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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 7 de julho de 2014

As últimas batalhas da Copa

por Pedro Mox*

Passadas algumas semanas do início da Copa do Mundo, o mundo já sabe quais são as quatro melhores seleções da atualidade. Restam agora duas partidas para Brasil, Argentina, Alemanha e Holanda tentarem mostrar/provar quem manda. Toda a pompa de Copa das Copas justificou-se com inúmeros bons jogos, lances exuberantes, estádios cheios e nem de perto o caos anunciado por alguns às vésperas do evento.

A despeito das boas surpresas e revelações de 2014, às semifinais chegam quatro gigantes do futebol: dentre eles apenas a Holanda não sabe o que é erguer um mundial –fato que pode ser abrandado se levarmos em conta a revolução nos gramados por eles praticada em 1974. A laranja mecânica é atual vice-campeã (sofreu 1-0 da Espanha na prorrogação em 2010) e ocupa 15a posição no ranking da Fifa. Dos onze que iniciaram a partida contra a Costa Rica, o quarteto Kuyt, Sneijder, Robben e Van Persie estiveram na África do Sul. De 1990 para cá os holandeses só não jogaram o mundial de 2002; nessas edições só chegaram à semifinais (além do vice-campeonato de quatro anos atrás) em 1998, quando perderam a decisão do 3o lugar para Croácia por 3-1. Autora de 12 gols, quase metade marcados contra a Espanha (1-5), foi vazada em quatro oportunidades. Só não marcou no 0-0 diante da Costa Rica. Será o quinto embate entre as equipes em mundiais: duas vitórias européias, uma sul-americana e um empate. No jogo mais importante, porém, melhor para os latinos: vitória por 3-1 na decisão de 78.

Seu adversário na semi teve vida mais fácil nas quartas de final. Enquanto Robben e Cia jogaram 120 minutos, mais a tensão das penalidades, a Argentina eliminou a Bélgica com um gol de Higuaín no tempo regulamentar. Mais da metade dos titulares na última partida estavam no mundial de 2010, quando os hermanos foram eliminados nas quartas pela Alemanha com sonoros 4-0. Terão grande desfalque com a lesão de Angel Di Maria, além da provável ausência de Kun Agüero. Entretanto, Messi chegou ao Brasil disposto a mudar a imagem deixada nas outras Copas – e todos sabem do que o atacante criado nas canteras Barcelona é capaz. Atual 7a colocada no ranking da Fifa, somam oito tentos na competição, sofreram três e passaram pelos dois mata-matas com vitórias simples. Na última vez que alcançaram a semifinal, em 1990, ficaram com o vice campeonato – a Alemanha venceu por 1-0. Na última vez que ergueram o caneco, em 1986, Messi tinha um ano de idade, e não deve lembrar dos feitos heróicos de Don Diego. O primeiro veio quando jogaram em casa, 1978, no qual o Brasil foi embora invicto após o fatídico 6-0 dos argentinos contra o Peru.

Algozes dos argentinos na Itália, a Alemanha tem uma boa mescla de juventude e experiência. Dos onze titulares contra a França, apenas dois não estiveram na última Copa do mundo, Hummels e Höwedes. Chegou ao país atrás apenas da Espanha no ranking de seleções. Também protagonizou uma goleada histórica na primeira fase, 4-0 ante Portugal. Marcou 10 gols e sofreu três em solo brasileiro. Klose, com 15 gols, pode ultrapassar Ronaldo e se isolar como maior artilheiro em mundiais. Em 17 participações, carimbaram vaga na semi final 12 vezes – é a equipe que mais jogou esta fase. Nos títulos conquistados, bateu a poderosa Hungria em 54 e a incrível Holanda em 74, além de 90. Nas últimas três edições, perdeu a final para o Brasil na Coréia/Japão em 2002, e foi 3a em 2006 e 2010 – jogando em casa há oito anos, derrotou Portugal por 3-1, com grande festa da torcida.

Sede do mundial, 4o colocado no ranking da Fifa, o Brasil chega à semi com uma campanha irregular. Titubeou em alguns momentos, passou por uma disputa de pênaltis e fez um jogo satisfatório contra a Colômbia. Com uma seleção que majoritariamente brilha em grandes times, campeões por vários clubes europeus, em Copas a experiência é pequena – apenas seis dos 23 convocados sabem o que é disputar uma. Única seleção presente em todas os mundiais realizados, mais vezes campeã, tem a bênção e o fardo de conquistar o hexa em casa. Dos quatro semifinalistas, é o que levantou a taça Fifa a menos tempo: bateu a Alemanha por 2-0 na Copa do Oriente. Sob a batuta do mesmo Felipão, à época com bigodes menos esbranquiçados; que apostou num esquema com três zagueiros, em Ronaldo e Rivaldo vindo de lesão, e bancou a ausência de Romário. Este, inclusive, foi o único encontro entre as duas nações acostumadas a jogarem o mundial. Nossa campanha tem 10 gols marcados e quatro sofridos; uma sofrida disputa de penalidades contra o Chile e um 2-1 contra a Colômbia nas quartas. Para enfrentar a Alemanha, nem estrela do time, nem o capitão: Neymar está fora após sofrer dura falta de Zuñiga e Tiago Silva recebeu o segundo amarelo. Entretanto, o esquete canarinho tem bons suplentes, e um treinador que costuma tirar o melhor de seus homens em situações adversas. Se ainda não convenceu, é uma equipe que tem toda condição de chegar ao Maracanã dia 13.

Com todo respeito às demais seleções, que os deuses do futebol conspirem em nosso favor e, depois de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002, que 2014 possa ser o ano em que costuraremos mais uma estrela no peito.

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*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Não é todo dia que se vê um jogo de Copa do Mundo

por Pedro Mox*

O horário da partida era uma da tarde, mas às nove eu estava pronto. Não é todo dia que se vê – e porque não, sente – um jogo de Copa do Mundo. O estádio Governador Magalhães Pinto, popular Mineirão, receberia o último confronto do grupo D; o temido grupo formado por Itália, Uruguai, Inglaterra e Costa Rica. Àquela altura, entretanto, o “grupo da morte” mostrava-se letal apenas aos campeões mundiais: os caribenhos jogavam por um empate, que lhes asseguraria a primeira colocação. Itália e Uruguai digladiariam pela segunda vaga, aos ingleses restava tentar não realizar a pior campanha do país na história em mundiais.

O trajeto até o estádio mostrava-se descomplicado até a metade do caminho, quando filas intrínsecas a eventos de tal magnitude acabam aparecendo. Nas proximidades do estádio, diversas placas apontavam o caminho de estacionamentos e entradas para pedestres. Estaciono sem problemas e faltando pouco para o meio-dia avisto o imponente estádio de capacidade para 62 mil torcedores. Seu entorno tem chão acimentado, na cor do estádio, que por fora não me parece muito diferente do “velho” Minera. Uma gigantesca faixa com grafismos do evento exibe a frase “Bem vindos a/welcome to Belo Horizonte”. Todas as placas, bem como informações vindas pelos alto-falantes do estádio são em inglês e português.

Ao contrário do que imaginei, em nenhum momento foi-me solicitado o ingresso nos arrabaldes do Mineirão. Bem verdade que era um “amistoso”, mas o clima de alegria e descontração era geral – como imagino ser também nos outros. Fantasiados, caras pintadas, perucas, todos os tipos mais excêntricos que aparecem na TV estavam lá. Dezenas de camisas de clubes e seleções também conviviam harmonicamente: Brasil, México, Argentina; Cruzeiro e Galo; times de outros estados... Um mar de cores que, tal qual o vento em um deserto, formava e destruía belos mosaicos a cada instante.

A primeira entrada é um raio-x, para bolsas e pessoas – idêntico aos de aeroportos. A fila é organizada e não leva mais de 10 minutos. Não é permitido entrar com nenhum alimento, o que me fez pensar o desperdício de milhares de barrinhas de cereal ou biscoitos tipo social club. Acharia ótimo se, em vez de um lixeiro, houvesse um cesto de doação que pudesse aproveitá-los. Já mais próximo, mas ainda fora do estádio, está a entrada de fato, na qual uma voluntária passa meu ingresso num leitor óptico e deseja “boa partida” – sem catracas ou barreiras. Não sei se tal logística permanecerá nos jogos do brasileirão.

Dentro há mesinhas e lixeiras, com separação do que é reciclável. No momento que fui, os banheiros estavam limpos, mas metade das pias não tinha água. Os bares oferecem sanduíche natural, hambúrguer, salgadinhos. Fiquei feliz ao ver que o famoso tropeiro do Mineirão continua lá, ao preço de 15 reais, vendido numa quentinha de isopor. E continua saboroso. Para beber, Budweiser, cerveja oficial da copa, R$ 13; e Brahma, patrocinadora nacional do evento, R$ 10, ambas 473ml (equivalente a um pint estadunidense). Coca cola, num copo que traz também o jogo do dia. Aí está uma grande cretinice da FIFA, na minha opinião: o bar só aceita cartões Visa, patrocinadora do evento. Se o torcedor tem 10 em dinheiro e cartão Master, é obrigado a ir ao caixa eletrônico do estádio para sacar em espécie.

Compro minha cerveja – ou melhor, compro um copo e ganho a cerveja – e sigo para meu lugar: anel superior, cadeira em frente ao círculo central. O melhor lugar para se assistir a partida. Se por fora não mudou muito, internamente é um novo estádio, não lembra em nada o antigo Mineirão. O locutor pede aos presentes que se levantem para os hinos nacionais, e ambas torcidas os cantam alto. No anel inferior, à minha esquerda, a maioria inglesa; à direita costarriquenhos. A torcida brasileira torcia em massa para os latinos, e porventura eu fosse um dos poucos brasileiros torcendo pela terra da rainha – inclusive com a bela camisa vermelha de 66. Os telões alternam a exibição do jogo, com placar e tempo, com torcedores que vez ou outra produzem vaias ou aplausos.

Sem muitas pretensões por parte das equipes, futebolisticamente o jogo é fraco. Mas as torcidas dão show, com grito de “chicos” e “go england”. Fico lá sentado, literalmente apenas assistindo. Mas, esse modo “padrão fifa” é muito chato para mim. No intervalo, rumo ao setor britânico; já no acesso me sinto num território gringo, só ingleses falando alto e tomando Brahma como se fosse Carling. Na arquibancada, em meio a muitas bandeiras da Inglaterra, arrumo um lugar na reta da bandeira de escanteio, na verdade quase no corredor. Ali não tem assento marcado e todos vêem o jogo de pé. Muitos tem os três leões da FA (a CBF inglesa) tatuados; apesar de o jogo não valer nada eles cantam e incentivam o time como se a vitória valesse algo mais que uma despedida honrosa.

As entradas de Gerrard e Rooney dão novo ânimo, Sturridge e Sterling até executam boas jogadas. Braços erguidos, os “pais do futebol” cantam “shall we sing a song for you”, a melodia de “Hey Jude” dizendo “En-gland”. Não há como não acompanhar. Já nos acréscimos o fair play dá lugar às provocações naturais do futebol: torcida grita “olé”, “eliminados”, e vejo alguns copos voando da parte superior em nossa direção. Os ingleses mostram o dedo do meio e continuam cantando; foi o único momento no qual ponderei que algum incidente poderia acontecer – eu não vi, mas li que a tropa de choque cercou os eliminados mais exaltados para evitar qualquer confusão, que de fato não houve.

Apesar de um segundo tempo de muita garra, o placar permaneceu zerado. O que não mudou em nada o reconhecimento daqueles que cruzaram o oceano para acompanhar sua seleção. Após a partida jogadores e técnico se aproximam para agradecer, alguns jogaram camisas, e ali ficaram alguns minutos, admirando a enorme festa feita na arquibancada.

Na saída a fila é muito maior que na chegada, algo que não chega a surpreender dado o público de quase 58 mil pessoas. Todos vão-se com calma, tiram fotos. Uns agora iriam para casa, outros continuam na copa. Se o futebol não encantou, Inglaterra x Costa Rica proporcionou uma inesquecível partida.

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*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Passadas de pano padrão FIFA


por Tomás Chiaverini*

As coisas nunca saem exatamente como o planejado. Fato. E às vezes a diferença entre sonho e realidade é brutal. Ou, como dizem os americanos, shit happens. Aparentemente foi esse o caso da abertura da copa do mundo. Uma grande cagada coletiva, com o perdão do termo.

Um fiasco. Felizmente, foi um fiasco parcial, não total. E é copa, é Brasil, é futebol, todo mundo já estava na terceira latinha de Itaipava, a seleção levou de virada então bola pra frente, literalmente, e vamos ver aonde vai dar essa maluquice toda.

Mas, antes de irmos adiante, seria muito interessante ver alguém assumido a bronca. Levantando a mão, admitindo o erro e simplesmente pedindo desculpas. Nenhum cristão foi capaz, por exemplo de dizer que a abertura não funcionou, sei lá, porque a cenógrafa teve um piriri em cima da hora. E pra completar o avião dos bailarinos e cantores atrasou e tiveram de improvisar com fita-crepe, tinta spray e três cantores que estavam por aqui só pra assistir o mundial. Por isso saiu aquele espetáculo mambembe, com cara de teatro de quinta série. Acontece, foi muita pressão, assumimos o erro, mas vamos tentar fazer melhor na próxima... Nada, não houve erro, foi tudo lindo, era pra ser aquela porcaria mesmo.

E nosso brilhante neurocientista Miguel Nicolelis, o santo milagreiro das sinapses rompidas? Em vez de dizer que tudo deu certo, não seria o caso de vir a público explicar que a coisa é infinitamente mais complexa do que até ele podia imaginar? Que foi um erro prometer que um paraplégico ia levantar da cadeira de rodas, andar vinte e cinco metros por conta própria e sapecar um pimba na gorduchinha biônico à lá Tony Stark? Infelizmente não conseguimos deixar tudo pronto, a coisa não funcionou, o pobre homem ficou ali pendurado num cabide humano... Nada de novo. Pra ele também não houve erro. Só da Fifa e da Globo, que não deram mais tempo pro fiasco.

E o pênalti? Fred, Felipão, vamos parar de lero-lero. Vamos sair a público, respirar fundo e admitir que foi isso mesmo. Desesperamos e apelamos pro jeitinho brasileiro. Enganar o juiz faz parte do jogo. Não é bonito, não é ético mas assim fomos forjados, e foi o jeito que encontramos pra nos mantermos ali, na luta, carregando duzentos milhões de brasileiros na ponta das chuteiras. Só nos resta, portanto, pedir as mais sinceras desculpas...

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Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha.

sábado, 6 de abril de 2013

Otimistas, pensem bem (mais)


por Pedro Mox*

Algum tempo atrás, Mino Carta utilizou cena do filme Os Companheiros para titular sua coluna semanal: “Que país é este?”. Tomo emprestada a pergunta ao ver os comerciais de Itaú e Brahma, patrocinadores da seleção brasileira de futebol – ambos produzidos pela mesma agência.

O mote de um é “imagina a festa”, do outro “vamos jogar bola”. E eu penso, as preocupações do brasileiro hoje são tão pífias que devemos apenas relaxar e assistir o maior espetáculo do futebol em nosso quintal tomando uma gelada?

No um minuto do filme da cerveja, o expectador é levado a crer que todos os problemas nacionais serão resolvidos num passe de mágica, apenas porque somos brasileiros. Exibe um pôster com Ronaldo fenômeno à tio Sam e os dizeres pessimistas, pensem bem. Ou seja, toda e qualquer voz discordante é um pessimista, um cidadão que não valora seu país, quase um traidor da pátria.

Diz “temos os maiores clássicos”, o que é verdade. Um derby entre Palmeiras e Corinthians não perde em nada aos grandes jogos europeus. Entretanto, a violência aqui existente também não. O sociólogo Mauricio Murad, em seu livro Para Entender a Violência no Futebol – lançado ano passado – mostra que em 2012 aconteceram, até setembro, 17 mortes relacionadas a torcidas de futebol.

Enquanto na Inglaterra torcedores violentos são banidos, aqui nada acontece – aliado ao marasmo da justiça brasileira, nada impede quem se mete em confusão de estar semana seguinte na mesma atividade. Belo Horizonte tem sérios problemas com depredação de ônibus em dias de clássico, o que gerou até uma campanha, a gol contra, na tentativa de coibir estragos no patrimônio. Isso não deveria preocupar?

Parte da mídia tupiniquim, junto à confederação brasileira de futebol, quer fazer-nos parecer que nada na copa pode dar errado, que será um grande espetáculo, daremos inveja à Alemanha etc. Pior, qualquer tipo de questionamento é encarado como falta de patriotismo, quase motivo à pena de morte por deserção. O Brasil, contudo, não pode se preocupar em fazer a melhor copa da história, como quer a Brahma. Tem de fazer a sua copa, admitindo as limitações que temos e tentando melhorar o que for possível.

Nossa megalomania permite gastar fortunas na construção de estádios. Mas, e depois do mundial? Um estádio de futebol pode servir para muitos eventos, entretanto sempre será um estádio de futebol. Cidades como Manaus ou Cuiabá, cujos times ao final da temporada 2012 jogam apenas a terceira divisão, realmente necessitam de tais estruturas? Será que o Estádio Nacional, em Brasília, receberá o clássico câmara x senado?

Natal, que tem três times na primeira divisão estadual, já possui três estádios, mesmo assim está sendo erguida a Arena das Dunas. Em São Paulo, por birra da FIFA um novo estádio está sendo construído, quando uma reforma no Morumbi era plenamente plausível.

Reportagem publicada no portal Uol mostrou que a previsão de gastos com construção/reformas em estádios para o mundial subiu 992 milhões de reais: dos 5,912 bilhões de reais estimados em 2010 para 6,904 bilhões. Com um detalhe que agrava drasticamente tal cenário: 97% deste valor será bancado com dinheiro público. E ninguém garante que esta quantia não vai aumentar. Lembremos dos jogos Panamericanos realizados no Rio de Janeiro. Inicialmente fora orçado em 400 milhões de reais, mas no apagar das luzes sua conta foi bem mais salgada: passou dos 4 bilhões.

No livro Gol Contra, o jornalista inglês Andrew Jennings explica claramente como a FIFA realiza seus negócios – e sua conduta ética passa longe do louvável. Não é a toa que João Havelange presidiu a entidade por 24 anos, e Joseph Blatter reina desde 1998. Eleições recheadas de escândalos, acordos escusos, propina... Mas atenho-me à declaração de um executivo da Mastercard, à página 308 da obra, após um negociação sem muito fair-play por parte da football association: “(qualquer empresa) deveria ter sérias preocupações ao fazer negócios com a Fifa, onde a mentira, a fraude e a má-fé são o procedimento-padrão”.

O caos aéreo, que não é de hoje, também não apresenta muitas perspectivas de melhora. Absurdos como vôos cancelados e o passageiro que se arrume não são casos isolados. Nossos estádios – não no evento copa do mundo, mas hoje, jogos comuns para pessoas comuns – deixam a desejar em diversos aspectos. Dificuldades de acesso, filas quilométricas para entrar, falta de planejamento. Não seria o caso, por exemplo, dos trens funcionarem até mais tarde em dias de jogo no Engenhão?

Em junho próximo teremos a Copa das Confederações, evento teste para a Copa. Será uma boa oportunidade para ver, além de como está a seleção, como será o transporte dos torcedores, acomodações, organização nos estádios etc. Até lá, que Charles Miller nos ajude.

*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

segunda-feira, 4 de março de 2013

Os Quatro Brasileiros - assim se chamará

por Ricardo Sangiovanni*

Há “Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, personagens da mitologia cristã que prenunciam o fim dos tempos.

Há “Os Quatro Grandes”, chefes de uma rede mafiosa internacional que só o infalível detetive Hercule Poirot consegue desbaratar, num thriller da escritora britânica Agatha Christie.

Há “Os Quatro Mineiros”, que é como a história das letras nacionais registrou o grupo brilhante formado por Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Hélio Pelegrino.

E há “Os Três Mosqueteiros”, do clássico de Alexandre Dumas, mas que, por serem quatro, entram nessa lista.

Haverá decerto quatro outros muitas coisas mais que ignoro. Mas o caso é que, em comum nessa quadra de exemplos, há o fato de exalarem todos o cheirinho de mofo da boa e velha Literatura.

Literatura com letra maiúscula à qual jamais pertencerei, mas que não me negará inspiração para um romance, um conto que seja.

Os Quatro Brasileiros - assim se chamará.

Começará numa quarta de noite normal, com um personagem, um velho (suponhamos um qualquer licenciado, ou então chofer de praça) gorducho, suado, bonachão, sentado em casa na frente da televisão para ver o jogo.

Um jogo previsto para ser jogado sem público no estádio, vez que um integrante da torcida organizada do time em questão recém-matara com um tido de morteiro um torcedor boliviano menor de idade, e a punição - ao clube, à torcida, ao nosso Brasil brasileiro - foi estabelecer-se que nenhum torcedor iria mais ao estádio até o final do campeonato.

Nosso herói então verá na televisão (surpresa) que quatro torcedores haviam ido à Justiça, brigado por seus direitos de sabe-se-lá-o-quê e conseguido entrar no estádio, e agora olha eles lá, cantando a plenos pulmões hinos ao seu timão, eô.

Ele aí sorrirá soltando ar pelo nariz. Do jogo, verá o primeiro gol; no segundo, já terá embalado, roncando, e a cerveja emborcará da pança para o chão.

Nos dias seguintes, verá no noticiário esportivo - o único aliás a que assiste e lê - a reportagem divertida mostrando a vibração, os lances, os flashes, as reações do inusitado que foi aqueles quatro torcedores solitários acompanhando o jogo.

Ainda lerá, curioso, o depoimento do locutor que terá narrado a partida: “A emoção da torcida faz falta”. Depois, pescará de um blogueiro indignado que “por causa de quatro (ir)responsáveis que buscaram seus direitos, mas não tiveram bom senso, o buraco que já era enorme poderá se tornar gigantesco para o clube”.

Sentirá que há algo errado muito errado naquele noticiário todo - muito embora, homem simplório, não saiba dizer bem o quê.

Até quando, dirigindo perdido a trabalho (esqueçam o licenciado, vamos ficar com o chofer), pegará pelo rabo a fala de alguém no rádio do carro:

“… o estádio maculado com a presença de quatro consumidores amparados pela justiça comum que passaram por cima de tudo para ver o time. O Pacaembu deveria estar vazio. Não só pela punição da Conmebol, mas por luto mesmo. Usei a palavra “consumidores” de propósito porque é o que essas quatro pessoas são. Antes do futebol ou de serem torcedores do time. O poder de compra os define. Como define nossa sociedade…”

Opa: nessa hora algo estranho despertará dos fundilhos da consciência de nosso herói.

E, iluminado, ele de repente prestará atenção ao motorista ao seu lado, um danadão que acabará de ter invadido o sinal vermelho para os carros. O velho sinal vermelho habitual, aquele que ninguém deveria furar, mas que alguém sempre fura. E pensará, unindo lé com cré, que todos os dias algum pobre diabo invade descaradamente o sinal fechado bem em frente à sua fuça.

Porque a lei - matutará cheio de ironia e raiva - é para todo mundo, menos para esses filhos da puta aí que se acham no direito de julgar, de si para si, qual é o sinal que se pode furar e qual é o que não.

E cogitará genial que todos os invasores são, na verdade… um único! Espera, um único não, ponderará, porque afinal já terá visto invasores de sinais vermelhos mais de uma vez numa mesma hora, num mesmo minuto, num mesmo segundo até.

Mas, homem observador de semelhanças, não deixará passar despercebido o fato de que os invasores agem de maneira tão parecida - aceleram sempre o carro espertalhão às pressas, bem naquela justa horinha em que o sinal fica vermelho para toda a gente - que não é possível que estejam agindo isoladamente. Há um método por trás daquilo!, pensará. E devem ser no mínimo dois os comparsas patifes. Ou três, os biltres. Ou quem sabe uma gangue - uma gangue de... quatro.

É, pensará. Quatro. Quatro, assim como eram quatro, clic!, os torcedores no estádio fechado.

E nessa hora aí do clic!, nosso herói terá então descortinado, sem querer, a matriz das mazelas todas desse Brasil varonil.

Pois terá irrefutavelmente descoberto que quem terá sempre espezinhado todas as regras que apertam nos calos; quem terá sempre dado um jeito de realizar o próprio e banal desejo, em detrimento da impossibilidade dos demais de fazer o mesmo; quem até terá se comovido com as desgraças do mundo, mas achado sempre que elas jamais terão tido algo a ver com o sacro-direito-a-ver-o-meu-time-jogar; quem terá não apenas furado sinais, mas sempre passado na frente nas filas dos bancos, obtido favores nos cartórios, sido liberado de pagar impostos e multas; enfim: quem sempre terá tripudiado do que é de todos, por todos, para todos, terão sido sempre eles, eles, eles - sempre aqueles mesmos, sempre aqueles quatro brasileiros irremediáveis sentados no estádio.


*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A Copa de Nações Africanas e a crônica esportiva tupiniquim



por Cidinha da Silva*

Começa o jogo e recomeçam os comentários batidos sobre a força e os músculos proeminentes dos jogadores africanos. Se o narrador acrescentasse o fato de que a maioria deles jogou futebol amador por tempo considerável, que compatibilizou trabalho braçal, em muitos casos desde a infância, com o sonho de serem astros do futebol, talvez o telespectador pudesse contextualizar tanta explosão muscular e baixo percentual de comida, ops, de gordura.

O narrador da final inédita entre Nigéria e Burkina Faso é negro. É provável que sua escalação tenha sido um espasmo politicamente correto da emissora, assim como fazem na cobertura estatal do carnaval baiano, ao desenterrar jornalistas negros ou mais melanizados de todos os lugares possíveis, para dar a impressão de que foram visíveis desde sempre. É um profissional negro, daqueles negros que inoculam diariamente a diluição da negrura na própria corrente sanguínea, na aflição de serem engolidos pelo racismo cordial. Ficam tão viciados na poção mágica que, entorpecidos frente ao poder de comunicação direta com a massa, querem passar como brancos. Brancos não são, mas é como se negros não fossem.

Podia ter caprichado na pesquisa irmão, como vocês fazem quando se trata de um país desconhecido do Leste europeu. É tanta informação que depois da transmissão esportiva a gente sai expert em História, geopolítica, economia e cultura do país focalizado. É justo, muito justo, é justíssimo! Mas os países africanos também merecem carinho.  Ah, mas quem faz a pesquisa é a produção... Em que pese o microfone estar em sua mão, não é mano?

Seria de bom alvitre que os telespectadores tivessem elementos para compreender porque os africanos são tão coloridos, como vocês gostam de dizer. O amarelo, o verde, o preto e o vermelho, presentes em várias bandeiras de países africanos (e nas roupas da torcida) são as cores do pan-africanismo, da crença na unidade política de África frente ao colonizador branco-europeu. Ideário de luta de Du Bois, Marcus Garvey, Abdias Nascimento e Bob Marley na Diáspora Africana, Kwame Nkrumah, em África. One people! One Love! Broda!

O cinema, sim, o cinema tem grande importância cultural e econômica na vida de Nigéria e Burkina Faso, países da África do Oeste, finalistas da Copa de Nações Africanas. Ouagadougou, capital de Burkina, abriga um importante festival de cinema, o FESPACO, no qual cresce a participação de cineastas afro-brasileiros a cada edição. Na Nigéria, a produção cinematográfica anual supera a de Hollywood, cujo nome serviu de inspiração para o pólo africano (Nollywood), a exemplo do Bollywood indiano. A ordem mundial de produtores de cinema é a seguinte, só para firmar: Índia em primeiro (Bollywood), EUA em segundo (Hollywood) e Nigéria em terceiro (Nollywood).

Simples, não, produção? Vocês poderiam ainda esmiuçar o tema e mostrar que a indústria cinematográfica da Nigéria desenvolveu-se como alternativa à falta de salas de cinema. É um mercado predominante de vídeos para serem assistidos em casa, passíveis de aquisição nos mais diversos pontos comerciais das cidades e lugarejos. Pode ser também que isso esteja em alguma medida relacionado com o resultado das guerras que tanto destaque merecem nas transmissões de vocês, cabe a pesquisa.
Participantes do III Encontro de Cineastas da África
e da Diáspora.
Burkina Faso (Foto: Joel Zito Araújo)

Ah... ainda sobre a Nigéria, é de lá que vem uma cultura enraizada no Brasil chamada I-o-ru-bá? Já ouviram falar, não é? Aquela tradição presente nos rituais de candomblé ridicularizados pela mídia em geral, pelos programas humorísticos etc. Da Nigéria foram retirados milhares de pessoas, escravizadas no Brasil e aqui reinventaram a cultura iorubana possível.

Quando se trata de Portugal e Brasil em competições esportivas, vocês gostam de chamá-los de países co-irmãos. Nos casos de Nigéria, Angola, Moçambique, Benin, podem chamar de mãe e filho que não será exagero. Captou produção?

Produção, agora, uma curiosidade sobre o camelo, animal muito utilizado no transporte de pessoas e coisas, ainda hoje, em Burkina. Embora já existisse no Egito antigo, o camelo passou a ser usado para a circulação de pessoas e mercadorias no deserto, a partir do século IV da nossa era, dinamizando a economia. Este simpático animal, que dizem se alimentar até de pedras, dada sua resistência, foi grande impulsor da vitalidade do comércio de curta, média e longa distância dentro do continente africano. Esse comércio permitia que os grupos humanos tivessem acesso a coisas que não produziam diretamente, bem como a novas idéias e comportamentos.

Existem outros animais em África além das zebras, girafas, crocodilos e hipopótamos fetichizados por vocês. Existe, por exemplo, o utilíssimo camelo, grande protagonista na comunicação entre a floresta e o deserto, as populações costeiras e ribeirinhas e as savanas. Sacou produção?


* escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum. Imagem: dancarinos se apresentam durante a cerimonia realizada antes da final da Copa das Nações.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Cruz Credo!

No mar quase infinito de imagens, algumas de tão vistas viram marcas nas nossas mentes. Uma espécie de segunda pele. O sorriso da Monalisa, o bigodinho de Hitler, o cogumelo de Hiroshima, os aviões atravessando as Torres Gêmeas, o gol do uruguaio Alcides Ghiggia na final da Copa de 1950.

Mesmo os que estavam longe de encarnar, já viram o pé, o chute; a bola estufando a rede, o goleiro Barbosa curvando-se. Ouviram o Maracanã silenciar incrédulo e chorar crédulo. Em Sampa, o imperdível Museu do Futebol tem uma sala exclusiva para passar o filme dessa derrota. Assustador. A sala parece uma morgue.

Como o Brasil precisava apenas empatar, a euforia era tremenda. Governo, imprensa, população embarcaram na canoinha furada de cantar a vitória antes dela mesma. O roteiro do jogo é conhecido: o brasileiro Friaça abriu o placar. Schiaffino empatou para a Celeste. Aos 34 minutos do segundo tempo, Ghiggia liquidou o riso. Uruguai 2 x Brasil 1.

O Maracanã, erguido especialmente para Copa de 50, sendo na época o maior do mundo, tremeu. Não de alegria. Tremelicou de decepção. Meu pai, então com 20 anos, estava lá. Tornou-se, junto com mais de 190 mil pessoas, testemunha ocular e sonora do pior desastre futebolístico do país.

Naturalmente, os uruguaios deliraram. Apelidaram o acontecido de Maracanazo e jamais esqueceram o 16 de julho em que, contra todos os prognósticos, se tornaram bicampeões do mundo. Pouco importa que depois não tenham repetido o feito. No país vizinho, a história dessa vitória é repetida de pais para filhos. Toda vez que as duas seleções duelam, a palavra Maracanazo é evocada como um mantra.

Mas tudo isso é passado, água rolada, ponte derrubada, fósforo queimado. O que significa dizer, aquilo que não é possível mudar. Aquilo que só pode ser contado e contado. Melhor é focar no futuro. O novo, o bem-feito, o brilhante. Futuro que só pode ser imaginado e imaginado.

No caso do futebol, o futuro é a Copa de 2014. Até lá, o Brasil tem uma caprichosa lição de casa: construir os novos estádios, melhorar a infra dos aeroportos e estradas, resolver a equação do trânsito, aparelhar a rede hoteleira, ficar de olho na segurança, concluir a reforma do Maracanã. Este mais uma vez será a arena da grande final.

Porém não é o bastante. Precisa muito além de cimento, argamassa, ferro. Precisa de uma seleção que nos faça sonhar. Para disputar a Final, ela terá que melhorar muitíssimo seu presente. Pois até agora o que vimos é um time sem jogadas, sem ímpeto, sem inspiração. E, principalmente, sem gols!

Já a Celeste traz a memória fresca do quarto lugar na última Copa do Mundo, a taça da Copa América 2011, e anda liderando as eliminatórias sul-americanas. Tremam corações ao imaginar o Uruguai levantando o caneco no mesmo Maracanã, com o detalhe de 64 anos depois.

Segurem-se corações ao imaginar os netos, bisnetos e até tataranetos, daqueles que choraram em 1950, chorando novamente. Ao imaginar os netos, bisnetos e até tataranetos, dos que festejaram em 1950, refestejando um Maracanazo 2.

Fernanda Pompeu, escritora e redatora freelancer,colunista do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Carvall, especial para o texto.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

CBF e AFA mantêm homenagem ao exterminador de indígenas

As seleções nacionais de futebol de Brasil e de Argentina disputam nos dias 14 e 28 de setembro a Copa Roca, torneio amistoso que, após mais de trinta anos de intervalo, volta a ser disputado. Para os saudosistas do futebol, um momento para relembrar grandes partidas. Para as sociedades das duas nações, um fato a ser lamentado.

Ainda que se intitule oficialmente o encontro como Superclássico das Américas, cartolas e jornalistas têm adotado o nome de Copa Roca.Nada contra o torneio. Que seja prazeroso o futebol jogado. Tudo contra seu nome.

É de se assustar que em tempos democráticos, e superadas parcialmente duas sanguinárias ditaduras, Brasil e Argentina se coloquem a render homenagem a Julio Argentino Roca, o General Roca, como gostava de ser chamado, ministro da Guerra responsável pela “colonização” do interior argentino, particularmente da Patagônia, em uma campanha que deixou 1.300 mortos e mais de doze mil prisioneiros.

Foi ao longo de dois meses, em 1879, que Roca realizou a campanha-relâmpago destinada a povoar com argentinos – indígenas eram outra sorte de gente, na cabeça dele – as secas e frias regiões.

Estavam em jogo duas questões. A primeira, de uma nação europeizada, de acabar com a incômoda presença de nativos. A segunda, central, era a disputa territorial com o Chile pelo direito às terras patagônicas. Baseavam-se as duas nações no antigo princípio do uti possi detis – uso, logo possuo –, o que fazia premente ter habitantes pátrios nestas regiões (do lado chileno, as vítimas foram os mapuche).

Grandona da AFA e Teixeira da CBF
“A meu ver, o melhor sistema de concluir (sic) com os índios, seja extinguindo-os ou jogando-os ao outro lado do Rio Negro, é o da guerra ofensiva (…) É necessário ir buscar o índio diretamente em sua morada, para submetê-lo ou expulsá-lo”, anotava Roca em correspondência reproduzida pelo jornalista Jorge Lanata no livro “Argentinos – quinientos años entre el cielo y el infierno”. Como prêmio, anos depois Roca ascendeu à presidência.

Obviamente, para o torcedor a Taça Roca nada tem a ver com o exterminador de indígenas, ligando-se à saudosa ideia de um futebol bem jogado e de uma rivalidade antiga. Tampouco seria de se esperar que os presidentes da CBF, Ricardo Teixeira, e da Associação de Futebol Argentino, Julio Humberto Grondona, tivessem qualquer cuidado histórico. Ainda que quisessem reconhecer a verdade sobre Roca, não é improvável que vissem com bons olhos uma atuação autoritária, haja visto as próprias gestões à frente das entidades que ocupam.

Mas as sociedades dos dois países deveriam estar preocupadas em garantir ao general o lugar que lhe cabe na história: o de genocida.

João Peres, jornalista, repórter da Rede Brasil Atual e colaborador do NR

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Advinha quem é?

Caco Bressane, ilustrador e arquiteto, fez o desenho abaixo. E o desafio (um grande desafio!) ao leitor é descobrir quem é o "ilustre" ilustrado da vez. Deixe seu palpite pra gente.

Ele teria a ver com futebol brasileiro?
Teria a ver com a Copa do Mundo de 2014?
Ele te lembra alguém?
Quem?
Sobrenome Peixeira?
Não?
Quem será que não larga o osso do futebol brasileiro?
Hum....



quinta-feira, 14 de julho de 2011

Amor fiel

Ser apaixonado por futebol não é algo que acontece por osmose, talvez por convenção familiar ou social, ou em outros casos trata-se de uma coisa que se aprende desde criança como amarrar os cadarços dos sapatos ou cumprimentar as pessoas nas ruas. O difícil é explicar os porques. Mais do que idolatrar um time ou uma seleção, torcer para um clube faz parte do seleto grupo de sentimentos nos quais predominam o amor incondicional, desses irracionais que beiram a cegueira nos lances polêmicos.

Pertencer a uma torcida vai muito além de enotar seu coro, e há quem diga que mais parece um ritual barbáro, ou vestir a camisa do time no dia seguinte a uma vitória. Torcer implica em perder o humor, em chorar quando seu time sofre uma derrota ou é rebaixado. É emoção pura, e nisso não existe espaço para visões céticas nas quais o futebol é comparado a mais uma política pão e circo do sistema. Vibrar com cada gol é natural, é comportamento social esperado para aquela situação, agora, o que foge do comum é o sentimento capaz de extrapolar os limites da razão e manter, durante a derrota, um único canto independente do resultado.

Quando lembro das inúmeras vezes em que vi o Corinthians jogar no Pacaembu, a primeira imagem que me vem a cabeça é da Torcida e seu amor inexplicável de alcance inimaginável. Seu poder de empurrar o time seja da mesma forma independente do placar do jogo não é uma qualidade que encontramos em qualquer esquina. O ambiente da torcida é de festividade pura, não existe classe social entre amigos instantâneos que compartilham as emoções da partida.


Na contramão dessa poesia vivenciamos atualmente o assassinato da beleza em prol da Cartolagem com C maíusculo, manchada de corrupções e intereresses mascarados por uma névoa permanente de banditismo.

Em inúmeras vezes me perguntaram por que os corinthianos falam tanto de sua torcida. Sem saber transmitir essa emoção com palavras sempre convidei meus amigos a irem assistir uma partida do Corinthians no Pacaembu, quem sabe assim eles possam entender. A Gaviões da Fiel arrepia, contagia, enche o coração do povão de alegria. Viva o futebol bem jogado, com lances bonitos, dribles desconcertantes, bandeiras enormes estendidas sobre a torcida, tambores e batucadas entoando os gritos de guerra e todos os elementos desse esporte tão enraizado na cultural canarinha.

Viva o amor incondicional e o futebol arte.

Victor Moriyama, 26 anos, é repórter fotográfico do Jornal O Vale, em São José dos Campos, cidade que reside atualmente. Mantém a coluna Fotógrafo-escreve no NR.

segunda-feira, 29 de março de 2010

A verdadeira origem do “Armeration” vem de nome de um peixe caribenho

Longe de ser um craque, o lateral-esquerdo Pablo Armero, de 24 anos, caiu nas graças da torcida do Palmeiras e ficou conhecido pelos amantes do futebol no Brasil por conta da comemoração de um gol (que nem por ele foi marcado) há algumas semanas. A fama repentina do colombiano surgiu na partida entre o Palmeiras e o Santos, jogo cheio de gols (4 a 3 para os palmeirenses) e passos.
Os santistas abriram dois gols de vantagem e comemoram seus feitos com danças coreografadas (e previamente ensaiadas). Irritados, os jogadores do time de Palestra Itália, responderam à brincadeira dos rivais com gols e danças, essas sim espontâneas e sem prévia combinação. E foi numa dessas comemorações que Armero, com seu talento, roubou a cena.



A celebração efusiva do lateral palmeirense tomou conta do noticiário (não só o esportivo) e de pronto surgiram várias teorias sobre a origem da coreografia feita pelo jogador.

A referência à singela canção Rebolation, do candidatíssimo ao Grammy latino Parangolé, foi a mais citada, e os vídeos de Armero bailando ao som de “bote a mão na cabeça que vai começar o Rebolation” se reproduziram como gremlins. Surgia o Armeration.



Os saudosos da legítima música popular brasileira foram buscar no século passado outra referência. A poesia do É o Tchan, com a inesquecível canção Segura o Tchan, foi citada como fonte de inspiração de Armero.



Os antenados na indústria norte-americana de entretenimento pediram espaço e compararam a dança de Armero ao gingado de Beyoncé (que não viu Puerto Candelaria), com a necessária observação de que o colombiano requebra melhor do que a estrela pop.



O que pouca gente sabe é que Pablo Armero recorreu a seus antepassados para encantar a torcida palmeirense. A coreografia do colombiano é inspirada no Mapalé (nome também de um peixe), uma dança criada pelos escravos. A história remete aos negros trazidos à região do Caribe colombiano. No final do dia, homens e mulheres se reuniam na praia para limpar os peixes e dançar ao som de seus tambores para espantar o banzo. A coreografia, repleta de saltos, quedas, rebolados e mexidas de ombros, serve como demonstração de força e virilidade (no caso do homem) e sensualidade/fertilidade para as mulheres.



Armero não é propriamente de San Basílio de Palenque, região onde o Mapalé surgiu, mas é muito provável que um ramo da sua família tem passado por aquelas terras. A região de Pelenque foi a primeira zona de resistência dos africanos contra a escravidão na América do Sul (não apenas na Colômbia). Fugidos de seus senhores, os negros se reuniam em áreas livres, chamada de palenques, e se organizavam em sociedades regidas por regras próprias. Parangolé, É o Tchan e Beyoncé que me desculpem, mas Pablo Armero trazia no sangue, há séculos, a coreografia exibida na Vila Belmiro naquele domingo.
Bônus para quem sobreviveu até aqui: Teria Armero se inspirado em Kiko, do Chaves? Você achou original a comemoração de Armero? Então olha isso:



Ricardo Viel é jornalista e colunista do Nota de Rodapé

terça-feira, 16 de março de 2010

A molecagem que faltava nos campos de futebol

Há muito se discute sobre o fim do futebol arte. E sempre que uma equipe pragmática é campeã o futebol competitivo e de resultado é valorizado. Nós mesmos, aqui no Nota de Rodapé, já abordamos esse assunto e criamos teses diferentes sobre isso. A verdade é que todos os amantes do esporte (praticantes ou não) gostam de espetáculo, seja no futebol, no basquete, no vôlei, mas, sobretudo, gostam de vencer.
Quando o espetáculo é coroado com títulos, a felicidade é completa. Mas uma equipe que joga bonito é inversamente criticada quando sai de uma decisão derrotada. A imprevisibilidade do esporte é emocionante e surpreendente. Quantos times e seleções encantaram os olhos dos torcedores, mas ficaram marcadas pela falta de conquistas? E quantos campeões entraram para história por causa da garra e do espírito de luta que os levaram a superar o favoritismo do adversário?
Enfim, retomo o tema após mais uma exibição de gala do jovem time do Santos. Muitos podem desdenhar a goleada de 10 a 0 sobre o modestíssimo Naviraiense, do Mato Grosso do Sul, mas ninguém pode negar a qualidade técnica da equipe capitaneada por Robinho. Jogando com objetividade, SIM, os novos “Meninos da Vila” quebram tabus e provam, mais uma vez, que a arte e a molecagem fazem parte da nossa cultura. Os garotos do Dorival Jr. empolgam e o técnico faz bem em não deixar que eles se empolguem, como aconteceu em alguns momentos do clássico contra o Corinthians, na Vila, quando Neynar chapelou o zagueiro Chicão quando a bola estava parada, ou quando Madson ficou “penteando” a bola só para irritar o marcador.
O treinador, por sinal um dos melhores da nova geração, ao lado de Adilson Batista, do Cruzeiro, e Mano Menezes, do Corinthians, admitiu que houve excesso de preciosismo naquela partida e repreendeu seus atletas. “Se quiser chapelar, chapela, mas faz isso com bola rolando”, disse o treinador após a goleada contra o Naviraiense.
Dorival Júnior foi além e disse que não vai abrir mão do esquema ofensivo, mesmo correndo alguns riscos defensivos. Neymar e Paulo Henrique Ganso têm muita habilidade e visão de jogo, além da fome de gols, o que faltava a Robinho, quando este surgiu para o futebol, em 2002, pedalando contra os zagueiros. Os dois novos notáveis do Peixe já apresentam hoje características que o companheiro demorou a adquirir. Se eles forem bem orientados e não se iludirem com a fama repentina, poderão, em breve, brilhar também com a camisa amarela da seleção. Pena que o Dunga não dá sinais de mudar o grupo que não tem encantado a ninguém, mas conseguiu bons resultados sob seu comando. De qualquer maneira, os nomes de Neymar e Ganso estarão presentes no ciclo da Copa de 2014, aqui no Brasil. Viva a molecagem no futebol, mas se o Santos não for campeão...

Thiago Barbieri é jornalista; autor do livro sobre o Corinthians "23 anos em 7 segundos", editor do jornal Primeira Hora da Rádio Bandeirandes e colunista do Nota de Rodapé.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Na Argentina, a música nas arquibancadas é tão importante quanto o futebol

Assistir a um jogo na Bombonera, mítico estádio do Boca Juniors, da Argentina, é uma experiência inesquecível. Se você não liga muito para futebol tudo bem, porque tão espetacular como o jogo em si (na verdade, ultimamente a equipe de Riquelme tem deixado a desejar) é a festa que se faz nas arquibancadas.
No país hermano, a torcida do Boca pode ser a mais conhecida, mas não é a única a dar show nos estádios – e talvez nem seja a mais fanática. As hinchadas (torcidas) são um orgulho à parte no país de Maradona e Gardel. Além de cantarem os noventa minutos de jogo, cada uma delas têm dezenas de músicas (os cantitos), muitas delas feitas especialmente para quando a equipe enfrenta um determinado adversário.

Aqui um vídeo com boa parte das músicas cantadas pela torcida do boquense:



Juan Cruz, jornalista argentino e torcedor fanático do Belgrano (de Córdoba), conta ao Nota de Rodapé sobre essa tradição em seu país.
“As músicas das torcidas são, para os torcedores, tão ou mais importantes do que os resultados dos jogos. No campo se pode perder, mas nas arquibancadas não. E a forma de não perder nas arquibancadas e incentivar seu time o tempo todo. Por isso, é muito comum que o duelo entre torcidas se faça na base do quem canta mais.”
A grande maioria das músicas cantadas pelas torcidas argentinas são adaptações de canções que fazem ou fizeram sucesso no país. Portanto, como explica o colega Juan Cruz, o sonho de qualquer cantor é ter uma música sua adaptada por uma hinchada.
“Na Argentina, grande parte dos cantores e músicos têm uma missão, um objetivo, um desejo confesso e irremediável: que as torcidas de futebol utilizem suas melodias. Isso acontece desde que eu tenho memória, há pelo menos 20 anos.”

Aqui, uma música dos Fabulosos Cadillacs (de Vicentico) e a adaptação feita pela torcida do Boca:






Fabulosos dizem:
Por que será que você fica aí dentro/não fique, porque aqui fora é carnaval/carnaval a vida toda e uma noite com você/ se não há galope nos para o coraçã0
A torcida diz:
Por que será que eu te sigo em todos as partes campeão/ por que será que não sei viver sem você/carnaval a vida toda, é xeneize (apelido do time) a paixão/ se não te vejo, se parte meu coração
Torcedor do pequeno Belgrano, Juan Cruz tem um orgulho tão grande da sua torcida (apelidada de piratas) do que de seu time. “Meu time tem poucos méritos esportivos e poucas vezes os vi jogando realmente bem. Mas dão o sangue e a torcida os acompanha. A torcida não comemora uma linda jogada, mas sim quando o jogador se joga de cabeça para salvar uma bola.”
O fato de gritar mais alto em um estádio é marcar território, explica Juan. Deixar claro que os adversários são ‘todos putos’ (veados) e que a torcida é fiel com ou sem derrota do time. Juan se despede cantando uma linda canção que os piratas adaptaram de uma música do uruguaio Rúben.



Quando eu morrer quero que meu caixão seja da cor celeste, como meu coração
Os piratas nunca vão te abandonar, seja onde for, sempre vai te empurrar
Pela camiseta, pelo carnaval, vamos Belgrano, você tem que ganhar
Somos cachorros, comemos o Matador (Talleres, maior rival), nem como a Gloria (outro adversário local), que é um ‘puto cagón’ (nem precisa traduzir)
No Brasil
Algumas torcidas, em especial do Sul do país, copiam abertamente o estilo e as músicas das torcidas argentinas. O Grêmio, por exemplo, tem uma torcida que se intitula “alma castelhana”, e que aportuguesa os cantitos. Nem precisa dizer a porcaria que fica. Para terem uma ideia, a canção que diz somos borrachos (bêbados, em espanhol) fica para os gremistas “somos borrachos” (sim, assim mesmo), o que faz tanto sentido como tentar cantar um tango de Gardel em português.
Só uma notinha triste: as torcidas argentinas são, em grande parte, muito violentas. Nisso a semelhança com o Brasil é total. Os ‘Barra bravas’, como são chamados lá, vivem se matando (e muitas vezes matando gente que nada tem a ver com o futebol) pelas cidades argentinas. Só podemos lamentar.

Ricardo Viel é jornalista e mantém a coluna Conexsom Latina neste Nota de Rodapé
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