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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Haram


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna*

Foi na novela “O clone”, megassucesso de Glória Perez, de 2001, que ouvi pela primeira vez a palavra “haram”. Ambientada numa espécie de ponte aérea entre o Brasil e o Marrocos, a novela trazia personagens muçulmanos, pela primeira vez num produto de mídia para o grande público. Com todas as críticas que se possam fazer aos exageros e caricaturas típicos das telenovelas, era fácil perceber que os tais personagens eram muito mais próximos do que distantes de nós. O que não era pouco, no imediato pós-11-de-setembro, quando o anti-islamismo e o ódio religioso se mimetizavam em nossas cabeças ignorantes. No Marrocos fabricado pela Globo, que ainda não tive oportunidade de comparar com o verdadeiro, a toda hora se dizia que algo era “haram”, pecado, errado, fora do padrão considerado aceitável para um bom muçulmano. Durante alguns meses, se tornou um bordão muito popular.

De 2001 para cá, assistimos ao recrudescimento galopante do fundamentalismo religioso, um produto da incapacidade de muitos para entender que já não há mais lugar para a imposição de princípios religiosos a todas as pessoas e da dificuldade de admitir a relevância das diferentes crenças, entre outras coisas. É praticamente impossível argumentar e obter consenso entre pessoas que se dizem emissárias de Deus ou qualquer outro nome que se dê às respectivas divindades.

Mas há duas áreas em que o consenso se obtém com certa facilidade e em torno das quais rapidamente se produzem alianças demolidoras: a opressão das mulheres e o repúdio às várias expressões da sexualidade humana. Não há nada mais ameaçador para os religiosos fundamentalistas, de qualquer crença, do que meninas e mulheres empoderadas, aptas para refletir, questionar e subverter a forma como são vistas e tratadas. Quem acompanhou as mobilizações e conferências sobre os direitos das mulheres nos últimos vinte anos sabe do que estou falando.

Aí está o Boko Haram, grupo terrorista islâmico, dedicado a atacar e eliminar a educação das meninas na Nigéria, país africano dividido entre o norte, de maioria muçulmana, e o sul, majoritariamente cristão. O próprio nome da facção significa “a educação cristã é pecado”, porém não há notícias de que tenha em algum momento se insurgido contra escolas masculinas ou meninos estudantes. Seu alvo são as meninas, que jamais deveriam ter a oportunidade de se instruir, pois nasceram para servir os homens. Depois de sequestrá-las, esses criminosos malditos dos infernos as submetem a estupros constantes e as transformam em “servas”, em suas próprias palavras. Centenas já foram assassinadas.

Acredito que para seguidores do Islã inteligentes e esclarecidos não pode haver haram mais grave do que esta ignomínia praticada contra essas adolescentes. E tudo se torna ainda mais perverso quando se constata que o governo nigeriano, de tendência cristã, tem sido no mínimo negligente no combate à atuação do Boko Haram. Afinal, quem realmente se opõe às restrições que se queiram colocar à liberdade e à autonomia das mulheres?

Enquanto isto, os fundamentalistas brasileiros, quase todos cristãos, de diferentes tendências católicas e protestantes, se irmanam na pregação do atraso, supostamente em defesa da família e dos valores originais da religião. No momento, estão comemorando sua vitória na retirada da “ideologia de gênero” como vetor das estratégias e ações do novo Plano Nacional de Educação, em discussão no Congresso Nacional. Dei-me ao trabalho de ler vários textos e assistir a vídeos em que comentam o assunto. São de estarrecer as mentiras e a confusão intencional que promovem em torno do que seria essa tal ideologia e seus alegados efeitos nefastos sobre as nossas crianças e adolescentes. Os textos disponíveis na internet são todos copiados uns dos outros, rasos como um pires, sem qualquer argumentação ou contribuição reflexiva. Chegam ao ponto de todos citarem a mesma e única fonte sueca para exemplificar os supostos horrores perpetrados pelo Estado ao estabelecer a equidade de gênero e o respeito à diversidade como princípios e práticas fundamentais da educação naquele país.

À parte as ameaças que essas pessoas geralmente enxergam em tudo aquilo que significa a promoção de direitos e oportunidades iguais para todas as pessoas, essência esquecida do Novo Testamento, entendo todo este esforço conjunto por impedir o avanço como um produto direto da mais prosaica e rasteira preguiça. De pensar, de estudar, de argumentar e de buscar consensos que realmente reflitam os interesses de todas e todos, para fora dos seus cercadinhos religiosos. Um grande haram, um grave pecado, pois, quanto menos se usa a inteligência e se praticam o respeito e a tolerância, maior o risco de que eventualmente se produzam absurdos como o Boko Haram.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

São Jorge

por Fernanda Pompeu*

Reconheço que na maioria da vida dos santos há abnegação, sacrifício, compaixão. E, é claro, esforço e graça em amar o outro, principalmente quando esse outro são crianças, bichos, velhinhos. Os santos amaram, cada um ao seu modo, a imensa legião dos sem. Sem dinheiro, sem casa, sem país, sem alfabeto, sem direitos, sem sorte. Praticaram o chamado e idealizado amor gratuito.

Sempre me surpreendeu quando um amigo ou conhecido revelava seu santo de devoção. Filha de mãe e pai ateus, vivi minha infância sem medalhinhas ou retratinhos bentos. Mas, brasileira, sou herdeira de uma religiosidade mestiça, abundante e flexível. Daí, já na minha vida adulta, percebi que eu também precisava eleger um santo pra chamar de meu.

Por fidelidade de gênero, no princípio, procurei uma santa. Tendi para a Santa Clara, uma vez que no começo da minha de saga de trabalhadora estive envolvida com cinema, vídeo e televisão. Encontrei poética a ideia de uma santa que, em 1688, fez uma menina cega voltar a ver. Clara de Assis que se tornaria, no século XX, a padroeira dos ofícios da imagem. Mas foi uma escolha cerebral demais, não pegou no coração. Segui deserdada de santo.

Até que numa data qualquer, ouvindo uma emissora de rádio, me encantei com a voz da xará Fernanda Abreu interpretando Jorge da Capadócia, de outro Jorge, o Ben Jor: "Jorge sentou praça/ na cavalaria / Eu estou feliz / porque eu também / sou da sua companhia." A partir daí, minha memória ateia passou a recuperar milhares de imagens do lanceiro sobre um cavalo. Nos táxis, nas cozinhas, nos bares, nos barracos. O cavaleiro lutando contra o dragão da maldade.

Gostei principalmente de ele ser um santo guerreiro. Aquele que sabe que paz se conquista com luta. Pronto. Virei São Jorge. Entrei para a legião dos milhões de devotos. Ele é santo em rede, conhecido no Oriente e Ocidente, popular nas igrejas Católica, Ortodoxa, Anglicana. Aquele que conjuga força e fé, pois uma nada pode sem a outra. Se você age sem acreditar, dá em nada. Também dá em nada acreditar sem agir. Por fim, São Jorge é Ogum! "E beira-rio, beira-rio, beira-mar / o que se ganha de Ogum / só Ogum pode tirar."

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fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé. *Texto publicado originalmente no Mente Aberta - Yahoo. Imagem: Régine Ferrandis, "São Jorge lutando com o dragão", de Rafael.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Sinal da cruz


por Ricardo Sangiovanni*

Não foi pouquinho tempo – foram anos e anos da vida que Jorge Martins passou fazendo o sinal da cruz daquela maneira.

Não fora por invenção sua, senão por exortação de certo frei mestre de gramática da criançada lá de sua saudosa Guimarães – ai de mim, Guimarãezinha… – onde dom Afonso Henriques primeiro declarou existência aos Portugais.

Chamava-se o homem Álvaro de Monção, ele recordava. Era esse o nome do homem que havia sessenta anos pouco mais ou menos persuadira-lhe a si e ao restante dos putos que o certo era que se benzessem d’outro jeito.

Alegava o dito cujo que “no credo dizemos Filium ejus, et qui sedet ad dexteram Patris, e que David, no seu salmo diz dixit dominus domino meo sede adexteris mieis, e no símbolo de Atanaseu, sedet dexteram dei Patris, e noutros versos da Igreja, qui sedes adexteram miserere nobis”.

Para então sustentar, a si e aos miúdos, persuasivo feito só mesmo Satanás havia de ser, que o certo não era descer com a mão da cabeça até o peito na hora de falar “em nome do Filho”. Pois se o Filho, conforme comprovavam as escrituras, sentava-se à direita do Pai, mais fiel então seria levar a mão da cabeça ao ombro direito: In nomine Patris, et Filis…

De sorte que, desde que ouvira tal ensinamento, Jorge Martins passara a fazer o sinal da cruz daquele jeito, em forma de roda, indo primeiro da cabeça ao ombro direito, depois ao centro do peito, e dali ao ombro esquerdo, amen.

E assim o fizera desde sempre, seguro por mais de cinquenta anos, em Portugal e depois também quando veio para a Vila de São Jorge, que ajudou a levantar na capitania dos Ilhéus.

Só largou o costume há bem uns cinco anos, quando, já espreitando a morte, resolveu averiguar se aquilo fosse porventura pecado, e então uns padres disseram-lhe que tomasse tendência e passasse a se benzer normal, igual a todos os cristãos, que era o melhor que fazia.

E a quem a esta altura já esteja pensando tratar-se de anedota inventada, que trate de consultar a confissão de cujo homem ao Santo Ofício, no tempo da graça em que a todos os pecados se absolvia, em data de 3 de agosto, ano 1591.

Só o que me atrevo a afirmar é que, mesmo absolvido, Jorge Martins jamais deixou de temer, por todos os dias até o dia de sua morte, que nem sua confissão, nem seu arrependimento, nem nada pudesse ser suficiente para salvar-lhe a alma do inferno. Pois que absolvição de padre bastaria, contra toda uma vida vivida em pecado?

Jamais também deixou de pensar na desgraça que, àquela altura, já teria sombreado (ou que haveria de sombrear ainda) a vida de seus coleguinhas das aulas de gramática, aquela boa e ora já velha malta de Guimarães – ai de mim, Guimarãezinha…

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*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Conto do vigário



por Ricardo Sangiovanni*

Alguém nesses tempos de troca de papa recordou Padre Pinto, até o pediu para Sumo Pontífice. Achei graça.

Padre José Pinto, para quem não é vezeiro em Bahia, é um sacerdote da Santa Igreja Católica Apostólica Romana que ficou famoso em 2006 por celebrar missa de Reis vestido ora de Oxum, divindade do Candomblé, ora de entidades ancestrais de cultos indígenas. Trajou-se, pintou-se e dançou danças rituais sincréticas, com o apuro técnico que lhe permite a formação de bailarino pelo Balé do Teatro Municipal do Rio.

“Dom Geraldo [arcebispo hoje emérito de Salvador, que recentemente elegeu o novo papa] está sabendo. A CNBB também está sabendo. O povo é que se assusta”, disparou Pinto ao microfone da Rede Globo, em cadeia nacional. E clamou: “Eu não quero sair daqui! Quero morrer aqui, no altar!”

Pinto levou um puxão de orelha da Cúria, mas voltou a aprontar, ora pintando em boate gay, ora roubando em público um selinho a Caetano Veloso. Só então é que tomou um gancho de verdade: foi deslocado da Lapinha, no centro, à periférica paróquia de São (surpresa) Caetano, rebaixado a pacato vice-pároco.

Mas ia-lhes dizendo que me divirto, mas advirto que a faceirice do Padre Pinto é só um exemplar mais recente da longa história clerical de desvios dos preceitos da fé na Bahia – e, por tabela, no Brasil.

Arrisco inclusive dizer, na falta de quem bem me desminta, que o primeiro caso aqui registrado remonta à alma de padre Frutuoso Álvares, português, vigário de Nossa Senhora da Piedade de Matoim desta Cidade da Bahia na segunda metade do século 16, primeiro da colonização lusa e cristã dessas terras do Brasil.

Corria o ano de 1591, e nem bem a Visitação do Santo Ofício abrira seus trabalhos na colônia, lá estava padre Frutuoso, sem nem ter sido chamado, primeiríssimo da fila, todo ardoroso para uma confissão voluntária.

Jurou com a mão direita sobre a bíblia e açodou-se a contar que havia quinze anos, desde que chegara à Bahia, vinha cometendo de maneira contumaz “a torpeza dos tocamentos desonestos com algumas quarenta pessoas pouco mais ou menos, abraçando, beijando (…) moços e mancebos que não conhece nem sabe os nomes”, conforme anotação do notário do Santo Ofício, Manuel Francisco.

“Em especial”, lê-se, “com um moço que chamam Gerônimo”.

Do tal moço ficamos sabendo, através de depoimento do próprio, tratar-se de Jerônimo Parada, “estudante, cristão-velho, natural desta Bahia, de idade dezessete anos”. Em sua confissão, o moçoilo ratifica que, há coisa de dois ou três anos, em dia de Páscoa, fora de fato à casa do clérigo. “E o dito Frutuoso Álvares o começou a apalpar, dizendo-lhe que estava gordo e outras palavras meigas…”

Deitaram-se coisa de uma dezena de vezes. Até um belo dia em que Jerônimo resolveu dar um basta naquilo. Louco de amor, o padre ofereceu um vintém ao moço por mais um amasso – mas este, tenaz na fé, recusou.

Aí o padre, irresistível, ofereceu dois. E deitaram-se de novo.

Pelo depoimento do padre Frutuoso ficamos sabendo ainda que seu histórico era antigo, longo e deveras conhecido da Igreja. O clérigo já praticara os tais “tocamentos desonestos” com um rapazote de Braga, Portugal – motivo pelo qual fora desterrado, primeiro para Cabo Verde, depois, sob nova acusação do mesmo crime, “sentenciado e condenado em degredo para sempre nestas partes do Brasil”.

Que ninguém pense que eu estou aqui insinuando que Padre Pinto seja por acaso homem dado a tocamentos com mancebos, como Frutuoso; tampouco que padre Frutuoso tenha-se desviado da doutrina, como Pinto. Então, afinal, que nos ensinam essas duas parábolas, queridos irmãos?

Sem dúvida, uma porção de lições mais ou menos edificantes sobre o passado e o futuro do Brasil e da religião católica, as quais porém falta-me agora o tempo e sobra-me uma enorme (uma existencial) preguiça de enunciar. A mais importante de todas, no entanto, é que essa Bahia velha não deixa a gente levar muito a sério esse papinho mole de Igreja. Pois então, conta outra, papa Chico.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

A criação do mundo revisitada

por Izaías Almada*

E no sexto dia, antes do descanso, Deus contemplava a sua obra, pensativo. De repente, girou o globo terrestre e colocando o indicador num determinado ponto, exclamou: “Aqui será o Brasil!”

Admirou Deus por alguns momentos a beleza da sua criação e acrescentou: “Aqui, nesta terra de palmeiras, sabiás e rios piscosos, colocarei à minha direita a maioria dos inaptos. À minha esquerda, habitará a maioria dos ineptos... E no centro, bem... No centro, deixarei viver a grande maioria dos inócuos...”

E viu Deus que era bom.

Inaptos, ineptos e inócuos, aqui vivemos todos nós na expectativa de criarmos uma grande nação, de projetarmo-nos como seres humanos de primeira grandeza, de nos livrarmos de seculares mazelas impostas por um colonialismo predatório e refém de interesses além fronteiras. De uma cultura que costuma se dividir entre a arrogância e a submissão: a arrogância do saber mal assimilado e a submissão originada pela alienação.

Nesse coquetel de desejos e frustrações, caminhamos sobre o fio da navalha e vamos trocando os papéis em consonância com nossos interesses de momento: passamos de inaptos a ineptos ou vice-versa, mas sempre com a possibilidade de continuarmos ou de nos transformarmos em inócuos.

No paraíso que nos foi destinado por vontade divina, onde oito milhões e quinhentos mil metros quadrados de verdes matas, água doce e potável, frutos os mais exóticos e saborosos, subsolo riquíssimo, há quinhentos anos ainda não sabemos organizar a casa. Tentamos, é verdade, mas o tempo que nos é dado viver é muito curto, se pensarmos que após a infância e a adolescência temos que escolher (ou somos escolhidos?) entre sermos inaptos, ineptos ou inócuos.

Um belo dia, ao comermos da árvore da sabedoria, descobrimos que inaptos, ineptos e inócuos poderíamos viver em harmonia e com isso imitamos outros povos e culturas mais antigas. Organizamos a coisa pública, a república e, consoante a boas experiências alheias, criamos parâmetros de convivência social, deixando para trás nossos antepassados colonizadores. E foi assim que estabelecemos três poderes: um para administrar, um para legislar e um terceiro para zelar pelo cumprimento das leis.

E viu Deus que era bom.

Surgiu aí o grande problema. Como distribuir pela nova república, com sabedoria e com sentido de justiça, os inaptos, os ineptos e os inócuos?

Chamando um representante de cada grupo, Deus colocou na mão de cada um deles um manual a que deu o nome de Constituição e disse: “Aqui está o caminho, a verdade e a vida. Leiam, reflitam e aí encontrareis as respostas para os desafios da vossa jornada neste paraíso por mim criado”

Os inaptos leram, leram e não entenderam muito bem, ou fingiram que não entenderam. Os ineptos marcaram reuniões e mais reuniões e foram poucas as vezes em que conseguiram algum consenso sobre o que leram. Os inócuos, bem, os inócuos praticamente não leram. E foram todos para as ruas...

E viu Deus que era ótimo!

*escritor e dramaturgo, Izaías Almada mantém a coluna mensal Pensando Alto.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Pronto, falei!


por Júnia Puglia              ilustração Fernando Vianna

A notícia está num jornal de hoje (março de 2013!): foi realizado o primeiro casamento civil no Líbano, de um casal decidido a desafiar as lideranças e as práticas religiosas e utilizar um dispositivo legal que já existia, mas ninguém ainda havia tido a coragem de aplicar. O casamento aconteceu há quase um ano, mas só agora veio a público, provocando, mesmo tardiamente, a ira dos muçulmanos radicais, que exigem a manutenção do controle religioso sobre a vida civil.

Posso imaginar a reação dos meus esclarecidos leitores, chocados com o atraso nos costumes observado naquele país e com a ingerência da religião na vida privada das pessoas. E aliviados por Deodoro da Fonseca ter estabelecido o casamento civil heterossexual por aqui em 1890, tão logo nos tornamos uma república.

Lamento estragar seu alívio. Se você ainda não percebeu, está em curso no Brasil – e, infelizmente, não só aqui – uma ofensiva religiosa conservadora fundamentalista cujo principal objetivo é ocupar o cenário político e institucional com pessoas que promovam suas ideias e sua visão de mundo, e imponham seus valores a toda a sociedade. Ou você acha que Marco Feliciano brotou da terra e se fez sozinho? Santa ingenuidade!

Não me refiro apenas aos evangélicos fundamentalistas, que têm estado mais em evidência, mas a grupos religiosos ultraconservadores em geral. No dia-a-dia, eles não são grandes amigos uns dos outros; disputam fiéis, atacam-se mutuamente, competem por espaço na mídia e na política, criam cisma sobre cisma, mas quando se trata de sustentar publicamente posições de força em defesa dos temas que lhes são caros, unem-se como monólitos e passam todos juntos, derrubando tudo o que veem pela frente.

O perigo maior é que, apesar do discurso de amor, compaixão etc., essas pessoas nutrem um profundo desprezo pelo outro, por quem crê de forma diferente da sua, ou descrê. Na verdade, em seu pensamento raso, muitas delas acham que estão agindo movidas pelo amor e pela compaixão, porque o que realmente importa para o mundo, para todas as pessoas, que vai salvá-las definitivamente da maldição eterna – que é o que elas mais temem, no fim das contas – é a sua própria crença, a única, a definitiva, completa e inquestionável. E, vamos combinar, contra verdades definitivas não há argumentos.

Sonham com um país santificado, livre de feministas, gays e afins, famílias não tradicionais, negros e índios inconformados, humanistas, arte profana, querem libertar o Brasil da imoralidade e da tirania dos direitos, inaugurando uma sociedade voltada para o que é certo, justo e conforme com o que interpretam como a vontade do seu deus, da qual são porta-vozes. E que deve ser imposta a todos e todas, sejam lá quais forem as convicções e escolhas individuais. Contam com o apoio tácito de muita gente que, embora não necessariamente partilhe das mesmas crenças, acredita que um pouco mais de controle e menos direitos vai ser bom pra todo mundo. Não sabem, não têm ideia de onde isso pode parar.

Resumindo, trata-se de um projeto de poder, bem humano e bem terreno, com objetivos ambiciosos, que está avançando a olhos vistos. Mais do que necessário, considero essencial detê-lo, em nome de tudo o que me permite pensar, escolher e decidir, e que me obriga a respeitar a vida alheia.

Hesitei muito em me manifestar sobre este assunto, em respeito à minha origem pentecostal e às muitas pessoas desse meio por quem tenho toda a consideração, começando pela minha família. Concluí que deveria fazê-lo, e que só se incomodará quem se identificar com a intolerância, o obscurantismo e o atraso.


Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Se eu acreditasse em Deus

Advertência: material não recomendado a fanáticos religiosos

Se houve um estupro e dele resultou uma gravidez é porque Deus quis; logo, não se deve abortar. Foi o que disse na semana passada um político estadunidense em campanha para o Senado.

A concepção divina de Richard Mourdock é, grosso modo, a de muitos crentes. Ele [Deus] está em todos os lugares, é onipresente e nada acontece sem sua benção. “Não cai uma folha de uma árvore se Ele não quiser”. Portanto, se uma mulher ficou grávida era para ser assim, e o fato dele não querer aquele filho, do feto não ter cérebro ou qualquer outro “detalhe” é secundário.

Se eu acreditasse em um deus, o odiaria. Ao menos que aceitasse que esse deus, após criar o mundo e as pessoas, foi descansar e nunca mais acordou. Caso contrário, seria difícil ter qualquer apego por um ser sádico, perverso, implacável e injusto.

Tenho alergia a extremistas, e acredito que um ateu que pregue sua ausência de fé deve ser tão insuportável quanto um crente que faz o mesmo. Não pretendo que quem tenha um Deus deixe de tê-lo, mas apenas fazer um alerta que em nome de um deus se pode cometer barbaridades como obrigar uma mulher a parir uma criatura fruto de um estupro.

Um mundo com menos fanatismo religioso possivelmente seria um mundo melhor, sem tanto preconceito e intolerância, e talvez menos injusto - já que o discurso da existência de um ente superior que tudo vê e tudo pode acarreta em muitos o comodismo e a resignação.

Durante um tempo pensei que ter fé trazia paz e um certo sentido na vida, e cheguei até a invejar os crentes. Hoje me sinto livre por não acreditar numa força superior, já que nutriria por ele uma repulsa e um ódio que não faz bem que se cultive, muito menos contra algo que nem sequer existe.

Ricardo Viel, jornalista, escreve às segundas, de Lisboa, Portugal

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O fiel "consumidor" da fé que "rouba" Deus

Quem lembra de Mara Maravilha? A cantora infantil que fez sucesso na década de 90 deu uma declaração, reproduzida no vídeo abaixo, que é totalmente sem sentido.

Ela simplesmente culpabiliza o fiel não contribuinte de um obrigação (o dízimo) presente nas religiões evangélicas que não tem sentido nenhum de existir, mas existe. Cada um faz o que bem entende com seu dinheiro. A questão não é essa.

"Quem não paga o dízimo, rouba Deus", disse a hoje cantora gospel e empresária. É o capitalismo da fé lucrando em cima de quem pode menos. Com isso, sinceramente, não dá pra concordar.

O que você acha?

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Expressões do mês do Hamadã em Nova Delhi, na Índia

Kevin Frayer da Associated Press captou com talento as expressões de mulçulmanos indianos em frente a um restaurante em busca de alimentos antes de quebrar o jejum do Ramadã, em Nova Delhi.

Do amanhecer ao pôr do Sol, todos os dias durante o mês de Ramadã, considerado um período de renovação espiritual, os muçulmanos se abstem totalmente de comer, beber e de atividades sexuais com seus cônjuges.


segunda-feira, 26 de julho de 2010

Apocalipse é muito mais um livro de “viagem” do que um livro “histórico”

Tanto a literatura apocalíptica judaica como o Livro do Apocalipse de São João Apóstolo pretendem desvendar os mistérios dos tempos finais da história e do início do Reino de Deus. Um dos diferenciais é que, enquanto os apocalípticos judeus discutem a primeira e única vinda do Messias, São João Apóstolo trata do Segundo Advento de Jesus Cristo.
Do mesmo modo, enquanto os apocalípticos judeus tratam do Reino de Deus como se fosse uma teocracia terrena, instaurada pelo Messias, que foi enviado por Deus, mas não é Deus, São João Apóstolo trata de um Reino de Deus no plano das almas, instaurado pelo próprio Deus, nas suas Três Pessoas. Mas tanto judeus como São João expressam que o Messias enfrenta o Inimigo que quer tomar o seu lugar.
Também, no plano imediato, os judeus e São João parecem partir de um tempo histórico determinado, no caso do Apocalipse o tempo da perseguição do imperador romano Nero aos cristãos, perseguição que o Apocalipse chama de “grande tribulação”. Mas, ao contrário da maioria dos apocalípticos judeus, São João Apocalíptico não usa pseudônimo e sim assina com seu nome próprio o texto sobre as visões da revelação que teve, vinda de Jesus.
Por falar nisso, a característica de expressar a mensagem por meio de visões se encontra tanto nos apocalípticos judeus como em São João Apóstolo. Igualmente, está presente nos dois casos o elemento da predição, como, do mesmo modo, tanto a utilização de símbolos arbitrários a serem decodificados, como a utilização de números como símbolos. Assim, no Apocalipse, cinco são os meses da praga de gafanhotos, sendo cinco nos apocalípticos judeus o número das peripécias humanas, sendo que os gafanhotos só são nocivos aos seres humanos, não à natureza. Enquanto são sete tanto as estrelas como os candeeiros portados por Jesus Cristo no Apocalipse, sendo sete o número da perfeição para a literatura apocalíptica judaica.
Figuras de linguagem e situações dramáticas também foram usadas tanto pelos apocalípticos judeus como por São João Apóstolo. Mas o Apocalipse é muito mais um livro de “viagem” do que um livro “histórico”, segundo a classificação de Collins. Confesso que não me sinto suficientemente preparado para ir além dessas observações.

Renato Pompeu é jornalista e escritor, especialmente para o Nota de Rodapé. Conheça o Blog do Renatão
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