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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Carta a João (que amava Teresa)



por Ricardo Viel*

Itabira, novembro de 1929

João:

meu amigo, gostaria tanto que esta carta levasse boas notícias, mas não, não será assim. Carrega um pedido de desculpas e uma triste nota de falecimento. Começo pelo segundo, que é mais urgente. Ontem, dia 20 de novembro deste ano de 1929, o nosso Joaquim deu cabo da vida. Antes de se enforcar em uma mangueira, deixou a típica carta de suicida na qual nos exime a todos de qualquer culpa, e que nos faz sentir ainda mais culpados.

Todo suicídio é evitável, e o caso do nosso amigo é só mais uma prova disso. Desde a tua partida para os Estados Unidos (já deve fazer uns oito anos anos ou mais), nosso grupo foi se desfazendo. Você foi tentar a vida do outro lado do continente (por certo, diga-me como vão as coisas, as notícias que chegam cá é que vive-se uma grande crise, espero que estejas bem), Raimundo mudou-se para a Bahia, o Carlos instalou-se na capital, e eu cada vez via menos o Joaquim. Sinto-me culpado, eu era quem estava por perto, e não percebi – ou não me importei – que ele estava passando por um período complicado. Havia rompido com a Maria, mas esse não era o principal problema, eu creio; ele nunca a amou. O grande baque foi com a Lili, que o desprezou e jogou muito baixo. Um dia, no Bar da Lúcia, o Joaquim me contou que a Lili certa vez lhe disse que enquanto ele estivesse com a Maria nunca nada aconteceria entre eles. Ou seja, deixou nas entrelinhas que se ficasse solteiro as coisas poderiam funcionar. Você não acompanhou isso, mas foi um escândalo na cidade quando o Joaquim resolveu romper o noivado com a coitada da Maria. Cidade pequena, todo mundo ficou sabendo, e muita gente desconfiou de que havia uma culpada. E então o Joaquim esperou passar umas semanas, deixou a poeira assentar, e foi todo perfumado e com ramo de flor na mão para conquistar Liliane Dutra Buaventura. Recebeu foi um tremendo não no meio do peito. Aquilo lhe doeu mais do que fosse uma navalhada nas carnes. Lembro-me de encontra-lo na praça umas quantas vezes perdido, só, e sem dizer coisa com coisa. Por conta da bebida, perdeu o emprego na companhia. Cheguei a vê-lo dormindo na rua num domingo antes da missa. E eu, como estava bem, feliz, casado e cheio de planos, evitava cada vez mais o contato.

Uma das últimas vezes que o vi foi no velório do Raimundo. Espero que tenham lhe contado... Foi terrível, pobre homem. Pobre e azarado, porque no trem ia muita gente, mas só morreu ele. Demoraram quase um mês para trazer o corpo dos confins da Bahia. A família endividou-se, precisou pedir dinheiro a todos, e o caixão veio lacrado. Sabe-se lá se o corpo que havia ali era o do Raimundo. Nem sei se ali havia um corpo.

O Joaquim apareceu bem vestido, mesmo terno que hoje o enterraram, cabelo penteado, barba feita, mas era impossível disfarçar a miséria de vida que levava. Contou-me que tinha planos de abrir um negócio, que precisava de um capital. Antecipei-me, e disse que se ele soubesse como conseguir que por favor me dissesse porque eu também necessitava dinheiro para trocar minhas máquinas. Dali fomos tomar umas cachaças, e falarmos de ti. E da Maria, que parece ser que não sai de casa e disse que não quer saber de homem mais na vida. E logo surgiu o tema Lili. Joaquim disse que o que mais lhe doía era que cada vez que a via ela estava mais bonita e encantadora, enquanto ele era aquele farrapo sem trabalho e sem sonhos.

João, depois da terceira dose ele começou a chorar, e falou que não valia a pena viver, que o bom mesmo era dar um fim. Disse assim, João, “dar um fim nas coisas”, e eu me fiz de desentendido, olhei o relógio, disse que era tarde, paguei a conta (faço questão de pagar, eu disse com o peito cheio), dei um tapa nas costas dele, e fui embora achando-me um homem bom, um sujeito que havia vencido na vida, não como o Joaquim.

Isso faz uns seis meses. Foi a última vez que nos falamos. E ontem ele cumpriu com o que tinha dito. Deve ter sofrido um bocado o nosso amigo. Lembro-me tanto dele menino, de todos nós, das nossas farras, das nossas conversas e dos nossos projetos. Nada saiu como planejávamos, verdade?

No velório, já entrada a noite, apareceu a Lili. Ia acompanhada de um tal de João Pinto, parece ser que é filho do Fernandes da Carniçaria, você conhece? Abraçou a dona Dolores, cumprimentou-me com um cordial e falso inclinar de cabeça, e foi-se embora com cara de triunfo tomada da mão daquele homem que eu nunca tinha visto na vida. E fiquei a pensar que se ela tivesse escolhido o Joaquim, eu estaria agora era escrevendo uma carta para contar da festa de casamento, ou do batizado da criança que acabara de nascer. Mas não, não é assim, e a Lili não conseguia disfarçar a alegria mórbida de estar ali, de estar acompanhada, de ter optado pelo filho do Fernandes e não pelo Joaquim, que não era filho de ninguém e tampouco será o pai de alguém.

Só não foi pior porque por lá apareceu o Carlos, que há anos se foi para a capital e pouco aparece por aqui. Contou-me que a faculdade de farmácia não lhe serviu para grandes coisas, que o seu negócio é mesmo escrever, e que está metido em um projeto de um livro de poesia. Disse que prepara surpresas. É o mesmo de sempre: elegante, discreto, e genial. Tenho certo que se falará muito dele no futuro.

Pois era isso, meu caro amigo. O pedido de desculpas é pelo sumiço. É inadmissível que nos percamos dessa maneira. Mande notícias, de preferência boas, eu tratarei de fazer o mesmo. Um abraço forte,

Edu Coutinho

Pós-escrito: e de Teresa, sabe algo?

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Ricardo Viel, jornalista, atualmente em Lisboa, Portugal. Ilustração: ROBERT BEATTY SURREAL-SCAPES

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Revista Cesárea vem para "subverter o óbvio"


Nascida como “banda de garagem”, revista literária que acaba de surgir propõe resistência e renovação do jornalismo cultural

por Ricardo Viel*

No final de agosto recebi um e-mail de Schneider Carpeggiani (acima, à direita) que dizia assim: “Ricardo, eu estou num projeto de fazer uma revista de literatura pra tablet, a ideia é ver se lanço o primeiro volume dela em novembro como piloto, para ver o mercado. Queria ver se a gente podia conversar sobre esse projeto. Toparia?”. Eu respondi que, se tivesse dinheiro, pagaria para entrar. Três meses depois, a revista está em trabalho de parto. Na próxima quarta-feira, dia 27, a Cesárea – assim se chama – estará à venda nas lojas on-line (nesse primeiro número eu assino um perfil de Daniel Mordzinski, “o fotógrafo dos escritores”).

Schneider e eu não nos conhecemos pessoalmente, mas há mais de um ano trocamos e-mails com frequência. Ele é editor de uma publicação para a qual colaboro, o Suplemento Pernambuco. Do primeiro correio que lhe mandei, em que o chamava de “estimado senhor Schneider Carpeggiani”, até hoje muita água passou debaixo da ponte. Descobri que o editor com nome de personagem histórico tem mais ou menos a minha idade, corte de cabelo moderno – como esses que a juventude de hoje usa, diria minha avó –, que é dj nas horas vagas, e que é um cara simples e cheio de ideias. Nesses meses trocamos impressões sobre jornalismo, literatura e sobre a vida (sobre fracassos, amores e sonhos), e agora estamos ansiosos com a tal Cesárea.

Desde o começo do projeto fiquei curioso para saber como tinha surgido a ideia, quem mais participaria, como seria etc. Até que achei que valia fazer uma entrevista com o Schneider para que mais gente pudesse conhecer a história.

Nota de Rodapé  –  O que é a Cesárea? O leitor pode esperar o que dessa nova revista?
Schneider Carpegianni – Cesárea é uma revista de literatura, a princípio, para iPad, que será vendida trimestralmente na loja da Apple por US$1, 99. Eu não gosto de pensar que a revista vai seguir essa ou aquela linha editorial, apenas parto do princípio de que a base é literatura, ou seja: uma narrativa, real ou não, que subverte o óbvio. Acho que é isso o que me move como editor de texto e a edição de arte de Jaine Cintra (acima, à esquerda), minha sócia. Provavelmente, o segundo número da revista não terá nada a ver com o primeiro, porque pensamos que a edição precisa ser sempre uma espécie de mostra artística, um work in progress. Além da questão dessa raiz literária a revista é pensada a partir da perspectiva de trazer várias vozes e colocar essas vozes diversas de forma horizontal, sem hierarquia para o leitor: nessa edição, por exemplo, temos nomes consagrados como Silviano Santiago, José Castello e outros, ao lado de autores praticamente inéditos. Misturar essas vozes é meio que a nossa pretensão. Acho que é isso o que o leitor poderá esperar a cada três meses: novas visões de um work in progress e um coro heterogêneo falando para ele.

Cesárea é uma revista de literatura, a princípio, para iPad, que será vendida trimestralmente na loja da Apple por US$1, 99. Eu não gosto de pensar que a revista vai seguir essa ou aquela linha editorial, apenas parto do princípio de que a base é literatura, ou seja: uma narrativa, real ou não, que subverte o óbvio. 

NR –  Por que o nome Cesárea?
Cesárea Tinajero é uma personagem do livro “Detetives Selvagens” do Roberto Bolaño, um autor que sou especialista por conta do doutorado que fiz sobre ele. Cesárea desapareceu do mapa e acabou despertando a curiosidade desses detetives selvagens, que acreditam que ao encontrarem Cesárea, encontrarão a salvação na poesia. Bolaño é mestre em criar essas tramas em que somos atraídos por miragens, que seguimos coisas que não se mexem. Acho que em tempos de crise como vivemos, em que todo mundo procura uma solução, uma saída, a metáfora da Cesárea seria perfeita; além disso é um nome próprio, e o Brasil tem tradição de nomes próprios para batizar suas publicações; e esse título também tem razões bem pessoais para mim, na verdade um problema que decidi colocar uma luz neon em cima ao usar o nome Cesárea. Mas a criação é um pouco por aí, sempre.

NR – Como surgiu a ideia da revista? Por que faze-la para plataforma virtual?
A Cesárea surgiu por vários fatores: Jaine Cintra, minha sócia, havia chegado de um ano de curso para publicações para ipad num Portugal corroído pela crise, em que as pessoas estavam desesperadas e pessoas desesperadas do it better, criam soluções; eu estava frustrado após um projeto frustrado com uma revista impressa, que era legal, a ArtFliporto, mas que justamente por ser impressa acabava tropeçando nos problemas das outras, distribuição, falta de controle da editora, essas coisas. Aí juntamos o olhar dela do desespero criativo e a minha criatividade diante da frustração, isso fez surgir a Cesárea. O iPad é a plataforma meio que como o estúdio caseiro, que possibilitou tanta gente a fazer música sem grandes gravadoras. iPad, o tablet, a tecnologia de forma geral é o verdadeiro punk rock: traz independência, ajuda você a fazer as coisas por você mesmo.

A Cesárea é uma forma de resistência, eu não sei ainda se estou resistindo certo, mas estou resistindo. Acho que mais do que um momento de se trazer a verdade absoluta, esse é o momento das pessoas trazerem novas propostas.

NR –  A Bravo! e Sabático morreram. Outros jornais cortaram páginas dos cadernos de Cultura. Criar uma revista literária/cultural numa época dessa é uma forma de resistência?
Eu pelo menos sou de uma geração que é dita migrante, a geração que nasceu no analógico e que vai morrer no digital. Eu não gosto de segurar uma bandeira dizendo: isso é o futuro, tudo acabou e tal. Mas o jornal como é feito hoje em dia é um cadáver em praça pública. Não apenas por conta das notícias que já sabemos na véspera (quando havia só tv nós já sabíamos tudo na véspera), mas por conta de uma certa forma como ele é pensado que datou, esta anacrônico, sobretudo ideologicamente: o jornal ainda quer que a gente acredite que é ele é imparcial. Não existe isenção ou imparcialidade, por favor... A crise no jornalismo é extremamente bem-vinda. Mas estamos no meio dela e não sabemos direito o que fazer com ela, como sair dela, mas é preciso tentar alguma coisa. A Cesárea é uma forma de resistência, eu não sei ainda se estou resistindo certo, mas estou resistindo. Acho que mais do que um momento de se trazer a verdade absoluta, esse é o momento das pessoas trazerem novas propostas. Talvez o futuro seja mais de novas propostas do que de grandes verdades. Se for assim, vou achar ótimo.

NR – Quais as maiores dificuldades que encontrou em colocar em marcha o projeto? Como a revista pretende se financiar? Que significa isso de que funcionará como cooperativa?
Já não é novidade que talvez o futuro do jornalismo seja a cooperativa: um grupo se une e divide os lucros pela venda, como uma grande sociedade; e talvez o futuro seja esse especialização, publicações cada vez mais segmentadas. É arriscado fazer futurologia, mas sem palpite ninguém sai de casa. Todo mundo que participar da Cesárea receberá igualmente uma porcentagem pelas vendas. A diferença vai ser nessa primeira edição, que os primeiros mil downloads serão para pagar o startup do projeto. Como é uma cooperativa, estão todos envolvidos. Eu e minha sócia, Jaine Cintra, tivemos muita sorte porque reunimos alguns dos melhores profissionais do mercado para fazer a revista. Acho que a parte mais difícil vai ser agora, dar continuidade ao projeto, fazer com que ele não morra, ajudar esse projeto a inspirar outras iniciativas semelhantes.

Não é possível hoje em dia ser jornalista sem pensar em design;  ou ser design sem pensar na importância do conteúdo. Uma coisa está atrelada a outra. Acho que isso faz parte da mudança.

NR –  Quem é o Schneider? Quem mais comanda esse barco? 
Digamos que existem Os Cesáreos, algo como uma dupla sertaneja, eu e Jaine Cintra que é diretora de arte e design. Tudo é feito em conjunto, como se fosse um coral, a gente pensa muito parecido em termos visuais e de texto, então é fácil. Não é possível hoje em dia ser jornalista sem pensar em design;  ou ser design sem pensar na importância do conteúdo. Uma coisa está atrelada a outra. Acho que isso faz parte da mudança.

NR –  A Cesárea tem alguma publicação como modelo/inspiração?
Na verdade, é como colocar uma bandeira na lua com essa revista. Em geral as revistas para iPad que tenho observado elas são muito mais de imagem do que texto, o texto é algo meio que decorativo, na verdade as revistas no Brasil de forma geral caíram na falácia de que o leitor quer menos palavras, que quer facilitação, eu não acredito nisso. Com exceção acho que da Piauí as revistas brasileiras têm textos minúsculos, e como nem todo mundo sabe a força de ser sintético, o material acaba ficando superficial. A ideia é justamente fazer uma revista com muito texto, muita palavra, nosso material é literatura, então precisávamos ver como a palavra em si vai se adequar ao universo do tablet.

Tenho muita sorte porque Jaíne Cintra, minha sócia, é genial em transformar o óbvio e o simples em coisas surpreendentes e perturbadoras – na verdade isso é um pouco o que a própria literatura faz, não? 

NR –  O fato de ser virtual significa algumas limitações em relação a uma publicação impressa, mas ao mesmo tempo uma enormidade de vantagens, a começar pelo custo, não é? Tentarão explorar alternativas multimídias?
Eu gosto de dizer que a Cesárea é um projeto punk-rock por excelência. O punk dos anos 70 colocou um pouco isso: você não precisa ser um exímio cantor ou um grande músico para fazer música, você precisava simplesmente fazer. A tecnologia atual, que tanto está afundando as grandes corporações, é punk: qualquer um pode fazer sua revista, seu livro e tal. A revolução digital é muito mais aguda que aquela dos anos 1960, que a gente olha de forma tão romântica, sobretudo porque não vivemos aquele momento. Eu sentia a falta da literatura, do texto da literatura, de entrar nesse universo, é como se a literatura estivesse meio vivendo à margem dessa mudança, o que é uma bobagem, afinal o século 21 é o século da palavra, como o século 20 foi o da imagem. É a palavra que norteia tudo o que fazemos. A Cesárea ainda é, em termos de multimídia, simples. Precisamos de mais recursos. Mas é um work in progress. Nesse primeiro número, por exemplo, há um leitura arrepiante de Luis Henrique Pellanda de uma crônica dele; no segundo número, haverá mais recursos multimídia. Tenho muita sorte porque Jaíne Cintra é genial em transformar o óbvio e o simples em coisas surpreendentes e perturbadoras – na verdade isso é um pouco o que a própria literatura faz, não? Nós temos também uma página no Facebook para divulgar a revista e também notícias de literatura que tenham a ver com o tom da Cesárea e também uma página no mixcloud onde iremos disponibilizar mixtapes para os leitores. O bom de trabalhar nesse tipo de plataforma é justamente oferecer essas outras coisas, que não são necessariamente enfeites da literatura; o problema é que temos ainda uma visão muito restrita do que implica a palavra literatura.

NR –  Só quem tem iPad poderá ler a revista? Como se compra?
A princípio sim, porque até então é a plataforma das empresas que trabalham com revistas desse tipo no Brasil. Mas a partir do ano que vem a revista deve passar para outras plataformas. O leitor poderá comprar a Cesárea na loja da Apple por US$ 1, 99, o valor médio de um app.

 

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Mongolia: contra a crise na Espanha, o humor


É a receita de Mongolia, uma revista mensal que, com pouco mais de um ano de existência, tem como alvos privilegiados de seus ataques ferinos a monarquia e a Igreja, baluartes do conservadorismo espanhol

por Ricardo Viel, de Madri 
(o texto publicado é da Revista Retrato do Brasil, edição 71, junho de 2013, fruto de parceria mensal com o NR)
Em um pequeno povoado das Astúrias, no norte da Espanha, numa manhã de fevereiro, um senhor pregou no quadro de avisos da paróquia uma nota de falecimento. Nada de incomum por aquelas bandas, não fosse o fato de o anúncio tratar-se, em realidade, da capa de uma revista humorística e de o morto ser o primeiro-ministro espanhol, o direitista Mariano Rajoy. Em letras garrafais, a edição da Mongolia daquele mês informava algo de que muitos espanhóis desconfiavam: “Rajoy morreu”.

“Isso, de um senhorzinho avisar seus vizinhos de que esse governo está morto, é algo que, se fôssemos uma revista virtual, nunca aconteceria”, explica Eduardo Galán, 33 anos, um dos fundadores da revista mensal criada há pouco mais de um ano. “O papel é algo que tem mais impacto, nossa capa fica exposta nas bancas e instiga as pessoas a lerem a mensagem.” A ideia de “matar” o primeiro-ministro surgiu em janeiro passado, após a revelação de um escândalo envolvendo o financiamento irregular das campanhas do Partido Popular (PP), atualmente no poder. Rajoy demorou dias para dar explicações e, quando o fez, não convenceu. “Dizíamos entre nós: esse governo está morto, cheira como cadáver”, diz Galán. “Também fizemos uma brincadeira com o [diário espanhol] El País, que dias antes tinha publicado uma foto falsa do Hugo Chávez, sem apurar as circunstâncias. Fizemos igual: anunciamos a morte e esclarecemos que não sabíamos como nem quando tinha acontecido.”

Por provocações como essas, a publicação satírica vem conquistando fãs e desafetos no país de Cervantes. A revista é fruto do momento político e econômico pelo qual passa a Espanha. Foi criada por um grupo formado por cinco amigos – jornalistas, artistas gráficos e cartunistas –, que se viram desempregados ou subempregados por conta do “enxugamento” de vários meios de comunicação (e o fechamento de outros). A eles se juntou um advogado, espécie de mentor da trupe. Reuniram-se, conseguiram convencer três dezenas de conhecidos a bancarem, como acionistas, o projeto de 60 mil euros (cerca de 150 mil reais) e colocaram em marcha uma revista que mistura humor e jornalismo. Em meio à crise e utilizando uma plataforma considerada obsoleta por muitos (o velho papel), Mongolia parecia fadada ao fracasso. Não foi assim. A revista (que custa 3 euros por exemplar, cerca de 8 reais) teve uma tiragem inicial de 25 mil exemplares mensais e atualmente circula com cerca de 40 mil. O número de assinantes é crescente (hoje, beira os 2 mil) e em um ano o grupo lançou cinco livros relacionados com a publicação. Iniciaram a aventura com dinheiro suficiente para manterem-se por seis meses e hoje já não cogitam a possibilidade de fechar por falta de recursos – nem por outro motivo.

“Sentíamos que havia um espaço para uma publicação assim”, diz o argentino Fernando Rapa, 42 anos, responsável pela parte gráfica do projeto. “Ficamos 18 meses planejando, fizemos vários números experimentais e tínhamos medo de que alguém fizesse antes que nós.” Do Brasil, onde trabalhou em veículos como os diários Lance! e O Estado de S. Paulo, o desenhista trouxe algumas influências, como do Casseta & Planeta (da fase inicial, esclarece) e, principalmente, de O Pasquim. Também tem como espelho revistas satíricas francesas e argentinas e algumas publicações nascidas na Espanha no período posterior ao da ditadura de Francisco Franco (1938–1973) e que não existem mais.

Longe de ser um obstáculo, o momento atual se apresenta estimulante, dizem os criadores de Mongolia. Na década passada, época de bonança, em que todos os espanhóis acreditavam ser ricos (por conta dos empréstimos que os bancos ofereciam), não havia espaço para a contestação no país. O humor se afastou da crítica social. De repente, a bolha imobiliária estourou e a mensagem de que na Espanha não havia pobreza se esfumou. Vieram os protestos de rua e abriu-se espaço para o surgimento de uma revista que, com humor, coloca o dedo na ferida, diagnosticam os criadores de Mongolia. O fechamento, em 2007, do diário Público, o mais à esquerda que havia na Espanha e que agora mantém somente a versão on-line, foi a gota que fez transbordar o copo, avalia Rapa, ex-funcionário do jornal. “Os meios de comunicação tradicionais não atenderam a essa demanda que está nas ruas. Queríamos preencher esse espaço. Herdamos muitos leitores do Público, mas não só isso. Espanta-nos ver que nosso leitor é variado. Às vezes recebemos cartas escritas à mão, há muita gente idosa que nos lê.”

Mongolia tem uma política própria em relação ao conteúdo que produz. Nada do que é publicado em papel é disponibilizado virtualmente – a revista vive das vendas em bancas e das assinaturas e tem uma estrutura muito enxuta. Além disso, a ausência de publicidade (há pouquíssimos anúncios, todos ocupam pouco espaço e são, portanto, baratos) garante a independência necessária para atacar quem quer que seja. “Não somos contra a publicidade, só não aceitaríamos anúncios de bancos. E de prostituição, mas, nesse caso, enquanto for ilegal. A questão é que não podemos nos condicionar a isso”, diz Galán, o responsável, entre outras tarefas, pela divulgação da revista nas redes socais da internet. Embora aposte no papel, Mongolia tem mais de 80 mil seguidores no Twitter e 20 mil no Facebook. Algumas das brincadeiras feitas no mundo virtual acabam chegando à edição impressa. A internet também serve para medir o interesse dos leitores por certos assuntos e divulgar os muitos eventos que realizam – debates, viagens pelo país para promover a publicação, etc.

Para reduzir o custo e manter a independência, os fundadores da revista resolveram eliminar todos os intermediários possíveis. A cada edição, eles vão à gráfica, carregam os próprios carros com os exemplares impressos e os distribuem em Madri e arredores. O restante da tiragem é enviado por correio aos assinantes e distribuidores (como livrarias e bares) em outras cidades.

A primeira edição da revista, publicada em março do ano passado, trazia na capa a frase: “A Espanha tem uma saída (Barajas)”. Barajas é o aeroporto da capital espanhola, e a piada fazia referência à fuga, principalmente de jovens, em busca de trabalho em outros países – o desemprego na Espanha atingiu 27% da população economicamente ativa no final do primeiro trimestre, mas entre os jovens a taxa foi muito maior, 57%. No número seguinte, o alvo foi a monarquia: “O rei poderia estuprar você e nada aconteceria com ele”. A publicação listou cem coisas que o monarca espanhol, por ser, de acordo com a Constituição, uma figura “inimputável”, pode fazer e os demais mortais, não, como baixar filmes piratas na internet, fazer xixi na rua, etc. As edições seguintes foram “dedicadas” à Igreja, aos políticos, banqueiros e, em especial, à Casa Real.

A revista funciona numa sala minúscula, sem banheiro próprio, próxima à sede do Congresso dos Deputados (equivalente à Câmara dos Deputados brasileira), em Madri. O lugar é sublocado. Até as seis da tarde, ali funciona uma empresa de criação gráfica; depois, a Mongolia. O espaço é usado, sobretudo, na semana de fechamento da edição. No restante do tempo, cada um dos membros da equipe trabalha em sua própria casa. No final de fevereiro, eles preparavam a edição que teve na capa a foto do rei Juan Carlos com um tomate espatifado na cara. “Não tenho dúvida de que graficamente é nosso melhor trabalho”, diz, sem disfarçar o orgulho, o humorista e roteirista Darío Adanti, 37 anos, outro argentino. No mês passado, a Casa Real foi novamente o alvo principal da publicação. Num truque gráfico, que combinava letras em tamanhos muito diferentes colocadas sobre a foto da filha do rei, a infanta Cristina – que está sendo investigada pelo suposto enriquecimento ilícito de seu marido –, lia-se em letras enormes: hija de puta. Uma fonte minúscula preenchia os espaços e a frase que se formava, quase imperceptível, era: “Filha dos reis da Espanha é imputada” (denunciada).

Os ataques à família real foram vários, mas foi contra os católicos radicais a principal briga. Por alterar a imagem “oficial” da Virgem de Macarena (padroeira de Sevilha) em um panfleto de divulgação da revista na cidade, o grupo foi atacado pelo prefeito e sofreu ameaças de morte. “O que não sabíamos era que a imagem da virgem tem copyright”, diz Eduardo Bravo. “Ou seja, por qualquer santinho que você queira fazer tem que pagar direitos autorais. Esses caras da Igreja vão direto pro inferno, serão os primeiros. Jesus Cristo falou dos mercadores, não foi? Esses aí podem rezar quanto quiseram que vão queimar”, se diverte o espanhol. “Disseram que iam fazer com a gente o que se fez na Guerra Civil [1936–1939], que iam nos matar e que ninguém ia encontrar nossos corpos. Há gente doente da cabeça, que precisa ir ao médico. Dizer que uma imagem de madeira é a mãe deles...”, diz Galán. “Só se fossem filhos do Pinóquio”, completa Bravo, recebendo os cumprimentos do xará, que gargalha com o comentário.

Assim trabalha a equipe de Mongolia. Ideias e piadas surgem a qualquer momento, em qualquer lugar: durante jantares, no táxi indo para um show, no bar tomando cervejas ou durante uma entrevista. Ainda que recheada de piadas inocentes ou sem maior objetivo do que provocar o riso, Mongolia é uma publicação que tem como principal marca a contestação, a crítica e a denúncia. Por trás do lema “Uma revista sem mensagem nenhuma”, há uma ideologia clara: a equipe é formada por ateus. E de esquerda. Muito mais à esquerda do que muitos dos que hoje na Espanha se dizem de esquerda, ressaltam os membros da equipe, que encaram as bancas como “trincheiras”.

Quando questionados sobre os limites para o humor, a resposta é simples: a lei. Não há tema tabu: morte, opção sexual, credo, raça, tudo pode ser piada, dependendo do bom senso e do aval de Gonzalo Boye, um advogado criminal de 47 anos que aceitou o desafio de editar a revista e atuar como “censor”. Tudo que é publicado passa por sua lupa legal. “Outro dia, iríamos fazer uma piada com uma pessoa que todo mundo sabe que é viciada em cocaína”, relembra Bravo. “Só que o Boye nos explicou que era um crime, que poderia dar cadeia. Chegamos à conclusão de que não valia a pena ir para a prisão por uma piada.” Na edição de abril, a revista saiu com um texto que tinha mais de 30% das palavras riscadas. Eram os vetos do advogado. Ao lado vinham suas anotações a caneta.

Curiosamente, uma das seções de Mongolia que mais sucesso e repercussão têm é a que é publicada nas últimas páginas da revista, a cargo do experiente jornalista catalão Pere Rusiñol. É a parte das reality news. Da página 30 à 45, o que se lê são reportagens investigativas, que tocam em assuntos que muitos jornais, por questões diversas, não se atrevem a publicar. Muitas das histórias são passadas por colegas de outros meios – anonimamente – que sabem que não conseguiriam publicá-las nos veículos para os quais trabalham. Escândalos envolvendo ministros, negócios escusos entre empresários e políticos, assuntos sigilosos envolvendo a monarquia, questões da transição à democracia que nunca foram esclarecidas (e ficaram esquecidas) são alguns dos temas que levaram a seção a ser considerada por muitos como exemplo do melhor jornalismo feito hoje na Espanha.

Embora publique piadas pesadas e denúncias graves, a revista, até agora, não sofreu nenhum processo. O número dois, que falava dos privilégios do rei, trazia na capa a advertência: edição para ser apreendida nas bancas. Nada aconteceu. “Nós levantamos duas hipóteses para não termos sido processados”, teoriza Galán de maneira brincalhona. “Para não dar publicidade à revista é uma hipótese. A outra é que tudo o que nós publicamos é verdade e eles não têm como contestar.”

Após um ano de existência de Mongolia, o balanço é amplamente favorável. Passados seis meses, os criadores começaram receber salários e a pagar os colaboradores – como acordado no início. Vieram vários prêmios, um deles, recebido no mês passado, pelo trabalho da publicação na defesa dos valores humanos. Os leitores e seguidores nas redes sociais continuam crescendo, e artigos elogiosos, como os que saíram nos diários americanos The New York Times e The Washington Post e no italiano Corriere della Sera, se acumulam. Artistas, escritores e intelectuais de importância na Espanha literalmente vestiram a camisa da revista e fazem publicidade gratuita.

Talvez o maior desafio seja manter-se no topo. “É, isso assusta”, diz Bravo, que coça a longa e grisalha barba. “Já falamos sobre isso. Há duas saídas. Uma é reinventar-se sempre. Ainda achamos que podemos melhorar. Eu sempre gosto mais da última edição. A segunda opção é ser como o Chaves [personagem humorístico da TV]: todo mundo já sabe o final da piada, mas é tão bom que todo mundo ri.”

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Ricardo Viel, jornalista, atualmente em Lisboa, Portugal

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Um abraço para outro



por Ricardo Viel*

 Un día, todos los elefantes se reunirán para olvidar. Todos, menos uno (Rafael Courtoise)

Não sei se era por educação, mas acabara de dizer ao garçom português, em um simpático portunhol, que aquele era o melhor bacalhau que comera na vida. Então me olhou demoradamente, mais do que o usual quando já se conhece a companhia de almoço, e pareceu duvidar de dizer algo. Por fim, tomou um gole da água e, como quem comenta sobre o clima, disse: sabe, você se parece muito a um amigo meu de muito tempo, da época do sindicato. E seguiu: você deve ser um pouco mais velho do que ele na época em que éramos amigos. Sou mais velho do que pareço, interrompi. Tenho 33 anos. Pois então sim, você é um pouco mais velho. Tínhamos vinte e poucos anos. Mas sim, você se parece muito com ele, os olhos, a barba, o nariz…

E começou a contar do que acontecia no Uruguai dos seus vinte e poucos anos; de como pouco a pouco os companheiros foram desaparecendo, sendo assassinados, até que já não havia outra opção a não ser ir embora. Comecei a criar imagens em minha cabeça, construídas a partir de filme, leituras e das vezes que andei por Montevidéu. Até que fui trazido de volta para aquela mesa com uma pergunta. E sabe o que fizeram com meu amigo? Era uma pergunta retórica, não tive que responder, só esperar. Um dia ele desapareceu, e uma semana depois encontramos seu corpo, desfigurado. Trazia um cartaz pendurado no pescoço que dizia: esse também pediu perdão.

Não contava com ódio, mas quase que com incredulidade. Como se às vezes tivesse que recordar aquilo para ter certeza que realmente aconteceu.

Ficamos em silêncio e em silêncio eu voltei ao bacalhau, que já não tinha o mesmo sabor. Depois reapareceram os assuntos amenos, como se aquela lembrança, igual à velha mendiga que entra em um shopping center e é rapidamente expulsa, tivesse ido embora. Se vai, mas a desgraçada imagem permanece na retina, fazendo-nos recordar o miserável que somos.

E quando nos despedimos, depois de promessas de seguirmos em contato, tive a impressão que o abraço que recebia estava guardado há décadas e tinha outro destinatário.

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Ricardo Viel, jornalista, atualmente em Lisboa, Portugal, é colunista do NR. Ilustração: Shanghai's Mojo Wang 

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O único que eu tinha



por Ricardo Viel, de Lisboa*

Arruinou minha primavera, desapareceu com o meu verão e me encerrou nesse inverno eterno.

E não bastasse esse vazio terrível, vens até mim e decretas uma daquelas frases de sabedoria emprestada:

“Por morrer uma andorinha não acaba a primavera”.

Recitas essa sentença tola, vira as costas, e vais aproveitar a primavera cheia de andorinhas que é a tua vida. E ainda que ficastes, não serias capaz de entender algo tão simples: a andorinha era o único que eu tinha nessa vida. O único. E foi justamente por isso que nela depositei o meu futuro.

E num dia qualquer, sem aviso prévio, vem a Morte e ... Assim, sem mais, contrariando a lógica do nascer, crescer, se reproduzir e só depois, só depois (ouviu bem!), SÓ DEPOIS, desaparecer.

Nem chegou à maturidade. Foi flor de um dia. Morreu nas minhas mãos sem que eu pudesse fazer nada. O coraçãozinho a bater cada vez mais devagar, seu corpinho a se fechar e depois endurecer feito pedra. Nas minhas mãos. Ainda sinto entre os dedos o toque daquelas penas, os pezinhos delicados a fazer-me cocegas, o diminuto bico a massagear meu coração...

“Há muitas andorinhas no mundo. E muitas primaveras por acontecer”.

Pois para mim, não. Já não haverá mais primavera, nem andorinhas, só esse frio que me comprime a alma e esse vento interminável que há muito tempo levou a Esperança, sem que ela tivesse o direito de viver uma única primavera inteira.

*Ricardo Viel, jornalista, atualmente em Lisboa, Portugal, é colunista do NR

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Um toureiro chamado Renato Borghetti


por Ricardo Viel, de Lisboa*

 “Não sei o que de comunicativo tem o acordeão que quando o escutamos nos encolhe o sentimento”, escreveu Gabriel García Márquez em uma crônica sobre o vallenato, típico ritmo da costa caribenha colombiana. Pois essa sentença do genial Gabo me veio à cabeça tão logo Renato Borghetti abriu seu fole em cima do palco, na sexta-feira, 17 de maio, em Lisboa.

Em escassos metros de palco e por quase uma hora o músico de origem gaúcha domou diante de mim (e uma centena mais de afortunados) um animal arisco que insistia em expandir-se e contrair-se. Parecia querer fugir, mas ao mesmo tempo aparentava deleitar-se ao cerco a que foi submetido. E suas queixas tinham algo de lamento e de desabafo.

Contorciam-se ambos, mas o homem era sempre quem tinha o comando. Sabia o momento exato de cada gesto, o começo e o fim de cada ato. Às vezes, deixava a fera tomar ar, afastar-se, para logo em seguida encolhe-la sobre seu regaço. Com os olhos fechados, o artista media os movimentos – que variavam entre brutalidade e a candura – e por ora parecia desafiar aquela fera ao dançar de rosto colado com ela.

Já pela terceira música concluí que sem saber eu havia entrado numa tourada cujo touro fora substituído por um acordeão (para ser mais correto uma gaita de ponto).

O matador, vestido de negro, com um cinto de pano e um chapéu na cabeça, tinha seus auxiliares, como há de ser. Mas esses, em vez de portarem capas e lanças, traziam clarinete, violão e teclado. E o ajudavam, estavam a seu lado, cientes do que acontecia e atentos para se preciso fosse agirem no intento de evitar um fatal escorregão. Mas era óbvio: o duelo mesmo era entre o fole e o homem. Caminhavam pelo palco agarrados, amarrados peito com peito, desenhando invisíveis caminhos.

Foi uma linda e emotiva tourada. Cheia de arte, como deve ser, mas sem humilhação. A vitória de um não foi a derrota de outro. Não houve marca de sangue no solo, nenhuma agonia, nenhuma traiçoeira estocada. Não aplaudimos a morte, mas a vitória sobre ela.

E findo o ato, quando Renato Borghetti afastou as mãos da fera, foi como se dela tivesse arrancado a alma. A vi estática, retraída, depositada em um caixote sem qualquer resistência. Nem de longe lembrava o animal imponente que segundos atrás mostrava seu esplendor ao desafiar o artista diante do público. Parecia mesmo sentir falta daquele homem que, ao tê-la nos braços, a havia encantado. A ela e a um mortal que, sentado logo na primeira fileira, parecia encolhido em seus sentimentos.


*Ricardo Viel, jornalista, atualmente em Lisboa, Portugal, é colunista do NR

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Ele enganou o El País?

NR entrevista Tommaso Debenedetti, 43 anos, que se diz professor de literatura e história em Roma, com “vida normal” e pai de “dois filhos”. Ele afirma ser o responsável por plantar a falsa foto de Hugo Chávez publicada na capa do jornal espanhol El País no mês passado. Além desse ato, Debenedetti alega ser o autor de outras mentiras publicadas em jornais e divulgadas na internet nos últimos anos.

por Ricardo Viel, de Lisboa

No último 24 de janeiro o prestigiado jornal espanhol El País cometeu um erro que custou à empresa cerca de 300 mil euros e arranhou profundamente sua credibilidade: publicou uma suposta foto do presidente venezuelano Hugo Chávez sendo operado em um hospital cubano. Como se confirmou em seguida, não era Chávez, mas uma fraude grosseira.

Durante a madrugada daquela sexta-feira, o periódico espanhol, após perceber o erro, colocou em marcha uma operação para resgatar seus exemplares das bancas. Conseguiu, em parte, recuperá-los e substituí-los por outra edição, mas a foto falsa já havia se espalhado pelo internet – onde o jornal também a publicou com destaque em seu site.

Como foi possível que um dos mais prestigiados periódicos do mundo cometesse um erro tão grosseiro? Parte da resposta deu o próprio jornal, ao publicar no domingo dia 26 um extenso relato em que conta, passo a passo, a sucessão de erros cometidos até a publicação da imagem (leia aqui).

Falhas tão absurdas como, por exemplo, não contatar o seu correspondente na Venezuela e nem sua colunista em Cuba. O jornal relata que a foto foi comprada por 15 mil euros de uma agência que prestava serviços ao jornal. Venderam a foto como tendo sido feita por uma enfermeira cubana que tinha familiares na Espanha. Era mentira.

O que o jornal não explica é como essa foto chegou à agência. Um personagem pode ter a resposta. Tommaso Debenedetti é um italiano que ficou famoso em 2010 quando foi desmascarado (o próprio El País publicou uma entrevista muito divertida com ele).

Durante dez anos o jornalista inventou entrevistas que nunca aconteceram e as vendeu para pequenos jornais da Itália. Foram mais de cem, com personalidades como Mijaíl Gorbatchov, Dalai Lama, Joseph Ratzinger, além de dezenas de prêmios Nobel de literatura. Ficou conhecido como o campeão italiano da mentira, e foi descoberto quando o escritor norte-americano Philip Roth, indagado sobre uma suposta entrevista em que criticava Obama, disse nunca ter feito tal afirmação. Foi quando a farsa veio abaixo.

Debenedetti classifica suas mentiras como um “jogo literário” e continua gerando falsas notícias na rede. Recentemente criou um perfil de Vargas Llosa no Facebook e plantou declarações polêmicas publicada por vários meios como sendo do Nobel peruano.

No ano passado, o italiano “matou” o escritor Gabriel García Márquez e Fidel Castro. Agora, assegura ser o autor da falsa foto que o El País publicou. O Nota de Rodapé o entrevistou por email. Leia a seguir.

O "campeão" da mentira Debenedetti (Foto: Stephanie Gengotti / Iberpress / Caters)

NR – Foi você que fez a foto que o El País publicou?
TD – Sim, eu sou o “autor” da falsa foto de Chávez publicada pelo El País. Posso dizer que se tratava de um jogo, um jogo de suplantar midiaticamente uma notícia para denunciar a falta de credibilidade dos meios.

NR– Como foi que criou esse jogo?
TD – No dia 10 de janeiro, por circunstâncias casuais, encontrei no Youtube o vídeo de um homem sendo entubado. Pensei: “parece um pouco a Chávez. Um pouco não, muito!” Portanto, como um jogo, tomei uma foto desse vídeo e a enviei a três agências de notícias, uma na Costa Rica, outra na Venezuela e outra de Cuba. Enviei a foto de uma conta falsa no nome do ministro venezuelano de cultura Pedro Calzadilla. Mandei com as seguintes palavras: o comandante Hugo Chávez hospitalizado em Havana. Não recebi resposta e a foto não foi publicada, mas dois dias depois um homem que se apresentava como jornalista cubano respondeu o correio: “muito importante, vamos enviar a Porto Rico e Madri.” Dias depois a conta de e-mail falsa que eu criei foi bloqueada, não sei por que, e não tive mais respostas. Só na manhã do dia 24 a foto apareceu na capa do El País. Tenho para mim que a foto foi enviada a Madri por jornalistas cubanos com duas finalidades: tirar dinheiro e, sobretudo, desacreditar o El Pais e, de certa forma, a imprensa ibérica.

NR – Teme ser processado? Recebeu algo pela foto?
TD – Ninguém me ameaçou e eu não tenho nenhum medo de ser processado: sou o autor “intelectual” da farsa, mas não tenho responsabilidade nenhuma na publicação da foto por um periódico. Não me deram qualquer dinheiro pela foto.

NR – Crê na versão que o El País dá sobre toda essa história?
TD – Acho que a reconstrução que o jornal faz é justa e verdadeira. Mas eu, como “autor” da foto e quem iniciou sua circulação, posso dizer que o jornal foi claramente vítima de uma manobra política que não deve ser ignorada. Repito: creio que de dentro de Cuba alguém quis desacreditar a imprensa europeia e por isso inventou essa história de que a foto teria partido de uma enfermeira cubana com familiar na Espanha.

NR – Mudando um pouco de assunto. Gostaria de saber sobre as entrevistas que o senhor criou. Como as justifica? Nesses casos o senhor recebeu pelo trabalho?
TD – As entrevistas eram jogos literários. Eu recebi 20 euros por cada entrevista, e só isso. Era um jogo de suplantar a identidade própria da literatura do último século. Eu gostava muito de fazer e a imprensa italiana, onde normalmente ninguém checa qualquer informação, me ofereceu a possibilidade de fazê-lo.

NR – Depois das entrevistas falsas, o senhor partiu para as redes sociais. Criou perfis falsos e plantou notícias. Há alguma surpresa que está preparando?
TD – Continuo com o Twitter e tenho duas grandes surpresas: um texto literário que aparecera assinado por um grande escritor Prêmio Nobel e que é, na verdade, meu. Também sou o autor de vários erros no Wikipédia. Faço para demonstrar como falta credibilidade na internet. Eu aconselharia os jornalistas a ficarem atentos com textos e fotos que são apresentadas como exclusivas. O caso Chávez pode se repetir em outros países.

Finalizada a entrevista durante a semana passada, Debenedetti enviou-me uma nova mensagem, em que dizia:

Posso lhe passar outra informação sobre ideias minhas futuras. As contas do Twitter do Papa (especialmente as em inglês, espanhol e português) não são seguras: é muito fácil encontrar o password e entrar. Se o Vaticano não muda seus critérios, será possível para mim escrever tweets com o nome do Papa. A mesma fragilidade de senhas há no Brasil com duas personalidades. Um famosíssimo escritor e um político. Saudações, Tommaso Debenedetti

Ricardo Viel, jornalista, atualmente em Lisboa, Portugal, é colunista do NR

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Sem dizer adeus


“La esperanza le pertenece a la vida, es la vida misma defendiéndose” (Julio Cortázar, en “Rayuela”)

 Rubem Braga, em uma de suas tantas crônicas maravilhosas, daquelas adornadas de poesia e delicadeza, relata uma separação sem despedida, e a tristeza que ela trouxe.

“Talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão”, diz o mestre. E completa: “não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.”

Será permitido guardar uma “leve tristeza” e uma “lembrança boa”, anota o velho Braga. E amparados em ambas, digo eu, como se fossem duas muletas, há que se carregar, como for possível, o peso imenso da ausência.

Não há protocolo a ser seguido quando se trata de uma separação. Mesmo a ausência de uma despedida não garante que a dor seja menor; pode, sim, alimentar uma ilusão de que se deu porque assim quis a vida – o que, dependendo do ponto de vista, resulta menos ou mais triste.

Tenho pra mim que o pior que há numa despedida é que ela já leva consigo uma saudade – e uma dor – antecipadas. Nem foi dito o adeus e já estamos a pensar como sobreviver sem aquela(s) pessoa(s), sem aquele lugar – ou pior, sem ambos. E nesse momento parece ser que será impossível seguir a vida com esse vazio.

Pode ser tão dilacerante a ponto de levar-nos a pensar que melhor seria nunca ter acontecido. Mas perdoemos os magoados, porque eles não sabem o que dizem. Melhor seria, isso sim, nunca ter que dizer adeus. Porém, a eternidade não existe (e caso existisse seria uma chatice). Há que, se tragar demasiado rancor, acostumar-se com a ideia de o que foi já não será.

Por fim, talvez fosse melhor mesmo esquecer aquela última mensagem, aquele telefonema no meio da madrugada, como sugere o cronista dos cronistas. Assim fica a ilusão de que foi como em um baile de carnaval e se carrega a esperança de que um dia, talvez no próximo fevereiro, haja um reencontro e que, de mãos bem dadas para não se perder mais, se seguirá, em companhia, o cordão da vã alegria.


Ricardo Viel, jornalista, atualmente em Lisboa, Portugal, é dos primeiros colunistas deste NR e, a pedido, tira umas férias para voltar quando tiver o que dizer a seus leitores. 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Lembrança de uma lembrança

Passou tanto tempo que

já não me lembro de como eram tuas mãos,

embora me recorde, perfeitamente, que eram lindas;

E agora tenho medo de que ao voltar a vê-las

elas já não me pareçam tão encantadoras.

Se isso acontecer, saberei que

não foram elas que mudaram, mas eu
H.M.S, em “Cartas Inéditas”

“Se olho para trás e tento recordar os acontecimentos que vivi, os passos que me trouxeram até aqui, nunca estou completamente seguro de se estou rememorando ou inventando (…) O que já aconteceu e o que está por vir, na minha cabeça, são apenas conjecturas”, escreveu o colombiano Héctor Abad Faciolince em seu livro “Traiciones de la Memoria”.

Faciolince tem total razão: a memória é ficção, talvez a maior e mais bem construída de todas. E está viva. E é mutável. (As lembranças que tenho hoje da minha infância são diferentes das de dez anos atrás, e em dez anos seguramente serão outras.)

No filme “O segredo dos seus olhos”, o jovem viúvo que teve a mulher assassinada lamenta que, passado um ano da morte, começa a se esquecer de como era sua esposa. “Tenho que fazer esforço para recordar dela todo dia, dia e noite”. E comenta que já não se lembra se o último chá que ela lhe preparou era com limão ou com mel. “Então começo a duvidar, e já não sei se isso que vai ficando é uma recordação ou a recordação de uma recordação”, sentencia.

Se a vida é o original, a memória é a cópia, diz Faciolince. E agora divago eu: só que a cópia vai perdendo a cor, sofre a ação do tempo, amarela, fica menos nítida, e não raro perde mesmo algumas folhas. É preciso então fazer nova cópia, que não é feita a partir do original (porque esse já não se sabe onde está), mas da cópia. Até que chega um tempo em que a sucessão das cópias faz com que reste bem pouco do conteúdo daquela matriz. A recordação da recordação vira uma cópia bem pouco precisa do original.

Ainda assim e mesmo sabendo que seremos um dia vencidos, lutamos contra o esquecimento. Tratamos de preencher os vazios da memória com a ficção. Romantizamos, distorcemos, criamos, mentimos a nós mesmos, e assim construímos o que somos. “Ya somos el olvido que seremos”, dizia o poema de Borges achado no bolso da jaqueta do pai de Faciolince no dia em que foi assassinado. Vinte anos depois, o escritor contou a história do seu pai e a desse poema, e diz que o fez para que ela não caísse no esquecimento.

Ricardo Viel, jornalista, escreve de Lisboa, Portugal

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Brasil vs Portugal (ou por que tanto desprezo?)

 Foi há muito tempo, mas parece que foi ontem de tarde que os portugueses chegaram ao Brasil. Nós – brasileiros e portugueses – continuamos nos tratando com uma terrível mistura de desprezo e desconhecimento em relação ao outro.

Aqui em Portugal, a imagem – que a Rede Globo ajudou a construir (melhor, destruir) – que se tem dos brasileiros é a de que não somos “gente séria”. As mulheres, em sua maioria, são putas, e os homens, promíscuos. Preferível que a filha tenha um tumor a um namorado brasileiro (porque o tumor, com alguma sorte, é benigno).

E do lado de lá (digo, daí), olha-se para os portugueses com a miopia que já tanto conhecemos: são ignorantes, burros, atrasados e passam o dia escutando fado e comendo bacalhau (para não falar das mulheres de bigode e dos donos de padaria chamados Joaquim e Manuel).

Desde que o primeiro português aportou na costa brasileira esse muro feito de desprezo e essa ignorância foi, com extrema eficiência, sendo construído (e de ambos os lados). E quando você se depara com alguém de 25 anos, que já não vive em uma aldeia, que tem acesso a informação e possibilidade de conhecer o mundo, e que reproduz o discurso de sempre, percebe que, 500 anos depois, nos comportamos ainda como se nunca tivéssemos nos conhecido (talvez porque, de fato, não nos conhecemos).

Hamilton de Holanda
Mas há, ainda há, alguma esperança. E ela vem não das instituições, dos governos, das academias de letras ou institutos de línguas, vem dos artistas, dos intelectuais, dos que com sua arte provam que não será um acordo ortográfico que nos aproximará, pois já falamos a mesma língua – o problema é que nos recusamos a qualquer tipo de diálogo.

Falo de gente como Hamilton de Holanda, que na sexta-feira passada fez um show estrondoso aqui em Lisboa. Em mais de uma hora de música, e apenas meia dúzia de palavras. E não foi preciso mais. Chamou ao palco músicos portugueses, tocou canções de cá e de lá, e demonstrou que o remédio contra o preconceito é a arte.

Espero que o Brasil se permita conhecer figuras como a fadista Carminho e o fadista Camané, o poeta José Luis Peixoto e o escritor Valter Hugo Mãe, que seguramente ajudarão, com sua produção, a desconstruir essa barreira que nos separa. E espero que do lado de cá eles também joguem no lixo os rótulos e se abram para escutar-nos – e assim poderão apreciar coisas sublimes como o bandolim de Hamilton de Holanda.

Nota: sobre o tema, recomendo a leitura da "Carta Aberta ao Brasil" de José Luis Peixoto, e um texto que Miguel G. Mendes escreveu para O Globo.

Ricardo Viel, colunista do NR,  escreve de Lisboa, Portugal

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

“Saramago me ensinou que não há tempo a perder”

Nesta sexta-feira, dia 16 de novembro, o escritor português José Saramago completaria 90 anos. Morto em 2010, o único Nobel da língua portuguesa será homenageado em vários cantos do mundo, entre eles o Brasil. Em São Paulo, no teatro Eva Herz, no Conjunto Nacional, haverá a exibição de cinco horas de imagens inéditas do documentário José e Pilar (2010). O realizador português Miguel Gonçalves Mendes, 34 anos, responsável pelo filme que conta a vida de Saramago e sua esposa, estará presente na homenagem ao escritor.

Atualmente residente no Brasil, onde desenvolve um projeto com Fernando Meirelles e trabalha na sequencia da série “Nada Tenho de Meu” (exibida pelo Canal Brasil), Miguel conversou com o NR sobre a experiência de ter convivido por quatro anos com o autor de Ensaio Sobre a Cegueira. Diz que ter passado esse período ao lado de Saramago e Pilar del Río mudou sua maneira de encarar a vida.

Nota de Rodapé – No documentário que você fez fica evidente que Saramago era quase um "pop-star". Era idolatrado por onde passava. Por que acha que ele atingiu esse status tão raro para um escritor, ainda mais de língua portuguesa?
Miguel Gonçalves Mendes – Acho que por várias razões. Primeiro, porque Saramago é um dos autores que mais pode ser reconhecido nos seus livros. Ou seja, o narrador e muitas vezes a trama mesmo são o próprio Saramago ou a sua visão do mundo. Por outro lado ele nunca se demitiu de agir. Como ele dizia, o trabalho de um escritor é obviamente escrever, mas também intervir na sociedade. Penso que Saramago várias vezes deu voz àqueles que não a tem. E por último, e talvez o principal, a qualidade incrível da sua obra que, exatamente por isso, é universal.

Nota de Rodapé – Portugal, e a Europa como um todo atravessam hoje uma crise profunda, e não parece haver saída. Saramago era um intelectual que não se furtava de opinar, alertar e convocar as pessoas a se rebelarem. Faltam intelectuais como ele em um momento como esse?
MGM – Penso que não faltam intelectuais, o que falta é que estes mesmos intelectuais não tenham medo. Assumam e lutem pelas suas condições. Nenhum ser humano se pode demitir das suas obrigações enquanto cidadão, algo que muitas vezes esquecemos. E a nossa obrigação base é contribuir para o bem comum. O que se passa na Europa é exatamente o oposto: o fim da solidariedade, o fim do respeito, o fim da crença no outro e o inicio de um discurso xenófobo e racista. Ora, ninguém no seu perfeito juízo lutara para defender esta Europa, e o que é lamentável é que se ponha em causa um dos projetos mais utópicos e bonitos da civilização ocidental. Países que reconheciam necessitar dos outros para melhorar o bem estar de todos...

NR – Vejo as pessoas muito desesperançadas e resignadas aqui na Europa. Há um fatalismo rondando a cabeça de todos, não há?
MGM – O que é triste é que não sabemos o que se seguirá e talvez o que segue sejam bem pior para todos. E quando digo todos, refiro-me ao mundo. Bem ou mal a Europa era um farol no que toca aos direitos pelos quais toda a humanidade lutou e o seu fim só poderá ser ruim para todos nós.

NR – Você conviveu quatro anos com Saramago, conheceu sua intimidade e acabou por tornar-se amigo dele. Além do documentário, o que guardou desse período?
MGM – Eu agradeço à vida por ter-me dado a possibilidade de conhecer uma mente brilhante como a de Saramago e poder construir uma relação de amizade com ele. O meu objetivo na vida é sentir que a vivo de uma forma plena, e tê-los conhecido (Saramago e Pilar) contribuiu em muito para atingir esse meu objetivo. Tê-los conhecido mudou efetivamente a minha vida, e fez-me perceber que não há tempo a perder. Esta é a única oportunidade que nós temos e como tal não podemos perder tempo a chorar ou a dizer que o mundo é horrível. Se é horrível é levantar as mangas e mudá-lo. Como Saramago dizia: não tenhas pressa e não percas tempo.

Miguel Gonçalves Mendes lançou recentemente, pela Companhia das Letras, um livro de entrevistas com Saramago e Pilar del Río.

Ricardo Viel, colunista do NR,  também publica hoje no Valor Econômico um especial sobre os 90 anos do escritor português.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Sangrando

Porque también somos lo que hemos perdido
Alejandro Iñarritu

Desejei com tantas ganas, e com tamanha fé, e rezei tanto, e para tantos santos, que numa noite por fim aconteceu. Surgiu, vinda da bruma, uma senhora muito bonita, cabelos presos em coque, salto alto e vestido preto ajustado no corpo esguio.

"pediu que eu fechasse os olhos para, como quem
sopra um dente-de-leão,  beijar-me à boca"
Caminhava com passos firmes, e ao chegar junto de mim acariciou com suas suaves mãos o meu rosto. O trouxe delicadamente até o seu e pediu que eu fechasse os olhos para, como quem sopra um dente-de-leão, beijar-me à boca – deixando um gosto adocicado nos meus lábios.

Sabe quem sou, perguntou com sua voz diáfana. Eu disse que não. Eu sou Deus, respondeu. Deus? Mas Deus não é homem? Eu sou qualquer coisa, sou o que quiseres, sou como me imaginas, sou tudo o que há. E prosseguiu: tens me perturbado muito, tens me reclamado a toda hora, realmente me chateado, e tens me chamado com tanta sanha que tive que vir realizar teu pedido. Mas advirto que se trata de algo muito perigoso. Antes de conceder teu desejo quero saber se realmente estás seguro.

E eu, com as mãos pousadas em sua cintura, como quem dança uma valsa, respondi no seu ouvido: é tudo o que mais desejo nesse mundo. Quero que apagues toda e qualquer marca dela na minha vida, como se nunca tivesse existido, ou que pelo menos nunca tivesse cruzado meu caminho. Elimine tudo o que me faça recordá-la, porque assim não consigo viver.

Assentiu com a cabeça, olhou-me com seus olhos vivos, armou-se de um sorriso cúmplice, e ainda beijou a minha boca novamente antes de dizer: então assim será. E desapareceu. Acordei e estava nu. Abri a janela em busca de luz e a paisagem que vi era um descampado sem qualquer sinal de vida. Não havia nada: os prédios, a rua da minha casa, o mar ao fundo, nem sequer a igreja de São Bento estava. Pensei ainda estar sonhando e fui, meio trôpego, em direção ao banheiro. Ao passar pela sala me apercebi que a biblioteca não existia mais e que os vasos de flores, assim como o aparelho de som, com todos os discos, haviam sumido.

Entrei na ducha, abri a chave da esquerda e deixei cair sobre meu corpo a chuva gelada. E quando já me sentia melhor, vi, tingida de vermelho, a água que escorria pelo ralo. Levei as mãos ao rosto e percebi que do meu nariz jorrava sangue. De nada adiantou levantar a cabeça, o ralo cada vez tragava uma arroio mais escuro.

Já em desespero fechei a ducha e agarrei a toalha azul, que se pintou rapidamente. Sem conseguir estancar o sangramento, cheguei à pia, e vi que nem a escova de dentes dela nem a minha estavam no copo vidro. E quando me olhei no espelho quem não estava era eu.

Ricardo Viel, jornalista, escreve às segundas, de Lisboa, Portugal. + Textos do autor.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Se eu acreditasse em Deus

Advertência: material não recomendado a fanáticos religiosos

Se houve um estupro e dele resultou uma gravidez é porque Deus quis; logo, não se deve abortar. Foi o que disse na semana passada um político estadunidense em campanha para o Senado.

A concepção divina de Richard Mourdock é, grosso modo, a de muitos crentes. Ele [Deus] está em todos os lugares, é onipresente e nada acontece sem sua benção. “Não cai uma folha de uma árvore se Ele não quiser”. Portanto, se uma mulher ficou grávida era para ser assim, e o fato dele não querer aquele filho, do feto não ter cérebro ou qualquer outro “detalhe” é secundário.

Se eu acreditasse em um deus, o odiaria. Ao menos que aceitasse que esse deus, após criar o mundo e as pessoas, foi descansar e nunca mais acordou. Caso contrário, seria difícil ter qualquer apego por um ser sádico, perverso, implacável e injusto.

Tenho alergia a extremistas, e acredito que um ateu que pregue sua ausência de fé deve ser tão insuportável quanto um crente que faz o mesmo. Não pretendo que quem tenha um Deus deixe de tê-lo, mas apenas fazer um alerta que em nome de um deus se pode cometer barbaridades como obrigar uma mulher a parir uma criatura fruto de um estupro.

Um mundo com menos fanatismo religioso possivelmente seria um mundo melhor, sem tanto preconceito e intolerância, e talvez menos injusto - já que o discurso da existência de um ente superior que tudo vê e tudo pode acarreta em muitos o comodismo e a resignação.

Durante um tempo pensei que ter fé trazia paz e um certo sentido na vida, e cheguei até a invejar os crentes. Hoje me sinto livre por não acreditar numa força superior, já que nutriria por ele uma repulsa e um ódio que não faz bem que se cultive, muito menos contra algo que nem sequer existe.

Ricardo Viel, jornalista, escreve às segundas, de Lisboa, Portugal

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Apontamento para um texto que nunca escreverei

São como fragmentos que, penso eu, poderiam formar um todo. Chego a enxergar uma lógica, mas me sinto incapaz de transformar isso tudo em um texto. Não é preguiça, garanto.

E por achar que esses apontamentos fazem algum sentido, e pensando que talvez podem servir a alguém – e quem sabe esse alguém até se anime a dar um corpo a tudo isso –, abaixo os transcrevo.

"Sábio é aquele que se contenta com o espetáculo do mundo" (Fernando Pessoa Ricardo Reis)

“Alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer.” (Drummond)

“E, aquele/ Que não morou nunca em seus próprios abismos/Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas/Não foi marcado. Não será exposto/Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.” (Manoel de Barros)

Carta de Alejandra Pizarnik a Cortázar *

“Julio, fui tão baixo. Mas não há fundo. Julio, creio que não tolero mais as perras palavras. (...) Me excedi, suponho. E perdi, velho amigo da tua velha Alejandra que tem medo de tudo salvo (agora, Oh, Julio!) da loucura e da morte. [carta escrita desde o hospital psiquiátrico, depois de uma tentativa falida de suicídio]

Reposta de Cortázar *

Não te aceito assim, não te quero assim, eu te quero viva, burra, e perceba que estou falando da linguagem mesma do carinho e confiança – e tudo isso, caralho, está do lado da vida e não da morte. Quero outra carta tua, logo, uma carta tua. Esse outro é também você, eu sei, mas não é tudo e além disso não é o melhor de você. Sair por essa porta é falsa no teu caso. Eu te peço (...) um pulso sobre a terra, alegre ou triste, mas não um silencio de renuncia voluntária. Só te aceito viva, só te amo, Alejandra. (...) não imaginas com quanta vontade abaixaria tua calcinha (rosa ou verde?) para te dar uma surra dessas que dizem eu te amo a cada chicotada.

Nota: Pizarnik se matou meses depois de receber essa carta

*tradução minha

Ricardo Viel, jornalista, também publica hoje no Valor Econômico uma entrevista com o escritor português Joao Ricardo Pedro. 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Pedras nos bolsos

No capítulo inicial de A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera apresenta um dilema que poderíamos denominar de liberdade vs prisão. Em princípio, qualquer ser humano com o mínimo de juízo diria que a liberdade é o paraíso enquanto a prisão, o inferno. Mas como a vida não é um filme de Hollywood, essa polarização entre o certo e o errado, o bom e o mau, não costuma ser funcional. Entre o branco e o negro há uma infinidade de tonalidades de cinza, e é nela que nós, que não somos Brads Pitts ou Angelinas Jolies, nos encontramos. É o que explica Kundera:

“Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semirreal, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?”

Claro está: carregar um peso excessivo nos impede de sair do lugar e torna a existência um martírio. Mas não trazer consigo peso algum representa o enorme risco de distanciar-se de maneira tal do mundo a ponto de fazer da liberdade uma prisão. Bom exemplo do que digo é a vida de Christopher McCandless (na imagem), que foi primorosamente retratada no filme Na Natureza Selvagem (Into the Wild, 2007, dirigido por Sean Pean; o filme é uma adaptação do livro de Jon Krakauer, que por sua vez é baseado nos diários deixados pelo próprio McCandless).

Aos 22 anos, o jovem estadunidense abdica dos confortos materiais e sai em busca de uma vida plena, em contato com a natureza e distante das mazelas humanas. Não conto o final para não estragar a surpresa dos que não tenham visto o filme, mas advirto que McCandless – que passa a se autodenominar Alexander Supertramp – percebe que a vida sem nada que lhe ate a qualquer lugar ou pessoa pode não ser a plenitude.

E qual a solução? Também não sei, mas minha intuição diz que é dosar a leveza com algo de peso. Carregar umas quantas pedras nos bolsos. O suficiente para lembrar-se dos caminhos por onde se passou (das pessoas, lugares, sons, cheiros, cores etc), mas que não seja peso excessivo que impeça de seguir a caminhada. Deve ser um leve peso, que se transforma em âncora apenas como metáfora. Porque a decisão de estacionar em um lugar tem sempre que ser uma escolha e não uma imposição.

Ricardo Viel, jornalista, escreve às segundas de Lisboa, Portugal. Leia + textos do autor.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O verdadeiro futuro

Si se pudiera romper y tirar el pasado como el borrador de una carta o de un libro. Pero ahí queda siempre, manchando la copia en limpio, y yo creo que eso es el verdadero futuro.
(Julio Cortázar, em Cartas de Mamá)

Juan José Padilla
O jornalismo é o melhor ofício do mundo, disse certa vez Gabriel García Márquez. Às vezes quase acredito nessa sentença. Tirando a pressão, as incertezas, a precariedade dos salários e outras tantas dificuldades, resulta que ainda sobra algo (e que não é pouco): o prazer de contar histórias e relacionar-se com pessoas com as quais em outras circunstâncias seria impossível fazê-lo.

Gosto muito de fazer entrevistas e, às vezes, sinto que questionando alguém sobre sua vida, tentando entendê-la – a pessoa, digo, mas de certo modo também sua vida – acabo por buscar respostas para a minha própria.

O último trabalho que fiz me ocupou meses, trouxe certa angústia, mas foi extremamente prazeroso e serviu um pouco como uma terapia. Escrevi o perfil do toureiro espanhol Juan José Padilla, que há um ano levou uma chifrada que lhe cobrou um olho e quase lhe custou a vida.

Logo que cheguei à Espanha acompanhei pela tv a imagem da cornada que recebera. Li nos jornais sobre sua recuperação e assisti com assombro a entrevista em que dizia que queria voltar a tourear.

Comecei a ver ali uma boa história e tentei contatá-lo. Para a minha surpresa, no final de fevereiro, em uma manhã de ressaca, recebi uma telefonema do próprio. Dizia que tinha recebido minha mensagem, mas que gostaria de esperar para dar a entrevista. Estava se preparando para retornar e preferia se concentrar nisso. Ficou a promessa do encontro.

Desde aquela ligação até que nos vimos foram quase sete meses. Nesse tempo – e paralelo a outros trabalhos, claro – tratei de conversar com o máximo possível de pessoas (algumas delas muito próximas a Padilla) para aprender sobre o universo das touradas e sobre a vida daquele personagem.

No dia em que por fim sentei-me para entrevistá-lo havia duas perguntas que realmente queria que ele me respondesse: a) por que voltar a tourear? b) É possível, como ele repetia insistentemente a cada entrevista que dava, esquecer o que aconteceu e seguir a vida como se aquilo fosse página virada?

A primeira pergunta eu intuía a resposta. “Acho que se ele não voltasse a tourear daria um tiro na cabeça”, me havia dito um conhecido de Padilla. Ele me respondeu que aquilo era sua vida e que ela seria muito vazia se faltassem os touros.

A segunda resposta foi a que mais me tocou. Tenho certa obsessão com a questão do passado e estou recorrentemente olhando para trás e me perguntando “o que teria sido da minha vida se…”. Padilla me disse que não valia a pena pensar nisso, que era preciso olhar para o futuro.

Ótima maneira de superar um trauma, creio eu. Mas na prática as coisas são um pouco diferentes. Ele quis voltar ao lugar onde levou a chifrada. Visitou a praça de touros sozinho, refez todos os passos daquele dia da chifrada. Passeou pela arena, pisou no lugar exato onde o animal de 500 quilos lhe acertou. Refez todo o calvário e terminou a visita na enfermaria.

E agora, no dia 10 de outubro, um ano e três dias depois de quase morrer, Padilla voltará a tourear naquela praça. Será para fechar um ciclo, para tentar colocar um ponto final nessa história e dizer que ela é página virada.

Mas tenho para mim que, ainda que essa nova tarde na praça da desgraça seja triunfal, ela não apagará aquela outra de um ano atrás. Porque, como tão bem escreveu Cortázar, é impossível eliminar o passado. Ele estará ali sempre, manchando a escritura que está por ser feita. E essa marca, que muitas vezes é incômoda, é o verdadeiro futuro.

Ricardo Viel escreve às segundas, de Lisboa, Portugal

Nota: o perfil de Padilla sai na edição deste mês da revista Piauí

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Desarraigo

"Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam"
 José Saramago em A Viagem do Elefante 

Acabo de me mudar, de novo. Lisboa é minha oitava cidade diferente. Tentei pensar na quantidade de casas em que morei, mas desisti. Com certeza são mais de vinte. Outra vez fazer as malas, outra vez jogar fora o que não serve (e às vezes nunca serviu), outra vez fazer com que a vida se reduza a 50 kg de peso.

Para mim, mudar é, também, fazer um balanço da vida. Pensar no que se deixa e no que se espera encontrar. Na grande maioria das vezes, me mudei porque quis, o que fez com que, creio eu, minhas despedidas fossem menos traumáticas e minhas chegadas cheias de esperanças e expectativas.

Gosto de mudar, e a sensação de descobrir uma nova morada, de pouco a pouco sentir que passei de turista a local – enfim, fazer parte da paisagem –, me faz sentir vivo. Mas talvez fosse o momento de me perguntar o motivo de tantas idas e vindas. Há quem passe a vida toda morando no mesmo bairro, alguns na mesma casa, enquanto há quem, como eu, sente verdadeiro comichão quando completa o segundo ano de vida em um lugar.

Em espanhol há uma palavra que exprime essa inexistência de raízes que atam alguém a algo. É o desarraigo, e fala-se em um sentimento ou sensação que impossibilita com que uma pessoa se sinta de certa parte, crie laços com seu entorno. Esse é, hoje em dia, meu pesadelo: sentir-me sempre um estranho, um forasteiro que passará a vida tentando encontrar sua casa.

Prefiro pensar que não é assim, que minha casa são muitas e que vou deixando algo por cada lugar que passei; e que quando chegar a hora, sem esforço e sem pressa, me fixarei numa terra e poderei, por fim, dizer: fico por aqui.

Ricardo Viel, jornalista, escreve às segundas agora de Lisboa, Portugal. Leia + do autor.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Ali vai minha avó

Para a dona Laura
 
No sábado, encontrei com minha avó na rua. Fazia mais de um ano que não a via.

Eu ia distraído e só percebi sua presença quando já estava a um metro de mim. Vi sua boquinha pequena se abrir e fechar, e rapidamente tirei o fone de ouvido. "Como?" E ela chegou um pouquinho mais perto e, fazendo um gesto com a mãozinha cheia de rugas, repetiu: queria um “trocadinho” para que tomar um “cafezinho”.

Fiquei confuso, pedi desculpas por não ter nada - ao mesmo tempo que batia no bolso da bermuda e as moedas me delatavam - e segui meu caminho. Olhei para trás e vi como ela continuou o seu, com aquele andar vagaroso característico. Ali vai minha avó e nunca mais voltarei a vê-la, pensei.

Pois bem, não era minha avó, porque minha avó morreu há três semanas. Morreu no Brasil, e eu não estive no enterro. Saber que alguém se foi é diferente de dizer adeus a esse alguém que se foi.

E quando cruzei com essa outra senhorinha aqui em Lisboa e lhe neguei um trocado, foi como se por fim tivesse me dado conta que minha avó já não existe. Que quando eu voltar ela não estará, e que morrer é não estar mais, nunca mais, a não ser nas lembranças.

E agora, quando chego a casa e decido por escrever este texto, percebo que perdi a oportunidade de me despedir da minha avó. Tinha que ter convidado aquela senhora para tomar um café, escutá-la, contar um pouco da minha vida, e no final despedir-me com um abraço e um beijo. Talvez assim tivesse também me despedido da dona Laura, que por enquanto só sei que está morta porque me disseram, e só saberei realmente que é verdade quando eu voltar a sua casa e ela não estiver. Nunca mais.

Ricardo Viel escreve às segundas, de Lisboa, Portugal

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Despedida

“Meio de saco cheio de tudo”, Ricardo Viel telefonou para Henrique perguntando se o amigo não tinha um texto para esta segunda. A resposta foi “sim, quebro essa. Te mando esse conto-crônica”, e o resultado você lê abaixo.

Despedida

Não é que alguém tenha me contado. Eu vi. Fui testemunha. Assisti a todos os capítulos da história (e por isso acho que ela ainda não acabou).

Vi como eles, desde o primeiro dia em que se conheceram, já com as primeiras palavras que trocaram, criaram uma aura que causava espanto e inveja. Eles se olhavam como se no mundo não existisse nada e nem ninguém.

Lembro-em perfeitamente como durante uma conversa num bar, enquanto alguém vomitava uma simplificação estúpida (fazendo pose de autoridade), eles se tocavam por baixo da mesa e se entendiam; e assisti como ele tomou seu braço, e o vi desenhar na palma de sua palma, com o dedo indicador, primeiro um T – e em seguida a olhou, para se assegurar de que ela havia entendido a brincadeira (e recebeu como resposta um balançar de cabeças). Sempre olhando fundo nos olhos dela, continuou; escreveu, pausadamente, um E, e em seguida um A, e um M bem construído. [E dentro de mim foi crescendo algo que era uma mistura de angústia, de apreensão e depois uma alegria quando decifrei a mensagem que estavam construindo]. E o final foi com um perfeito e enorme O, circulado três vezes. A resposta foi um duplo piscar de olhos, marcado, e uma boca que pronunciou, sem emitir qualquer som, a frase: “eu também”. Era assim, nada nem ninguém importava, porque eles sozinhos eram o mundo inteiro.

Foi divertido acompanhar como os demais se dividiam entre os que apostavam que não, que entre eles não podia haver algo, porque eram amigos demais, cúmplices demais, e se davam demasiado bem para serem um casal (argumentos perfeitamente plausíveis, que quase me convenceram); e do lado contrário estavam os que tinham a certeza que daquela junção não podia acontecer outra coisa que não fosse um amor carnal, dos que se impõe sobre qualquer razão ou circunstância.

Fui testemunha de como, com cara séria, ele disparava elogios a ela, e dizia que era a mulher mais doce e linda e inteligente e encantadora do mundo, mas que não, “infelizmente”, entre eles nunca havia acontecido nada (“quisera eu”, completava). E como ela, de tanto que lhe perguntavam, relatou com tamanho detalhe tudo o que eles estavam vivendo, que ninguém acreditou (parecia algo impossível de existir).

E é claro que eu estava no dia da rosa. Disseram tchau, ele virou à esquerda e ela seguiu reto. Assim que ela virou as costas, vi como ele deu a volta na quadra, arrancou uma flor da roseira que havia na esquina, e se sentou na frente da casa dela, como se tivesse passado ali toda a tarde esperando sua chegada. E tenho gravado na memória o sorriso que ela abriu quando entendeu que sim, era ele – quem mais podia ser? – ali no degrau, passando frio, com uma rosa vermelha na mão.

Também sofri quando se aproximou a hora da despedida, e vi como eles se enganaram tão bem a ponto de dizerem adeus como quem diz até “amanhã cedo passo na tua casa”.

E agora, depois de acompanha-lo murchar qual girassol sem luz (de dar pena), de vê-la vagar vazia por aí, fazendo de conta que anda bem e que não pensa nele, me parece absurda toda essa situação. Ele dizendo que não moverá um dedo para voltar a encontrá-la, porque “a distância é a mesma” e “em nenhum lugar está escrito que sou eu que tenho que ir atrás dela”; e ela, cheia de medos e com a falsa imagem “sou independente e não preciso de ninguém”, esperando ansiosamente que ele um dia escreva dizendo que já não aguenta mais, que precisa vê-la, e que chega amanhã por volta das quatro (“pego um táxi e vou te encontrar”).

Porque o que eles se negam a aceitar é que histórias assim não acontecem todos os dias, e quando acontecem é preciso fazer de tudo, usar todas as forças e meios – girar o eixo da terra, se preciso for – para que essas duas pessoas voltem a se encontrar, voltem a criar esses momentos que dão sentido à vida, e transformem aquele adeus em um “já não aguentava mais de saudades, promete que não nos separaremos nunca mais?”.

Ricardo Viel, jornalista, escreve às segundas

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Antes do e-mail

Houve um tempo em que se escreviam cartas. Eu mesmo o fiz. As minhas eram, sobretudo, dirigidas à minha avó. E sentar-se para escrever, revisar, colocar a mensagem em um envelope, levá-la aos correios, e esperar durante semanas a resposta, era um ritual que me agradava.

Digo isso porque recentemente li uma carta enviada por Jorge Amado a Zélia Gattai (publicada pela revista Bravo). Era 1948, ele exilado em Paris e ela no Brasil. É uma missiva cheia de carinho, doçura e bom-humor (com uma pitada de ironia). O escritor baiano conta um pouco de sua vida na Europa, das pessoas com quem convive, dos projetos e tenta acalmar os ciúmes da esposa, a ponto de escrever: “a senhora esta não me interessa em absoluto. Nem outra senhora qualquer. Interessa-me tu, meu bicharoco lindo e louco”. E também se declara: “Minhas saudades são cada vez maiores e não consigo gostar inteiramente das coisas porque não estás a meu lado.”

Fico a pensar em Jorge Amado escrevendo a Zélia. Todo o processo que era postar uma carta, todo o cuidado e angústia que significava, e toda a expectativa que gerava o envio de uma mensagem dessas.

Isso hoje já não existe. E não digo que o conforto dos e-mails seja ruim. Se posso escrever uma mensagem instantânea e gratuita, por que enviaria uma carta? Mas há, claro que há, uma diferença. Um e-mail é fugaz. Escrevê-lo demora uns quantos minutos. Muitas vezes nem sequer se revisa a mensagem. E se sabe que chegará, e chegará ao instante. E se desejar, consegue-se inclusive saber se a pessoa o leu (e quando). Enfim, o tempo é outro.

Eu, o que tento fazer, é aplicar essa lógica do tempo de antes a alguns e-mails meus. Os que considero muito importantes, os guardo. E vez ou outra os (re)leio. Talvez para tentar entender quem era eu quando os escrevi. E há, também, e-mails que redigi e jamais enviei. Agora mesmo tenho um ali, na caixa de “rascunhos” à espera de algo.

Como uma carta de antigamente em que se duvida em enviar. E gosto de lê-lo, e gosto da ideia de que posso enviá-lo quando quiser. E gosto, mais que nada, de pensar que um dia talvez ele se torne inútil, desnecessário, e então poderei apagá-lo para sempre, como quem rasga e depois queima uma carta.

Ricardo Viel, jornalista, escreve às segundas essa coluna semanal, enviada da Espanha por e-mail, não por cartas.
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