz de finalmente assentar bases para a construção de um novo Estado – por consequência, de um novo sistema político. A famosa “voz rouca das ruas”, capturada há quase dois anos por força da mídia tradicional, transforma-se na expressão mais bruta de nosso sistema educacional político inexistente. Na hora H, sem água, sem emprego, com inflação, a imensa maioria da população não terá como expressar o que deseja que mude, por qual caminho, com quais forças. Junte-se a isso uma vontade louca de golpe branco e está feita a besteira.

“Que saiam todos”, dirão, e a resposta do outro lado será uma reconfiguração que permita deixar tudo como antes, com a diferença de que o emergente terá sido expulso do clube dos quatrocentões. Lula poderia mudar essa realidade. Em inúmeras oportunidades falou sobre a necessidade de refundação do PT. Mas reverter essa situação depende de uma característica que nunca foi a sua principal: a ruptura. As informações de bastidores têm dado conta de que o ex-presidente foi excluído dos debates governamentais pela sucessora. Se for assim, abrem-se muitas alternativas. Lula pode trabalhar por dentro para miná-la, o que leva ao risco de que acabem todos tragados. Pode romper publicamente, tentando levar consigo o PT. Ou pode assistir de camarote. Seja com Dilma, seja com o PT, seja com os demais partidos, ele terá de mostrar ousadia para não entrar no trem que leva ao Campo da Pólvora.

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João Peres é jornalista e um dos editores do Nota de Rodapé 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

No primeiro discurso, Dilma vai da repetição exaustiva à incoerência da justificativa


Presidenta rompe mês de silêncio com explicação de que ajuste fadado a provocar recessão e desemprego vai fortalecer projeto calcado em criação de postos de trabalho e crescimento. Legitima Levy e aumenta divórcio entre política e realidade


por João Peres*

Quem esperava por sinais à esquerda terá de guardar o manto da ingenuidade no armário por mais algum tempo. O primeiro discurso de Dilma Rousseff após a posse serviu para manter boquiabertos os perplexos e alegres os sorridentes. Há quem diga que o período de campanha foi de um rico aprendizado para a presidenta. Não foram encontrados sinais que transformem em tese esta hipótese. Pelo contrário.

Os esforços de retórica feitos durante os 40 minutos da fala que abriu a primeira reunião do novo ministério são louváveis. Mas não mudaram em nada a tradição de uma repetição exaustiva de parcas realizações e de contradições gritantes entre discurso e prática. Dilma buscou demonstrar que um ajuste fiscal criador de desemprego e recessão redundará num fortalecimento do projeto iniciado há doze anos preconizando a abertura de postos de trabalho e o crescimento econômico. Os elementos apresentados no discurso são insuficientes para reverter a ideia de que caminhamos para uma gestão neoliberal com resquícios de um progressismo ao qual se está atrelado muito mais pela vergonha de uma ruptura definitiva que por compromisso ideológico real.

“Os ajustes que estamos fazendo, eles são necessários para manter o rumo, para ampliar as oportunidades, preservando as prioridades sociais e econômicas do governo que iniciamos há 12 anos atrás. As medidas que estamos tomando e que tomaremos, elas vão consolidar e ampliar um projeto vitorioso nas urnas por quatro eleições consecutivas e que estão, essas medidas, ajudando a transformar o Brasil”, afirmou a presidenta.

Quem realmente acredita que as eleições trouxeram mudanças positivas na relação entre Dilma e a arte de fazer política precisa olhar com mais carinho para o primeiro mês de gestão. A exemplo do que ocorrera em 2011, a agenda presidencial se concentrou em compromissos palacianos. No vazio deixado pela ausência prosperam o boato, a mentira, a perplexidade. Suposições surgidas no primeiro mês se mostraram, infelizmente, corretas.

Se o sumiço de Dilma havia transmitido a impressão de que Joaquim Levy é um superministro da Fazenda, a presença física acabou por confirmá-lo nessa condição. “Tomamos algumas medidas que têm caráter corretivo, ou seja, são medidas estruturais que se mostram necessárias em quaisquer circunstâncias. Vamos adequar, por exemplo, o seguro-desemprego, o abono-salarial, a pensão por morte e o auxílio-doença às novas condições socioeconômicas do país.”

O malabarismo do exercício do poder é difícil em qualquer situação. Pior ainda para alguém que tem dificuldades comunicacionais severas. Durante o discurso, Dilma fez enorme esforço para dizer que este é um governo de continuidade, mas também de mudanças, ou de mudanças, mas também de continuidade. “Nossa tarefa será manter o projeto de desenvolvimento iniciado em 2003, mas dar continuidade com avanços, dar continuidade com mudanças que lhe darão, que darão a este projeto ainda mais consistência, mais velocidade.”

A repetição exaustiva da exortação de valores supostamente intrínsecos a este governo não tem ajudado nesta missão. Até onde se possa enxergar, não há comprovação de que Dilma seja cínica. É mais complexo que isso entender como se chega a uma situação em que a prática contraria o discurso. Um entorno pouco sincero, capaz simplesmente de criar um mundo de magia, e o distanciamento da realidade provocado pelo poder são hipóteses a ser avaliadas.

“Nós devemos enfrentar o desconhecimento, a desinformação sempre e permanentemente. Vou repetir: sempre e permanentemente. Nós não podemos permitir que a falsa versão se crie e se alastre. Reajam aos boatos, travem a batalha da comunicação, levem a posição do governo à opinião pública, a posição do ministério, a posição do governo à opinião pública. Sejam claros, sejam precisos, se façam entender. Nós não podemos deixar dúvidas.” É como se Felipão pedisse a seus jogadores que fossem educados, polidos e trabalhassem pela valorização dos direitos humanos.

É bem verdade que governos do PT, via de regra, sofrem com boatos e mentiras difundidos via mídia tradicional. Sem entrar na discussão sobre o quanto os próprios petistas alimentaram, com ego e informações, estes segmentos da imprensa, o fato é que neste começo de segundo mandato não é preciso apresentar qualquer distorção para que parte da população se enfureça com o governo. “Por exemplo, quando for dito que vamos acabar com as conquistas históricas dos trabalhadores, respondam em alto e bom som: 'Não é verdade!' Os direitos trabalhistas são intocáveis e não será o nosso governo, um governo dos trabalhadores, que irá revogá-los.”

O que a presidenta tem feito é aumentar cada vez mais o abismo entre a política institucional e a população. Se o Ministério do Trabalho e Emprego avalia que dois milhões de brasileiros serão prejudicados pela mudança nas regras de concessão do seguro-desemprego, como pode ser verdade que os direitos trabalhistas são intocáveis? Entre o “nem que a vaca tussa” da campanha e a ação concreta existe uma distância imensa, que encontra semelhança no espaço existente entre a afirmação de que este é um “governo dos trabalhadores” e um ministério formado por Joaquim Levy, Kátia Abreu e Gilberto Kassab. Uma vala que Dilma vai abrindo entre si e a realidade: entre si e a sociedade.

Entre as intenções concretas do governo, apenas repetições: fazer do Brasil uma “pátria educadora”, sem explicar como chegaremos lá; acelerar a agenda de privatizações de portos, aeroportos e rodovias; encaminhar para o Congresso um pacote anticorrupção; e brigar para que seja realizada a reforma política. A respeito desta, de novo, nada além da exortação que indica que o país precisa mudar as regras atuais de eleição e de financiamento de campanha. Sem explicar como e por quê, sem peitar o Congresso, não vamos além do esforço retórico.

Ao repetir o repertório relativo à defesa da Petrobras, “a mais brasileira das empresas”, Dilma incorreu em mais uma contradição: “As empresas têm de ser preservadas, as pessoas que foram culpadas é que têm que ser punidas, não as empresas.” Maltrata, assim, uma bandeira de seu próprio governo. Em 2013 foi sancionada pela presidenta a Lei 12.846, que deu um passo fundamental no combate à corrupção ao prever que corporações envolvidas em atos de corrupção sejam punidas. A legislação representou um passo enorme no campo simbólico ao nos fazer recordar que o ato de corromper precisa de dois lados: sem a ponta que suborna, compra, direciona, não há agente público que possa se envolver em desvios – malfeitos, para ficar no jargão presidencial.

Há alguns fatores que podem explicar a ideia de preservar os dedos e cortar os anéis. São bastante pragmáticas. Uma diz respeito diretamente à Petrobras, que pode se tornar inviável a depender das decisões decorrentes da Operação Lava Jato. A outra, diretamente ligada a essa, reside na visão de que a colocação de obstáculos à participação do cartel brasileiro de empreiteiras em obras públicas teria efeitos catastróficos sobre a economia nacional, incapaz de substituir as atuais corporações sem um grande intervalo no qual se teria de frear investimentos e realizações. Fácil de explicar. Não para o governo Dilma.

A primeira aparição pública após a posse serviu para que a presidenta derretesse o resto de credibilidade existente junto aos setores progressistas. À exceção dos governistas incorrigíveis que se enxergam como integrantes de uma certa esquerda, é difícil imaginar grupos que a tenham apoiado na disputa contra Aécio Neves e que ainda nutram disposição de distorcer a realidade para encontrar justificativas para o que vem sendo realizado. As pontes estendidas gratuitamente durante a campanha estão implodidas.

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João Peres é jornalista. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Tempo de luta

por Nina Madsen*

O vento faz a curva e me sopra a saia, que seguro ligeiro para não passar por nenhum desnecessário constrangimento. Os cabelos emaranhados me entram na boca e nos olhos, que já ardem pela poeira levantada. Resisto ao impulso de praguejar e reconheço aquela presença forte que não pede passagem, anunciando tempos de luta.

Subo as escadas, passo pelo comitê eleitoral do candidato que não foi eleito. Fechado. Na foto, já sendo arrancada, ele aparece ao lado do outro candidato, que também não foi eleito. Sentada na soleira da porta fechada, uma senhorinha que todos os dias pede uma ajuda pelo amor de deus. A outra, mais jovem, negra também e mãe de um bebê de colo, hoje não estava.

Sigo. Atravesso a rua e vou subindo a galeria. Dia de feira, o rapa não vem. Blusas, bolsas, jaquetas, sapatos, desodorante e perfume, brinquedos, bijuteria, seu nome inscrito no arroz, eletrônicos, livros usados, frutas, açaí, quentinha pro almoço e o que mais se quiser comprar. O engraxate de expressão leve e resignada veste um paletó que é o dobro do seu tamanho e posso sentir a dignidade que habita o gesto de colocá-lo todos os dias, faça o calor que fizer.

Passa por mim uma jovem estudante correndo atrás de um rapaz a quem tenta abordar para convencê-lo a comprar chaveiros para ajudar a “salvar a família”. O rapaz nem olha, segue andando em seu passo acelerado. E ela acompanha e fala sem parar, imbuída daquela absurda missão. Dobro a esquina e me deparo com aquele corpo magro, muito magro, e praticamente nu. A pele amendoada, os cabelos amarelos em desalinho. Os olhos em desalinho, a alma em desalinho. Ela vaga por ali às vezes. E quando não aparece, me pergunto aflita se seguirá viva. Ela percebe meu olhar, ergue o queixo e passa as mãos pelos cabelos. Dignamente.

Entro no prédio – bom dia, dotôra. Me olho no espelho e me vejo tão branquinha, com essa minha cara de bem nascida, que imediatamente troco o não sou dotôra por um sorridente bom dia. Por aqui, dotôra, afinal. Suspiro. Entro no elevador. A subida é longa e lenta e sempre assenta em mim o peso da contradição cotidiana que carrego comigo, existindo dotôra naquele espaço de não-dotôres.

E começo a lida. Que não costuma trazer boas notícias, devo dizer. A vida em uma organização não governamental feminista no Brasil nunca foi exatamente fácil, mas, segundo me contam, já esteve mais farta de possibilidades de avanços. Elas hoje são escassas. Quando aparecem, nos agarramos com força. E enquanto não, a força é a de resistência para conter os absurdos multiplicantes que nosso sistema político tem conseguido produzir.

À beira desse segundo turno, é nesse espaço que situo meu voto. O espaço da (in)dignidade humana, das desigualdades e das contradições. O espaço tão reduzido para os avanços pelos quais lutamos. Não, não é o Brasil dos ovos de ouro. É certo que é um país diferente do que era 12 anos atrás. Melhor, apesar de tudo. Não melhor o suficiente, não melhor como poderia ser ou como gostaríamos que fosse. Mas melhor, com algumas escolhas acertadas que fazem muita diferença. Com outras tantas escolhas equivocadas, é verdade, que também fazem muita diferença e que embolam o meio de campo de um jeito complicado. A escolha desse segundo turno não me resulta difícil, é Dilma, sem dúvida. É uma escolha coerente com o esforço de conter retrocesso atrás de retrocesso. Mas é uma escolha que não me contempla inteiramente. Não responde às mudanças que gostaria de ver anunciadas e assumidas em compromisso.

Pelo menos daqui de onde vejo, muitas das mudanças de que também precisamos não vêm sendo anunciadas nos milionários programas do horário eleitoral gratuito e obrigatório. Por força de um sistema político escangalhado, de um conservadorismo crescente e fortalecido, elas não podem ser propagandeadas em campanha de candidato ou candidata que queira ser eleito. Pra se ganhar, tem que se jogar o jogo. Apertar a mão de quem não se deve. Silenciar o grito de quem não pode se calar. Pra ganhar, temos que perder muito (o que é, para mim, bastante devastador, tenho que admitir).

Meu voto em Dilma nesse domingo é um voto no contraditório que ainda identifico nesse governo. Um voto nos ideais ainda vivos e pulsantes de um partido sim de esquerda, um voto na voz crítica de seus militantes. Um voto nas frestas e nos poros por onde ainda podemos passar. Porque precisamos passar. Acima de tudo, acredito que o que irá decidir os próximos quatro anos no Brasil será a nossa capacidade de seguirmos organizadas, atentas e fortes, resistindo e insistindo. De estarmos prontas, sem medos que nos silenciem, sem amarras que nos impeçam o passo. Porque os ventos não sossegam: é tempo de luta.

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Nina Madsen escreve por gosto e necessidade desde que se lembra. Formada em Letras, caminhou pelos campos da educação até que se fez feminista e socióloga, por azar ou sorte. Integra o colegiado de gestão do Centro Feminista de Estudos e Assessoria, o CFEMEA, e colabora com a Universidade Livre Feminista. Aventura-se pelo avesso do mundo quinzenalmente, na coluna Crônicas do desmundo. *Desmundo aqui faz referência ao romance de Ana Miranda, uma lindeza literária que nos conduz pelas fronteiras entre o real e o onírico.

domingo, 19 de outubro de 2014

Clippagem amiga do NR para o debate eleitoral

por Thiago Domenici

Faço aqui uma seleção de textos que considero interessantes para o debate em torno das eleições. São avaliações de pessoas de vários espectros ideológicos e políticos, sobretudo, mais à esquerda, por força das características desse blog e desse editor. O que está aí considero poder ajudar a clarear as ideias sobre o cenário conjuntural do primeiro e segundo turno das eleições. Sobretudo agora, nesse clima de polarização PT-PSDB onde vemos uma avalanche de informações.
ARTIGOS
MATÉRIAS | NOTÍCIAS | ENTREVISTAS
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Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Dilma e Joaquim: uma mulher e um homem negro no poder


por Cidinha da Silva*

Dilma é mulher e por isso, mesmo na condição de chefe de estado, foi alvo de xingamentos de ordem sexual durante a abertura da Copa do Mundo no Brasil, oriundos da ala VIP, onde se empoleiram os endinheirados beneficiados por ingressos gratuitos, simplesmente porque sua presença enobrece os eventos.

Passados os xingamentos orquestrados pela elite econômica e cultural branca presente ao estádio, a Presidenta foi defendida por mulheres (nenhuma surpresa) e parcos homens que o fizeram mais por respeito a uma senhora (símbolo da mãe, da mulher de família), do que por compreenderem de maneira profunda o teor destrutivo das representações sexistas que estão na base da alastrada e duradoura violência contra a mulher e do feminicídio, recurso vil empregado por aqueles que não atribuem qualquer valor às mulheres e à sua vida, justamente por serem mulheres e por isso, matam-nas ao mínimo sopro contrário à vontade do macho soberano.

Joaquim é um homem negro, dirigente da mais alta corte de justiça do país, achincalhado por uma entidade de classe porque um advogadozinho, membro da entidade, em busca dos holofotes destinados aos factoides políticos, desrespeita o Presidente do STF, ameaça “pegá-lo” na rua, grita dentro do Tribunal, não aquiesce ao chamamento ao equilíbrio, ao respeito às pessoas, às regras de boa conduta e à casa. Joaquim é um homem negro íntegro que reage, faz valer sua autoridade como Presidente do STF, não capitula diante do status quo que tenta acuá-lo na camisa de força de um dito temperamento irascível.

Pedagógico é observar como até a masculinidade de Joaquim é subalternizada por seus detratores, pois, de que outro homem, senão de um homem negro, se esperaria a recepção passiva a um homem (branco) que lhe pusesse o dedo no nariz e o ameaçasse em seu próprio posto de comando? Ademais, soube-se mais tarde, pelo depoimento dos seguranças que interceptaram a ação midiática do advogado, que ele estava visivelmente alcoolizado e que, se estivesse armado, “atiraria na cara do Presidente”. Mas, ainda assim, a entidade de classe conseguiu igualar a reação correta, altiva e preventiva de Joaquim Barbosa a práticas da ditadura civil-militar, porque, aos olhos deles, o homem de masculinidade subalternizada é quem deveria aquiescer diante um sujeito qualquer.

Dilma e Joaquim têm em comum a ocupação de um lugar inusitado de poder e o desconserto generalizado causado pela presença de ambos nesse lugar. A escória elitista não os engole porque são exemplo positivo para a raia miúda, porque as meninas hoje brincam de ser Presidenta, vestem as bonecas como Dilma e as bonecas presidem. Porque Joaquim Barbosa inspira milhões de mulheres e homens negros. Porque ele representa a possibilidade real de que pessoas negras ocupem postos de comando e promovam transformações simbólicas e concretas na vida material e na expectativa de uma vida melhor para os seus.

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Carta a presidente Dilma Rousseff

por Izaías Almada*

Exma. Presidenta da República Federativa do Brasil, Sra. Dilma Rousseff.

Venho por meio desta carta aberta pedir que a senhora, fazendo valer os direitos que a lei lhe confere e, sobretudo, num gesto de grandeza humana, como tem demonstrado em outros atos do sua gestão, conceda ao deputado e cidadão, José Genoino Neto, o indulto de natal, permitindo-lhe voltar ao convívio de seus familiares e assim cuidar da sua saúde, direito inalienável de qualquer ser humano. Sei que muitos outros cidadãos e cidadãs serão beneficiados pelo indulto. Que José Genoino Neto possa estar entre eles.

Respeitosamente,


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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Mantém no NR a coluna mensal Pensando Alto

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Nesta semana que passou

por Ricardo Sangiovanni*

Nesta semana que passou, as crianças evangélicas não quiseram fazer o dever de casa sobre cultura africana.

Jair Bolsonaro deu um murro na barriga de Randolfe Rodrigues.

Pastor Lucinho cheirou a bíblia, para mostrar à juventude que a bíblia dá mais prazer do que as drogas.

Marco Feliciano chamou a polícia para prender as meninas se beijando no meio do culto. Disse que oraria pela salvação delas.

O dono da pasta Barilla falou que não quer saber de vender macarrão para viado.

A fixação anal – sem meias palavras: a mania de cu – da Bahia contemporânea virou matéria de um jornal.

E os sádicos de um outro fizeram a dondoca rica trocar a limusine pelo ônibus, e a empregada dela andar por um dia de carro, só para ver como é que é.

E Dilma – essa foi a melhor – Dilma encontrou Dilma Bolada.

Nesta semana que passou, estive preocupado em arranjar uma casa para morar; descolei um trabalho de jurado de concurso literário infanto-juvenil; e o resto do tempo passei desperdiçando minha saúde com um par de serviços que em nada alterarão os desarranjos desse mundo, em troca de trinta dinheiros, nada mais.

Então ocorre que, misturando isso aí tudo, minha cuca ferveu antes que eu pudesse reunir coisa sequer que prestasse em grau de concorrer com as anedotas desse museu de grandes novidades.

Nesta semana que passou, vocês não me levem a mal, meus amigos, mas eu passei.

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*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador. 

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Ínfimo glossário contemporâneo 2


por Júnia Puglia Ilustração Fernando Vianna

Aborto – interrupção voluntária da gestação involuntária; é proibido, mas não adianta proibir, é feito assim mesmo, colocando em risco a vida de uma quantidade absurda de mulheres pobres; entendeu?

Bafômetro – engenhoca que mede, pelo bafo, a quantidade de álcool que habita o corpo da pessoa, mesmo que a própria não tenha bebido nada alcoólico, tadinha

Casamento civil – sociedade matrimonial cuja reputação andava em baixa, mas foi salva pelo movimento LGBT

CPI do Cachoeira – exuberante e copiosa cascata

Coreia do Norte – país asiático dirigido por uns sujeitos com cara de Playmobil que estão chamando os americanos para uma guerrinha nuclear; não tem a menor graça

Crossdressing – algo como “vestimenta contrária”, adotada por algumas pessoas que decidem concretizar a imagem de si mesmas que veem no espelho (ver “Laerte” abaixo); sacode neurônios até de quem os tem em mínima quantidade

Daniella Mercury – popstar baiana que dá show de coragem e integridade e ainda puxa o tapete de quem se ocupa da vida alheia

Dilma Bolada – minha Presidenta linda, chique, inteligente e competente

Elen Oléria – um sol brasiliense

Email – modalidade de comunicação digital em vias de extinção, por incrível que pareça a quem datilografava cartas com quatro cópias carbonadas há escassos 25 anos

Empregada doméstica – figura remanescente da escravidão, que foi extinta em 1888, pero no mucho (ver “madame” abaixo); definidora da sociedade brasileira como ela é; finalmente adquire o status de trabalhadora plena (!!!); o país tem com ela uma dívida incalculável

Família – papai-mamãe-filhinhos, papai-papai-filhinhos, mamãe-mamãe-filhinhos etc. etc. que se amem e se cuidem

Feliciano – furacão de estupidez, ignorância e grosseria que se situou no balcão de negócios da Câmara dos Deputados e não para de produzir catástrofes

Imunidade tributária – absurdo e abjeto privilégio de igrejas e instituições religiosas; por que elas e não você ou eu?

Lado a lado – um surto na teledramaturgia nacional; novela situada na década de 1900, mostrou as relações entre brancos e negros como elas são, com honestidade, clareza e sensibilidade; não podia ser mais atual; tudo que é bom dura pouco

Laerte – apenas o máximo

Madame – espécie em desespero com a possibilidade de ter que lavar as próprias calcinhas e assim detonar as unhas, entre outras terríveis ameaças que pairam no ar dos ambientes livres de escravas domésticas

Margaret Thatcher – amigona de Reagan e Pinochet; agora formam o Trio Parada Dura do sétimo inferno

Mimimi – mimimi mimimi mimimi

Nelson Mandela – meu grande e único herói

Relação homoafetiva – politicamente correto e muito pedante

Tomate – falsa leguminosa originária do México, essencial na culinária de muitos países; recentemente promovida a caviar no Brasil

TopBlog 2012 – prêmio brasileiro para blogs supermega duca

Yoani Sanchez – quem?

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

 Leia também: Ínfimo glossário contemporâneo 1

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Os dois postes de Lula


Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, colunista do NR, atualmente mantém a série A Fábrica de Brinquedos Pau-brasil. + do autor

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Qual classe média, presidenta?

 Geraldo e Dilma em evento na semana passada em SP
A afirmação feita por Dilma Rousseff na última semana em São Paulo é sintetizadora da visão que a presidenta vem expondo ao longo de pouco mais de um ano de mandato.

“Queremos um país com pessoas ricas e prósperas, mas principalmente um país de classe média. E ninguém é classe média se não tiver sua casa. Ninguém”, afirmou ao lado do amigo tucano Geraldo Alckmin durante assinatura de convênio para o programa Minha Casa, Minha Vida 2.

A frase mostra que a presidenta, a exemplo dos caciques do PSDB, confunde cidadania com consumo, conceitos nada parecidos. Não há problema algum na intenção de compra da casa própria, e é algo economicamente estimulado em uma cidade como São Paulo, em que o valor do aluguel pode superar o valor da parcela do financiamento imobiliário.

Mas daí a achar que se trata de um pré-requisito para ingressar na classe média guarda-se uma distância. Ser classe média, no caso brasileiro, deveria significar a garantia financeira de cumprimento das funções básicas (alimentação, vestuário) e o acesso aos serviços públicos fundamentais (saúde, educação, transporte). Dilma, porém, parece nutrir uma visão não muito diferente da patética classe média resumida na música feita em 2006 por Max Gonzaga.
“Sou classe média
Compro roupa e gasolina no cartão
Odeio coletivos
E vou de carro que comprei a prestação”
Em vez de valorizar propostas coletivas de construção da cidadania, Dilma parece preferir iniciativas galgadas na conquista individual, estimulando ao crescimento da massa trancafiada em seus automóveis nas grandes cidades e em condomínios cercados em todas as demais.

Obviamente, não se trata de desprezar realizações do primeiro ano do novo mandato, ainda que poucas e, em geral, de continuidade e melhoria da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva.

Nesta linha de pensamento, e de novo próxima ao ideário tucano, Dilma prioriza as liberdades individuais às liberdades coletivas, o que explica o veto ao kit contra homofobia produzido pelo Ministério da Educação.

"Não aceito propaganda de opções sexuais. Não podemos intervir na vida privada das pessoas" foi a infeliz afirmação feita à ocasião, submetendo o dever do Estado de combater o preconceito ao “direito” individual de ser homofóbico.

Com um balanço assim, difícil imaginar que Dilma queira avançar na regulação da comunicação. Até hoje evitou posição clara sobre o assunto. Nas poucas vezes em que comentou indiretamente a questão, no entanto, deu a entender que só gosta do controle remoto, abrindo mão do papel do Estado de regular um setor que descumpre quatro artigos da Constituição. Haja equívoco.

João Peres, jornalista, mantém a coluna mensal Extremo Ocidente no NR

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Cada vez mais patético

A cada dia do governo Dilma Rouselff, fica mais patético o patético vídeo pit bull da patética campanha do PSDB

Transcorridos 150 dias do governo Dilma Rousseff, a esquerda aguarda sentada por sinais de que os rumos mudarão. Enquanto isso, assiste de camarote ao avanço conservador no Palácio do Planalto. Comissão da Verdade e regulação da comunicação, consensos ocos de primeira hora, são tratados a banho maria.

A esta altura, o apocalíptico vídeo lançado “na miúda” pelo PSDB durante a campanha eleitoral de 2010 soa cada vez mais digno de gargalhadas. Se há ainda algum motivo para rir em relação ao governo Dilma, eis-lo. As imagens que mostravam que o presidente Lula não conseguiria segurar os pit bulls do PT, uma alusão aos “radicais” do partido, soam a cada dia mais patéticas.

Se àquela altura não havia motivo para acreditar na estapafúrdia hipótese, hoje a peça publicitária poderia ser refeita para mostrar que o difícil é segurar os exaltados do PMDB, do PR, do PTB, do PSC, do PDT e de tudo quanto é P, mais ou menos conservador, que integra a base aliada.

Colocado em posição incômoda pelos próprios erros, pelos erros do PT e pelo erro de acreditar na aliança com partidos que representam o que há de pior no país, Dilma vai desenhando um primeiro ano de gestão absolutamente conservador. Não faz falta falar sobre a decisão de privatizar aeroportos.

A essa altura, um vídeo igualmente patético que quisesse parecer verossímil poderia mostrar a presidenta rompendo com Lula, mas não para instalar o “autoritarismo de esquerda” no país, como queriam fazer crer os tucanos, e sim para reforçar a agenda ultraconservadora do PSDB, apenas parcialmente alijada do centro das propostas para o país durante o governo anterior.

No campo econômico, prevalece a ortodoxia, aceitando quase tudo quanto é imposto pelo mercado e pela imprensa comercial, em sua criminosa campanha a favor da inflação. No campo social, reafirma-se a crença na mitigação dos deletérios efeitos do capitalismo, como demonstrado no lançamento do Brasil Sem Miséria, em detrimento da construção de modelos alternativos baseados na economia solidária e na superação das contradições inerentes ao atual sistema.

Foi de assustar não apenas a decisão de vetar o kit para combater a homofobia nas escolas, mas a justificativa apresentada publicamente pela presidenta, por não achar correto “nenhum órgão do governo fazer propaganda de opções sexuais”, discurso é idêntico ao da bancada religiosa no Congresso, responsável direta pela suspensão do material elaborado pelo MEC.

O erro de utilizar “opções sexuais” no lugar de “orientações” apenas reforça aquilo que já se sabe, de que Dilma não tem histórico de debate junto a movimentos que batalham por conquistas sociais. Lula devia satisfações a estas organizações e aos sindicatos, inscritos em seu DNA. Dilma não deve explicações nem mesmo ao PT, do qual jamais foi um quadro forte, histórico ou simbólico.

Ainda na seara social, o governo atual diz não ao massacre de camponeses na Amazônia Legal, mas trabalha loucamente para iniciar as obras de hidrelétricas e rodovias que resultarão em mais desmatamento, levando a novos conflitos agrários e a novos assassinatos de populações marginalizadas.

Reafirma-se o poder de coronéis locais com os quais, aliás, esta e a anterior gestão não fizeram questão de romper, como demonstra o caso de José Sarney – apenas para ficar no exemplo mais óbvio.
Ainda a este respeito, soou desmedida e descuidada a reação às críticas feitas pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) sobre o processo de concessão das licenças para construção de Belo Monte.

A destacar-se a fala de Nelson Jobim, o ministro fardado, que pediu que a Organização dos Estados Americanos (OEA) vá cuidar de outros assuntos. Mais felizes as palavras de Frei Betto em entrevista a este repórter: “Se o Brasil está insatisfeito com o que seria uma ingerência da OEA em assuntos internos, siga o exemplo de Cuba: rompa. Agora, se o Brasil continua como signatário e membro da OEA, precisa respeitar as decisões da OEA.”

Preocupa também a postura do chanceler Antonio Patriota, que dá seguidas demonstrações de inclinação aos Estados Unidos e aos países ricos em geral, podendo deixar em segundo plano a tão bem sucedida política de Celso Amorim, que acertou em cheio ao priorizar a construção de relações mais sólidas dentro do Hemisfério Sul.

É curioso notar que Patriota, José Eduardo Cardozo, Gilberto Carvalho, Guido Mantega e Miriam Belchior, apenas para citar parte do núcleo central de ministros, falam todos a mesma língua. Afinar o discurso que será feito da porta para fora do Planalto pode ser acertado para evitar a lavagem de roupa suja por meio da imprensa, mas é irritante notar que Maria do Rosário e Jobim, no governo Dilma, às vezes parecem a mesma pessoa, o que – definitivamente – não são. Irrita ainda mais notar que o discurso uníssono se dá também em mão única: em direção aos conservadores. A esquerda, Dilma, aqui estamos, por vós esperamos.

João Peres é jornalista e colunista do Nota de Rodapé
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