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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 15 de abril de 2014

Vão do Masp: a arquitetura cidadã das manifestações


A arquiteta Lina Bo Bardi, cujo centenário se comemora neste ano, talvez não imaginasse que o vão livre do MASP se tornasse, além de palco cultural, o principal ponto de chegada e saída para as manifestações sócio-políticas da cidade de São Paulo

por Milena Buarque*

O “5º Ato Se não tiver saúde, não vai ter Copa”, que acontece hoje em São Paulo, espera reunir 5,3 mil pessoas. “Desde janeiro de 2014 diversas pessoas, coletivos e movimentos sociais indignados têm ido às ruas com a palavra de ordem ‘Se não tiver direitos, não vai ter Copa’. Em fevereiro e março os protestos exigiram o investimento de nossos impostos na educação e no transporte público. Em abril é a vez da saúde. Nossa manifestação sairá do MASP no dia 15 de abril, às 18h”, avisam na página do evento no Facebook. No começo do mês, outro protesto, nesse caso organizado pelo Sitraemfa, sindicato que representa os trabalhadores da Fundação Casa, reuniu cerca de mil pessoas, exigiam aumento salarial e contratação de mais funcionários.

Um elemento comum entre a manifestação a se realizar hoje e do Sitraemfa é o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, o MASP, apontado, segundo pesquisa da São Paulo Turismo (SPTuris), como o principal ponto turístico da cidade. Dali partem ou terminam grande parte das manifestações da cidade.

Nas chamadas “jornadas de junho” de 2013, por exemplo, não foi o prédio sustentado por quatro colunas que ganhou destaque, mas, sim, o vão livre de 74 metros desenhado pela arquiteta Lina Bo Bardi (1914 – 1992). Ponto de encontro na avenida Paulista, o enorme vão é algo que impressiona aos primeiros olhares. A história conta que quando o poeta norte-americano John Cage veio à cidade, mandou parar o carro na frente do museu e, andando pelo belvedere, exclamou: “É a arquitetura da liberdade!”. Para o estudante de jornalismo do Mackenzie Diego Felix, que esteve em quatro atos de junho de 2013, o fácil acesso ao MASP é um ponto importante para a escolha do local. “É conhecido e fica na [avenida] Paulista, onde há concentração de todo tipo de gente, sobretudo da classe média.” Felix, que está fazendo seu trabalho de conclusão de curso sobre temas ligados às manifestações, como movimentos sociais, cobertura da mídia e redes sociais, acredita que a localização também é fator de segurança.

O elemento surpresa

Arquitetura propícia não é sinal necessariamente de cultura política. O elemento das manifestações foi a violência policial. Embora a presença das policias sob a alegação de preservar a “ordem pública” fosse esperada, o cientista político Marco Aurélio Nogueira diz que a PM não sabe lidar com manifestações. “No Brasil, a polícia não foi treinada para enfrentar protestos. Policiar manifestações políticas. Ela tem um componente militarizado. Enfrenta o conflito das ruas como se estivesse enfrentando uma guerra. E isso, em vez de pacificar, bota fogo na fogueira.”

Diretor do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI) da Unesp, Nogueira lançou no fim de 2013 o livro “As Ruas e A Democracia”, conjunto de ensaios com reflexões e possíveis resultados das revoltas que tomaram as ruas do País. “O diferencial para mim está na cultura política das pessoas que protestam. [Cultura política] é o modo como as pessoas entendem o protesto. Em alguns países, o protesto é muito mais estruturado na vida cotidiana do que no Brasil”, diz, fazendo referência à Espanha, que, em sua opinião, tem uma maneira de viver os protestos mais aliada ao cotidiano.

As várias definições do termo “cultura política” não apontam apenas para as noções de atitudes e regras de determinada população. Sentimentos e percepções evidenciam a cultura da sociedade. Segundo Nogueira, “rapidamente, se escutaram palavras de ordem protestando contra tudo e contra todos. Mas o recado mais claro foi dado aos poderes Executivo, Legislativo e organizações sociais: ‘não nos representam’ virou termo comum repetido nas ruas”.

O convidado especial

Para o estudante de arquitetura e professor do Laboratório de Ideias (LABi) Mario Gallão, o MASP não foi pensado para ser um espaço de manifestações. “Mas essa era uma das possibilidades. Acho que ela [Lina Bo Bardi] ficaria feliz de ter visto essas manifestações democráticas no espaço que ela projetou, sendo a lutadora e defensora do povo que foi”

Lina, que faleceu em 1992, vítima de embolia pulmonar, continua marcando presença nos atos. O museu, inaugurado em 1968, contou com a presença da rainha Elizabeth II da Inglaterra. No entanto, a morada do MASP, em 1947, ano de sua fundação, se localizava no prédio de quatro andares dos Diários Associados, do jornalista Assis Chateaubriand, um dos idealizadores do museu. Lá, não havia vão livre.

Segundo Gallão, que não esteve presente nos protestos, Lina sempre teve uma preocupação especial com as pessoas que usam as suas obras. “O espaço do térreo do MASP servia a dois propósitos. O primeiro de ousar com aquele que era, até então, o maior vão livre do mundo no país que, naquele momento, tinha uma arquitetura de vanguarda. O segundo era o de abrir a visão para o público, criando um espaço de convivência com uma grande vista ininterrupta”, conta.

Como acontece no SESC Pompeia, também projeto da arquiteta, a ideia era a de que as pessoas usassem o espaço para tudo que elas achassem válido como atividade. Nas várias imagens dos estudos preliminares do MASP, o vão é destaque. “Esculturas praticáveis do Belvedere”, de 1968, mostra brinquedos, como carrossel, escorregadores vermelhos e cata-ventos. Além de crianças e adultos.

Com o uso sendo definido por quem de fato utiliza, o vão livre do MASP, no papel da participação cidadã, continuará a ser o convidado (e cenário) imprescindível em 2014.

* * * * * * * *

Milena Buarque, estudante do último ano de jornalismo no Mackenzie, integrante do Projeto Repórter do Futuro, onde foi confeccionado este texto publicado pelo Nota de Rodapé

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Relato do repórter fotográfico Victor Moriyama, detido pela PM no Ato contra a Copa do Mundo

Detido pela Polícia Militar durante três horas na tarde do último sábado, 22 de Fevereiro de 2014, durante o segundo grande Ato contra a Copa do Mundo no centro de São Paulo, o repórter fotográfico Victor Moriyama, colaborador do Nota de Rodapé, conta que foi agredido e impedido de exercer sua profissão durante a cobertura para a agência Getty Images. Além do seu relato, NR publica o vídeo de sua detenção, no qual o policial diz que o "crachá anda no peito ou ninguém vai saber quem é você". A imprensa, como mostram os relatos e os vídeos que circulam na internet, teve o trabalho cerceado, assim como os manifestantes tiveram o direito a manifestação violado.


“Relato da violência a imprensa e a sociedade no segundo grande Ato contra a Copa do Mundo”

São Paulo, Brasil, 22 de Fevereiro de 2014

por Victor Moriyama

Na tarde do último sábado, 22 de fevereiro de 2014, manifestantes organizaram o segundo Grande Ato contra a Copa do Mundo no Brasil, na cidade de São Paulo, que acabou sendo um dos mais violentos desde o início dos protestos iniciados em junho de 2013. No último ato, ocorrido no dia 25 de janeiro, o fotógrafo da Agência EFE Sebastião Moreira fora agredido por um policial. Outros companheiros de profissão sofreram agressões muito piores ao longo do último ano enquanto cobriam os protestos pelo país, os quais tiveram seu ápice no triste falecimento do cinegrafista da TV Bandeirantes, Santiago Andrade, atingido por um morteiro disparado por um manifestante.

Quando cheguei ao protesto, por volta das 17hs, senti uma energia pesada no ar e essa era a mesma sensação dos colegas de imprensa que conversei. Acho que prevíamos a violência que estava por vir.

No protesto do dia 22, que reuniu cerca de 1.000 manifestantes, as agressões físicas e morais à imprensa e aos manifestantes de forma generalizada pela Polícia Militar continuaram.

O tumulto, que acabou virando pancadaria promovida pelos dois lados, Policiais e Manifestantes, começou não sei ao certo como e por qual motivo, muito menos de qual lado se iniciou. O que presenciei foi uma rápida ação policial, que em maior número, cercou rapidamente centenas de pessoas, dentre os quais jornalistas como eu e outros colegas da imprensa. Eu, exercendo minha profissão, também fui agredido por cassetetes, mesmo mostrando meu crachá de imprensa e tentando dialogar e acalmar os ânimos.

Neste momento, diversos jornalistas foram detidos e/ou agredidos, dentre os quais: Bárbara Ferreira, O Estado de São Paulo; Paulo Toledo do portal G1; Reynaldo Turollo do jornal Folha de São Paulo; Sérgio Roxo, O Globo; a Fotógrafa Alice Martins, Vice Brasil; e, o fotógrafo Bruno Santos, do portal Terra. Em poucos minutos, fomos cercados por um número muito superior de policiais que com seus cassetetes agrediam as pessoas que pediam calma e tentavam dialogar. Os oficiais os ignoravam enquanto os manifestantes entoavam em coro a frase: “SEM VIOLÊNCIA!”.

Tive lesões nos braços e nas mãos que resultaram na quebra da minha ferramenta de trabalho, fato que me impediu de registrar as ações de abuso, coerção e violência cometidas pelos policiais.

O cerco realizado pelo Pelotão Ninja da Polícia Militar durou cerca de uma hora e muitos manifestantes, jornalistas e advogados foram retirados do local com truculência. O Governo do Estado de São Paulo adotara ontem uma nova medida para conter os manifestantes: técnicas de jiu jitsu, arte marcial que prevê imobilizações. Comigo não foi diferente, fui retirado do cerco com uma chave de pescoço, e encaminhado para a calçada com outros 200 manifestantes. Durante todo este período argumentei com os policiais que eu trabalhava para a imprensa e gostaria de comunicar isso a um oficial superior. Sem sucesso. Advogados do grupo “advogados ativistas” que prestam serviço gratuito aos manifestantes presos durante os processos foram impedidos de exercer seu trabalho e retirados do bloqueio com golpes e imobilizações da técnica jiu jitsu.

Esse cenário propicia a seguinte indagação: o que é ordem para o Estado? os policiais seguem uma filosofia imposta que impõe a violência e a brutalidade em vez do diálogo. Pela primeira vez na vida tive a sensação clara de estarmos no mesmo clima da ditadura que completa 50 anos em 2014. Tive meu trabalho impedido moral e fisicamente, além da quebra parcial do meu equipamento fotográfico e a forte sensação de que a polícia e governo do Estado ainda se orientam pela violência presente na ditadura. A triste experiência do 22 de fevereiro me remete ao sofrimento incomparável que os manifestantes e presos políticos passaram durante o período do Golpe Militar no Brasil.

A polícia que quer passar à sociedade uma postura de ordem e organização se mostrou bastante desorientada sobre como encaminhar os detidos. Após o cerco fomos levados para diversas delegacias da região central, sem a posse dos nossos pertences e, portanto, sem comunicação para denunciar e buscar ajuda ao grupo. Outros colegas da imprensa e os advogados que também foram detidos alegam que tiveram seus trabalhos impedidos, pois policiais agiram com violência contra os instrumentos de trabalho além de ameaçados verbal e fisicamente pela força do Estado. Ameaças de morte, assédio moral e físico são práticas recorrentes nos protestos e demonstram a presença totalitária do Estado. É inquietante o fato de a Polícia Militar determinar o que a imprensa deve ou não fazer e divulgar. É uma atitude que impede nosso trabalho.

Após um longo processo de averiguação e encaminhamento à delegacia, fomos liberados um a um e assinamos boletins de ocorrência não criminal, relatando nossas versões dos fatos. Mais do que isso, acredito que o papel dos colegas de imprensa seja denunciar judicialmente os abusos cometidos por policias e cabe a nós, enquanto membros organizados da imprensa, batalhar por uma sociedade mais igualitária e menos opressora.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Agora é contra o Estado vândalo



por Moriti Neto ilustração Caco Bressane*

A repressão tão violenta da Polícia Militar, ontem, contra os manifestantes que protestam em São Paulo, está entre as ferramentas de uma luta ideológica. O movimento é ameaça política ao poder oficial, seja o governo estadual ou a prefeitura. A agressividade, obviamente, tem o objetivo de quebrar a mobilização.

Nosso modelo de Estado, em qualquer esfera de poder, existe para servir a burguesia, o poder econômico. Portanto, claro que sempre estará ao lado do capital que, no caso da situação hoje vivida na cidade de São Paulo, é representado pelas empresas que fornecem o péssimo serviço de transporte de ônibus, um dos setores mais nebulosos nas relações entre iniciativa privada e poder público.

Outro grande problema do aparelho estatal modelado do jeito que está é a única, de fato, flexibilidade permitida pelo formato: a possibilidade de forte inclinação à direita. Algo que torna viável a grupos de tendência fascista, como é o caso do liderado pelo governador paulista Geraldo Alckmin, acentuar o reacionarismo.

O uso do aparato de guerra visto nesta quinta é apenas um dos instrumentos usados contra quem desafia o poder conservador. A mídia corporativa, principalmente os patrões e articulistas que ecoam opiniões patronais, é outra parte do equipamento político-ideológico. E não porque reportem o discurso de uma classe. Eles pertencem a ela. Só que algo novo parece ter entrado em cena. A violência estatal generalizada e sem justificativa, já que a maioria dos manifestantes queria protesto pacífico, é puro revanchismo que, de maneira descontrolada, atingiu quem atua nos órgãos da grande mídia e até mesmo parcela da população que passava ao largo das reinvindicações.

O governo raivoso administrado por Geraldo Alckmin aproveitou-se, mais uma vez, (lembram-se do caso Pinherinho?) de uma instituição sem esperança de melhora. A Polícia Militar é organização que deseja briga, agressão, truculência, mesmo que o outro lado peça paz. Dessa forma, com a intenção de destruir o movimento politicamente por meio da força e do terror, estimula-se, na PM, o sentimento de vingança contra a mobilização que desafiou o poder oficial.

Só que quando se motiva um animal a ser violento, corre-se o risco de que ele se vire contra aquele que o treina. Foi o que atingiu os veículos de comunicação alinhados ao discurso tucano de lei e ordem, revoltando redações e mesmo parcelas mais comodistas da sociedade.

Agora, a luta tem tudo para crescer. Talvez, seja a oportunidade do povo de São Paulo entender que o protesto é maior do que um movimento contra aumento de passagem de ônibus. É disputa por ocupação de espaços conceituais e concretos, bem retratada na batalha pela avenida Paulista. Aos fascistas a serviço do poder econômico é fundamental não permitir a ocupação do "templo" do capital paulistano.

Isso é mesmo uma guerra. Cabe a quem deseja defender a democracia assumir papeis ativos.

Haddad imperdoável

Papel lamentável o do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, nessa história. Para quem se colocou como “o novo” na campanha eleitoral, foi arrogante ao não negociar com o movimento e não abrir espaços reais de diálogo. Além disso, demorou a condenar a ação da PM (que o prefeito poderia ter negociado para evitar), praticamente incorporando o argumento do governo do estado que busca criminalizar o movimento.

Aliás, muito representativo Haddad estar na Europa com Alckmin – defendendo candidatura a sei lá o quê, não importa no contexto – enquanto o clima esquentava aqui. Imperdoável.

*Moriti Neto, jornalista. Caco Bressane, arquiteto e ilustrador

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Uma imagem que diz muito

A foto é do G1. Quinta-feira das mais tristes da história de São Paulo. NR acompanhou pelo facebook, veja o que publicamos lá. http://www.facebook.com/notaderodape


quarta-feira, 12 de junho de 2013

Vídeo: jornalista é preso e agredido injustamente em SP

Pedrão Ribeiro Nogueira, jornalista, foi preso ontem durante a manifestação contra o aumento de passagem de ônibus e metrô em São Paulo. Ele estava fazendo a cobertura para o Portal Aprendiz, no qual é repórter. Como mostra o vídeo abaixo, ele foi preso. Antes, foi agredido inúmeras vezes de forma covarde e ilegal pela Polícia Militar de SP.

O jornalista é amigo próximo de muitos conhecidos deste Nota de Rodapé. É pessoa séria e competende no que faz. Já  parte da imprensa brasileira, a meu ver, faz novamente uma cobertura factual que insiste em criminalizar o movimento Passe Livre, com a velha lógica de dizer que fazem "vandalismo", "tumulto" e que são "baderneiros" e "criminosos".

Os pseudo-analistas de plantão, ah, são muitos nessas horas, não perdem a chance de descontextualizar os acontecimentos. Em palavreado curto e grosso, eles dizem nas entrelinhas que "se um fez merda, todos são iguais." Não é assim, nunca foi e não podemos deixar que isso se torne verdade mais uma vez. 

Os direitos de greve e manifestação são garantias constitucionais. O vandalismo, não. A quem comete crimes a lei precisa valer.

Mas alguém me diga, como fica a acusação contra o jornalista Pedro de "formação de quadrinha e dano qualificado" ao ver o vídeo abaixo?

As imagens foram feitas em frente a um hotel, na rua São Carlos do Pinhal, paralela à av. Paulista. Do que devemos chamar esses PMs? Torturadores? Covardes oficiais? Em quadrilha eles é que se revezam em agressões ao jornalista.

Também é de espantar as recentes declarações do prefeito Haddad sobre o assunto. Já do governador Alckmin, sinceramente, não esperava outra posição se não a tacanha de sempre.




Thiago Domenici
, jornalista, editor e coordenador do Nota de Rodapé

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Sem desculpas




















Caco Bressane, ilustrador e arquiteto, colaborador mensal do NR

sábado, 28 de janeiro de 2012

A revolta era tudo que eles tinham

Amanhã faz uma semana da reintegração de posse no Pinheirinho, em São José dos Campos. Abaixo, o relato do jornalista Rodrigo Mendes de Almeida, colunista do NR, que foi ver de perto a ação policial e a desolação dos desabrigados. É um relato subjetivo, diante do bombardeio de informações ao longo da semana. O texto é uma tentativa, como diz Rodrigo, de “dividir um pouco do que senti estando no local de uma tragédia”.
 
Nunca havia visto nem sentido nada que se aproximasse do que senti no Pinheirinho. O clima era de terror e pânico. A desorientação das pessoas que não entendiam como podiam ser violentadas de forma tão brutal era evidente, um sentimento pungente de desolação.

O desamparo de gente que tinha uma casa, que tentava construir uma vida e que, de uma hora para outra, estava na rua, pedindo ajuda para beber água e comer. Uma tragédia calculada minuciosamente, com frieza, e levada a cabo com requintes de crueldade que nenhum tipo de política pode explicar. O saldo: cerca de nove mil pessoas jogadas na rua, alguns mortos, muitos feridos. Vidas arruinadas.

Nosso grupo andando pelo bairro vizinho ao Pinheirinho, em São José dos Campos, chamava muita atenção. Não tinha como passarmos despercebidos, éramos claramente de fora.

Sem contar o fato de que, no Campo dos Alemães, todos estavam fora de suas casas. O bairro é vizinho ao Pinheirinho e suas ruas estavam lotadas. Todos em silêncio, olhares atentos. Muito pesado, muito tenso. Todos com medo. O Pinheirinho estava isolado pelas barreiras da tropa de choque.

Muitos jovens de bicicleta: adolescentes, pré-adolescente e pós-adolescentes. As crianças ficavam enrodilhadas nos pés dos pais. Bastava um sinal de polícia despontando, a algumas esquinas de distância, ou sendo precedida pela luz da sirene, a correria era geral. Não importava quem: todos estavam com muito medo da polícia e de suas bombas e tiros.

Os jovens, os adultos, todos saíam do caminho. Isso porque, como alguns moradores nos disseram, não podia haver nenhuma aglomeração, nenhum grupinho de três, quatro pessoas que, se a polícia visse, de longe já começava a atirar com bala de borracha e usar bombas de efeito moral.

Dobrando à direita em direção ao que seria o alojamento preparado para receber os recém-desabrigados, vi uma mãe andando a esmo com um cesto de bebê num braço, segurando uma criança pela mão do outro. Em vez de um bebê dentro do cesto, um filhotinho de cachorro, todo preto, não mais velho que alguns dias.

Penso em quantos animais foram deixados para trás, como parte da mobília das casas, para serem “demolidos” junto das casas.

Talvez aquela família estivesse a caminho da igreja, onde havia a maior concentração de pessoas que foram expulsas de suas casas naquele domingo. Foi para onde fomos. Lá, conversando com uma liderança do movimento, ouvi que essa ação foi diferente. “Nunca vi nada igual”, disse. Em geral há um verniz democrático, republicano, de cumprimento da lei. Naquele dia, o oficial da justiça federal foi expulso a bala de borracha.

Isso foi para o oficial de justiça, pois, diferente do que foi dito, a polícia usou, sim, bala de chumbo.

Havia algumas centenas de pessoas na rua, em frente à igreja, esperando o padre abri-la. Ninguém sabia dizer por que a polícia não dispersava apenas aquela concentração de gente – com grupos muito menores havia bem mais violência.

Um carro de som
pede água aos vizinhos


Ouço que não há nenhuma certeza de quem morreu, de quem pode ter morrido, mas que com certeza ocorreram falecimentos. Teve gente que tomou tiro de bala de borracha. Teve gente que tomou tiro de bala de chumbo. Alguém me conta que, até pouco antes, o helicóptero da polícia – que, naquela altura, ainda rondava acima de nossas cabeças, com potentes holofotes apontados para nós – era quem lançava parte das bombas.

Eu via pessoas com malas. Via alguns carros carregados. E via algumas pessoas sem nada. Alguém usa o carro de som para pedir aos vizinhos que tragam água, pois os desabrigados não tiveram nem como beber água durante o dia.

Converso com um senhor, que diz que não conseguiu pegar nada de sua casa. Pergunto o que “eles” falaram, se daria para pegar depois seus pertences. Ele afirma que deveria dar, mas que não havia nenhuma segurança de que sua casa estaria inteira ainda. “Eu era o músico da cidade”, explica ele, “era com a minha aparelhagem que o pessoal fazia as assembleias, na igreja evangélica”. Presto atenção ao tempo verbal, “era” o músico da cidade. E como fazer agora, sem aparelhagem?

Mesmo na noite escura, pude ver seus olhos marejarem. Ele levanta o boné, passa a mão na cabeça engolindo o choro. Levanta a mão que tinha uma sacola de plástico e oferece: “Vamos tomar um café. Está com adoçante mas está bom”. Recuso gentilmente. Nada passaria na minha garganta. “E água? Tem água também...”

Na rua do lado, várias pessoas faziam barricadas, queimando o que parecia ser um sofá. Começaram a quebrar as placas das ruas para alimentar o fogo. Pegavam tudo que tinham à mão e que não pertenciam a ninguém para alimentar o fogo. Já tínhamos passado por várias barricadas daquela. A primeira, inclusive, na maior avenida, já estava até apagada com os restos de um carro, inidentificável.

A revolta era tudo que eles tinham. A força dos policiais, a arbitrariedade com que eles trataram aquelas pessoas levou a isso. Um grupo de uns oito meninos, vindo da direção da barricada, passa de bicicleta – sempre as bicicletas – e ouço um deles “bora, lá em casa tem álcool”.

Eu nunca tinha vivenciado nada assim. Parecia guerra mesmo ou como imagino ser uma. Qualquer barulho assusta. Ao andar pela rua dava para sentir a respiração das pessoas e a tensão. A opressão de se estar cercado de um monte de soldados armados até os dentes. Bombas estourando ao fundo se tornaram um barulho comum. Volta e meia acontecia alguma coisa e um monte de gente saía correndo de algum lugar.

Companheiros foram aos hospitais da cidade em busca de informações. Segundo relataram, os médicos e funcionários negavam que tivesse chegado qualquer pessoa do Pinheirinho. Mas conversando com outras pessoas, o vendedor de cachorro quente da porta do hospital, o outro paciente que ainda estava na sala de espera, todos contam, de forma unânime, das pessoas que viram chegando, ensanguentadas, arrebentadas.

Várias pessoas. Crianças. Inclusive uma de três anos, que foi a primeira vítima confirmada da operação – corroborando a história que havia circulado do lado de fora da igreja. Nos hospitais, policiais militares circulavam pelos corredores. Havia uma deliberada e ordenada sonegação de informações.

Depois que as pessoas entraram na igreja, resolvemos ir embora, já que as portas seriam fechadas. Passando pelas ruas cada vez mais desertas, ainda víamos algumas pessoas em silêncio, só olhando tudo que acontecia em volta. Com medo. Em uma praça, uma biblioteca queimava, completamente incendiada.

Nós ainda chamávamos atenção. Mais do que as barricadas em chamas.

Rodrigo Mendes de Almeida, jornalista e editor de livros, especial para o NR. Foto do cachorro no pós-reintegração de Victor Moriyama, também colunista do NR, realizada para o jornal O Vale, São José dos Campos.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

De dentro da barbárie

O Coletivo de Comunicadores Populares produziu o vídeo a seguir, sobre a reintegração do Pinheirinho. É, sem dúvida, um material que precisa ser visto. "Pinheirinho: a verdade não mora ao lado".

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O poder do diálogo

Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, colaborador do NR

USP: uma clipagem "alternativa"

Antes de sair por aí postando bobagens, fazendo trocadilhos medíocres e reduzindo questões importantes a palavrões, palavras de ordem e adjetivos que desqualificam o outro seria bom, independentemente da sua posição ideológica ou política, ler e se informar mais, antes de concluir um julgamento.

Um jornalista experiente, com grande bagagem, nesse episódio uspiano, escorregou feio. Simplesmente opinou a versão do senso comum. Outros, como sempre, simplesmente ignoraram os fatos.

Interessa, pra mim, que você, caro leitor, não engula qualquer informação e a tome como verdade. Se tem uma coisa importante no jornalismo é saber o que se lê e onde se lê. E desconfiar sempre, acredite, não é demérito nenhum.

Por isso, coloco para vocês alguns textos de colunistas de jornais que acho que tem uma visão menos maniqueísta dos recentes fatos na USP.

E faço uma clipagem de textos “gerais” que, por falta de penetração de massa, não chega a você pelos veículos tradicionais que, infelizmente, na pressa, pressão e afins publicam uma informação desvirtuada.

E um fato mal apurado leva a conclusões precipitadas.

Espero que as leituras abaixo, diante das que você já leu, ouviu e viu, te ajude a fortalecer sua análise critica.

Boa leitura.

❑ Para os meninos da USP, texto de Jotabê Medeiros, repórter de Cultura do Estadão.
❑ Desabafo de quem estava lá, por Shayene Metri, Jornal do Campus
❑ Nota de esclarecimento sobre a assembleia geral dos estudantes de 01 de Novembro
❑ Vagabundos, baderneiros, maconheiros, irresponsáveis... incompetentes?, por Daniel Gorte-Dalmoro
❑ Campus da USP, quem ganhou e quem perdeu, por Walter Maierovicht, no Terra Magazine
❑ Muito além da polêmica sobre a presença ou não da PM no campus da USP, por Raquel Rolnik
❑ Geração Mascarada, por Marcelo Rubens Paiva
❑ Nota sobre a tropa de choque na USP e a prisão de 70 estudantes
❑ Tributo a festa da Nokia, do blog Godod não virá
❑ Relato sobre a ação policial na USP no dia 8 de novembro de 2011, do blog Boteco da Bete
❑ O longo caminho da truculência e seu mais recente capítulo na USP, por Luka Franca, do blog Bidê Brasil
❑ Eu penso. E você? do blog o Sexo e as Mulheres 
❑ Relato - Desocupação da Reitoria e Prisão Política, do Blog Notícias da Merda Fóssil
❑ A PM e a USP: onde estão as fronteiras que separam a universidade da sociedade? por Blogueiras Feministas
❑ A pauta da ocupação por Guilherme Scalzilli
❑ O longo dia de ontem na USP e a desocupação pela manhã, por Igor Carvalho, Revista Fórum
❑ Uma aula de crise, Por Luciano Martins Costa, Observatório da Imprensa
❑ Esclarecendo o caso USP (pra quem vê de fora), por Jannerson Xavier, no Facebook
❑ Pronunciamento oficial da Atlética FFLCH sobre os acontecimentos recentes na USP, no Facebook
❑ ECA: Moção de repúdio a cobertura da imprensa sobre o movimento estudantil
❑ Ocupação da USP, uma questão de legitimidade, por Raphael Tsavkko Garcia, no site Almálgama
❑ A face autoritária do reitor da USP, por Ana Paula Salviatti, Blog Coletivo Outras Palavras
❑ Nota de pesquisadores da Universidade de São Paulo sobre a recente crise da USP
❑ USP: autonomia seletiva, por Leonardo Caderoni e Pedro Charbel, no blog do Juca Kfouri
❑ Conflito da USP é maior do que maconha, por Marcelo Semer, Terra Magazine
❑ Pensar a USP, Vladimir Safatle, na Folha de S. Paulo

Thiago Domenici com colaboração de Natalia Mendes

sábado, 28 de maio de 2011

A liberdade é plural

A Marcha da Liberdade começou de fato às 16h - estava programada para às 14h. E teve de tudo, menos, felizmente, violência policial desnecessária. Nas imagens de Natalia Mendes, alguns momentos da manifestação democrática que saiu do vão livre do Masp e foi até a praça da República.
Muitas pessoas estiveram por lá, 4 mil, segundo a Polícia Militar. As ideias, vontades, reivindicações também: uns pleiteavam a liberdade de expressão, outros a discussão sobre o aborto ser ou não crime. Uns defendiam o Passe Livre, outros o direito dos ciclistas nas ruas, mas todos, em comum, queriam deixar claro que a justiça não tem o direito de barrar a vontade inalienável de se expressar. Foi uma manifestação plural. E isso ninguém pode proibir. (Thiago Domenici)


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Condenados lotam delegacias de São Paulo após nova regra da SAP

O repórter e amigo Léo Arcoverde, do Agora, mostra na edição de hoje que condenados lotam delegacias após uma nova regra da Secretaria de Administração Penitenciária. Leia trecho: "O governo do Estado baixou, no fim do mês passado, uma medida que transformou os oito DPs da capital que possuem carceragem em depósitos de presos condenados. Os distritos abrigavam, na semana passada, 392 detentos onde cabem 155, segundo carcereiros. Por conta da falta de segurança das delegacias, segundo especialistas, a regra aumenta o risco de rebeliões, de resgates e de fugas de presos e representa um perigo para quem vai a uma delegacia registrar um ocorrência policial. (...) A superlotação dos DPs — esvaziados em 2005 — é fruto da resolução 219, da SAP (Secretaria de Estado da Administração Penitenciária). A regra proíbe, entre outros pontos, a transferência imediata, para CDPs (Centros de Detenção Provisória), de foragidos da Justiça já condenados que foram recapturados ou presos ao cometerem novo delito.
Antes da resolução 219, um preso era transferido de um distrito policial da capital para um CDP (Centro de Detenção Provisória) no mesmo dia, no dia seguinte ou na segunda feira, em casos de prisões realizadas nos fins de semana. Agora, um preso demora até um mês para conseguir uma vaga da SAP e ser transferido da carceragem de um distrito policial para uma penitenciária."

No Pará, contêineres
O Conselho Nacional de Justiça, CNJ, vistoriou cinco presídios no Pará na última quinta-feira. E o que encontraram? Presos vivendo em celas dentro de contêineres no Presídio Estadual Metropolitano Unidade 1 (PEM1), em Belém. O juiz Vinicius Paz Leão comparou a um forno as altas temperaturas dentro das celas. Vale lembrar que, recentemente, o Departamento Penitenciário Nacional (Depen) do Ministério da Justiça atualizou os “Dados Consolidados da População Carcerária 2010”, relativos ao mês de junho, que apontam um total de 494.237 pessoas presas no país – ainda segundo o Depen, o número de vagas no sistema é de apenas 299.587, ou seja, há um déficit de 194.650 vagas.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Governador-tampão e o caos na polícia

As polícias do DF ameaçam fazer paralisação, o que já causa enorme comoção e grande agito na cidade. Tudo porque caiu por terra a promessa feita por Wilson Lima (PR) quando era governador interino, de aumentar o salário de todos os policiais (civil, federal, militar e bombeiros) em 33% em três anos.
Pela lei, como explicou até o governador atual Rogério Rosso (PMDB), tudo que é relativo ao orçamento para a segurança no Distrito Federal deve ser feito em comum acordo entre o governo local, o Ministério da Justiça e o do Planejamento.
Mas Wilson Lima, no afã de aproveitar a oportunidade que caiu em seu colo de ser governador-tampão, e achando que se elegeria no pleito indireto na Câmara Legislativa, prometeu aumento para meio mundo. Sem saber como cumpriria.
Com a promessa e a expectativa criada, os policiais do DF – que têm os maiores salários entre a categoria em todo o país – ok, são todos baixos, mas o piso de Brasília é o maior – agora se sentem, com razão, prejudicados.
Para compensar, está sendo refeito o plano de carreira da categoria. Na sexta, dia 18, os policiais civis fazem assembleia para definir se entram em greve por tempo indeterminado.

Rodrigo Mendes de Almeida é jornalista e mantém a coluna Estação Brasília 
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