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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 31 de março de 2014

50 anos do golpe


Hoje faz 50 anos do golpe militar que depôs o presidente João Goulart. E a partir da semana que vem, nossa colunista Fernanda Pompeu, com ilustrações de Fernando Carvall, vai inaugurar uma série especial "1964 + 50". Como ela mesmo diz:  para "descomemorar" o golpe que mudou o País.

Abaixo, uma pequena seleção de matérias/especiais que garimpamos na rede sobre o período. Trabalhos nos veículos de imprensa nacionais. Pelo direito à memória e à verdade. É preciso conhecer para não se repetir.

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Especial EBC - Um golpe na democracia (acesse)
Um trabalho jornalístico e multimídia belíssimo, que traz uma cronologia dos acontecimentos, com depoimentos e fatos históricos em áudio, vídeo e texto. A cronologia se inicia em 1961 e vai até 1964.

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Folha de S. Paulo - Em quadrinhos (acesse)
A folhinha, suplemento do jornal Folha de S. Paulo, contou o período em formato de quadrinhos com desenhos de Caco Galhardo.

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Especial Estadão - 1964 (acesse)
O jornal também traz uma série de matérias e depoimentos, numa página especial no seu site.

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Rádio Brasil Atual - (acesse)
Uma série de entrevistas do jornalista Oswaldo Colibri Vitta com Camilo Tavares, autor do documentário O dia que durou 21 anos; Aldo Fornazieri da Escola de Sociologia e Política de São Pauo, entre outros personagens.

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Folha de S. Paulo - 50 anos do golpe de 1964 (acesse) / Tudo sobre a ditadura militar (acesse)
Outro trabalho jornalístico multimídia de muita qualidade. Com animações, áudio, vídeo e textos, produzido pela 56 turma de traines do jornal. O segundo trabalho multimídia traz os depoimentos de personagens do período, cronologia, animações etc.

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Instituto Moreira Salles - arte e cultura no ano do golpe. (acesse)

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Dia de índio


por Ricardo Sangiovanni*

No tempo do mil-e-quinhentos, sertão se escrevia certão. Ou certam. Mas já era o que até hoje ainda é: aquela quentura dos infernos, aquela faltante fartura de tudo na seca.

Naqueles começos de Brasil, como até hoje não deixou de ser, mais fácil que domar o sertanejo a custa de bala era enredá-lo com arte de engano. Àquelas multidões de gente índia, falavam-lhes os capitães portugueses (ou portuguezes) da abundância de peixes e mariscos do mar que no litoral lhes aguardava, e mais da liberdade que havia lá à espera, para eles gozarem. E regalavam aos cabeças das tribos quaisquer trapos de roupa, mais umas ferramentas ruins que sobravam, mais as comidas secas que à mão houvesse.

E então pela via da paz – pois guerrear dava mais trabalho – desabalavam-se aldeias inteiras sob a batuta dos colonizadores, no encalço do litoral. Até chegar na beira da praia, que era quando os donos dos bacamartes davam voz de prisão ao povo índio arreganhando-lhes aquela podridão nojenta que tinham por dentes. E disparavam, e separavam os filhos dos pais, os irmãos das irmãs, as mulheres dos maridos, e levavam-nos cativos para trabalhar em suas recém-formadas fazendas. E nunca mariscos do mar, e nunca mais liberdade.

Falando assim, o leitor pensará que era empreitada fácil. Mas não: o caso é que, para convencer o gentio a caminhar pacífico aquele mundo de léguas, carecia um ardil: era preciso ter na equipe alguém persuasivo, capaz de parlamentar na língua do povo – alguém, via de regra, também índio, ou mestiço.

De sorte que numa entrada dessas – a que teve por chefes Francisco de Caldas e Gaspar Dias de Atayde, em Pernambuco – ofereceu-lhes seus préstimos (não se sabe a troco de que paga) certo Brasso-de-peixe (ou Braço-de-peixe, ou Braço-do-peixe), um principal dos guerreiros Tabajares (ou Tobajaras), para convencer as tribos que iam sendo encontradas no caminho a marcharem sem resistência guerreira.

Aliados aos lusos, os Tabajares do Braço guiaram os colonizadores certão adentro, e de lá voltaram com sete mil índios cativos – que eram os que haviam sobrado vivos, porquanto haverem preferido o convencimento à matança. Porque afinal não eram pedras nem metais preciosos, caro leitor, senão levas e levas de índios escravizados – o ouro vermelho – a grande riqueza que daqueles sertões se usava extrair.

Acontece que a cobiça lusitana era tamanha que, já perto do fim da viagem, os capitães deliberaram que a recompensa do Brasso e sua gente pelos serviços prestados seria serem tomados como escravos, igualmente aos demais que haviam ajudado a trazer.

Mas o Braço, que não era surdo nem burro, ouviu e entendeu a conversa dos lusos. E, bem mais ardiloso que eles, seguiu dando-lhes trela e guarida – já sabendo da traição em vista, ofereceu-lhes ainda por cima mais duzentos caçadores à guisa de escolta para o caminho de volta.

E esperou.

Esperou até a hora em que Caldas e Atayde, e os demais homens seus, de tão bem protegidos que se sentissem, descuidaram da vigília – e o ataque rompeu a calma da noite. A ordem de Braço-de-peixe a seus duzentos guerreiros – e mais aos homens de Assento-de-Passáro, outro chefe seu parente que chegou para acudir – foi flechar os portugueses todos até que não escapasse nenhum com vida.

Assim foi feito. E no restante daquela noite fez-se festa e foi servida carne branca. E a indiada de cativa tornou a ser livre. Livre (verdade que graças ao macunaímico Braço-do-peixe, cujo restante da história um dia ainda lhes terminarei de contar) para voltar para suas terras, livre para ir para onde quisessem na manhã daquele dia raro, aquele dia de índio.


*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

1930: revolução?

Com 82 anos hoje, assassinato de líder nordestino iniciou
movimento que serve à discussão sobre modelo do Estado
Dia 26 de julho de 1930. Há 82 anos ocorria a comoção em torno do assassinato do político paraibano João Pessoa que forjou o capítulo decisivo para a chamada “Revolução de 30”.

O episódio modificou a estrutura baseada no monopólio do poder nacional pelos cafeicultores paulistas numa aliança político-eleitoral polarizada entre São Paulo e Minas Gerais, que garantiu o controle do Estado com o compromisso de alternância na presidência.

Foi com a queda dessa polarização que o papel estatal mais forte calcado no populismo de Getulio Vargas adquiriu contornos mais evidentes.  Muitos livros didáticos de história descrevem que a movimentação capitaneada por Vargas derrubou a hegemonia da região sudeste, e que o Brasil, então um país rural e exportador de produtos agrícolas, passou a caminhar em direção a um modelo de desenvolvimento industrial e urbano.

Apesar do inquestionável valor histórico do momento, diversas questões podem ser levantadas. Desde a utilização do termo “revolução” até suas consequências e aprofundamento de transformações sociais. Mesmo que pontualmente, vale ressaltar que a data é tratada com visões diferentes no interior do meio acadêmico

Revolução?

Há debates sobre a consistência da rotulação de “Revolução de 30” dada por historiadores ao golpe militar que alçou Getúlio Vargas à Presidência. É verdade que houve movimentação de tropas, nas ruas, e que fogueiras foram armadas com móveis e cadeiras das redações de jornais governistas em grandes cidades brasileiras. Porém, seria isso suficiente para justificar que o acontecimento seja chamado de revolução? Existiram transformações profundas na sociedade que possam embasar a utilização do termo?

“Houve mudanças estruturais no Brasil a partir de 1930 em questões políticas, econômicas e sociais. As mulheres passaram a exercer o direito constitucional de votar, cria-se a Justiça Eleitoral, muitos direitos trabalhistas, reivindicações históricas dos operários são atendidos e o Estado se torna protagonista na economia. As transformações foram, sim, profundas”, disse ao Nota de Rodapé o professor João Paulo Martins Júnior da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Já a professora de história na pós-graduação da Universidade Paulista (Unip), Carla Longhi, considera que o momento não foi revolucionário pela ausência do aprofundamento das transformações que mudassem a estrutura social da época. “Eram as classes dominantes que se movimentavam, num rearranjo político. Ocorreram reformas, mas não mudanças profundas no sistema social. Creio que movimento de 30 é mais adequado do que revolução”.

De qualquer forma, a reestruturação político-estatal ocorrida no Brasil após 1930, com o período do governo Vargas, foi dividida em três fases – governo provisório, governo constitucional e Estado Novo – e imprimiu um legado que perdura até hoje no que se refere à modernização das estruturas estatais e ampliação das funções do Estado brasileiro, ampliando as funções sobre as áreas econômica, política e social.

A história deixou reflexos importantes, que perduraram na linha do tempo e estão bastante vivos nos dias atuais. Por eles, passam debates referentes ao papel de um Estado forte, capaz de conduzir o país na direção de formatações socioeconômicas que possibilitem a mobilidade da população de uma classe social a outra, como na questão da transferência de renda, e no tamanho da presença estatal no setor econômico, preparando as bases, por exemplo, para as relações comerciais externas, seja em tempos de calmaria seja em tempos de movimentos bruscos, como na crise mundial de 2008 e na que vemos hoje.

Moriti Neto, jornalista, mantém a coluna mensal Escarafunchar

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Feriado em linha reta

Cristo e Tiradentes. Crucificação e forca. O calendário brasileiro permite esse encontro que, na pior das hipóteses, junta ideais de fé e liberdade. O que eu não sei é se os brasileiros entendem o verdadeiro significado desses dois ideais.
Na verdade, é o feriadão. O feriadão de um milhão de carros para as praias e outro milhão para o interior. Muito bacalhau e pouca fé. Muita arrogância, impunidade e pouca liberdade. Aquela liberdade que interessa, pelo menos. Não aquela que os publicitários, esse mundo à parte, cheio de glamour e mentiras, cunhou como sendo a liberdade de poder usar uma calça jeans. Só mesmo na cabeça de um idiota.
Enquanto o povão que batalha de sol a sol merece o descanso e os supermercados e pedágios se locupletam um pouco mais, o mundo gira e a Lusitana roda.
Cristo e Tiradentes. Tiradentes e Cristo. Dois ícones. Duas imagens de homens magros, de olhar sereno e barbas e cabelos compridos. Como nos anos 60 para quem viveu a guerrilha e o ‘paz e amor’. Dois homens que não foram vis. Para os que vão viajar e os que vão ficar em suas cidades curtindo o feriadão, um pouco da poesia do grande Fernando Pessoa (Álvaro de Campos):

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza”.

UM BOM FERIADO A TODOS!

Izaías Almada é dramaturgo e escritor, colunista do NR e do Escrivinhador

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Há 62 anos nascia uma declaração ainda pouco respeitada

No dia 10 de dezembro de 1948, representantes da comunidade internacional se reuniram na sede da ONU para promulgar a Declaração Universal dos Direitos Humanos. O objetivo daquela iniciativa era evitar que as barbaridades praticadas durante duas Guerras Mundiais voltassem a se repetir. Passados 62 anos, os direitos assegurados na declaração ainda estão longe de serem plenamente respeitados.
1947: primeira reunião em NY para elaborar a declaração
O primeiro e mais elementar direito garantido no documento é a igualdade entre todos, independente de cor, raça, credo e opção sexual. No entanto, ainda hoje, pensar de outro modo, ter uma determinada opção sexual ou uma fé pode ser perigoso.
Recentemente, pessoas foram agredidas na principal avenida da cidade de São Paulo pelo simples fato de serem homossexuais. No final de semana passada, um jovem foi espancado até a morte por usar uma camisa azul de uma equipe de futebol em Minas Gerais.
Essas agressões são um pequeno exemplo do caminho que ainda nos espera até a plena aplicação dos direitos básicos. Demonstram, também, que a Declaração Universal dos Direitos Humanos não é uma garantia para tempos de guerra ou para países em que não há democracia. Os direitos fundamentais, vitais para a vida em sociedade, continuam sendo violados diariamente em todo o mundo.
Hoje, a grande maioria dos países têm incorporados a seus ordenamentos jurídicos os direitos humanos. No entanto, a simples presença desses princípios em Constituições e Códigos não garante sua vigência. O desconhecimento dos direitos faz com que a sociedade deixe de exigi-los e permite que eles continuem sendo desrespeitados.

Saiba mais:
- Os 30 artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos
- Faça o download do livro Brasil Direitos Humanos 2008: a realidade do país aos 60 anos da Declaração Universal, da Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República

Ignorância e senso comum
Tão prejudicial quanto o desconhecimento dos direitos básicos é a distorção quanto a sua aplicação. Os direitos humanos não existem para “defender bandido”, como, ainda hoje, se ouve. Eles existem para garantir a todos uma existência digna, inclusive aos bandidos. Quando os Estados Unidos se lançaram em uma “cruzada contra o mal” e passaram a prender, torturar e isolar prisioneiros sob a justificativa de proteger o mundo do terrorismo, o que se viu foi um Estado praticando a barbárie. Evitar abusos, mesmo em tempos difíceis, é necessário para que a sociedade não retroceda.
“Nunca tive ânsia de ver torturados os torturadores que conheci. Não por virtude ou compaixão. Mas para não me ver rebaixado à inumanidade deles.” O testemunho é de Frei Betto, que foi torturado e passou quatro anos de sua vida preso por praticar o “crime”de pensar. O dominicano sobreviveu (sorte que muitos não tiveram) e continuou sua luta. Manteve seus ideais e crença na humanidade. Assim, derrotou seus torturadores. Por ter seus direitos mais fundamentais violados, Frei Betto sabe o quanto eles são valiosos. A resposta ao terrorismo (inclusive o de Estado) é a aplicação dos direitos humanos e não a sua violação.

Ricardo Viel é repórter, formado em direito, e foi voluntário da Anistia Internacional durante 7 anos
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