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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 16 de junho de 2014

Passadas de pano padrão FIFA


por Tomás Chiaverini*

As coisas nunca saem exatamente como o planejado. Fato. E às vezes a diferença entre sonho e realidade é brutal. Ou, como dizem os americanos, shit happens. Aparentemente foi esse o caso da abertura da copa do mundo. Uma grande cagada coletiva, com o perdão do termo.

Um fiasco. Felizmente, foi um fiasco parcial, não total. E é copa, é Brasil, é futebol, todo mundo já estava na terceira latinha de Itaipava, a seleção levou de virada então bola pra frente, literalmente, e vamos ver aonde vai dar essa maluquice toda.

Mas, antes de irmos adiante, seria muito interessante ver alguém assumido a bronca. Levantando a mão, admitindo o erro e simplesmente pedindo desculpas. Nenhum cristão foi capaz, por exemplo de dizer que a abertura não funcionou, sei lá, porque a cenógrafa teve um piriri em cima da hora. E pra completar o avião dos bailarinos e cantores atrasou e tiveram de improvisar com fita-crepe, tinta spray e três cantores que estavam por aqui só pra assistir o mundial. Por isso saiu aquele espetáculo mambembe, com cara de teatro de quinta série. Acontece, foi muita pressão, assumimos o erro, mas vamos tentar fazer melhor na próxima... Nada, não houve erro, foi tudo lindo, era pra ser aquela porcaria mesmo.

E nosso brilhante neurocientista Miguel Nicolelis, o santo milagreiro das sinapses rompidas? Em vez de dizer que tudo deu certo, não seria o caso de vir a público explicar que a coisa é infinitamente mais complexa do que até ele podia imaginar? Que foi um erro prometer que um paraplégico ia levantar da cadeira de rodas, andar vinte e cinco metros por conta própria e sapecar um pimba na gorduchinha biônico à lá Tony Stark? Infelizmente não conseguimos deixar tudo pronto, a coisa não funcionou, o pobre homem ficou ali pendurado num cabide humano... Nada de novo. Pra ele também não houve erro. Só da Fifa e da Globo, que não deram mais tempo pro fiasco.

E o pênalti? Fred, Felipão, vamos parar de lero-lero. Vamos sair a público, respirar fundo e admitir que foi isso mesmo. Desesperamos e apelamos pro jeitinho brasileiro. Enganar o juiz faz parte do jogo. Não é bonito, não é ético mas assim fomos forjados, e foi o jeito que encontramos pra nos mantermos ali, na luta, carregando duzentos milhões de brasileiros na ponta das chuteiras. Só nos resta, portanto, pedir as mais sinceras desculpas...

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Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha.

sábado, 6 de abril de 2013

Otimistas, pensem bem (mais)


por Pedro Mox*

Algum tempo atrás, Mino Carta utilizou cena do filme Os Companheiros para titular sua coluna semanal: “Que país é este?”. Tomo emprestada a pergunta ao ver os comerciais de Itaú e Brahma, patrocinadores da seleção brasileira de futebol – ambos produzidos pela mesma agência.

O mote de um é “imagina a festa”, do outro “vamos jogar bola”. E eu penso, as preocupações do brasileiro hoje são tão pífias que devemos apenas relaxar e assistir o maior espetáculo do futebol em nosso quintal tomando uma gelada?

No um minuto do filme da cerveja, o expectador é levado a crer que todos os problemas nacionais serão resolvidos num passe de mágica, apenas porque somos brasileiros. Exibe um pôster com Ronaldo fenômeno à tio Sam e os dizeres pessimistas, pensem bem. Ou seja, toda e qualquer voz discordante é um pessimista, um cidadão que não valora seu país, quase um traidor da pátria.

Diz “temos os maiores clássicos”, o que é verdade. Um derby entre Palmeiras e Corinthians não perde em nada aos grandes jogos europeus. Entretanto, a violência aqui existente também não. O sociólogo Mauricio Murad, em seu livro Para Entender a Violência no Futebol – lançado ano passado – mostra que em 2012 aconteceram, até setembro, 17 mortes relacionadas a torcidas de futebol.

Enquanto na Inglaterra torcedores violentos são banidos, aqui nada acontece – aliado ao marasmo da justiça brasileira, nada impede quem se mete em confusão de estar semana seguinte na mesma atividade. Belo Horizonte tem sérios problemas com depredação de ônibus em dias de clássico, o que gerou até uma campanha, a gol contra, na tentativa de coibir estragos no patrimônio. Isso não deveria preocupar?

Parte da mídia tupiniquim, junto à confederação brasileira de futebol, quer fazer-nos parecer que nada na copa pode dar errado, que será um grande espetáculo, daremos inveja à Alemanha etc. Pior, qualquer tipo de questionamento é encarado como falta de patriotismo, quase motivo à pena de morte por deserção. O Brasil, contudo, não pode se preocupar em fazer a melhor copa da história, como quer a Brahma. Tem de fazer a sua copa, admitindo as limitações que temos e tentando melhorar o que for possível.

Nossa megalomania permite gastar fortunas na construção de estádios. Mas, e depois do mundial? Um estádio de futebol pode servir para muitos eventos, entretanto sempre será um estádio de futebol. Cidades como Manaus ou Cuiabá, cujos times ao final da temporada 2012 jogam apenas a terceira divisão, realmente necessitam de tais estruturas? Será que o Estádio Nacional, em Brasília, receberá o clássico câmara x senado?

Natal, que tem três times na primeira divisão estadual, já possui três estádios, mesmo assim está sendo erguida a Arena das Dunas. Em São Paulo, por birra da FIFA um novo estádio está sendo construído, quando uma reforma no Morumbi era plenamente plausível.

Reportagem publicada no portal Uol mostrou que a previsão de gastos com construção/reformas em estádios para o mundial subiu 992 milhões de reais: dos 5,912 bilhões de reais estimados em 2010 para 6,904 bilhões. Com um detalhe que agrava drasticamente tal cenário: 97% deste valor será bancado com dinheiro público. E ninguém garante que esta quantia não vai aumentar. Lembremos dos jogos Panamericanos realizados no Rio de Janeiro. Inicialmente fora orçado em 400 milhões de reais, mas no apagar das luzes sua conta foi bem mais salgada: passou dos 4 bilhões.

No livro Gol Contra, o jornalista inglês Andrew Jennings explica claramente como a FIFA realiza seus negócios – e sua conduta ética passa longe do louvável. Não é a toa que João Havelange presidiu a entidade por 24 anos, e Joseph Blatter reina desde 1998. Eleições recheadas de escândalos, acordos escusos, propina... Mas atenho-me à declaração de um executivo da Mastercard, à página 308 da obra, após um negociação sem muito fair-play por parte da football association: “(qualquer empresa) deveria ter sérias preocupações ao fazer negócios com a Fifa, onde a mentira, a fraude e a má-fé são o procedimento-padrão”.

O caos aéreo, que não é de hoje, também não apresenta muitas perspectivas de melhora. Absurdos como vôos cancelados e o passageiro que se arrume não são casos isolados. Nossos estádios – não no evento copa do mundo, mas hoje, jogos comuns para pessoas comuns – deixam a desejar em diversos aspectos. Dificuldades de acesso, filas quilométricas para entrar, falta de planejamento. Não seria o caso, por exemplo, dos trens funcionarem até mais tarde em dias de jogo no Engenhão?

Em junho próximo teremos a Copa das Confederações, evento teste para a Copa. Será uma boa oportunidade para ver, além de como está a seleção, como será o transporte dos torcedores, acomodações, organização nos estádios etc. Até lá, que Charles Miller nos ajude.

*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O pato, o ganso e o cisne

Sessenta e quatro anos após o trauma vivido no Maracanã, o Brasil volta a sediar uma copa mundial de futebol. E isso num momento em que por variados motivos vamos adquirindo ares de sermos mais do que um país apenas emergente.

O Brasil desperta no mundo atual uma nova admiração que ultrapassa o velho chavão do país do futebol. Políticas sociais mais acertadas, economia minimamente planificada e que consegue vencer a crise do capitalismo neoliberal que vaza água por muitos lados, política externa independente, ampliação e solidificação de seu mercado interno, proteção à indústria nacional, enfim, um conjunto de ações que têm despertado a curiosidade de políticos, economistas e jornais do mundo inteiro.

Curiosamente, onde estamos perdendo alguns pontos é exatamente na classificação mundial de futebol feito pela FIFA. Aquele velho e bobo orgulho da ‘pátria em chuteiras’. E parte desse declínio tem a ver com alguns inexpressivos resultados na nossa seleção canarinho.

Com a criação, ampliação e sofisticação do chamado mercado do futebol europeu há alguns anos, o Brasil tornou-se naturalmente um dos maiores fornecedores de bons jogadores para aquele continente. Mas isso virou a farra do boi. Hoje, as escolinhas de futebol espalhadas pelos quatro cantos do país preparam meninos para se tornarem os grandes astros de amanhã. E são preparados como mercadoria de luxo.

O principal modelo, embora existam muitos outros, é Neymar que, em apenas dois anos foi elevado à categoria de um dos principais jogadores brasileiros, com grandes verbas publicitárias ao redor do seu nome e desempenho, promessas de salários astronômicos e possibilidade de vendas para o exterior por preços estratosféricos. Um verdadeiro cisne ao lado de patos e gansos.

Contudo, o futebol apresentado por esse jogador tem deixado a desejar, seja no seu time, o tradicional Santos Futebol Clube da Vila Belmiro, e principalmente pela seleção nacional. Não só ele, mas os inúmeros talentos que jogam fora do Brasil e seus salários astronômicos. Todos transformados em celebridades nos países em que atuam e no Brasil, incensados e idolatrados além daquilo que realmente merecem.

Alguns, depois de algum tempo, já “bichados”, para usar a linguagem do futebol, voltam para cá, contratados por salários irreais por alguns de nossos grandes clubes. Não jogam, pois estão se recuperando fisicamente: gordos, fora de forma, desinteressados, cansados do futebol, velhos para o esporte aos trinta e poucos anos.

FIFA, CBF, diretores de clubes, empresários, técnicos, patrocinadores, imprensa esportiva, canais de televisão, armam uma ciranda onde o que menos importa é o futebol, o bom futebol, o esporte que sempre encantou milhões pelo mundo afora.

Feira de vaidades, mercado de transações comerciais lícitas e ilícitas, valhacouto de mafiosos, o futebol vai deixando de ser um esporte emocionante na sua prática dentro dos gramados, para se tornar uma atração das páginas policiais e das fofocas jornalísticas.

Por aqui, uno minha voz a de tantos outros que ainda gostam do futebol arte: FORA RICARDO TEIXEIRA!

Izaías Almada, escritor e dramaturgo, colunista do NR
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