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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 8 de maio de 2014

Irene não ri

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 6)


por Fernanda Pompeu   ilustração Fernando Carvall

O casal era clandestino. Ele, um dos sujeitos mais procurados pela repressão. Tipo inimigo número 1 da ditadura. Ela, companheira de luta e de vida. O Doi-Codi tinha o sonho sádico de sentar os dois na cadeira do dragão.

Daí, imaginem.

Ele punha e raspava o bigode. Ora era loiro, ora ruivo. Sempre de calças Lee e camisetas Hering. Assim passava por estudante, contador, eletricista, auxiliar de escritório. A ordem era ser o mais comum dos comuns dos mortais.

Ela usava vestidos compridos e sem decotes. Também portava discreto óculos escuros para esconder seus olhos azuis. Os brasileiros costumam guardar feições de pessoas com olhos claros, pois é raro.

O casal mudava constantemente de endereço. Moraram na Lapa, na Penha, na Capela do Socorro, no Centro da cidade, no Butantã, no Largo da Concórdia. Em cada casa atendiam por um nome. Antonio, Sérgio, Eliseu, Roberto, Sidinei, Valter. Cláudia, Cristina, Ana, Alice, Vilma, Irene.

Apesar de originalmente expansivos, evitavam como podiam a curiosidade dos vizinhos. Ele saía às seis da manhã e só retornava depois das vinte e duas. Ela cozinhava, lavava, passava sem abrir as janelas. Rádio, ouvia bem baixinho.

O som é sempre um problema, uma vez que diz muito sobre os indivíduos. Ela gostava de rir gostoso, baianamente. Um dia, ele contou uma piada inteligente, engraçada. Ela gargalhou.

Ele então a repreendeu:
- Não faça assim! Você deve rir o mínimo. As pessoas reparam muito em gente alegre.

Ela então recolheu o sorriso. Deixou para soltar a gargalhada quando o Brasil se tornasse comunista.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

O arrivista

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 2)


por Fernanda Pompeu   ilustração Fernando Carvall

Em 1964 - depois de um passado político e tanto, alcunhado de "o corvo" pelos getulistas, ferrenho anticomunista, apesar de na juventude ter sido um deles - Carlos Lacerda era o governador da Guanabara (leia-se da cidade do Rio de Janeiro, ex-Distrito Federal, status usurpado pela novíssima Brasília de JK). Aliás entre seus vários desafetos - e foram muitos - estava o ex-presidente da República Juscelino Kubitschek, que ensaiava sua volta na futura eleição de outubro de 1965. Ser presidente da República também era o sonho dourado do governador da Guanabara. Só que pelo gosto da opinião pública tudo indicava que Juscelino levaria a melhor.

Carlos era um golpista. Estava na alma dele. Sempre pensando no bem do Brasil, dizia. Assim, ele foi um fanático propagandista do Golpe Militar. Deposto João Goulart, o marechal Castello Branco se sentou no trono do poder. O governador teceu mil e uma loas aos fardados. Confabulava com o Castello. Visitava o Costa e Silva, então ministro da Guerra. Lacerda queria sangue! Dizia que era preciso limpar o país dos contrarrevolucionários. Quando JK teve seus direitos políticos cassados, em público Carlos Lacerda silenciou. Mas nos bastidores, exultou a aniquilação de seu adversário direito. Pelos seus cálculos, não sobraria para mais ninguém. A presidência da República estava no papo. Desde, é claro, que houvesse as urnas!

Lacerda desenvolveu uma política de amor e ódio com Castello. Mordia sempre que percebia uma inclinação militar pela ditadura total. Assoprava quando o marechal garantia que seu governo era nuvem passageira e haveria o escrutínio em 1965. Os militares bobos não eram e passaram a sacar o jogo do governador. O resto da história a gente conhece. Não tiveram eleições para presidente coisa nenhuma. Depois de Castello, vieram os generais Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo. Todos amantes da ditadura, todos beijando a mão do autoritarismo e promovendo a violência contra adversários. Lacerda ainda surpreenderia tentando uma aliança estratégica com Juscelino e Goulart, mas era tarde demais. Finalmente teve seus direitos políticos surripiados com o AI-5, em dezembro de 1968. A partir daí, sua verve e estrela foram se apagando. Morreu nove anos depois. Mas, façamos justiça, Carlinhos, a exemplo de seu mais feroz inimigo Getúlio Vargas, também saiu da vida para entrar na história.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Escolha sua data

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar.Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 1)

por Fernanda Pompeu  ilustração Fernando Carvall

Todo mundo conhece a brincadeira do primeiro de abril. O mais verdadeiro dos dias, pois homenageia a mentira. Essa nossa companheira por toda a vida. A questão não é se a gente mente, mas quantas vezes e em que situações faltamos com a verdade. Por que mentimos? As respostas ocupariam uma internet inteira. A lembrança é que, na minha infância, eu adorava o primeiro de abril. Oportunidade de pregar uma peça em alguém e dizer em júbilo: "Caiu, primeiro de abril!"

Os militares e civis golpistas de 1964 também se preocuparam com a data. Eles pensaram: Não pode uma revolução aniversariar num primeiro de abril. É dar muita vantagem para a oposição. Daí, pelos vinte e quatro anos seguintes, se fixaram no 31 de março. Junto apelidaram o golpe de revolução, acrescida do adjetivo redentora. Qual o argumento? Os primeiros tanques de guerra começam a sair dos quartéis ainda na noite do 31 de março. Golpe é palavra feia. Melhor usar o substantivo revolução. Esta remete à mudança, novidade, esperança.

Até hoje estamos pagando a conta do Golpe do dia da mentira. Minha geração – eu tinha oito anos em 1964 – mergulhou numa adolescência e primeira juventude sem liberdade política. Leia-se sem direito ao voto, sem direito de se expressar com vigor e sinceridade. Submergimos num Brasil de uma única versão – a dos militares no poder. Eles diziam que queriam segurança, ordem, progresso. Conseguiram tudo isso para eles e seus amigos. Para a maioria das brasileiras e brasileiros, promoveram mordaça e eterno outono.

Os mais apressados dizem: "Já passou, já passou." Os mais jovens reclamam dos paradoxos da democracia e da caduquice do nosso sistema de representação. O slogan "Isso não me representa" ganha muros e postagens no Facebook. Muito lindo, muito bom. Pois, democracia a gente inventa todos os dias. Mas também temos que vigiá-la! O jeito fascista e truculento de tentar resolver os conflitos segue vivíssimo. Você tem alguma dúvida? O discurso de empregar a violência para derrotar a violência não é uma pegadinha de primeiro de abril.

A frase é batida, quase um clichê. Mas também é verdadeira: "O passado quando não conhecido é ameaça de volta". Mesmo que quando chega com outra máscara, outra roupa, outro corpo. A legítima lição da ditadura é uma só: nunca mais vivê-la!

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

terça-feira, 25 de março de 2014

Da vida só me tiram morto


por Fernanda Pompeu*

A frase do título é do Millôr Fernandes (1923-2012), mestre saudoso para seus leitores, eu incluidíssima. O que aprecio na prosa de Millôr é a leveza com que ele escrevia sobre qualquer assunto, mesmo acerca da assombrosa morte. Imprimir leveza num texto é trabalho de fortes. Assim definiu outro leve, também morto em 2012, o caneta de ouro Ivan Lessa: "A gente trabalha com a enxada dura da língua."

Para chegar no texto leve, coloquial, informal, sem terno e gravata, sem salto alto e espartilho, temos - além de usar a enxada - deletar da tela asperezas, rebarbas, calcificações. A leveza também exige um exercício contínuo de desaprendizagem. Desaprender a escrita burocrática, a escrita covarde, a escrita dos chatinhos e chatinhas. Leveza tem muito a ver com momento, fugacidade, passarinho. Em contrapartida, pouco ou nada a ver com certeza, posteridade, eternidade - essas três damas da ilusão mais profunda. Leveza, no texto e na vida, é a aceitação do transitório, do minúsculo, da poesia cotidiana.

Corações atentos percebem o conceito do instante poético, aquele que já nasce morrendo. Aquele que para ser experimentado e curtido exige que o observador se concentre totalmente. Só assim podemos ver poesia numa gota d´água, numa pedra solta, numa frase de rua ou numa lágrima viúva.

Quando eu e meus quatro irmãos éramos crianças, sempre ouvíamos da nossa mãe uma advertência com cara de lição. Ela dizia: "Aproveitem o momento, pois não existe a felicidade. Não existe o todo, apenas existem as partes." Eu não gostava de ouvir essas palavras, porque acreditava amarga a ideia de não existir a felicidade.

Até hoje não consigo afirmar se a felicidade existe como um todo. Tive e tenho momentos e fases felizes. Por exemplo, me sinto feliz quando ponho o ponto final em uma crônica. Ou ao saborear o primeiro café expresso do dia. Reparem, coisinhas pequenas. Quase feitas de nada.

Sinceramente ainda estou muito longe de alcançar a leveza dos mestres Millôr e Lessa. Mais longe ainda da sabedoria da minha mãe. Mas vou tentando com toda a coragem. Escrevo e verifico se a frase ficou dura. Se ficou, pego o buril da memória literária e retrabalho. Na vida, idem. Telefono para a leveza mesmo nos momentos e fases tristes.

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fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé. *Texto publicado originalmente no Mente Aberta - Yahoo. Imagem: Régine Ferrandis

quarta-feira, 12 de março de 2014

Sabichões

por Fernanda Pompeu*

Na casa da internet circulam São Google, Mister Yahoo, Wikipédias ao lado de aplicativos que brotam como capins eletrônicos. Sem esquecer as redes sociais que congregam amigos, conhecidos, amigos de amigos, conhecidos de conhecidos. Todos tendo como matéria-prima informações e contrainformações, veiculadas por palavras e imagens.

Hoje, a gente não fala mais em mundo real e mundo digital. Eles se fundiram, configurando o nosso mundo. Da revolução internet, surgiram estonteantes novidades. Dentre elas, a profusão de especialistas e comentaristas. Todos têm, ao menos, uma opinião. Não importa o tema. Como um São Jorge de lança em punho atacamos o dragão dissonante, dissidente.

Ou, ao contrário, como Pietàs emocionadas acolhemos nossa turma, nossos pares, os que pensam parecido com o que pensamos. Sempre foi assim, não é? Por isso, no passado, inventamos partidos, sindicatos, associações. Para defender interesses de uma categoria, de uma classe, de um conjunto. E também para atacar quem atrapalha, trabalha contra, aqueles a quem chamamos eles.

Mas se a essência se mantém, o resto todo muda. Somos seres mais sabidos e capazes de fuçar dados, argumentos, gostos, avaliações em mínimos cliques. Antes era bem mais fácil para governos, empresas, políticos mentirem. Apenas uma pequeníssima parcela tinha acesso a informações e poder para se contrapor. Eram os chamados subversivos da ordem, do estado das coisas.

A nova pergunta é: o que faremos com tanta sapiência? Está certo, para chegar numa minúscula rua no extenso bairro de Parelheiros, extremo sul de Sampa, basta usar um aplicativo no celular. Para descobrir o caminho que me levará para o outro lado do rio, entre as árvores, só preciso de inteligência para cruzar informações ao usar um buscador. Ficou simples e imediato sair do ponto A para o B. Do C até o Z!

O que eu ainda não consigo encontrar na internet são elementos que me ajudem a mudar a rota da minha vida. Nenhum aplicativo me explica como aplacar a tremenda saudade que sinto do meu pai. Jogo algum me habilita a derrotar os inimigos que ardem no meu peito. Não acho nenhum sistema que minimize minha crise.

Talvez no futuro. Chegará uma época em que um programa secará lágrimas? Tempo em que um verbete da wikipédia ensinará a viver a vida? Não consigo dizer que sim nem que não. Sei que um pedaço da resposta que procuro pode estar no poema escrito por uma doceira, ou até na fala espontânea de uma menina de sete anos de idade.

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fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé. *Texto publicado originalmente no Mente Aberta - Yahoo. Imagem: Régine Ferrandis a partir da obra de Nam-June Paik.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Celebridades

por Fernanda Pompeu*

Elas e eles são gente um pouco mais do que a gente. Não têm filhos, têm herdeiros. Suas casas são mais amplas, mais charmosas do que as nossas. Em geral, as mulheres são magras, os homens ricos. Ou mesmo magras e ricas, ricos e magros. São bonitos com seus dentes mais brancos do que a neve de Sochi - onde estão rolando os Jogos Olímpios de Inverno. O que dizem, mesmo quando um simplório Desejo um Brasil sem violência, merece ser publicado. Ninguém os acusa de perpetuarem obviedades.

Celebridades não sabem que eu existo, mas eu sei o que elas gostam de comer no café da manhã. Quando morrem são choradas como gente da família. É fato que sempre existiram celebridades. Mas até há pouco tempo, elas vinham associadas a um feito notável. Cruzar a nado o Canal da Mancha. Escalar a mais alta montanha do mundo. Ser mulher e ganhar um Prêmio Nobel. Ser negro e dirigir uma multinacional. Aterrissar um avião desgovernado, salvando todo mundo. Entre outros atos extraordinários.

Mas em tempos de mídias aceleradas e abundantes, na era de portais, facebook, twitter e similares, as celebridades saltam como salta meu Uno nos buracos das ruas de Sampa. Muitas vezes, a celebridade surge do planeta do nada. Alguém pergunta: mas o que mesmo essa pessoa fez ou faz? Um outro responde: sei lá, só sei que ela está bombando. Outras vezes, são celebridades por direito de sangue. Filho de um cantor sertanejo, filha de uma atriz de novela. Ou mesmo mãe de uma modelo, pai de um jogador de futebol.

Não sou ingênua. Imagino que na Idade das Cavernas houvesse também celebridades. Alguém capaz de conseguir mais comida do que a maioria. Um desenhista rupestre mais talentoso do que a média. Mesmo um sujeito que berrasse mais alto afastando os medos. Também entre as lavadeiras de rio, deve existir uma mais hábil do que as outras em molhar, enxaguar, torcer. Até entre blogueiros, há os famosos. Entre as formigas? Talvez tenha uma formiga com ares de cigarra.

Nada disso me intriga. O que me causa perplexidade é a celebridade feita de ar. A celebridade-bolha. Ou o bandido-celebridade, tão exposto pelas mídias que acabamos conhecendo detalhes de sua vida. Por exemplo, qual o último filme que ele viu. No entanto, também é fato que com a mesma velocidade que surge uma celebridade de ar, ela desaparece. O tédio acaba furando a bolha.

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fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé. *Texto publicado originalmente no Mente Aberta - Yahoo. Imagem: Régine Ferrandis sobre vestido original de Azzedine Alaïa.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Culpados


por Fernanda Pompeu

A figura do bode expiatório é tão antiga quanto a prática de encontrar um culpado - tenha ele culpa ou não - para um desgoverno, uma calamidade, ou mesmo para um desfortúnio pessoal. Culpar alguém fora de nós pode aliviar a dor, mas não resolve o problema. Digo que também há acidentes sem culpados, as fatalidades. Escorregar numa folha seca, bater com a cabeça no meio-fio e morrer. Nesse caso, de quem é a responsabilidade? Da folha? Do meio-fio? Do acidentado?

Mas voltando à expiação. Dependendo do momento político-econômico, os culpados viram sujeitos coletivos. Os judeus foram perseguidos em épocas diferentes da história. Idem os árabes que, neste começo de século, são os bodes do ocidente. Imigrantes também levam a culpa quando o desemprego aumenta. Quando tudo vai bem, são bem-vindos. Basta o barco fazer água para muita gente querer afogá-los.

No Brasil de 2014, a Copa do Mundo é candidata preferencial a bode expiatório pelas nossas (velhas) maldades. A educação vai de cinco a zero? Culpa da Copa. A saúde pública é uma doença generalizada? Culpa da Copa. Meu amor não me ama mais? Culpa da Copa! Os políticos também viraram culpados coletivos. Mais fácil jogá-los na vala comum da corrupção, do que diferenciá-los. Mais simplório se esconder atrás de uma máscara do que pôr conteúdo nos protestos.

Pois diferenciar, matizar, organizar dão trabalho. Nos obrigam a mexer com os neurônios, a buscar referências, a estudar a História do Brasil. Quantos se dispõem à reflexão? Menos trabalhoso meter a boca na Copa do Mundo, xingar a todos. Mais confortável dizer ninguém me representa. Assim como na vida pessoal, preferimos acreditar que a relação amorosa não deu certo porque o outro teve a culpa.

Se levássemos em conta que todos temos responsabilidades e que essas responsabilidades se entrecruzam, talvez não precisássemos eleger bodes expiatórios. Políticos ruins são reeleitos por eleitores ruins. Programas de baixarias na TV são mantidos por espectadores que gostam de baixarias. Então vale perguntar: como eu colaboro com a violência e a humilhação? Como eu colaboro para nossa tremenda desigualdade?

Respondendo a essas questões, posso chegar a outras perguntas: O que eu posso fazer pela não violência? Como contribuir para um Brasil educado? De que forma votarei melhor? Que habilidade posso oferecer à sociedade? Qual a taxa de densidade do meu grãozinho de areia na praia do mundo?

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fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé. *Texto publicado originalmente no Mente Aberta - Yahoo. Imagem: Régine Ferrandis sobre "O acusador" de Adèle Vergé.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Qual a sua Geni?


por Fernanda Pompeu*

Faz trinta e seis anos, Chico Buarque compôs uma canção cuja letra conta de uma mulher que já foi namorada "de tudo que é nego torto, do mangue e do cais do porto. A rainha dos detentos, das loucas, dos lazarentos, dos velhinhos sem saúde, das viúvas sem porvir." A cidade toda, ao vê-la, canta em coro um refrão: "Joga pedra na Geni! Ela é feita para apanhar! Ela é boa de cuspir! Ela dá pra qualquer um! Maldita Geni!"

Um dia aterrissa um zepelim gigante na cidade. Seu comandante ameaça explodir tudo "com dois mil canhões". Mas ao ver Geni, ele se encanta e faz a proposta: se aquela formosa dama o servir, a população estará salva. Acontece que ela se recusa a dormir com o mandabala. Diz: "Prefiro amar com os bichos." O prefeito, o bispo, o banqueiro, o zé-ninguém imploram para Geni dar para o forasteiro e resolvido. A chamam de "Bendita Geni!"

Geni domina o asco e cede. "O homem se lambuzou a noite inteira até ficar saciado, e nem bem amanhecia partiu numa nuvem fria com seu zepelim prateado." A cidade foi salva pela mulher que todos desprezavam. Ela vê a aurora surgir e, por um momento, se sente uma heroína. Melhor, uma redentora! Até ouvir o coro dos cidadãos: "Joga pedra na Geni! Joga bosta na Geni! Ela é feita para apanhar! Ela é boa de cuspir! Ela dá pra qualquer um! Maldita Geni!"

Às vezes penso nas milhares de Genis que habitam ao nosso lado. Geni não é necessariamente uma mulher. Não é necessariamente uma prostituta. Ela pode ser o garoto gordinho que sofre bullying na escola. A adolescente lésbica enfrentando uma malta de machos. A menina negra coagida a alisar seus cabelos. A travesti morta a facadas numa esquina qualquer. O homem tão pobre que nem dinheiro sobra para andar de ônibus.

Ao olhar para as Genis, reflito também nos atiradores de pedras. Sujeito individual ou coletivo que sonha em fazer do mundo sua imagem e semelhança. Aquele que é contra o casamento homossexual, porque é hétero. Aquela que é contra as cotas raciais, porque nasceu branca. Aqueles que condenam os ateus, porque são de Jesus. Aquelas que falam mal das outras, porque são do bem. Qual a razão de um comportamento diferente ou minoritário ameaçar a maioria? Quem tem direito de impingir um jeito de viver sobre um outro jeito? Eu sei! Somos ótimos juízes da vida alheia e péssimos quando se trata da nossa. Mas, talvez, a canção do Chico Buarque seja uma oportunidade para nos revisarmos e, com algum esforço, eliminarmos ideias ortodoxas, fundamentalismos sufocantes. Viva e deixe o outro viver sem julgamentos e pedras pode ser a luz do farol a nos guiar entre rochedos.

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fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé. *Texto publicado originalmente no Mente Aberta - Yahoo. Imagem: Régine Ferrandis.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Acerte na flor


por Fernanda Pompeu*

Os fãs de Steve Jobs conhecem a historinha. Em 1997, ao voltar a ser o mandachuva, depois de anos fora da Apple, a primeira decisão de Jobs foi reduzir de forma radical o prolixo portfólio de produtos da empresa, que contava com quarenta itens. Ele impôs a matriz de apenas quatro computadores. A saber, dois notebooks profissional e doméstico e dois desktops profissional e doméstico. Justificativa: enxugar para focar melhor.

Deu certo! Os computadores ficaram muito bons e a Maçã Mordida lucrou uma barbaridade. Há uma lição aí: se você empreender várias ações concomitantes, a tendência é que haja dispersão e distração. É verdade que o cérebro humano é multifacetado, multiconectado etc. Mas não é multitudo, pelo menos não ao mesmo tempo!

Quem é motorista sabe que segurar o celular, trocar estação de rádio, meter o olho no GPS são distrações - que dependendo da velocidade em que o veículo está - podem levar a desastres. Então é mentira dizer que a nossa atenção acolhe inúmeras situações. A própria palavra foco é elucidativa: você vê a floresta, mas se fixa na árvore. Enxerga o mapa-múndi, mas aponta o dedo para um país. Operamos assim.

A não ser que o seu negócio seja um supermercado ou um armarinho, a dica é diminuir itens, carretéis e alfinetes. Abduzir excessos. Essa lógica não se aplica só a produtos. Ela também abarca a prestação de serviços. Por exemplo, um só profissional escrever bem, fotografar bem, ilustrar bem é sonho gostoso, mas duvidoso. Se você insistir, provavelmente conseguirá ser um mediano redator, fotógrafo, ilustrador. Salvo raras exceções!

Para ser bom no que fazemos é necessário focar! É parecido com o processo de encontrar água debaixo da terra. Não adianta se iludir fazendo furos superficiais pelo terreno. Você tem que apostar num único ponto e cavar fundo. Os processos fluem quando a gente mergulha neles. É básico. Eu demorei pares de anos para me convencer que não era possível dar de comer a toda a minha curiosidade. Tive que deixar morrer à míngua queridos interesses para super alimentar os escolhidos. Anda funcionando.

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fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé. *Texto publicado originalmente no Mente Aberta - Yahoo. Imagem: Régine Ferrandis

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

São Jorge

por Fernanda Pompeu*

Reconheço que na maioria da vida dos santos há abnegação, sacrifício, compaixão. E, é claro, esforço e graça em amar o outro, principalmente quando esse outro são crianças, bichos, velhinhos. Os santos amaram, cada um ao seu modo, a imensa legião dos sem. Sem dinheiro, sem casa, sem país, sem alfabeto, sem direitos, sem sorte. Praticaram o chamado e idealizado amor gratuito.

Sempre me surpreendeu quando um amigo ou conhecido revelava seu santo de devoção. Filha de mãe e pai ateus, vivi minha infância sem medalhinhas ou retratinhos bentos. Mas, brasileira, sou herdeira de uma religiosidade mestiça, abundante e flexível. Daí, já na minha vida adulta, percebi que eu também precisava eleger um santo pra chamar de meu.

Por fidelidade de gênero, no princípio, procurei uma santa. Tendi para a Santa Clara, uma vez que no começo da minha de saga de trabalhadora estive envolvida com cinema, vídeo e televisão. Encontrei poética a ideia de uma santa que, em 1688, fez uma menina cega voltar a ver. Clara de Assis que se tornaria, no século XX, a padroeira dos ofícios da imagem. Mas foi uma escolha cerebral demais, não pegou no coração. Segui deserdada de santo.

Até que numa data qualquer, ouvindo uma emissora de rádio, me encantei com a voz da xará Fernanda Abreu interpretando Jorge da Capadócia, de outro Jorge, o Ben Jor: "Jorge sentou praça/ na cavalaria / Eu estou feliz / porque eu também / sou da sua companhia." A partir daí, minha memória ateia passou a recuperar milhares de imagens do lanceiro sobre um cavalo. Nos táxis, nas cozinhas, nos bares, nos barracos. O cavaleiro lutando contra o dragão da maldade.

Gostei principalmente de ele ser um santo guerreiro. Aquele que sabe que paz se conquista com luta. Pronto. Virei São Jorge. Entrei para a legião dos milhões de devotos. Ele é santo em rede, conhecido no Oriente e Ocidente, popular nas igrejas Católica, Ortodoxa, Anglicana. Aquele que conjuga força e fé, pois uma nada pode sem a outra. Se você age sem acreditar, dá em nada. Também dá em nada acreditar sem agir. Por fim, São Jorge é Ogum! "E beira-rio, beira-rio, beira-mar / o que se ganha de Ogum / só Ogum pode tirar."

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fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé. *Texto publicado originalmente no Mente Aberta - Yahoo. Imagem: Régine Ferrandis, "São Jorge lutando com o dragão", de Rafael.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Acelerador de emoções


por Fernanda Pompeu   Imagem Régine Ferrandis*

Todo mundo já ouviu falar - mesmo que de filme - de aceleradores de partículas. Máquinas que chocalham e fazem colidir em velocidades impressionantes átomos, fótons, elétrons, moléculas. Objetivo: saber mais.

A vedete entre eles é o LHC - Large Hadron Collider. Trata-se do maior acelerador de partículas do mundo, com 27 km de circunferência. Ele foi construído em um laboratório subterrâneo na fronteira franco-suíça.

O LHC, batizado informalmente de Máquina do Big Bang, alimenta o desejo de muitos cientistas em recriar as supostas condições ambientais logo após a grande explosão do Big Bang e da consequente expansão do universo.

Confesso que de física entendo uma cesta básica, mas ao ver um documentário na TV sobre esse acelerador de partículas, comecei a imaginar como seria um acelerador de emoções. Uma máquina que, acima da velocidade da luz, expandisse nossas emoções.

Que tal fazer a alegria se tornar supersônica? Aumentar as sensações de prazer e júbilo? Levar a paixão até a altura das nuvens? Melhor ainda, à altura das estrelas? Ou, mais modestamente, alongar a invasão da paz no território da nossa intimidade.

Conseguir assim reproduzir as condições ideais da felicidade. Esta que é a rainha das emoções. Plena e rara. Algumas vezes fui tão feliz que o planeta poderia ter parado, o jardim virado deserto, o mar secado e nenhuma dessas alterações haveria me perturbado.

Mas logo percebi que a ideia de um acelerador de emoções não era só ruim. Era péssima, sofrível, nota zero. Um autêntico projeto de parvo. Pois nem todas as emoções são dança, festa, regozijo. Há aquelas doídas, navalhas afiadas na alma.

Que horrível seria acelerar a nostalgia, o pranto, o luto. Já imaginou um nó na garganta se chocando com uma pontada no peito? Um soco no estômago colidindo com uma montanha de tristeza? Mais apropriado deixar os aceleradores nos laboratórios.

É menos arriscado bulir com matérias do universo. Uma vez que só o que está fora de nós, é passível de ser mensurado e etiquetado. O que colecionamos dentro é inclassificável.

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fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé. *Texto Publicado originalmente no Mente Aberta - Yahoo. Imagem: Régine Ferrandis sobre obra de Willian Kentridge.

sábado, 30 de novembro de 2013

Fácil publicar, difícil ser lido


por Fernanda Pompeu     Imagem: Régine Ferrandis

Um dos maravilhosos milagres da Nossa Senhora da Internet é possibilitar a expressão de uma multidão de escribas. Está quase todo mundo bordando palavras no Facebook, Twitter, blogs e congêneres.

A enorme vantagem de uma multidão de escribas é navegarmos na infinita leitura de pontos de vista, abordagens, opiniões. Veganos e carnívoros, devassos e evangélicos, anjos e demônios disputam olhos e atenção de leitores. Todos almejando aumentar o número de seguidores.

Mas também é fato que a redação interneteira tem seus tropeços. Às vezes, quer subir a ladeira e despenca. Outras, quer amanhecer, mas entardece. Há muita produção ruim. Talvez a facilidade espantosa de postar ideias e comentários nos leve ao afrouxamento de algumas regras básicas da comunicação.

As cinco perguntinhas O que? Quem? Como? Onde? Por quê? sumiram da maioria dos textos. Alguém nos chama para um evento, mas não diz onde é. Conta o final da história, mas omite o começo. Ou mesmo escreve o começo e fica com preguiça de desenvolver a continuação.

Ou seja, o leitor acaba órfão. Vira alguém convidado a atravessar uma avenida com os olhos vendados. Ora, quem quer isso? O leitor então foge. Vai procurar outro texto que o acolha e, principalmente, que produza sentido. Somos seres loucos por encontrar sentidos.

Não importa se a comunicação é impressa ou digital, a mensagem tem que cumprir seu ciclo de vida, tem que entregar um sentido. Ela sai da cabeça de alguém, materializa-se em frases, chega na cabeça de outro alguém. Operação simples e complexa ao mesmo tempo.

Daí quando você for escrever - de um curto parágrafo a um longo romance - lembre-se que sua matéria-prima é a língua. No nosso caso, o português-brasileiro. O idioma é a plataforma de lançamento dos foguetes levando nossas ideias, opiniões, interpretações do mundo.

Quanto mais íntimos ficarem língua e escriba, melhor será a expressão. Pois, no fundo, escrever é tirar as palavras para dançar. É levá-las para o meio do salão e fazê-las sonhar. Só assim o leitor sentirá ciúmes delas e nos seguirá.


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fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé. *Texto Publicado originalmente no Mente Aberta - Yahoo.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Quem escreve o Brasil?


por Fernanda Pompeu ilustração Fernando Carvall*

Não sou especialista em nada. Sou uma Pena de Aluguel. Passei os últimos trinta anos escrevendo roteiros, spots, slogans, textos para clientes variados. Aprendi a me apaixonar pela paixão dos outros.

Assim, já morri de amores por uma fábrica de parafusos, pontes estaiadas, bolos para festas, estatuto da criança e do adolescente, autoescola, biblioteca comunitária, casa de tintas, clube de campo, direitos humanos.

Também, é claro, escrevo crônicas dos meus temas. São as melhores de fazer, pois nelas tenho passe livre para escrevinhar o que penso e sinto. É o que hoje rabisco na coluna Mente Aberta do Yahoo e aqui neste delicioso Nota de Rodapé.

Mas mesmo não sendo doutora em nenhuma disciplina das humanas, quero dar alguns pitacos acerca do que andamos vivendo no mundo dos jornalistas e autores. Mundo em crise, acho que ninguém duvida.

O que eu mais vejo no meu Face são postagens, muitas delas desesperadas, alertando para a morte do jornalista profissional. Notícias de desrespeito social, demissões em massa, baixos salários, baixa autoestima.

No entanto, creio que não é a bonita, histórica, indispensável profissão de jornalista que está na UTI. Quem está terminal são os grandes veículos impressos de massa. Eles vão para a agonia por falência múltipla de visão.

Olha que não estou falando de modelo de negócio - esse papo não é de jornalista, é de dono de jornal. Estou falando de novos modelos de noticiar e ler notícias. Novos jeitos criados nas redes sociais e ignorados na maioria das redações.

Muitos seguem acreditando que o mundo é o mesmo do ano passado. Mas não é. Ele não é o mesmo nem da manhã de hoje. Pois tudo vai muito rápido. Corre na velocidade do curtir, comentar, compartilhar.

Mas a velocidade é uma das características da transformação. Existe outra mais acachapante: os leitores mudaram! São mais críticos e mais voláteis. Eles não cabem mais nas caixinhas de destinatários, público-alvo, consumidores.

Também são leitores sedentos de experiências e informações. Estão o tempo todo ligados. Usando seus notebooks, tablets, smartphones. Por ser tremenda a abundância de fontes e informações, são eles que escolhem o que, porque e quem ler.

Me parece que nesse ambiente, jornalistas e escribas em geral vão ter a oportunidade de florescer. Mais ainda, a oportunidade de brilhar com a matéria-prima do jornalismo - que faz algum tempo estava no limbo. Isto é, apuração correta e bom texto.

Não haverá mais a comodidade da mídia única. Nem o cargo, nem o título, nem o espaço da página, nem o compadrio darão ao jornalista a primazia de ser lido. Todo mundo vai ter que suar a caneta para conquistar o novo leitor.

*fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

É difícil abandonar


por Fernanda Pompeu ilustração Fernando Carvall*

Mesmo quando você já se convenceu que uma determinada inovação facilita sua vida. Mesmo quando você migrou para um novo ambiente de fazer as coisas. Mesmo assim, parece tão custoso deixar hábitos, procedimentos, protocolos.

Acho que é por conta do coração. Por causa de um sentimento chamado afetividade. Pois somos, numa conta grosseira, 50% razão, 50% emoção. A segunda é mais lenta e profunda do que a primeira. Para sair do lugar, ela precisa de uma experiência além-René Descartes.

Também por isso o discurso muda mais rápido do que o comportamento. O povo sempre soube no seu adágio: falar é fácil, difícil é fazer. A encrenca não está em abraçar o novo, reside em abandonar o velho.

Porque amamos o antigo. Ele foi nosso companheiro e garantiu, no passado, alguma alegria e um punhado de sucesso. Por exemplo, eu sei que usar um editor de textos é mais prático e simples do que escrever no Word. Este é pesadão e cheio de firulas que nunca precisamos.

Mas como dizer adeus? Como deletar o programa? Vem à mente tantos textos tricotados com a linha e a agulha wordianas. O afeto que se insere no processador que te ajudou a escrever aquela crônica ótima, que te auxiliou a melhorar as médias. Te encorajou a refazer as muito ruins.

A trava que segura a mudança se faz presente para lá do comezinho. Ela vai do menor para o maior. Do privado para o púbico. Pois tudo está conectado: a insistência em usar o Word e a perplexidade com os últimos protestos de rua.

A razão nos faz compreender que as recentes manifestações dos indignados brasileiros se expressam em um novo formato de reivindicar. Formato sem palanques, sem líderes, sem partidos, sem sindicatos. Uma pauta mais difusa, utópica, solta até. Chamamentos e mobilizações em redes sociais.

No entanto o afeto, ao menos para os maiores de cinquenta anos, está ligado a um outro padrão de fazer política. Ligado ao voto, à supremacia da maioria, às decisões tiradas em assembleias, à mesa de notáveis, ao fla-flu das tendências e partidos políticos.

É claro que eu compreendo o que está acontecendo. Quero dizer, mais ou menos. Uma vez que o cérebro chega antes do que a emoção. O que alimenta um sentimento? A memória, com certeza.

Recordo da minha juventude. Das passeatas, palavras de ordem, dos meus queridos e queridas da Liberdade & Luta. Lembro que acreditávamos em Trótski e no Mick Jagger. No centralismo democrático e no amor livre.

Foi tanta vida! Sufoco só de invocá-la. Mas, mulher madura, me esforço para acompanhar as inovações. Dobro a atenção para ouvir a garotada. Mas tudo o que quero, e espero, é que ela me toque o coração.

*fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Ruy & Roberto


por Fernanda Pompeu*

No intervalo de uma semana morreram dois figurões da mídia impressa. Ruy Mesquita, 88 anos, diretor do mais-que-centenário O Estado de S. Paulo, e Roberto Civita, 76 anos, dono do Grupo Abril. Nos últimos tempos, os dois chamavam minha atenção por capitanearem inegáveis declínios.

O primeiro capitão participou da criação do Jornal da Tarde. Depois de circular por quarenta e seis anos, o JT virou arquivo em 31 de outubro de 2012. Nas suas primeiras décadas, o JT se notabilizou pelas inovações gráficas, criatividade nos textos e reportagens. Também foi o jornal de capas memoráveis.

Juntava elegância e modernidade. Era como se estivesse um pouquinho na frente do seu tempo. Mas em algum momento, quando muita gente já não prestava atenção nele, se tornou um diário insignificante. Como deliciosamente dizem os andinos: "Ni chicha, ni limonada." Nas bancas, ele parecia apenas mais um jornaleco a machucar quem conhecia sua história de glória.

Como apaixonada por jornais, sempre respeitei o Ruy Mesquita, porque ele havia investido na aventura Jornal da Tarde. Também recordo que Ruy falou grosso com a censura. Refrescando a memória: os governos militares meteram censores dentro das redações. Uma gente medíocre com tesouras nas mãos.

o Roberto Civita sempre me soou mais obscuro. O filho do Victor. Ao contrário do Ruy, ele foi mais empresário do que jornalista. Igual ao seu xará Roberto Marinho (1904-2003) que curtiu a vida como imperador da Globo e pretendeu passar à história como jornalista. Afinal, como sucede com os poetas, jornalista valorizado é jornalista morto.

Voltando no tempo. Em 11 de setembro (ops!) de 1968, a revista Veja (e Leia) foi lançada de forma espetacular. Eu era menina e recordo do panfleto de lançamento sendo jogado de avião (ou talvez de helicóptero) sobre as ruas do centro do Rio. Durante muito tempo, Veja foi sinônimo de Mino Carta e de gente brilhante. Mas ultimamente Roberto Civita fazia questão de associar sua importância à Veja.

Não duvido que ele tenha tido a ideia da revista semanal etc, etc. Ele teve lá seu valor. No entanto nunca li nenhuma matéria, ou notinha, ou o que seja que ele tenha escrito. Ainda acho que quem faz uma publicação – impressa ou digital – é o trabalhador que apura, escreve, revisa, diagrama, ilustra, fotografa, edita.

Mas se o Jornal da Tarde morreu, Veja está terminal. Ela não tem 10% da qualidade e relevância que velhos leitores saborearam, quando foi uma revista importantíssima. Até corajosa nos anos ásperos da ditadura. Seus jornalistas tinham áurea de inteligentes e de compromissados com a liberdade e a democracia.

Tudo isso é finito. O cenário da imprensa está melancólico. É clima de fim de festa, hora que sobram alguns bêbados e muita bagunça para ajeitar. Um tal de juntar caquinhos para quem sabe, um dia, colá-los. Há quem enxergue na crise, oportunidades. Que sei eu? O que sinto é que Roberto e Ruy viram suas criaturas morrerem antes deles.

*fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Que eu sou eu?

por Fernanda Pompeu*

Leitores consolidados sabem que o autor é diferente do narrador. Essa maravilha permite que uma escritora use a primeira pessoa de um personagem masculino e um poeta fale em nome de um eu feminino. Para ficar num exemplo doméstico, Chico Buarque se "fez" de mulher em Tatuagem, Atrás da Porta, Olhos nos Olhos.

Quando uso o eu - em poema ou prosa - não é necessariamente a Fernanda Andrade Pompeu, nascida no Rio de Janeiro, moradora de Sampa. O eu que escrevo pode ser a dona Laurinda que fumava cachimbo e passava as anáguas da minha avó. Pode ser meu pai com vinte anos ao fazer sua carteirinha no PCB.

Quem é leitor de boa data dirá: isso é óbvio! Mas esse óbvio não é tão cristalino para os novos leitores - particularmente os jovens que xeretam histórias em blogs. Observo pelos comentários postados que a maioria acredita que autora e narradora são uma única persona.

Talvez o Facebook e o Twitter contribuam para essa confusão. Uma vez que nas redes sociais a escrita é sempre em primeira pessoa, acompanhada de uma fotinho de cada eu. Curto, comento, compartilho, escrevo. Isso cria a ilusão de que o eu que escreve é o ego.

Longe de mim dizer que as pessoas usam a primeira pessoa para contar mentiras. Elas recorrem ao eu para contar uma parte da verdade. Ou a verdade daquele momento. Pois o eu é entidade líquida, mutante. É de um jeito às oito da manhã, de outro às treze horas.

O eu que escrevemos é um eu linguagem. Eu que mostra e que esconde. Que lembra e inventa. Que esquece. Um eu tentando editar a vida. Por que não? um eu louco para consertar o que sai errado. Um eu Pinóquio.

Qual eu - da galeria dos meus - escreve essa notinha? O eu bom? O eu ruim? O eu inteligente? O eu burro? O eu feminino? O eu masculino? O mascarado, ou sem máscara? Mais sincero dizer: o eu múltiplo. Meio fictício, meio realidade. Eu escrevinhadora.

*fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

OU já era


por Fernanda Pompeu           ilustração Fernando Carvall*

Uma das melhores contribuições da cultura internet, creio, é fragilizar a dinâmica do isso ou aquilo, do fla ou flu, do feminino ou masculino, do pensar ou agir. Como se estivéssemos nos preparando para adotar comportamentos unissex, unirracias, unitudo.

Estamos começando a civilização do E. Do isto e aquilo. Leio jornal e portal. Visto saia e coturno. Uso email e sussurro no pé do ouvido. Quero desenvolvimento econômico e natureza. Tenho vida online e offline. Em suma, estamos no tudo ao mesmo tempo.

Mas não é fácil. Estou com cinquenta e sete anos. Fui educada na lógica das oposições. Do sólido ou do líquido. Da esquerda ou da direita. Do amigo ou inimigo. Do sim ou do não. De uma certa maneira, venho de um mundo confortável. No qual, você é ou não é. Ponto sem com.

Tendo sido configurada desse jeito, me custou - e ainda me custa - certo esforço para embarcar no universo líquido, onde os muros perdem vigas de sustentação. E tremem. Também não sou bobinha para acreditar que diferenças e conflitos ficaram para trás. É claro que não.

A sociedade humana segue classista, sexista, racista, injusta. O que mudou, a meu ver, são as formas de transformação. Agora, posso conjugar ativismo físico com ativismo online. Posso misturar maneiras de estar. Posso postar meu comentário (meu grafite mental) em quase-infinitos espaços.

Antes não. Para que minha expressão, opinião, protesto, aplauso fossem publicados, eu precisava de intermediários. Um veículo, um editor, um pistolão, uma panelinha. Entre o poema na gaveta e ele na página, havia uma paisagem de obstáculos. Em resumo: poucos vitoriosos para uma multidão de perdedores.

A cultura internet mexe com nossos neurônios. Ela faz a parede virar janela. Demonstra que a interação e o compartilhamento não são opções. São fatos. Impossível querer crescer, inovar, produzir, acontecer sem considerar a fala, o comentário, o medo, a coragem do outro.

O outro toca a campainha da nossa cabeça. Sem pedir licença, despeja suas necessidades, demandas e desejos. Ele acha que se expressar é direito inalienável. É um outro enxerido, caprichoso, cheio de si.

Paciência. Mas também esse cidadão digital nos lembra de um óbvio muitas vezes esquecido. Nos lembra que só existe escritor se houver leitor, mercado se houver consumidor, poema se houver sonho. Clique que segue.

Resumo da crônica: não sou eu OU ele. Sou eu E ele. Nós no líquido.


fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Sumidinhos


por Fernanda Pompeu  Ilustração Fernando Carvall

Tive que bater pernas – e anote que moro em Sampa – para achar alguém que consertasse o relógio carrilhão de propriedade da minha mãe. Para os mais jovens explico: o carrilhão soa horas e meias horas com badaladas. O exemplar foi comprado por meu bisavô Cassiano, nascido na época da carochinha, no Minuto Inglês no bairro carioca Estácio de Sá.

Por fim, em uma obscura galeria da Brigadeiro Luís Antônio, consegui um mago capaz de manipulá-lo. Um velho japonês, encurvado e seco. Numa simples olhada, disse o problema e o orçamento. Uma semana depois, mamãe sorria feliz com o som do carrilhão.

Fiquei pensando que afinal as pessoas morrem. O velho japonês não ficará para semente. E não deixará seguidores. Com a imposição de objetos cada vez mais descartáveis, relojoeiros, técnicos de máquinas de lavar e congêneres estão a meio passo da extinção.

Mas não só técnicos de coisas tangíveis correm perigo. Também os doutores da palavra entram na fila para o além. Por exemplo, está cada vez mais complicado encontrar revisores. E quando os encontramos, não nos atendem de tão assoberbados.

É claro que não me refiro a revisores de conveniência. Ou seja, a secretária que foi boa aluna em português, o colega que nunca desgruda de um livro, o autor do texto. Aliás, este último é o menos indicado. Pois por ter escrito, ele fica cegueta na hora de revisar.

Faço menção aos revisores que conhecem a língua como a quebradeira, o coco. Aquele pessoal que zela pela correção e elegância. Que manja de sintaxe e semântica. Os que saboreiam conjugar, concordar, ritmar.

Alguém lembrará: esse "desparecimento" ocorreu em massa com os bancários. Quando entraram as caixas eletrônicas e bancos onlines, a categoria murchou. Minha irmã, uma bancária aposentada, costuma dizer: "Os correntistas foram transformados em bancários. Esse é o melhor do mundo para o lucro dos banqueiros."

Alguém que goste de história dirá que sempre foi assim. Profissões desparecem e outras nascem. Citará o que ocorreu na Revolução Industrial, no século dezoito. Artesãos se tornaram operários. O feito à mão perdeu espaço para o feito à máquina.

Hoje com a revolução digital, numa aceleração espantosa, profissões e profissionais são descartados, ao mesmo tempo que centenas de ofícios surgem a cada manhã. As pessoas, notadamente as mais velhas, reagem ora com nostalgia, ora com depressão, ora com entusiasmo.

Eu estou na turma das entusiastas. Acredito que o reino da internet veio para incluir e potencializar interações. Macaqueando o slogan da loja de hamburger, amo muito tudo isso. Filha da Remington e da Olivetti tento me adaptar no máximo.

No entanto, isso não impede que me arrepie ao calcular quanto de experiência e conhecimento irão morrer. Assistimos ao velório da arte de consertar relógios, somar números, revisar palavras. É o momento em que o real esvanece para no futuro ressuscitar como mito.

*fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto

quinta-feira, 4 de abril de 2013

bom defeito


por Fernanda Pompeu*

O esplêndido roteirista de cinema Jean-Claude Carrière (1931) – que teve seus textos filmados por Buñuel, Hector Babenco, Milos Forman, Volker Schondorff, Nagisa Oshima, Jean-Luc Godard –disse em uma entrevista: "O que salva a humanidade é o tédio." E continuou mais ou menos assim "de repente as pessoas assistem a programas ruins por anos, aí um dia sentem tédio e vão fazer outra coisa."

Li isso faz muito tempo. Nunca me esqueci. As palavras do Carrière me esperançaram. Tenho certeza que o tédio salvará, numa data futura, os fãs do BBB, do Datena, do Fantástico. Aliás, o tédio já me salvou de algumas obsessões e até de algumas paixões prolongadas.

Tédio, palavra latina, tem ligação direta com desprazer e cansaço. Vale perguntar: o desprazer leva ao cansaço, ou o cansaço leva ao desprazer? Parecido com o clássico slogan da Tostines: "Vende mais porque é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais?"

Uma vez surpreendi meu sobrinho Jerônimo, quando ele tinha cinco anos, com uma expressão de inequívoco tédio. Perguntei – em que você está pensando? Ele respondeu com um suspiro longo. Daí me recordei que eu também sentia tédio quando criança.

Sensação de morte em vida. Nada a fazer, nada a esperar. Observo que o meu cachorro Chico também dá umas suspiradas de puro tédio. Me dá um tremendo desespero, pois não consigo conversar com ele. Sempre fui péssima com línguas estrangeiras.

Por sinal, nada mais difícil do que tentar entabular uma comunicação com alguém atacado de tédio. Nenhuma sílaba flui, nenhum pensamento se completa. Tenho a impressão que o poderoso tédio corta sinapses.

Mas fugir dele é possível? Creio que sim. Como? Mudando. Pode ser simples como mudar a posição da bunda na cadeira. Ou pode ser complicado como mudar de companheira ou companheiro. Ou ainda mudar de patrão, padaria, salão de beleza, partido político, escola de samba, canal de rádio.

Sentimento enjoadinho, né? Eu acreditava nisso até ler a entrevista do Carrière. Depois dela, entendi o papel altamente revolucionário do tédio. E de uma de suas manifestações físicas: o bocejo. Então agora se bocejo ao ler um livro, passo para outro. Se bocejo ao ouvir uma ideia, desconfio.

Ops! É bom parar por aqui com essas linhas. Vai que você comece a se entediar. Seria desastroso para mim. Talvez para evitar o tédio do leitor, as escrevinhadoras devam produzir textos curtos e bem variados.

*fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Imagem de abertura do texto da agência GettyImages

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O avô da história

por fernanda pompeu*

A queixa é antiga. A base se esfola, carrega o piano, beira a exaustão. Na hora do crédito e de virar tinta impressa nos livros, a massa se evapora. Se perpetuam os cabeças, os líderes, os abastados, os poderosos.

Qual era o nome do cozinheiro que alimentou Pero Vaz de Caminha enquanto ele se divertia descrevendo o Brasil para o Rei de Portugal? Qual o nome do segurança do Zumbi de Palmares que evitou que o líder quilombola fosse capturado em várias ocasiões?

Na música, costuma-se dar crédito ao segundo violino. O cinema nacional credita inclusive os motoristas. Mas os compêndios de história e os poderes padecem de uma amnésia severa.

Grupos se reúnem, organizam fóruns, trabalham muitas vezes gratuitamente, queimam pestanas, gastam salivas, põem a cara para bater. Transformam a pequena iniciativa em uma política pública. Então lá chega o governo (de qualquer partido) e se apropria do feito.

Talvez esse hábito de ressaltar seis e esconder seiscentos seja até anterior aos portugueses - que a gente adora culpar pelo ruim em nós. Talvez tenha a ver com os caciques indígenas. Ou, diriam os céticos, seja inerente ao ser humano.

Mas será? O que vemos hoje na internet é um movimento de aparições. Uma tremenda atividade de comentar, completar, discordar. Usando uma imagem gasta - mas nem por isso fraca - parece um rio pulando do leito, tomando as margens.

Outro dia, escrevi uma crônica na qual eu citava que havia estudado no Instituto La-Fayette, no Rio. Essa escola ocupava um casarão que tinha sido uma das residências do Duque de Caxias.

Eu lamentava que o casarão tivesse vindo abaixo para dar lugar a um supermercado sem nenhuma personalidade arquitetônica. Pois um leitor comentou que não se importava. Ele contou que a casa do avô dele também tinha sido derrubada. E ninguém, além dele, havia protestado.

Isso me fez pensar que ele comparava o avô dele ao Duque de Caxias. O comentarista igualava em importância um anônimo ao general da guerra Paraguai-Brasil. Um casarão histórico à casinha do avozinho.

Porém o comentário desse leitorweb não saiu da minha cabeça. Ainda está dando voltas, indo do hemisfério esquerdo para o direito. Pergunto-me: Será que estamos na boquinha de ver surgir uma nova maneira de encarar os donos da história?

Seja o que for. Sinto um cheiro de chuva no ar. Um temporal redentor? Pois o mundo é como ele é. Mas é também como o pensamos. Toda lógica social é datada. Tudo que é datado tem prazo de validade.

*fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas.
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