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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Obrigado ao menino do mato

Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas - é de poesia que estão falando.

Manoel de Barros, o meu poeta preferido, foi-se neste dia 13 de novembro aos 97 anos na garupa de um bem-te-vi-cartola, a voar as miudezas e rir as ignoranças da gente toda. O menino do mato usou palavras de ave para escrever. E fez isso como ninguém. Como ninguém voou fora da asa.

O poeta nasceu em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, em 1916, onde passou a infância. Rodou e em 1949 voltou ao Pantanal para tomar conta de uma fazenda que herdou do pai. Viveu em Nova York, Paris, Itália e Portugal. Aos 97 anos tem mais de 20 livros publicados e é considerado um dos poetas da língua portuguesa mais originais de todos os tempos. E o mais lido do Brasil.

Meu amigo Renato Pompeu, que também nos deixou esse ano, quando escreveu do lançamento da poesia completa de Manoel de Barros, há alguns anos, pontuou: "“Rosas de maio”, nome de canção gravada nos anos 1940 pelo grande Carlos Galhardo, é a frase que me ocorre para saudar o grande lançamento do mês: a “Poesia completa”, de mais de 490 páginas, do grande Manoel de Barros, volume lançado pela Leya, com capa dura e magníficas ilustrações coloridas." Um livro essencial.

Rosa de Maio
Carlos Galhardo

Rosa de Maio
É meu desejo
Mandar-te um beijo

Nesta canção...
Rosa de Maio...
Deste poema

Tu és o tema
E a inspiração
Rosa de Maio...

Já não consigo
Guardar comigo
Tanta paixão!
Rosa de Maio
Por qualquer preço
Eu te ofereço
Meu coração!

Obrigado poeta!

* * * * * * *

Algumas poesias de Manoel de Barros

O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Retrato do artista quando coisa

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

O fazedor de amanhecer

Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.

Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

Prefácio

Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.

Os deslimites da palavra

Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas

* * * * * * *

Thiago Domenici, editor e coordenador do NR

segunda-feira, 3 de junho de 2013

A escatologia de Ney



por Ricardo Sangiovanni*

Se o que estivesse em jogo aqui fosse bater o ponto, cumprir o prazo e pronto, o certo era ter escrito isso ontem. Acontece que, se tivesse escrito ontem, teria cumprido o prazo, mas faltado com o propósito da coisa, pois afinal a crônica não teria dado a mínima liga.

É que havia passado a semana na intenção de escrever sobre o que diz um mitólogo, o Mircea Eliade, sobre esse negócio de arte: que na arte ele enxerga uma espécie de destruição, pelo artista, do mundo, esse aqui real e existente, com vistas a criar um outro, fresco e renovado das misérias do cotidiano. E que por isso, nota ainda o Eliade, haveria certa semelhança entre a arte e um traço habitual de quase todas as mitologias – o Fim do Mundo: uma destruição completa do orbe, prevista de tempos em tempos, a fim de limpá-lo de todas as máculas, de todos os jugos, de todos os vícios acumulados pelas más ações dos homens, como era no princípio do mundo.

Mas escrever-lhes disso antes antes do sábado à noite, antes de ver Ney Matogrosso cantar, não faria maior sentido – é que receio que não lhes chegasse a falar ao espírito. Afinal, seria todo um filosofê, mas me faltaria um exemplo forte com que pudesse construir boa retórica – e a falta de um exemplo da rua é a pior desgraça que pode acontecer ao cronista mundano.

Pois Ney Matogrosso, senhoras e senhores, subiu no palco do Teatro Castro Alves, do alto de um saltão plataforma e de seus 71 anos, remelexando e correndo e rastejando feito um lagarto, com uma vitalidade que, confesso, anda-me faltando aos 29.

Cantou aos 71 anos, como anda-nos faltando cantar aos vinte e poucos, as misérias desse mundo urbano, esse que a cada dia se nos mostra mais intolerante, mais intolerável. Cantou, sem rodeios, o que é evidente: o caos do trânsito, a incomunicação burra dos smartphones, o desamor das noitadas capitalinas, a loucura que é nossa vida breve, vivida na mais redonda ignorância de tudo o que nos possa ser ancestral.

Ney Matogrosso cantou, com uma voz ainda impecável e uma admirável presença não apenas corporal, mas de espírito, o que o mitólogo Eliade chamaria de “escatologia” deste mundo: pôs em evidência tudo que de terrível, de blasfemo, vivemos; buscando porém não evidenciar o caos pelo caos, mas um caos prenhe do novo, o caos do “Astronauta Lírico”, leve e pensativo, ávido por inventar uma cidade magnífica.

Sem Ney Matogrosso, senhoras e senhores, isto aqui que achei tão bonito na página 69 do livro de Eliade talvez não lhes dissesse muito:
Seria interessante estudar o processo da revalorização do mito do Fim do Mundo na arte contemporânea. Constataríamos que os artistas, longe de serem os neuróticos de que algumas vezes se fala, são, ao contrário, psiquicamente mais sãos do que muitos homens modernos. Eles compreenderam que um verdadeiro reinício não pode ter lugar senão após um verdadeiro Fim. E, primeiros entre os modernos, os artistas puseram-se a destruir realmente o Mundo deles, a fim de recriar um Universo artístico no qual o homem possa simultaneamente existir, contemplar e sonhar.
A fala cabe aos verdadeiros artistas, senhoras e senhores: aqueles a quem, como Ney Matogrosso, não interessa somente bater o ponto, cumprir o prazo, embolsar a grana e pronto, a despeito de qual seja o propósito da coisa. (Artistas, aliás, que certamente ainda continuam surgindo, mas que nós, órfãos cada vez mais de bons críticos para nos ajudar a descobri-los, vamos deixando, bestamente, passar despercebidos.)

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Pensamentos incomuns

Abaixo, você lê três abordagens de uma mesma história. Uma brincadeira que surgiu por acaso entre três amigos em outubro do ano passado. A versão original é de Thiago Domenici, a segunda de Fernando Evangelista e a terceira de Ricardo Viel, todos colunistas deste NR. E você, caro leitor e leitora, que tal fazer a sua versão nos comentários dessa postagem?

1.
Subiu no telhado pela escada lateral.
O Sol, sem esforço, iluminava seu rosto, deitada, suave, respiração compassada.
Nada era mais importante do que aqueles pensamentos incomuns.
Ninguém, absolutamente, poderia sentir, imaginar, o que era só de Nina.
Ninguém nasce sabendo que o amor é uma lei da vida.
"Quando ele chega queima como o sol a bater no rosto".
Então era assim.
A descoberta transbordou num poema de olhar, de sentir.
Desceu do telhado pela escada lateral.
Agora a Lua, sem esforço, iluminava seu rosto corado, em pé, suave, respiração descompassada.
Ah, pensou ela, benditos pensamentos incomuns.
(Thiago Domenici)

2.
Chegou ao telhado por uma escada lateral.
O sol iluminava seu rosto. Deitou. Nenhum barulho, nenhuma buzina.
Do terraço de um prédio de 14 andares, ela ouvia, apenas, sua própria respiração, calma, compassada.
Não havia medo.
Não havia nada, apenas alguns pensamentos incomuns.
Ninguém, absolutamente ninguém, poderia sentir, imaginar, o que era só de Nina.  Ninguém nasce sabendo que o amor é lei da vida.
"Quando ele chega, queima como o sol a bater no rosto", ela pensou.
Era assim, sempre foi assim.
A descoberta poderia ter virado poema, uma canção, uma boa história para contar. Mas para que? Para quem?
Apesar daquele sol que a acolhia, como um colo de mãe, ela não via sentido numa vida sem ele.
Nina foi até o parapeito e repetiu a pergunta: para que? Para quem?
Então se lançou no ar.
(Fernando Evangelista)

3.
Não havia telhado. "Como subir?", pensou.
O sol castigava seu corpo nu, suado, que exalava um cheiro que não parecia seu.
Queria lançar-se, colocar fim a tudo aquilo. Mas como, se o telhado que antes estava ali havia desaparecido?
Curioso não é perguntar-se porque alguém se mata, mas porque alguém decide não se matar.
Quem colocara aquela questão? Não parecia ser um pensamento seu.
Ninguém, absolutamente, poderia sentir, imaginar, o que era só de Nina.
Nada era mais importante do que aqueles pensamentos incomuns.
O telefone tocou. Era ele. Duvidou se atenderia. E viu a lua aparecer, tão improvável...
Existisse telhado e eu não teria visto isso, pensou.
O telefone continuava a gritar...
(Ricardo Viel)

[imagem de artista Kyle T. Webste, do blog The Daily Figure]

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O pior da democracia é a liberdade aparente

Aos amigos, colegas de blog e queridos leitores quero deixar para seu deleite e reflexão esses versos de Fernando Pessoa, escritos sob o heterônimo Álvaro de Campos, um dos mais belos poemas que conheço.

Enquanto isso, como o final de ano se aproxima, aproveito para tirar férias dos meus artigos e colunas, desejando a todos um auspicioso 2013, se a prepotência e a intolerância da direita israelense, a indústria de guerra norte americana e a ignomínia do STF brasileiro deixarem...

POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo.

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que venho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Izaías Almada, escritor e dramaturgo, mantém a coluna mensal Pensando Alto

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Lembrança de uma lembrança

Passou tanto tempo que

já não me lembro de como eram tuas mãos,

embora me recorde, perfeitamente, que eram lindas;

E agora tenho medo de que ao voltar a vê-las

elas já não me pareçam tão encantadoras.

Se isso acontecer, saberei que

não foram elas que mudaram, mas eu
H.M.S, em “Cartas Inéditas”

“Se olho para trás e tento recordar os acontecimentos que vivi, os passos que me trouxeram até aqui, nunca estou completamente seguro de se estou rememorando ou inventando (…) O que já aconteceu e o que está por vir, na minha cabeça, são apenas conjecturas”, escreveu o colombiano Héctor Abad Faciolince em seu livro “Traiciones de la Memoria”.

Faciolince tem total razão: a memória é ficção, talvez a maior e mais bem construída de todas. E está viva. E é mutável. (As lembranças que tenho hoje da minha infância são diferentes das de dez anos atrás, e em dez anos seguramente serão outras.)

No filme “O segredo dos seus olhos”, o jovem viúvo que teve a mulher assassinada lamenta que, passado um ano da morte, começa a se esquecer de como era sua esposa. “Tenho que fazer esforço para recordar dela todo dia, dia e noite”. E comenta que já não se lembra se o último chá que ela lhe preparou era com limão ou com mel. “Então começo a duvidar, e já não sei se isso que vai ficando é uma recordação ou a recordação de uma recordação”, sentencia.

Se a vida é o original, a memória é a cópia, diz Faciolince. E agora divago eu: só que a cópia vai perdendo a cor, sofre a ação do tempo, amarela, fica menos nítida, e não raro perde mesmo algumas folhas. É preciso então fazer nova cópia, que não é feita a partir do original (porque esse já não se sabe onde está), mas da cópia. Até que chega um tempo em que a sucessão das cópias faz com que reste bem pouco do conteúdo daquela matriz. A recordação da recordação vira uma cópia bem pouco precisa do original.

Ainda assim e mesmo sabendo que seremos um dia vencidos, lutamos contra o esquecimento. Tratamos de preencher os vazios da memória com a ficção. Romantizamos, distorcemos, criamos, mentimos a nós mesmos, e assim construímos o que somos. “Ya somos el olvido que seremos”, dizia o poema de Borges achado no bolso da jaqueta do pai de Faciolince no dia em que foi assassinado. Vinte anos depois, o escritor contou a história do seu pai e a desse poema, e diz que o fez para que ela não caísse no esquecimento.

Ricardo Viel, jornalista, escreve de Lisboa, Portugal

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

É preciso ler Jaime Sabines

*Para Ouicho, que me chamou de amoroso e me mostrou Sabines

Editores, diretores e diretoras das grandes e pequenas editoras brasileiras, responsáveis por fazer com que um livro seja lançado no Brasil, mecenas tupiniquins (eles existem?), faço aqui um apelo a vocês.

Sei que poesia não vende no nosso país. Sei também que a exceção de dois ou três, escritores latino-americanos não fazem sucesso em nossas terras.

Enfim, esqueçamos esses pormenores, e vamos ao que interessa: é preciso, urge, faz-se necessário, fundamental publicar Jaime Sabines. Esse mexicano morto em 1999, aos 72 anos, foi o poeta das massas, foi a voz de gerações. Enchia auditórios de pessoas dispostas a escutá-lo declamar suas poesias. Foi tão adorado justamente por ser capaz de falar para e por todos. Seus versos tocaram intelectuais e humildes, jovens e velhos, crentes e descrentes do amor.

Tenho certeza que vertidos ao português esses poemas alimentariam a muitas almas enfraquecidas pela dureza da vida.

Se eu tivesse dinheiro, traduziria e publicaria (ainda que em edições piratas) Sabines e distribuiria aos meus amigos, como se fosse um tesouro – por que o é. Daria também às pessoas que perderam as esperanças, aos resignados, aos que nunca acreditaram no amor ou perdem sua fé nele.

Como não tenho dinheiro, terminarei este texto com um gesto simbólico: a tradução de um dos poemas de Sabines. Um dos mais emblemáticos. Provavelmente o que mais me toca.

E fico na torcida de que estes versos e este texto cheguem aonde deve chegar.
OS AMOROSOS

Os amorosos calam.
O amor é o silêncio mais fino,
o mais angustiante, o mais insuportável.

Os amorosos buscam,
os amorosos são os que abandonam,
são os que mudam, os que esquecem.

Seus corações lhes dizem que nunca vão encontram,
não encontram, buscam.

Os amorosos andam como loucos
porque estão só, só, só
entregando-se, dando-se a cada instante,
chorando porque não salvam o amor.

Lhes preocupa o amor. Os amorosos
vivem o dia, não podem fazer mais, não sabem.

Sempre estão indo,
sempre, a alguma parte.

Esperam,
não esperam nada, mas esperam.

Sabem que nunca vão encontrar.
O amor é a prorrogação perpétua
sempre o passo seguinte, o outro, o outro.

Os amorosos são os insaciáveis,
os que sempre – que bom! – estarão sozinhos.

Os amorosos são a peçonha do conto.
Têm serpentes no lugar dos braços.
As veias do pescoço lhes incham
também como serpentes para asfixia-los.

Os amorosos não podem dormir
porque se dormem são comidos pelos vermes.

Na escuridão abrem os olhos
e neles lhes cai o espanto.

Encontram escorpiões embaixo do lençol
e sua cama flutua como se estivesse em um lago.

Os amorosos são loucos, só loucos,
sem Deus e sem diabo.

Os amorosos saem de suas covas
estarrecidos, famintos,
para caçar fantasmas.

Riem das pessoas que sabem tudo,
das que amam a perpetuidade, veridicamente,
das que acreditam no amor
como uma lâmpada de inesgotável azeite.

Os amorosos brincam de pegar a água,
de tatuar a fumaça, de não ir.

Jogam o longo, o triste jogo do amor.

Ninguém há de resignar-se,
Dizem que ninguém há de resignar-se.

Os amorosos se envergonham de todo conformismo,
Vazios, porém vazios de uma a outra costela,
a morte lhes fermenta atrás dos olhos,
e eles caminham, choram até a madrugada
em que trens e galos se despedem dolorosamente.

Lhes chega às vezes um cheiro à terra recém-nascida,
à mulheres que dormem com a mão no sexo, prazerosamente,
à arroios de aguas brandas e à cozinhas.

Os amorosos colocam-se a cantar entre lábios
uma canção não aprendida,
e vão embora chorando, chorando,
a formosa vida.
Ricardo Viel escreve às segundas de Salamanca, Espanha.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Retrato em branco e preto

Sim, claro que era impressionante sua educação
- sentada ali junto aos adultos,
falando quase aos cochichos com a madrinha,
pedindo por favor e com licença a todo tempo-,
mas não foi isso o que me chamou a atenção;

E de fato, eram curiosas as histórias contadas pela tia:
de como a sobrinha, desde os seis anos,
ia sozinha ao colégio, inclusive sob neve;
de que parava nos cruzamentos
e mesmo que não viesse nenhum carro
não se movia até que o sinal de pedestres ficasse verde
(na Espanha, nas férias, repreendia os adultos que descumpriam a lei);

Nem mesmo o fato daquela garota não ser suíça,
mesmo tendo nascido e vivido todos os seus dez anos no país
[coisas da legislação de lá, explicava a tia],
foi o que me marcou daquele encontro;

Para mim, da tarde de café, museu e passeio
a imagem que ficou,
gravada na retina,
indelével
é o enorme vazio,
de compadecer brutos e calejados,
que havia no olhar daquela criatura

Ricardo Viel, jornalista, escreve às segundas de Salamanca, Espanha

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

109 anos de Drummond

“São mitos do calendário tanto o ontem como o agora, e o teu aniversário é um nascer toda a hora…”.

Hoje se comemora os 109 anos do nascimento do poeta de Itabira. O Instituto Moreira Salles criou o Dia D:


"Espalhe-se a ideia, tão simples quanto ambiciosa: transformar o dia 31 de outubro, data de nascimento de Carlos Drummond de Andrade, num dia de grande comemoração (...)"

No vídeo abaixo, produzido pelo IMS, Dráuzio Varella, Laerte, Chico Buarque, Caetano Veloso e muitos outros declamam Drummond. Bem bacana.




E você leitor, qual o seu verso favorito?

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Poeminha pós moderno

por Izaías Almada

Vou-me embora pra Miami
Lá sou amigo da grei
Lá tenho as dicas que eu quero
Dos golpes que aplicarei
Vou-me embora pra Miami
Aqui não sou nada feliz

Lá é que é tudo loucura
Tem gente de tudo que é lado
De Caracas são muitos esquálidos
De Cuba vão muitos gusanos.
De Buenos Aires, São Paulo, La Paz
Tem malandro contumaz

Todos se julgam de elite
Com inveja da gringolandia
Se amarram num badulaque
Que aqui é o ‘must’ IMPORTADO
Lá não sou branco, nem negro
No passaporte sou ‘outros’
Me olham meio de lado...
Não faz mal, tudo é pecado.

E quando estiver estressado
Dou um pulinho em Orlando
Chamo o Pateta e a Minnie.
Pra que me contem histórias
Do tempo em que eu era menino
E não sabia da vida

Vou-me embora pra Miami
Lá eu encontro de tudo
É outra civilização
Tem celular e iPad
De última geração
Tem arma, rifle automático
Tem cocaína à vontade
De preço bom e barato
Protegida pela CIA
E por um grande aparato...

Tem garota de programa
Para gente namoricar
E quando estiver com saudade
Triste de dar dor no peito
E no barzinho eu quiser
Falar mal do meu país
Falo e me sinto feliz...

Pois lá sou amigo do Bush
Do Aznar e do Berlusconi
Essa gente à La Corleoni
Com quem no passado aprendi...

Vou-me embora pra Miami
Lá sou amigo da grei
Tenho e dou assessoria.
Pra quem? Jamais contarei.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Feriado em linha reta

Cristo e Tiradentes. Crucificação e forca. O calendário brasileiro permite esse encontro que, na pior das hipóteses, junta ideais de fé e liberdade. O que eu não sei é se os brasileiros entendem o verdadeiro significado desses dois ideais.
Na verdade, é o feriadão. O feriadão de um milhão de carros para as praias e outro milhão para o interior. Muito bacalhau e pouca fé. Muita arrogância, impunidade e pouca liberdade. Aquela liberdade que interessa, pelo menos. Não aquela que os publicitários, esse mundo à parte, cheio de glamour e mentiras, cunhou como sendo a liberdade de poder usar uma calça jeans. Só mesmo na cabeça de um idiota.
Enquanto o povão que batalha de sol a sol merece o descanso e os supermercados e pedágios se locupletam um pouco mais, o mundo gira e a Lusitana roda.
Cristo e Tiradentes. Tiradentes e Cristo. Dois ícones. Duas imagens de homens magros, de olhar sereno e barbas e cabelos compridos. Como nos anos 60 para quem viveu a guerrilha e o ‘paz e amor’. Dois homens que não foram vis. Para os que vão viajar e os que vão ficar em suas cidades curtindo o feriadão, um pouco da poesia do grande Fernando Pessoa (Álvaro de Campos):

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza”.

UM BOM FERIADO A TODOS!

Izaías Almada é dramaturgo e escritor, colunista do NR e do Escrivinhador

sexta-feira, 18 de março de 2011

Poesia é voar fora da asa

A discussão em torno do projeto do blog da Maria Bethânia sobre poesia traz a tona a discussão da própria poesia, penso eu. Com relação ao projeto mesmo, há muita desinformação na rede. Mas isso é outra história. Aproveito solamente o gancho para falar de poesia mesmo. Ou melhor. Indicar poesia. Aproveitemos o tempo livre do final de semana para ver o ótimo documentário "Só dez por cento é mentira - a desbiografia oficial e Manoel de Barros". O meu poeta preferido nasceu em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, em 1916, onde passou a infância. Rodou e em 1949 voltou ao Pantanal para tomar conta de uma fazenda que herdou do pai. Viveu em Nova York, Paris, Itália e Portugal. Aos 93 anos tem mais de 20 livros publicados e é considerado um dos poetas da língua portuguesa mais originais de todos os tempos. E o mais lido do Brasil. Eu, sinceramente, com ou sem Lei Rouanet, gostaria de ver a Maria Bethânia recitando suas poesias. Tipo essa, ó:
A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou - eu não aceito.
Não agüento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.

Meu amigo Renato Pompeu, quando escreveu do lançamento da poesia completa de Manoel de Barros, disse: "“Rosas de maio”, nome de canção gravada nos anos 1940 pelo grande Carlos Galhardo, é a frase que me ocorre para saudar o grande lançamento do mês: a “Poesia completa”, de mais de 490 páginas, do grande Manoel de Barros, volume lançado pela Leya, com capa dura e magníficas ilustrações coloridas." Taí, além do filme, esse livro merece estar em todas as bibliotecas - pessoais, particulares e públicas - do país. Afinal, como diz o próprio, "Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas - é de poesia que estão falando."

quarta-feira, 16 de março de 2011

Drummond, "O Fazendeiro do Ar"

Ao ler o texto do Henrique de Melo no espaço Cronetas me lembrei de um documentário sobre Carlos Drummond em que ele fala sobre o amor que sentia, desde muito pequeno, pela palavra. Fui atrás e achei o filme no Youtube: “O Fazendeiro do Ar”, de 1972. É curtinho – nove minutos – e vale a pena para ouvir o poeta falar do encanto que as letrinhas desenhadas no papel exerciam sobre Carlos criança. “Gostava muito das letras, mesmo sem saber ler. O aspecto visual das palavras, o papel com desenhos, riscos, letras, me causavam uma impressão muito forte”, conta.Em seguida, o poeta completa: “De modo que eu acho que tudo o que eu fiz em termos de literatura vem desse primeiro contato com a palavra impressa”. Drummond morreu faz quase 15 anos. Faz tempo e faz muita falta. Amava a palavra e sabia, como poucos, como trata-la. (Ricardo Viel é jornalista)

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Paulo Leminski: "Pra que por quê?"

Paulo Leminski, poeta curitibano, falecido em 1989, autor do romance Catatau, escreveu contos e crônicas, mas sua obra é mais conhecida pelos poemas. Foi professor, lutador de judô, tradutor, trabalhou com publicidade e era um estudioso da cultura japonesa, entre muitas outras coisas. Neste vídeo, reflete sobre a poesia como inutensílio.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago partiu sereno e tranquilo

O mundo hoje está mais triste, a humanidade mais desinteressante, o mundo das ideias e dos ideais, mais pobre. Morreu nesta sexta-feira, 18 de junho, o escritor José Saramago, aos 87 anos, “em consequência de uma múltipla falha orgânica, após uma prolongada doença. O escritor morreu acompanhado da família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila”, informou em nota a Fundação que leva seu nome.
Saramago tinha a saúde debilitada há algum tempo. Em 2007, uma doença respiratória conseguiu o impossível: fazer o ateu convicto quase acreditar num milagre, o da sua recuperação. Pelo menos foi o que ouviu dos médicos. E também impediu o escritor de escrever. À época, Saramago se viu obrigado a interromper a produção da obra “A Viagem do Elefante” por seis meses. Apenas dois dias após a alta médica, retomou o que considerava o livro mais jovial e mais divertido que já escreveu. Saramago contou essa história com o bom humor típico de suas sempre brilhantes palavras durante o lançamento do livro no Brasil, em novembro de 2008.
“Foi escrito em estado de pura felicidade por ter escapado. E mais: saí dessa doença com uma serenidade interior que nunca tinha experimentado. Pilar diz que é um livro cheio de sabedoria... e talvez seja”, disse, emocionado, a uma plateia privilegiada, de pouco mais de 700 pessoas, que ouviu naquele dia, durante quase duas horas, o escritor pensador falar de sua vida, suas histórias, do amor pela mulher, Pilar del Rio.
Eu estava lá e tive certeza de que aquele era um momento da minha vida do qual me orgulharia sempre, sentiria saudades e sobre o qual lembraria com muita dor quando Saramago se fosse. E foi exatamente como me senti hoje.
Saramago é um gênio, um escritor criativo, um contador de histórias como poucos. Mais que tudo isso, José Saramago era um homem muito especial. Escrevia sobre as injustiças do mundo e, sem alarde, trabalhava para ajudar a corrigi-las. O mais recente lance foi a reedição de seu livro “Jangada de Pedra”, cuja venda foi totalmente revertida para o fundo da Cruz Vermelha no Haiti. O que segundo ele só foi possível graças “à pronta generosidade das entidades envolvidas na edição do livro”.
Saramago era assim. E faz cada vez mais falta ao mundo seres da espécie humana que sejam assim: verdadeiros, poéticos, generosos, simples.
Seus dias de sobrevivente, como se autodefinia, acabaram. Faz lembrar daquela noite em que falava para o auditório lotado sobre o fim da viagem do elefante “que fez longa viagem num rigoroso inverno, para ter um triste fim. Uma metáfora que trata da inutilidade da vida, de não conseguirmos fazer da vida mais do que ela é”.
Mas Saramago conseguiu. Fez da vida mais do que ela é.

Claudia Motta é jornalista e escreveu especialmente ao Nota de Rodapé

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Vinicius de Moraes total e digital

Agora você pode ter acesso a todo o acervo de Vinicius de Moraes (1913-1980). É que o falecido bibliófilo José Mindlin, doou 15 livros a Biblioteca Brasiliana da Universidade de São Paulo (USP). A publicação digital foi possível após a autorização da VM Empreendimentos Artísticos e Culturais, detentora dos direitos autorais do poeta. Entre as obras, O Caminho para a Distância (1933) e a primeira edição de Orfeu da Conceição (1956). Numa entrevista para Edla van Steen, Vinicius respondeu a uma das perguntas: "Não sou um ser particularmente político, porque não tenho vocação. Sou um cara de esquerda e devo carregar o ônus de ser um cara de esquerda num mundo de direita. Um mundo tão injusto...vamos mudar de pergunta?" Acesse o acervo AQUI.

Utopia e Barbárie
Assisti ao documentário caleidoscópico do cineasta que admiro muito, Silvio Tendler. Segundo o próprio, foram 18 anos para concluir o trabalho recheado de cenas preciosas de um arquivo de imagens de dar inveja a qualquer um. Interessante é a quantidade de boas entrevistas que Silvio conseguiu reunir. Em linhas gerais, o filme expõe os principais fatos dos últimos 60 anos e reflete sobre a capacidade humana de sonhar 
e destruir, sempre com a visão pessoal do próprio cineasta que tinha 18 anos quando veio o AI-5 em 1968. Deixo a análise por conta de Vitor Nuzzi da Rede Brasil Atual (com entrevista).


sábado, 3 de abril de 2010

Sábios calcanhares

As respostas estão,
São os meus calcanhares.
Aquilo que Aquiles sofreu não dói.
O telhado de palha seca é enriquecido de esperança.
A mesma doce e pontual esperança de Aquiles.
Ele existiu?
Todo o tempo calculo o que deve ser.
Seremos o tempo dentro da caixinha de papel.
Imaginaremos o universo em doses.
Dosado de igual para igual com a pouca compreensão que nos cabe na cachola cerebral.
Desigual.
As respostas estão,
São os meus calcanhares.
O primeiro é início e não diz o porvir.
Existo?
Engatinho – sou bebe no colo do mundo.
Ando com apoio – sou, simplesmente, homem verossímil.
As palmas ecoam a sonoridade do vitorioso sem méritos.
Você existe?
Novamente o primeiro,
Primeiro parágrafo de construção confusa.
Resposta?
Calcanhares.
Aquiles não existiu.

Fredo Sidarta é poeta em construção diária no Nota de Rodapé

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Ferve a madrugada

A madrugada esquenta meu sangue,
Minha cabeça roda parada e a despeito do que pensem, a birita não se faz presente.
Daqui, perto, vejo o cheiro entrar pela varanda;
Dizem que é o fenômeno climato-emocional da tranquilidade acachapante que acomete os forasteiros do norte.
A leitura corre as horas e massageia a vista cansada de ver injustiças.
Sem querer, num repentino impulso incolor encho meu travesseiro de sonhos meus.
Durmo, então, a madrugada abençoada.

Fredo Sidarta é poeta em construção diária e concorda com Vinicius de Moraes que diz que "a poesia é fruto da vida de cada um". (Nota de Rodapé)

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Dias iguais

Na música relaxante,
Um anestésico cotidiano.
Sobe o som do aparelho,
O veículo roda os cavalos,
Entra um, dois, três; em pé (não tem onde sentar).
Cavalheiro-obrigatório cede o lugar ao idoso,
A jovem gargalha da amiga,
A janela embaçada de suor antigo revela o mendigo que canta a tristeza –
A sede de cachaça aumenta a todo instante.
Muda de faixa, o motoqueiro a mil (pilhado e adrenalizado) quase encontra Deus.
Na música relaxante,
Um anestésico cotidiano.
A injustiça é nua,
Palpável e palatável.
Os gestos são iguais,
Um com a bíblia em punho,
O outro com o revólver.
Cobrador imóvel e o fone esquerdo cai.
O sangue escorreu até a cintura.
Na estatística vale o número,
A vida, em si, não vale – a alma é prisioneira do medo (todos os dias).
A trajetória chega ao fim.
O aparelho é desligado – de volta a realidade.
O sinal é dado,
A porta se abre,
O cotidiano segue.

Fredo Sidarta é poeta em construção diária (Nota de Rodapé)

sábado, 19 de dezembro de 2009

Feliz Natal 2009 [Glauco Mattoso]

SONETO PARA UM DETALHE NATALINO

A credibilidade do Natal,
àquelle que creança já não é
mas prende-se a fetiches, tem na tal
da meia pendurada a maior fé...

Si desce ou não por uma chaminé,
si chega num trenó, si é gordo e mal
escala esses telhados de chalé,
detalhes são, mas não o principal...

A sua bota preta, sim! Pedia
só isso, eu, de presente e, nesse dia,
não via a hora... E o sino? Não repica?

Agora só desejo mesmo a meia,
que é facil de roubar, emquanto à ceia
vão todos, e ella dando sopa fica...

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Viola boa de Paulo Freire

Em 2006, pelos idos do primeiro semestre, fui até Campinas com o produtor e diretor de TV, o Kuja. Quem nos levou foi o Neizão, motorista e faz tudo da Caros Amigos. O objetivo era gravar com o Paulinho Freire, violeiro, para mais uma das ideias do Serjão, um programa piloto da Caros Amigos na TV; juntaríamos colaboradores, artistas, jornalistas e afins para fazer um programa semanal. O piloto saiu. O programa não. Faltou o canal e a grana. O Paulinho Freire é um baita violeiro, desses para escutar sempre. Paulinho é filho do “bigode’, o Roberto Freire, também criador de Caros Amigos, escritor e somoterapeuta que faleceu em 2008. E lá em Campinas, num cenário muito bonito, cheio de árvores, num fazendão vizinho ao lar do violeiro, fizemos a gravação de “Pedro Paulo” para o piloto que não vingou. Uma historinha cantada na viola, deliciosa, que compartilho aqui no blog com vocês. Não é a gravação de Campinas que guardo na memória, mas é Pedro Paulo.


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