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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Nas mesmas mãos de sempre


por Pedro Mox*

Depois do papelão sofrido diante da Alemanha, a seleção brasileira voltou a reunir-se, contra seu adversário das quartas de final, a Colômbia, em Miami. Venceu o jogo por um a zero. Também ganhou do Equador, ontem, pelo mesmo placar. Em tese, vida nova; ou não, se levarmos em conta as expectativas criadas pela Copa e, sobretudo, pelo fim desastroso vivido pelo nosso onze. Muito falou-se em mudanças no futebol do país, reformulação na Confederação Brasileira de Futebol, adequação e profissionalização...

O visto na prática, contudo, não foi nada disso – o que era, convenhamos, previsível. Mudar nunca foi muito o forte da CBF. No máximo, mudar para permanecer o mesmo, como o ideário abordado em O Leopardo, clássico de Luchino Visconti.

Paulo Vinicius Coelho, da ESPN, publicou em seu blog texto com o seguinte título: Em vinte anos, seleção teve mesmo número de técnicos da Alemanha em um século e da Espanha em 45 anos. A lógica de demitir treinadores, comum em nossos clubes, repete-se na seleção: desde a campanha do tetra, em 1994, tivemos dez mudanças de treinadores, sendo que quatro (contando o retorno de Dunga) tiveram duas passagens. Já a Alemanha, desde a copa dos EUA, teve cinco treinadores; nenhum repetido. Joachim Löw, campeão no Brasil, está desde 2006 no cargo; antes de assumir o Nationalelf foi assistente de Klinsmann durante dois anos. Tal trabalho de longo prazo inexiste no futebol de resultados aqui encontrado.

Na cartolagem a situação se inverte: de 1980 para cá, a CBF foi comandada por apenas quatro homens, com destaque ao reinado de Ricardo Teixeira: assumiu em 1989 e só saiu em 2012 – ou melhor, renunciou em meio a escândalos de corrupção. Passada a turbulência, leva uma vida sossegada em Miami. José Maria Marin herdou o cargo, e vai presidir a entidade até o final deste ano.

Para fazer um candidato (inscrever uma chapa) é necessário apoio de ao menos seis clubes e oito federações. No último pleito, realizado em abril deste ano, uma segunda chapa sequer existiu. A candidatura única de Marco Polo Del Nero – apoiado por Marin – elegeu-se com impressionantes 46 votos a favor e dois em branco. Na prática, será  uma troca de cadeiras.

Votam nas eleições para presidente da entidade máxima do futebol brasileiro presidentes das 27 federações estaduais e dos 20 times da primeira divisão. Portanto, não é estranho que a mesma falta de oxigenação encontre-se nas federações: Eduardo José Farah assumiu a Federação Paulista de Futebol em 1988, seguido por Del Nero desde 2003. (Del Nero é também atual vice da CBF). A Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, desde sua fundação em 1978, teve três presidentes. A federação catarinense está sob a batuta de Delfim de Pádua Peixoto há mais de 25 anos, enquanto o ex-presidente da federação paranaense Onaireves Rolin de Moura ocupou o cargo por 22 anos.

A própria posição da confederação ao final do mundial deixou claro que sua preocupação é a seleção brasileira, não o futebol brasileiro. Assim, enquanto deveria zelar pelo esporte e pelos que o praticam/admiram, aparenta mais disposição para arrumar seu 17º patrocinador. Além disso, divulga o calendário do próximo ano com sequer um mês de pré-temporada. Vale lembrar que a entidade, até 2009, nem mesmo responsabilizava-se pela organização da Série B, que ficava a cargo da Futebol Brasil Associados.

A escolha do atual treinador foi, portanto, natural. Não pelo aspecto futebolístico, mas político: alguém com uma posição mais crítica a respeito do esporte dificilmente se encaixaria nos moldes conservadores da Confederação. O futebol brasileiro está nas mesmas mãos de quem sempre esteve, por isto seria demais esperar qualquer mudança radical antes do anúncio de Dunga. As preocupações destes homens, infelizmente, nem sempre dizem respeito ao melhor para o futebol.

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*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Sobre palavras e coisas

por Ricardo Sangiovanni*

Põe as duas mãos na parede, cidadão. Abre as pernas, cidadão. Mais, cidadão. Documento, cidadão. Tira tudo da moto, cidadão. Fuma maconha, cidadão? Vou te levar preso, cidadão. Você está surdo, cidadão? - vocifera um soldado a um morador de um bairro pobre do Rio de Janeiro, num vídeo na internet.

Não sei se senti mais agonia por me colocar no lugar do homem, ou se pela centena irritante de vezes que o militar rugiu cidadão enquanto aviltava a cidadania do rapaz.

Sei que não deveria, para não parecer ingênuo, me espantar com esse tipo de manobra do vernáculo. Mas quando vejo esse soldado dizer cidadão - ou o papa católico exortar os jovens a serem revolucionários; ou o polemista liberal repelir discussões sobre liberdades civis - não fico imune ao espanto: estão sempre lá as benditas das palavras, usadas como se pudessem servir a qualquer propósito, sorrateiramente contradizendo até seus significados conhecidos.

Nisso não há novidade, dirão os especializados em dissecar o espanto de nós tolos: o vínculo entre o que se diz e o que se faz já não existe desde, sei lá, Maquiavel. Concordo até; mas as dicas do mestre florentino eram para políticos na gestão do Estado, não para gente comum na gestão da vida.

O que enxergo, cá com minha miopia, é uma naturalização alvoroçada desse divórcio entre as palavras e as coisas - entre "retórica" e "prova": parece que isso está se espalhando mais rápido entre nós comuns, se trivializando na medida em que nos ocupamos mais e mais em alimentar nossas próprias imagens públicas, potencializadas nas redes virtuais. Mas esse divórcio, como ensina o historiador Carlo Guinzburg, nada tem de natural: nossa ideia comum do que seja retórica hoje - "mera retórica", "retórica vazia" - não tem lugar na retórica original, lá de Aristóteles: a arte era de persuadir, sim, mas do que fosse verdadeiro.

O uso leviano das palavras, calculando antes o que possam agregar à imagem de quem as profere (as profana), é por fim adubo no terreno fértil das timelines, onde seguem brotando preconceitos - contra pobres, negros, mulheres, homossexuais - arados por gente espantosamente apta a sustentar que não, imagina!, não é classista, racista, machista, homofóbica.

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Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Dilma e Joaquim: uma mulher e um homem negro no poder


por Cidinha da Silva*

Dilma é mulher e por isso, mesmo na condição de chefe de estado, foi alvo de xingamentos de ordem sexual durante a abertura da Copa do Mundo no Brasil, oriundos da ala VIP, onde se empoleiram os endinheirados beneficiados por ingressos gratuitos, simplesmente porque sua presença enobrece os eventos.

Passados os xingamentos orquestrados pela elite econômica e cultural branca presente ao estádio, a Presidenta foi defendida por mulheres (nenhuma surpresa) e parcos homens que o fizeram mais por respeito a uma senhora (símbolo da mãe, da mulher de família), do que por compreenderem de maneira profunda o teor destrutivo das representações sexistas que estão na base da alastrada e duradoura violência contra a mulher e do feminicídio, recurso vil empregado por aqueles que não atribuem qualquer valor às mulheres e à sua vida, justamente por serem mulheres e por isso, matam-nas ao mínimo sopro contrário à vontade do macho soberano.

Joaquim é um homem negro, dirigente da mais alta corte de justiça do país, achincalhado por uma entidade de classe porque um advogadozinho, membro da entidade, em busca dos holofotes destinados aos factoides políticos, desrespeita o Presidente do STF, ameaça “pegá-lo” na rua, grita dentro do Tribunal, não aquiesce ao chamamento ao equilíbrio, ao respeito às pessoas, às regras de boa conduta e à casa. Joaquim é um homem negro íntegro que reage, faz valer sua autoridade como Presidente do STF, não capitula diante do status quo que tenta acuá-lo na camisa de força de um dito temperamento irascível.

Pedagógico é observar como até a masculinidade de Joaquim é subalternizada por seus detratores, pois, de que outro homem, senão de um homem negro, se esperaria a recepção passiva a um homem (branco) que lhe pusesse o dedo no nariz e o ameaçasse em seu próprio posto de comando? Ademais, soube-se mais tarde, pelo depoimento dos seguranças que interceptaram a ação midiática do advogado, que ele estava visivelmente alcoolizado e que, se estivesse armado, “atiraria na cara do Presidente”. Mas, ainda assim, a entidade de classe conseguiu igualar a reação correta, altiva e preventiva de Joaquim Barbosa a práticas da ditadura civil-militar, porque, aos olhos deles, o homem de masculinidade subalternizada é quem deveria aquiescer diante um sujeito qualquer.

Dilma e Joaquim têm em comum a ocupação de um lugar inusitado de poder e o desconserto generalizado causado pela presença de ambos nesse lugar. A escória elitista não os engole porque são exemplo positivo para a raia miúda, porque as meninas hoje brincam de ser Presidenta, vestem as bonecas como Dilma e as bonecas presidem. Porque Joaquim Barbosa inspira milhões de mulheres e homens negros. Porque ele representa a possibilidade real de que pessoas negras ocupem postos de comando e promovam transformações simbólicas e concretas na vida material e na expectativa de uma vida melhor para os seus.

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Passadas de pano padrão FIFA


por Tomás Chiaverini*

As coisas nunca saem exatamente como o planejado. Fato. E às vezes a diferença entre sonho e realidade é brutal. Ou, como dizem os americanos, shit happens. Aparentemente foi esse o caso da abertura da copa do mundo. Uma grande cagada coletiva, com o perdão do termo.

Um fiasco. Felizmente, foi um fiasco parcial, não total. E é copa, é Brasil, é futebol, todo mundo já estava na terceira latinha de Itaipava, a seleção levou de virada então bola pra frente, literalmente, e vamos ver aonde vai dar essa maluquice toda.

Mas, antes de irmos adiante, seria muito interessante ver alguém assumido a bronca. Levantando a mão, admitindo o erro e simplesmente pedindo desculpas. Nenhum cristão foi capaz, por exemplo de dizer que a abertura não funcionou, sei lá, porque a cenógrafa teve um piriri em cima da hora. E pra completar o avião dos bailarinos e cantores atrasou e tiveram de improvisar com fita-crepe, tinta spray e três cantores que estavam por aqui só pra assistir o mundial. Por isso saiu aquele espetáculo mambembe, com cara de teatro de quinta série. Acontece, foi muita pressão, assumimos o erro, mas vamos tentar fazer melhor na próxima... Nada, não houve erro, foi tudo lindo, era pra ser aquela porcaria mesmo.

E nosso brilhante neurocientista Miguel Nicolelis, o santo milagreiro das sinapses rompidas? Em vez de dizer que tudo deu certo, não seria o caso de vir a público explicar que a coisa é infinitamente mais complexa do que até ele podia imaginar? Que foi um erro prometer que um paraplégico ia levantar da cadeira de rodas, andar vinte e cinco metros por conta própria e sapecar um pimba na gorduchinha biônico à lá Tony Stark? Infelizmente não conseguimos deixar tudo pronto, a coisa não funcionou, o pobre homem ficou ali pendurado num cabide humano... Nada de novo. Pra ele também não houve erro. Só da Fifa e da Globo, que não deram mais tempo pro fiasco.

E o pênalti? Fred, Felipão, vamos parar de lero-lero. Vamos sair a público, respirar fundo e admitir que foi isso mesmo. Desesperamos e apelamos pro jeitinho brasileiro. Enganar o juiz faz parte do jogo. Não é bonito, não é ético mas assim fomos forjados, e foi o jeito que encontramos pra nos mantermos ali, na luta, carregando duzentos milhões de brasileiros na ponta das chuteiras. Só nos resta, portanto, pedir as mais sinceras desculpas...

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Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Eu, machista?

por Celso Vicenzi*

Pesquisa recente do Inter-Parliament Union, sobre as mulheres no Parlamento, mostrou que o Brasil aparece apenas na posição 125, entre 150 países. Na Câmara Federal, dos 513 parlamentares, apenas 44 são mulheres. No entanto, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral de dezembro passado, 52% do eleitorado é feminino. Há mais candidaturas masculinas, mas, ainda assim, não faltam mulheres para serem votadas. O que explica, então, tamanho descompasso?

Nas prefeituras, o problema se repete. As mulheres são prefeitas em apenas 12% dos 5.570 municípios do Brasil. No Sul do país a situação é ainda pior. O Rio Grande do Sul e Santa Catarina – quem diria! – são os estados com o menor percentual de prefeitas eleitas. Apenas 37 cidades gaúchas elegeram prefeitas, ou seja, 7,44% do total. Santa Catarina vem em segundo, com 7,79%.

Isso prova que o machismo ainda está muito enraizado na sociedade brasileira. Com dupla ou tripla jornada de trabalho, além de outros fatores, a atividade política é muito difícil para uma mulher casada, por exemplo. E mesmo quando ela consegue vencer essas barreiras, não recebe o voto de confiança da maioria das mulheres. E dos homens!

Claro, você e eu não somos machistas! Ou, pelo menos, achamos que não, embora a probabilidade não esteja ao nosso lado.

Na melhor das hipóteses, se não somos machistas, somos péssimos em matemática. Pesquisa da Expertise informa que 75% dos brasileiros percebem a nossa sociedade como machista. No entanto, quando solicitados a fazer uma autoavaliação, apenas um terço dos homens entrevistados admite ser machista ou “um pouco machista”. Conclusão: a conta não fecha, o problema é sempre o outro.

Resultado dessa cultura patriarcal que há milênios domina o mundo, o machismo é incorporado também por muitas mulheres, que reproduzem os valores mais conservadores. Isso torna o problema da representação política ainda mais complexo. Votar em uma mulher não é garantia de que ela defenderá, por exemplo, avanços na luta feminista. Mas é fato que, quanto mais equilibrado estiver o Parlamento em relação à representação política, de gênero, de classe, de etnia, dos mais diferentes segmentos da sociedade, mais aumentam as chances de que as demandas específicas de cada grupo social possam ser legitimadas e acolhidas em novas leis, novos costumes, fazendo avançar a democracia.

Admitir a existência de um problema é o primeiro passo para a resolução. Não é fácil, pois todos nós construímos uma boa imagem – necessária – de si. Mas quando todos esses dados apontam numa mesma direção, fica difícil negar.

Eu, machista?

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Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Santo deus das bananas olhai por eles!


por Cidinha da Silva*

Olhai pelos tolos seguidores dos idiotas, senhor deus das bananas. Porque eles são ingênuos, não sabem o que fazem. Mas, aos imbecis, portadores de mau caráter, aproveitadores de todos os matizes, racistas quatrocentões e também os de primeira geração, aplicai a dureza da lei.

Racismo é crime. Sem açúcar e sem afeto, ao contrário do que pensam os adoradores da banana. É preciso investigar e punir para coibir manifestações futuras. Assim fez o Villarreal, time responsável pela torcida que atirou a campo uma banana, devorada pelo jogador Daniel Alves. O clube identificou o torcedor responsável pela atitude racista durante partida entre a equipe e o Barcelona, pelo Campeonato Espanhol, punindo-o com a suspensão do carnê de sócio e o banimento do estádio El Madrigal pelo resto da vida.

O clube não agiu sozinho, partilhou o sucesso da ação com os responsáveis pela segurança no estádio, bem como a torcida, todos imbuídos em identificar o autor da discriminação racial, para impedir, inclusive, uma possível punição desportiva à agremiação. Ou seja, ao investigar, encontrar o racista e puní-lo, o Villarreal apresenta à sociedade espanhola e ao mundo, o compromisso inequívoco de respeito aos direitos humanos, ao direito de trabalhar em condições dignas.

À presença de espírito de Daniel Alves ao comer a banana, ao transgredir e ter uma atitude inusitada diante da clássica discriminação racial que associa pessoas negras a macacos, com o objetivo de desumanizá-las, seguiu-se uma campanha marqueteira de quinta categoria nas redes sociais, evocando o macaco que as teorias evolucionistas guardaram dentro dos seres humanos.

O senhor está perplexo, senhor deus das bananas? Nós estamos, pois, ao cabo, se somos todos macacos, não existem mais racistas.

Merece algumas linhas adicionais, senhor deus das bananas, a atitude de Daniel Alves, sertanejo brioso que não teme a ingestão de veneno. Porque o senhor sabe, aquela banana era tóxica, continha uma quantidade secular de energia radioativa. E Daniel, no ímpeto de reagir (talvez de marquetear) comeu-a inteira. Mesmo um primata não faria isso. Os animais sabem reconhecer as plantas venenosas e o perigo de morte. Só nós, humanos, subvertemos a lógica da natureza e achamos que comendo a banana produziremos anticorpos que destruirão os racistas.

Ensina o manual de faxina étnica, senhor deus das bananas, que, sua eficácia está diretamente relacionada à desumanização do grupo que se quer exterminar e/ou explorar. Os nazistas comparavam os judeus a ratos e baratas. À colonização europeia, por sua vez, a associação de africanos a macacos é intrínseca.

A opressão racial é tão vil e eficiente no Brasil que consegue fazer com que um jovem destacado de sua comunidade de origem, o jogador Neymar, visivelmente, notadamente, escancaradamente afrodescendente (sem a opção do escapismo moreno), nomine-se como macaco, mas não se reconheça preto.

E, se é verdade que "todos somos macacos" (nós - os negros, os "brancos" como Neymar, e os brancos como Luciano Huck), Dani Alves e o companheiro midiático estão absolvidos do estigma do racismo que lhes é tão oneroso (a nós também) porque não é algo humano, porque não é mesmo suportável.

Mas, a diferença entre uns humanos e outros, senhor deus das bananas, é que os primeiros não têm alternativa de sobrevivência, senão, enfrentar o racismo, por isso se afirmam negros, ao tempo em que mandam os macacos-humanos plantar bananeira no asfalto quente para divertir os brancos. Quanto aos racistas, o grupo de primitivos humanóides negros manda-os para a cadeia.

O segundo grupo de humanos negros, aquele composto por pessoas descoladas que se auto-elogiam como macacas, mas não suportam o aniquilamento provocado pelo racismo, a despeito dos cartões de entrada vip para o jogo da vida (fama, dinheiro, prestígio social), optam por enfatizar, como o fez Dani Alves, que brasileiros têm samba no pé e alegria de viver. Por conseguinte, conclui-se, driblam o racismo com irreverência e criatividade.

Seguindo esse raciocínio, são capazes de entortar os adversários (e os pares) ao propor uma campanha contra o racismo tão racista quanto o ato deflagrador. Assim, eles demonstram orgulho por serem macacos, mas negam que sejam pretos. Santa lobotomia, senhor deus das bananas! Triste fim da humanidade!

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Entristecida Moda


por Maria Shirts*

Foi uma temporada meio maluca. Fogosa, eu diria. Estou falando da 37ª edição do São Paulo Fashion Week, ou “semana de moda” para os mais despretensiosos, que aconteceu entre os dias 31 de maio e 4 de abril.

Quem me conhece sabe que, de vez em quando, ajudo na cobertura jornalística desse evento para um site de moda. A princípio, acham incondizente com a minha pessoa. Mas eu já dismistifiquei essa e algumas outras premissas sobre o SPFW aqui.

É uma experiência e tanto. Entro em todos os camarins, de todos os desfiles, entrevisto vários profissionais, pergunto a respeito de tendências, questiono o uso de certos produtos...

Essa foi a minha quarta experiência. Costuma sempre ser agradável, divertido e também muito cansativo. Trabalho com jornalistas muito competentes, inteligentes e amigos. Independente disso, me reparei um pouco menos excitada, nessa temporada, com as ebulições deste “mundo fashion”. Tive uma percepção diferente, mais cética, talvez.

Aconteceu no terceiro dia, acho. Estava esperando para entrar no backstage de algum desfile para conversar com o maquiador responsável quando aconteceu o famigerado “cruzamento”. Calma, é menos animalesco do que parece (ou não): as modelos saem do camarim do desfile anterior para adentrar ao próximo. Parece simples, mas é um momento tenso porque elas têm pouquíssimo tempo para serem preparadas, já que tudo gera atrasos. Nessa temporada, então, que programaram 8 desfiles para o mesmo dia, por exemplo, foi mais confuso ainda.

Enquanto eu esperava, notei um homem de uns 30 anos na porta do camarim, um tanto quanto alucinado, berrando: “Cade a Tamara??? E a Luana??? Cade essas meninas???”. Não bastasse, o vi puxando uma das modelos pelo braço com tanta agressividade que pensei que fosse quebrar seu pulso frágil. Então me dei conta de que nunca havia notado essa personagem no evento: o booker.

Em suma, é ele quem cuida da agenda das modelos, que faz o meio de campo entre os contratantes e contratadas. Já havia ouvido falar, através de uma amiga que foi modelo, que eles podem ser muito sádicos. Não são todos, é claro. Não se pode generalizar, mas há muitos desses profissionais que parecem projetar alguma frustração nas meninas das quais “tomam conta”; são impacientes, hostis; exigem que elas emagreçam quando não precisam, mandam pintar o cabelo desnecessariamente, depilar sei lá aonde e já ouvi até em pedirem para raspar o osso do quadril, “porque é muito largo!”. Enfim, não parecem entender de que estão lidando com pessoas e não com um cabide.

Depois que eu presenciei essa cena fiquei bem entristecida. Percebi vários sofrimentos intrínsecos e pouco relatados. Para fechar com chave de ouro, a sala de imprensa do evento pegou fogo no último dia, deixando um bocado de pessoas assustadas, mas nenhum ferido. Mas essa já é outra história….

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 Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Onde foi que erramos?

por Celso Vicenzi*

O filme “Meia-Noite em Paris”, de Woody Allen, de maneira muito original questiona: existe época melhor para se viver? Muitos de nós gostariam não só de ter uma vida diferente como de ter vivido em outra época. Difícil dizer se o passado já foi melhor ou se o futuro promete dias mais felizes.

Mas, na música brasileira, arrisco dizer que já vivemos dias – e noites – melhores. Onde foram parar versos imortais como os de Carinhoso, de Pixinguinha (“meu coração, não sei por quê / bate feliz quando te vê / e os meus olhos ficam sorrindo / e pelas ruas vão te seguindo / mas mesmo assim, foges de mim”)? Ou de As rosas não falam, de Cartola (“queixo-me às rosas / mas que bobagem / as rosas não falam / simplesmente as rosas exalam / o perfume que roubam de ti, ai”)? E o que dizer de Construção (Chico Buarque), Travessia (Milton Nascimento e Fernando Brant), Tropicália (Caetano Veloso), Eu sei que vou te amar (Antônio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes)?

Nossa música caipira, antes de entrar para a escola do show business e se graduar em sertaneja universitária, também produziu versos antológicos, como No rancho fundo, de Ary Barroso e Lamartine Babo (“No rancho fundo / bem pra lá do fim do mundo / onde a dor e a saudade /contam coisas da cidade...”) ou Romaria, de Renato Teixeira (“O meu pai foi peão /minha mãe solidão / meus irmãos perderam-se na vida / à custa de aventuras / Descasei, joguei /investi, desisti / se há sorte / eu não sei, nunca vi”). Isso para não falar de Asa Branca, Luar do Sertão, Menino da Porteira, Tristeza do Jeca e tantas outras.

Não é por nada, não, mas comparem com Lepo Lepo, de Márcio Victor: “Eu não tenho carro / não tenho teto / e se ficar comigo é porque gosta /do meu / rá rá rá rá rá rá rá /Lepo Lepo / é tão gostoso quanto eu / rá rá rá rá rá rá rá / Lepo Lepo”. Veio para substituir outra que não parava de tocar: Ai se eu te pego, de Sharon Acioly e Antônio Digs (“Nossa, nossa / assim você me mata / ai se eu te pego, ai, ai, se eu te pego”). Quase todas apelam para uma sexualidade fast food, com letras medíocres. Se você ainda não se convenceu da distância poética que separa os exemplos citados, concluo com a primorosa letra de Eu quero tchu, eu quero tcha, de Shylton Fernandes: “Eu quero tchu, eu quero tcha / eu quero tchu tcha tcha tchu tchu tcha / Tchu tcha tcha tchu tchu tcha”. E tem ainda o “vai rolar bundalelê”, “rala o tchan”, “faz uó”, “melô do pirulito”, grosserias para todos os gostos (duvidosos).

Pensando bem, não seria má ideia poder escolher a melhor época para se viver.

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Celso Vicenzi, jornalista,. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres. Esse texto foi publicado originalmente no Correio Lageano.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Por que os brasileiros não gostaram do Oscar?


por Maria Shirts*

A resposta ao título é simples: “porque Gravidade ganhou tudo”. E, diferentemente dos norte-americanos, os brasileiros não gostam de filmes como Gravidade.

O que aquela Academia de Cinema preza não tem nada a ver com os nossos valores estéticos e narrativos. Gravidade é um filme de efeitos especiais. Foi inteiramente feito em estúdio, e ainda com dois atores queridinhos de Hollywood (George Clooney e Sandra Bullock). A trama, uma espécie de Odisséia pós-pós-moderna, tem superação de desafios, é um périplo heróico e de final feliz que ainda por cima foi dirigido por um latino americano, o que pode ser considerado um belo fetiche aos olhos dos norte-americanos politicamente corretos.

Creio que os brasucas gostem de filmes com mensagens existenciais, do tipo Nebraska e, se for pra ter mais “ação”, com uma estética mais chamativa e interessante, do tipo d’O Lobo de Wall Street. Aliás, muitos amigos se surpreenderam pelo fato d’O Lobo não ter ganhado nada. A maior frustração talvez tenha sido com o prêmio de melhor ator, que não ficou com Leo DiCaprio, que encenou o protagonista. No entanto, segundo minha amiga Clara Holtz, que já apareceu em outras mal-traçadas minhas sobre o Oscar, ele não tinha como competir com o ganhador desse ano, Matthew McConaghey, que levou o prêmio pelo filme Clube de Compras Dallas. Afinal “quem emagrece muito e pela primeira vez para fazer filme em Hollywood sempre ganha o Oscar”, justifica.

Independente das questões nutricionais de McConaghey, me parece que os filmes de Martin Scorsese estão um nível acima do que Hollywood gosta e entende. Isso porque quando o espectador norte-americano não sabe exatamente pra quem torcer, fica aflito e perde o interesse. Eles precisam de um herói, e precisam que ele seja do bem. O que aparentemente não dividiu tantas opiniões entre lá e cá foi o também premiado 12 Anos de Escravidão. Percebi que tanto brasileiros quanto americanos gostaram desse filme, se emocionaram com ele. Apesar da luta racial e da escravidão terem acontecido de maneira bem diferente nos dois países, desconfio que esse tema sempre sensibilizará os habitantes das Américas, mesmo que dirigido por um inglês... Encenado ainda por Lupita Nyong’o, chega a ser covardia. A atriz, que levou o prêmio de melhor coadjuvante por sua personagem Patsey, deveria ter um filme só dela. Não me surpreenderia se os víssemos nos cinemas em breve.

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Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Cada um que cuide da sua bituca


por Thiago Domenici*

O dono da banca de jornal localizada na esquina da rua Ministro Godoy com a Turiassú, em Perdizes, mantém o ritual diário da antiga dona. Todos os dias ele disponibiliza um cinzeirão para os fumantes de plantão.

“Aqui jazem bitucas”, como se vê na imagem acima. Eis uma irônia e também uma dura realidade. Diz o jornaleiro que muitas delas, de fato, jazem ali no cinzeirão ao fim do dia. É “uma atração” dos passantes, ele conta. “Fazem fotos e dizem que é legal”. Diariamente, sem folga, ele tem de limpar a área para novas bitucas serem depositadas. A guimba é o fim do cigarro fumado. É um resíduo diminuto, formado de papel, filtro e tabaco e que pesa, em media, meio grama. Meio grama e muitas substâncias tóxicas. Meio grama que aos montes pesam toneladas e poluem a cidade.

Os filtros dos cigarros são tão resistentes à biodegradação que ficam no solo e na água por mais de cinco anos. Esses restos são responsáveis por 25% de todos os resíduos encontrados em limpezas de praias pelo mundo. Aqui em São Paulo são algumas toneladas diárias. Todos os dias vejo centenas delas no chão ou sendo arremessadas a ele. Um péssimo hábito!

Um estudo de anos atrás apontou que duas guimbas de cigarro geram a mesma quantidade de poluição produzida por um litro de esgoto. Outro problema são os acidentes com fogo, por exemplo, queimadas, causadas, em sua maioria, pelo arremesso de bitucas dos veículos em movimento. O problema é tão constante que no ano passado, 90% das multas no Rio de Janeiro por jogar lixo no chão se referiam ao cigarro. No Paraná também já existe multa para os deseducados na bagana.

Um levantamento recente indicou que são cerca de 20 milhões de fumantes no País, além de 70 milhões de fumantes passivos (meu caso). O mesmo levantamento diz que nos últimos seis anos o número de fumantes no país diminuiu 20%. É uma ótima notícia a diminuição de fumantes. Péssimo é perceber que isso não se aplica a quantidade de chicas jogadas na rua.

Penso que além de multa a quem joga o troço no chão, uma campanha bem-humorada e educativa ao estilo “Aqui jazem bitucas” poderia adiantar alguma coisa. Mas a prerrogativa não é só brasileira. Em Paris, segundo cálculos, são jogadas 315 toneladas de pontas de cigarro nas calçadas anualmente. A lei francesa prevê multa de 35 euros – algo como 112 reais. Lá, a meta para esse ano é chegar a 30 mil cinzeiros espalhados pela cidade.

Fuma quem quer, é verdade, mas cada um que cuide da sua bagana, né?

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Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Domenico De Masi e o Brasil cordial, modelo de vida para a sociedade desorientada


por Cidinha da Silva 

A chamada de abertura da entrevista do sociólogo italiano Domenico de Masi ao semanário Época, afirma, de maneira pretensamente ingênua, “que os brasileiros, de um tempo para cá, passaram a ver sociologia em tudo, até no rolezinho dos adolescentes”.

O texto prossegue e apresenta De Masi como um profundo conhecedor do Brasil, que mergulhou nas obras de autores fundamentais para a compreensão do país, tais como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Darcy Ribeiro, embora destes três, o autor mencione apenas Darcy Ribeiro como destaque na formação de seu pensamento sobre o país. Outro intelectual brasileiro que merece citação particular do italiano é Oscar Niemayer. Segundo De Masi, “ambos deram contribuição criativa inestimável para impor ao mundo a excelência original do modelo brasileiro”.

É provável que ao longo do livro “O futuro chegou – modelos de vida para uma sociedade desorientada”, De Masi mencione Freyre e Buarque de Holanda como leituras importantes a informar sua análise. Um tanto conservadora, pois ele parece não ter chegado sequer à geração de sociólogos uspianos da década de 50, responsável por atualizar os estudos sobre relações raciais no Brasil, haja vista os clichês sobre a cordialidade do brasileiro propagados por De Masi, dos quais trataremos um pouco à frente. Mas, é notório que o jornalista quis enfatizar os autores dos nos 30, com os quais deve ser afinado.

Ao descrever a riqueza do Brasil para construir um novo modo de vida, De Masi faz afirmações controversas, no mínimo. Diz ele: “penso na copiosa mistura de raças aliada ao baixo índice de racismo, no sincretismo cultural, no amor pelo corpo, na sensualidade, na cordialidade, na musicalidade, na propensão do brasileiro a assimilar as contribuições dos estrangeiros, na hospitalidade, na alegria, na espontaneidade, na abertura ao novo e ao diferente, na tendência a encarar a realidade com um pensamento positivo, na capacidade de considerar fluidas as fronteiras entre o sagrado e o profano, o formal e o informal, o público e o privado, o emocional e o racional.”

Minha dúvida é se realmente De Masi caracteriza o Brasil em que milhões de brasileiros negros e pobres vivem ou faz uma abstração sociológica com o fim generalista de construir um modelo interpretativo, a partir de teorias e teóricos que optaram por não aprofundar as desigualdades que aqui imperam e suas raízes.

Comecemos pela copiosa mistura de raças... Ela tem servido para nos apresentar ao mundo como nação do futuro, multiétnica, misturada, mas, no frigir dos ovos, a tal mistura produz ganhos reais ou mesmo simbólicos para quem está na base da pirâmide socioeconômica? Essas pessoas são aquelas fenoticamente mais próximas dos ingredientes africanos e indígenas no caldeirão tupiniquim das raças. Cabe perguntar, então, a quem serve e para que serve a “copiosa mistura de raças”.

A propalada sensualidade brasileira também é uma faca de muitos gumes. Por exemplo, é certo que não vemos nas ruas dos EUA ou de países da Europa, beijos cinematográficos ou mesmo o carinho ostensivo vistos nas ruas do Brasil à luz do sol, entre pessoas comuns. E parece que gostamos disso ou consideramos coisa normal, desde que, seja entre casais heterossexuais considerados belos e padrão. Se for um casal de negros, uma parcela significativa da população considerará o ato sensual e carinhoso como atentado ao pudor, porque o stablisment animaliza as expressões de amor e a sensualidade quando vêm dos negros.

Se forem gays, lésbicas ou transexuais, os casais correrão o risco de ser assassinados enquanto fecham os olhos. Se forem pessoas LGBT negras, além do risco de vida que todos os casais homoafetivos correm ao vivenciar seu afeto nas ruas, serão seguramente alvos de piadas racistas que também as matarão, de maneira lenta e gradual. Dessa forma, me pergunto sobre qual sensualidade maravilhosa ou sobre a sensualidade de quais brasileiros De Masi se gaba? A quem essa generalização contempla e quem fica fora dela?

Outra suposta característica positiva do país é a abertura ao novo e ao diferente! Abertura para quem? De qual diferente falamos? Quem tem direito pleno ao gozo de identidade sólida e alteridade respeitada no Brasil?

Como são tratados, por exemplo, os jogadores de futebol negro-brasileiros que, depois de poucos meses jogando na Europa e na Ex-URSS voltam cheios de amor próprio e identidade, com os cabelos crespos grandes, eriçados, trançados, com dreads? Quem os deixa ser diferentes, na verdade, quem os deixa ser parecidos com os seus que reinam altivos pelo mundo ou mesmo aqueles sobreviventes que conseguem escapar do achatamento dos crespos e da mesmice imposta à estética capilar dos homens negros brasileiros? Qual é o programa esportivo que os deixa se diferenciar da média dos boleiros negros em paz? Se a maioria da população representada por esses negros em ascensão não tem direito sequer a usar o penteado desejado sem que se torne alvo de piadas racistas, das mais simplórias às sofisticadas, de que país aberto ao novo e ao diferente De Masi trata?

Considerar uma vantagem a vigência de fronteiras fluidas entre o emocional e o racional, o formal e o informal, o sagrado e o profano, vá lá, são questões subjetivas, mas a fluidez entre o público e o privado não creio que seja uma coisa boa, não.

A urbe mal administrada por gestores que consideram a cidade um bem privado, expulsa as pessoas comuns do centro, evita as aglomerações de gente em shows de música abertos, sob justificativas incompreensíveis de proteção ao patrimônio público. Impede a freqüência aos espaços públicos como praças, ruas e avenidas em dias e horários de pouco movimento. Cerceia o direito de ir e vir das pessoas e, quando permite o movimento, cerca-as mesmo, com cercos de ferro, ora móveis, ora fixos, de um modo geral fornecidos por empresas de políticos e/ou parentes ou coligados deles, aos quais se exime de licitação.

Em Belo Horizonte, teve início em 2010 o movimento Praia da Estação, uma reação a um decreto da Prefeitura Municipal que proibia a realização de eventos de qualquer natureza na Praça da Estação, um dos pontos turísticos mais antigos da capital mineira. A moçada traja roupas de banho, óculos de sol, protetor solar e em finais de semana previamente acordados, ocupa a praça, se refresca no chafariz, bate-papo e resiste à lei autoritária.

Em búzios, praias públicas, como deveriam ser todas as praias, são quintais privatizados das mansões dos ricaços. Ai do cidadão comum que pisar naquelas areias, arrisca-se a levar tiros dos fuzis da polícia privada (muitas vezes composta por policiais militares) que toma conta da área pública privatizada.

Por fim, a inexistência de fronteiras entre o público e o privado impulsiona a corrupção, faz com que a máquina pública seja regida por princípios de economia doméstica e/ou práticas de beneficiamento de empresas privadas.

Como é possível a um sociólogo estrangeiro concluir que o Brasil tem “baixo índice de racismo” quando a imprensa sensacionalista esfrega na cara dele a crescente exposição de homens negros ao suplício público – acorrentados a postes por correntes de metal, cordas e trancas de bicicleta, torturados e amarrados nus com os braços presos para trás, rosto e genitais colados ao asfalto escaldante -, punidos exemplarmente por delitos ou supostos delitos, como forma de recuperar na memória de todos os negros contemporâneos, a escravidão a que seus ancestrais foram submetidos e o que pode acontecer a eles, que assistem às cenas de tortura solidários e enojados, caso não rezem direitinho pela cartilha dos brancos?

Não é aceitável que alguém pleno de capacidades mentais argumente que o Brasil é um país de “baixo índice de racismo”? Uma afirmação como esta me leva a duvidar da seriedade do livro e do pesquisador.

* * * * * * * 

 escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Sem graça


por Ricardo Sangiovanni*

Sentei já todo gaiato agora há pouco na frente do computador decidido a contar-lhes hoje a história da diarista da casa de minha sogra, que botou o marido no jeito na base do cipó quando o flagrou dando uns amassos numa sirigaita desenxabida detrás da igreja.

Mas acontece que vou ter que lhes pedir desculpas, não vai dar: caí na besteira de dar uma folheada nas internets antes de começar o relato, e li uma notícia que me levou a graça embora.

O título era “Ensino da cultura negra ainda sofre resistência nas escolas”, na BBC Brasil. Falava em geral dos problemas da implementação do ensino da cultura afro-brasileira nas escolas, mesmo tendo-se passado já dez anos da lei que determina a obrigatoriedade do dito cujo.

A matéria está bacana, honesta, normal. Tem, ademais, minha adesão ideológica: hoje mesmo comentava com o pessoal que, se alguém diz “macarronada”, logo pensamos na pequena Itália; falou “bacalhau”, acionamos o minúsculo Portugal; mas, se alguém diz “acarajé”, contentamo-nos com a ideia genérica e imprecisa de “África” – como se África fosse uma coisinha miúda, um vilarejo na beira da estrada, a primeira quebrada à direita depois que passa Feira de Santana.

Enfim: o que me roubou o bom humor foi o comentário de um cidadão que se identificou como “Diego”, “filho de negro com branco”, no pé da reportagem. Transcrevo: “Meu filho tem que aprender matemática, literatura portuguesa. Não é porque o Brasil teve um período escravagista que ele tem de estudar sobre a cultura “afro-brasileira”. Perda de tempo estudar isso, o ideal é substituir essa parte para aprender outro idioma. Pois assim estaria mais preparado para encarar a vida no resto do mundo. De preferência o idioma inglês, mais falado no mundo todo. Empreendedorismo, biologia na prática etc… Estudar cultura afro-brasileira é perda de tempo e não prepara as crianças para a vida, para esse mundo do cão.”

Diego, meu camarada: aí você pegou pesado. Talvez tenha sido só uma fala infeliz essa sua, mas arrisco dizer que gente que pensa assim como você pensou nessa fala reproduz um esquemão colonial secular, que é justamente o que mais precisamos superar (muito embora com toda consciência): de um lado, um mundo globalizado, moderno, competitivo, que requer conhecimentos funcionais que nos “preparem para encarar a vida no resto do mundo”; de outro, um mundo tradicional, ancestral, “africano”, que é até curioso e tal, mas que a rigor não serve para nada, afinal essa história de escravidão já passou faz é tempo, vamos deixar isso para lá, para depois, para nunca, no fundo do baú.

Não sei, Diego, em que parte de “ensino de cultura afro-brasileira” pessoas que pensam como você nessa fala lêem “em detrimento do ensino de tudo o mais necessário para se viver nesse mundo cão”. De contrabando nesse seu argumento, parece haver uma ideia atravessada de que aprender sobre a África significa praticamente arriscar-se a uma espécie de “reescravização”. E mais: que basta ir branqueando, quando não a pele, o jeito de ser, de pensar, de viver, no passar das gerações, para superar a tragédia que foi esse “um período escravagista” que durou mais de 300 anos nesse Brasil.

Qual nada, Diego: precisamos saber mais – quando digo mais, é ao nível corrente da conversa mundana, no nosso dia-a-dia de arraia miúda – sobre a África sim, porque precisamos entender um tiquinho melhor e respeitar mais trejeitos, costumes, heranças africanas que estão no nosso dia-a-dia, mas que ignoramos ou tomamos por simples e “genuinamente brasileiros”.

Precisamos saber da África, Diego, porque em cada pedaço dela existem povos e culturas diferentes, tantas quantas – ou provavelmente mais que – as que existem nos retalhinhos da miuditica Europa. Será que ignorá-los nos ajuda a aprender melhor o inglês?

Precisamos saber da África, meu bom Diego, porque o cabelo encaracolado do garoto entrevistado nessa matéria que você leu tem origem, tanta e igualmente humana origem quanto os cabelinhos escorridos meio alourados dos coleguinhas que provavelmente lhe puseram o apelido de “Bombril”. Não, Diego, não vamos pedir ao garoto que simplesmente não dê ouvidos aos coleguinhas bobos – porque ante a discriminação não dá para se fazer de surdo, porque dói; discriminação é uma desgraça, Diego – você sabe.

Em vez disso, que mal há em pretender que se ensine (falo ensinar à vera, não só por “3 meses, por 30 minutos a cada 4 dias apenas”, como você propõe) a toda essa molecada de tudo quanto é cor que na África existem povos que são tão povos quanto qualquer povo de pele clara desse mundo, e que muito do que somos descende diretamente de alguns deles, os quais portanto merecem tanto respeito e reverência quanto qualquer outro?

Enfim, Diego, precisamos saber da África por muitos outros mais motivos. Para encurtar conversa: você me deixou de mal humor, cara. E privou meus leitores das risadas que dariam com a história ótima do cipó do amor. Estamos todos putos contigo, Diego. Abre o olho.

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Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

A esfinge, a mídia, e o rio


texto e ilustração por Ana Beatriz Rosa*

É difícil falar das violências simbólicas, dessas assim... estapafúrdias. Parece mesmo difícil falar das violências corriqueiras, normatizadas e naturalizadas no nosso convívio social. Falar sobre a violência do nosso cotidiano já parece tarefa árdua demais para um certo puritanismo-pacífico-opressor das grandes mídias – inibem as línguas e os corpos para fazer valer seu próprio conceito-notícia quando o assunto é a violência. Neste processo, uma ardilosa política dos “cidadãos de bem” parece ganhar corpo desde que as manifestações de junho iniciaram o seu work in progress. Entoar hinos de louvor em defesa de patrimônios e capitais e esquecer de pessoas – essas, de carne e osso – parece ter ganhado ares de normalidade.

De um lado parte da cobertura midiática parece entoar louvores aos bons modos durante as manifestações, de outro, para complementar, ecoam gritos condenando os possíveis “vândalos” que habitam entre nós. Sempre que penso sobre isso me vem um trecho do poema “Nossa truculência”, da Clarice Lispector que diz:
“(...)é preciso não esquecer/ E respeitar a violência que temos. (…) A nossa vida é truculenta: nasce-se com sangue/ e com sangue corta-se a união que é o cordão umbilical/ E quantos morrem com sangue/ É preciso acreditar no sangue como parte de nossa vida/ A truculência é amor também”. 
Parece mais fácil apontar vândalos entre nós que observar o vandalismo em nós, na maneira como nos relacionamos uns com os outros.

Querendo brincar de separar o joio do trigo, as linhas editoriais das empresas que monopolizam a comunicação no Brasil (seis famílias controlam 70% da imprensa no país) parecem não se preocupar que algumas raízes possam estar entrelaçadas a ponto de dificultarem os cortes.

Não seria mais útil criar manuais? Vejamos... "Cartilha para o bom manifestante", ou quem sabe, "manifeste-se bem, para manifestar sempre". Talvez com as cartilhas os manifestantes possam melhor entender como servir bem para servir sempre. Um conjunto inteiro de cartilhas de etiqueta para protestos! Parece boa a ideia, não? E pode vender! Como manda o figurino.

Estou chegando à conclusão de que é mesmo difícil falar da violência. Parece ser difícil reconhecer violência em atos não “materiais”, estes que não estão ao alcance das mãos mas ainda assim perpassam os corpos. Como, em uma sociedade onde tudo se toca e dá valor (feito moeda de troca), perceber e condenar violências que não atacam bens, produtos e coisas, mas pessoas? Como fazer com que pautas como essas tornem-se fundamentais, para além das obviedades? Afinal, o que é mais violento? Quebrar paredes ou quebrar gente? A comparação parece esdrúxula? Também imaginei que sim, não fosse muita vidraça valer mais do que muita gente por aí.

Vai ser difícil ouvir em noticiários que o senhor que mora na minha calçada é violentado todos os dias. Que no corpo a corpo da pirâmide social todos nós nos violentamos enquanto sustentamos a paz e a boa vida dos 'inocentes do Leblon' como já poetizou Drummond. Que a moça que é estuprada é vítima, e sempre vítima de uma violência física e simbólica mergulhada no machismo nosso de cada dia. Que o Amarildo foi violentado, brutalmente violentado, e que tantos outros como ele também são. Que o diferente e estranho aos padrões de conduta da nossa moral 'partilhada' é violentado na sociedade dos iguais. Que o que escapa à heteronormatividade, ao patriarcado, que não é branco nem puritano, vai ser violentado mais dia menos dia. Que aquela criança que não precisa de gênero para se entender vai ser violentada pela limitação dos que mal se entendem...

Como é difícil ouvir alguém falar da violência urbana cotidiana, da violência do capital, da violência econômica, das segregações sociais, do preconceito, da violência do medo nas cidades.

O discurso de grande parte da nossa imprensa é violento quando desrespeita a comunicação como lugar de conhecimento e transformação do mundo, quando desrespeita grande parte população que raramente se sente representada. Tenho a impressão de que estes discursos produzidos também compõem a própria locomotiva da violência social, da violência do capital, da violência nas ruas, afinal.

Falar sobre a violência não é fazer apologia a ela. Ignorar que a violência existe todos os dias é. Fazer um recorte das manifestações priorizando os tais atos de “vandalismo” também. Talvez seja mais importante reconhecer primeiro a violência do Estado, do descaso dos poderes públicos, da ganância de muitos, da indiferença de tanta gente sobre as milhares de vidas condenadas à (sobre)viver todos os dias. É importante falar dos que morrem de fome e dos que sobrevivem com salários de fome também, porque viver está caro.

É importante, por fim, saber respeitar o rio quando as margens o oprimem demais, trata-se de respeitar uma sociedade que, como pode, está dizendo que como está não dá mais para continuar. Bertold Brecht tem uma frase muito bonita que já foi usada por muita gente de olhares atentos: “Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem” – pois já está na hora de começar a chamar. Por menos vidraças nos noticiários! “Decifra-me ou devoro-te”, é o que eu escuto das ruas.

* * * * * * * * 

*Ana Beatriz Rosa, especial para o NR. É jornalista nômade e poeta praticante. Tem os sentidos voltados para experimentos artísticos e poéticas urbanas. Nas horas nem tão vagas garimpa olhares, palavras e ideias para o Café com Pitanga - um o espaço de comunicação antropofágica. Mora no Rio de Janeiro.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A recepção


por Celso Vicenzi*

 - Pode entrar, Marina, sinta-se como se a casa fosse sua... até uma rede mandei instalar!

- Eduardo, não me fale em rede, por favor. O tombo foi grande.

- Entre, não repare a bagunça. Não deu tempo de organizar uma festa, foi tudo tão de repente. Como a senhora disse que nenhum desses partidos a representava, já tínhamos perdido as esperanças.

- Pior pra mim, que perdi a rede. Tudo culpa dos cartórios.

- Mas, cá entre nós, a senhora não acha que também teve alguma culpa no cartório?

- Eu não, Eduardo. Sempre fui uma moça tímida, evangélica, casada na igreja. Apenas não tinha ainda conseguido arrumar um bom partido, mas aí, com jeitinho, você tocou no meu ponto fraco.

- E qual é?

- É derrotar a velha política deste país. Posso não ter conseguido fundar um partido – afinal, não é tarefa fácil; temos só 32! –, mas sinto-me preparada para governar o Brasil.

- Calma, Marina, vamos com calma. Sobre isso a gente conversa depois... deixe-me apresentar nossos companheiros. Este é Jorge Bornhausen, que trouxe também o filho (o neto ainda não tem idade hehehe!).

- Bornhau... Bornhausen? Que surpresa! Não sabia que você tinha se tornado socialista.

- É a política, Marina, sempre mudando. Mas sempre me interessei pelo Capital.

- O Capital, de Marx?

- Não, o meu capital. Como é enorme, eu costumo citá-lo em maiúscula, entende?

- Não muito, ainda... mas estou recém-chegando, não é, Eduardo?

- Exato, Marina, você verá que estamos levando a mensagem do socialismo a todas as pessoas. A começar pelos mais renitentes, que são justamente os capitalistas. Ah, este é Heráclito Fortes, que você conhece do Congresso.

- Heráclito? Você também aqui?

- Pois é, Marina, uma hora tô aqui, outra ali. É a minha trajetória, que começou na Arena, depois PMDB, depois PFL, depois o DEM e agora aqui no Partido Socialista Brasileiro, onde finalmente encontrei velhos companheiros.

- Mas e aquelas conversas reveladas pelo WikiLeaks, em que você sugeria ao governo norte-americano estimular a produção de armas no Brasil para conter supostas ameaças de Venezuela, Irã e Rússia?

- Justamente, precisamos conter o comunismo e estimular o socialismo ao estilo brasileiro, moreno, alto, bonito e elegante como Eduardo Campos. Você fez uma ótima opção, seja bem-vinda!

- Eduardo, e quem mais vai estar conosco nessa disputa eleitoral. Eu preciso saber. Tem colega que não posso ver nem pintado.

- Pintado, não, nunca. No máximo caiado. Estamos tentando trazer o Ronaldo Caiado, outro jovem com muito futuro no socialismo.

- Mas Eduardo, ele sempre votou contra o meio ambiente. Como é que fica o meu discurso?

- Ô Marina, é só fazer umas pequenas adaptações. Muda uma vírgula aqui, umas 30 páginas ali e pronto. Relaxa, Marina, o Caiado é aliado do PSB em Goiás e defende adesão integral do DEM ao projeto socialista.

- E você garante que esse projeto tem sustentabilidade? Sinto falta do apoio de uma rede...

Não se preocupe, a Rede Globo estará conosco! Somos o novo. E o que é novo é verde. Verde... meio ambiente..., viu, temos muito em comum. Se você me der licença, tenho uma reuniãozinha rápida com a bancada ruralista sobre o Código Florestal. Se quiser deitar na rede, fique à vontade!

* * * * *

*Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Democracia, uma interpretação

por Fernando Carvall*




*Ilustrador e caricaturista, Carvall é um dos grandes nomes da ilustração brasileira; professor do Senac há quase 20 anos, mantém o Estúdio Saci e colabora com o NR desde 2011

quinta-feira, 11 de julho de 2013

“Sinceramente,


por Ana Mendes  Ilustração Ligia Morresi*

não sei o que fazem com o dinheiro. A gente dá comida, leite, frango e casa. Vive lá com a mulher e o filho naquele lugar lindo.

Ganham o dinheiro limpinho. Não pode trabalhar de noite, não pode emprestar o filho pra um serviço e outro, não pode.

A gente não tem como controlar o horário de trabalho deles, é impossível. E esse negócio de fundo de garantia? Complicou muito, muitíssimo. Os recibos todos assinados, tá tudo certinho, o advogado falou. Mas empregado tem sempre razão. Eu mandei a fulana embora dia 6, tudo em dia, mas ela queria mais!

Férias, fundo, aviso-prévio. E o país nessa crise que está. Eu fico apavorada quando vejo as pessoas comprando 1 tomate, 1 cebola! Tá tudo caro, aí tu quer uma faxineira e não dá. Mas também, essa gente não quer trabalhar. Estão cobrando 100 reais por uma faxina. Ganham bem. Se matam trabalhando, nada! Trabalho não mata.

Olha aqui ó, as faxineiras exploram as pessoas, elas são inteligentes. Só querem trabalhar na casa de gente solteira, onde tudo é organizado. Tá certo, né? Espertas. Eu também quero ser faxineira assim: escolhendo trabalho. Ainda mais hoje em dia que os produtos de limpeza fazem tudo por ti. Os vidros são a coisa mais fácil. O assoalho, então? Uma enceradeira e plim. Tá fácil. Mas o mundo tá mudando, não vê? Todo mundo lutando por seus direitos, é bonito isso. É bom pro país, pra colocar ordem na casa. Cada macaco no seu galho. Eu também quero meus direitos, não sou uma empresa, sou uma pessoa, trato as empregadas como se fossem da família.

Elas brincam com as crianças, comem junto com a gente. Mas e agora? Com esse monte de regra aí ficou até constrangedor, sabe? Agora tenho que dizer pra fulana, ó, fica aí no pátio uma hora sentada esperando o almoço passar. Senão depois tu vai me processar. Fica aí. É horrível."

*Ana Mendes, gaúcha de nascimento, é fotógrafa e cineasta documental formada em Ciências Sociais. Mantém a coluna Faço Foto. Ligia Morresi, designer e ilustradora, especial para o texto

terça-feira, 4 de junho de 2013

Notícias



por Cidinha da Silva*

Depois daquela mulher, nunca mais assisti a Globonews do mesmo jeito. Ela virou uma espécie de fantasma que aparecia todas as vezes em que eu passava pelo canal.

A figura aterrissou numa roda de conversa por obra do lançamento do meu Kuami em Vila Isabel. Atrasada, mostrou-se encantada com a atmosfera leve. Até aí tudo bem, esse era mesmo o propósito. O caso é que ela iniciou uma catarse de reclamações sobre a Globonews, sobre as pessoas não conversarem, não interagirem e aquele momento ali, para ela, era um exemplo de como a vida deveria ser.

Ela dizia: “Estou cansada de saber as notícias do mundo e só desligar o televisor quando saio para o trabalho. Quando chego em casa, ligo a TV para ter a companhia da informação. Sei de tudo, a notícia se repete nos sucessivos jornais, às vezes até decoro os textos”. O problema é que ela repetia esse mantra torto como disco arranhado. Passou a tratar nosso espaço como algo terapêutico. Ameaçou pedir que as pessoas compartilhassem apertos de mão, abraços.

Alguns participantes estavam visivelmente incomodados, eu também, e precisei tangenciar a conversa para cenas do livro. Nada adiantou.

Comecei a ter medo dela. Parecia uma morta-viva e pior, era médica. Estava na cara que ela precisava de fogo, de vitalidade. Oferecíamos a chama literária, mas ela precisava de mais. Carecia de terapia profunda, daquelas complexas, com escuta, exercícios respiratórios, florais de Bach, do cerrado, do deserto, da Amazônia, de Minas, de Marte...

O que mais me espantava era a reafirmação de que ela cuidava da saúde das pessoas em um posto de saúde e era assim, corpo, mente e espírito tão adoecidos. Até hoje, quando passo pela Globonews lembro-me daquela mulher, e apavorada, observo as notícias se repetirem.

*escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum. Ilustração retirada do blog do Breno Zannetti. 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Futebol e “jornalismo do apocalipse”: tudo a ver


por Moriti Neto  ilustração Victor Zalma*

O que se faz, aproveitando o reforço das escassas inteligências e do quase zero de seriedade constantes no meio do jornalismo esportivo, é apostar maximamente no descartável, mola essencial da sociedade de consumo.

Deparei-me com exemplo disso no último dia 1º de maio, à tarde, um feriado, quando assistir ao jogo de volta entre Barcelona e Bayern Munique, disputado na Espanha, pelas semifinais da Liga dos Campeões da Europa, parecia boa opção. Parecia. Com a partida transmitida em sinal aberto pelas emissoras Bandeirantes e Globo, o que vi foi uma exibição de mau jornalismo, total descompromisso com a informação.

A vitória do time alemão por 3 x 0 e a incontestável classificação (o time bávaro já havia vencido a primeira partida pelo placar de 4 x 0) transformou o Bayern em novo xodó da mídia esportiva internacional, brasileira incluída. Mais do que isso, expõe a irresponsabilidade das equipes “jornalísticas” que transmitem competições esportivas de alto nível, já que alcançam – e influenciam – tantas pessoas.

O modelo do time a ser admirado nem é o problema. Isso vai de gosto pessoal. A questão é a falta de embasamento. O que leva narradores e comentaristas a afirmarem que “um gigante surge” e “o fim de uma era”?

Sim, o Bayern é ótimo. Apresenta valores individuais de excelente nível e bom jogo coletivo. Ganhou o último campeonato alemão de forma notável. Contudo, o que exatamente serve de parâmetro para guindá-lo ao gigantismo internacional promovido pelos Galvões da vida?

Os reis das obviedades tomam como fundamento duas partidas. Absolutamente nada que escape às duas derrotas impostas ao Barcelona, este, de fato, o gigante da história do futebol contemporâneo tanto pela qualidade técnica como por grandeza de títulos conquistados (vale ressaltar que, no momento, o Barça está claramente em declínio, motivado por diversos itens que vão muito além da ausência, na ocasião da partida, do contundido Lionel Messi).

Nem mesmo é possível classificar a recente alçada midiática do Bayern à condição de time mais forte do mundo como resultado de anos de construção. O projeto que colocou o clube em três finais da Liga dos Campões nas quatro últimas competições disputadas não é considerado. Está longe de ser o parâmetro para a conclusão dos gênios da cobertura esportiva, já que mal citado é.

Sai o Barcelona, entra o Bayern Munique. Numa simples operação que não leva em conta nenhum fator a não ser a busca de audiência e a venda da publicidade. Aqui entra a aposta no descartável. Mexe-se na prateleira, substitui-se um produto por outro e esquece-se a missão de informar.

Não estou aqui a defender o mau humor, mas a seriedade. São conceitos bem diferentes. O futebol, esporte mais popular do planeta, não é só diversão. É patrimônio cultural da humanidade. Merece precisão e responsabilidade na transmissão da informação, que é bem de interesse público.

No entanto, na ânsia pela venda do produto, o que prevalece são as bobagens ditas por falsos profetas, principalmente os do apocalipse. Eles adoram gritar fins e surgimentos. Amam antever os rumos do mundo. Triste. Ainda mais entristecedor é que isso vá bem além de uma transmissão esportiva. Invade as várias áreas do jornalismo. Sem piedade, a irresponsabilidade informativa vista em Barcelona x Bayern Munique atravessa a vida de quem acompanha as editorias de cada dia.

Precisão? Que se dane!

Só para reforçar o quanto o futebol serve de referência sobre a falta de competência na apuração e o quão são irresponsáveis as coberturas jornalísticas atuais, vale lembrar casos envolvendo os jogadores Neymar e Paulo Henrique Ganso, hoje no Santos e no São Paulo, respectivamente.

No limite da irresponsabilidade, tem veículo de comunicação que reforça o erro de outro, site que aposta em astrologia para fazer “jornalismo” e interesses nada nobres em jogo.

-- Ganso troca Santos por Corinthians

-- Astrologa prevê lesão de Ronaldo, alcoolismo de Neymar e queda do Vasco

-- A cruzada da mídia contra Neymar


*Moriti Neto, jornalista. ilustração de Victor Zalma, especial para o texto, faz sua estreia no time de colunistas do NR

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Higienópolis


por Cidinha da Silva*

A Veridiana parece uma avenida, é larga que só, até cansa atravessar. Esperávamos o sinal verde para pedestres no cruzamento com a General Jardim.

Do lado oposto ocorria uma cena bastante comum na região, uma dondoca acompanhava um daqueles cachorros artificiais, de pelo desenhado, unhas pintadas, maria chiquinha, óculos escuros, cachecol e outras firulas. Inusitada era a presença de uma garotinha dourada de uns três anos ou pouco mais. Filha da mulher, soubemos depois.

O sinal abriu para nós, finalmente. A mãe do cachorro rearranjou as sacolas de shopping no antebraço, de forma a deixar a mão livre para ajudá-la a colocar o animal no colo. Ainda teve tempo de dar um beijinho nele, antes de dizer para a menina, “vem filha, vem. Segue a mamãe.”

Desceu da calçada para o asfalto, deu três ou quatro passos e olhou para trás para certificar-se de que a filha a acompanhava. A menina não se movia. Ela, carinhosa: “vem filhinha, vem com a mamãe, vem, vem.” A menina olhava para a mãe, para o cachorro que devia ser dela também, para os carros, para a imensidão à frente e ficava do mesmo jeito, empacada.

A mãe andou mais uns cinco passos e disse: “Olha, filhinha a mamãe ta indo. Vem também, fofa!” A menina então abriu o berreiro e começou a sapatear. A mãe compreensiva, explicou à filha e aos passantes que estava com as duas mãos ocupadas, não poderia carregá-la. Ela precisava colaborar, ser boazinha e andar.

Os passantes pareciam estar em choque. Nós estávamos. Ninguém foi despachado o suficiente para oferecer ajuda à senhora. O guarda de trânsito da outra esquina, atento, veio andando e ofereceu a mão para a menina. Ela não aceitou, queria colo. Ele ofereceu o colo. Ela rejeitou. O guarda, paciente, explicou à mãe que a menina parecia querer o colo dela e que talvez fosse bom colocar o cachorro no chão e puxá-lo pela corda.

A mulher, meio brava, argumentou que o cachorro tinha trauma de buzina e havia gente sem coração que parecia ler a mente do bicho e buzinava só para assustá-lo. De mais a mais, ele tinha tomado uma vacina e estava sonolento. Disse ainda que a filha estava ficando muito cheia de vontades. Será que o guarda não poderia ajudá-la carregando as sacolas, ela morava no quarteirão abaixo. O guarda assentiu. A mãe fez um carinho na cabeça da menina e deu-lhe a mão.

O guarda aconselhou à mulher que acelerassem o passo, pois estava juntando gente e multidão, sabe como é...

*escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum. 

segunda-feira, 4 de março de 2013

Os Quatro Brasileiros - assim se chamará

por Ricardo Sangiovanni*

Há “Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, personagens da mitologia cristã que prenunciam o fim dos tempos.

Há “Os Quatro Grandes”, chefes de uma rede mafiosa internacional que só o infalível detetive Hercule Poirot consegue desbaratar, num thriller da escritora britânica Agatha Christie.

Há “Os Quatro Mineiros”, que é como a história das letras nacionais registrou o grupo brilhante formado por Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Hélio Pelegrino.

E há “Os Três Mosqueteiros”, do clássico de Alexandre Dumas, mas que, por serem quatro, entram nessa lista.

Haverá decerto quatro outros muitas coisas mais que ignoro. Mas o caso é que, em comum nessa quadra de exemplos, há o fato de exalarem todos o cheirinho de mofo da boa e velha Literatura.

Literatura com letra maiúscula à qual jamais pertencerei, mas que não me negará inspiração para um romance, um conto que seja.

Os Quatro Brasileiros - assim se chamará.

Começará numa quarta de noite normal, com um personagem, um velho (suponhamos um qualquer licenciado, ou então chofer de praça) gorducho, suado, bonachão, sentado em casa na frente da televisão para ver o jogo.

Um jogo previsto para ser jogado sem público no estádio, vez que um integrante da torcida organizada do time em questão recém-matara com um tido de morteiro um torcedor boliviano menor de idade, e a punição - ao clube, à torcida, ao nosso Brasil brasileiro - foi estabelecer-se que nenhum torcedor iria mais ao estádio até o final do campeonato.

Nosso herói então verá na televisão (surpresa) que quatro torcedores haviam ido à Justiça, brigado por seus direitos de sabe-se-lá-o-quê e conseguido entrar no estádio, e agora olha eles lá, cantando a plenos pulmões hinos ao seu timão, eô.

Ele aí sorrirá soltando ar pelo nariz. Do jogo, verá o primeiro gol; no segundo, já terá embalado, roncando, e a cerveja emborcará da pança para o chão.

Nos dias seguintes, verá no noticiário esportivo - o único aliás a que assiste e lê - a reportagem divertida mostrando a vibração, os lances, os flashes, as reações do inusitado que foi aqueles quatro torcedores solitários acompanhando o jogo.

Ainda lerá, curioso, o depoimento do locutor que terá narrado a partida: “A emoção da torcida faz falta”. Depois, pescará de um blogueiro indignado que “por causa de quatro (ir)responsáveis que buscaram seus direitos, mas não tiveram bom senso, o buraco que já era enorme poderá se tornar gigantesco para o clube”.

Sentirá que há algo errado muito errado naquele noticiário todo - muito embora, homem simplório, não saiba dizer bem o quê.

Até quando, dirigindo perdido a trabalho (esqueçam o licenciado, vamos ficar com o chofer), pegará pelo rabo a fala de alguém no rádio do carro:

“… o estádio maculado com a presença de quatro consumidores amparados pela justiça comum que passaram por cima de tudo para ver o time. O Pacaembu deveria estar vazio. Não só pela punição da Conmebol, mas por luto mesmo. Usei a palavra “consumidores” de propósito porque é o que essas quatro pessoas são. Antes do futebol ou de serem torcedores do time. O poder de compra os define. Como define nossa sociedade…”

Opa: nessa hora algo estranho despertará dos fundilhos da consciência de nosso herói.

E, iluminado, ele de repente prestará atenção ao motorista ao seu lado, um danadão que acabará de ter invadido o sinal vermelho para os carros. O velho sinal vermelho habitual, aquele que ninguém deveria furar, mas que alguém sempre fura. E pensará, unindo lé com cré, que todos os dias algum pobre diabo invade descaradamente o sinal fechado bem em frente à sua fuça.

Porque a lei - matutará cheio de ironia e raiva - é para todo mundo, menos para esses filhos da puta aí que se acham no direito de julgar, de si para si, qual é o sinal que se pode furar e qual é o que não.

E cogitará genial que todos os invasores são, na verdade… um único! Espera, um único não, ponderará, porque afinal já terá visto invasores de sinais vermelhos mais de uma vez numa mesma hora, num mesmo minuto, num mesmo segundo até.

Mas, homem observador de semelhanças, não deixará passar despercebido o fato de que os invasores agem de maneira tão parecida - aceleram sempre o carro espertalhão às pressas, bem naquela justa horinha em que o sinal fica vermelho para toda a gente - que não é possível que estejam agindo isoladamente. Há um método por trás daquilo!, pensará. E devem ser no mínimo dois os comparsas patifes. Ou três, os biltres. Ou quem sabe uma gangue - uma gangue de... quatro.

É, pensará. Quatro. Quatro, assim como eram quatro, clic!, os torcedores no estádio fechado.

E nessa hora aí do clic!, nosso herói terá então descortinado, sem querer, a matriz das mazelas todas desse Brasil varonil.

Pois terá irrefutavelmente descoberto que quem terá sempre espezinhado todas as regras que apertam nos calos; quem terá sempre dado um jeito de realizar o próprio e banal desejo, em detrimento da impossibilidade dos demais de fazer o mesmo; quem até terá se comovido com as desgraças do mundo, mas achado sempre que elas jamais terão tido algo a ver com o sacro-direito-a-ver-o-meu-time-jogar; quem terá não apenas furado sinais, mas sempre passado na frente nas filas dos bancos, obtido favores nos cartórios, sido liberado de pagar impostos e multas; enfim: quem sempre terá tripudiado do que é de todos, por todos, para todos, terão sido sempre eles, eles, eles - sempre aqueles mesmos, sempre aqueles quatro brasileiros irremediáveis sentados no estádio.


*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

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