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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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domingo, 20 de março de 2011

Intervenção nossa de cada dia

 Os Estados têm suas razões para intervir na Líbia. Mas, e nós, cidadãos comuns? Que podemos pensar sobre a intervenção?

Agora é oficial: o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou na madrugada desta sexta-feira, 18 de março, o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia. A medida foi justificada pela necessidade de proteger a vida de milhares de civis que têm sido massacrados pelo aparato militar do ditador Muamar Gadafi.
Após o avanço dos rebeldes para regiões perigosamente próximas à capital, Trípoli, Gadafi ordenou a reconquista do território perdido e não teve pudores em utilizar caças para bombardear as posições rebeldes. Assim, recuperou o controle do oeste líbio, onde algumas cidades já haviam caído nas mãos dos opositores, e avançou rumo ao leste para atacar –exitosamente– as milícias em Bin Jawad, Ras Lanuf e Ajdabiya.
Enquanto os rebeldes perdiam terreno, o Conselho de Segurança da ONU deliberava sobre a pertinência de intervir no conflito líbio. Há semanas os inimigos internos de Gadafi vinham requisitando a imposição de uma zona de exclusão aérea. Desde o começo, porém, vêm se manifestando contra uma incursão terrestre de forças estrangeiras: queriam apenas que a comunidade internacional impedisse que os caças do ditador executassem bombardeios sobre a população civil e sobre as posições da resistência. Assim, teriam melhores condições de disputar o poder com o ditador e, eventualmente, vencê-lo.
Os primeiros mísseis dos EUA foram
disparados neste sábado

Por pouco a decisão da ONU não chega tarde demais. A resolução foi aprovada quando as tropas de Gadafi já estavam nos arredores de Bengasi –uma espécie de capital da sublevação– preparando a incursão definitiva sobre o bastião rebelde. A notícia de que o Conselho de Segurança irá impor, nos próximos dias ou horas, uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia fez Gadafi recuar em sua sede de sangue. Pouco tempo depois de divulgada a decisão, em Nova York, e enquanto os opositores do regime comemoravam a chegada de ajuda estrangeira num dos momentos mais críticos de toda a rebelião, em Trípoli o governo líbio decretou um cessar-fogo.
Então, Barack Obama subiu no palanque da Casa Branca para dizer que esta é a última chance de Gadafi encerrar de uma vez por todas a ofensiva militar contra os rebeldes — que, vale lembrar, começaram manifestando-se pacificamente mas, diante da violência que sofreram, acabaram pegando em armas contra o governo. O presidente dos Estados Unidos afirmou ainda que, caso não cumpra com as determinações da ONU, os termos da resolução serão impostos à força.

Intervenção respaldada
A decisão das Nações Unidas conta com o apoio da Liga Árabe, da União Africana e da União Europeia. Porém, não recebeu votação favorável de todos os países que compõem o Conselho de Segurança. Há um mês, todos concordaram que os crimes de guerra cometidos por Gadafi deveriam ser julgados pelo Tribunal Penal Internacional, em Haia. Mas, nesta sexta-feira, Brasil, Índia, China, Rússia e Alemanha preferiram ficar em cima do muro, relativizando os insistentes chamados de França, Estados Unidos e Inglaterra para agir na Líbia o mais rápido possível e com consentimento da ONU.
 2009, Obama e Kadafi em reunião
de chefes de Estado (Reuters)
Escolher entre intervir ou não intervir não é uma decisão fácil para quem acredita defender a liberdade, a soberania dos povos e os direitos humanos. Todos estamos carecas de saber que existem milhões de interesses particulares por trás de cada decisão de Estado. Um país pode tranquilamente disfarçar intenções econômicas com discursos refinados em defesa da democracia e da liberdade de expressão. Pode também camuflar escusas preferências geopolíticas sob a necessidade de lutar contra o terrorismo islâmico e garantir a o bem-estar do universo.
Enfim, existem “n” maneiras de enganar a opinião pública sobre a relevância de intervir militarmente num terceiro país. Para quem está de fora e não tem acesso aos bastidores da política internacional, é quase impossível saber quais as reais motivações que levam os países a apoiar (ou não) uma intervenção. Às vezes é –ou parece– mais fácil. Por exemplo, achamos que o Brasil está no Haiti porque quer um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, e também porque vê com bons olhos a ideia de expandir sua influência sobre o a América Central e o Caribe, região que tradicionalmente tem sido tratada como o quintal dos Estados Unidos. Tem muita gente que jura com os pés juntos que Washington decidiu invadir o Iraque e o Afeganistão neste começo de século não porque queria livrar os iraquianos de Saddam Hussein ou porque precisa desesperadamente capturar Osama Bin Laden: ali, a sede por petróleo e a constante ameaça de recessão econômica teriam falado mais alto. Será?

Ser ou não ser?
Deixando de lado as inescrutáveis razões de Estado, vem a pergunta: como um cidadão comum (eu e, talvez, você) deve se posicionar sobre a possibilidade concreta de intervenção militar em terras longínquas?
Minha primeira reação é sempre contrária. Exatamente porque não dá pra saber ao certo que tipo de interesses concretos existem por trás de quem defende o uso da força para resolver o problema dos outros. A história está cheia de episódios condenáveis, nos quais as forças armadas de alguma potência foram enviadas para determinados países por discordâncias econômicas e políticas que jamais justificariam o emprego da violência. Contudo, bastou dizer que se está defendendo os valores universais da liberdade que tudo se ajeita: a invasão é levada a cabo e a liberdade nunca chega ao povo que se queria libertar. Haiti, Iraque e Afeganistão são ótimos exemplos, no presente e no passado. A Iugoslávia e a Somália dos anos 90 também.
Apesar da desconfiança que devemos nutrir em relação aos que se dizem paladinos da felicidade, é extremamente complicado permanecer imóvel ao sofrimento alheio. Os genocídios no Sudão, Ruanda e Camboja, o apartheid na África do Sul, o holocausto nazista e os expurgos de Stálin merecem ou mereceram a repulsa internacional. Em alguns casos, e com razão, houve intervenções. O problema é que as operações militares quase nunca alcançam os resultados esperados. E, mesmo quando são alcançados e as injustiças são corrigidas, o invasor fatalmente pratica uma série de novas injustiças na consecução de seu nobre objetivo. Os civis sempre sofrem mais – e alguém sempre sai ganhando, pois os benefícios da nova ordem dificilmente são compartilhados entre todos.
No que se refere à Líbia, o observador interessado apenas no respeito aos direitos humanos –como eu e, provavelmente, você– poderá comemorar a imposição de uma zona de exclusão aérea. Pode ser uma garantia de que Gadafi deixará de bombardear covardemente seus opositores. Todavia, não há nenhum dispositivo que impeça massacres terrestres nas cidades reconquistadas. É óbvio que o ditador não terá piedade de quem se aliou aos rebeldes. Certamente, os democratas líbios estão vivendo agora seus piores dias, talvez os últimos, em Ras Lanuf e outras cidades perdidas para as tropas de Gadafi.
O que podemos esperar caso o ditador recupere o controle total do país? Caso percam a guerra, os rebeldes não mais encontrarão refúgio seguro em Bengasi, que ainda resiste, e estarão diante do dilema: exilar-se ou morrer — o mesmo com que se depararam os republicanos espanhóis quando foram derrotados por Franco em 1939. Muitos tentaram, mas não conseguiram escapar. Se por ventura Gadafi vencer a peleja, outros tantos ficaram presos à Líbia e poderão esperar o pior.

Eu, interventor
Isso justifica a intervenção? Parece extremamente complicado responder a esta questão sem se molhar. Ao responder “sim”, estamos de alguma maneira compactuando com todos os podres que nascem de uma operação militar do tipo. Ainda se existissem versões ideais de intervenção, se as missões de paz, de estabilização e de ajuda humanitária se limitassem a cumprir exclusivamente o propósito que trazem no nome… Mas a gente sabe que não é assim. Porém, se nos colocamos contra qualquer intervenção, é como se estivéssemos lavando as mãos para uma injustiça (massacres, opressões, vinganças etc.) que não nos afeta diretamente. Fica fácil dizer: “eles que se virem sozinhos”, assim, de longe, quando nem sequer há igualdade de condições na luta.
População comemora coalizão
entre EUA, França, Reino Unido,
Canadá e Itália (EFE)
Se eu, no Brasil, quisesse exercer o legítimo direito de escolher meus governantes, meus direitos civis, minhas prerrogativas constitucionais e meus direitos humanos, e fosse massacrado nas ruas por causa disso, por aviões de guerra e fuzis, enquanto manifesto pacificamente minhas ânsias por liberdade – será que eu concordaria com uma intervenção militar estrangeira contra o tirano que dia-a-dia me massacra?
Não é a toda que os rebeldes líbios entocados em Bengasi ficaram felizes da vida após o anúncio do Conselho de Segurança da ONU. Se eu fosse um deles, também ficaria: por mais que tenha consciência de que esse tipo de ajuda nunca vem de graça e que, dali algum tempo, possa me arrepender de tê-la recebido. Imediatamente, porém, a zona de exclusão aérea é um sinal de que não mais receberei mísseis na cabeça. Como um rebelde líbio, por mais íntegro e anti-imperialista que seja, pode não comemorar uma coisa dessas?
Apesar de condenar o governo de Muamar Gadafi pela maneira como vem lidando com a oposição, o Brasil se absteve de votar a resolução do Conselho de Segurança porque enxerga que o termo “uso da força”, constante do texto, extrapola a obrigação da ONU em assegurar a observância dos direitos humanos e do direito internacional. “Do nosso ponto de vista, o texto da resolução (…) contempla medidas que vão muito além desse chamado. Não estamos convencidos de que o uso da força (…) levará à realização do nosso objetivo comum – o fim imediato da violência e a proteção de civis”, escreveu a embaixadora brasileira nas Nações Unidas, Maria Luiza Viotti. “Estamos também preocupados com a possibilidade de que tais medidas tenham os efeitos involuntários de exacerbar tensões no terreno e de fazer mais mal do que bem aos próprios civis com cuja proteção estamos comprometidos.”
Ou seja, por mais que o governo brasileiro repudie as atitudes de Gadafi, um detalhe textual, com claras implicações legais, o impediu de apoiar e dar suporte ao fim das hostilidades contra civis na Líbia. É compreensível que ninguém, muito menos um governo, deva assinar algo com o qual não concorda, mas chama atenção o fato de que em nenhum momento a embaixadora diz que o Brasil é contrário a intervenções militares de qualquer natureza. Muito pelo contrário, a carta de Maria Luiza Viotti afirma: “Levamos em conta também o chamado da Liga Árabe por medidas enérgicas que deem fim à violência, por meio de uma zona de exclusão aérea. Somos sensíveis a esse chamado, entendemos e compartilhamos suas preocupações.”
O medo do Brasil parece ser que a zona de exclusão aérea descambe para uma ocupação terrestre, com todos os riscos que contém para a geopolítica do mundo árabe, para a suposta coerência da diplomacia brasileira e, obviamente, para os civis líbios. É um receio razoável, que todos nutrimos.
Abster-se, porém, é estar do lado de quem? Abster-se é lavar as mãos para um problema que nos é alheio e para um sofrimento que não nos diz respeito? Ou é confessar que compactuamos com todas as desconfianças possíveis e imagináveis em relação às intervenções militares?
Eis uma questão que, por enquanto, me abstenho de responder.

Tadeu Breda é jornalista, colunista do NR e vive em Latitude Sul (siga no Twitter @tadeubreda)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A mídia independente depois das eleições

Foi bastante compreensiva, para não dizer providencial, a postura combativa dos meios de comunicação alternativos durante o segundo turno das eleições presidenciais brasileiras. Muitas revistas e jornais de pequena circulação, blogues e iniciativas digitais, como o 48hdemocracia, simplesmente não titubearam em vestir a camisa de Dilma Rousseff. O objetivo era claro: defender a candidata do PT contra as investidas da campanha de José Serra e as manipulações da chamada grande imprensa – para muitos, favorável ao tucano.
Pudera. Menos de um mês depois da apuração, virou clichê dizer que o processo eleitoral de 2010 ficará marcado como um dos mais pobres em discussões e ideias desde a redemocratização. A disputa pela sucessão de Luiz Inácio Lula da Silva talvez tenha sido o ponto álgido do marketing político e do oportunismo eleitoreiro. Nunca se viu marqueteiros tão poderosos a ponto de dobrar convicções ideológicas e apequená-las diante da sanha pelo poder e da caça indiscriminada de votos. Até quem nunca tinha ido à igreja ajoelhou-se e rezou para os padroeiros da opinião pública.
Na tevê, no rádio e sobretudo na internet, a campanha demo-tucana e seus apoiadores (voluntários ou não) preferiram apelar para os mais profundos preconceitos da sociedade brasileira como estratégia para angariar, através do medo, um apoio popular que nunca tiveram e reverter, pela pobreza do discurso moralista, o resultado das pesquisas, que vinham anunciando mais uma vitória do petismo.
A tática foi bastante parecida com a estratégia derrotada de 2002. Faltou apenas colocar uma estrela de novela confessando seu temor eleitoral diante das câmeras. Desta vez, porém, o PSDB resolveu ir mais fundo em seu conservadorismo e pedir socorro aos representantes de Jesus Cristo na Terra.
Todos nos lembraremos – e não devemos nos esquecer jamais – que José Serra convocou para a batalha das urnas o apoio dos setores mais retrógrados do país e pactuou com as alas extremistas tanto da igreja católica como das evangélicas. Apesar de autoelogiar seu desempenho como ministro da Saúde, o candidato aliou-se com gente que desconsidera a epidemia de aids que paira pelo mundo, a importância social do planejamento familiar e que, ainda hoje, se presta a fazer campanha contra o uso de preservativos.
José Serra praticou deliberadamente o obscurantismo em torno de temas tão polêmicos quanto importantes para o bem-estar da população, como é o caso do aborto e da união civil de homossexuais, aferrando-se ao medievalismo cristão para angariar votos entre os poucos fiéis que ainda fazem o que o padre diz. Também manipulou o papel histórico desempenhado pela resistência armada durante a ditadura militar. Sua guerrilha digital vestiu Dilma Rousseff de verde oliva e impôs-lhe um charutão a la Fidel Castro entre os dentes.
No auge da empulhação, o tucano simulou uma agressão física que nunca existiu. Tanto que sua calva seguiu lustrosa e radiante durante toda a passeata que realizou no Rio de Janeiro. A bolinha de papel pode ter doído no brio, mas não lhe feriu a cabeça.
Por fim, é digno de nota – e despreço – o renascimento da xenofobia no Brasil. Desta vez o bairrismo paulista e o ódio contra nordestinos transcendeu os ambientes privados e escapou pelo twitter. É certo que a onda de manifestações preconceituosas foi desencadeada pelas declarações de José Serra e seus asseclas, que endossaram a tese de que as eleições dividiram o país entre indivíduos pobres e incapacitados, que moram no Nordeste e votam em Dilma, versus cidadãos conscientes, que habitam as regiões mais prósperas e apertaram 45 para presidente.

Lá como cá
Muitas análises compararam a postura anti-argumentativa e preconceituosa da Coligação Brasil Pode Mais (PSDB, DEM, PPS) ao discurso revisionista do Tea Party, a grande sensação política do momento nos Estados Unidos. Nitidamente, a principal semelhança entre um e outro é a opção por fugir do debate sério e aprofundado, livre de lugares-comuns, sobre as questões mais prementes para o futuro do país.
O movimento Tea Party surgiu na esteira da vitória de Barack Hussein Obama, em 2008. A musa do movimento, Sarah Palin, foi então candidata a vice na chapa derrotada, encabeçada por John McCain. Ambos pertencem ao Partido Republicano, e foi exatamente entre seus membros que se acomodou o Tea Party. No seio conservador da América, não precisou de muito esforço para crescer. Afinal, um objetivo comum unificou os interesses da direita ianque: derrocar o primeiro negro a assumir a Casa Branca, que, não bastasse a cor da pele, ainda tem sobrenome árabe.
Na mesma semana em que o Brasil escolhia seu próximo chefe-de-estado, os estadunidenses eram chamados a definir a composição da Câmara e do Senado para os próximos quatro anos. E as eleições legislativas impuseram uma profunda derrota ao governo democrata. Mais que um mero fracasso político de Barack Obama, o evento significou o maior fiasco de um presidente em influenciar a composição do parlamento desde 1938. Os democratas perderam a maioria entre os deputados, que haviam conseguido durante a administração George W. Bush, e viram sua vantagem minguar a um empate técnico entre os senadores.
A estratégia dos republicanos, capitaneados pelo Tea Party, foi bastante clara. Acusaram o presidente de ser um marxista empedernido, de praticar secretamente o Islã, de querer aumentar o poder e a influência do estado na vida dos cidadãos e de internalizar valores tribais herdados de seus antepassados quenianos. Para a direita, Barack Obama não está imbuído dos princípios americanos.
O Tea Party abominou a reforma democrata no sistema de saúde e rechaçou o pacote econômico lançado pela Casa Branca para aliviar os efeitos da crise no país. Aliás, num enorme esforço de desinformação, a ala mais conservadora dos conservadores estadunidenses atribuiu ao presidente toda a responsabilidade pela recessão – senão pelas suas causas, pelo fracasso em paliar suas consequências.
Na terra do Tio Sam, portanto, o Tea Party já conseguiu colher expressivos resultados eleitorais e ninguém duvida que sua retórica tresloucada imporá novas derrotas políticas ao governo democrata. Com a guinada republicana e a ascensão dos radicais de direita, Barack Obama ficou engessado na presidência.
A reforma no sistema de saúde corre o risco de morrer de inanição pelo boicote anunciado à assignação de recursos. E a política externa obamista, que tem buscado mais diálogo do que Washington estava acostumado e que rendeu ao presidente um prematuro prêmio Nobel da Paz, pode voltar a adotar o bordão “nós ganhamos, eles perdem”.
O esperançoso bordão Yes We Can, que uniu forças progressistas em torno da figura de Obama e de suas promessas de mudança, fatalmente se transformará num lema inócuo quando encontrar a barreira montada pela oposição no Congresso.

Risco de retrocesso
O caso dos Estados Unidos demonstra que as táticas de manipulação e preconceito político sim podem influenciar no resultado das eleições e destruir, do dia para a noite, projetos nacionais que levaram décadas para serem postos em prática.
No Brasil ainda não existe um movimento conservador com tanto apelo popular, mas o PSDB se aproximou perigosamente da baixaria do Tea Party neste segundo turno. Basta lembrar que José Serra saiu por aí frequentando missas, beijando santos, lendo a Bíblia e distribuindo panfletos com os dizeres “Jesus é a verdade e a justiça”. Enquanto encarnava o papel de missionário, dava sermões sobre seu papel de redentor das liberdades civis no país, sobretudo da liberdade de imprensa, que estaria em risco no caso de mais uma vitória do PT.
Entre seus cabos eleitorais, estava o bispo de Guarulhos, dom Luiz Bergonzini. Por intermédio de um militante da causa monarquista, o religioso mandou imprimir folhetos com o logo da CNBB condenando o aborto e sugerindo o voto no tucano. O papa Bento 16, às vésperas do pleito e com ampla cobertura dos meios de comunicação, também deu um empurrãozinho na candidatura do PSDB. No flanco evangélico, o apóstolo Renê Terra Nova não poupou esforços para viajar o Brasil com seu jatinho semeando a palavra de deus travestida de propaganda serrista.
O segundo turno forjou um cenário eleitoral em que os avanços sociais e democráticos alcançados durante o governo Lula foram repentinamente laçados à berlinda das urnas. Dois caminhos estavam à disposição dos brasileiros. Com Dilma, poderíamos seguir uma rota semelhante à trilhada nos últimos 8 anos e, por ventura, aprofundar as mudanças. Com Serra, o retrocesso batia à porta, exposto pelas alianças costuradas pelo PSDB na tentativa de vencer a qualquer custo.
Foi então que a imprensa alternativa reagiu prontamente. Cada ataque da campanha de José Serra ou do noticiário tucanófilo era acompanhado de uma enxurrada de contrapontos, argumentos, fatos e imagens, veiculados pela internet, por jornais ou revistas de esquerda. Talvez o maior exemplo da capacidade de resposta dos meios alternativos tenha sido a determinação dos blogues em destruir a farsa montada pela Rede Globo ao redor da bolinha de papel.
Houve vítimas pelo caminho, claro. A psicoanalista Maria Rita Kehl, que até o segundo turno escreveu para o jornal O Estado de S. Paulo, foi demitida após defender o Bolsa-Família e criticar as correntes anti-nordestinas que pipocavam nas caixas de e-mail pelo Brasil afora. O semanário CartaCapital foi chamado a explicar perante a Justiça os contratos de publicidade que mantém com o governo federal. A Revista do Brasil foi censurada pelo TSE após estampar o rosto de Dilma Rousseff na capa de sua edição de outubro, publicada uma semana depois do primeiro turno.
A polarização era tanta que teve jornalista demitido até no Ceará. Seu pecado foi publicar um caderno especial sobre o intelectual franco-brasileiro Michael Löwy e dois livros de sua autoria: Revoluções e Aviso de Incêndio. Também houve repórteres hostilizados durante o exercício da profissão. Foi com um raivoso “pelego filho da puta” que Aloysio Nunes Ferreira, senador eleito por São Paulo, recebeu um trabalhador da imprensa alternativa por demais insolente ao ponto de querer entrevistá-lo.

Depois da militância
A mídia alternativa desempenhou um duplo papel durante as eleições: não só cumpriu com suas obrigações jornalísticas ao desfazer manipulações, combater preconceitos e oferecer diferentes pontos de vista sobre os fatos, como também atuou política e partidariamente com o objetivo de garantir a vitória de uma candidatura que, a seu juízo – e o segundo turno deixou poucas dúvidas disso –, representava a melhor opção para governar o país. Na maioria das vezes, foi feliz e matou estes dois coelhos com uma cajadada só.
Contudo, passado o susto de uma ressaca conservadora que não aconteceu, talvez seja o momento de jornalistas independentes e meios de comunicação alternativos reavaliarem seu posicionamento no teatro do bem e do mal da política brasileira. Afinal, qual é a linha que separa o chapa-branquismo da defesa do interesse público?
No segundo turno de polarizações eleitorais, criticar as vicissitudes do governo Lula ou as deficiências de Dilma Rousseff era dar munição à violenta campanha montada pela oposição. Por isso, às vésperas do pleito, a corrida presidencial ganhou ares de jogo de futebol. Se os brasileiros deixamos de ser cidadãos e fomos transformados em torcida organizada, o jornalismo seguiu o mesmo rumo: era PT ou PSDB, Gaviões da Fiel ou Mancha Verde, sem meio termo.
Qualquer desconfiança quanto à própria escolha significava ceder à “superioridade” do adversário. A política deu lugar à paixão. E, entre apaixonados, no esporte ou nas eleições, não há diálogo nem entendimento. Tampouco autocrítica: afinal, não se critica o próprio time na final de um campeonato. O atacante pode estar fora de forma e o técnico, ser um energúmeno. O que importa é ganhar.
Dilma ganhou e, felizmente, a peleja chegou ao fim. Como sempre, depois de um processo eleitoral, agora há um país a construir e que tem que dar certo para a maioria. Em tempos de paz, talvez não seja papel do jornalismo – nem do tradicional nem do alternativo – vestir a camisa deste ou daquele partido. Isso não quer dizer que temos de ressuscitar os mitos enterrados da imparcialidade. Tomar partido em épocas de polarização, como vimos, é saudável. Porém, submeter-se aos ditames de um grupo político a tempo completo pode ser danoso.
Em última análise, não há qualquer mal intrínseco em transformar-se no porta-voz de um projeto de poder. Nas democracias mais maduras, as forças partidárias estão bem representadas na imprensa. Na Espanha, o El País mantém relações com o PSOE. Nos Estados Unidos, os democratas estão mais presentes no New York Times. O Il Manifesto, da Itália, não esconde sua preferência comunista. Esta é uma opção legítima para externar à sociedade como uma agremiação política vê o mundo e interpreta a realidade. Da mesma maneira que, no Brasil, os grandes meios de comunicação se identificam com as pautas liberais e com as candidaturas mais conservadoras, como as do PSDB, é saudável que o PT e todos os demais partidos, à medida que ganhem força, também tenham aliados na trincheira midiática.
Entretanto, já passou da hora de jornalistas e meios de comunicação independentes (ou pelo menos os que desejem denominar-se como tais) assumirem papel protagônico no cenário informativo brasileiro. Entre blogueiros e profissionais que ganham a vida fora do eixo tradicional, há capacidade de sobra em braços e cabeças para elaborar uma cobertura livre das amarras mercadológicas e da estreiteza temática da opinião pública.
A internet oferece milhões de possibilidades para a criação de novos paradigmas informativos em áudio, texto, vídeo e imagens, ou na fusão simultânea de todas as mídias, tudo a baixo custo. E há pautas suficientes para preencher um novo noticiário permanente que consiga abarcar, com qualidade técnica e estética, os temas de maior interesse à sociedade nacional e internacional – sobretudo os que não estão ou não encontram na imprensa de massa o espaço que merecem.
Não há razões, portanto, para que os jornalistas independentes se restrinjam ao papel subalterno de combater as infinitas distorções da grande mídia. Estar atento para o que acontece no main stream sempre foi e continuará sendo importante. Afinal, é através do Jornal Nacional, da Veja e dos jornalões que se constrói o senso comum no país. E, ao desconstruir a visão de mundo que diariamente penetra nos lares brasileiros, o jornalismo alternativo oferece novas maneiras de enxergar os fatos, as fotos e as declarações.
Continuar nesta trilha, porém, é ficar à reboque da pauta tradicional – ainda que seja um reboque às avessas. Assim, os veículos da imprensa alternativa correm o risco de se transformar em observatórios de mídia: darão um passo para fora do jornalismo e assumirão funções de críticos, o que já é feito há muito tempo por alguns acadêmicos e, claro, pelo Observatório da Imprensa.

O salto da reportagem
Chegamos ao limite da crítica. O jornalismo alternativo precisa mudar de patamar se quiser continuar existindo de maneira independente e cercar-se de legitimidade social. Porque o melhor combate à grande imprensa se dá oferecendo ao público um conteúdo melhor, que traz em cada manchete o ideal que se revela nas entrelinhas da crítica: opiniões menos superficiais, matérias mais completas, pautas que problematizem a realidade ao invés de simplesmente reproduzi-la ou contrapô-la pelo automatismo cotidiano.
O grande filão do jornalismo independente é a reportagem, que hoje em dia foi colocada em segundo plano pela imensa maioria dos meios de comunicação tradicionais. E por um motivo bastante simples: realizar investigações jornalísticas é muito caro e traz pouco resultado comercial. Aliás, uma boa reportagem muitas vezes atenta contra o mercado publicitário, pois tem a nobre vocação de chafurdar fundo nas mazelas sociais que via de regra põem em xeque o interesse de empresas, instituições ou governos — enfim, os anunciantes em potencial. A reportagem precisa de dinheiro tanto quanto tem o potencial de repeli-lo. Eis a grande sinuca de bico do jornalismo independente hoje.
Assumir uma postura governista durante a gestão do PT pode dar sobrevida econômica aos meios de comunicação alternativos. Não foi à toa que, durante o governo Lula, o Brasil assistiu à diversificação política da imprensa. Antes dominado por conglomerados empresariais, hoje o noticiário brasileiro é mais plural. Os últimos 8 anos ampliaram a liberdade de comunicação e expressão no país, o que é motivo de comemoração, mas ainda estamos longe do ideal.
Nenhum cidadão ficará satisfeito com a divisão da comunicação social entre veículos pró-PT, pró-PSDB ou pró-qualquer-coisa. O jornalismo independente é um serviço público e deve advogar em causa própria. E a causa da imprensa livre foi e sempre será o interesse da maioria da população — ou da fatia social que ela se diz representar. Direitos humanos, justiça social, preservação do meio-ambiente, bem-estar coletivo e liberdades civis são alguns dos valores que podem nortear o ofício de informar.
É a partir deles – e, eventualmente, de sua ampliação e radicalização – que o jornalismo pode escolher criticar ou elogiar governos e desgovernos pelo mundo afora. Elogiar, porém, me parece bastante complicado, já que sempre é possível para a administração pública fazer mais e melhor. Talvez seja a sina do jornalista independente estar permanentemente na oposição, não porque desprecie tudo o que existe ou não seja capaz de reconhecer avanços, mas porque não deve descansar enquanto houver qualquer rastro de injustiça e desigualdade no planeta. É longo o trabalho que tem pela frente: revelar o que está escondido, trazer à tona o que foi submerso pela indiferença cotidiana, discutir o que normalmente não se discute.
Felizmente, a internet está aí para servir-nos. O grande desafio, quem sabe, seja saber como podemos remunerar e possibilitar vida digna aos jornalistas capazes e dispostos a serem independentes. Afinal, por mais autônomo que consiga ser, ninguém escapa da ditadura das contas.

Tadeu Breda é jornalista, colunista do NR. Mantém o blog Latitude Sul.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O petróleo vem do plástico, certo?

Certo! Bom, antes não era assim, mas agora é. Faz um ano já, quer dizer, mais. Uma empresa japonesa Blest criou uma maquininha que transforma embalagens, tampinhas e garrafas plásticas em derivados de petróleo. É como se fosse uma panela de pressão, só que, em vez de feijão, você coloca plástico. É só botar a quantidade recomendada pelos fabricantes, fechar bem a tampa, ligar na tomada, esperar um pouquinho e - como diria Chaves - zaz!O aparelho vai esquentar e derreter tudo ali dentro. O gás tóxico resultante do processo é levado para um reservatório de água acoplado ao equipamento, resfriando-se instantaneamente, sem soltar aquele cheiro desagradável. Parece milagre, não? Veja o vídeo:




Um quilo de plástico se transforma em um litro de óleo, com o gasto energético de 1 kilowatt. Bom, na verdade não é todo tipo de plástico que pode ser colocado dentro da máquina. E também não é todo tipo de derivado de petróleo que resulta do processo. Dá para derreter e transformar polipropileno, polistireno e polietileno. Garrafa PET, infelizmente, não rola. O óleo que sai da panela vem em estado bruto. Isso quer dizer que, para colocar no tanque do carro ou da moto, teria que refinar antes. Mas, ainda assim, pega fogo que é uma beleza: dá pra acender churrasqueira e fazer funcionar um gerador, por exemplo.
O presidente da empresa, Akinori Ito, deu uma entrevista para o saite da UN University sobre o assunto -- UN é de Nações Unidas. E disse que a grande importância de sua invenção é que, reconvertendo plástico em petróleo, a gente não corre mais o risco de que esse plástico seja queimado e lance um monte de porcaria na atmosfera.
“If we burn the plastic, we generate toxins and a large amount of CO2. If we convert it into oil, we save CO2 and at the same time increase people’s awareness about the value of plastic garbage.”
O sr. Ito diz que fez a máquina para que as pessoas possam usar em casa. Por isso é tão pequena e manejável. Segundo o inventor, seu sonho é que, um dia, na melhor tradição da reciclagem, nossos lares se transformem nos futuros campos de petróleo e vice-versa. Então não será mais necessário perfurar poços pelo mundo afora, muito menos nas florestas tropicais.
Hoje, porém, o preço da máquina ainda é um pouco salgado: a versão mais simples, essa que aparece no vídeo, custa 9 mil dólares. Mas, como toda novidade tecnológica que surge por aí, a tendência é baratear. E a empresa garante que está trabalhando para que todos possam derreter plástico e transformá-lo em óleo ao invés de jogá-lo no lixo.
Mais informação sobre a invenção japonesa você encontra neste saite aqui: Our World 2.0, mantido pela UN University. Lá você também encontra uma série de vídeos e informação sobre outros projetos espalhados pelo mundo que tantam ajudar a resolver os problemas do clima, petróleo, alimentação e biodiversidade. Vale a pena, mas está em inglês.

Tadeu Breda é colunista do Nota de Rodapé e vive em Latitude Sul.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A travessura de Plínio

Plínio conseguiu romper o anonimato
O twitter imita a vida — ou melhor, tenta contrariá-la. É assim, pelo menos, quando o assunto é a cobertura midiática da campanha presidencial de 2010 no Brasil.
Plínio, Marina, Serra e Dilma aparecem com mais ou menos frequência na televisão, no rádio, nos jornais e nas revistas de grande circulação e impacto na opinião pública. Claro, a candidatura de cada um também é abordada com diferentes enfoques, dependendo da posição política e dos interesses de quem publica. Não é novidade para ninguém que os candidatos do PT e do PSDB são os favoritos da imprensa — estes mais do que aqueles.
Serra e Dilma estão na dianteira em todas as pesquisas de opinião e diariamente ganham manchetes país afora. Marina aparece em terceiro lugar nas intenções de voto e também na preferência dos jornalistas. O raciocínio segue com o representante do PSOL, em quarto, chamando muito pouca atenção dos holofotes. Há outros concorrentes, claro, mas a liberdade de imprensa vigente no Brasil não tem espaço para sua insignificância eleitoral.
Talvez pela distribuição desigual de atenções, Plínio de Arruda Sampaio é, de longe e de perto, o postulante ao Planalto que mais recorre ao Twitter. Depois vem Marina Silva, seguida por José Serra e Dilma Rousseff. O ranking dos presidenciáveis tuiteiros é exatamente oposto ao espaço que cada um deles — seja pela letra da Lei Eleitoral, seja pela vontade da imprensa — possui junto aos meios de comunicação.
Plínio está vidrado nesta (já não tão) nova ferramenta da internet. Antes da campanha deslanchar, já anunciava no YouTube sua adesão ao serviço gratuito que permite disseminar mensagens de até 140 caracteres diretamente a quem quiser ou puder lê-las. E lá se vão mais de duas mil, escritas de próprio punho ou pelos dedos da assessoria do PSOL. Os assuntos são variados. Plínio comenta os debates, reforça suas propostas de campanha, critica seus adversários e responde os internautas que lhe perguntam sobre tudo. Como só tem tempo de tuitar tarde da noite, batizou sua atividade internética noturna de Comando da Madrugada.

Tuitaço
Mas o grande feito do Plínio tuiteiro aconteceu no debate organizado em conjunto pelo jornal Folha de S. Paulo e pelo portal UOL. Foi o primeiro evento do tipo transmitido ao vivo pela rede. Ao contrário do que aconteceu na Bandeirantes e, mais recentemente, na TV católica Canção Nova, o candidato do PSOL simplesmente não foi convidado. Porém, marcou presença. Como? Pelo Twitter, oras. Plínio lançou mão da twitcam, uma ferramenta que permite ao tuiteiro tuitar, em tempo real, com voz e imagem, através de uma câmera instalada no computador. Como o debate da Folha/UOL se deu integralmente na internet, o candidato excluído se fez notar como um internauta qualquer que estivesse participando e interagindo com os debatedores oficiais.
Mas, claro, não se tratava de um internauta qualquer, e sim de um presidenciável. A travessura de Plínio, portanto, foi além.
“Para surpresa geral, o número de pessoas interagindo com o candidato do PSOL pela twitcam chegou a superar a quantidade de participantes das salas de bate-papo do debate Folha/UOL. O fato foi registrado pelos serviços de informação disponibilizados pela internet”, comenta o próprio candidato num artigo publicado na edição online da revista CartaCapital.
Empolgado, Plínio até criou um neologismo para resumir seu êxito cibernético contra o bloqueio dos grandes meios de comunicação: tuitaço.
Num país como o Brasil, em que a internet chega a apenas 50 e tantos por cento dos domicílios, o tuitaço de Plínio pode parecer empolgação barata de um candidato de um partido sem base social, que não tem a menor chance de vencer as eleições e que, exatamente por isso, se contenta em celebrar como grandes conquistas pequenos episódios isolados e sem maiores impactos no pleito de outubro.
Mas é importante levar em consideração o fato de que “nunca antes na história deste país” um candidato rotulado como nanico e com uma porcentagem sofrível de intenções de voto conseguiu impor sua participação, ainda que de forma paralela e extra-oficial, num debate presidencial. Até porque, antes do aparecimento das novas ferramentas da internet, Twitter entre elas, entrar de bicão no circo midiático eleitoral era tarefa impossível. O feito de Plínio foi ter reconduzido, ainda que timidamente, as ideias e posições políticas ao centro do debate, passando ao largo dos desígnios dos grandes meios de comunicação. Se o tuitaço teve mais audiência que o programa em si, é porque o candidato do PSOL tinha algo a dizer. E havia gente interessada em ouvi-lo.
A Folha e o UOL quiseram limar Plínio do debate que promoveram na internet e, além de não terem conseguido, não tiveram como detê-lo. Por isso, o presidenciável pode ter razão ao escrever que “as forças democráticas da nação precisam se debruçar sobre o fenômeno, porque ele pode representar um instrumento poderosíssimo para ajudar a reverter o sombrio panorama da política mundial neste inicio de século.”
É esperar (e agir) pra ver, levando em conta que o Plano Nacional de Banda Larga está prestes a arrancar e difundir um pouco mais a internet no Brasil.



Tadeu Breda é jornalista, colunista do NR e vive em Latitude Sul.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A pequena revolução de Pepe

Depois dessa última reunião de cúpula da União de Nações Sulamericanas (Unasul) ficou claro que pelo menos um dos 12 chefes de estado que compõem o bloco deseja realmente materializar a integração regional. E isso passando por cima de interesses políticos domésticos.
Seu nome é José Mujica, também conhecido como Pepe, o presidente do Uruguai. Mujica surpreendeu a todos manifestando voto favorável ao nome de Néstor Kirchner para ocupar a secretaria-geral da Unasul.
Já há alguns anos o nome do ex-presidente argentino vinha sendo cotado para assumir o cargo. Trabalhavam por ele, além da chancelaria portenha, os bons ofícios de Hugo Chávez, Luiz Inácio Lula da Silva e Rafael Correa, atual presidente pro-tempore do organismo.
Kirchner foi eleito para comandar a Argentina em 2003, na esteira das manifestações populares que derrubaram dois presidentes – Eduardo Duhalde e Fernando de la Rúa – devido às dificuldades econômicas atravessadas pelo país no final dos anos 90. Os protestos ficaram conhecidos como panelazos, e pode-se dizer que Kirchner, decretando moratória ao FMI, reequilibrando os investimentos sociais e colocando um freio às reformas da cartilha neoliberal, conseguiu amansar seus concidadãos e reestabilizar politicamente a Argentina.
Enquanto estava à frente da Casa Rosada, El Pingüino era um dos integrantes da chamada “esquerda sulamericana”, rótulo utilizado para simplificar o fenômeno que no começo do século 21 levou candidatos de origem popular ou inspiração socialista aos governos de praticamente toda a região, com a exceção de Colômbia e Peru.
Kirchner, porém, se envolveu numa peleja com seu colega – e também membro da “esquerda sulamericana” – Tabaré Vázquez, do Uruguai. Tudo devido à construção de uma fábrica de papel e celulose às margens do rio Uruguai, que divide os dois países. Em 2004, precisando criar postos de trabalho, o governo uruguaio do então presidente Jorge Battle recebeu de braços abertos a companhia finlandesa Botnia quando a transnacional decidiu se instalar na localidade de Fray Bentos, a poucos quilômetros da Argentina.
Quem não gostou foram os habitantes de Gualeguaychú, que fica do lado de lá do rio. Sob a alegação de que a fábrica iria poluir as águas binacionais, degradar o meio ambiente e prejudicar o consumo humano, os argentinos protestaram, exigindo que a usina fosse realocada para longe dali. Não adiantou. A Botnia fechou os olhos para a queixa das ongs, sindicatos e movimentos sociais argentinos, que em resposta – e na melhor tradição piquetera – fecharam a ponte General San Martín, que liga os dois países, em 2006.
O caso foi se agravando e agravando até envolver os governos de Buenos Aires e Montevidéu. Sem conseguir chegar a um acordo com os vizinhos ou segurar a fúria de seus cidadãos, a Casa Rosada levou a briga para o Tribunal Internacional de Haia. Isso aconteceu em 2007. Desde então a ponte está fechada, e nem mesmo a decisão da corte holandesa, anunciada em abril, demoveu os argentinos de sua luta.

Toma lá da cá
Após três anos de deliberações, os magistrados de Haia chegaram a duas conclusões aparentemente contraditórias. De um lado, reconheceram que o Uruguai, ao admitir a instalação da fábrica, violou o acordo assinado com a Argentina sobre a administração e utilização das águas binacionais. Ponto para os manifestantes. Por outro lado, porém, o tribunal entendeu que a atividade da Botnia não está prejudicando o meio ambiente nem poluindo o rio. Ponto para o Uruguai.
Jogo empatado, portanto. E, como não cabe recurso da decisão, a companhia continua produzindo celulose e a ponte segue fechada.
Tabaré e Kirchner jamais voltaram a se olhar nos olhos desde que Buenos Aires decidiu levar a demanda para a corte internacional. Uma pequena crise diplomática se havia instalado, e não deixaria de existir nem mesmo depois que Néstor deixou a Casa Rosada, dando lugar a sua esposa, Cristina Fernández. Tabaré deixou em banho-maria as relações bilaterais com a Argentina até o último dia de seu mandato. Então vieram novas eleições e José Mujica, ex-guerrilheiro e vegetariano, assumiu o posto.
Mesmo sendo do mesmo partido de seu sucessor, o Frente Amplio, já na campanha Mujica revelou uma postura mais maleável perante a crise com os vizinhos. Tanto que, após vencer as eleições, fez uma visita de cortesia a Cristina quando a presidenta esteve em Montevidéu para uma cúpula regional. Tabaré jamais haveria praticado tamanha gentileza. Por sua vez, Cristina desocupara temporariamente a ponte que liga os dois países no dia das eleições que elegeram o ex-tupamaro, permitindo aos uruguaios que vivem do lado de lá da fronteira cruzarem o rio mais facilmente para votar.
Então já estava claro que Mujica poderia dar passos significativos para resolver a crise com a papelera. E a prova disso veio nesta terça-feira, 4 de maio, durante a reunião dos chefes de estado da Unasul em Campana, uma pequena cidade localizada na… Argentina.
Há tempos o grupo queria instituir uma secretaria-geral que se dedicasse exclusivamente aos infinitos problemas da integração sulamericana. E o nome que surgira naturalmente entre os presidentes da região foi o de Néstor Kirchner. Entretanto, como a Unasul antes de mais nada é um fórum de concertação política, todas as decisões devem ser tomadas por consenso. Não é necessário dizer que Tabaré Vázquez, enquanto dirigia o Uruguai, era radicalmente contra a designação de Kirchner para o cargo. Mujica não.
“He tomado la decisión de acompañar el consenso de todos los presidentes y de dar prioridad a la integración de América Latina”, disse o chefe de estado uruguaio, ressaltando que a decisão havia sido tomada de livre e espontânea vontade. “No ponemos condiciones ni nadie nos las ha pedido”.
O fato de ter votado em Kirchner não quer dizer, obviamente, que Mujica se rendeu às pressões argentinas ou que irá retirar a Botnia das margens do rio Uruguai. Como ele próprio afirma – ainda que não com essas palavras –, sua decisão é um sopro de vida à integração. É uma aposta na ideia de que os vizinhos sulamericanos podem superar as pequenas rusgas diplomáticas que sustentam entre si para estreitar cada vez mais os laços políticos, econômicos, militares e sociais. “Hay contradicciones muy fuertes [na crise entre os dois países] y, políticamente, a este presidente le cuesta el paso que va a dar, pero aun así he decidido apostar por la buena fe en nombre de nuestra pequeña nación”.
Claro que as questões que desde a época de Simón Bolívar limitam a integração latinoamericana são muito mais complexas do que podem sugerir este pequeno post. Mas oxalá a atitude de Mujica sirva de exemplo para os presidentes de Equador, Colômbia, Venezuela, Peru e Chile – todos envolvidos já há algum tempo em crises bilaterais que até agora não encontram solução à vista.

Tadeu Breda é jornalista, colunista do Nota de Rodapé e também vive em Latitude Sul

terça-feira, 20 de abril de 2010

Inativos hoje, radioativos amanhã?

Começou em Cochabamba, na Bolívia, a Conferência Mundial dos Povos sobre Mudança Climática e os Direitos da Mãe Terra — CMPCC, na sigla em castelhano. O evento foi convocado pelo presidente Evo Morales poucas semanas após o fracasso da COP-15, em Copenhague, que reuniu os líderes do mundo inteiro mas não chegou a nenhum acordo sobre o combate ao aquecimento global.
Poucos chefes de estado ou governo, porém, assistirão à CMPCC. O presidente boliviano deve receber a visita apenas de seus maiores aliados estratégicos regionais: Hugo Chávez, Rafael Correa, Fernando Lugo e Daniel Ortega. Todos eles integram a Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA), tiveram uma atuação semelhante durante a cúpula da Dinamarca e defendem que nenhuma política para mitigar o aquecimento global será efetiva dentro do capitalismo. Porque, ora bolas, é o próprio sistema que vem destruindo a natureza.
Alguns jornais chamaram a CMPCC de “Woodstock climático”. Eu prefiro fazer um paralelo com o Fórum Social Mundial, que surgiu para contrapor o discurso hegemônico do Fórum Econômico Mundial. Podemos dizer que as Conferências das Partes (COP) promovidas pelas Nações Unidas para discutir a mudança climática é como se fosse uma “Davos ambiental”, enquanto a nova CMPCC é muito mais Porto Alegre.
Na COP se reúnem empresários, lobistas e chefes de estado, que podem até impulsionar acordos para preservar a natureza, mas sempre acabam esbarrando em interesses políticos e econômicos que falam mais alto. Na CMPCC estarão presentes ongs e ativistas — e alguns presidentes, além de representantes de governo — que propõem e defender uma mudança de postura no que diz respeito à catástrofe climática. E já, pra ontem, porque o planeta não pode esperar.
“As coisas estão caminhando numa direção errada. Os governos sabem disso, os cientistas sabem disso, mas nada estão mudando”, disse Pablo Solón, embaixador da Bolívia nas Nações Unidas, em entrevista ao Guardian. “Esse é o único cenário para fazer um balanço entre a pressão que as grandes corporações estão colocando sobre os governantes e a pressão que pode emergir da sociedade civil.”
A CMPCC é uma significativa oportunidade dada aos povos de todo o mundo — sobretudo aqueles cujas opiniões são esquecidas ou ignoradas pelo poder hegemônico — para que se façam ouvir. Os discursos em torno da crise ambiental são, digamos, unidimensionais, na medida em que apenas conseguem conceber saídas ao aquecimento global dentro da ordem política e econômica vigente. É a insistência na manutenção das noções capitalistas de riqueza, crescimento e desenvolvimento que tem produzido abstrações esquizofrênicas para salvar o mundo da tragédia, como o mercado internacional de carbono, que faz cálculos inimagináveis para atribuir valor monetário a algo tão óbvio como a preservação ambiental.
Preservar a natureza, uma atitude gratuita, custa muito dinheiro dentro do capitalismo. Portanto, algo está errado.
É este recado, cuja inspiração parte do mundo indígena, que a CMPCC quer repassar ao mundo, uma vez que os líderes mundiais voltarão a discutir o aquecimento terrestre em dezembro de 2010, no México. Evo Morales também pretende que a Conferência seja o ponto de partida para um plebiscito mundial sobre o aquecimento climático, um instrumento que possa recolher a vontade da sociedade global sobre as políticas que estão — e principalmente as que não estão — sendo adotadas para combater a devastação.
As propostas centrais da CMPCC guardam estreita relação com muitos dos artigos e reportagens publicados aqui em Latitude Sul ao longo desse ano e pouco de atividade. São gritos para que a devastação seja interrompida de uma vez por todas, para que as florestas deixem de ser derrubadas, que os rios deixem de ser poluídos e o ar, contaminado, porque só assim poderemos viver em harmonia com a natureza, e não apartados dela, porque a ela pertencemos. E, caso a economia deixe de crescer por causa disso, então é hora de reinventar nossos padrões de bem-estar e dignidade.
Porque talvez valha mais a pena viajar menos, trabalhar menos e, consequentemente, ter menos conforto para usufruir de um ar com menos partículas pesadas, de uma água sem cloro e de florestas nativas. E, sobretudo, para que o mundo seja menos injusto. É uma escolha.

>> Notícias sobre a CMPCC podem ser acompanhadas, em espanhol, no saite oficial da conferência e também, em inglês, na cobertura do jornal inglês Guardian.

Tadeu Breda é jornalista e colunista do Nota de Rodapé. Também vive em Latitude Sul

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Esquerda extrativista

Eleitos com a promessa de promover um novo capítulo na história da América Latina, os governos de esquerda não tocam no que, para muitos, é o ponto nevrálgico na construção de uma nova realidade: o modelo de desenvolvimento primário-exportador
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha às vésperas da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, em Copenhague, constatou que apenas 5% dos brasileiros veem o aquecimento global como o grande problema do mundo. Uma fatia ainda menor da população, em torno de 1%, acredita que a preservação da biodiversidade deve ser priorizada pelas políticas públicas. Urgente mesmo, diz o levantamento, é combater a pobreza, a violência e a fome.
Os resultados da pesquisa refletem o raciocínio que move os governos da chamada esquerda sul-americana na hora de pesar as necessidades aparentemente conflitantes de preservação ambiental e crescimento econômico.
Desde a vitória de Hugo Chávez, em 1998, à de Fernando Lugo, em 2008, a onda eleitoral que conduziu ao poder candidatos de origem popular e ideias socializantes tinha como objetivo colocar um freio às políticas neoliberais. O Estado almejou, assim, reduzir a dependência externa e retomar as rédeas da economia. “Havia esperanças de que a nova esquerda promovesse mudanças substanciais no modelo de desenvolvimento, até então baseado na exportação de produtos primários”, lembra Eduardo Gudynas, pesquisador do Centro Latino-Americano de Ecologia Social (CLAES), em Montevidéu.
Isso não aconteceu. A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) aponta que os produtos primários ainda são responsáveis por mais da metade do volume das vendas externas das nações agora dirigidas por governos ditos progressistas. O destaque fica com os recursos minerais e grandes monocultivos. O país menos dependente das commodities é o Brasil, que, mesmo assim, apoia 51% de sua economia sobre o extrativismo. Já a Venezuela sustenta 89% de sua balança comercial com as rendas do petróleo.
Gudynas acrescenta que os novos governos sul-americanos não apenas reforçaram as atividades primárias como também abriram novos campos de operação extrativista e agroindustrial. “É o caso da mineração no Equador, o apoio a um novo ciclo de exploração do ferro na Bolívia e o forte protagonismo estatal em promover o crescimento mineiro no Brasil e Argentina, enquanto a esquerda uruguaia se aventura na prospecção petroleira”, explica.

O xis da questão
À primeira vista pode ser difícil perceber os efeitos colaterais do negócio primário-exportador. Afinal, se as vendas externas crescem ano a ano, isso se traduz em cada vez mais dólares para a economia. E os países latino-americanos estão sempre necessitando de dinheiro: ninguém duvida que ainda há muito a ser feito em termos de educação, saúde, moradia, geração de empregos etc.
No entanto, de acordo com o economista equatoriano Alberto Acosta, desde a época da colonização as finanças regionais estiveram apoiadas sobre a exploração de produtos primários. E, ao longo dos séculos, esse tipo de atividade não foi capaz de trazer desenvolvimento humano à maioria dos latino-americanos, embora tenha produzido crescimento econômico. O último relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) coloca os países do continente em posições bastante intermediárias no ranking mundial do bem-estar. O Brasil, por exemplo, apesar de estar entre as dez maiores economias do mundo, só aparece na 75a posição.
“Seguimos acreditando, equivocadamente, que desenvolvimento é sinônimo de crescimento, e que a maneira mais fácil de alcançá-lo é através da exportação de recursos naturais”, lamenta Acosta. “Os governantes não devem apenas conseguir equidade social, aprofundar a democracia e superar o Consenso de Washington. Tudo isso é indispensável e fundamental, mas a verdadeira mudança radica em transformar a maneira como olhamos para os recursos naturais.”
O Equador deu passos importantes nesse sentido ao aprovar em 2008 uma Constituição que reconhece direitos à natureza e condiciona o progresso econômico e social a uma relação não-destrutiva com os ecossistemas. A regra é utilizar os recursos provenientes do meio ambiente numa intensidade tal que lhe permita recuperar-se dos danos ocasionados e seguir seus próprios ciclos vitais. O pequeno país andino é o primeiro a enxergar a natureza como um sujeito de direitos e não apenas um objeto de propriedade.
Imbuídos da nobre motivação de combater a pobreza, os governos da nova esquerda latino-americana se encontram às voltas com um dilema. Em tempos de crise ambiental e mudança climática, são moralmente forçados a adotar políticas de preservação da natureza, redução do efeito estufa, contenção do desmatamento e adoção de tecnologias limpas. Ao mesmo tempo, o compromisso histórico assumido durante as campanhas eleitorais obriga a mitigar a pobreza e reduzir o abismo social que separa ricos e pobres no continente mais desigual do planeta.

Antes, a pobreza
A primeira opção parece ter sido o combate à miséria. E, para levá-lo a cabo, o poder público necessita de recursos financeiros, já que o modelo escolhido para aliviar a fome, aplacar o trabalho infantil e reanimar as economias locais descansa sobre programas de transferência de renda. Lula criou o Bolsa Família. Na Bolívia se instaurou o Bônus Juancito Pinto. Os uruguaios contam com o Plano de Assistência Nacional à Emergência Social. No Equador apareceu o Bônus de Desenvolvimento Humano, e a Argentina deu início ao Programa de Famílias. Há também o Chile Solidário.
Como o Estado voltou a assumir um papel mais protagônico na economia, há mais dinheiro em caixa. A Bolívia é um caso exemplar. Quando nacionalizou o gás e o petróleo, em 2006, Evo Morales subiu para 50% a tributação sobre os hidrocarbonetos. A renegociação dos contratos e a reativação da estatal YPFB ajudaram a mudar o quadro econômico. O PIB boliviano foi duplicado e atinge os US$ 19 bilhões, as reservas internacionais se incrementaram, a inflação está controlada e o câmbio, estabilizado. “Deixamos de ser o país mais pobre da América do Sul”, comemora o ministro da Economia, Luis Arce.
Os novos recursos permitem aos governos repassar à parcela mais pobre da população uma parte dos excedentes obtidos com o extrativismo e, assim, remediar os efeitos da pobreza. “O estado busca captar excedentes provenientes do extrativismo e, ao utilizá-los em programas sociais, consegue legitimidade para defender as atividades extrativistas”, analisa Eduardo Gudynas. “As ações sociais necessitam um crescente financiamento e, portanto, os governos se tornam dependentes da exportação primária para captar recursos financeiros.”

O mesmo diferente
As empresas estatais, porém, não agem de maneira muito distinta das companhias estrangeiras quando o assunto é compromisso ambiental. Se as grandes transnacionais da mineração, do petróleo e do agronegócio justificam seus empreendimentos com a promessa de progresso, emprego e bem-estar, os governos latino-americanos seguem o mesmo caminho. A grande diferença é o destino dos lucros, que, agora mais que antes, permanecem no próprio país. Contudo, apesar de ser justificada por novas realidades e argumentos, a devastação continua.
O debate nascido dentro do governo brasileiro entre Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil, e Marina Silva, ex-titular do Meio Ambiente, é prova desse embate. Enquanto a coordenadora do PAC advogava pela celeridade das obras de infra-estrutura, a herdeira política de Chico Mendes insistia na importância dos estudos de impacto ambiental. Apoiada por Lula, Dilma venceu a batalha, enquanto Marina preferiu deixar o governo após ficar conhecida como “ministra dos bagres” e ser considerada por muitos uma “trava” ao desenvolvimento.
O resultado dessa batalha viabilizou, entre outros projetos, a construção das usinas hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, no rio Madeira, e Belo Monte, no rio Xingu, que seguem a todo vapor. Juntas, as represas terão capacidade para gerar 18,4 mil megawatts, que irão alimentar a expansão industrial no sudeste e a da mineração na Amazônia.
Atualmente, segundo o geógrafo Arnaldo Carneiro, do Instituto Sócio Ambiental, “metade da capacidade energética instalada na região norte é consumida pela mineração e metalurgia, e 20% de toda eletricidade produzida no país é agregada a produtos destinados ao mercado externo”.
O PAC promete repassar R$ 35 bilhões para investimentos em geração e transmissão de energia na região amazônica. Outros R$ 10,6 bilhões devem permitir a construção e pavimentação de rodovias na floresta. Entre os projetos na área dos transportes, chama a atenção o asfaltamento da BR-163 (Cuiabá-Santarém) e da BR-319 (Manaus-Porto Velho), esta ainda em fase de avaliação ambiental, mas que pode acarretar o desmatamento de 39 milhões de hectares e afetar a mais de 50 povos indígenas, alguns em isolamento voluntário.

Contradições amazônicas
“Como outros projetos de infra-estrutura, as estradas são importantes para estimular a economia, integrar locais distantes e prover acessos a serviços públicos, como escolas e hospitais”, reconhece Arnaldo Carneiro. O geógrafo lembra, entretanto, que as estradas também vêm possibilitando o roubo de madeira, o surgimento de garimpos e a apropriação ilegal de terras indígenas. Basta dizer que, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), cerca de 75% do desmatamento ocorre numa faixa de até 100 quilômetros ao redor das rodovias.
“O Estado brasileiro está presente na Amazônia, mas de forma esquizofrênica”, avalia Carneiro, assinalando que, enquanto o governo se desdobra para reduzir o desmatamento, financia projetos que ajudam a derrubar a floresta. “Precisamos mesmo expandir sobre a Amazônia? Ou, nesse jogo global de economias ambientais, a Amazônia tem uma outra virtude, uma outra utilidade que não seja servir à pecuária e à agricultura?”
Os questionamentos do geógrafo não fazem eco aos projetos da Iniciativa para a Integração da Infra-estrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), que, com forte apoio do BNDES, também está presente na Amazônia. Pelo menos dois corredores interoceânicos estão em planejamento para ligar a porção brasileira da floresta à cordilheira dos Andes e ao Pacífico, incrementando, assim, o escoamento dos grãos produzidos pelo avanço da fronteira agrícola ao norte do Mato Grosso.
“Devemos procurar um modelo de desenvolvimento que gere emprego e fortalecer um tipo de produção que não destrua a floresta. A Zona Franca de Manaus é um exemplo de indústria que não desmata. Podemos criticá-la de várias maneiras, mas o estado do Amazonas é o que menos desmata e ainda por cima tem um pólo industrial”, opina o físico Luiz Pinguelli Rosa, da UFRJ. “Devemos buscar um tipo de desenvolvimento que não produza tantas emissões e, ao mesmo tempo, dê uma vida digna à população. Não tem cabimento os europeus viverem numa situação confortável e aqui existir gente que sequer tem energia elétrica em casa.”

Tadeu Breda é jornalista e também vive em Latitude Sul

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Lula e o mundo em transformação

O novo posicionamento brasileiro na diplomacia global -- com destaque para o envolvimento do Itamaraty nas questões iraniana e palestina -- não é gratuito. Pelo contrário, nasce de uma mudança de patamar político e econômico do país no cenário internacional.
Durante o governo Lula a imagem do Brasil no exterior só fez crescer. É verdade que ainda ostentamos uma pobreza avultante, somos agredidos diariamente pela desigualdade e padecemos de um caso crônico de corrupção. Porém nossos índices sociais têm melhorado e, de acordo com as estatísticas, somos agora menos subdesenvolvidos que outrora.
O mercado interno, graças ao Bolsa Família e aos sucessivos reajustes do salário mínimo, é mais pujante. Isso faz com que o país consuma mais, tanto seus próprios produtos quanto os importados. Como a relevância internacional de uma economia está em sua capacidade de consumir, o Brasil ficou mais importante. Não tanto como a China e ainda longe dos padrões estadunidenses ou europeus, mas na América do Sul não há ninguém que o iguale em poder de compra.
Some-se a isso seu tamanho continental, a ausência de problemas territoriais, a uniformidade do idioma e uma jovem mas estável tradição democrática que desde a saída dos militares não tem registrado oficialmente golpes de estado ou fraudes eleitorais... e voilá! Eis o país do futuro transformado em presente aos olhos do mundo.
Não há dúvidas de que a figura de Lula tem contribuído – e muito – com esse novo status brasileiro. O já desgastado clichê do ex-operário que virou presidente arrebatou o coração dos líderes internacionais, e sua preferência por estabelecer e fortalecer relações com os países do Sul ajudou a amortiguar a hegemonia do Norte sobre o globo terrestre.
A correlação de forças internacionais está mudando.
O mundo voltou a ser genuinamente multipolar e o Brasil busca seu naco na redistribuição das zonas de influência que neste exato momento é negociada nos salões secretos do poder.
No passado foram necessárias duas guerras mundiais para que os novos donos do mundo desbancassem os velhos. Os Estados Unidos superaram a Inglaterra após a dupla derrota de alemães e italianos na primeira metade do século 20. Alguns séculos antes, Espanha e Portugal perderam a hegemonia depois que os britânicos conseguiram frear a volúpia expansionista de Napoleão Bonaparte sobre a Europa. A última transição se deu, sem conflitos de grande escala, com a queda do muro que dividia Berlim em metades capitalistas e socialistas.
Agora se lavra um novo processo de transferência de mando. Os norte-americanos, que reinaram absolutos até os estertores do século passado, passaram a colher reveses simbólicos e econômicos por todos os lados. E, em boa parte, foram eles mesmos os culpados pela perda progressiva de hegemonia.
Na América Latina, por exemplo, a influência dos Estados Unidos começou a arrefecer após o fracasso da ALCA e a queda das Torres Gêmeas. A Casa Branca, então, concentrou suas atenções nas bilionárias campanhas militares para derrubar Saddam Hussein e os talebãs. Tamanho esforço de guerra no Iraque e no Afeganistão naturalmente afastou o Tio Sam de seu quintalzinho geopolítico, abrindo espaço para que, pela primeira vez na história, partidos e candidatos anti-imperialistas assumissem o governo em vários países da região. Foi o “renascimento da esquerda” latino-americana, da qual Lula faz parte.
A Ásia também se transformou em outro foco de dissenso para os Estados Unidos. O governo japonês, aliado incondicional das políticas ianques desde Hiroshima e Nagasaki, agora trabalha para desalojar a base militar que Washington mantém na ilha de Okinawa. A Geórgia colheu duros reveses ao tentar se desvencilhar da influência russa recorrendo a expedientes pró-estadunidenses: foi invadida por Moscou e perdeu parte de seu território na guerra geograficamente mais próxima da Europa neste alvorecer de século. O quadro asiático se completa com a China, que arrebatou dos Estados Unidos o título de maior poluidora da atmosfera e de quebra também levou títulos de sua dívida pública – a maior do mundo.
O signo mais expressivo de que as coisas estão mudando na geopolítica global, porém, parece ter sido a última grande crise econômica. Nascida e criada nos países desenvolvidos, a debacle das bolsas e dos bancos trouxe consigo a certeza de que o mercado não é um deus – e muito menos um deus autorregulável. Caiu por terra a ideologia neoliberal de que o estado é um entrave ao desenvolvimento, porque não fosse o estado e suas reservas financeiras hoje haveria legiões de executivos tomando sopão noturno e pedindo esmola nas esquinas de Nova York.
Curiosamente, os países emergentes desta vez sofreram menos do que os desenvolvidos. Os índices de desemprego falam por si. E o que mitigou os efeitos da crise no Brasil foi exatamente um mercado interno mais robusto e menos vulnerável ao humor dos compradores externos. Continuamos extremamente dependentes da exportação, claro, mas hoje menos que antes. Logo, nossa economia tem mais peso. Logo, podemos apitar mais sobre os rumos do mundo.
Por isso o Itamaraty ampliou seu leque de ações, antes restrito à América do Sul, e briga por um espaço no diálogo internacional sobre a proliferação nuclear no Irã e nas negociações de paz na Palestina. É fato que a influência diplomática de um país em última análise depende do poder de fogo militar e econômico que pode colocar em cima da mesa. “A guerra é uma extensão da política”, dizia um teórico.
Em relação ao Oriente Médio, o Brasil não tem peso relevante no que se refere a capacidade bélica ou financeira. Mas, no caso da questão Israel-Palestina, isso é bom. Estados Unidos, Europa e a Liga Árabe não podem ser considerados atores neutros nas negociações de paz. Cada um deles carrega interesses bem demarcados que extrapolam o mero desejo pacifista de acabar com a matança entre judeus e muçulmanos. Uns são pró-semitas, outros são anti-semitas, uns estão de olho na venda de armas, outros nas vantagens econômicas, enfim.
O Brasil a rigor está interessado apenas na paz entre israelenses e palestinos. Por quê? Porque sim, oras. A guerra que se arrasta desde a fundação do estado de Israel é um dos principais focos de instabilidade militar em todo o mundo, ninho de intolerância e racismo que não raro desembocam em massacres e ataques suicidas. A diplomacia brasileira é favorável à criação de um estado palestino porque é em sua inexistência que fervilha tanto ódio.
Ambos os lados da contenda têm motivos para acreditar que o Brasil tem interesses legítimos no fim das hostilidades. O máximo de proveito próprio que poderíamos tirar de uma eventual paz intermediada pelo Itamaraty seria capitalizá-la a nosso favor na hora de galgar posições mais privilegiadas no concerto das nações. Se o Brasil de fato ajudar na construção da paz, será uma reivindicação mais que merecida.
No caso do Irã o raciocínio é semelhante. Deve ser complicado para Mahmoud Ahmadinejad ouvir Estados Unidos, Rússia, China e França, todos eles detentores de bombas atômicas, dizendo que os iranianos não podem desenvolver tecnologia nuclear nem mesmo para fins civis.
Já a voz do Brasil é mais coerente. Primeiro, porque não se trata de uma potência nuclear, não tem armas atômicas e há muito tempo não entra em guerra com ninguém. Depois, porque tem conseguido enriquecer urânio para geração de energia e outros objetivos que passam a quilômetros de distância da agressão militar.
Portanto, é um interlocutor qualificado, que tem moral para dizer ao Irã que não se deve construir artefatos bélicos com tecnologia nuclear e também para mostrar ao mundo que sim é possível dominar o ciclo do urânio respeitando os tratados internacionais e sem descambar para a violência.
Tanto nos diálogos com o Irã como nas negociações entre israelenses e palestinos, o Brasil desempenha um papel simbólico. Não no sentido de que sua presença é ineficaz ou que sua voz não será ouvida, mas porque, além de encarnar um exemplo, carrega consigo alguns valores que confirmam esse exemplo.
Nem só de porrete se faz política externa. O mundo está cansado de hipocrisia, e os valores defendidos pela diplomacia brasileira estão todos eles expostos nas declarações que as Nações Unidas foram ratificando desde sua criação. É por isso que Lula dedica tantos discursos em favor do fortalecimento da ONU, cuja liderança ficou seriamente comprometida depois que os Estados Unidos atropelaram a decisão do Conselho de Segurança e se utilizaram de um duvidoso conceito de “guerra preventiva” para invadir o Iraque.
Portanto, não é que Lula seja um apoiador de Ahmadinejad. Seu governo apenas defende o direito de um país desenvolver, como o Brasil desenvolveu, tecnologia nuclear para fins civis – e só civis. Não é que Lula tenha um pé no anti-semitismo, mas sim que a diplomacia brasileira defende o direito dos palestinos a um estado, assim como defende o direito dos judeus ao território definido pelos acordos de 1967. É um princípio de convivência pacífica
Não há nenhum resquício de mania de grandeza ou complexo de superioridade nessas novas empreitadas diplomáticas. O avanço da influência brasileira sobre os assuntos mais candentes do cenário internacional é apenas a consequência natural de um mundo em transformação.

Tadeu Breda, jornalista, é colunista do Nota de Rodapé e vive em Latitude Sul.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Quadrinhos # 6


Tadeu Breda, jornalista, autor do quadrinho mantém a coluna Latitude Sul neste Nota de Rodapé e vive em blogue de mesmo nome.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Filosofia de bar sobre Copenhague



(Para ler de um gole só)



A degradação do meio ambiente é filha legítima do progresso, e o progresso é uma construção ideológica. Os seres humanos tendemos a pensar no progresso apenas como o progresso de nossas capacidades técnicas, talvez porque a ciência tenha sido a área em que mais progredimos ao longo da história. Mas o progresso não se resume a vacinas, aviões, usinas e tecnologias de ponta. Esta são apenas algumas de suas múltiplas facetas. Há muitos outros tipos de progresso, porque, uma vez representante da ideia de evolução, ele se espalha pelas demais searas do conhecimento humano. O erro das modernas sociedades ocidentais é acreditar que o progresso em apenas uma área do saber significa automaticamente o progresso de toda a humanidade. O nazismo é o grande exemplo. O regime de Adolf Hitler combinou um vigoroso progresso tecnológico, econômico e industrial com a maior expressão de degradação moral que o ser humano já viu sobre a face da Terra. Na Alemanha nacional-socialista, a racionalidade foi utilizada para azeitar o aparato militar do expansionismo hitlerista e exterminar judeus, negros, ciganos e homossexuais em massa. Os campos de concentração tinham a eficiente logística das mais exitosas empresas do capitalismo industrial. Depois, na esteira da segunda guerra, veio a bomba atômica, outra expressão de como o progresso da ciência foi utilizado para fins no mínimo duvidosos. Assim a história humana foi avançando. Os cientistas, com cada vez mais domínio sobre as pesquisas e a técnica, não param jamais de aperfeiçoar os avanços do conhecimento. Inventaram também máquinas de matar com precisão cirúrgica, inteligentes, que reduzem a zero o risco de vida dos matadores ao mesmo tempo em que aumentam a exatidão dos ataques. A ciência também serviu à manutenção da vida, claro. Se hoje vivemos 70 anos em média é porque a medicina consegue combater doenças que antes matavam todo mundo em idades bem menos avançadas. Desenvolveram até medicamentos para o combate à Aids, que mais parecia o demônio encarnado nos anos 80 e 90. Só que os laboratórios se recusaram a vendê-los a preços acessíveis às pessoas que mais sofrem com a doença: os africanos. O dinheiro fala mais alto, sempre. E o progresso parece reduzido às limitações morais das contas bancárias. O altruísmo só vale a pena quando é lucrativo. Os culpados nem são os laboratórios, porque o que fazem é somente seguir as regras do jogo. Se não lucram, não sobrevivem. Se são bonzinhos demais e distribuem os medicamentos, não terão dinheiro para pagar equipamentos e pesquisadores capazes de desenvolver remédios cada vez melhores. Estão apenas trabalhando, assim como todas as indústrias que emitiram e continuam a emitir bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera. Estão seguindo as regras do capitalismo. E o capitalismo diz: maximize os lucros – e faça isso antes de seu concorrente, senão... Por isso, o que conhecemos como crescimento econômico, na verdade, é o crescimento da exploração. Cresce uma economia que acumula mais. Para acumular, é necessário lucrar. O lucro se torna realidade quando um empresário – o dono dos meios de produção – fatura mais do que gasta. Quanto maior o faturamento e menor os gastos, mais lucrativo será o negócio. Mão-de-obra, equipamentos e matéria-prima são as principais despesas da atividade econômica. Se o patrão puder gastar menos com elas, ganhará mais no fim do mês. Essa economia se traduz em baixos salários e matérias-primas baratas. As matérias-primas normalmente se originam dos países pobres ou em desenvolvimento. Para obtê-las, a não ser que as reservas se encontrem em regiões desérticas, é necessário degradar o meio ambiente e desmatar. Voltando para a indústria em si, a redução de emissões depende de um investimento massivo em tecnologias limpas. Isso custa e, portanto, reduz o lucro dos patrões. O protocolo de Kyoto tentou fazer com que a redução de emissões se transformasse num negócio lucrativo e inventou o mercado internacional de carbono, uma espécie de bolsa de valores ecológica. Nela, quem deixa de poluir a atmosfera pode vender “direitos de contaminação” a quem ainda não conseguiu cumprir as metas de redução de emissões. O mecanismo só funciona porque, a cada ano que passa, esses direitos ficam mais e mais caros. A ideia é que a compra da licença para poluir um dia fique mais cara que o investimento em novas tecnologias não poluentes. Assim, através das leis do mercado, as indústrias deixariam de emitir gases causadores do efeito estufa. Não é uma questão de salvar o ambiente, mas de causar menos prejuízo financeiro. De qualquer forma, os Estados Unidos não assinaram o protocolo. Agora, com o fiasco de Copenhague, o preço do carbono no mercado internacional despencou. Isso quer dizer que ficou mais barato poluir, porque, como o capitalismo financeiro vive de expectativas, e as expectativas sobre um acordo salvador do clima foram para o bebeléu, os direitos de contaminação ficaram mais baratos. As licenças para emissão na União Europeia caíram 8,7% porque já não parece haver estímulos para investimentos nesse negócio de salvar o clima. Portanto, quem deixou de emporcalhar a atmosfera vai ganhar menos com isso, e quem continua mandando ver no CO2 vai perder menos, porque vai pagar menos por cada tonelada emitida para além da meta. O protocolo de Kyoto em si já é uma abstração financeira imensa elaborada para viabilizar dentro do capitalismo uma obviedade ambiental tão evidente quanto evitar o aquecimento global, o desaparecimento de ilhas, ecossistemas, culturas e meios tradicionais de vida. E, mesmo prevendo lucros consideráveis para quem entrar na onda da preservação, não colou como deveria colar. É, até hoje, o único sistema cujo objetivo é reduzir as emissões de carbono. Se nada for inventado para substitui-lo nos próximos dois anos, quando perde a validade, o mundo simplesmente ficará sem nenhuma meta de redução. Era para Copenhague ter elaborado outro mecanismo, mas isso não aconteceu porque ninguém está a fim de perder dinheiro. Uma política de cortes na emissão de CO2 dentro do capitalismo implica necessariamente em diminuição de lucro. Até nas prateleiras dos supermercados dá para perceber que é assim. Os produtos orgânicos, ecologicamente corretos, que não utilizam agrotóxicos nem organismos geneticamente modificados, que são produzidos com o mínimo impacto possível sobre o meio ambiente e que aplacam o sofrimento animal custam bem mais caro. Por quê? Ora, porque a produção é obrigatoriamente baixa para manter os padrões ecológicos. Se a atividade se massifica, vai acontecer igual acontece agora com os alimentos tradicionais: quanto maior a produção, mais barato o produto; quanto mais hormônio e mais veneno, maior a produção, maiores as vendas, porque os compradores priorizam matérias-primas mais baratas para baratear seus próprios produtos e vender mais e... bom, a gente já sabe como funciona. Copenhague fracassou basicamente porque há um desnível social e econômico entre os países desenvolvidos e emergentes. O pessoal do primeiro mundo não quer perder o padrão de vida, e a galera do terceiro mundo quer melhorar seu padrão de vida. O desenvolvimento é uma necessidade para as nações que estão no sul do mundo. Afinal, as coisas não podem continuar como estão: situações alarmantes aqui, fome e analfabetismo, e conforto lá. Temos que melhorar as condições de vida de nossas populações, de maneira que, pelo menos, as necessidades básicas de todos sejam atendidas. E não se trata de carros importados e casas na praia, mas de saúde, educação, alimentação, moradia, trabalho, ócio, liberdade. Aí vem outro problema. Nossa visão de mundo ocidental acredita piamente que desenvolvimento social é uma consequência do crescimento econômico, como se sem este não houvesse aquele. Então voltamos ao começo da conversa: crescimento é acumulação, e acumulação se viabiliza pelo progresso das forças produtivas. Nossa ideia de progresso está viciada. A evolução da humanidade vai muito além da evolução do PIB. Foi buscando desesperadamente taxas cada vez mais altas de crescimento do PIB que acabamos esquecendo de perseguir metas de desenvolvimento humano. Olha o Brasil: está entre as dez maiores economias do mundo, mas ocupa apenas a 75a posição quando o assunto é o bem-estar de seus cidadãos. Não podemos dizer que o país não cresce, mas para onde esse crescimento tem nos levado? O crescimento, em si, é um mito, assim como a ideia de que o progresso é a salvação do ser humano porque é infinito e um dia nos levará à perfeição. Como podemos acreditar na conversa de que nossas economias continuarão crescendo e crescendo ad eternum se os recursos naturais são finitos? Existe uma grande incoerência aqui, e todos os negociadores que estavam sentados nas mesas de Copenhague a conhecem perfeitamente. Não há mundo capaz de aguentar um ritmo de crescimento de dois dígitos ou a promessa de que, um dia, todos irão viver como na Europa e nos Estados Unidos. Ou começamos de uma vez por todas a conquista espacial e pilhamos os recursos naturais dos outros planetas para alimentar nossa loucura progressista ou mudamos de ideia de uma vez por todas. Hoje a riqueza é sinônimo de degradação ambiental, porque é explorando a natureza que o homem transforma matérias-primas em produtos industrializados e ganha dinheiro no processo. Quanto mais matéria-prima, mais transformação e mais dinheiro. Explorar a natureza – extrair petróleo, minérios, madeira, construir pastos e plantar soja – gera riqueza porque foi assim que decidimos fazer girar a economia quando, um belo dia, nos apartamos do meio ambiente e resolvemos declarar guerra ao ecossistema. Acabamos por dominar seus ciclos e conhecê-lo quase tão profundamente que hoje podemos dizer que vencemos. Somos os donos do mundo, dominamos cada rincão da Terra e temos nas mãos o poder de acabar com tudo, ainda que o fim de tudo seja também o nosso fim, porque, por mais que neguemos, somos parte da natureza e não vivemos sem ela. Eis a prova de que a ideologia que sustenta o progresso e o modelo econômico é uma grande falácia. Nós não somos sem o todo, mas o todo sim pode ser sem a gente. Somos o último elo da cadeia e o mundo não vai se abalar caso desapareçamos de repente. Pelo contrário, a natureza agoniza com a nossa presença. Copenhague não colheu nenhum fruto maduro porque está atolada em interesses mesquinhos que dizem respeito a metas de crescimento do PIB, atividade industrial e dominação militar. Mas estes são valores do velho mundo. O novo mundo deve ser erigido sobre novas plataformas, a mudança deve demolir os alicerces das sociedades atuais e muita gente que hoje se dá bem pode se dar mal. As noções de conforto e bem-estar deve ser redefinidas, mas o xis da questão está no conceito de riqueza. Somos ricos enquanto destruímos hectares de floresta, poluímos fontes de água límpida e extinguimos espécies animais e vegetais para extrair toneladas de ouro e guardá-lo nos cofres do Banco Central? Isso já não faz o menor sentido. A verdadeira riqueza está em viver num mundo em que não haja miséria, e só não haverá miséria quando não houver degradação. A exploração da natureza é o pontapé inicial de toda a desigualdade, e se engana quem pensa que justiça social é possível sem justiça ambiental, porque o homem construiu todo seu aparato de dominação submetendo o meio ambiente – e, consequentemente, os outros homens – a seus desígnios. Nenhum chefe-de-estado quer tocar nestas feridas abertas, porque são nelas que se escondem os nervos expostos da nova ordem mundial.



Tadeu Breda é jornalista, colunista do Nota de Rodapé e vive em Latitude Sul

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Copenhague: mais do mesmo

Não quero engrossar o coro dos descontentes, mas, já engrossando, prometo ser breve ao aliviar aqui todo meu imenso descontentamento com a cúpula de Copenhague. E o farei recuperando um texto que escrevi em abril de 2007. Afinal, nada melhor do que criticar uma reunião que não produziu nada de novo com um texto velho: eis a triste atualidade de nossa histórica incompetência.

Duvido
A essa altura não há muito mais o que se falar sobre o que estamos fazendo com a natureza. O relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas traçou o mapa da desgraça que o “progresso” humano provocou e ainda vai provocar no planeta. Mesmo se parássemos de queimar combustíveis fósseis neste segundo, a tragédia continuaria, no mínimo, pelos próximos cem anos.
Mas esse é o único planeta que temos. E todos sabemos e não sabemos que destruímos dia após dia o meio ambiente. E sabemos e não sabemos os passos para amenizar a degradação. Por exemplo, praticando a simples e indolor coleta seletiva do lixo. É senso comum também que o consumismo destrói o planeta. Todo mundo e ninguém pára pra pensar no potencial destrutivo de cada aquisição feita no mercado da esquina. O sonho de nove entre dez pessoas é ter um veículo particular. Os governos continuam mirando seu crescimento econômico no modelo que, além de pobreza, causa tempestades, degelo das calotas polares, inundações. Todos queremos viver como nos Estados Unidos ou na Europa, com aquele padrão de vida maravilhoso, ignorando ou esquecendo que não há recursos naturais suficientes para isso.
É ilusão pensar que as pessoas – eu, você, o vizinho – vão deixar de lado as facilidades da vida contemporânea para preservar o próximo século de um planeta que não vão mais habitar. Mesmo com esse alerta estarrecedor do IPCC. Talvez se a ciência descobrisse a fonte da vida eterna, quem sabe o egoísmo falaria – como sempre fala – mais alto. Como não há chances de que isso aconteça a curto, médio ou longo prazo, precisamos de uma mudança radical, principalmente na economia.
Capitalismo rima muito bem com prosperidade, aviões, arranha-céus, indústrias produzindo a todo vapor, mas não com natureza. Preservar o planeta no capitalismo custa muito dinheiro, portanto, reduz o lucro, portanto, está fora de cogitação para os donos da bola. Veja nas prateleiras: produtos ecologicamente corretos são bem mais caros que os convencionais e estão fora do alcance da maioria da população.
Mas dinheiro é bom. Quem tem adora, pode comprar um monte de coisa. Carne, por exemplo. Tudo bem, vai, nem precisamos de tanto dinheiro assim pra comprar carne. E ninguém vai parar de comer, seja filé mignon ou acem. Mas o rebanho bovino – comendo, arrotando e peidando sem parar – está entre os maiores emissores de gases causadores do efeito estufa. Isso sem contabilizar as árvores que caem para que existam pastos. Aquele bifinho vistoso entre o arroz e feijão do almoço esconde uma boa parcela de culpa pela tragédia do planeta. Agora, que atire a primeira pedra quem vai abdicar do churrasco no final de semana, ou do PF disputado que divide um dia cansativo de trabalho.
Depois, sem essa de carro. Vamos todos de busão, de metrô, de bike, mesmo quem pode comprar um BMW. Sim, vamos. Até pegarmos um dia chuva e calor, como os do verão paulistano. O buzum lotado, todas as janelas fechadas, o tráfego parado, a temperatura nas alturas, a galera suando a cântaros.
Como é que você vai se apresentar pro seu chefe desse jeito? E o cliente, o que vai achar das marcas de suor no entorno do seu sovaco? E como levar a mala com as roupas pra academia depois do expediente? Tá, você promete que vai colocar um bom catalisador no escapamento do seu carro. Até chegar a hora de trocá-lo, dali uns cinco anos. Vai pesar no bolso, tem as despesas extras das crianças, aquela comprinha em que você gastou demais, a viagem tão planejada. Como é que fica?
Então. Vamos supor que você vai se esforçar muito e sacrificar suas preferências gastronômicas em nome do bem-estar da natureza. Beleza, você resolve parar de comer carne. E o substituto mais eficiente de proteínas é a soja, claro, a preferida dos naturebas. Então você troca a picanha pela carne de soja, o leite da mimosa pelo leite de soja. Louvável. Mas a soja é a maior responsável pela expansão descontrolada da fronteira agrícola no Mato Grosso e outros estados da Amazônia Legal. Pra plantar, tem que desmatar. E o desmatamento, você sabe muito bem, também está entre os maiores promotores do efeito estufa, é inclusive a maior contribuição que o Brasil dá para o aquecimento global.
O resultado de tudo isso, já sabemos. Algumas empresas vão lançar cada vez mais campanhas publicitárias dizendo que defendem o meio ambiente, que usam papel reciclado e contribuem com o Greenpeace. Talvez até coloquem em seus comerciais de TV algumas imagens dos militantes verdes se lançando contra baleeiros japoneses no Pacífico.
Depois você vai perceber que às vezes as corporações gastam mais na propaganda das bem-feitorias do que nas bem-feitorias propriamente ditas. Ganham, assim, mais clientes, aqueles preocupados com a natureza, enquanto emprestam dinheiro pras indústrias que inevitavelmente vão poluir a atmosfera.
Proteção ambiental vai também virar plataforma de políticos que, nas próximas eleições, não pensarão duas vezes em despolitizar a questão para ganhar votos.
As emissões, claro, serão reduzidas, mas só até onde o sistema aceitar, só até onde nossas mordomias permitirem. É insuficiente, claro. A batata-quente – e cada vez mais quente – está com os incluídos, os que movimentam a máquina, os que gastam, que consomem, que poluem. Eles vão abdicar do carro, do churrasco, do ar-condicionado, da piscina? Eu vou? E você, vai?

Tadeu Breda é jornalista. latitudesul.wordpress.com

sábado, 28 de novembro de 2009

Estreia: Latitute Sul # 1


A mais nova treta


Então quer dizer que as relações entre Brasil e Estados Unidos agora não estão nada bem. E isso poucos meses depois de Barack Obama ter dito em alto e bom som que Lula é o cara. Também parece não importar muito que ambos presidentes já tenham se encontrado cinco vezes desde que o primeiro negro da história do país assumiu a Casa Branca. As divergências estratégicas em alguns pontos cruciais da agenda internacional jogou tudo no abismo da perdição. Pelo menos é o que se lê e se ouve por aí. Uma pena, realmente. Dois líderes históricos, despojados, duas vitórias ambulantes da democracia… Estariam de mal?
Brasil e Estados Unidos, pelo menos neste momento, divergem em basicamente cinco temas transcendentais. Isso porque, durante o governo Lula, depois de todo aquele medo que precedeu sua vitória eleitoral, em 2002, o país, com todos os seus infinitos problemas internos, tem se transformado num ator global de respeito. Aquela época em que Brasília e Buenos Aires ficavam disputando entre si para ver quem tinha mais nível de influência na América do Sul ficou para trás. Agora o Itamaraty dialoga com outros peixes, em outros mares, maiores e mais profundos. E bate o pé com firmeza quando o tema é Oriente Médio, Honduras, Rodada de Doha, mudança climática e as bases na Colômbia.
Tem muita gente que gosta dessa nova posição internacional do Brasil, ainda que por motivos diferentes. Há aqueles que comemoram o futuro que finalmente chegou e acreditam que o caminho agora está livre para o desenvolvimento: primeiro mundo, lá vamos nós. Outros acham que a diplomacia brasileira vem defendendo, com voz cada vez mais grossa, alguns valores importantes no concerto das nações. E que isso é positivo num mundo que se pretende multipolar.
O país, por exemplo, é a favor da existência de dois estados consolidados e soberanos na Palestina, que respeitem as fronteiras estabelecidas pelas Nações Unidas antes da guerra de 1967. É pouco para os árabes, claro, porque mesmo naquele então a ONU já havia destinado mais território aos israelitas, que chegavam aos montes motivados pelo sionismo. Um acordo envolvendo os limites fixados na década de sessenta, porém, junto com o fim dos assentamentos na Cisjordânia, é o primeiro passo para a paz. Poucos duvidam disso, entre eles Tel Aviv. Os Estados Unidos vai na rabeira.
O Brasil também se posicionou contra o golpe de estado em Honduras e promete não reconhecer os resultados das eleições que o regime de Roberto Micheletti convocou para este 29 de novembro. Nada mais coerente para um povo que já sofreu com as arbitrariedades dos anos de chumbo. Até porque o argumento dos militares hondurenhos para justificar a conspiração não consegue se sustentar. Dizem, por exemplo, que estão defendendo a democracia e a constituição, quando na verdade derrubaram um governo legítimo e desterraram o presidente sendo que esse tipo de punição não existe nas leis do país. [ver a democracia nas democracias] Agora vão realizar um pleito. As faixas espalhadas nas ruas pelo governo de facto dizem: en las urnas está el futuro de Honduras. E antes, não estava? A importância do voto não foi tão considerada quando era Manuel Zelaya o beneficiado pela vontade popular…
Há poucos dias, Lula fez o que pouca gente no mundo faria: receber Mahmoud Ahmadinejad em visita oficial de estado e, pecado, deixar-se fotografar ao lado do ultra-conservador persa, fundamentalista religioso e homofóbico convicto. Deixou o cabelo de muita gente em pé ao defender o programa nuclear iraniano, desde que o enriquecimento de urânio seja utilizado para fins pacíficos, como acontece no Brasil. Também defendeu o direito dos judeus se organizarem num estado localizado no Oriente Médio. E ponto. Na visão da diplomacia brasileira, dialogar não faz mal a ninguém. Pelo contrário, isolar países acossados pela opinião pública internacional é que é perigoso.
Depois, a Rodada de Doha. Tem a ver com a liberalização do comércio e o fim das barreiras alfandegárias criadas pelos países desenvolvidos para proteger os setores mais frágeis de suas economias. Os Estados Unidos pregam o neoliberalismo geral e irrestrito, mas não abrem mão de salvaguardas quando lhes interessa. Lula já há algum tempo comprou o discurso globalizante da Casa Branca, mas quer o pacote todo, sem as contradições. O mesmo em relação às bases que serão cedidas pela Colômbia para a instalação de soldados e equipamento militar ianque. Obama prometeu mudar as relações de Washington com a América Latina, mas até agora não deu sinais de que realmente quer um diálogo de igual para igual com as democracias tropicais.
Lula e todos os demais presidentes sul-americanos têm razões históricas de sobra para criticar a presença bélica dos Estados Unidos em solo colombiano. Vão ajudar no combate ao narcotráfico, alega-se. Mas não é Álvaro Uribe que vive discursando sobre o debilitamento das FARC e de outros grupos guerrilheiros que perambulam pelas selvas amazônicas? E, mesmo que realmente necessite da ajuda norte-americana, como alguém pode pretender combater com eficácia a indústria da cocaína apenas agindo na produção – e não na demanda?
Mais: o ex-presidente Ernesto Samper, que ocupou o Palácio de Nariño entre 1994 e 1998, diz que a maquinaria de guerra que será instalada pelo Pentágono na Colômbia não vai se limitar apenas ao combate à droga.
“Coloco na mesa os vários antecedentes das bases. Primeiro, que desde janeiro as bases figuravam nos mapas do Pentágono como parte da estratégia de segurança básica dos Estados Unidos. Segundo, que na solicitação do Pentágono para adequar Palanquero claramente se estabelecia que a base também serviria para neutralizar os governos inimigos dos Estados Unidos. E, terceiro, os tipos de equipamentos que as bases terão: os C17, que transportam até 70 toneladas de material bélico; os Orion 3, que são para espionagem rápida e vão para a base de Malambo; os Boeing Galaxy, que são para transporte em massa de passageiros, e os Awacs, que são plataformas eletrônicas móveis. Esses não são equipamentos para combater o narcotráfico e a guerrilha na Colômbia. A partir das bases, começarão a lançar operações de vigilância sobre a região e vão terminar por nos isolar.” [ver mais em opera mundi]
Cabe um parêntesis: Samper deu essa entrevista na semana passada, mas durante seu governo foi acusado de ter aceitado dinheiro do narcotráfico para financiar sua campanha eleitoral. O caso ficou conhecido como Proceso 8.000. [ver mais na wikipedia]
Por fim, a conferência do clima em Copenhague. O Brasil acaba de anunciar suas metas de redução nas emissões de gases causadores do efeito estufa. Vai baixar a produção de CO2, segundo anúncio oficial do governo, em 36 ou 38 por cento em relação aos níveis previstos para 2020. Mais que uma declaração de boas intenções, Lula quer que essa promessa se transforme em lei e já está mexendo seus pauzinhos no Congresso para viabilizá-la. Quando visitou a China, em novembro, Barack Obama disse que não ia se comprometer com nada, e que não assumiria nenhuma responsabilidade legal sobre as decisões de Copenhague. Hu Jintao, premiê chinês, foi na onda. Não é à toa que os dois governam os países que hoje em dia mais abreviam a vida do planeta em nome do crescimento econômico. Pegou tão mal que Washington voltou atrás. Agora propõe um corte de 17 por cento em relação aos níveis de 2005, a serem executados nos próximos dez anos. Claro que não é suficiente. Nenhuma das soluções dentro do sistema é suficiente.
Não é questão de contrapor a diplomacia brasileira e a estadunidense ou fazer uma rápida avaliação de qual contribui para a paz no mundo e qual trabalha pela destruição iminente da Terra, seja por guerras ou hecatombes ambientais. O problema é Barack Obama. Sua figura política leva esperança ao mundo, mas é uma esperança falsa. Basta dizer que o presidente incrementou o número de soldados no Afeganistão um dia depois de ter recebido o Prêmio Nobel da Paz. Prometeu desocupar Guantánamo, mas voltou atrás e disse que vai ser difícil abrir mão da base que mais pisou nas convenções internacionais de direitos humanos ultimamente. Também vai reconhecer as eleições hondurenhas, organizada em meio à morte de pelo menos 26 opositores da ditadura, e não aceita que outros países enriqueçam urânio para produzir a bomba, sendo que os Estados Unidos estocam um arsenal nuclear imenso e, como se não bastasse, foram a única nação que teve coragem de lançar um artefato atômico contra civis.
Portanto, é válido que o Brasil emerja como ator global para resguardar determinadas posições democráticas e marcar diferenças em relação às grandes potências mundiais quando estas não fazem mais do que esconder contradições grotescas por debaixo de discursos pomposos em defesa da liberdade que já não enganam mais ninguém.
Complicado é o governo começar a se utilizar dessa posição de destaque no cenário internacional para se impor aos demais países latino-americanos com ares de nação hegemônica. Nenhum dos vizinhos – seja na bacia do Prata, nos Andes ou no Caribe – está a fim de continuar ocupando um papel subalterno em relação à sua própria história. Não há interesse em mudar de amo, mas de tomar as rédeas do próprio destino. O Brasil, como potência regional ou seja lá o que for, é tão ruim para as nações que a ele se submetem como os Estados Unidos, a Europa ou qualquer outro país. A Petrobras, por exemplo, apesar de ser idolatrada aqui, é vista como qualquer outra companhia transnacional pelos bolivianos, equatorianos ou peruanos, uma corporação que chega, extrai, polui, empobrece e vai embora com mais dinheiro do que deixa. O mesmo acontece com a Odebrecht, Camargo-Corrêa e outras empresas alabadas pelo governo Lula e apoiadas pelo BNDES em suas empreitadas latino-americanos.
A “liderança natural” do Brasil dentro da América do Sul é um papo que cansa os demais presidentes da região. A diplomacia brasileira tem trabalhado muito bem no geral, mas ainda não acordou para o fato de que ninguém aqui precisa de líderes. Buscam-se, isso sim, parceiros. Antes foi a Espanha, depois a Inglaterra, depois os Estados Unidos e, agora, ao que parece, vai ser o Brasil a dar as cartas por aqui. O que é que muda para Equador, Argentina, Venezuela, Bolívia, Peru, Colômbia, Uruguai, Paraguai? Arriscaria a dizer que não muda nada. A mudança, pelo contrário, seria a instauração de uma ordem sul-americana livre de potências hegemônicas. Isso demanda respeito e solidariedade, que não condiz com interesses econômicos expansionistas ou ânsias de liderança perante o mundo.
Talvez o maior sinal de que os países vizinhos não querem entrar debaixo da asa do Brasil tenha sido dado em Manaus, na conferência sobre mudança climática. Lula chamou os presidentes da bacia amazônica para discutir, com a presença de Nicolas Sarkozy, uma proposta unificada para Copenhague. Além do europeu, representante da Guiana Francesa, apenas o mandatário da outra Guiana compareceu.
A ascensão política do Brasil no cenário internacional, se não for bem direcionada pelo Itamaraty, pode entornar o caldo da integração latino-americana e começar a fortalecer, a exemplo do que acontece com os Estados Unidos, uma espécie de sentimento anti-brasileiro que já existe na região.

Tadeu Breda é jornalista e estreia hoje sua coluna neste blogue Rodapé. latitudesul.wordpress.com
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