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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Relato do repórter fotográfico Victor Moriyama, detido pela PM no Ato contra a Copa do Mundo

Detido pela Polícia Militar durante três horas na tarde do último sábado, 22 de Fevereiro de 2014, durante o segundo grande Ato contra a Copa do Mundo no centro de São Paulo, o repórter fotográfico Victor Moriyama, colaborador do Nota de Rodapé, conta que foi agredido e impedido de exercer sua profissão durante a cobertura para a agência Getty Images. Além do seu relato, NR publica o vídeo de sua detenção, no qual o policial diz que o "crachá anda no peito ou ninguém vai saber quem é você". A imprensa, como mostram os relatos e os vídeos que circulam na internet, teve o trabalho cerceado, assim como os manifestantes tiveram o direito a manifestação violado.


“Relato da violência a imprensa e a sociedade no segundo grande Ato contra a Copa do Mundo”

São Paulo, Brasil, 22 de Fevereiro de 2014

por Victor Moriyama

Na tarde do último sábado, 22 de fevereiro de 2014, manifestantes organizaram o segundo Grande Ato contra a Copa do Mundo no Brasil, na cidade de São Paulo, que acabou sendo um dos mais violentos desde o início dos protestos iniciados em junho de 2013. No último ato, ocorrido no dia 25 de janeiro, o fotógrafo da Agência EFE Sebastião Moreira fora agredido por um policial. Outros companheiros de profissão sofreram agressões muito piores ao longo do último ano enquanto cobriam os protestos pelo país, os quais tiveram seu ápice no triste falecimento do cinegrafista da TV Bandeirantes, Santiago Andrade, atingido por um morteiro disparado por um manifestante.

Quando cheguei ao protesto, por volta das 17hs, senti uma energia pesada no ar e essa era a mesma sensação dos colegas de imprensa que conversei. Acho que prevíamos a violência que estava por vir.

No protesto do dia 22, que reuniu cerca de 1.000 manifestantes, as agressões físicas e morais à imprensa e aos manifestantes de forma generalizada pela Polícia Militar continuaram.

O tumulto, que acabou virando pancadaria promovida pelos dois lados, Policiais e Manifestantes, começou não sei ao certo como e por qual motivo, muito menos de qual lado se iniciou. O que presenciei foi uma rápida ação policial, que em maior número, cercou rapidamente centenas de pessoas, dentre os quais jornalistas como eu e outros colegas da imprensa. Eu, exercendo minha profissão, também fui agredido por cassetetes, mesmo mostrando meu crachá de imprensa e tentando dialogar e acalmar os ânimos.

Neste momento, diversos jornalistas foram detidos e/ou agredidos, dentre os quais: Bárbara Ferreira, O Estado de São Paulo; Paulo Toledo do portal G1; Reynaldo Turollo do jornal Folha de São Paulo; Sérgio Roxo, O Globo; a Fotógrafa Alice Martins, Vice Brasil; e, o fotógrafo Bruno Santos, do portal Terra. Em poucos minutos, fomos cercados por um número muito superior de policiais que com seus cassetetes agrediam as pessoas que pediam calma e tentavam dialogar. Os oficiais os ignoravam enquanto os manifestantes entoavam em coro a frase: “SEM VIOLÊNCIA!”.

Tive lesões nos braços e nas mãos que resultaram na quebra da minha ferramenta de trabalho, fato que me impediu de registrar as ações de abuso, coerção e violência cometidas pelos policiais.

O cerco realizado pelo Pelotão Ninja da Polícia Militar durou cerca de uma hora e muitos manifestantes, jornalistas e advogados foram retirados do local com truculência. O Governo do Estado de São Paulo adotara ontem uma nova medida para conter os manifestantes: técnicas de jiu jitsu, arte marcial que prevê imobilizações. Comigo não foi diferente, fui retirado do cerco com uma chave de pescoço, e encaminhado para a calçada com outros 200 manifestantes. Durante todo este período argumentei com os policiais que eu trabalhava para a imprensa e gostaria de comunicar isso a um oficial superior. Sem sucesso. Advogados do grupo “advogados ativistas” que prestam serviço gratuito aos manifestantes presos durante os processos foram impedidos de exercer seu trabalho e retirados do bloqueio com golpes e imobilizações da técnica jiu jitsu.

Esse cenário propicia a seguinte indagação: o que é ordem para o Estado? os policiais seguem uma filosofia imposta que impõe a violência e a brutalidade em vez do diálogo. Pela primeira vez na vida tive a sensação clara de estarmos no mesmo clima da ditadura que completa 50 anos em 2014. Tive meu trabalho impedido moral e fisicamente, além da quebra parcial do meu equipamento fotográfico e a forte sensação de que a polícia e governo do Estado ainda se orientam pela violência presente na ditadura. A triste experiência do 22 de fevereiro me remete ao sofrimento incomparável que os manifestantes e presos políticos passaram durante o período do Golpe Militar no Brasil.

A polícia que quer passar à sociedade uma postura de ordem e organização se mostrou bastante desorientada sobre como encaminhar os detidos. Após o cerco fomos levados para diversas delegacias da região central, sem a posse dos nossos pertences e, portanto, sem comunicação para denunciar e buscar ajuda ao grupo. Outros colegas da imprensa e os advogados que também foram detidos alegam que tiveram seus trabalhos impedidos, pois policiais agiram com violência contra os instrumentos de trabalho além de ameaçados verbal e fisicamente pela força do Estado. Ameaças de morte, assédio moral e físico são práticas recorrentes nos protestos e demonstram a presença totalitária do Estado. É inquietante o fato de a Polícia Militar determinar o que a imprensa deve ou não fazer e divulgar. É uma atitude que impede nosso trabalho.

Após um longo processo de averiguação e encaminhamento à delegacia, fomos liberados um a um e assinamos boletins de ocorrência não criminal, relatando nossas versões dos fatos. Mais do que isso, acredito que o papel dos colegas de imprensa seja denunciar judicialmente os abusos cometidos por policias e cabe a nós, enquanto membros organizados da imprensa, batalhar por uma sociedade mais igualitária e menos opressora.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Tia Ricardina, um assentamento especial na Bahia

Eu estava na cidade de Lençois para fotografar as belezas naturais da Chapada Diamantina, trabalho que tomou boa parte do meu tempo. Apenas no último dia antes de voltar a São Paulo tive a chance de me aproximar das pessoas desse assentamento.

Não havia placa e nenhuma outra delimitação física capaz de identificar aquele conjunto de casas na beira da estrada BR-242 como uma área irregular. "Os sem terra são gente boa", contou-me um senhor negro de vistosa barba branca apontando o dedo para um ponto distante.

No semi-árido baiano, mais precisamente, na região de Lençois, o direito à terra se torna secundário na ausência da água. Os processos de irrigação são financeiramente inviáveis para grande parte da população pobre, e aquelas casas de pau a pique me pareceream legalmente corretas para um assentamento considerado clandestino.

“Clandestino” não seria a palavra apropriada para descrever o pacato local. Era um segunda-feira, 2 de Julho passado, dia da independência da Bahia, e as crianças estavam em plena euforia do feriado. Brincavam inocentemente, explorando ao máximo as poucas opções de lazer: carrinhos batidos, bicicletas enferrujadas e bolas murchas, além de um pequeno barranco, eram as atrações daquele parque de diversões improvisado.

O Assentamento Tia Ricardina estava numa deliciosa calmaria naquele fim de tarde e lembrando da minha recente experiência nada positiva no Assentamento Pinheirinho, publicadas neste blog, procurei o líder local.

Wiliam era um homem de meia idade, sorridente e tranquilo. Me contava sobre a história pacífica de ocupação da região há 12 anos e a negligência da prefeitura de Lençois com as necessidades básicas daquele povo.

A área fora doação de Dona Ricardina, uma senhora proprietária de muitas terras na região e de muito bom coração. Os cerca de 400 moradores da comunidade não contam com serviços básicos oferecidos pela prefeitura. A água, por exemplo, é coletada num rio próximo, a energia "roubada" dos postes de luz por meio de ligações clandestinas e o esgoto é improvisado com fossas artesanais no fundo das casas.

Me despeço de Wiliam com um caloroso abraço. Ele me diz para andar totalmente despreocupado e me lembra que ali não é São Paulo: "aqui todo mundo se conhece e se respeita".

De fato as taxas de criminalidade de Lençois são uma das menores do violento estado baiano. Outro assentado, de barba longa, apelido Bin Laden, moreno do sol, filho de garimpeiro, e com seus 50 e poucos anos me convida para desfrutar do fumo de corda e do café dos escravos no interior de sua casa de pau a pique.

Aceito. O final da tarde em Lençois resplandece o céu azul numa tonalidade intensa e exclusiva do inverno. Sento ao seu lado num frágil banco de madeira. Minhas lentes descansam no chão de terra batido, esqueço dos problemas da cidade grande, me ponho a fumar e relaxo como há meses não fazia.



Victor Moriyama é repórter fotográfico do Jornal O Vale, em São José dos Campos, cidade que reside atualmente. Mantém a coluna mensal Fotógrafo-escreve.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Do Comando Vermelho para Jesus

Aquele nome esdrúxulo engarrafado por vogais não me parecia ser oriundo do latin e nem de nenhum outro idioma arcaico. Pedi para repetir e só então me caiu a ficha de que o nome era mesmo aquele. "Audidudima Salles, au seu dispor", se apresentou gentilmente o pastor da igreja evangélica Assembléia de Deus.

Numa outra pauta, semana atrás, fui abordado por um cozinheiro a respeito da vinda do Pastor Salles a São José dos Campos, indagando se não seria conveniente produzir uma matéria sobre ele, ex-integrante da facção criminosa carioca Comando Vermelho. Pensei que seria uma boa oportunidade de conhecer a história de vida de um importante membro do mundo do crime que agora prega a palavra de Deus.

Tudo acertado para uma sexta-feira a noite. O frio corta a avenida central enquanto as palavras firmes do pastor ecoam pela noite a fora. Me aproximo da igreja, que mais parece um salão de eventos, e noto a presença de aproximadamente 60 fiéis. Todos com uma vestimenta semelhante que oscila entre as saias a baixo do joelho das damas e o terno dos rapazes. Entro no culto sendo anunciado pelo pastor Salles: "o colega da imprensa vem prestigiar a casa de Deus nesta noite, amém". Me sinto um peixe fora d'água. Desde pequeno escuto pensamentos comunistas que contrariam a exitência de um Deus. Mas os fiéis parecem contradizer minha crença com tamanha vitalidade que me sinto acanhado.

Naquela noite, Audidudima arrecadou 500 reias de seus fiéis com argumentos como: "A igreja gasta com hotéis, passagens de avião. Se você gosta de ouvir o pastor Salles, este que vos fala, então coçe o bolso e faça sua fé." Aquilo me parecia como um consórcio, um leilão, onde todos depositavam suas economias para pleitear um lugar no céu. Pensei na grandeza e na onipresença das igrejas evangélicas em todo território nacional e relembrei da marca diária de 2 milhões de exemplares que a Folha Universal imprime, deixando para trás todos os maiores jornais do país.

O culto avança e de repente, eu estava distraído com a fisionomia do pastor, mulheres (exclusivamente) iniciam uma espécie de teatro do possuído. Se esparramam pelo chão como se estivessem tomadas por uma força maligna, defendida pela igreja como a dominação do capeta àquele corpo puro. Caretas e contorsões. Uma mulher se debate no chão invocando palavras desconhecidas em português. Pastor Salles se aproxima e com algumas palavras como "saia deste corpo agora" parece exorcizar aquela moça, que se levanta em seguida como se nada tivesse acontecido.

Me lembro dos mágicos charlatões antigos e das peças de teatro que vi em toda minha vida. Mergulho na história de vida defendida pelo pastor, acusado de matar mais de 70 pessoas em sua carreira criminosa. "Eu fui condenado a 300 anos de prisão mas o então presidente da república, Fernando Henrique Cardoso me deu um indulto. Cumpri 10 anos pelos meus crimes e hoje dou palestra no mundo inteiro", conta com orgulho Audidudima. Penso que a Justiça no Brasil é algo extremamente imparcial e volto a fotografar o discurso do pastor responsável por orientar Fernandinho Beira Mar e Escadinha.


Victor Moriyama é repórter fotográfico do Jornal O Vale, em São José dos Campos, cidade que reside atualmente. Mantém a coluna mensal Fotógrafo-escreve.

domingo, 25 de março de 2012

Pinheirinho. Depois.

Na última semana completaram-se três meses da invasão e reintegração de posse da área conhecida como Pinheirinho em São José dos Campos. Ontem e hoje você tem uma uma retrospectiva do ANTES e DEPOIS em fotos e textos do fotógrafo Victor Moriyama.


Bombas de gás lacrimogênio e de efeito moral, armas de fogo e granadas não são as melhores lembranças para se guardar na memória de uma criança. Mas foi assim a reintegração de posse do assentamento Pinheirinho, em São José dos Campos, interior de São Paulo que aconteceu sorrateiramente na manhã do Domingo de 21 de Janeiro de 2012.

Tida pelo alto escalão da Polícia Militar do Estado como uma operação "perfeita", seus desdobramentos sociais se iniciaram a partir da saída imediata das aproximadas 5.000 famílias que viviam no local.

A manhã que sucede o dia D numa guerra nunca é bela, e naquele domingo não poderia ser diferente. O cinza do céu parecia descer sobre a terra e o sol definitivamente não apareceria. Grupos de ex-moradores do assentamento ainda arremessavam pedras nos policiais militares que reagiam com balas de borracha.

Se um grupo de mais de três jovens se reunissem nas intermediações do Bairro Campo dos Alemães, região colada ao Pinheirinho e tida pelo poder público como o reduto do tráfico de drogas na cidade, era motivo de revista por parte da PM e esculacho na frente da população.

No decorrer do dia, inúmeros carros e prédios públicos foram incendiados por rebeldes. Grupos de ex-moradores do assentamento se espalhavam pelas sombras das árvores e boa parte rumava para a Igreja do Bairro que abrigaria nos próximos dias boa parte da população do assentamento.

A prefeitura por sua vez disponibilizou de imediato dois conjuntos poliesportivos para servir de moradia provisória as famílias sem-teto. No início da semana que sucedeu a descoupação do assentamento, o número de famílias habitando estes abrigos era elevado.

Colchões se amontoavam em quadras de basquete, filas de espera de horas para o banho, crianças berrando em busca de consolo, e um cheiro indescritível de seres humanos amontoados imperavam as sensações naquele local.

O calor já elevava a temperatura em quase 40 graus e as famílias saiam para fora das quadras em busca de uma sombra para descansar. Cachorros, galinhas, patos e gatos também integravam a bagagem daquelas pessoas e se acomodavam da melhor forma no novo lar.

A noite foi longa. Mães discutiam e reclamavam dos gritos estridentes dos bebês e a impossibilidade de se ter uma noite tranquila de sono. O silêncio necessário para o repouso daqueles que vão acordar cedo para trabalhar parecia ser um luxo muito distante daquelas pessoas.

As noites de verão tem o clima agradável e aquela não era diferente, fazia as crianças brincarem até a exaustão. Pergunto para uma delas, que bebe água desesperadamente no bebedouro público, o que estava entendendo daquela situação e se sentia saudades do Pinherinho: “Aqui está super legal, parece acampamento, tem um monte de amigo e a gente brinca o dia todo.”

Para uma criança de 9 anos, como a Jeniffer, aquela situação de caos social parecia mais uma colônia de férias. São 05:45 am, e a noite havia sido longa e exaustiva. Os roncos se misturavam ao choro das crianças e a conversa com uma moça que trabalhava no local havia sido bastante produtiva. Observo que apenas 7 ou 8 pessoas, dentre aproximadamente 300 instaladas no local, se levantam para ir trabalhar e me pergunto o que as outras farão ao longo do dia.

Não tardo a descobrir que a maior parte passaria o dia estirado nos colchões confabulando sobre o episódio passado de desocupação sem outras preocupações. O sol brilha forte e percebo que chega e é hora de ir dormir.

Antes de partir uma cena me chama a atenção em frente a uma montanha de roupas vindas de doações: “Essas roupas estão bem piores que as minhas” diz uma moradora e indago para ela sobre trabalho: “Eu não vou me sujeitar e me humilhar para este sistema”, me calo e lembro da miséria que vi no Haiti. Para mim é suficiente, o pernoite no alojamento havia rendido bons frutos.

Victor Moriyama, 26 anos, é repórter fotográfico do Jornal O Vale, em São José dos Campos, cidade que reside atualmente. Mantém a coluna mensal Fotógrafo-escreve.

sábado, 24 de março de 2012

Pinheirinho. Antes.

Na última semana completaram-se três meses da invasão e reintegração de posse da área conhecida como Pinheirinho em São José dos Campos. Hoje e amanhã você terá uma uma retrospectiva do ANTES e DEPOIS em fotos e textos do fotógrafo Victor Moriyama.



A vivência no assentamento do Pinheirinho foi extremamente intensa para a atual configuração das reportagens feitas nos diáiros. Na eminência da reintegração de posse do local, pude acompanhar, a partir de uma verdadeira imersão cultural neste já conhecido ambiente, a expectativa dos moradores frente a situação. Foram cerca de 5 noites mal dormidas na exinta secretaria geral do assentamento, localizada na frente do portão central.

Anteriormente havia fotografado a festa de anviersário do assentamento regada a música nordestina, cachaça e enormes brinquedos infláveis para a criançada. Era um sábado de sol, de alegria, e comemoração. Nem o morador mais pessimista imaginaria que aquele seria o último evento oficial do assentamento.

As noites que antecederam a desocupação do Pinheirinho foram tensas. O clima de apreensão tomava conta das feições dos guardiões da portaria central, moradores encapuzados e armados com pedaços de pau com pregos na ponta faziam a vigilância em período integral de toda a área. Motos, bicicletas e fogueteiros circulavam para cima e para baixo fazendo um zun zun zun danado. A reintegração de posse poderia acontecer a qualquer momento, e em caso positivo, todos os moradores seriam acordados rapidamente com o barulho dos morteiros.

Entre conversas superficiais, boas risadas e tragos de cachaça, pude perceber a diversidade cultural como fator predominante naquela distinta população de um dos maiores assentamentos do país. Nordestinos, paulistanos, piauienses e moradores de diversas regiões do país haviam chegado anos atrás na cidade em busca de um futuro melhor.

Muitos temiam a violência policial, outros aceitavam a contra gosto a ordem judicial. “Essa mulher está com a cara do capeta, eu vi na tv”, esbrevajava uma senhora a respeito da juíza Márcia Loureiro, da Sexta Vara Cível em São José dos Campos, responsável pela ordem de desapropriação do terreno. Alguns tímidos carros deixavam o assentamento com sofás e camas amarrados ao teto.

Foram dias inteiros se arrastando com a provável ocupação policial do terreno. “Estou sem dormir a seis dias. Pelo Pinheirinho eu faço tudo.”, excamou Juarez com uma olheira tão profunda que beira o indescritível.

Ouvi de outra senhora, no amanhecer do dia, uma frase que me marcou demais: “eu demorei anos para construir minha casa de bloco meu filho. Eu não tenho para onde ir”. Dona Raimunda tem 72 anos e vivia no Pinheirinho desde o início do assentamento. O sentimento de resistência era comum aos moradores de todas as faixas etárias. Nestas noites que passei em companhia dos ex-moradores não tive nenhuma desavença com ninguém embora os “caras do movimento” (tráfico) me xingassem pelo canto do olho.

A madrugava entrava quente naquela noite típica do verão brasileiro. A música “povo da periferia” do aclamado rapper brasileiro Naldinho ecoava por todos os becos do assentamento. A frase inicial da música parecia embalar aquele sentimento de resistência dos moradores “O tempo da periferia há muito tempo ta abandonado. Enquanto o povo da classe alta ta enchendo o rabo de dinheiro o povo daqui ta no veneno, sem emprego, na fome”.

O movimento na secretaria do assentamento era contínuo. Pães, refrigerantes, formas de bolo e dúzias de garrafas térmicas com café preto e doce entravam e saiam a todo instante. A esta altura as barricadas construídas com pedaços de madeira e pneus já bloqueavam as principais ruas no interior do assentamento e seu acesso começava a ser restringindo para a imprensa a partir de ordem dada pelo diretor de comunicação do Pinheirinho.

O Clima esquentava. A menos de dois dias do Dia D a guerra estava anunciada com o primeiro ônibus incendiado e sua foto publicada na capa dos principais veículos de imprensa do país. O exército do Pinheirinho fortalecia a tensão ao exibir seu poderio medieval para as câmeras da imprensa.

Victor Moriyama, 26 anos, é repórter fotográfico do Jornal O Vale, em São José dos Campos, cidade que reside atualmente. Mantém a coluna mensal Fotógrafo-escreve.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A espera de um milagre

O desabafo de uma mãe que tem um filho usuário de crack. Me escreveu: “Me sinto perdida, agora escurece e estou aqui, olhando meu filho dormir sob efeito de remédios e de crack.”

Talvez fosse mais uma destas curiosas misturas linguísticas tão comuns na cultura brasileira, onde se nomeiam os filhos a partir de uma junção simples do nome do pai com o nome da mãe.

Mãe Aline, morena de pele escura e fala agitada, o Pai, Sinval, respeitado jogador de truco do bairro das lamentações. Ou quem sabe seria apenas uma adaptação de um nome francês ou inglês. O fato é que Sinvaline bateu a minha porta virtual no início dessa semana.

Acabo de voltar de férias e ao conferir meu correio eletrônico me deparo com uma inesperada e triste surpresa. Minhas imagens haviam provocado lágrimas em uma mãe sofredora. O motivo? A principal epidemia contemporânea, o Crack, batera a sua porta e se alastrará no coração de seu filho.


[clique para ampliar as imagens]
“Olá, me deparei com suas fotos tentando aliviar a dor de uma noite de terror. Escrevi, fotografei as mazelas da miséria humana e essa noite eu estive de frente com o crack dentro da minha casa. Meu filho, alucinado, olhos virados, nem me via…. E aí? O Vício não tem cura, eu não tenho o que fazer… abraços.”

Aprendi com o mestre Robert Capa a célebre frase: “Se a foto não ficou boa o suficiente, é porque você não estava próximo o suficiente do objeto” ou algo parecido. A proximidade implica em se relacionar, em se abrir para o novo, em trocar seja lá o que for.


Quando se opta por fotografar determinado tema com uma grande angular escancarando a realidade, interagindo com a situação, os resultados são viscerais e autênticos. O Crack sempre me intrigou, me fez conhecer muitos usuários e viver o mundo assombrado destas pessoas atormentadas pelo vício.

Os efeitos do uso para a saúde, como bem se sabe, são devastadores, mas é o sofrimento subjetivo das famílias que choca o pensamento de quem olha de perto este problema. Uma sopa insalubre de sentimentos negativos inunda o coração de Sinvaline.

Eu me disponho a ser seu confidente, seu amigo virtual para as horas de tentativa de consolo, porque a dor que ela sente, só uma mãe nessa condição pode sentir.


“Ajudar? O que você poderia fazer? Me sinto perdida, agora escurece e estou aqui, olhando meu filho dormir sob efeito de remédios e de crack.”

Esperança já se torna uma sentimento abstrato, tão distante quanto o planeta Marte. O novo programa de Combate ao Crack, lançado na semana passada pelo governo federal, prevê uma série de ações na tentativa de estancar a epidemia. Consultas ao ar livre e internações involuntárias fazem parte desta medida. Mas os efeitos sociais causados pela droga ainda estão longe de serem conhecidos. O que se sabe de fato, é o seu imenso poder de destruição familiar e individual.


“Desculpe se o importuno… A visão é turva pela tristeza, a impotência baixa o semblante, nada tem sentido agora. São muitos anos de luta, uma vida de sentimentos tristes, alegres e na maioria de muito trabalho. Uma corrida contra o nada. Quando nasce, só se sabe que irá morrer um dia, o resto é incerteza. A certeza de agora é um mundo enorme e nossa pequenez. A mulher forte se abate diante da fumaça que turva tudo. Sorrir como? Tudo se esvai aos poucos, o corpo, a mente, a esperança… Refém de situações alheias, uma prisão com grandes ferrolhos. O Relógio bate, a noite vai passando, os gemidos se fazem maiores até que o clarão do dia nasce amarelo e triste. No quintal, as árvores crescem, a terra coberta de folhas secas. Na rua, o asfalto cheio de lixo, crianças, cavalos, cachorros, mendigos, engraxates são vítimas do descaso social. E aqui, no fundo de casa, somos vítimas em sucessão de um todo desigual. Abraços e obrigada.”

Quando o estado se ausenta de suas funções: sociais, sanitárias e educacionais, o fundo do poço parece estar cada vez mais próximo das pessoas, em especiais, as desfavorecidas economicamente. A solidão e o desamparo tomam suas personalidades.

Victor Moriyama, 26 anos, é repórter fotográfico do Jornal O Vale, em São José dos Campos, cidade que reside atualmente. Mantém a coluna Fotógrafo-escreve no NR.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

À espera do despejo

Cortiço, favela, marginais, absurdo. Adjetivos como esses são comuns de se ouvir na porta das ocupações. Moradores antigos da região central esbravejam e não querem ter como vizinhos inquilinos que não pagam aluguel, muito menos contas de água e luz.

É o que acontece atualmente na Rua da Consolação, em frente ao cemitério, onde um grupo de pessoas ocupou de forma invadida um imóvel abandonado há anos com o objetivo de residir no local.

[clique para ampliar as imagens]


O grupo, liderado por Sílvio acabara de ser removido pela tropa de choque de outra ocupação, que já durava dois anos num antigo prédio estatal, na Rua Martins Fontes, e se mudara para um ponto nobre da cidade, ao lado do bairro Higienópolis.

"Em seis horas a gente já tinha ligado luz no prédio todo e colocado uma mangueira comunitária para abastecimento de água. Demos sorte que as estruturas desse edíficio não foram muito danificadas" relata Sílvio sobre a noite da ocupação.




As invasões por razões discretas são sempre realizadas durante a madrugada, na surdina, sem causar estardalhaço. No dia seguinte, um mutirão de pessoas trabalha sob o sol para deixar o local "mais habitável".




Roupas estendidas no varal, pilhas de lixo sendo removidas, mulheres lavando o quintal, são alguns sinais de reativação do local. Cenas como essa acontecem mensalmente em diversos edíficios espalhados pela região central ocupados, em sua maioria, por movimentos populares.




Estima-se que existam atualmente cerca de 14 mil moradores de rua na cidade de São Paulo. Em contrapartida, especialistas afirmam que há disponível uma área de 5,2 milhões de metros quadrados divididos em centenas de imóveis abandonados.




Em grande parte estes edifícios acumulam dívidas estratosféricas e os proprietários acabam abandonando o espaço. "Quando a gente entra no lugar, conversa com os nóias (usuários de crack) e argumenta com eles que estamos querendo tomar o local para morar, e não para usar droga. Fumar pedra eles podem fazer na rua não é verdade?", relata Juliana, moradora do local.

Lugares como estes sempre me cativaram, me atraem de uma forma inexplicável, trata-se de um convite espiritual a penetrar um universo marginal da existência humana. Tomo fôlego, olho para cima e avisto um grupo de pessoas, que com a mão acenam para que entre.




O líder da ocupação é uma pessoa carismática, polida, cuja vivência de rua demonstra um conhecimento particular da malandragem e das coisas mundanas. Após um gole de café, me convida para conhecer seu apartamento, classificado por ele como 'suíte presidencial' localizada no último andar do edíficio.




O local transcende o conceito de improvisação. Paredes de maderite são rearranjadas toda noite conforme o vento e o frio, barris de água coletada da chuva servem para fazer a higiene cotidiana de Sílvio e sua família. A televisão funciona tão bem que as cores do filme 300 são tão intensas quanto as do cinema.

Invasão

O nome apropriado não deveria ser esse. Numa cidade com tantos moradores de rua, a quantidade de imóveis vazios seria mais do que suficiente para abrigar toda essa gente.

Reflexo da desigualdade e da falta de políticas públicas equilibradas para atender este contingente de pessoas comuns, que levam os filhos as escolas, que trabalham e que acima de tudo tem enorme dignidade.

Cabeça erguida para recomeçar tudo de novo quando a polícia vier com a ordem de despejo. Não querem confusão, não querem vandalizar o patrimônio privado, ao contrário, clamam pelo direito à moradia e mais do que isso, por uma vida digna, fora das calçadas traiçoeiras de São Paulo.

Me despeço de Sílvio com a promessa de colaborar no dia das crianças com a festa que darão para os pequenos da ocupação.




O dia será cheio de alegria para estas pessoas cujo futuro incerto chega a ser apavorante. "Quando vier o despejo a gente continua com a cabeça erguida, escolhe um novo local e começa tudo de novo. Desistir? Eu que não vou deixar minha mulher e meus filhos vivendo em calçada!"

Victor Moriyama, 26 anos, é repórter fotográfico do Jornal O Vale, em São José dos Campos, cidade que reside atualmente. Mantém coluna Fotógrafo-escreve no NR.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Na contramão do fluxo

O graffiti paulistano, em seu momento atual, ilustra com perfeição algumas frases de cunho popular como: "está na crista da onda", "nas paradas de sucesso", "na boca do povo" e tantas outras expressões utilizadas corriqueiramente para salientar determinado status de algum sujeito ou objeto.

Cobiçada por galerias de arte no mundo todo, a estética autêntica do graffiti da cidade de São Paulo tem ganhado cada vez mais espaço dentro do campo das artes contemporâneas.

Integrante de um seleto grupo de artistas nacionais reconhecidos internacionalmente, Claudio Ethos extrapola os limites da imaginação e ressignifica o conceito de arte urbana no país.

Suas pinturas são pontuais, os personagens construídos lentamente no muro formam um deleite visual capaz de impactar abruptamente as pessoas que caminham pelas ruas e os transpor para uma linha tênue entre ficção e realismo estritos ao seu universo criativo.

Nas asas do crescente interesse midiático e do mercado de arte pelo graffiti nacional se aglomeram um contingente de novos aspirantes a artistas urbanos. Se por um lado há um processo de reconhecimento das Instituições Públicas e Privadas pelo trabalho de artistas cuja trajetória no meio é louvável, por outro observamos a massificação da cultura do graffiti, protagonizada por jovens que colocam em primeiro plano o ato de pintar na rua e deixam de lado o aperfeiçoamento de seu talento e suas habilidades artísticas.

Na contramão deste movimento, Ethos mostra sabedoria ao optar pelo refino do traço e paciência ao trabalhar insistentemente no aperfeiçoamento de seus personagens.

Foi um processo longo de concentração e produção interna (dentro de seu ateliê, fora das ruas) que perdurou durante anos até atingir um nível de exigência e satisfação pessoal específico antes de ganhar os muros da cidade com suas pinturas.

Victor Moriyama, 26 anos, é repórter fotográfico do Jornal O Vale, em São José dos Campos, cidade que reside atualmente. Mantém coluna Fotógrafo-escreve no NR.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Amor fiel

Ser apaixonado por futebol não é algo que acontece por osmose, talvez por convenção familiar ou social, ou em outros casos trata-se de uma coisa que se aprende desde criança como amarrar os cadarços dos sapatos ou cumprimentar as pessoas nas ruas. O difícil é explicar os porques. Mais do que idolatrar um time ou uma seleção, torcer para um clube faz parte do seleto grupo de sentimentos nos quais predominam o amor incondicional, desses irracionais que beiram a cegueira nos lances polêmicos.

Pertencer a uma torcida vai muito além de enotar seu coro, e há quem diga que mais parece um ritual barbáro, ou vestir a camisa do time no dia seguinte a uma vitória. Torcer implica em perder o humor, em chorar quando seu time sofre uma derrota ou é rebaixado. É emoção pura, e nisso não existe espaço para visões céticas nas quais o futebol é comparado a mais uma política pão e circo do sistema. Vibrar com cada gol é natural, é comportamento social esperado para aquela situação, agora, o que foge do comum é o sentimento capaz de extrapolar os limites da razão e manter, durante a derrota, um único canto independente do resultado.

Quando lembro das inúmeras vezes em que vi o Corinthians jogar no Pacaembu, a primeira imagem que me vem a cabeça é da Torcida e seu amor inexplicável de alcance inimaginável. Seu poder de empurrar o time seja da mesma forma independente do placar do jogo não é uma qualidade que encontramos em qualquer esquina. O ambiente da torcida é de festividade pura, não existe classe social entre amigos instantâneos que compartilham as emoções da partida.


Na contramão dessa poesia vivenciamos atualmente o assassinato da beleza em prol da Cartolagem com C maíusculo, manchada de corrupções e intereresses mascarados por uma névoa permanente de banditismo.

Em inúmeras vezes me perguntaram por que os corinthianos falam tanto de sua torcida. Sem saber transmitir essa emoção com palavras sempre convidei meus amigos a irem assistir uma partida do Corinthians no Pacaembu, quem sabe assim eles possam entender. A Gaviões da Fiel arrepia, contagia, enche o coração do povão de alegria. Viva o futebol bem jogado, com lances bonitos, dribles desconcertantes, bandeiras enormes estendidas sobre a torcida, tambores e batucadas entoando os gritos de guerra e todos os elementos desse esporte tão enraizado na cultural canarinha.

Viva o amor incondicional e o futebol arte.

Victor Moriyama, 26 anos, é repórter fotográfico do Jornal O Vale, em São José dos Campos, cidade que reside atualmente. Mantém a coluna Fotógrafo-escreve no NR.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Crack e o óxi: epidemia socialmente incontrolável

O crack se instalou nas principais cidades do planeta e se tornou uma espécie de epidemia socialmente incontrolável e com consequências destruidoras para os usuários.

É o que revela a Pesquisa sobre a situação do Crack nos Municípios Brasileiros realizada recentemente pela Confederação Nacional de Municípios.

O estudo esclarece o caráter onipresente da droga em território nacional ao cravar a estatística negativa na qual 98% das cidades brasileiras relatam casos de consumo de crack.

Foto: Victor Moriyama

O balanço segue ladeira a baixo e revela o despreparo do Estado em lidar com o problema: 91% dos municípios não possuem programas próprios para tratamento de viciado.

A falta de amparo governamental, entretanto, não é nenhuma novidade entre os usuários: "A assistência social vem até aqui, nos convence a voltar pro albergue e diz que vai colocar a gente no mercado de trabalho, que vai recuperar a gente e etc. Já esperei oito meses e desisti, fui embora e prefiro morar na rua", me relatou um usuário.

Os albergues públicos, ofertados pelas prefeituras como alternativa aos moradores de rua, acabam se tornando locais renegados em que as divergências culturais se intensificam a cada pernoite.

"Fumei meu
monza inteiro"


Em São José dos Campos, interior de São Paulo, a disposição para se reintegrar a sociedade é enorme e consenso entre usuários. Alguns alegam a incapacidade incutida no vício, outros tem o sonho de ter uma "conversinha" com o prefeito a fim de esclarecer algumas "questões sociais".

Os estigmas de preconceito que os usuários carregam são tão fortes que o processo de reintegração a sociedade se torna um túnel cuja luz em seu final é apenas a pedra no cachimbo."Não vejo saída, mas gostaria muito de ser ajudado. Quem vai dar emprego para mim?",  me contou entrestecido certa vez um travesti.

De modo geral, a dependência impede a volta dos usuários a vida normal, muitos perderam o controle e viram sua estrutura familiar ruir em poucos meses. Ruan gastou 40 mil reais em apenas 3 semanas entre festas em hotéis e longas tragadas de crack. "Fumei meu monza inteiro" conta outro usuário.

Tive a oportunidade de registrar alguns usuários nas regiões centrais das cidades de São Paulo e São José dos Campos (SP) e notar traços de uma permanente inquietação. Alguns personagens, depois do uso mostravam um comportamento transtornado, e as alucinações eram constantes.

Muitos me relataram seu desejo em sair do vício, qualificado como incontrolável, mas esbarravam na falta de amparo do Estado em oferecer clínicas de tratamento ou mecanismos de ajuda. Outros classificavam a droga como uma "manifestação do Diabo", uma mescla de desejo e prazer mas, principalmente, o consumo era dominado por sensações de medo e pânico.

Suas histórias de vida relatam o verdadeiro drama de quem vive na rua. O desligamento social se impõe como irreversível e trava uma batalha diária. Apenas os fortes sobrevivem. Os "companheiros" do vício cumprem o papel da família sanguínea, que a essa altura deu ao indivíduo como um ser perdido
para o mundo das drogas e sofre sua dor exclusiva.

"Quem vive nessa vida de nóia não tem amigo! Se você deixar, maluco rouba sua camiseta para tentar trocar por pedra" relata Ruan. Compreender a abrangência do impacto psicológico que uma família sofre ao ver seu "chefe" dominado pelo vício, não é uma tarefa fácil.

Especialistas indicam que o ápice do efeito da droga se da nos 3 primeiros minutos e pode se prolongar, de forma reduzida, até 10 minutos. Trata-se de um efeito rápido, de curta duração e que leva o usuário a querer estar novamente sob efeito dá droga.

Estima-se que um viciado pode chegar a morte em 7 anos ao usar a droga todos os dias. Para "encrementar' o mercado, os vendedores da droga introduziram uma nova moda no país, o Crack colorido, cujas pedras variam nas cores azul, verde e rosa.

No ramo dos negócios vale tudo para atrair a freguesia. Este artifício do mundo fora da lei, chega ao mercado consumidor num momento de expansão da droga rival, o lixo do crack que ainda não se instalou em todo o país. É o Óxi - "oxidado" - é produzido a partir da pasta de coca com o acréscimo letal de cal virgem e querosene. A mistura é extremamente tóxica e segundo "especialistas", já que é ambígua a existência de um especialista num fenônemo novo, pode levar a morte em menos de três anos.

O crack é fabricado a partir da mistura de bicarbonato de sódio com uma pasta de cocaína. A palavra "crack" vem do inglês “to crack” associado ao barulho que as pedras fazem quando queimadas. O óxi, por sua vez, libera, durante a combustão, um óleo extremamente tóxico que pode ser reaproveitado pelo usuário se misturado ao cigarro, fator que amplia o nível de dependência da nova droga.

Ambos são consumidos em cachimbos improvisados ou em latas de alumínio e contam com o auxílio das cinzas de cigarro colocadas embaixo da pedra durante o consumo. Nas bocas de fumo o valor da pedra de crack é padronizado e custa em média 5 reais, já o Óxi sai pela metade do preço.

Com o objetivo de acelerar a disseminação do oxidado, os pontos de venda da droga lançam uma nova promoção para facilitar a aquisição do produto, 3 por 5.

Victor Moriyama, 26 anos, é repórter fotográfico do Jornal O Vale, em São José dos Campos, cidade que reside atualmente. Estreia hoje a coluna Fotógrafo-escreve no NR.
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