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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Érika Mesquita, a primeira brasileira a estudar a antropologia do clima


foto de Nayanna Marques
A antropóloga Érika Mesquita, doutora pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) é a primeira brasileira a pesquisar antropologia do clima. Ela realizou durante quase cinco anos uma pesquisa pioneira que trata sobre a percepção das mudanças climáticas por grupos indígenas e comunidades extrativistas na região do Alto Juruá no estado do Acre. Ela se debruçou sob dois grupos étnicos, os Ashaninka e os Kaxinawá, e sob três comunidades extrativistas, situadas na Reserva Extrativista Alto Juruá. A linha de pesquisa denominada também de etnoclimatologia, trás informações importantes para entender a cosmovisão indígena sobre o tema e notar, com exemplos concretos, qual é a contribuição dessas populações para a manutenção da floresta e da vida. Este ano Mesquita irá lançar um livro com o resultado de sua tese de doutorado pela editora Mercado das Letras, em Campinas. Confira a entrevista que o Nota de Rodapé fez com a antropóloga.

entrevista por Ana Mendes*

NR – O que te motivou a fazer este trabalho?

Eu me motivei a pensar sobre o clima aqui na região porque hoje em dia os paradigmas sobre esse assunto estão completamente mudados. E eu queria entender até que ponto os indígenas tem conhecimento disso e o que eles tem a acrescentar nessa temática. A verdade é que as Ciências Sociais não está trabalhando as questão das mudanças climáticas. E ela tem que se voltar pra isso, principalmente a antropologia. Os geógrafos e os engenheiros ambientais falam muito sobre o clima. Mas nós, antropólogos, sabemos que nessas análises falta o olhar do cotidiano. Daí a ideia de trabalhar essa produção de conhecimento com os indígenas e com as populações tradicionais. Onde eu trabalhei a maioria das pessoas não tem acesso a informação da mídia. Então eu pude compartilhar como eles enxergam isso realmente.

NR – O que é antropologia do clima?

A antropologia do clima está nascendo agora. Ela é um olhar dentro da antropologia que está buscando analisar as mudanças climáticas. Existem poucas pessoas trabalhando com isso, uma delas é uma colega do México, Esther Katz, que pesquisa populações originárias lá, e eu, aqui. O meu desejo é que muito mais gente faça isso, pra que possamos montar um mapa dos conhecimentos tradicionais indígenas em todo o Brasil. Mas, claro, há que se tomar muito cuidado porque trata-se de uma etnografia somada a uma nova forma de olhar que a antropologia está pegando emprestado das ciências naturais, da geografia física. Em resumo, estamos buscando saber como isso [mudanças climáticas] está sendo sentido no dia-dia, não só nas situações de catástrofe, mas no cotidiano.

NR – Li no teu trabalho que os índios Ashaninka precisam fazer o reflorestamento de certas espécies que antes era feito naturalmente, quando a época dos ventos coincidia a floração. Há outras iniciativas nesse sentido?

Justamente, eles já fazem estas coisas a sua maneira. Há também a agrofloresta que os índios já praticam, mas isto não é fomentado por nenhuma política. Então, a questão é mostrar pro poder público que se pode fazer mais. O conhecimento que eles produzem pode gerar políticas públicas. Não basta só olharem o painel do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas]. E eu não estou criticando, mas estes dados devem ser somado à outros olhares. Os governos tem que saber que essas populações podem contribuir, contribuir na prática. Lá nas Filipinas, perto de onde aconteceu essa grande catástrofe recentemente, um xamã percebeu que vinha o tsunami. Aquele último, de 2004. Ele avisou pra todos da aldeia. E as pessoas foram se refugiar nas montanhas mais altas. Mas na cidade, o poder local não acreditou nele quando tentou alertá-los sobre a onda gigante. É justamente pra fazer com que esse tipo de coisa não passe batido que deve-se trazer à tona o conhecimento tradicional. Os poderes locais e globais tem que acreditar que este conhecimento não é mito. São uma categoria que tem prática sim. Ainda há um precipício entre o conhecimento tradicional e o conhecimento institucionalizado. E essa história está aos poucos sendo fecundada. Porque em relação às políticas públicas para povos indígenas o tratamento ainda é de cima pra baixo, infelizmente. Este ano a UNESCO vai lançar um coletânea de artigos sobre o viés das Ciências Sociais a respeito das mudanças climáticas, incluindo o meu trabalho.

Indios Katukina, proxima etnia a ser pesquisada
[Foto Ana Mendes] 
NR – Você acha que a Academia está conseguindo absorver esse conhecimento?

Nos grandes polos de conhecimento do Brasil sim. Ainda não atingiu a grande mídia, mas a gente já vê que o movimento é pra que isso aconteça. Muitos antropólogos brasileiros estão trabalhando nessa mesma linha. Eu bebi muito nessas fontes: Manuela Carneiro da Cunha, Gilles Deleuze, Marcel Mauss, Eduardo Viveiros de Castro. A começar por Marcel Mauss, que na década de vinte fez uma classificação do pensamento nativo. Ele foi visto como um grande etnógrafo, mas nunca foi colocado em prática. Então, muita coisa escrita por grandes antropólogos estavam engavetadas e parece que agora está vindo à tona. Hoje em dia vivemos um novo paradigma da ciência tradicional. Muitos cientistas estão com os olhos mais abertos para a ciência nativa. Já temos graduações indígenas, médicos indígenas e daqui a pouco os primeiros doutores indígenas.

NR – Me fala um pouco sobre as tabelas que tu elaborou com os tipos de chuva, de sol e de lua. Porque tu sentiu a necessidade de fazer essa organização?

É inacreditável pensar que as populações tradicionais enxergam seis tipos de sóis. Vou te dar um exemplo prático, quando fui morar em uma aldeia na cidade de Marechal Taumaturgo, achava que qualquer água que caia do céu era chuva. Mas tem chuva feminina, masculina tem chuva que é 'feita acontecer'. Os Ashanika mascam batata e sopram, aí a chuva vem. Foi surpreendente quando eu comecei a perceber que essa noção pra eles não é tão genérica como pra nós. Quando eu falei 'tá chovendo' a primeira vez me corrigiram 'Isso não é chuva, é puagem. Chuva é quando molha a terra.' Quem não vive na floresta tem um olhar mecânico, os índios são cheio de pormenores. Eles tem um conhecimento muito grande que até então, há mais ou menos cinco anos não era valorizado, mas agora a coisa tá mudando. Como dizem nas manifestações, Brasil a fora, 'o gigante acordou!' e acordou pra muita coisa mesmo. Não só tardiamente em manifestações, mas também na ciência com relação ao conhecimento indígena. Só tá faltando virar política pública.

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Ana Mendes, gaúcha de nascimento, é fotógrafa e cineasta documental formada em Ciências Sociais. Mantém a coluna mensal Faço Foto.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Morre um morubixaba


por Spensy Pimentel, especial para o Nota de Rodapé*

Na noite de 01/12/13, o líder kaiowa Ambrosio Vilhalva, 53 anos, morreu depois de ser esfaqueado no acampamento onde residia, na Terra Indígena Guyraroka, em Caarapó (MS). Ambrosio se tornou internacionalmente conhecido como o protagonista do filme Terra Vermelha, de Marco Becchis. No filme, como o cacique Nádio, ele interpretava sua própria vida de luta pela terra. Conheci pessoalmente o Ambrósio em 2009, logo que começava minha pesquisa de campo do doutorado. Foi pouco depois do sucesso de Terra Vermelha. Quase lhe pedi o autógrafo naquela Aty Guasu – a Grande Assembleia Kaiowa e Guarani – em Amambai. Era fascinante vê-lo falar em público, porque sua presença e discurso tinha mesmo algo de cinematográfico.

Na minha investigação, tentava entender melhor as figuras da política kaiowa e guarani. E sabe aqueles morubixabas dos quais ouvimos falar nas aulas de história, comandando esquadras de canoas em guerras intestinas nesse litoral entre São Paulo e Rio que hoje fica apinhado de turistas no verão? O sul de Mato Grosso do Sul está cheio de versões atualizadas desses personagens, tão imponentes como o Cunhambebe das aventuras de Hans Staden, mesmo que, aos nossos olhos, vistam andrajos e estejam cobertos de poeira vermelha. Em guarani, eles são chamados de mburuvicha.

Ambrósio venceria Clint Eastwood num duelo, certamente. Só com o olhar. Os Kaiowa, frequentemente, têm esse olhar firme, de quem não tem nada a perder, de quem está pronto para a morte. Olhar de samurai.

Os xamãs cantam para espantar a morte que ronda as comunidades kaiowa. Ela chega sem cerimônias. Se esconde nas garrafinhas plásticas de cachaça, carinhosamente chamadas de “barrigudinhas”. Aproveita a tristeza trazida pelo choro das crianças com fome, de noite, no chão, nos barracos de lona preta, para se deitar ao lado de pais e mães, assoprando em seus ouvidos cantigas de desespero. Chega junto com os presentes e o dinheiro dos fazendeiros, sempre em busca da traição.

O pior, o mais revoltante é que logo ali, do outro lado da cerca, tudo está verde. Verde como as pilhas de dólares que o agronegócio produz, a partir da cana, da soja e do milho transgênico que produzem sobre as terras indígenas que o Estado brasileiro transferiu para colonos brancos, nos tempos do autoritarismo.

Manter a sanidade em meio à loucura de um lugar onde as pessoas não se espantam com esse contraste tão violento é para os fortes. Não são poucos os que sucumbiram: mais de 1.000 apelaram para a corda desde os anos 1980.

E Ambrósio resistiu, foi um forte. Ameaçado? Há muito, quase sempre, quase todo dia. Como tantos por aqui. Um Pixote, como arriscou um amigo? Um Paul Walker, talvez? Quem lhe enfiou a faca? Um parente? Um traidor? Quem sabe? A polícia deve apurar, é claro. Mas, quem vai ser capaz de conseguir a homologação da Terra Indígena Guyaroka? E disso, quem dará conta?

Em suas virtudes e defeitos, Terra Vermelha foi um marco na divulgação da luta guarani-kaiowa, disso não há dúvida. Logo esses índios que, aos olhos dos brasileiros em geral, são aculturados, integrados, que já nem são índios, para alguns: ficaram famosos. A pequena revolução que os Guarani-Kaiowa estão operando no imaginário brasileiro apenas começou. E muito disso se deve à figura de Ambrósio, que conseguiu, com seu olhar, transmitir ao público o que significa arriscar a vida, dia a dia, nos mais de 30 acampamentos indígenas do sul de MS que buscam, teimosamente, recuperar as terras chamadas pelos Kaiowa de tekoha – “o lugar onde se pode ser do nosso próprio jeito”.

Era só isso que Ambrósio perseguia. Um projeto próprio de vida, longe do que foi imposto pelos brancos. Longe desse pobre cotidiano nas reservas indígenas implantadas bem ao lado das cidades do sul de MS, projetadas para serem depósitos de gente barata para trabalhar nos moinhos do nosso heróico agronegócio.

Ele era só isto: um mau exemplo, aos olhos dos brancos. O negativo de tudo aquilo que os políticos, fazendeiros e pastores de Mato Grosso do Sul procuram impor aos indígenas do estado. Ele bebia. Ele brigava com parentes e se feria (e daí?). Ele venerava outros deuses, dançando e cantando. Ele “invadia terras produtivas”. Talvez, até, para fazer com que deixassem de produzir. Essa foi, talvez, sua suprema heresia, perante os fiéis da religião cristã-capitalista.

Como tantos indígenas – dos livros de história e de hoje –, Ambrósio só queria fazer as coisas do seu próprio jeito. Queria somente a liberdade para cometer seus próprios erros e acertos. Tristemente, ele morreu antes de ver sua família recuperar de fato os quase 12 mil hectares de terra vermelha que o governo brasileiro já reconheceu como a Terra Indígena Guyraroka.

A presidenta Dilma Rousseff, em vez de assinar a homologação da terra de Ambrósio, conseguiu mais um risquinho na parede de seu gabinete. Os Kaiowa e Guarani perderam mais um líder, um homem que, contra todas as razões e papeis dos brancos, foi capaz de reunir sua família e conduzi-la até seu tekoha, sua Terra sem Males. Quantos de nós temos coragem para tanto?

Os brasileiros têm mais um motivo para envergonhar-se. A maioria de nós jamais chegará aos pés da dignidade que Ambrósio alcançou em sua vida. Quem aqui encara o olhar que ele nos legou?

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Spensy Pimentel, Jornalista e antropólogo, pesquisador do Centro de Estudos Ameríndios da USP, especial para o Nota de Rodapé

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

#direitosindígenas

Amanhã termina a Mobilização Nacional Indígena convocada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) em defesa dos direitos dos povos indígenas e tradicionais. Entre as reivindicações, está a derrubada da PEC 215/2000, de autoria do ex-deputado Almir Sá, de Roraima,  que propõe transferir a competência da União na demarcação das terras indígenas para o Congresso Nacional.

A proposta também possibilita a revisão das terras já demarcadas. Outra mudança seria nos critérios e procedimentos para a demarcação destas áreas, que passariam a ser regulamentados por lei, e não por decreto com é atualmente.


Ilustração de Kelvin Koubik, "Kino", colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Índios na cidade

No último dia 9 de agosto, Dia Internacional dos Povos Indígenas do Mundo, a Comissão Pró-Índio de São Paulo lançou o vídeo “Índios na Cidade: desafios e conquistas”, em que índios das cidades de Manaus, Boa Vista, Campo Grande, São Paulo, Osasco, Curitiba e Porto Alegre dão seu depoimento sobre os desafios de viver no contexto urbano.

Segundo o Censo de 2010, 36% da população indígena no Brasil reside em centros urbanos. Saiba mais e veja o vídeo abaixo, muito importante. 

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Dia de índio


por Ricardo Sangiovanni*

No tempo do mil-e-quinhentos, sertão se escrevia certão. Ou certam. Mas já era o que até hoje ainda é: aquela quentura dos infernos, aquela faltante fartura de tudo na seca.

Naqueles começos de Brasil, como até hoje não deixou de ser, mais fácil que domar o sertanejo a custa de bala era enredá-lo com arte de engano. Àquelas multidões de gente índia, falavam-lhes os capitães portugueses (ou portuguezes) da abundância de peixes e mariscos do mar que no litoral lhes aguardava, e mais da liberdade que havia lá à espera, para eles gozarem. E regalavam aos cabeças das tribos quaisquer trapos de roupa, mais umas ferramentas ruins que sobravam, mais as comidas secas que à mão houvesse.

E então pela via da paz – pois guerrear dava mais trabalho – desabalavam-se aldeias inteiras sob a batuta dos colonizadores, no encalço do litoral. Até chegar na beira da praia, que era quando os donos dos bacamartes davam voz de prisão ao povo índio arreganhando-lhes aquela podridão nojenta que tinham por dentes. E disparavam, e separavam os filhos dos pais, os irmãos das irmãs, as mulheres dos maridos, e levavam-nos cativos para trabalhar em suas recém-formadas fazendas. E nunca mariscos do mar, e nunca mais liberdade.

Falando assim, o leitor pensará que era empreitada fácil. Mas não: o caso é que, para convencer o gentio a caminhar pacífico aquele mundo de léguas, carecia um ardil: era preciso ter na equipe alguém persuasivo, capaz de parlamentar na língua do povo – alguém, via de regra, também índio, ou mestiço.

De sorte que numa entrada dessas – a que teve por chefes Francisco de Caldas e Gaspar Dias de Atayde, em Pernambuco – ofereceu-lhes seus préstimos (não se sabe a troco de que paga) certo Brasso-de-peixe (ou Braço-de-peixe, ou Braço-do-peixe), um principal dos guerreiros Tabajares (ou Tobajaras), para convencer as tribos que iam sendo encontradas no caminho a marcharem sem resistência guerreira.

Aliados aos lusos, os Tabajares do Braço guiaram os colonizadores certão adentro, e de lá voltaram com sete mil índios cativos – que eram os que haviam sobrado vivos, porquanto haverem preferido o convencimento à matança. Porque afinal não eram pedras nem metais preciosos, caro leitor, senão levas e levas de índios escravizados – o ouro vermelho – a grande riqueza que daqueles sertões se usava extrair.

Acontece que a cobiça lusitana era tamanha que, já perto do fim da viagem, os capitães deliberaram que a recompensa do Brasso e sua gente pelos serviços prestados seria serem tomados como escravos, igualmente aos demais que haviam ajudado a trazer.

Mas o Braço, que não era surdo nem burro, ouviu e entendeu a conversa dos lusos. E, bem mais ardiloso que eles, seguiu dando-lhes trela e guarida – já sabendo da traição em vista, ofereceu-lhes ainda por cima mais duzentos caçadores à guisa de escolta para o caminho de volta.

E esperou.

Esperou até a hora em que Caldas e Atayde, e os demais homens seus, de tão bem protegidos que se sentissem, descuidaram da vigília – e o ataque rompeu a calma da noite. A ordem de Braço-de-peixe a seus duzentos guerreiros – e mais aos homens de Assento-de-Passáro, outro chefe seu parente que chegou para acudir – foi flechar os portugueses todos até que não escapasse nenhum com vida.

Assim foi feito. E no restante daquela noite fez-se festa e foi servida carne branca. E a indiada de cativa tornou a ser livre. Livre (verdade que graças ao macunaímico Braço-do-peixe, cujo restante da história um dia ainda lhes terminarei de contar) para voltar para suas terras, livre para ir para onde quisessem na manhã daquele dia raro, aquele dia de índio.


*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Afinal, o que é o índio para a sociedade brasileira?

Denúncia de execução de cacique e desaparecimentos colocam em risco existência da comunidade guarani kaiowá em Mato Grosso do Sul; estudantes indígenas publicam protesto.


Eram 6h30 de sexta-feira passada, 18 de novembro, no acampamento Tekoha Guaiviry, entre os municípios de Amambai e Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, a menos de cem quilômetros da fronteira com o Paraguai.

Ali uma comunidade kaiowá guarani foi atacada por um grupo de aproximadamente 40 pistoleiros munidos com armas de grosso calibre.
Nísio: desaparecido desde sexta-feira, 18 de novembro

As descrições do bando apontam um grupo mascarado e com jaquetas escuras que entrou em fila no acampamento e ordenou que os índios deitassem no chão.

Segundo relatos da comunidade o objetivo central do ataque era o assassinato do cacique Nísio Gomes.

Ele foi morto com tiros de calibre 12 – na cabeça, no peito, nos braços e nas pernas – e o corpo levado pelos pistoleiros, algo comum em massacres cometidos contra os kaiowá guarani no estado.

A comunidade conta que o filho de Nísio tentou impedir o assassinato e se atirou sobre um dos pistoleiros. Apanhou muito, mas seguiu tentando salvar o cacique. Os assassinos somente conseguiram contê-lo com um tiro de bala de borracha no peito. E executaram o pai diante de seus olhos.

Existem denúncias de que mais três jovens teriam sido sequestrados e que também uma mulher e uma criança teriam sido mortas. A informação vem de um grupo de 12 mulheres que conseguiu escapar e chegar até a cidade de Amambaí.

Elas contaram que, durante a fuga, viram três jovens serem baleados e caírem ao chão. Não conseguiram afirmar se morreram. Os jovens seriam Jonatas Velásquez, de 14 anos, Mauro Martins, de 15 anos e Jailson Brites, de 16 anos.

Os pistoleiros tinham uma dezena de caminhonetes – marcas Hilux e S-10, nas cores preta, vermelha e verde. De acordo com as testemunhas, foi na caçamba de uma delas que levaram o corpo do líder indígena e dos outros sequestrados.

Depois do ataque, dez indígenas permaneceram no acampamento. O restante fugiu para o mato. A comunidade tem aproximadamente 60 membros.

Semanalmente ameaçada por pistoleiros que trabalham para grandes proprietários de terra da região, não é a primeira vez que a comunidade sofre agressões.  

Foi instaurado inquérito pela Polícia Federal e o Ministério Público Federal também está acompanhando de perto as investigações, mas, até o momento, não há nenhuma informação sobre o corpo de Nísio Gomes ou dos índios desaparecidos.

Burocracia e precariedade:
combinação para o genocídio


Aguardando por regularização fundiária, a comunidade, que antes vivia em uma rodovia estadual, está acampada em área de litígio desde o último dia 1 de novembro, ocupando um pedaço de terra entre as fazendas Chimarrão, Querência Nativa e Ouro Verde, localizado em uma pequena parte de ocupação tradicional kaiowá. O lugar pertence ao conjunto de terras indígenas que devem ser demarcadas no estado.

Com um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) do Ministério Público Federal (MPF), em execução – referente ao processo de demarcação da terra indígena – o processo de identificação das áreas começou em 2007 e é repetidamente interrompido por conflitos.

Somando a precariedade e o descaso estatal, Marcos Homero Ferreira Lima, antropólogo do MPF de Dourados, em colaboração com estudo da Survival International – organização mundial de apoio aos povos indígenas – sobre um acampamento de beira de estrada localizado às margens da BR 163, na cidade de Dourados, diz que não é exagero classificar como genocídio o que ocorre aos kaiowá.

“Não se trata de hipérbole quando se fala em genocídio, pois, a série de eventos e ações perpetradas contra o grupo, como se objetivou demonstrar, desde o final da década de 1990, tem contribuído para submeter seus membros a condições tolhedoras da existência física, cultural e espiritual. Crianças, jovens, adultos e velhos se encontram submetidos a experiências degradantes que ferem diretamente a dignidade da pessoa humana. O modo de vida imposto àqueles kaiowá é revelador de como os brancos veem os índios.

O preconceito, o descaso, o descuido, a não consideração dos direitos à terra, à vida, à dignidade são patentes. A situação por eles vivenciada é análoga àquela de um campo de refugiados. É como se fossem estrangeiros no seu próprio país. É como se os 'brancos' estivessem em guerra com os índios e a estes últimos só restasse a fina faixa de terra que separa a cerca de uma fazenda e a beira de uma rodovia”, argumenta.

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi), em estudo sobre a violência praticada contra os povos indígenas do estado nos últimos oito anos, aponta que a maior quantidade de acampamentos indígenas do Brasil está no Mato Grosso do Sul.

São 31, com mais de 1200 famílias vivendo à beira de rodovias ou isoladas em pequenas porções de terra de fazendas. Com a precariedade, além da constante violência, as comunidades estão expostas a vários tipos de doenças.
Leia também
reportagem da Agência Brasil, especial DUAS REALIDADES SOBRE O MESMO CHÃO. Nísio disse a reportagem.
“Já me bateram na beira da rodovia quando eu vinha à noite. Tenho medo, mas não paro [a luta pela terra], porque, se eu morrer, misturo com a terra de novo”.
Segue, sem edição, carta de protesto dos estudantes guarani e kaiowá dos cursos de ciências sociais e história da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul. As informações contidas na carta foram recebidas por pessoas que estavam no acampamento na hora do massacre:
Por volta das seis horas chegaram os pistoleiros. Os homens entraram em fila já chamando pelo Nísio. Eles falavam segura o Nísio, segura o Nísio. Quando Nísio é visto recebe o primeiro tiro na garganta e com isso seu corpo começou tremer. Em seguida levou mais um tiro no peito e na perna.
O neto pequeno de Nísio viu o avô no chão e correu para agarrar o avô. Com isso um pistoleiro veio e começou a bater no rosto de Nísio com a arma. Mais duas pessoas foram assassinadas. Alguns outros receberam tiros, mas sobreviveram. Atiraram com balas de borracha também. As pessoas gritavam e corriam de um lado para o outro tentando fugir e se esconder no mato.
As pessoas se jogavam de um barranco que tem no acampamento. Um rapaz que foi atingido por um tiro de borracha se jogou no barranco e quebrou a perna. Ele não conseguiu fugir junto com os outros então tiveram que esconder ele embaixo de galhos de árvore para que ele não fosse morto.
Outro rapaz se escondeu em cima de uma árvore e foi ele eu me ligou para me contar o que tinha acontecido. Ele contou logo em seguida. Ele ligou chorando muito. Ele contou que chutaram o corpo de Nísio para ver se ele estava morto e ainda deram mais um tiro para garantir que a liderança estava morta. Ergueram o corpo dele e jogaram na caçamba da caminhonete levando o corpo dele embora.
Nós estamos aqui reunidos para pedir união e justiça neste momento.
Afinal, o que é o índio para a sociedade brasileira?

Vemos hoje os direitos humanos, a defesa do meio ambiente, dos animais. Mas e as populações indígenas, como vem sendo tratadas?

As pessoas que fizeram isso conhecem as leis, sabem de direitos, sabem como deve ser feita a demarcação da terra indígena, sabem que isso é feito na justiça. Então porque eles fazem isso? Eles estão acima da lei?

O estado do Mato Grosso do Sul é um dos últimos estados do Brasil mas é o primeiro em violência contra os povos indígenas. É o estado que mais mata a população indígena.
Parece que o nazismo está presente aqui. Parece que o Mato Grosso do Sul se tornou um campo de fuzilamento dos povos indígenas. Prova disso é a execução do Nísio. Quando não matam assim matam por atropelamento.
Nós podemos dizer que o estado, os políticos e a sociedade são cúmplices dessa violência quando eles não falam nada, quando não fazem nada para isso mudar. Os índios se tornaram os novos judeus.

E onde estão nossos direitos, os direitos humanos, a própria constituição? E nós estamos aí sujeito a essa violência. Os índios vivem com medo, medo de morrer.

Mas isso não aquieta aluta pela demarcação das terras indígenas. Porque Ñandejara está do lado do bom e com certeza quem faz a justiça final é ele. Se a justiça da terra não funcionar a justiça de deus vai funcionar.

Estudantes Guarani e Kaiowá dos cursos de ciências sociais e história e moradores da aldeia de Amambaí
Moriti Neto, jornalista,colunista do Nota de Rodapé.
(texto publicado originalmente na revista Fórum)

terça-feira, 1 de junho de 2010

Proteção das Terras Guarani garante a preservação da Mata Atlântica

Na semana em que as atenções se voltam para a Mata Atlântica, devido ao Dia Nacional desse bioma - comemorado em 27 de maio, é impossível esquecer dos Guarani, um povo indígena que luta pela preservação da mata, da qual depende diretamente para manter seu modo de vida. “O povo Guarani sempre foi o mais interessado em preservar a Mata Atlântica e continua sendo o que mais preserva porque não estamos preservando somente a mata, estamos preservando a nossa cultura. Onde ainda tem um restinho dessa mata é porque ali vive o povo Guarani”, define Antônio Carvalho, o Werá Kwaray, da aldeia Boa Esperança, no município de Aracruz (ES).
Os Guarani constituem a maior população indígena em área da Mata Atlântica. Cerca de 90% das 120 terras Guarani situadas nas regiões Sul e Sudeste estão localizadas em meio a esse bioma. Isso não é por acaso, o bioma é o local privilegiado para sua cosmologia e para a constituição do tekoa, conceito que diz respeito à realização do seu modo de ser. “Para nós, povo Guarani, é a natureza que foi preservada, nós entendemos que ela é um espaço muito importante para o povo Guarani. E também para o povo Guarani ela é bastante sagrada, ela precisa ser preservada. Ela não é importante só para o povo Guarani, por isso ela deve ser preservada também pela sociedade branca, o próprio governo precisa fazer com que essas áreas não sejam destruídas", relata Maurício da Silva Gonçalves, da aldeia Estiva, em Diamante (RS).

Primeiras causas
As principais causas do processo da destruição da Mata Atlântica - a expansão da fronteira agropecuária, os grandes empreendimentos de infraestrutura, o crescimento das cidades e a exploração não sustentável das florestas - são também as principais ameaças aos direitos territoriais dos Guarani. Não é coincidência que o Estado de Santa Catarina - segundo colocado entre os estados campeões em desmatamento no período de 2005 a 2008 segundo o "Atlas da Mata Atlântica" da Fundação SOS Mata Atlântica - é também uma das regiões onde as disputas envolvendo as terras Guarani são mais acirradas.
A destruição da mata e o confinamento em áreas diminutas também ameaça a seguridade alimentar dos Guarani que dependem dos recursos da floresta para garantir a sua subsistência. Além disso, os índios estão entre as populações mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas decorrentes do desmatamento da floresta e o aumento das emissões de gases do efeito estufa.
Os Guarani estão conscientes e preocupados com tal situação, como coloca Santiago Karaí Ryapua, líder Guarani da Aldeia Lomba do Pinheiro, localizada em Porto Alegre (RS). “Os mais velhos sentem muita falta, sempre no Rio Grande do Sul temos uma reunião de Guarani e sempre os pajés começam a falar como era antes e até hoje, é muito difícil não existe mais mato, espaço livre para nós poder fazer, sentir como Guarani, sentir como Mbya. Não tem mais condições hoje em dia. Por isso há muita dificuldade. Os mais velhos sempre fala, a mata é sagrada, que o nosso Nhanderu deixou para nós, para nós cuidar. Mas o branco não respeita e não conhece o valor que tem essa mata, o rio, ele não conhece, para nos Mbya é uma tristeza que a gente passa no dia-a-dia", lamenta.

Horizonte comum
Sérgio Macena, da aldeia Ribeirão Silveira (SP), conta que aguarda ansioso pela efetivação de uma Unidade de Conservação (UC) próxima à aldeia. “Sendo (a área) uma Unidade de Conservação é mais fácil para gente porque sabemos que não haverá mais desmatamento, é preciso que os órgãos responsáveis atuem e nos ajudem na conservação da mata, tão importante para a nossa sobrevivência”.
A aldeia onde Sérgio mora está localizada entre os municípios de Bertioga, São Sebastião e Salesópolis. A unidade de conservação que se pretende criar tem mais de 8 mil hectares e fica no trecho mais preservado de Mata Atlântica no litoral paulista. A área de planície, que faz conexão com o Parque Estadual da Serra do Mar, abriga rica diversidade de ambientes: dunas, praias, rios, florestas, mangues e uma variada vegetação de restinga, nos quais vivem animais raros e ameaçados de extinção, de acordo com a Organização Não-Governamental (Ong) WWF-Brasil.
O “Diagnóstico Socioambiental para Criação de Unidades de Conservação Polígono Bertioga”, encomendado pela WWF-Brasil para embasar a etapa de consultas públicas, reconhece a importância da presença dos Guarani: “As Terras Indígenas (TI) do Povo Guarani, aldeia do Ribeirão Silveira, cumpre importante papel na manutenção da cultura local e do uso diferenciado do território”. O mesmo documento aponta que “embora esta população tenha suas terras demarcadas e vivam da agricultura de subsistência são enormes as dificuldades por eles encontradas, pois, entre outros pontos críticos, as áreas oficiais que foram demarcadas como Território Indígena não têm grande valor para a prática da agricultura tradicional. Em vista disso, eles hoje ocupam uma área particular, e lutam há vários anos na justiça pela remarcação e ampliação dos limites de seu território”.
Para Sérgio a área onde vivem continuará preservada, se os direitos ambientais e territoriais forem respeitados. “Nossa área vai continuar preservada porque, hoje no Brasil a gente vê, onde existe comunidade indígena, tem preservação da mata centenária e original. Nós temos uma educação de desde que Deus criou a gente, sempre respeitamos a natureza, porque a natureza é tudo. Mas tem muito hotel e condomínio de luxo perto da gente e temos que ficar de olho para nada mais ser construído”, alerta.
A proteção do meio ambiente e a dos direitos territoriais indígenas, além de terem sido consagrados na Constituição Federal, possuem um horizonte comum. Na opinião de Lúcia Andrade, coordenadora da Comissão Pró-Índio de São Paulo, a demarcação das terras indígenas deveria ser percebida como uma estratégia de proteção da Mata Atlântica complementar à criação e consolidação das unidades de conservação e ao fortalecimento do arcabouço legal que protege a vegetação nativa.
Nessa perspectiva, lembramos as diversas situações, em que os Guarani, ao defenderem seus direitos, contribuíram para impedir danos ao bioma. É possível encontrar uma série de exemplos de casos em que a presença dos Guarani em determinada área impediu o desenvolvimento de projetos que acarretariam sérios impactos ambientais. Esse foi o caso dos índios da Aldeia Rio Branco, de Itanhaém (SP) que conseguiram na década de 1990 o adiamento por tempo indeterminado das barragens nos rios Capivari e Monos. Os Guarani também participam da campanha que busca impedir a construção da Hidroelétrica de Tijuco Alto no Rio Ribeira de Iguapé, na região do Vale do Ribeira (SP). Exemplo mais recente (2008) foram os esforços para impedir a do complexo portuário Porto Brasil, da empresa LLX, no município de Peruíbe, litoral sul de São Paulo, que afetaria a TI Piaçaguera.

Terras ameaçadas
A maior dificuldade dos Guarani se encontra justamente no fato de não terem suas terras reconhecidas e homologadas, como garante a Constituição Federal. Esse é o caso das terras de Santigo Karaí Ryapua, que vive com 27 famílias em uma área de 10 hectares não regularizada em Porto Alegre (RS), e de muitos outros Guarani.
O estudo “Terras Guarani no Sul e Sudeste”, elaborado pela Comissão Pró-Índio de São Paulo, revela que 80% dos territórios Guarani localizados no Sul e no Sudeste ainda não foram regularizados ou se encontram regularizados com pendências. Apenas 32 TIs encontram-se homologadas.
Os dados não deixam dúvidas: do total de 74 Terras Indígenas (TIs) homologadas pelo governo federal do início de 2003 até outubro de 2009, apenas três contemplam o povo Guarani. O número inexpressivo de terras contrasta com o número de pessoas que compõem essa que é uma das maiores populações indígenas do país: 55 mil 302 índios de acordo com a Funasa.
A incapacidade do governo em garantir as demarcações e as disputas envolvendo as terras Guarani e geram uma situação de insegurança que ameaça a sustentabilidade física e cultural desse povo e o coloca em situação de extrema vulnerabilidade.

Bianca Pyl, para a Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPI-SP)
biancapyl@hotmail.com

(Twitter: @proindio)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Tila Ximenes: “minha esperança é encontrar os ossos”

Depoimento colhido por Spensy Pimentel e Joana Moncau. Originalmente publicado em Desinformemonos.

Tila Ximenes só chega algum tempo depois que nos sentávamos nos bancos no quintal das casas da família Vera, na aldeia Pirajuí. Fim de tarde, sob as árvores, a tensão é grande. No céu, se arma uma tempestade. Apesar de dois dos membros da família terem autorizado nossa visita, anteriormente, no momento de falar a respeito da morte de Genivaldo e Rolindo, eles se retraíram. Falavam entre si em guarani e nos serviam tereré, o mate frio que os índios popularizaram naquela região de fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Para intermediar a conversa e facilitar as traduções, convocaram um dos agentes de saúde da aldeia, de sua confiança.
Foi ele quem nos explicou que, apesar de terem concordado anteriormente, eles agora refletiam melhor sobre os riscos: “A gente tem muito receio para falar, tem aquele medo de falar pra quem a gente não conhece, porque a gente está rodeado pelos fazendeiros aqui, o fazendeiro está de olho na gente, esse é nosso medo”.
O corpo de Genivaldo foi encontrado no último dia 7 de novembro, na beira do córrego conhecido como Ypo’i (rio fino, em guarani), referência de território tradicional para a família Vera. O corpo do primo dele, Rolindo, que também desaparecera na noite do dia 31 de outubro, ainda não foi encontrado. Eles sumiram após conflito com seguranças da fazenda que tinham ocupado, no município de Paranhos, em Mato Grosso do Sul. Os médicos alegaram dificuldade para determinar a causa da morte, mas os ferimentos no tórax de Genivaldo não deixaram dúvidas para os parentes: eram marcas de tiro, de grosso calibre.
Os Guarani denominam de tekoha esses territórios tradicionais por cuja posse vêm travando disputas com os fazendeiros em toda a região desde os anos 80. Teko-ha: literalmente, é o lugar (ha) onde se pode viver conforme o modo de ser tradicional dos Guarani (teko). Essa palavra ganhou força entre os indígenas porque as antigas áreas onde haviam sido confinados pelo governo brasileiro, na primeira metade do século XX, como o Pirajuí, onde hoje moram, já não são mais boas para se viver: faltam terras para plantar, faltam rios limpos para pescar e banhar-se, faltam matas para alegrar o espírito.

Corpo desaparecido
Tila Ximenes é mãe de Rolindo, cujo corpo permanece perdido. Ela toma a frente. Quer falar, porque é grande a dor que sente. Sua fala em guarani surge na boca do agente de saúde, em meio ao pranto dela. Mas não é ele quem fala, nem ela. É toda uma família que chora:
“A busca parou de ser feita, e eu estou muito triste com isso. Pelo menos o cadáver, os ossos, eu ainda tenho esperança de achar. Nosso maior pedido no momento é esse, é que seja feita a busca. Não sei se meu filho foi jogado em algum rio, se ele foi enterrado. Já faz três meses que ele desapareceu, e a minha esperança é encontrar os ossos. Três meses já é muito. Se não encontrarem o corpo até março, nós vamos entrar na nossa terra de novo. Meu filho se perdeu lá, por causa dessa terra. Ele morreu lá por causa dessa terra, então o sonho dele era ter essa terra e os parentes nossos agora vão ter que ir lá para realizar esse sonho que era dele. A gente tem que cumprir isso, nem que a gente morra, mas a gente tem que voltar lá pra realizar esse sonho nosso. A terra não é dos fazendeiros, é nossa aquela terra. Como os parentes resolveram voltar pra aquela terra que era deles, ele também foi. A gente é assim: aonde o pai for, a gente tem que ir junto, tem que ir atrás. O pai dele foi retornar àquela terra, ele foi também. Ele tinha quatro filhos e nem chegou a conhecer o menorzinho.
Quatro dias depois que ele desapareceu, nasceu o último. As crianças que ele abandonou querem ver pelo menos os ossos do pai. Nessa mesma semana que eles morreram também nasceu o filho do primo dele que morreu junto.
Era o meu segundo filho mais velho. Ele era professor aqui, tinha 28 anos, já fazia 6 anos que ele estava dando aula. Ele foi bom professor, os colegas até hoje ainda estão esperando ele, na esperança de ver ele ainda, porque ninguém sabe onde ele está. Tem hora que a gente não acredita que ele esteja morto. Mas tem hora que a gente não tem mais esperança, pensa que ele realmente está morto. O sonho dele era dar aula lá naquela terra. Antes de ir, ele falava: ‘Vou chegar lá e vou dar aula, nem que tenha que ensinar debaixo da árvore, vou dar continuidade ao meu serviço’. Esse ano, ele já ia começar a dar aula lá mesmo. Isso já era um plano dele.
O outro professor morto, eles foram todos juntos, eles eram primos. O governador chegou a falar que um podia ter matado o outro... Acho que ele não tem o que falar, ele sabe que isso não é verdade... Isso nunca ia acontecer, os dois não bebiam, nunca brigavam, eles eram como se fossem irmãos de um pai e uma mãe só. Essa fala do governador é só pra defender o fazendeiro, no meu entender, porque ele nunca é a favor dos índios.
Eles até roubaram esse corpo que encontraram de nós, do Genivaldo. Eles trouxeram o corpo de volta porque o pai dele foi atrás, senão até hoje eles estariam lá guardando esse corpo de nós lá em Campo Grande. Eles encontraram o corpo, nem comunicaram a gente aqui, simplesmente eles roubaram, levaram embora sem comunicar os parentes. Se o pai não tivesse ido atrás, até hoje ele estaria lá. A gente ficou sabendo que acharam o corpo quando ele já estava em Campo Grande.
Eles sacanearam a gente. Acharam o corpo no rio mesmo, vimos até na foto o jeito que ele estava, no laudo médico, no atestado de óbito nem fala que ele foi morto, fala que ele foi afogado. Até bêbado ia ver o ferimento no corpo, que foi a bala mesmo, no atestado de óbito não
colocaram isso, no laudo médico está ‘causa de morte indeterminada’. Levaram quase 10 dias em Campo Grande só pra esconder de nós, todos sabem que ele foi morto a tiro por arma de fogo. Nem a gente sabe direito quem achou o corpo. Aqui em Pirajuí tem muita gente, são quase 4 mil pessoas, é muita gente, muitas casas, quase não tem mais espaço pra gente. A gente hoje não tem nem onde trabalhar, pescar, caçar, mais nada. A gente tem que sair fora pra trabalhar, pra produzir dentro da aldeia nem tem mais como. Muita gente está buscando outra vida em outros lugares. Nem só por isso fomos pra aquela terra. Aqui vivem pessoas de outros tekoha que também estão na luta por sua terra.
A gente deu o prazo de três meses, até lá tem que ter uma posição dos que governam o nosso Brasil. A gente perdeu duas vidas lá, duas pessoas, a gente não deseja isso pra ninguém. A gente até hoje não sabe bem quem são as pessoas que estavam lá naquele dia. Os Policiais Federais sabem bem quem são as pessoas. A gente sabe quem são os autores, só que até hoje eles estão soltos aí. A vida que a gente perdeu parece que não é nada, parece que não são seres humanos.”

Apoio aos Guarani-Kaiowa
A família dos professores mortos estará amanhã às 19h na PUC. Os Guarani-Kaiowa estão em visita a São Paulo e pedem apoio para tentar resolver essa e várias outras situações.
- No pátio do Museu da Cultura da PUC-SP (dia 7, 6ª feira, às 19h. Rua Monte Alegre, 984, Perdizes, tel 3670 8331 / 8559), projeção de um vídeo e debate com estas lideranças, aberto ao grande público.
- e uma fala das lideranças no Curso da Defensoria do Estado de São Paulo – A questão indígena: caminhos e desafios – no dia 8, sábado, às 9h (Defensoria da União, rua Fernando de Albuquerque, 155, Consolação, restrito aos participantes do curso).

terça-feira, 30 de março de 2010

No Brasil, o diretor de Avatar, James Cameron, é contra a usina de Belo Monte

Nesta terça-feira, 30 de março, recebi por e-mail um release, no mínimo, curioso pela relação que faz o cinema e o que podemos chamar de vida real. É que o diretor do filme Avatar, James Cameron vai falar sobra a Usina Hidroelétrica de Belo Monte em Manaus, no Hotel Tropical, na manhã desta quarta-feira, 31. Segundo a nota da assessoria de imprensa que convoca a coletiva, Cameron é critico à hidroelétrica. Ele teria conversado com lideranças indígenas em Altamira, Pará, numa visita que durou três dias na região de Volta Grande no Rio Xingú, local do projeto da Usina, que será uma das três maiores do mundo em vários aspectos, como, por exemplo, o da produção de energia. Diz trecho da nota: “A usina, se construída, será a terceira maior do mundo. O governo brasileiro aprovou a licença ambiental de Belo Monte no dia 1o de fevereiro apesar de grande oposição pública e sérios questionamentos sobre a viabilidade social, econômica e ambiental da usina. Durante sua visita, o Sr. Cameron foi recebido na terra indígena Arara da Volta Grande e participou de uma reunião com mais de 120 líderes indígenas de vários grupos indígenas ao longo do Rio Xingú. O Sr. Cameron também se encontrou com líderes da sociedade civil brasileira na cidade de Altamira, que terá um terço de sua área inundada com a usina. A visita do Sr. Cameron foi facilitada pela organização internacional Amazon Watch e pelas organizações brasileiras Movimento Xingú Vivo Para Sempre e Instituto Socioambiental", finaliza a nota. Belo Monte, vale dizer, precisa da atenção de todos pois é um projeto complexo e cheio de nuances sociais, ambientais, políticas e, como não podia deixar de ser, econômicas.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Ação apoiada pela ONU aproxima a escola do universo dos índios Guarani

Um concurso de redação, quadrinhos, poesia e desenhos. Com essa proposta o projeto Ava Marandu – Os Guarani Convidam, uma série de ações que engloba oficinas culturais nas aldeias e a ilustração da cartilha da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, quer estimular a percepção do estudante brasileiro sobre esse universo dos índios, assim podem conhecer melhor as questões indígenas de Mato Grosso do Sul, estado com a maior população indígena do Brasil e maior população Guarani do país, com 40 mil pessoas.
“São dois concursos, sendo um o Concurso Poesia, História em Quadrinhos, Desenho e Redação com o tema Cultura e Direitos Humanos dos Povos Guarani e o outro Concurso sobre a Ilustração da Cartilha das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas. O primeiro concurso é destinado aos estudantes do ensino fundamental, médio e universitário de todo o Brasil e dos países do Mercosul. Há premiação de um laptop para o aluno, professor e a instituição de ensino da rede pública. O segundo é destinado ao público em geral e tem a premiação de R$ 5.000,00 e a impressão de 3.000 exemplares da Cartilha que será distribuída em todo o Brasil e nos países do Mercosul, com a contribuição da ONU”, explica Andréa Freire, Coordenadora Geral do Pontão de Cultura Guaicuru em Mato Grosso do Sul.
Mais informações e acesso aos regulamentos em português, espanhol e guarani podem ser adquiridos no site. Ou entrar em contato com o Pontão de Cultura Guaicuru: 67-3026-6356; 3325-1121. O Pontão de Cultura Guaicuru está localizado rua Treze de Maio, n° 727, Vila Santa Dorothéia.
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