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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 16 de junho de 2014

Passadas de pano padrão FIFA


por Tomás Chiaverini*

As coisas nunca saem exatamente como o planejado. Fato. E às vezes a diferença entre sonho e realidade é brutal. Ou, como dizem os americanos, shit happens. Aparentemente foi esse o caso da abertura da copa do mundo. Uma grande cagada coletiva, com o perdão do termo.

Um fiasco. Felizmente, foi um fiasco parcial, não total. E é copa, é Brasil, é futebol, todo mundo já estava na terceira latinha de Itaipava, a seleção levou de virada então bola pra frente, literalmente, e vamos ver aonde vai dar essa maluquice toda.

Mas, antes de irmos adiante, seria muito interessante ver alguém assumido a bronca. Levantando a mão, admitindo o erro e simplesmente pedindo desculpas. Nenhum cristão foi capaz, por exemplo de dizer que a abertura não funcionou, sei lá, porque a cenógrafa teve um piriri em cima da hora. E pra completar o avião dos bailarinos e cantores atrasou e tiveram de improvisar com fita-crepe, tinta spray e três cantores que estavam por aqui só pra assistir o mundial. Por isso saiu aquele espetáculo mambembe, com cara de teatro de quinta série. Acontece, foi muita pressão, assumimos o erro, mas vamos tentar fazer melhor na próxima... Nada, não houve erro, foi tudo lindo, era pra ser aquela porcaria mesmo.

E nosso brilhante neurocientista Miguel Nicolelis, o santo milagreiro das sinapses rompidas? Em vez de dizer que tudo deu certo, não seria o caso de vir a público explicar que a coisa é infinitamente mais complexa do que até ele podia imaginar? Que foi um erro prometer que um paraplégico ia levantar da cadeira de rodas, andar vinte e cinco metros por conta própria e sapecar um pimba na gorduchinha biônico à lá Tony Stark? Infelizmente não conseguimos deixar tudo pronto, a coisa não funcionou, o pobre homem ficou ali pendurado num cabide humano... Nada de novo. Pra ele também não houve erro. Só da Fifa e da Globo, que não deram mais tempo pro fiasco.

E o pênalti? Fred, Felipão, vamos parar de lero-lero. Vamos sair a público, respirar fundo e admitir que foi isso mesmo. Desesperamos e apelamos pro jeitinho brasileiro. Enganar o juiz faz parte do jogo. Não é bonito, não é ético mas assim fomos forjados, e foi o jeito que encontramos pra nos mantermos ali, na luta, carregando duzentos milhões de brasileiros na ponta das chuteiras. Só nos resta, portanto, pedir as mais sinceras desculpas...

* * * * * *

Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Acelerador de emoções


por Fernanda Pompeu   Imagem Régine Ferrandis*

Todo mundo já ouviu falar - mesmo que de filme - de aceleradores de partículas. Máquinas que chocalham e fazem colidir em velocidades impressionantes átomos, fótons, elétrons, moléculas. Objetivo: saber mais.

A vedete entre eles é o LHC - Large Hadron Collider. Trata-se do maior acelerador de partículas do mundo, com 27 km de circunferência. Ele foi construído em um laboratório subterrâneo na fronteira franco-suíça.

O LHC, batizado informalmente de Máquina do Big Bang, alimenta o desejo de muitos cientistas em recriar as supostas condições ambientais logo após a grande explosão do Big Bang e da consequente expansão do universo.

Confesso que de física entendo uma cesta básica, mas ao ver um documentário na TV sobre esse acelerador de partículas, comecei a imaginar como seria um acelerador de emoções. Uma máquina que, acima da velocidade da luz, expandisse nossas emoções.

Que tal fazer a alegria se tornar supersônica? Aumentar as sensações de prazer e júbilo? Levar a paixão até a altura das nuvens? Melhor ainda, à altura das estrelas? Ou, mais modestamente, alongar a invasão da paz no território da nossa intimidade.

Conseguir assim reproduzir as condições ideais da felicidade. Esta que é a rainha das emoções. Plena e rara. Algumas vezes fui tão feliz que o planeta poderia ter parado, o jardim virado deserto, o mar secado e nenhuma dessas alterações haveria me perturbado.

Mas logo percebi que a ideia de um acelerador de emoções não era só ruim. Era péssima, sofrível, nota zero. Um autêntico projeto de parvo. Pois nem todas as emoções são dança, festa, regozijo. Há aquelas doídas, navalhas afiadas na alma.

Que horrível seria acelerar a nostalgia, o pranto, o luto. Já imaginou um nó na garganta se chocando com uma pontada no peito? Um soco no estômago colidindo com uma montanha de tristeza? Mais apropriado deixar os aceleradores nos laboratórios.

É menos arriscado bulir com matérias do universo. Uma vez que só o que está fora de nós, é passível de ser mensurado e etiquetado. O que colecionamos dentro é inclassificável.

* * * * * * *

fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé. *Texto Publicado originalmente no Mente Aberta - Yahoo. Imagem: Régine Ferrandis sobre obra de Willian Kentridge.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Os óvnis do meu pai


por Tomás Chiaverini*

Meu pai viu um objeto voador não identificado. Não só viu como fotografou. A coisa toda aconteceu na véspera do ano novo, em Ubatuba, onde ele mora há alguns anos. Era noite, ele estava no jardim e fotografava estrelas, testando uma nova teleobjetiva. Como todos os fotógrafos da era digital, clicava, depois olhava no visor LCD, ampliando as imagens para conferir os detalhes. Foi assim que viu o OVNI.

Aumentou uma das estrelas e viu que, na verdade, não era apenas uma, mas várias, agrupadas num emaranhando de luzes em forma de cesta. Tirou uma sequência de fotos. Mostrou a uma amiga para ter certeza de que não estava tresvariando. Não estava. Havia realmente uma cestinha de luzes estacionada, no céu de Ubatuba.

Meu pai está com quase setenta anos. Numa altura da vida em que o materialismo da juventude já foi bastante contaminado pelo esoterismo difuso – autodefesa frente à proximidade da morte e à assustadora possibilidade do fim, ordinário, implacável e definitivo. Mas está longe de ser um deslumbrado. Cientista de formação, é um dos homens mais cultos que conheço e ocupa boa parte do tempo pensando sobre a estranha natureza do mundo sensível. O OVNI era um belo material para esse passatempo.

As fotos tinham excelente definição e ele as ampliou ao máximo. Enviou por email para um primo meteorologista do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE). As imagens circularam por entre alguns dos maiores especialistas em fenômenos atmosféricos do país. Nenhum deles disse se tratar de um disco voador, como meu pai evidentemente ansiava (imaginem, caros leitores desocupados, registrar a prova de vida extraterrestre inteligente?). Mas nenhum deles soube explicar o fenômeno.

Não havia qualquer experimento científico na região naquela data, nenhum evento celeste especial. Tampouco havia registros de imagens semelhantes àquelas. A cesta de luzes, portanto, permanecia como um objeto voador não identificado. Meu pai foi adiante na investigação. Entrou em contato com comunidades de ufólogos e enviou as fotos para eles também. A resposta foi semelhante, ainda que com mais empolgação. Algo como: “parabéns, o senhor presenciou um fenômeno inexplicável”.

Durante meses meu pai mostrou essas imagens e repetiu a história, acrescida de justificativas e reflexões. As luzes pairavam no céu entre São Paulo e Rio de Janeiro. Duas das maiores metrópoles do planeta. E estavam ali na véspera do ano novo, momento exato em que hordas de humanos migram para o litoral num bizarro ritual de celebração cósmica. Não há duvida de que a data e o local seriam ideais para estudar os hábitos da nossa espécie.

O tempo passou. Meu pai continuou a espalhar e história. Até um fim de tarde em que resolveu fotografar um navio de cruzeiro, em frente à sua casa. O balde de água fria veio quando ele ampliou a imagem para conferir o foco. Todas as luzes do navio tinham o mesmo formato de cestinha do famigerado OVNI. Meu pai, que se sustentou a vida inteira como professor de fotografia, finalmente percebeu do que se tratava o seu querido disco voador. A nova lente tinha um defeito. O anel de foco ia um pouco além da posição “infinito” causando uma pequena distorção que borrava as luzes.

A vida alienígena não passava de uma ilusão de ótica. Ainda assim, enganou um punhado de ufólogos e alguns dos maiores cientistas do país. Moral da história: o pior cego, na verdade, é aquele que quer ver.

*Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. 

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Escatologia: a alma e o intestino

por Flávio de Carvalho Serpa*

Não é considerado educado falar sobre o que vai – ou sai – pelo aparelho digestivo, especialmente suas partes mais baixas. Mas na semana passada a revista científica Science publicou um trabalho sobre a perspectiva medicinal de transplante de microbioma. Trata-se de um eufemismo para dizer: comer merda. E o pior, cocô de terceiros.

Por mais repugnante e nojento que possa parecer os cientistas estão estudando metodicamente a fauna intestinal e fecal de pessoas que tiveram o estômago reduzido na agora corriqueira operação para emagrecimento. Descobriram que os pacientes da cirurgia não só ficam mais esbeltos, mas também que os portadores de diabete do tipo 2, aquela que aparece por excessos na alimentação, ficavam imediatamente curados dessa doença. A conclusão do minucioso trabalho é que o emagrecimento pós-operatório pode não ser consequência da cirurgia propriamente dita, mas, sim, da traumática mudança ecológica do meio ambiente intestinal.

Para replicar cientificamente o que acontece na cirurgia de by-pass estomacal, os pesquisadores usaram camundongos, pois não seria ético, nem de bom gosto, testar as hipóteses em seres humanos, naturalmente avessos ao cheiro e consistência nojenta dos excrementos fecais. Pegaram uma dupla de ratos gordos e fizeram o seguinte. No primeiro realizaram uma cirurgia de by-pass e esperaram o previsto emagrecimento.

Então transplantaram a fauna intestinal – o cocô – para o segundo gorducho, que não tinha sido operado. Ele também emagreceu.

A evidência de que esse procedimento realmente funciona num amplo espectro de doenças é que as vítimas de diarreia crônica após o tratamento com antibióticos fortes (que destrói indiscriminadamente a fauna intestinal) já pode ser experimentado aqui em São Paulo, como descreve uma reportagem publicada sábado passado no jornal Estado de S. Paulo. É meio bizarro, se não surreal, que o doente tenha de ir num dos mais caros e elitista hospitais da cidade para ser administrado com fezes de terceiros.

Já se sabe que nós humanos somos uma colônia de micróbios. Na verdade carregamos dez vezes mais intrusos dos que células de puro sangue realmente humanas. Ou seja, somos um meio-ambiente muito confortável para milhares de tipos de micróbios. Além da presença física, os micróbios têm seus próprios programas genéticos em funcionamento, o que certamente causa interferência no nosso genoma puro sangue. Eles podem, teoricamente, afetar até mesmo a saúde mental humana.

Acontece que nossos intestinos mostram muito mais atividade de receptores de serotonina do que no cérebro. A serotonina é o neurotransmissor implicado nas crises de depressão e quase todos os antidepressivos modernos agem bloqueando a recaptura dessa substância pelas células, o que aumenta a quantidade delas navegando no organismo a nível celular. Não se sabe o que a serotonina faz nos intestinos, mas no cérebro ela torna as pessoas menos deprimidas e mais felizes.

Recapitulando a história da evolução dos seres vivos multicelulares constatamos que as mais primitivas criaturas eram basicamente tubos por onde entravam líquidos nutritivos do ambiente e de onde saiam os dejetos do metabolismo. Essas criaturas deviam se sentir felizes quando passavam petiscos. Talvez a função básica dos sistemas sensoriais e de prazer nesses seres primordiais tenha sido apenas acessória para o básico, que era absorver nutrientes.

Portanto a medicina está no limiar de reabilitar o estigma e fama a que estavam relegados esses baixos órgãos, em detrimento do supervalorizado cérebro, que foi considerado sede das mais sublimes faculdades humanas e até mesmo habitat da alma transcendental.

OS: A palavra escatologia tanto significa o estudo do apocalipse, do destino final e o arrebatamento da alma humana como também o estudo das fezes.

*Flávio de Carvalho Serpa, jornalista, especial para o Nota de Rodapé. Conheça seu blog.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Estrelas do IgNobel

Desde 1991 esperada com a mesma ansiedade do Nobel
Passei a noite da quinta-feira assistindo ao vivo pelo YouTube, diretamente do auditório da universidade de Harvard, à cerimônia de gala do prêmio IgNobel. Temi um pouco por minha sanidade mental ao constatar que apenas 480 pessoas no planeta estavam ligadas no YouTube no momento do grande evento, mas não me arrependi.

A festa é a culminação dos trabalhos da organização Pesquisa Improvável, com sede em Harvard, que passa o ano analisando mais de 20 mil revistas científicas para escolher os mais bizarros e, aparentemente, inúteis papers acadêmicos até culminar na escolha dos dez laureados da cerimônia.

A organização diz que são escolhidos trabalhos que primeiro fazem rir e depois pensar. Desde 1991, quando foi feita a primeira premiação, a lista é aguardada por cientistas de todo mundo com a mesma ansiedade do prêmio Nobel sueco. E os premiados de 2012 não decepcionaram.

Emmanuel Ben-Soussan e Michel Antonietti (França), premiados na categoria Medicina, detalharam num trabalho publicado os procedimentos preventivos de uma colonoscopia, para evitar os riscos de explosões de gases durante o exame, quando se usam eletrodos ou laser de cauterização nas entranhas intestinais, que podem estar empestiadas de hidrogênio e metano altamente inflamáveis, especialmente se as dobras do órgão contiverem matéria fecal bloqueando a vazão.

Em Neurociência o prêmio foi para Craig Bennett e equipe (EUA) por um detalhado trabalho de ressonância nuclear magnética mostrando como detectar atividade cerebral num salmão morto.

O prêmio de literatura foi para Controladoria Geral do Governo dos EUA que publicou um inacreditável relatório acerca de relatórios sobre relatórios que recomenda a preparação de um relatório sobre o relatório acerca de relatórios sobre relatórios. Esse foi o único premiado que não achou a menor graça e não mandou o burocrata responsável para a cerimônia e nem respondeu aos pedidos de comentários por parte da imprensa.
 O rabo de cavalo de Raymond Goldstein (Reuters)

A Física, a rainha das ciências de Newton e Einstein, foi para Joseph Keller (EUA), Raymond Goldstein (Inglaterra) e equipe, pelos complicados cálculos de equilíbrios de forças que atuam dinamicamente num rabo-de-cavalo, numa equação que tem até um coeficiente batizado de Número de Rapunzel, mostrando que eles balançam como um pêndulo harmonicamente na lateral, e não para cima e para baixo como esperaria o senso comum.

Em anatomia o troféu foi para Frans de Waal e Jennifer Pokorny (EUA), que descobriram e provaram que os chimpanzés são capazes reconhecer uns aos outros, sem olharem suas caras, por meio de fotografias dos seus traseiros.

A cerimônia, evidentemente, foi hilária. Para contrastar, nada menos que sete prêmios Nobel de verdade compareceram ao palco e participaram da entrega dos troféus, que nesse ano foi uma ampulheta de areia que simbolizava os grãos do Universo.

Também foi apresentada uma ópera sobre o design inteligente do cosmo, uma sátira ao criacionismo. Só que o design no caso era um estilista de vestido que tentava satisfazer uma cliente fútil em busca da roupa universal. A dupla consulta astrofísicos cantantes para obter e receita.

O palco era um caos: varredores que recebiam elogios pela atuação nos bastidores e que tinham muito trabalho limpando a chuva de aviões de papel disparados pela platéia. A iluminação era provida por lanterninhas de roupa prateada que substituíam os holofotes, num estilo meio punk e vanguardista.

Tendo gargalhado bastante ao longo de quase duas horas, ao final, como exorta a organização, comecei a pensar. Lembrei que cientistas, aparentemente pessoas sérias, se dedicam a paródias mais frequentemente do que imaginam as pessoas leigas.

Fiz uma resenha sobre a mais clássica delas, retratada no livro Fausto em Copenhague (quem se interessar está em http://flaviodecarvalho.multiply.com/reviews/item/21).

Fausto em Copenhague gira em torno de uma troça. Em 1932, todo mundo na Alemanha promovia comemorações do centenário de nascimento de Wolfgang Goethe, e os estudantes resolveram fazer também sua paródia de Fausto, a obra máxima do gênio alemão.

Era apenas uma peça estudantil que foi encenada ao fim dos trabalhos, para relaxar, na mansão em Copenhague que abrigava o instituto de física teórica no térreo e a residência familiar de Bohr no segundo piso.

Gino Segrè, o autor do livro, inspirou-se no script original da peça, traduzida e guardada pelo russo George Gamow (a quem o livro é dedicado). Caricaturista com certo talento, Gamow rabiscou as charges que ilustram a peça, reproduzidas na obra de Segrè.

O bondoso Deus da peça era um estudante mascarado com traços caricaturais do patriarca da mecânica quântica, Niels Bohr, que assistiu à chacota na primeira fila, no auge do seu prestígio aos 47 anos. Mefistófeles, o demônio, era encarnado pelo terrível Wolfgang Pauli.

Albert Einstein aparecia como um personagem que não existe na obra de Goethe: o rei das pulgas, que atormentava toda a corte científica com suas tentativas de unificar a física com uma teoria geral de campos (que nunca deu certo) e as insistentes críticas à mecânica quântica. O futuro Nobel Paul Dirac, uma pessoa introvertida, era o pianista do fundo musical.

Portanto, que cientistas sérios se entreguem a presepadas desse tipo não é muito surpreendente. Mas o que pensei mesmo depois de rir muito foi que a premiação está mudando seu caráter. Nos primeiros anos a maioria dos escolhidos ficava constrangida e poucos se arriscavam a comparecer ao auditório em Harvard. Mas com o passar dos anos os concorrentes foram perdendo a vergonha e até passam a cobiçar a láurea.

Especialmente depois que um dos premiados pelo IgNobel também ganhar o Nobel de verdade em 2010. Esse feito é do holandês Andre Geim que ganhou o Ignobel por fazer levitar sapos usando magnetos supercondutores e que o Nobel pela invenção do grafeno.

 "Spotlight Humano" lança uma luz sobre o orador Kirshner
O fato do IgNobel agora ser também cobiçado, levanta a suspeita de esteja ocorrendo trapaças e fraudes na disputa desse prestigioso prêmio. Um dos sintomas disso foi a presença de vários ignóbeis dos anos anteriores marcando presença agora todo ano no palco, como a russa inventora de um sutiã que se transforma em máscara respiratória e a do médico que ganhou no ano passado com o trabalho sobre cócegas no esfíncter para curar soluços.

O ganhador do prêmio de Neurociência de 2012 confessou que estava cometendo uma espécie de fraude “bem intencionada” pois sabia que salmão morto não tem atividade cerebral significativa. Diz ele que fez isso para denunciar a inundação de trabalhos com neuroimagens que não provam nada. Foi premeditado, portanto. Isso não desvirtuaria o sentido original da premiação? Talvez não.

Em 1996, o físico Alan Sokal submeteu um texto à revista Social Text, a principal publicação da área de estudos sociais pós-modernistas dos EUA. Tratava-se de um amontoado de coisas sem sentido, mas com uma linguagem esotérica e impenetrável, com o título “Transgredindo limites: em direção a uma hermenêutica da gravidade quântica”.

O artigo, como explicou o próprio Sokal, era “um pastiche de gírias esquerdistas, referências bajuladoras, citações grandiosas e referências nonsense estruturadas ao redor de frases tolas de acadêmicos pós-modernos” – aqueles acadêmicos que acham que tudo na vida são construções culturais.

Por causa do escândalo, quando o trote foi revelado, a revista Social Text, desmoralizada, foi fechada. O pensamento final, depois de rir muito, é, portanto, que a galhofa tem seu lugar importante na ciência e é aceita com alegria e bom humor. Infelizmente o mesmo não acontece com outra instituição que ao longo de milênios se julga ter o monopólio das revelações e do conhecimento, a religião. Para eles simples ironias e brincadeiras com seus ídolos ainda continua sendo punida com a morte e a violência troglodita.

 

Flávio de Carvalho Serpa, jornalista, especial para o Nota de Rodapé

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A "neurogênesis" dos taxistas londrinos

O estudo do cérebro dos taxistas virou especialidade da
ciência neurológica.
Taxistas da cidade de Londres formam a mais curiosa categoria profissional, sem igual em nenhuma cidade do mundo. Conseguir uma licença para dirigir um táxi na capital britânica é tão difícil quanto passar num vestibular para universidade.

Os testes e treinamentos levam até três a quatro anos antes dos exames finais. Quase a metade dos candidatos é rejeitada. Os aprovados devem saber de cor a localização de aproximadamente 25 mil ruas e 20 mil pontos importantes de referência, como monumentos, parques, museus e hotéis.

Evidentemente nenhum barbeiro ou displicente com as leis do trânsito são sumariamente eliminados. Ficha limpa também é essencial.

Mas o mais curioso é que o estudo do cérebro dos taxistas londrinos tornou-se uma importante especialidade de ciência neurológica, que não pode ser feita rigorosamente em nenhum outro lugar do mundo.

Um longo estudo publicado na edição de 8 de dezembro da revista Current Biology mostra que o longo aprendizado e perícia dos taxistas londrinos muda a estrutura de seus cérebros, em comparação com a população em geral e dos candidatos que tomaram bomba nos exames para licença.

“Os resultados são animadores para as práticas de aprendizado contínuo e também da reabilitação após acidentes cerebrais”, diz Eleanor Maguire da University College London.

O estudo envolveu tomografia cerebral comparativa de muitos voluntários taxistas, reprovados e pessoas comuns.

Maguire descobriu que os taxistas apresentaram mais massa cinzenta na parte posterior da região cerebral do hipocampo, onde, acredita-se, reside o principal centro de memória definitiva da mente. O hipocampo é essencial para a navegação espacial e memória tanto em humanos como em outros animais.

A pesquisa mostrou que no início do treinamento para obter a licença os cérebros eram iguais em todas as categorias. Mas três anos depois os candidatos aprovados mostravam substanciais mudanças no hipocampo.

Contrariando um dogma tradicional da neurociência, de que adultos não desenvolvem novos neurônios, o estudo mostrou que a região do hipocampo pode, além de recrutar mais neurônios, criar novos, um fenômeno chamado “neurogênesis”.

Outra importância do estudo é que as medicações antidepressivas, baseados num mecanismo de recaptura de serotonina, também fazem nascer novos neurônios, mas de maneira relativamente rápida ( poucos meses), mas à custa de desagradáveis efeitos colaterais.

O estudo reforça a evidência para o tratamento de depressão por técnicas terapêuticas complementares às medicações da psiquiatria.

Flávio de Carvalho Serpa, jornalista, especial para o NR

terça-feira, 7 de junho de 2011

Do xadrez ao besteirol

Na premiação que é considerada a mais importante da internet, vá lá, o Oscar da Internet, apesar de eu não gostar do termo, a Webby Awards – em sua 15º edição – elegeu o Watson como a personalidade do ano.

Só que o Watson não é um ser humano. É um computador – um supercomputador – da IBM. O sistema foi desenvolvido pela equipe de inteligência artificial da empresa.

Abaixo, reproduzo um texto do Flávio de Carvalho Serpa, publicado recentemente na Retrato do Brasil, contando os feitos dessa máquina.

Do xadrez ao besteirol 

O Watson é um computador da IBM que concorreu no Jeopardy, um programa muito popular de perguntas da TV norte-americana no qual os participantes devem apertar rapidamente um botão caso saibam a resposta correta.

Na disputa com humanos, Watson levou a melhor
No Brasil, um show similar, mas só com pessoas, foi apresentado na década de 1950, O céu é o limite, oferecendo prêmios em dinheiro. O Watson massacrou os concorrentes humanos, todos campeões dos anos anteriores, respondendo coisas de conhecimento geral e trivialidades. Anos antes, em 1997, o Deep Blue, também outro computador da IBM, já havia derrotado o campeão mundial de xadrez, Garry Kasparov. 

A diferença, no caso da derrota de Kasparov, é que no xadrez as regras são lógicas e todas as táticas estavam carregadas na memória do computador, dando-lhe vantagem. Já Watson respondeu sobre banalidades da cultura, o que implicou programação muito mais complicada e um "comportamento" mais perto do humano.

Watson é formado por 90 servidores com 2.880 processadores. Ele não está conectado ao Google, o que só atrapalharia. Em vez disso, tem na sua memória milhões de documentos selecionados (sem o lixo do Google), dicionários, enciclopédias e livros de conhecimentos triviais, de histórias de costumes a futilidades em geral. Baseado na pergunta, Watson processa em milésimos de segundos milhões de dados em busca de similaridades, com um algoritmo que indica a porcentagem de probabilidade do que poderia ser a resposta correta. No programa Watson, conquistou 77.144 pontos, contra 24.000 do segundo e 21.600 do terceiro colocado.

Dias depois, Watson teve uma recaída e perdeu para um concorrente veterano, que há 35 anos ganhou o concurso cinco vezes consecutivas. Rush Holt, um político profissional que atualmente é deputado republicano, acertou, por exemplo, que hipofobia é medo de cavalos, informação que Watson não encontrou na sua memória. Na etapa seguinte, da qual participaram outros políticos, no entanto, Watson ganhou no combinado, fazendo 40.300 pontos contra 30.000 da soma dos humanos

Na pergunta “O que é o amor?”, Watson arrancou gargalhadas da plateia com a resposta vencedora: “É uma insanidade temporária curável com o casamento”. Ele achou essa resposta no livro Dicionário do diabo, de Ambroise Bierce. Por outro lado, ele confundiu a maluquete Paris Hilton com o prédio da rede hoteleira na capital francesa.

O quase chamuscado Holt evitou vangloriar-se da vitória ao ser aplaudido na Câmara dos Deputados. Sabiamente, ele alertou: “Estou orgulhoso, mas é crucial a educação em matemática e ciências para o futuro da nação”.

O representante da IBM, citado pela revista Time, completou o raciocínio dizendo que a tecnologia de Watson era um salto, e não apenas um exercício de trivialidades. Para ele e a IBM, o computador é uma poderosa ferramenta para ajudar na decisão de questões complicadas que envolvam o processamento de milhões de dados em tempo de trabalho muito curto, como exigem situações de emergência.

Fora da ribalta, Watson já arrumou emprego em uma área muito mais séria. Com milhões de diagnósticos e sintomas médicos em sua memória, ele vai estrear na área médica, prometendo ser mais eficiente – no que diz respeito a diagnóstico de doenças raras – que o Dr. House do seriado de TV. Brevemente, via Internet, ele vai estar nas melhores salas de emergências dos melhores hospitais. Afinal, o trunfo de um bom médico é sua longa experiência, mas todos eles têm memória limitada. A combinação de inteligência, experiência e especialização de milhares de médicos é, certamente, muito mais poderosa.
O representante da IBM disse que a tecnologia de Watson
era um salto, e não apenas um exercício de trivialidades

Também os grandes escritórios de advocacia dos EUA já estão de barbas de molho, segundo anuncia o veterano jornalista de tecnologia John Markoff. Ele conta, num artigo no New York Times, que exércitos de juristas especializados em pesquisas de legislação, uma profissão muito bem paga, estão com os dias contados, prontos para se aposentar com a chegada de um software relativamente barato.

Em janeiro, a empresa especializada Blackstone Discovery, de Palo Alto, Califórnia, analisou e classificou em poucas horas, por 100 mil dólares um milhão e meio de documentos relevantes num caso, na ordem de importância. Anos antes, em 1978, registra o jornalista, perícia semelhante gastou meses, com advogados trabalhando em regime de horas extras a um custo de mais de 2 milhões de dólares. Calcula-se que a busca eletrônica com algoritmos tenha reduzido a necessidade para apenas um jurista pericial em casos que antes empatavam nada menos que 500 deles.

Para piorar, empresas que contrataram esses serviços resolveram testar o desempenho das enormes equipes desde a década de 1980, usando a mesma documentação disponível. Foi um desastre. Apenas 60% do trabalho foram considerados precisos e acurados. “Pense em quanto dinheiro foi gasto, com resultados pouco melhores do que decidir no cara ou coroa”, comentou um analista no New York Times. 

A Blackstone usa algoritmos de inteligência artificial (IA) tão avançados que não se baseiam na busca de palavras-chave, como faz o Google. E pode deduzir padrões de comportamentos que escapariam aos analistas humanos.
Antigamente, o medo de a automação causar desemprego limitava-se aos trabalhos repetitivos e mecânicos, de baixa qualificação, mas agora a ameaça espalha-se por todas as gamas de profissões. No setor financeiro de Wall Street, por exemplo, a quase totalidade de decisões de compras e vendas de papéis já e feita por supercomputadores em frações de segundo ao longo de todo o pregão. Não há humanos para concorrer com eles.

Trata-se de uma tendência para a qual a humanidade ainda não tem um plano B, nem mesmo um A. Segundo um desses visionários, Marshall Brain, o criador do popular site HowStuffWorks (Como tudo Funciona, no Brasil), existem fortes razões para temer a esperada proliferação dessas máquinas. “Em 2030, eles vão ocupar quase a metade dos empregos nos EUA”, previu Marshall para a revista Business Week. Eles já são considerados mais eficientes em cargos de decisão de RH (Recursos Humanos), pois não se deixam levar por emoções baratas e subjetivas dentro das empresas.

Markoff, o jornalista do New York Times, reuniu opiniões pouco esperançosas sobre essa questão. David Autor, professor de economia no MIT (Massachusetts Institute of Technology) é piedoso, mas pessimista. “Não há razão para acreditar que a tecnologia aumente o desemprego. A longo prazo, vamos inventar coisas para as pessoas fazerem”. O mais grave, especula ele, “é se as mudanças tecnológicas vão levar a empregos melhores. A resposta é não”.

Nos próximos dez anos, além do reconhecimento da fala, as máquinas de gerações sucessoras de Watson e Deep Blue vão entender o que está sendo dito pelos humanos – ou então de simular um entendimento e respostas capazes de ludibriar até os mais inteligentes humanos. As novas gerações de programas de computador baseadas em Inteligência Artificial vão, no mínimo, se tornar mestres da dissimulação e do fingimento. 

A vitória de Watson não se deve apenas ao esmagador poder computacional de supercomputadores de processar dados e documentos, e sim ao projeto de Inteligência Artificial na área de software. Há bastante tempo, os programadores de IA abandonaram as tentativas de produzir programas que imitassem a inteligência do cérebro humano. Até porque ela é imprecisa e tremendamente inadequada para muitas coisas. A IBM considera o Watson um feito de engenharia, mais do que iluminações de processos cognitivos. 

Mesmo que nas próximas décadas os computadores não consigam ainda pensar como o cérebro humano, eles já viraram grandes mestres na arte da dissimulação, capazes de enganar a maioria dos humanos. 

Infelizmente, o cérebro humano ainda não sabe como lidar com esse desafio e nem quais são as consequências dessa evolução. A menos que se acredite nos roteiros de cinema da série de exterminadores do futuro, num mundo em que as máquinas tomaram o poder. Há pelo menos um consolo: provavelmente as máquinas não vão querer nos comer.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O que E=Mc2 tem a ver com Cameron Diaz?

Ao ler que a atriz Cameron Diaz vem passar o Carnaval do Rio me lembrei que o físico David Bodanis dedicou a ela sua obra E=Mc2. Acontece que numa entrevista a uma revista de futricas de celebridades, ao ser perguntada sobre o que ela mais desejaria entender, a loira respondeu: “Queria saber o que E=Mc2 realmente significa”. Bodanis nunca soube se ela estava troçando, mas publicou o trecho da entrevista no seu livro.
Procurei no Google para ver se isso teve algum desdobramento mas não achei. Quem sabe se algum jornalista que vai cobrir o camarote de celebridades faria o favor de perguntar a ela como se sentiu ao ser citada num livro sobre Relatividade e se já leu o livro de Bodanis e, finalmente, se chegou a entender o que significa a famosa equação de Albert Einstein. Pelo menos ela revelou uma curiosidade saudável. Outra estrela, Ivete Sangalo, comenteu o papelão de dizer numa entrevista que não gostava de ler. Podia ter ficado de boca fechada.

Flávio de Carvalho Serpa, jornalista

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Farofa de tanajura salva planeta da fome e do efeito estufa

No mês passado o planeta passou da marca de 7 bilhões de bocas para alimentar. O fantasma malthusiano, segundo o qual a população cresceria mais rapidamente que a capacidade de produzir alimento, não assusta mais tanta gente desde que a tecnologia e as ciências agrícolas progrediram espetacularmente nos dois século passado. Mas agora aparece uma ameaça pior. Maior produção de alimento para mais gente para comer exerce uma pressão tremenda no meio ambiente, agravando a praga do aquecimento global. Isso, por sua vez, muda o clima e pode produzir quebras catastróficas na agricultura atual. O fantasma malthusiano está de volta. Se todo chinês, indiano ou africano em geral resolver comer como o americano vai ser o fim de tudo.
O preparo da Tanajura
(Foto: Lalo de Almeida/The New York Times)
Rebanhos crescentes de bovinos e suínos para alimentar os novos não-miseráveis podem por tudo a perder. Porcos e bois são grandes produtores de gases do efeito estufa, como o CO2 e metano. Pelo menos 20% de toda a carga de gases estufa são produzidos por rebanhos, segundo dados da FAO, a organização de comida e agricultura da ONU.
O blog ScienceNow da revista Science, da Associação Americana pelo Progresso da Ciência, acaba de divulgar um estudo que promete atenuar ambos os problemas: dar mais comida à humanidade e diminuir o efeito estufa. Como? Substituindo a alimentação tradicional do mundo moderno por um cardápio que vem sendo saboreado há milhares de anos por povos primitivos. Comendo insetos, por mais nojento que isso possa parecer.

 - Receita de Farofa de Tanajura 

Dennis Oonincx, entomologista da Universidade de Wageningen University, na Holanda, contabilizou que insetos ganham peso protéico mais rápido e eficientemente que os mamíferos e também emitem muito menos gases estufa. O vermes de farinha, que viram pequenos besouros, por exemplo, produzem apenas 1% do valor emitido em gases estufas para igual quantidade de proteínas, exaladas por bovinos. O estudo, publicado na edição de 29 de dezembro da PLos ONE, destaca também o valor do grilos, os quais, segundo Onnincx, além de saborosos são naturalmente crocantes. A ideia, se aceita, pode ganhar popularidade. Na semana passada um repórter do New York Times produziu um vídeo em cidades do interior do Brasil que deliciam farofa de tanajura, uma iguaria que faz parte do cardápio indígena há seculos.



Flávio de Carvalho Serpa, jornalista, especial para o Nota de Rodapé

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O petróleo vem do plástico, certo?

Certo! Bom, antes não era assim, mas agora é. Faz um ano já, quer dizer, mais. Uma empresa japonesa Blest criou uma maquininha que transforma embalagens, tampinhas e garrafas plásticas em derivados de petróleo. É como se fosse uma panela de pressão, só que, em vez de feijão, você coloca plástico. É só botar a quantidade recomendada pelos fabricantes, fechar bem a tampa, ligar na tomada, esperar um pouquinho e - como diria Chaves - zaz!O aparelho vai esquentar e derreter tudo ali dentro. O gás tóxico resultante do processo é levado para um reservatório de água acoplado ao equipamento, resfriando-se instantaneamente, sem soltar aquele cheiro desagradável. Parece milagre, não? Veja o vídeo:




Um quilo de plástico se transforma em um litro de óleo, com o gasto energético de 1 kilowatt. Bom, na verdade não é todo tipo de plástico que pode ser colocado dentro da máquina. E também não é todo tipo de derivado de petróleo que resulta do processo. Dá para derreter e transformar polipropileno, polistireno e polietileno. Garrafa PET, infelizmente, não rola. O óleo que sai da panela vem em estado bruto. Isso quer dizer que, para colocar no tanque do carro ou da moto, teria que refinar antes. Mas, ainda assim, pega fogo que é uma beleza: dá pra acender churrasqueira e fazer funcionar um gerador, por exemplo.
O presidente da empresa, Akinori Ito, deu uma entrevista para o saite da UN University sobre o assunto -- UN é de Nações Unidas. E disse que a grande importância de sua invenção é que, reconvertendo plástico em petróleo, a gente não corre mais o risco de que esse plástico seja queimado e lance um monte de porcaria na atmosfera.
“If we burn the plastic, we generate toxins and a large amount of CO2. If we convert it into oil, we save CO2 and at the same time increase people’s awareness about the value of plastic garbage.”
O sr. Ito diz que fez a máquina para que as pessoas possam usar em casa. Por isso é tão pequena e manejável. Segundo o inventor, seu sonho é que, um dia, na melhor tradição da reciclagem, nossos lares se transformem nos futuros campos de petróleo e vice-versa. Então não será mais necessário perfurar poços pelo mundo afora, muito menos nas florestas tropicais.
Hoje, porém, o preço da máquina ainda é um pouco salgado: a versão mais simples, essa que aparece no vídeo, custa 9 mil dólares. Mas, como toda novidade tecnológica que surge por aí, a tendência é baratear. E a empresa garante que está trabalhando para que todos possam derreter plástico e transformá-lo em óleo ao invés de jogá-lo no lixo.
Mais informação sobre a invenção japonesa você encontra neste saite aqui: Our World 2.0, mantido pela UN University. Lá você também encontra uma série de vídeos e informação sobre outros projetos espalhados pelo mundo que tantam ajudar a resolver os problemas do clima, petróleo, alimentação e biodiversidade. Vale a pena, mas está em inglês.

Tadeu Breda é colunista do Nota de Rodapé e vive em Latitude Sul.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Cooperação suíço-brasileira contra o mal de Parkinson

O ministro da Educação, Fernando Haddad, assina com Didier Burkhalter, conselheiro federal do governo suíço, na próxima segunda feira, 30, às 9h, na sala da Congregação da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), um acordo de colaboração científica para o desenvolvimento de novos estudos sobre o mal de Parkinson e outras doenças neurodegenerativas, visando uma compreensão mais profunda desses graves problemas de saúde, seu controle e tratamento. A contrapartida suíça no acordo envolve a instalação de um supercomputador na Associação Alberto Santos Dumont para Apoio à Pesquisa (AASDAP), organização brasileira presidida pelo neurocientista Miguel Nicolelis.
A máquina, um supercomputador BlueGene/L, da IBM com capacidade de 22 teraflops que em sua configuração final será capaz de processar 46 trilhões de operações por segundo, veio da Escola Politécnica Federal de Lausanne (EPFL). A propósito, quando o acordo de cooperação técnica entre os dois países foi definido, no final do ano passado, a EPFL também comunicou a criação da Cátedra em Neuroengenharia EPFL-NATAL, concedida a Miguel Nicolelis pela Fundação Família Sandoz, para assegurar o avanço e a aceleração dos estudos de moléstias neurodegenerativas em instituições de pesquisa geridas pela AASDAP no Rio Grande do Norte. Inclui-se aí o Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS) e os novos centros de pesquisa que vão fazer parte do Campus do Cérebro, em Macaíba, já em obras a essa altura. Nesse campus está sendo erguido o data center que abrigará a super máquina, já batizada de 14 BIS-21.
Na cerimônia de assinatura do acordo de cooperação Brasil-Suíça, na próxima segunda, Nicolelis terá a oportunidade de explicar detalhes da utilização do 14 BIS-21 no país. O neurocientista prevê múltiplos usos para o supercomputador, enquanto ele próprio se desdobra entre as atividades de professor e pesquisador na Universidade Duke, nos Estados Unidos – trabalhando na fronteira da neurociência, em especial na interface cérebro-máquina -, e as exigências da implantação de vários projetos vinculados à criação de centros de pesquisa e de educação científica integral para crianças e jovens no Brasil.
O 14 BIS-21 poderá superpor ao trabalho com dados de neurociência tarefas em
muitas outras áreas do conhecimento. Além de processar e analisar informações em tempo real da atividade elétrica, magnética e metabólica do cérebro humano, ele tem capacidade para simular e analisar modelos climáticos; realizar a análise estatística de grandes bancos de dados genômicos, proteômicos e metabolômicos; efetuar a análise geológica para prospecção de petróleo; realizar modelagem matemática em biologia molecular, genética, física de alta energia e química; e ainda pode servir para o desenvolvimento de uma plataforma computacional voltada para a educação científica.

Informações enviadas pela assessoria de Miguel Nicolelis.

domingo, 2 de maio de 2010

Evolução na Consciência e Direito Animal


Nesta segunda-feira, 3 de maio, debate na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (todos os detalhes no convite) sobre "nós e os bichos, consciência e direitos". Um dos palestrantes é Sidarta Ribeiro, neurocientista e co-fundador do IINN-ELS que fica em Natal, Rio Grande do Norte. O Instituto de Neurociência também é conduzido por Miguel Nicolelis de quem já falamos aqui "Cientista da Esperança". Aliás, nesta terça-feira, 4, Nicolelis assume como novo membro da Academia Brasileira de Ciências.

sábado, 31 de outubro de 2009

Mirna, 14, joia rara

Antonio, soldador, e Dilce, confeiteira, moram em Sertãozinho, interior de São Paulo. Há dois anos o casal reside com mais de cem famílias no assentamento sem-teto que ocupa um antigo galpão do INSS e vai virar moradia popular. Desempregados, vivem de “bicos”. “Ou a gente voltava pra nossa terra no Maranhão, ou ficava aqui”, explica Dilce, que apesar do sufoco está animada com tempos melhores. Um dos motivos é Mirna, 14 anos, uma das filhas, de voz doce e fala articulada, que levanta às 5h30 da manhã para tomar o ônibus às 6h20 até a escola estadual onde cursa a 8ª série. “Sempre foi muito estudiosa e esforçada. Quer ser engenheira mecatrônica”, diz a mãe, que ficou surpresa com o desejo da filha.
Mirna representou São Paulo na III Conferência Nacional Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente em Brasília, em 2008. Antes foi preciso vencer centenas de adolescentes na seleção regional e estadual com dois projetos: a horta comunitária e a casa de caixas de leite. A horta reverte parte da produção para a merenda escolar e outra para a comercialização na comunidade. Já a casa abriga uma sala de jogos de ciências e matemática. “São dois projetos coletivos, mas fui a selecionada para representar e fiquei muito feliz”, revela.
Em 2006, recebeu menção honrosa na Olimpíada de Matemática das Escolas Públicas do Estado de São Paulo, comemorada ao som de violino e trompete, que também toca com desenvoltura. No computador que ganhou para os estudos falta o acesso à internet. “Faço os trabalhos na lan house e não dá pra ir sempre. Não importa de onde você veio, tem que fazer para merecer. Vou ser engenheira.”

Thiago Domenici é jornalista; texto publicado originalmente na Revista do Brasil, seção Retrato, outubro de 2009.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Leonard Horowitz fala sobre Vírus A (H1N1)

Mais um vídeo com teor crítico sobre o vírus da gripe A. Dessa vez é o Dr. Leonard Horowitz que fala do vírus "fabricado em laboratório", segundo o próprio. Outro dia postei aqui o Operação Pandemia; muito bom por sinal.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Cientista da esperança


Aqui a íntegra da entrevista de Miguel Nicolelis do qual falei em postagem anterior. Publicada originalmente na Revista do Brasil, edição 37, julho. Entrevista realizada por mim e pela repórter Cida de Oliveira na sede da Associação Alberto Santos Dumont, em São Paulo. As imagens são do fotógrafo Jailton Garcia.

O paulistano Miguel Nicolelis dirige, desde 1994, o centro de neurociência da Universidade Duke, na Carolina do Norte, Estados Unidos. E é um dos fundadores do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS), na capital do Rio Grande do Norte. A escolha de um local longe dos centros econômicos está ligada à sua batalha por descentralizar a produção do conhecimento, tornar a educação científica acessível às crianças das escolas públicas do Rio Grande do Norte. Seu grupo pesquisa origens da doença de Parkinson e como controlar ou amenizar seus efeitos no homem. Por esse estudo, que abre uma nova frente de pesquisas também sobre outras doenças do sistema nervoso, foi o primeiro brasileiro a ter destaque na capa da revista Science. Formado pela USP, Miguel Ângelo Laporta Nicolelis começou a ter seu trabalho projetado internacionalmente quando implantou uma prótese no cérebro de um macaco, por meio da qual o bicho moveu um braço robótico – com a “força do pensamento”. O trabalho foi listado pelo Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT) como uma das dez tecnologias que vão mudar o mundo. Ele e seus colegas registraram também sinais elétricos emitidos por neurônios do cérebro de uma macaca e os transmitiram ao laboratório do MIT, distante mil quilômetros, onde um braço robô foi movido por esses impulsos. Posteriormente, o registro da atividade neural da macaca enquanto andava numa esteira foi enviado, via satélite, ao Japão, onde um macaco andou sob o comando cerebral da primata americana. A ideia dessas experiências é fazer pessoas com paralisia voltarem a andar. Para Nicolelis, mais importante que o Prêmio Nobel que corre o risco de ganhar é fazer com que a educação seja não um objeto de mecanização de ordens, mas de geração e difusão de conhecimento. E de construção de uma nova democracia.

Como transformar a sociedade pela ciência?
A ciência gera conhecimento novo e processos geradores de mais conhecimento, tecnologias, métodos e novos produtos. Gera poder. No século 21, a democratização de uma sociedade depende da democratização dos meios de produção de conhecimento de ponta. Ao longo da História fomos levados a crer que só a elite pode fazer ciência nesses lugares misteriosos que a gente chama de universidade, esses espaços originados nos mosteiros da Idade Média, que têm acesso restrito, onde para entrar é preciso passar no vestibular. Com isso, boa parte da sociedade fica sem saber como é gerada a inovação. É a ciência que vai mostrar como enfrentar questões como as da Amazônia, do meio ambiente, das nossas reservas de óleo. O que faremos com tudo isso? Onde aplicaremos o dinheiro que será gerado pelas reservas do pré-sal? Os brasileiros têm de participar dessa discussão. Mas para participar devem ter acesso aos métodos de produção de ciência.

Mas como os brasileiros podem ter esse acesso? A ciência produzida não fica restrita aos cientistas e seus ambientes, universidades, laboratórios?
Geralmente sim. É como se ficasse numa redoma de vidro à qual a grande massa da população não tem acesso. Costumo dizer que estamos melhorando muito, mas tudo é ainda muito caótico. A universidade pública, por exemplo, ainda não é pública na entrada nem na saída. Embora tenhamos hoje a melhor gestão do Ministério da Educação que jamais tivemos na história do Brasil, ainda falta muita coisa. O problema é muito grande, acumulado em séculos de negligência.

Como o senhor avalia o aumento quantitativo da produção científica brasileira?
Esse aumento nos últimos anos deu-se pela exigência dos métodos de avaliação das universidades, que cobram produção em número, e não em qualidade. A qualidade de um trabalho científico não é medida apenas localmente, e sim pelo seu impacto no mundo da ciência, que é muito objetivo. Por isso o impacto desse aumento na vida do país ou do mundo é questionável. Apesar de aumentar o número de pesquisas, o Brasil é um dos países que menos patenteiam propriedade intelectual e menos produzem inovação científica. Ainda temos uma visão cartorial da ciência, com algumas agências de financiamento brasileiras impondo uma burocracia absurda, que não pode se aplicar ao projeto de um cientista.

Isso é só no Brasil ou lá fora também?
O Brasil é campeão nisso. Precisamos construir mecanismos ágeis de fomento, de operacionalização. Não adianta ter só o dinheiro. Seria um exercício muito interessante, para vocês, pegar o orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia e ver quanto dele foi executado. Nem os caras lá dentro conseguem se livrar da burocracia.

O senhor declarou numa entrevista que o ministro da Ciência e Tecnologia deveria sentar do lado do presidente da República. Por quê?
Na minha modesta opinião, os ministros da Educação, Saúde e Ciência e Tecnologia – a trindade – deveriam sentar do lado do presidente. E bem lá atrás o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central, fazendo contas. E temos gente altamente preparada, nessas três áreas, que tinham de receber o orçamento que determinassem. E então apertaríamos o cinto em outras coisas para garantir o cumprimento das prioridades, que trarão retorno para o país e para a humanidade. Há cientistas brasileiros brilhantes aqui que não precisavam sofrer para ser financiados, porque contribuem para a humanidade. Nos Estados Unidos, por exemplo, a ciência e a tecnologia estão no centro do debate nacional e são tema da conversa do café de todo mundo.

Independentemente de quem esteja no governo?
Sim, e a grande vantagem da academia americana é que lá o cara que nasce na periferia de Nova York, por exemplo, tem chance de ser um professor universitário. Aqui, a ciência brasileira foi construída pela elite. Isso mudou um pouco, mas não o suficiente para um menino da periferia sonhar em ser cientista. Os meninos da periferia de Natal já têm mais chances porque nós desmistificamos a ciência para eles. Antes, quando perguntávamos o que queriam ser, respondiam jogador de futebol, atriz, modelo. Hoje há quem queira ser ortopedista, astrofísico, geólogo, químico, professor. Eles constataram que professor não é inimigo, e sim o adulto em que podem confiar porque vai lhes abrir portas.

O senhor convive com crianças em Natal e com neurocientistas num laboratório americano...
Ambas as realidades estão conectadas. Em nosso laboratório estudamos o cérebro e como é o processo de educação do cérebro. Então a neurociência e a educação andam lado a lado, como qualquer outra coisa que envolve a atividade humana. Porque tudo que vem do ser humano, do ponto de vista de produção motora-cognitiva-intelectual, tem como final da cadeia o cérebro. Os sistemas políticos, o mercado financeiro, a arte, enfim, tudo depende das propriedades biológicas do nosso cérebro. O mundo inteiro deveria ter interesse em saber como nosso cérebro funciona porque ele é a essência do que somos e explica tudo o que fazemos.

Foi o que o trouxe de volta ao Brasil?
Quando decidi voltar para o Brasil e fazer alguma coisa sabia que seria tudo muito difícil. Cheguei a ser tratado como estrangeiro por alguns setores das universidades. E eu só decidi entrar na briga porque queria disseminar a ideia de que a ciência é agente catalisador da transformação social, começando pela educação. Se eu quisesse que essas crianças passassem a ter prazer em aprender, em se envolver com a investigação científica, a única maneira seria colocá-las em contato com o critério lúdico da investigação científica. Criança adora ver a reação causal das coisas. Se uma pilha de blocos cai, ela logo percebe que é necessária uma estrutura para manter os blocos em pé – coisa que dificilmente perceberá em uma aula teórica, com o professor falando um monte de coisa que terá de ser reproduzida numa prova.

Como é esse trabalho em Natal?
A formação de professores levou seis meses. Nossa escola vai fazer três anos e é um esforço pequeno ainda. Atendemos mil crianças, mas queremos levar a experiên¬cia para o Brasil inteiro. Toda escola pública deveria ter aula em período integral. E a aula deveria ser diferente, livre desse modelo da autoridade, de o professor vomitar a “verdade” que deverá ser recitada pelo aluno. A verdade tem de ser descoberta. E esse é um método científico, que faz parte da nossa vida o tempo inteiro. É o caso de quem empresta dinheiro e não recebe. A chance de emprestar de novo diminui. Isso é experimento. Nossa vida inteira é assim. Quando andar de bicicleta pela primeira vez a criança vai cair e pôr a rodinha. Quando percebe que consegue, tira a rodinha. Essa realidade lúdica deve ser levada para dentro da sala de aula. Ou para os laboratórios de ciências para criança, embora muitos duvidassem que isso pudesse acontecer no Nordeste. O talento está lá. Está dentro das crianças e precisa ser garimpado. Por gerações temos negligenciado, abandonado e desperdiçado talentos. Nunca assumimos a responsabilidade de oferecer para as gerações futuras algo melhor do que nós tivemos. É uma visão de colonizados que ainda prevalece, a de que o futuro não vale a pena. Nunca assumimos um pacto de renúncia a certas coisas do presente para oferecer algo melhor para os que ainda nem nasceram. Nossos filhos, netos, bisnetos.

O senhor teve encontros com o presidente Lula para apresentar o projeto?
Eu conversei muito com o presidente. Senti que ele entendeu para onde estamos indo, e que aquilo era um experimento não de cientista, e sim de nação, de como o Brasil pode ser esse país que tem chance de acontecer, de entrar para a História e ser verdadeiramente de todos.

O senhor vê as pessoas, no exterior, manifestarem alguma visão sobre o atual momento do Brasil?
Quando viajo e encontro colegas franceses, alemães, russos, chineses, noto que estão todos desencantados com seus políticos e seus governos. Muitos dizem: “Sorte sua que é do Brasil, onde as coisas vão acontecer, que alimentará o mundo, produzirá energia limpa e ainda manterá o ambiente de pé. Como a gente vai conseguir criar uma democracia feliz, onde as pessoas vão poder perseguir a felicidade? Vocês têm um presidente que é admirado no mundo inteiro”. E então eu penso: se os brasileiros ouvissem metade do que ouço pelas minhas viagens, certamente se encantariam.

Por que não sabemos de tudo isso?
Porque a informação não chega. Abrimos os jornais brasileiros e as manchetes são desanimadoras, não celebramos os avanços. Há frases ditas por brasileiros que eu odeio, como aquelas do tipo “só podia ser no Brasil mesmo”, ou “se a gente fizer assim, vira coisa de Primeiro Mundo”. Vivemos nos depreciando. O Primeiro Mundo está despencando, entrando num buraco negro e não sabe se vai escapar. A Europa tem problemas seríssimos, os Estados Unidos estão desesperados, precisam sair do problema que eles mesmos criaram. Sobrou quem para ser Primeiro Mundo? Nós somos o Primeiro Mundo. O Primeiro Mundo do amanhã, mas para isso precisamos acreditar em nós. O nosso complexo de inferioridade, tão gigantesco, vem do sistema educacional, que cria carneiro, e não leão, que cria gente que obedece a ordens.

As ordens não são necessárias no aprendizado?
Na escola, eu tinha de cantar o Hino Nacional porque era uma ordem, e não o meu desejo de exaltar a minha pátria. Um milico em algum lugar me mandava fazer isso. Eu tinha de decorar e cantar o Hino à Bandeira e o da Independência por decreto militar. Temos de incentivar nossas crianças a ir para a rua, a achar a cura do câncer, a construir uma democracia melhor, a remover esse entulho mental de inferioridade que acumulamos ao longo da nossa história. Por que o brasileiro não pode almejar qualquer coisa? Eu entro no avião e ouço: “O seu país é demais”. Aí viajo dentro do Brasil e metade do que eu ouço é depreciação.

Privilegiamos a mediocridade?
E ainda promovemos o que não tem relevância, a cultura da celebridade, do efêmero. Aí as pessoas dizem que no mundo inteiro os jornais estão desaparecendo, que há uma crise na mídia. A mídia criou essa crise quando não reportou o fato, quando não se comprometeu com a população, e transgrediu esse elo que havia ao abrirmos um jornal e acreditarmos no que líamos. O povo não é bobo. E o New York Times tem de retratar 180 páginas de reportagens falsas sobre as razões que levaram os Estados Unidos à Guerra do Iraque. Quem vai acreditar no jornal? E esse fenômeno acontece aqui com sérios jornais que trazem coisas sem relevância para a vida de cada um de nós. Essa quebra destruiu a nossa ligação com os intermediários que transmitiam os fatos para nós. Agora não queremos mais intermediários. A internet, apesar de todos os seus defeitos, está se transformando num lugar onde se pode tentar achar o que está acontecendo. O intermediário sumiu. Os políticos deveriam começar a se preocupar, porque o mundo inteiro não acredita mais nas promessas de eleição, nos congressos. As pesquisas de opinião da Europa, dos Estados Unidos e daqui mostram que os poderes representativos estão no fundo do poço. O pessoal precisa ficar de olho aberto porque ainda vai aparecer alguém com uma fala nova de representação, mais efetiva, barata e honesta. E o intermediário também pode sumir rapidamente.

Como é a vida nos Estados Unidos de um brasileiro que adora as coisas do seu país?
Eu não moro mais só nos Estados Unidos. Como agora tenho a chance de vir para cá mais vezes, tudo ficou mais fácil. Difíceis foram os primeiros 15 anos, eu sabia que só poderia voltar para o Brasil depois que tivesse construído algo fora. Então foi muito difícil. A cultura, o clima, a comida e as pessoas são diferentes. Todo brasileiro que tem visão pejorativa do Brasil deveria passar dez anos de exílio em algum lugar. Voltaria muito melhor. Porque o Brasil não é só São Paulo. O país é, na verdade, centenas de outros países. É impossível crescer na cidade de São Paulo e entender o Seridó, o sertão do Piauí, o interior da Bahia, ou mesmo a capital do Rio Grande do Norte.

Somos um imenso país de estrangeiros uns para os outros?
Embora todos falem português, as emoções transmitidas são diferentes em cada região, em cada sotaque. E isso nos dividiu, quando deveria ter unido. Essa diversidade cultural, linguística, vegetal, biológica é que faz o Brasil ser o que é. Aprendi na escola que o Nordeste é a caatinga, é o deserto. E lá vi que cinco milímetros de chuva, uma garoa miserável, fazem com que os cactos floresçam imediatamente. E o que era caatinga virou jardim. E é o maior exemplo de sobrevivência que já encontrei na minha vida. Porque tudo que existe lá evoluiu para sobreviver a qualquer custo. A valorização da vida, seja de inseto, animal, humana, é gigantesca. E isso é exemplo de sobrevivência, não de miséria. Ninguém no sertão se sente miserável. Ao contrário, as pessoas que encontrei, crianças e adultos, jamais querem sair de lá. Quando o pessoal sai é porque não tem mais jeito. Aquele lugar pode se transformar num engenho, num grande motor da economia, se for olhado de maneira correta, se a ciên¬cia for aplicada da maneira que acredito que pode ser aplicada lá.

Lidar com a possibilidade de descoberta de tratamento para o Parkinson é algo que atrai uma expectativa e tanto, não?
Cada vez que um trabalho novo é publicado há uma grande expectativa entre as famílias dos pacientes. Sei disso porque meu avô teve Parkinson e sempre temos a esperança de que alguma coisa possa ajudar. Eu sempre tento manter as pessoas esperançosas quanto à possibilidade de uma nova terapia, mais barata, eficiente, fácil de ser implementada cirurgicamente, minimamente invasiva, com menos riscos e que, se os testes em primatas e os estudos clínicos tiverem os mesmos resultados obtidos em roedores, poderá ampliar significativamente o número de pacientes beneficiados com o tratamento.

Não se trata de cura?
De forma alguma. É o tratamento dos sintomas motores e de alguns dos efeitos mais dramáticos do mal de Parkinson. Essa terapia, até onde sabemos, não paralisa o processo neurodegenerativo que causa a doença. Mas, de qualquer maneira, são milhões de pessoas afetadas que poderão se beneficiar. Quando publicamos esse trabalho com destaque na imprensa científica, recebemos milhares de e-mails de todo o mundo. É algo sério, que deve ser lidado com muita responsabilidade e com muito cuidado para não alimentar falsas esperanças. Então, evidentemente, essa distinção entre cura e tratamento é uma das primeiras coisas que tentamos fazer. Nosso esforço é para acelerar o avanço dessas pesquisas para que possamos dizer, com total segurança, que chegamos ao ponto X.

O que é o pensamento? E o sonho?
O pensamento é uma corrente elétrica, uma tempestade se espalhando pelo cérebro. Só isso. É um relâmpago em milivolts, em milissegundos. Tudo o que fazemos vem de uma tempestade elétrica na nossa cabeça. Uma tempestade tão complexa e tão difícil de prever como as que acontecem no céu. Mas move tudo o que nós fazemos, como sonhar, imaginar, pensar, prever, andar, falar, correr, tudo. Essa é a raiz de toda a humanidade, centenas de bilhões de elementos disparando pequenas descargas elétricas que geram um campo magnético muito pequeno, mas mesmo assim poderoso o suficiente para gerar tudo que a história da humanidade já gerou. E o sonho é uma atividade do sistema nervoso que, pelo que se debate muito hoje em dia e pelas teorias mais modernas, responde pela recapitulação do que aconteceu recentemente com tudo o que foi acumulado ao longo da vida e gera reverberações elétricas quando dormimos. Ele tem várias funções. Se considerarmos pesquisas mais recentes, nada mais é do que a consolidação das nossas memórias.

Quais os próximos lugares em que o senhor pretende instalar um centro semelhante ao de Natal?
Nesse momento nem estou falado nisso porque Natal demanda muita energia. Estamos tentando criar um programa de autossustentação, capaz de manter o campus de Natal independente, com parceria público-privada. E ainda vivemos a luta contínua para manter a coisa viva. Então, apesar de ter essa ambição, só vou para outros lugares em outras condições. Se quisermos construir o segundo instituto em outro lugar, o lugar tem de querer e criar condições para receber esse know -how. Há outros lugares onde chegamos até a conversar, assinamos documentos, mas nada sai, é uma perda de tempo. É importante que as pessoas valorizem esse esforço e, se quiserem realmente embarcar numa parceria, saibam que existem responsabilidades de ambos os lados. Não é simplesmente dizer “eu quero um negócio desses aí”. Em Natal aconteceu dessa maneira porque era o embrião, a semente que tinha de florescer e está florescendo.

Seus estudos são financiados pelo governo americano e fundações de todo o mundo. É legítimo dizer que se trata de pesquisa brasileira?
Sim. A ideia saiu de um cérebro que nasceu na Bela Vista, foi escrita por alguém que cresceu em Moema, assinada por um pesquisador com diploma da Universidade de São Paulo e quem assina o cheque é um torcedor do Palmeiras. Se isso não é brasileiro, então não sei o que é. O fato de trabalhar nos Estados Unidos, numa universidade americana, financiada pelo governo americano e por fundações de vários países não significa que essa produção não seja brasileira. Primeiro de tudo porque ciência não é de ninguém, é da humanidade. No meu trabalho tem pesquisadores do Chile, Suécia, Canadá, Brasil e Estados Unidos. Mas, se for para definir uma nacionalidade, quem teve a ideia do trabalho, recrutou as pessoas e foi atrás de dinheiro veio daqui. E escreveu parte dele enquanto andava pela praia de Natal, na sede da associação, no Parque Antártica, no avião. Vem da nossa condição colonial a dificuldade de acreditar que tenhamos condição de fazer essas coisas. É como se alguém dissesse: “Mas o Oscar Niemeyer fez um monumento na Argélia. Será que é dele? Quem pagou foi um argelino”.

O que é mais fácil: o Palmeiras ser campeão do mundo ou o senhor ganhar o Prêmio Nobel?
Ah, não tem dúvida de que é o Palmeiras. O Nobel é um fetiche nacional. É como o Oscar. Para a ciência nacional ser legitimada alguém tem de ganhá-lo. Eu não tenho nada a ver com isso. Não acredito que isso faça a diferença que todo mundo acha que faz.

O Nobel não é importante para a ciência brasileira?
Esse prêmio só terá grande repercussão se for consequência de um projeto estratégico nacional científico em que dezenas de pessoas têm chance de ganhar. Ninguém ganha o Nobel sozinho. É como uma célula do cérebro que produz uma faísca elétrica. Mas para produzir a faísca teve uma série de células por trás dela que a alimentaram de informação para ela poder disparar. Eu não dou muita atenção para essas coisas porque acho que é uma glorificação muito egocêntrica do indivíduo, quando a ciência é o próprio time. É como um jogo de futebol. É possível ter um grande jogador no time e não ganhar nada. Mas, se há um time, há como ganhar. O capitão levanta a taça. Mas é o time que ganha o jogo. A nossa cultura é muito de dar a recompensa para um indivíduo.

Como os brasileiros poderiam contribuir com seus projetos?
Somos uma organização da sociedade civil com interesses públicos. Temos o nosso site (www.natalneuro.org.br), vivemos de doações mínimas, a partir de R$ 1. As pessoas entram no site, ficam enamoradas pelas perspectivas. Agora temos tentado ampliar nossa rede de doadores para não depender tanto dos grandes doadores. É uma campanha que vamos começar a intensificar porque acho que é uma forma alternativa de mostrar que é possível construir coisas com a participação de um grande número de pessoas que possam ser cúmplices de uma empreitada social, sócias de um sonho. Creio que todo mundo tem a chance de realizar um sonho, canalizar seu desejo. É a oportunidade que muitas pessoas não tinham e agora têm. Por isso se encantam. Mas acho que é importante que as pessoas ajudem começando a tomar ciência dos problemas da sua comunidade, a ser mais participativas em suas escolas, dos seus filhos, nas suas cidades, e começar a exigir tudo o que elas deveriam ter e não ainda não têm

domingo, 19 de julho de 2009

Um grande brasileiro: Miguel Nicolelis

Para tentar algo para mudar o Brasil o neurocientista Miguel Nicolelis foi fazer seu pé de meia nos EUA. Ficou lá 20 anos e trouxe na bagagem um conceito que todos precisam conhecer: a ciência como agente de transformação social. Para isso a base é a educação. Em Natal, no Rio Grande do Norte, o seu Instituto de Neurociências já dá passos largos nesse sentido. Escrevo sobre ele porque o entrevistei - pela segunda vez - agora para a Revista do Brasil e gostaria que os leitores deste blog pudessem ter contato com esse grande brasileiro. Aqui indico o seu instituto com muito material e entrevistas que ele deu pelo mundo. Apesar de negar, Nicolelis é um candidato forte a conquistar o Nobel por tudo que vem realizando pela ciência. Ele diz que a ciência é da humanidade e afirma: “Temos de incentivar as crianças a aprender se divertindo, a construir uma nova democracia e a remover o entulho de inferioridade que acumulamos.”

domingo, 7 de junho de 2009

A história das coisas

Este vídeo dublado em português mostra a história dos objetos de consumo, da sua produção ao descarte e revela quem são as verdadeiras vítimas do sistema de produção linear. Está em duas partes.



Parte 2


terça-feira, 5 de maio de 2009

Entrevista: "é preciso reconquistar o tempo"

Essa entrevista tem como foco o tempo e a entrevistada é a filósofa Olgária Mattos. Fiz há dois anos, mais ou menos, e foi publicada, após edição, num especial sobre o Pós-humano. Aqui a coloco na íntegra, cumprida mas bem interessante. Lembro que foi um chacoalhão na cabeça.

É preciso reconquistar o tempo

Filósofa diz que as pessoas estão conscientes de que “não têm tempo”, mas não sabem o que fazer com o que lhes resta de tempo livre.

OLGÁRIA MATOS, filósofa renomada, doutora pela École des Hautes Études, de Paris, e professora aposentada da USP, ganhadora do prêmio Jabuti de 1990 com o livro Os arcanos do inteiramente outro - a Escola de Frankfurt, a melancolia, a revolução (ed. Brasiliense) é autora também de Rousseau, uma Arqueologia da Desigualdade, além de inúmeros ensaios, artigos e palestras com enfoque nos temas Iluminismo, sujeito, tempo, consciência e Revolução. Nessa entrevista concedida em sua casa, na zona sul de São Paulo, ela fala do “conceito de tempo e suas mutações no mundo contemporâneo”. Por exemplo, sua resposta à idéia geral de que hoje as pessoas não têm tempo é, resumida, a seguinte: “a forma mais perversa (...) é a alienação do tempo, você não ser senhor do seu tempo, você é determinado pelo tempo das coisas e não escolhe mais sua vida.” Sobre a hiperatividade dos dias atuais, ela diz que é fazer muitas coisas com nenhum sentido. E que as pessoas querem matar o tempo porque não sabem o que fazer com o tempo livre. Um visão instigante sobre os dias de hoje.

por Thiago Domenici

Gostaria que a senhora falasse o que é o tempo e o que são as mutações do tempo?
Santo Agostinho diz: “quando não me perguntam o que é o tempo eu sei, quando me perguntam eu já não sei mais”. Porque o tempo pode ser acelerado em anos, pode ser extremamente longo em segundos, são experiências muito diferentes as que a gente pode falar sobre o tempo. No mundo contemporâneo, a impressão que dá é que existe um “não tempo”, uma experiência do tempo que não passa, porque ele não se faz mais com experiências. Na verdade, experiência supõe uma relação de conhecimento com valores e acontecimentos do passado que são transmitidos das formas mais diversas. Os antigos tinham muito essa idéia – até recentemente tínhamos, até pelo menos o século 19 –, de que era preciso resistir aos embates do infortúnio, quer dizer, reagir aos acontecimentos inesperados e catastróficos para continuar vivo. As parábolas e fábulas tinham esse sentido de ensinamento. Hoje não temos mais tempo para essa tessitura coletiva das experiências dos sonhos, das expectativas.

E por que a gente não tem mais tempo?
Tanto no mundo grego quanto na Idade Média até o Renascimento você tem a idéia do mundo perfeito. Que é o cosmos grego? É um todo, fechado, onde cada coisa ocupa o lugar que lhe é próprio na ordem da criação, o otimismo grego achando que o homem nasceu para a felicidade, sua destinação é a felicidade, ele pode escolher os meios para chegar à felicidade. Agora, os fins últimos ele não escolhe. Então é muito tranqüilizador esse universo, não é habitado por nenhum desejo de autoridade, ele já está no perfeito, já está na verdade, e a possibilidade de conhecimento é sempre no sentido de um aprimoramento de si, de um cuidado de si. Na Idade Média você tem a criação divina, ali já é a emanação da beleza invisível transcendente. Quando chega o século 16, 17 se acaba a idéia de universo finito e entra em cena o universo infinito. A idéia de limite, que é uma idéia grega, passa a ser entendida como barreira, como privação, e essa idéia de infinito e de deslimite está na base dos esportes radicais, das performances até a morte, da obesidade mórbida, do uso imoderado de drogas, enfim, todas as formas do excesso, do deslimite. Além do que a modernidade, a partir dos séculos 17 e 18, começa a elogiar a paixão – a paixão é o excesso, e a nossa cultura valoriza o excesso.

É aí que entra a história do tempo qualitativo e do quantitativo?
Vamos supor: como era a sobrevivência na Idade Média? Era, sobretudo, no campo, então você tinha que seguir as estações do ano, as colheitas, a plantação, o tempo de trabalho não se sabe exatamente, mas a média devia ser umas quatro horas por dia, no máximo. Era um tempo qualitativo, porque você seguia aquilo que era da natureza das coisas. Por exemplo, trabalhar antes do nascer do sol ou depois do pôr-do-sol era considerado imoral, era pecado, porque você desafiava a ordem da criação. Com o advento da luz elétrica, no século 19, o dia passou a ter 24 horas, o trabalho noturno entrou com uma voracidade de consumir todas as forças do homem, até o fim – isso foi o capitalismo do século 19, e está voltando. Antes tinha um tempo na Grécia, em Roma, na Idade Média e nas religiões que era um tempo livre, mas o que era o tempo livre? Era um tempo totalmente autônomo com relação às necessidades materiais da sobrevivência, um tempo que você dedicava à contemplação, por mais indefinida que pra nós seja essa palavra contemplação. Você não se entretinha com nada que dissesse respeito à materialidade da vida, era a liberdade absoluta. Hoje não temos mais essa idéia de tempo livre, já é preenchido de coisas, então você tem um tempo inteiramente espacializado, não é mais qualitativo, ele não diz respeito a propriedades representativas de um acontecimento, de uma pessoa ou de um desejo. Essa idéia de que você não tem tempo é a forma mais perversa da alienação. Marx já dizia isso, a forma mais perversa não é a alienação do trabalhador com relação ao produto do seu trabalho e ao sentido do trabalho, é a alienação do tempo, você não ser senhor do seu tempo, você é determinado pelo tempo das coisas e não escolhe mais a sua vida. É o que está acontecendo hoje. Você vê, por exemplo, que um empresário trabalha 24 horas e não pára um segundo – esse empresário na visão de um homem da Idade Média vive pior do que um servo da gleba. São mutações na experiência do tempo e na maneira de vivenciá-lo. Independentemente da modalidade do acúmulo do capital e da distribuição da riqueza, esse capitalismo acelerado, que é o das nanotecnologias e tal, é uma coisa extremamente nova no seguinte sentido: se você pensa no capitalismo até a década de 30, ou até pelo menos até a Primeira Guerra Mundial, havia uma autonomia da política com relação à economia, tanto que a economia tinha que pressionar a política para que a política revisasse seus interesses de acumulação. Quando isso não acontecia, tinha guerra, tinha ditadura, para forçar a política a realizar os desígnios da economia. Hoje não, há uma total fusão entre a economia de mercado e a sociedade de mercado, não há mais espaço de autonomia, porque a política nada mais é do que a realização do status quo econômico. Você não tem esse espaço mínimo que se chamava espaço público. E não pode ter liberdade política se está raciocinando em função do que a economia permite e do que ela não permite. Então, essa liberdade está tendendo a desaparecer, porque o realismo político está tomando o lugar da inteligência social.

A senhora aborda em suas palestras a questão do tédio, da monotonia e do desejo de “matar o tempo”. A gente não tem tempo e ao mesmo passo quer matar o tempo...
Recentemente foi feita uma pesquisa na França para ver as experiências do tempo nas metrópoles, nas classes A, B, C e D. As pessoas que não tinham tempo nenhum mesmo, para nada, eram os desempregados. Eles sentiam a sensação de que não tinham tempo. Provavelmente assim: um dia faz o currículo, no outro dá um telefonema, outro dia espera uma resposta e assim vai. Então é um tempo totalmente vazio, sem sentido e também tem o seguinte: como há uma sensação, vamos dizer, transversal na sociedade, de que ninguém tem tempo, esse “não tempo” acaba afetando a todos, não diz respeito só àqueles que não têm tempo. Quem tem tempo acaba sentindo que não tem, é uma coisa estranha que acontece. A hegemonia do tempo dominante é assimilada por todos, não vai para uma classe só, racionalmente localizada, porque ela trabalha 24 horas, não, é algo que se espalha por toda a sociedade. Então, esse sentimento de não ter tempo é a manifestação de algo estrutural na sociedade, que é o trabalho. O trabalho é totalmente esvaziado de sentido, no mundo capitalista, com a automação do movimento do gesto do trabalhador. Quem captou muito bem a modernidade do tempo completamente sem sentido do trabalho alienado foi o Kafka. No livro O Processo, por exemplo, quando o personagem chega para tentar descobrir qual é a condenação e nunca vai saber qual é a sua culpa e nem qual é a condenação. O que ele vê? Vê um funcionário espancando um sentinela e pergunta: “Por que você está espancando?” O funcionário não pára de espancar e fala: “fui contratado pra espancar, então espanco”. É o trabalho alienado. Marx diz assim: “Quando o homem está no lugar de trabalho, ele se sente fora de si, só se sente junto a si quando está fora do trabalho”. O trabalho continua sendo o trabalho alienado que esmaga fisicamente ou espiritualmente, porque não tem sentido nenhum. Agora, a monotonia contemporânea é o tempo da longa duração, e no capitalismo essa longa duração é insuportável, por isso as pessoas querem matar o tempo, porque não sabem o que fazer com o tempo livre.

Tem a questão da tecnologia no nosso tempo, parece que quanto mais tecnologia temos menos tempo, não?
As tecnologias fazem parte desse desejo de novidade, mas não são o novo. Porque o novo é muito raro acontecer, a última grande invenção da ciência deve ter sido no século 19, comecinho do século 20. Agora estão desenvolvendo o que já foi descoberto até a Primeira Guerra Mundial ou por volta disso. Mas você tem uma pulsão da novidade. Porque, como o que domina todo o imaginário, todo o ritmo da vida biológica e todo o ritmo da vida cotidiana é a produção e o consumo de mercadorias, a consciência disso está pautada pela sucessão e substituição rápida do mesmo. Quer dizer, imagine no século 19 o que deve ter sido a primeira experiência da produção em série, quando se vê o objeto único aos milhares. Essa experiência de vertigem, de alucinação, que é o mesmo que estar em algum lugar e ter um outro igualzinho a mim, milhares de pessoas todas do mesmo jeito, parecendo o mesmo, produz uma monotonia terrível. O mesmo objeto milhões de vezes é totalmente insuportável; como você vai consumir, se tudo é a eterna volta do mesmo? A não ser produzindo pequenas diferenças de objeto para objeto que não querem dizer absolutamente nada, mas criam a ilusão da individualidade. Você perguntou da tecnologia. O que o Marx dizia? Você tinha a infra-estrutura da sociedade, que é o modo de produção e o modo de apropriação, e tinha uma superestrutura, que eram as produções culturais da sociedade – arte, religião, filosofia, ideologia, ciência e tecnologia. A ciência e a técnica faziam parte das produções culturais, espirituais, da sociedade. Hoje a ciência e a técnica são força produtiva. Estão diretamente vinculadas ao aumento do capital, não têm mais autonomia nenhuma. O acúmulo do capital depende da tecnologia, que depende do desenvolvimento econômico. Então, como virou infra-estrutura, a ciência também está comprometida no não-pensamento. Porque, do ponto de vista do conhecimento, você não tem mais a ciência, porque ela é predominantemente pragmática-operatória, cada vez operando mais com as agências de financiamento privadas ou com as agências de Estado. Por exemplo, a NASA, a ciência dos Estados Unidos é diretamente ligada ao departamento da guerra, direto! Na França há um pouco mais de autonomia, na Alemanha também, na Inglaterra não sei, deve haver, e no Brasil não existe. Então você tem a substituição da lei – que é o conhecimento das sutilezas da ciência e das suas mutações – para o funcionamento automático do pensamento. O que é a Fuvest senão o pensamento do computador? É o estudante mais rápido, que pega a pegadinha mais rápido. É o vazio do pensamento com funcionamento automático, então não tem pensamento. Tudo isso vem da predominância de uma racionalidade da ciência que é do tipo matemático-algébrico-analítico, portanto, abstrato, esvaziado de sentido, e você tem o mecanismo do pensamento, todo um arsenal de dispositivos lógicos, vazio. Esse não-pensamento resulta, na hora do consumo, em não saber consumir. Quer dizer, você já não sabe produzir, não sabe fazer, porque aplica a fórmula. Você não tem mais um saber, tem um know-how, e na hora do consumo não tem um “saber viver”. Antes você tinha a filosofia, a ciência, a arte, a religião, tudo que ao longo do tempo era te prover de um saber fazer, era um saber viver. Hoje você está em descompasso entre o que precisa e o que consome. Aí consome o que não precisa e precisa daquilo que não consome. Esse mal-estar da temporalidade veio da não-coincidência do que você tem e o que você deseja, mas você não deseja o que tem e aí, obviamente, como o desejo é infinito, veja só, o capitalismo veio para ficar, porque – como toda tradição filosófica e religiosa fala – somos seres carentes, seres desejantes, então a tendência é preencher o vazio da carência com objetos de satisfação. Ora, o capitalismo produz a carência, ele não quer preencher uma necessidade, quer criar necessidades ao infinito. Então, com essa diferença minimal de um objeto a um objeto para você continuar consumidor, é o tempo do consumo que determina o tempo interno. E o tempo da subjetividade você não tem mais. Como você percebe isso hoje? Todas as experiências humanas que necessitam de tempo, da longa duração, ficam comprometidas: amizade, relação pais e filhos, amor.

E o que esperar do futuro?
Veja só, a promessa exige longo prazo. Quando você promete alguma coisa, está incluída a idéia da dúvida, você não sabe se vai conseguir cumprir ou não. Então precisa do tempo longo para saber se cumpriu a promessa. A idéia do juramento era assim. Não havia possibilidade de romper um juramento a não ser sendo perjúrio. Hoje é ridículo alguém jurar ou prometer alguma coisa, porque sabe que não vai cumprir, e se cumpriu foi por acaso. Então todo esse tempo de expectativa e, portanto, de futuro, está totalmente desaparecido. Hoje só se fala do futuro para justificar o que é o presente, não existe mais a idéia do tempo longo e o que vai acontecer. E o mal-estar vem muito dessa dissolução da idéia de futuro. E como a gente fala de futuro? Fala em mercados futuros, o futuro virou mais um valor de troca. Então quando se fala: “os jovens não têm expectativa de futuro” – não têm um monte de coisa porque não têm expectativa de futuro e não sabem o que fazer com o tempo. Porque esse capitalismo produz uma cultura e uma educação cuja atividade cerebral é próxima a zero. É pulsional, eu quero, vou lá e pego. Aí quer que a juventude faça o quê? Vira delinqüente ou vira entediado. Porque o tempo que lhe é imposto como a forma por excelência da vida é o consumo de bens materiais. Sem nenhum ideal de espírito. E a técnica e a ciência se desenvolvem não sabendo para onde vão.

A ciência não pensa no ser humano?
A ciência não pensa. Ela faz. O mundo contemporâneo não pode ter filosofia, porque a filosofia pensa o pensamento. A ciência deveria pensar a ciência. O que é a ciência para os gregos? Primeira coisa é: “Isso que vou pesquisar é útil ou prejudicial? Visa os fins últimos do sumo bem ou não? Se não, não vou pesquisar isso”. A energia nuclear é uma tecnologia não-poluente. Meu Deus! Leva milhões de anos para acabar a toxicidade e não é poluente? Por que? Porque não pensa. Porque se você dissesse: “Não, isso nós não vamos fazer porque o risco é morrerem tantos”. O fato de haver risco levaria a pesquisar outras coisas. Mas esse capitalismo é inimigo do pensamento autônomo, é inimigo da liberdade, é inimigo da vida feliz e da vida justa. E não é um capitalista, é o capitalismo! É uma estrutura alienada que abrange também o burguês, que também está vitimado por essa compulsão ao consumo, a compulsão à produção sem sentido nenhum.

Há cientistas falando que daqui a quarenta anos a inteligência artificial será algo palpável, estão até discutindo a ética dos robôs se o robô tem que ter uma carga horária específica de trabalho, se tem que ter previdência. Qual poderá ser a função deles no futuro?
Não dá muito para antecipar, mas há um tempo atrás houve uma discussão no Parlamento de Tóquio se devia ou não estender os direitos humanos aos robôs inteligentes. Isso é um fenômeno que o Marx estudou e é a pessoa que foi mais longe, falando da inversão do inanimado em animado. O inanimado toma o lugar do homem. E é claro que você pode falar em direitos humanos para robôs, porque eles não são praticados para as pessoas. Talvez sejam para as coisas, porque a alienação é um fenômeno em que as coisas ocupam o lugar do que é vivo. Então é bem possível. Você vê o jeito como as pessoas cuidam do carro no domingo de manhã, eles lavam com um cuidado que certamente não têm com os filhos. Agora, esse é o final da coisificação. A ciência moderna confunde liberdade de pesquisa com onipotência, só que não tem idéia de limite. Quer dizer, atividade zero de pensamento. A sociedade do narcisismo e o narcisismo é uma coisa de não saída de si, não é o ideal de ego, é o ego ideal, fica imerso em si mesmo, não chega ao outro. A tendência disso são as sociedades da incivilidade, porque o outro não existe. Há pesquisas com crianças que ficam na frente de computador, o que, do ponto de vista de amadurecimento psicológico e, portanto, da progressão do narcisismo e da onipotência é muito ruim. Você dá o comando e ele responde e isso aí aumenta muito a onipotência. A ciência é onipotente, e as pessoas também querem que aconteça na hora. Você vê a própria educação. A educação é um negócio chato. Por que? Porque a criança vai para a escola e tem que ficar sentada, e ela gosta de ficar correndo, de quebrar coisas, de subir na parede. Tem aqueles mais quietos, mas, então, o que é? “Ah, agora você tem que aprender a escrever.” Ah, então tem que fazer esse movimento, aí você tem que ficar sentado. Então, o que é a educação contemporânea no Brasil? Porque a educação está em crise? Por que a evasão escolar? Porque a escola não está adaptada à realidade da criança. A escola é para tirar a criança da sua realidade e criar outros hábitos. Agora, o que você faz? A criança não está adaptada, então vamos adaptar, vamos fazer massinha, vamos não sei o quê. É um tédio fora do comum. E o que acontece? A criança quebra a escola. O adolescente quebra a escola, porque ele vai fazer dentro da escola o que ele já faz melhor fora. Já faz capoeira fora. “Ah, vai fazer capoeira”. Porque “para pobre o pouco está bom”. Então, dá um pouquinho de capoeira que ele já faz, porque essa é a realidade dele. Por que não dá um Mozart, uma aula de violino para ele? “Ah, não. Para pobre, o pouco está bom”. Tudo é assim, essa idéia de tudo rápido, tudo um pouquinho, emprega na educação. Leitura? Dá uma olhada, não tem nada mais que exija tempo do que leitura. Como é que você ensina o português? A tendência é essa hoje no mundo inteiro. O novo presidente francês Sarkozy quer fazer isso, quer tirar a literatura do currículo francês. Uma barbárie. Então, tudo o que exige tempo, quer dizer, a educação, quando ela começa a imitar esse tempo acelerado, não fala mais nada. A educação não é para te dar um pouquinho de instrumento para você se dar bem na vida e ficar rico ou ter ascensão social. Não é isso. A educação é para te ensinar a ter paciência, as grandes obras de literatura são as obras que elaboram o teu rumo interno. Você tem que entender aquilo e ao entender, você se entende melhor, então é todo um mundo que desaparece.

Tem que ensinar a estimular o pensamento...
Porque você tem que entender aquilo que aquela personagem está vivendo e porque ela está vivendo, aí você começa a tomar para você mesmo aquilo. O português, por exemplo, nos parâmetros curriculares nacionais consta assim: “O ensino da Língua Portuguesa visa criar cidadãos responsáveis.” Pronto. Quer dizer, não tem literatura. Não precisa ter. Aí a criança é analfabeta secundária por quê? Porque não aprendeu a ler através da literatura. Então na hora que você pega um texto mais complexo, não dá para entender. Essa idéia de que a educação tem que atender a sociedade, ao que a sociedade tem, é a incivilidade absoluta. Você dá um pouquinho rápido, aprende um pouco, já chega. Você não tem todo o tempo da educação, que é o tempo de aprender a lidar com o tédio. E o que é educação? O que é casamento? O que é ter filho? O que é viajar? É lidar com o tédio. Os mais bem sucedidos são aqueles que sabem. Agora, essa escola é o tédio, ela não ensina a lidar com o tédio. Porque o tempo não existe, você tem que passar rápido para outra coisa.
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