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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 28 de abril de 2014

Reposta ligeira (rápida e insuficiente) à pergunta de Hermano Vianna


por Cidinha da Silva*

Hermano, meu caro,

É impossível responder à sua pergunta de perplexidade face ao assassinato do jovem negro Douglas Rafael, o DG, um dos 200 negros assassinados a cada 100 mil há pelo menos duas décadas (menção feita por você quase num suspiro), como se todos nós fizéssemos parte de um coletivo harmônico e festeiro que quer o bem do Brasil. E já aviso que não se trata do papo simplista de cidade partida entre morro e asfalto, falamos de negros e brancos, mano Hermano. De racismo de Estado e da polícia em especial. Falamos de genocídio da juventude negra no Brasil! Você já ouviu falar disso?

Outro aviso importante, ninguém aqui é tolo de responsabilizar a “Família Esquenta” por esse estado de coisas, não se trata disso, seria leviano. Mas penso que haja respostas distintas para o que vocês, a “Família”, podem fazer dentro da rede Globo, pela juventude negra e favelada e o que nós, que não vivemos no mundo de faz-de-conta do PROJAC podemos fazer (e fazemos). O que está sendo feito por quem legitima o direito de assassinar negros não é segredo. Deixemos de ser brancos ou color blind e sejamos francos.

O que a sociedade civil organizada tem feito quanto ao genocídio da juventude negra? Tem denunciado o genocídio, há décadas. Tem instado pesquisadores a produzir dados sobre esse tema, também há décadas. É por isso, por essa denúncia, pela escuta às organizações do Movimento Negro (a “Família Esquenta” sabe que existem organizações políticas negras no Brasil?) é que pesquisadoras seríssimas como Silvia Ramos, dão a necessária atenção à variável racial na análise da violência que prende, mata, e obsta a vida plena do setor sobrevivente desta juventude.

Aliás, tenho a triste certeza de que certas informações são ouvidas e creditadas porque são ditas pelos aliados brancos. Se forem produzidas pelos negros serão sempre minimizadas. A escuta ao Átila Roque é apenas uma exceção que confirma a regra.

Tem uma moçada na Bahia que vocês precisavam conhecer, ouvir, um movimento que se chama “Reaja ou será morto! Reaja ou será morta.” São assim, eles! Diretos. Contundentes. Sem pulinhos de alegria dentro do PROJAC, por estar no PROJAC. Sem pílula de faz-de-conta. São reflexo da chapa quente do mundo real que ferve do lado de cá.

Para esse mundo não existe a novidade da guerra, como não existiu para o “famoso” DG, nem para o anônimo Edilson Silva dos Santos, morto no mesmo dia, no mesmo Pavão-Pavãozinho. Em essência, trata-se de dois jovens negros expostos ao genocídio da juventude preta, mais nada.

Nós contamos nossos mortos há tempos quase imemoriais, Hermano. São inúmeros os DGs do nosso convívio. Sabe, Hermano, em São Paulo, para a gente ter uma ideia aproximada do número de mortos na onda de assassinatos de jovens negros em 2012/2013, a gente conversava com o pessoal dos cemitérios de bairro. Sabe por quê? Porque a imprensa noticiava que haviam morrido cinco ou seis jovens numa determinada noite, mas quem era da quebrada contava muitos mais caixões. O número de velórios, de famílias desesperadas era muito maior. Então descobrimos que é seguro multiplicar por cinco, o número de mortos noticiado, assim nos aproximamos da cifra total de cada noite. Foi o que os coveiros nos ensinaram.

Não creio que esteja contando qualquer novidade à “Família Esquenta”, mas, o que vocês fazem é camuflar esses números, essa realidade, por meio de uma frágil fruição humana de pessoas negras moradoras de favela, felizes por aparecerem na tevê, de maneira supostamente valorizada, por fazerem parte do mundo do entretenimento. Sim!!! As pessoas negras querem leveza, diversão, alegria, remuneração por sua arte, como a que recebia o dançarino DG, roubado em 800 reais depois de assassinado e sabe-se lá em quanto foi extorquido quando vivo. Porque as coisas são assim na racializada sociedade brasileira, não é? O negrinho que ascende e continua no morro, se não é executado pelo tráfico, por recusar-se ao aliciamento, paga pedágio à polícia. O problema é a crença de que essa solução individual ou endereçada a pequenos grupos de negros artistas (por mais que a “Família Esquenta” empregue e remunere dignamente) responde ao problema racial no Brasil. E se vocês acham que nós estamos enganados e que a “Família Esquenta” nem vê esse problema, não trata disso, estamos certos.

Na real, a proposta de programa feita por vocês é um sossega-leão para o problema racial que o Brasil vive e nega, cuja explicitação acontece quando algum negro fantástico, talentosíssimo, excelente profissional, com o qual convivemos, é assassinado por ser negro (ser preto “da Globo" não livra a cara de ninguém), como o são os outros 199 jovens negros mortos a cada 100 mil.

A “Família Esquenta” por meio de seu sociologuês da diversidade, forma pseudo-intelectualizada de coroar a “mistura” defendida com princípio do programa “Esquenta” e apresentada de forma simbólica como solução social harmoniosa para o Brasil, contribui para perpetuar a ideia de miscigenação subordinada. Ocorre que a tal “mistura” (batismo contemporâneo da miscigenação) até hoje não conseguiu provar sua efetividade para os pretos, tampouco diminuiu os privilégios dos brancos. E essa é a centralidade do tema. É disso que falamos.

Acredito, Hermano, nas intenções boas e sinceras da “Família Esquenta”, mas o que vocês fazem (e talvez só consigam fazer mesmo isso) dentro dos limites de uma rede de tevê extremamente reacionária e comprometida com o establishment, com a manutenção de privilégios para os que sempre mandaram e sempre detiveram poderio econômico e político, não altera a questão de fundo, não mexe com ela. E que questão é essa? O racismo estrutural que justifica a perda da vida de jovens negros como se eles fossem pulgas, ratos ou baratas. O racismo institucional que executa esse pressuposto por meio da polícia, o braço armado do Estado.

Imagino que a “Família Esquenta” esteja sob forte emoção, comoção, mas os termos da mensagem da Regina Casé, os seus termos, Hermano, são muito brandos para tratar uma situação que é de absoluta barbárie. Não existe nada mais perigoso no Brasil do que ser um jovem negro! Em torno de 70% dos homens mortos por homicídio no país são negros, mais da metade, jovens (dados de 2011).

Existem também algumas ações e políticas governamentais em curso, no sentido de resguardar a vida da juventude negra, mas não é minha proposta neste texto discuti-las. Prefiro me ater ao poderoso instrumento de intervenção que pode representar a “Família Esquenta” e à escuta qualificada que ela precisa fazer das organizações políticas negras, das pesquisadoras e pesquisadores negros, para além da proposição inócua de um grande pacto social pela vida, que não discuta profunda e amplamente o sentido e o significado das vidas que o racismo descarta como nada.

* * * * * * * 

 escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Sem desculpas




















Caco Bressane, ilustrador e arquiteto, colaborador mensal do NR

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Afinal, o que é o índio para a sociedade brasileira?

Denúncia de execução de cacique e desaparecimentos colocam em risco existência da comunidade guarani kaiowá em Mato Grosso do Sul; estudantes indígenas publicam protesto.


Eram 6h30 de sexta-feira passada, 18 de novembro, no acampamento Tekoha Guaiviry, entre os municípios de Amambai e Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, a menos de cem quilômetros da fronteira com o Paraguai.

Ali uma comunidade kaiowá guarani foi atacada por um grupo de aproximadamente 40 pistoleiros munidos com armas de grosso calibre.
Nísio: desaparecido desde sexta-feira, 18 de novembro

As descrições do bando apontam um grupo mascarado e com jaquetas escuras que entrou em fila no acampamento e ordenou que os índios deitassem no chão.

Segundo relatos da comunidade o objetivo central do ataque era o assassinato do cacique Nísio Gomes.

Ele foi morto com tiros de calibre 12 – na cabeça, no peito, nos braços e nas pernas – e o corpo levado pelos pistoleiros, algo comum em massacres cometidos contra os kaiowá guarani no estado.

A comunidade conta que o filho de Nísio tentou impedir o assassinato e se atirou sobre um dos pistoleiros. Apanhou muito, mas seguiu tentando salvar o cacique. Os assassinos somente conseguiram contê-lo com um tiro de bala de borracha no peito. E executaram o pai diante de seus olhos.

Existem denúncias de que mais três jovens teriam sido sequestrados e que também uma mulher e uma criança teriam sido mortas. A informação vem de um grupo de 12 mulheres que conseguiu escapar e chegar até a cidade de Amambaí.

Elas contaram que, durante a fuga, viram três jovens serem baleados e caírem ao chão. Não conseguiram afirmar se morreram. Os jovens seriam Jonatas Velásquez, de 14 anos, Mauro Martins, de 15 anos e Jailson Brites, de 16 anos.

Os pistoleiros tinham uma dezena de caminhonetes – marcas Hilux e S-10, nas cores preta, vermelha e verde. De acordo com as testemunhas, foi na caçamba de uma delas que levaram o corpo do líder indígena e dos outros sequestrados.

Depois do ataque, dez indígenas permaneceram no acampamento. O restante fugiu para o mato. A comunidade tem aproximadamente 60 membros.

Semanalmente ameaçada por pistoleiros que trabalham para grandes proprietários de terra da região, não é a primeira vez que a comunidade sofre agressões.  

Foi instaurado inquérito pela Polícia Federal e o Ministério Público Federal também está acompanhando de perto as investigações, mas, até o momento, não há nenhuma informação sobre o corpo de Nísio Gomes ou dos índios desaparecidos.

Burocracia e precariedade:
combinação para o genocídio


Aguardando por regularização fundiária, a comunidade, que antes vivia em uma rodovia estadual, está acampada em área de litígio desde o último dia 1 de novembro, ocupando um pedaço de terra entre as fazendas Chimarrão, Querência Nativa e Ouro Verde, localizado em uma pequena parte de ocupação tradicional kaiowá. O lugar pertence ao conjunto de terras indígenas que devem ser demarcadas no estado.

Com um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) do Ministério Público Federal (MPF), em execução – referente ao processo de demarcação da terra indígena – o processo de identificação das áreas começou em 2007 e é repetidamente interrompido por conflitos.

Somando a precariedade e o descaso estatal, Marcos Homero Ferreira Lima, antropólogo do MPF de Dourados, em colaboração com estudo da Survival International – organização mundial de apoio aos povos indígenas – sobre um acampamento de beira de estrada localizado às margens da BR 163, na cidade de Dourados, diz que não é exagero classificar como genocídio o que ocorre aos kaiowá.

“Não se trata de hipérbole quando se fala em genocídio, pois, a série de eventos e ações perpetradas contra o grupo, como se objetivou demonstrar, desde o final da década de 1990, tem contribuído para submeter seus membros a condições tolhedoras da existência física, cultural e espiritual. Crianças, jovens, adultos e velhos se encontram submetidos a experiências degradantes que ferem diretamente a dignidade da pessoa humana. O modo de vida imposto àqueles kaiowá é revelador de como os brancos veem os índios.

O preconceito, o descaso, o descuido, a não consideração dos direitos à terra, à vida, à dignidade são patentes. A situação por eles vivenciada é análoga àquela de um campo de refugiados. É como se fossem estrangeiros no seu próprio país. É como se os 'brancos' estivessem em guerra com os índios e a estes últimos só restasse a fina faixa de terra que separa a cerca de uma fazenda e a beira de uma rodovia”, argumenta.

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi), em estudo sobre a violência praticada contra os povos indígenas do estado nos últimos oito anos, aponta que a maior quantidade de acampamentos indígenas do Brasil está no Mato Grosso do Sul.

São 31, com mais de 1200 famílias vivendo à beira de rodovias ou isoladas em pequenas porções de terra de fazendas. Com a precariedade, além da constante violência, as comunidades estão expostas a vários tipos de doenças.
Leia também
reportagem da Agência Brasil, especial DUAS REALIDADES SOBRE O MESMO CHÃO. Nísio disse a reportagem.
“Já me bateram na beira da rodovia quando eu vinha à noite. Tenho medo, mas não paro [a luta pela terra], porque, se eu morrer, misturo com a terra de novo”.
Segue, sem edição, carta de protesto dos estudantes guarani e kaiowá dos cursos de ciências sociais e história da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul. As informações contidas na carta foram recebidas por pessoas que estavam no acampamento na hora do massacre:
Por volta das seis horas chegaram os pistoleiros. Os homens entraram em fila já chamando pelo Nísio. Eles falavam segura o Nísio, segura o Nísio. Quando Nísio é visto recebe o primeiro tiro na garganta e com isso seu corpo começou tremer. Em seguida levou mais um tiro no peito e na perna.
O neto pequeno de Nísio viu o avô no chão e correu para agarrar o avô. Com isso um pistoleiro veio e começou a bater no rosto de Nísio com a arma. Mais duas pessoas foram assassinadas. Alguns outros receberam tiros, mas sobreviveram. Atiraram com balas de borracha também. As pessoas gritavam e corriam de um lado para o outro tentando fugir e se esconder no mato.
As pessoas se jogavam de um barranco que tem no acampamento. Um rapaz que foi atingido por um tiro de borracha se jogou no barranco e quebrou a perna. Ele não conseguiu fugir junto com os outros então tiveram que esconder ele embaixo de galhos de árvore para que ele não fosse morto.
Outro rapaz se escondeu em cima de uma árvore e foi ele eu me ligou para me contar o que tinha acontecido. Ele contou logo em seguida. Ele ligou chorando muito. Ele contou que chutaram o corpo de Nísio para ver se ele estava morto e ainda deram mais um tiro para garantir que a liderança estava morta. Ergueram o corpo dele e jogaram na caçamba da caminhonete levando o corpo dele embora.
Nós estamos aqui reunidos para pedir união e justiça neste momento.
Afinal, o que é o índio para a sociedade brasileira?

Vemos hoje os direitos humanos, a defesa do meio ambiente, dos animais. Mas e as populações indígenas, como vem sendo tratadas?

As pessoas que fizeram isso conhecem as leis, sabem de direitos, sabem como deve ser feita a demarcação da terra indígena, sabem que isso é feito na justiça. Então porque eles fazem isso? Eles estão acima da lei?

O estado do Mato Grosso do Sul é um dos últimos estados do Brasil mas é o primeiro em violência contra os povos indígenas. É o estado que mais mata a população indígena.
Parece que o nazismo está presente aqui. Parece que o Mato Grosso do Sul se tornou um campo de fuzilamento dos povos indígenas. Prova disso é a execução do Nísio. Quando não matam assim matam por atropelamento.
Nós podemos dizer que o estado, os políticos e a sociedade são cúmplices dessa violência quando eles não falam nada, quando não fazem nada para isso mudar. Os índios se tornaram os novos judeus.

E onde estão nossos direitos, os direitos humanos, a própria constituição? E nós estamos aí sujeito a essa violência. Os índios vivem com medo, medo de morrer.

Mas isso não aquieta aluta pela demarcação das terras indígenas. Porque Ñandejara está do lado do bom e com certeza quem faz a justiça final é ele. Se a justiça da terra não funcionar a justiça de deus vai funcionar.

Estudantes Guarani e Kaiowá dos cursos de ciências sociais e história e moradores da aldeia de Amambaí
Moriti Neto, jornalista,colunista do Nota de Rodapé.
(texto publicado originalmente na revista Fórum)

sábado, 19 de novembro de 2011

Os órfãos de Ratão

No mês passado, Fernando Evangelista, publicou a crônica “Os mosqueteiros” sobre um morador de rua de Florianópolis e seus companheiros caninos. Uma história que quando li, pensei: “gostaria de ter feito sobre o Ratão”.
Ratão e dois de seus companheiros no ponto onde passava
a maior parte do seu dia a dia.  (Foto: NR)


Explico: Ratão é o nome do morador de rua – senhor – que habitava até a semana passada a rua da casa de minha mãe em São Paulo, no bairro da Lapa de Baixo, na zona oeste. Já faz muitos anos que virou personagem do local, conhecido de todos e que, de uns tempos para cá, vivia acompanhado dos seus quatro cachorros.

“Dona Ziiiilda, tô com fomeeee!” gritava para minha mãe quase todos os dias quando ela saia para fazer alguma tarefa fora de casa. Sempre recebia um prato de comida, um dinheiro para a pinga que, diante do seu corpo maltratado e da falta de perspectiva, era sua companhia constante.

Do que se sabe – que é quase nada – Ratão teria sido tecelão antes de perder o emprego, família e se instalar nas ruas. É mais uma história triste de quem vive sem rumo, como relata o meu amigo Tomás Chiaverini, no seu livro Cama de Cimento – uma reportagem sobre o povo das ruas.

Não sei seu nome. Não sei sua idade. Nos cumprimentávamos de um jeito sem palavras, só um gesto de levantar o braço. Não faz muito tempo também, pouco antes de eu mudar da Lapa para Perdizes, fotografei da janela Ratão no que era o comum de seu dia a dia: ficar sentado na calçada tomando “conta” dos carros.

Se tinha comida, dividia com o bichos. Um deles, incrivelmente, andava igual seu dono, maltrapilho e arrastando uma das patas. Franzino, Ratão caminhava com dificuldades há tempos. A bengala improvisada, o ajudava a se equilibrar. Suas coisas pessoais, guardava num carrinho de supermercado.

Latiram o
dia todo

Soube, infelizmente, que Ratão morreu. Foi assassinado a pauladas. A primeira informação é que teria sido por traficantes. A segunda, que teria sido por Skinheads. Nada disso, no entanto, foi confirmado.

O rapaz que o socorreu e que ligou para o SAMU – que teria chegado horas depois – e outro morador que foi espancado com Ratão relatou que dois homens “queriam roubar o rádio novo” que ele tinha ganhado dias antes. Tentaram intimidá-lo, Ratão reagiu como pôde.

Não se sabe se os agressores também são moradores de rua. É fato que, muitos dos que rodeavam Ratão no dia a dia, eram pequenos traficantes e consumidores de drogas. Eu mesmo já presenciei o uso de crack na porta de casa.

Na mesma rua, aliás, foi o local do crime. Ratão, provavelmente, foi enterrado como indigente. As circunstâncias reais da sua morte talvez não sejam esclarecidas pela polícia. É o tipo de morte que não sai nos jornais e não gera comoção da opinião pública.

Não vou entrar neste texto nos méritos das desigualdades sociais e da merda que é tentar sobreviver sem ajuda do poder público. O fato aqui relatado, em si, se presta a uma homenagem ao homem sem identidade. Mais um.

Seus cachorros, pelo que soube, estão sofrendo e perdidos nas ruas. Latiram muito no dia seguinte a sua morte. Ficaram horas na esquina à espera do dono que não voltaria mais. Ganharam carinho e comida dos moradores antigos que tentam algum lugar que queria adotá-los.

Morrer a pauladas, sem socorro, por conta de um rádio, seria digno de um conto policial ficcional não fosse a realidade de mais um morador de rua assassinado.

Thiago Domenici, jornalista
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