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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

1 ano do Pinheirinho e os danos irreparáveis

Mais de 1550 auxílios moradia. 1042 ações individuais e outras coletivas movidas contra o Governo do Estado de São Paulo, Policia Militar, Justiça Paulista, Prefeitura de São José dos Campos e a massa falida da empresa Selecta, que tem como sócio o megaespeculador Naji Nahas. Esses são apenas alguns entre os aspectos objetivos do saldo negativo do poder público em relação à desastrosa reintegração de posse do Pinheirinho, que completa 1 ano neste 22 de janeiro.

Em São José, é inevitável a sensação de aumento do desequilíbrio socioeconômico e um grande receio de que o poder público tenha “chegado ao fundo do poço”, como diz o defensor público Jairo Salvador, um dos que defende os ex-moradores do terreno de quase 1 milhão de metros quadrados.

Claro que essa situação tem a ver com as 9,6 mil pessoas, aproximadamente 1700 famílias, desalojadas após a operação policial que mais se assemelhou a uma iniciativa de guerra.

Atualmente, existem ações movidas pela Defensoria Pública que miram, fora as denúncias de prejuízos morais e materiais que cada família teve, os diversos prejuízos causados ao município que vão desde impactos econômicos até danos urbanísticos.

Somente a administração de Eduardo Cury (PSDB), prefeito joseense até 31 de dezembro do ano passado, gastou cerca de R$ 14 milhões em recursos públicos com o caso. Para abrigar as famílias, que passaram por quatro abrigos municipais em 50 dias, foram RS 5 milhões. A lista inclui a reforma de 15 prédios públicos, refeições e o auxílio moradia, no valor de R$ 500/mês para cada grupo familiar. O último item será renovado pela segunda vez e engordará a quantia, totalizando 18 meses de parcelas e invadindo a gestão de Carlinhos Almeida (PT), eleito em outubro passado.

Vale salientar que isso não inclui os gastos do Governo do Estado, que desembolsa parte do auxílio moradia e mobilizou dois mil policias militares para a ação de reintegração.

Dano maior

Contudo, o mais preocupante é que os irreparáveis estragos humanitários à comunidade expulsa e o ônus aos cofres públicos foram resultado de uma intensa mobilização de instrumentos estatais, colocando esferas de poder diversas, estadual e municipal, executiva e judiciária, a serviço de interesses particulares.

Com o surrado discurso do dever de proteção à propriedade privada – em detrimento do direito à moradia e sem mencionar que o proprietário do terreno é um devedor milionário de impostos – os governantes de plantão armaram a estratégia de guerra.

Isso, para empurrar o “inimigo” de um local onde o que predominava era a organização e transferi-lo à miséria e incerteza.

A ação foi militar, só que o “inimigo” era civil, o que evidencia, mais uma vez, além da questão econômica, a ideológica. A “vitoriosa” operação policial reprimiu, humilhou, destruiu moralmente. Assim, dispersou a população mobilizada que lutava pelo direito básico de ter um teto. Pessoas que hoje, em boa parte, dizem um sonoro “não quero mais saber de organização”.

Impressionante o poder de homens como Naji Nahas e outros que o cercam. A capacidade de grupos como o dele em movimentar dinheiro é proporcional ao poder de deslocar a incrível força política-judiciária-policial que dizimou casas e sonhos de milhares naquele 22 de janeiro de 2012.

E as linhas se desenham a cada período em que se retorna a São José dos Campos para a busca de novas informações. E a figura tem face cruel. A tecnologia do terror usada contra populações carentes incluiu desocupar o terreno e empurrar a comunidade até lugares onde haja necessidade de instalação de infraestrutura que beneficie grupos específicos. Investigações não andam. Equipes da Polícia Civil que apuram as responsabilidades são trocadas periodicamente. Ações judiciais se arrastam.

Enquanto isso, pessoas seguem enfrentando obstáculos terríveis. Sem casa própria, algumas dividem pequenas residências, em dois, três grupos familiares, já que a parcela do auxílio moradia não é suficiente para pagar aluguel numa cidade de alto custo de vida. Outras rumaram a municípios vizinhos. Há registros de 20 famílias morando em área de risco interditada pela Prefeitura que, aliás, segundo a Defensoria, as teria levado até ali.

Um ano depois, portanto, o que se vê do Pinheirinho são perspectivas distantes à ex-comunidade. Muito além da solução definitiva para a falta de casas, o que os ainda mobilizados aguardam é a justiça que restabeleceria laços de um sonho coletivo que foi desmoralizado. De forma triste, são observados, em geral, seres humanos desorientados, reféns de um poder que faz desacreditar nas instituições. E que terão que se dedicar não a viver, mas a reconstruir existências.

Em tempo: hoje às 18h, está previsto um grande ato em frente ao terreno do Pinheirinho. A manifestação exigirá desapropriação imediata do local, construção de moradias, reparação de danos e punição aos responsáveis pela operação estatal.

Moriti Neto, jornalista, mantém a coluna mensal Escarafunchar

domingo, 25 de março de 2012

Pinheirinho. Depois.

Na última semana completaram-se três meses da invasão e reintegração de posse da área conhecida como Pinheirinho em São José dos Campos. Ontem e hoje você tem uma uma retrospectiva do ANTES e DEPOIS em fotos e textos do fotógrafo Victor Moriyama.


Bombas de gás lacrimogênio e de efeito moral, armas de fogo e granadas não são as melhores lembranças para se guardar na memória de uma criança. Mas foi assim a reintegração de posse do assentamento Pinheirinho, em São José dos Campos, interior de São Paulo que aconteceu sorrateiramente na manhã do Domingo de 21 de Janeiro de 2012.

Tida pelo alto escalão da Polícia Militar do Estado como uma operação "perfeita", seus desdobramentos sociais se iniciaram a partir da saída imediata das aproximadas 5.000 famílias que viviam no local.

A manhã que sucede o dia D numa guerra nunca é bela, e naquele domingo não poderia ser diferente. O cinza do céu parecia descer sobre a terra e o sol definitivamente não apareceria. Grupos de ex-moradores do assentamento ainda arremessavam pedras nos policiais militares que reagiam com balas de borracha.

Se um grupo de mais de três jovens se reunissem nas intermediações do Bairro Campo dos Alemães, região colada ao Pinheirinho e tida pelo poder público como o reduto do tráfico de drogas na cidade, era motivo de revista por parte da PM e esculacho na frente da população.

No decorrer do dia, inúmeros carros e prédios públicos foram incendiados por rebeldes. Grupos de ex-moradores do assentamento se espalhavam pelas sombras das árvores e boa parte rumava para a Igreja do Bairro que abrigaria nos próximos dias boa parte da população do assentamento.

A prefeitura por sua vez disponibilizou de imediato dois conjuntos poliesportivos para servir de moradia provisória as famílias sem-teto. No início da semana que sucedeu a descoupação do assentamento, o número de famílias habitando estes abrigos era elevado.

Colchões se amontoavam em quadras de basquete, filas de espera de horas para o banho, crianças berrando em busca de consolo, e um cheiro indescritível de seres humanos amontoados imperavam as sensações naquele local.

O calor já elevava a temperatura em quase 40 graus e as famílias saiam para fora das quadras em busca de uma sombra para descansar. Cachorros, galinhas, patos e gatos também integravam a bagagem daquelas pessoas e se acomodavam da melhor forma no novo lar.

A noite foi longa. Mães discutiam e reclamavam dos gritos estridentes dos bebês e a impossibilidade de se ter uma noite tranquila de sono. O silêncio necessário para o repouso daqueles que vão acordar cedo para trabalhar parecia ser um luxo muito distante daquelas pessoas.

As noites de verão tem o clima agradável e aquela não era diferente, fazia as crianças brincarem até a exaustão. Pergunto para uma delas, que bebe água desesperadamente no bebedouro público, o que estava entendendo daquela situação e se sentia saudades do Pinherinho: “Aqui está super legal, parece acampamento, tem um monte de amigo e a gente brinca o dia todo.”

Para uma criança de 9 anos, como a Jeniffer, aquela situação de caos social parecia mais uma colônia de férias. São 05:45 am, e a noite havia sido longa e exaustiva. Os roncos se misturavam ao choro das crianças e a conversa com uma moça que trabalhava no local havia sido bastante produtiva. Observo que apenas 7 ou 8 pessoas, dentre aproximadamente 300 instaladas no local, se levantam para ir trabalhar e me pergunto o que as outras farão ao longo do dia.

Não tardo a descobrir que a maior parte passaria o dia estirado nos colchões confabulando sobre o episódio passado de desocupação sem outras preocupações. O sol brilha forte e percebo que chega e é hora de ir dormir.

Antes de partir uma cena me chama a atenção em frente a uma montanha de roupas vindas de doações: “Essas roupas estão bem piores que as minhas” diz uma moradora e indago para ela sobre trabalho: “Eu não vou me sujeitar e me humilhar para este sistema”, me calo e lembro da miséria que vi no Haiti. Para mim é suficiente, o pernoite no alojamento havia rendido bons frutos.

Victor Moriyama, 26 anos, é repórter fotográfico do Jornal O Vale, em São José dos Campos, cidade que reside atualmente. Mantém a coluna mensal Fotógrafo-escreve.

sábado, 24 de março de 2012

Pinheirinho. Antes.

Na última semana completaram-se três meses da invasão e reintegração de posse da área conhecida como Pinheirinho em São José dos Campos. Hoje e amanhã você terá uma uma retrospectiva do ANTES e DEPOIS em fotos e textos do fotógrafo Victor Moriyama.



A vivência no assentamento do Pinheirinho foi extremamente intensa para a atual configuração das reportagens feitas nos diáiros. Na eminência da reintegração de posse do local, pude acompanhar, a partir de uma verdadeira imersão cultural neste já conhecido ambiente, a expectativa dos moradores frente a situação. Foram cerca de 5 noites mal dormidas na exinta secretaria geral do assentamento, localizada na frente do portão central.

Anteriormente havia fotografado a festa de anviersário do assentamento regada a música nordestina, cachaça e enormes brinquedos infláveis para a criançada. Era um sábado de sol, de alegria, e comemoração. Nem o morador mais pessimista imaginaria que aquele seria o último evento oficial do assentamento.

As noites que antecederam a desocupação do Pinheirinho foram tensas. O clima de apreensão tomava conta das feições dos guardiões da portaria central, moradores encapuzados e armados com pedaços de pau com pregos na ponta faziam a vigilância em período integral de toda a área. Motos, bicicletas e fogueteiros circulavam para cima e para baixo fazendo um zun zun zun danado. A reintegração de posse poderia acontecer a qualquer momento, e em caso positivo, todos os moradores seriam acordados rapidamente com o barulho dos morteiros.

Entre conversas superficiais, boas risadas e tragos de cachaça, pude perceber a diversidade cultural como fator predominante naquela distinta população de um dos maiores assentamentos do país. Nordestinos, paulistanos, piauienses e moradores de diversas regiões do país haviam chegado anos atrás na cidade em busca de um futuro melhor.

Muitos temiam a violência policial, outros aceitavam a contra gosto a ordem judicial. “Essa mulher está com a cara do capeta, eu vi na tv”, esbrevajava uma senhora a respeito da juíza Márcia Loureiro, da Sexta Vara Cível em São José dos Campos, responsável pela ordem de desapropriação do terreno. Alguns tímidos carros deixavam o assentamento com sofás e camas amarrados ao teto.

Foram dias inteiros se arrastando com a provável ocupação policial do terreno. “Estou sem dormir a seis dias. Pelo Pinheirinho eu faço tudo.”, excamou Juarez com uma olheira tão profunda que beira o indescritível.

Ouvi de outra senhora, no amanhecer do dia, uma frase que me marcou demais: “eu demorei anos para construir minha casa de bloco meu filho. Eu não tenho para onde ir”. Dona Raimunda tem 72 anos e vivia no Pinheirinho desde o início do assentamento. O sentimento de resistência era comum aos moradores de todas as faixas etárias. Nestas noites que passei em companhia dos ex-moradores não tive nenhuma desavença com ninguém embora os “caras do movimento” (tráfico) me xingassem pelo canto do olho.

A madrugava entrava quente naquela noite típica do verão brasileiro. A música “povo da periferia” do aclamado rapper brasileiro Naldinho ecoava por todos os becos do assentamento. A frase inicial da música parecia embalar aquele sentimento de resistência dos moradores “O tempo da periferia há muito tempo ta abandonado. Enquanto o povo da classe alta ta enchendo o rabo de dinheiro o povo daqui ta no veneno, sem emprego, na fome”.

O movimento na secretaria do assentamento era contínuo. Pães, refrigerantes, formas de bolo e dúzias de garrafas térmicas com café preto e doce entravam e saiam a todo instante. A esta altura as barricadas construídas com pedaços de madeira e pneus já bloqueavam as principais ruas no interior do assentamento e seu acesso começava a ser restringindo para a imprensa a partir de ordem dada pelo diretor de comunicação do Pinheirinho.

O Clima esquentava. A menos de dois dias do Dia D a guerra estava anunciada com o primeiro ônibus incendiado e sua foto publicada na capa dos principais veículos de imprensa do país. O exército do Pinheirinho fortalecia a tensão ao exibir seu poderio medieval para as câmeras da imprensa.

Victor Moriyama, 26 anos, é repórter fotográfico do Jornal O Vale, em São José dos Campos, cidade que reside atualmente. Mantém a coluna mensal Fotógrafo-escreve.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O roteiro da “higienização” do Centro de São Paulo em 2012

Só em fevereiro, 334 famílias acampadas na eternizada esquina da Ipiranga com a São João resistiram a desocupações, descaso, violência antes de serem transferidos para um abrigo no Bom Retiro


A Prefeitura de São Paulo – com apoio da Justiça Estadual e da Polícia Militar – segue na ação política de impedir a ocupação de imóveis abandonados no Centro da cidade. Além disso, promove sistematicamente a retirada de pessoas que lutam pelo direito constitucional de moradia em áreas já possuidoras de toda a infraestrutura de saúde, transporte e educação.

Em novembro de 2011, a linha de atuação emitia claros sinais de como seria o tom para 2012 . Dez edifícios ocupados por famílias ligadas a movimentos sociais, como o Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC) e Frente de Luta por Moradia (FLM) passaram por desocupações e reintegrações.

No mês de janeiro, depois da desocupação dos casarões e prédios usados como refúgio para usuários de crack, na chamada “Cracolãndia”, em ação classificada pelo Ministério Público como desastrosa, os imóveis vêm sendo “reintegrados”, ou seja, entregues aos “donos” para continuarem lacrados e sem uso.

A encruzilhada de fevereiro

A mais rumorosa das reintegrações de posse no Centro ocorreu no último dia 2 de fevereiro, em um prédio na célebre esquina das avenidas Ipiranga e São João. A medida levou 230 famílias a montarem acampamento nas proximidades do ponto eternizado pela música Sampa, de Caetano Veloso.

Sem poder usar a força para impedir que cerca de 120 crianças da ocupação ficassem na calçada com as mães, a PM e a Guarda Civil Metropolitana (GCM) destruíram, ainda no dia 2, os abrigos de madeira improvisados.

No domingo, 5 de fevereiro, agentes da GCM usaram cassetetes, gás de pimenta e bombas de efeito moral para tentar, sem sucesso, dispersar os ativistas.

“Depois disso, o Ministério Público entrou com uma ação contra a GCM, o que nos deu um pouco mais de tranquilidade. Pudemos esticar essas lonas para proteção”, explica a coordenadora do MSTC, Jussamara Leonel Manuel. “Nós só queremos uma solução de moradia para essas pessoas, que não signifique a desintegração das famílias, mas, até agora, o poder público não ofereceu nada”, reforça.

Na noite de 9 de fevereiro, quinta-feira passada, o alvo da ação do poder público foi o antigo Hotel Pão de Açúcar, localizado na rua Conselheiro Nébias, 314, esquina com a rua Vitória. No edifício, sem uso há quase dez anos, segundo a ex-moradora Rita de Cássia Pereira, viviam 178 famílias, incluindo 78 idosos, 98 crianças e três pessoas com deficência física. Dessas, 55 foram para a Ipiranga com a São João.

Parte das famílias do Hotel Pão de Açúcar aderiu ao acampamento. Diferente dos primeiros ocupantes da calçada, os novos desabrigados conseguiram garantir – na negociação para a reintegração de posse, que ocorreu sem violência – o cadastramento em programas de moradia popular, o que não garante o futuro com casa digna.

“Passamos quase o dia todo nas filas para informar os documentos e número de familiares”, conta a ex-moradora do hotel, Rita de Cássia Pereira (imagem ao lado). “Mas, na verdade, não sabemos o que a Prefeitura vai fazer com esses dados porque não recebemos qualquer protocolo ou comprovante do cadastramento e nem informações sobre os projetos pra gente”, explica.

No último domingo, 12 de fevereiro, as 334 famílias que ocupavam as calçadas da esquina Ipiranga/São João foram removidas para um abrigo no Bom Retiro. Elas enfrentaram por dez dias o sol, a chuva o descaso e a violência, mas ainda não sabem se realmente terão solucionada a questão habitacional, como manda uma liminar da Justiça.

No novo abrigo, após um prazo inicial de 30 dias, o futuro continua provisório para as 334 famílias e também para centenas de outras em ocupações na mira da especulação imobiliária.

Texto e fotos: Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá, do Mediaquatro, especial para o Nota de Rodapé

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Pinheirinho e o direito de brincar




Toda criança gosta de brincar e ganhar brinquedos. O próprio estatuto da criança e do adolescente assegura o direito de os pequeninos aproveitarem plenamente essa fase. Mas como pensar em brinquedos quando sua família acabou de perder a casa onde mora?

Algumas pessoas em São José dos Campos, interior de São Paulo, tentam responder a essa pergunta e garantir esse direito “básico”.

Neste último domingo, esses voluntários organizaram o “Pinheirinho Existe”, um dia de show’s cujo objetivo foi arrecadar brinquedos e material escolar para a população desalojada..

A reintegração de posse do terreno de 1 milhão de m² e cerca de 10 mil pessoas ocorreu há exatas três semanas. Em meio a tanta tragédia, o “Pinheirinho Existe” contou com diversos show’s de Rap e Hardcore, grafittagem, gincanas e jogos para as crianças que viviam na ocupação e para os moradores dos bairros vizinhos. As apresentações foram na escola Edgar de Mello, de onde é possível enxergar o pouco que sobrou do local.

Fernando Santos – o “Fhero” – um dos organizadores do evento, explica que a ideia surgiu da conversa entre amigos e pessoas sensibilizadas com a situação das pessoas - atualmente em abrigos improvisados.

“Vimos o que cada um podia fazer e como dava para ajudar. Foi assim que surgiu a mistura de Rap, Hardcore e grafitagem. O que foi feito hoje saiu do esforço e da disponibilidade de quem se propôs a ajudar”, conta Fhero.

“Tio, vai ter mais rock?”

Logo após a banda “Sistema Sangria” terminar o seu último acorde na guitarra, umas das crianças que acompanhava o show correu até um dos organizadores e perguntou animada: “Tio, vai ter mais rock?”

Entre rappers e bandas de hardcore foram mais de dez apresentações que serviram como atrativo para o público que pagou a entrada com brinquedos e material escolar.

Outra organizadora, a estudante de direito, Ana Sanchez, comemora a participação e a quantidade de doações “que foi maior do que a esperada”, mas deixa transparecer um certo descontentamento com a situação dos ex-moradores.

“A gente queria trazer mais crianças que eram do Pinheirinho, mas os alojamentos ficam longe, boa parte das famílias não tem como vir para cá. O legal é que vamos poder alegrar um pouco essas pessoas”, comenta.

Desde a operação os antigos moradores passaram a morar nos abrigos criados pela prefeitura (em escolas e ginásios) ou nas casas de familiares e amigos.

A Prefeitura, em parceria com o governo do Estado, se comprometeu a pagar um auxílio-aluguel no valor de 500 reais o que, segundo relatos de moradores, não é suficiente.

Ativistas de movimentos sociais têm buscado alternativas como a criação de programas habitacionais voltados a população do Pinheirinho, além das campanhas para arrecadar alimentos e roupas.

Ana e Fhero planejam mais atividades para oferecer algum tipo de ajuda para os moradores. “ Os moradores do Pinheirinho continuam precisando de auxílio, eles perderam tudo”, diz a voluntária Ana. “Deu trabalho, mas vamos fazer um esforço para continuar nessa luta”, finaliza Fhero.

Paulo Cezar Pastor Monteiro, jornalista, de São José dos Campos, especial para o NR. Imagens de Gabriel Do Rio

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Quais mentiras e quais verdades?

ALESP: caso Pinheirinho em SP
Os discursos dos defensores da operação de reintegração de posse do Pinheirinho ecoaram nos últimos dias. Um exemplo é do senador paulista Aloysio Nunes (PSDB) que, em artigo na Folha de S. Paulo e também da tribuna do Senado, opôs “mentiras” e “verdades” sobre o caso.

Entre suas declarações, estão as afirmações de que não houve “guerra” nem “massacre” e que a operação foi cercada de “cautela” para garantir a “integridade das pessoas e minimizar os danos”.

Não foi o que ouviu este repórter do Nota de Rodapé na quarta-feira, 1 de fevereiro, quando acompanhou a audiência pública sobre a reintegração no dia da abertura do ano de atividades da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

O evento lotou o auditório Franco Montoro com a presença de 230 ex-moradores do Pinheirinho. O objetivo: apurar a ampla quantidade de denúncias de violações de direitos humanos ocorridos na reintegração de posse de um terreno de mais de 1 milhão de quilômetros, naquilo que já ficou conhecido internacionalmente como “Massacre do Pinheirinho”.

A audiência já estava marcada para buscar soluções ao problema habitacional, mas ganhou novos contornos após as denúncias de abusos cometidos pela Polícia Militar e Guarda Civil Municipal, que continuam alvos de reclamações dos ex-moradores e defensores da ocupação que abrigava 9 mil pessoas, hoje desalojadas e que foram jogadas em ginásios tornados depósitos de seres humanos – como vou relatar num próximo texto.

Convocada pelo deputado estadual Carlos Giannazi (PSOL-SP), a audiência recebeu, além dos ex-moradores e parlamentares, movimentos sociais, representantes do Ministério Público, Defensoria Pública, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), partidos políticos e entidades de defesa dos direitos humanos.

Passava das 15h quando a ex-moradora Leila da Silva (na foto à esquerda) subiu à tribuna da Alesp. Mãos trêmulas, voz embargada, ela fez um depoimento rápido.

“Tiraram a gente de casa, demoliram tudo, e nos deixaram em ginásios sem a menor condição. As mulheres tomam banho todas juntas, sem intimidade, sem divisórias. Não há comida pra todos e, quando as doações vão pela Prefeitura, muitas vezes não chegam”, disse, fazendo o pedido de que os donativos sejam entregues diretamente aos ex-moradores.

Após a fala de Leila, palavras de ordem tomaram conta do auditório. “Quem luta não está sozinho, somos todos Pinheirinho” era o protesto na forma de verso.

Um dos líderes da ocupação, Sérgio Pires, deu seu testemunho. “O que eu vi lá não foi só tortura física, foi tortura mental. Derrubaram as casas com tudo dentro, nem comida deixaram tirar. A ordem era acabar com o movimento de ocupação, deixar todos em estado de necessidade extrema”, destacou.

Em seguida, a Polícia Militar, tão envolvida nas denúncias de violação a direitos humanos na reintegração de posse, protagonizou momento constrangedor.

Submeteram à revista um grupo de ex-moradores do Pinheirinho. “Já basta o massacre que vocês fizeram no Pinheirinho, não continuem insistindo no erro", ponderou o deputado estadual petista Adriano Diogo.

Carlos Giannazi afirmou que o responsável pela ordem de revistar o grupo partiu do presidente da Casa, deputado estadual Barros Munhoz, do PSDB, mesmo partido do governador Geraldo Alckmin e do prefeito de São José, Eduardo Cury.

"É uma questão que levaremos para discutir, com toda a certeza, ao Colégio de Líderes. Por acaso a polícia revista empresários quando visitam aqui? Não. Então não podem fazer esse tipo de coisa”, declarou.

A revista estimulou os ex-moradores a circular outra denúncia para apuração. Na reintegração, não havia policiais nem guardas municipais femininas. As revistas nas mulheres eram feitas por homens, o que caracterizaria outra falha da operação.

Na audiência, a repórter da Rádio Brasil Atual, Lúcia Rodrigues (na foto à esquerda), que cobriu o caso do Pinheirinho, sendo ameaçada com dois tiros de bala de borracha, confirmou a uso de armas letais.

"Eu vi e sei, eles não estavam só com armas de bala de borracha, estavam com armas letais, sim” garantiu.

A fala da jornalista reforça a tese do uso de armas letais, já com fortes evidências no depoimento gravado por uma comissão de deputados e integrantes de entidades de direitos humanos.

Embora sem presença física, a voz de David Washington Furtado, em áudio gravado, é afirmativa a esse respeito, ao contrário do que dizem os órgãos oficiais.

O pedreiro pernambucano, que morava há sete anos no Pinheirinho, foi ouvido no Hospital Municipal de São José dos Campos, em que está internado após ser atingido por um tiro de arma de fogo, segundo ele, disparado por um guarda municipal.

“Às 5h30 (após escutar tiros e explosões) peguei meu neném e minha esposa. Levei meu filho na casa do meu irmão, na rua 40 do Campo dos Alemães. Voltei para o cadastro da Prefeitura, minha casa estava destruída. Estávamos eu, minha esposa, um amigo e a esposa dele. Vi quando um guarda municipal tirou a arma. Mandei minha esposa correr e não senti mais a perna”, contou.

Moradores despejados do Pinheirinho na ALESP.
Com a perna esquerda paralisada, podendo ter sequelas, David foi alvejado na região lombar e afirma que reconhece o agressor. De acordo com ele, o homem “era um senhor de óculos” e estava com a farda azul da Guarda Civil Municipal, sem capacete, usando um boné.

“É a história mais escondida de São José dos Campos", frisou o deputado Adriano Diogo. "Depois de balear David pelas Costas, a GCM atirou nele, de novo, quando já estava caído no chão. Uma barbaridade", completa, baseado na versão da vítima e de outras testemunhas, como a esposa do pedreiro, Laura.

Estado grave

O aposentado Ivo Teles dos Santos, de 69 anos, natural de Ilhéus, na Bahia, morava sozinho no Pinheirinho e estava desaparecido desde o dia da reintegração. Na última sexta, dia 3, ele foi encontrado pela ex-companheira, Osorina Ferreira de Souza, no Hospital Municipal de São José dos Campos. Ele está internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), em coma desde o dia da desocupação.

No sábado, 4 de fevereiro, Renato Simões, conselheiro do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), o deputado estadual Adriano Diogo (PT-SP), vereadores da cidade e Antonio Donizete Ferreira, um dos advogados dos ex-moradores, estiveram no hospital, onde comprovaram a internação.

“O senhor Ivo foi espancado por policiais militares no dia da reintegração de posse. Por volta das 16h de sábado, nós pedimos ao hospital o Boletim de Atendimento de Urgência (BAU), que é onde está relatado como Ivo chegou lá. A direção nos negou, disse que só sob ordem judicial”, diz Simões.

Ainda no sábado, após quase três horas de espera, o hospital entregou somente um relatório assinado pelo médico de plantão, Luis Carlos Nacácio e Silva, informando a entrada de Ivo no dia 22 de janeiro, às 18h30, com “quadro confusional e crise hipertensiva”; a “tomografia de crânio mostrou AVCH (acidente vascular cerebral hemorrágico)”.

O vereador Wagner Balieiro foi um dos que esteve no hospital e constatou a situação de Ivo, bem como a negativa da administração em fornecer o Boletim de Atendimento de Urgência que pormenoriza o estado clínico dos pacientes.

“Na verdade, o que chama a atenção neste caso é que a omissão de informações ocorre mesmo com a presença de parlamentares, Defensoria Pública e órgãos de direitos humanos. Isso ocorre, pois a situação de saúde do Ivo tem relação com a reintegração do Pinheirinho, há uma reportagem do jornal O Vale, no dia da desocupação, que descreve as agressões sofridas por ele”, argumenta.

Pelos obstáculos para conseguir o boletim – justificados como interferência direta de Danilo Stanzanni, secretário da Saúde de São José – o grupo que esteve no hospital deve entrar com um mandato de segurança que garanta o acesso às informações.

Moriti Neto, jornalista, colunista do NR. Imagens de Maria Eugênia Sá e Vinicius Souza.

sábado, 28 de janeiro de 2012

A revolta era tudo que eles tinham

Amanhã faz uma semana da reintegração de posse no Pinheirinho, em São José dos Campos. Abaixo, o relato do jornalista Rodrigo Mendes de Almeida, colunista do NR, que foi ver de perto a ação policial e a desolação dos desabrigados. É um relato subjetivo, diante do bombardeio de informações ao longo da semana. O texto é uma tentativa, como diz Rodrigo, de “dividir um pouco do que senti estando no local de uma tragédia”.
 
Nunca havia visto nem sentido nada que se aproximasse do que senti no Pinheirinho. O clima era de terror e pânico. A desorientação das pessoas que não entendiam como podiam ser violentadas de forma tão brutal era evidente, um sentimento pungente de desolação.

O desamparo de gente que tinha uma casa, que tentava construir uma vida e que, de uma hora para outra, estava na rua, pedindo ajuda para beber água e comer. Uma tragédia calculada minuciosamente, com frieza, e levada a cabo com requintes de crueldade que nenhum tipo de política pode explicar. O saldo: cerca de nove mil pessoas jogadas na rua, alguns mortos, muitos feridos. Vidas arruinadas.

Nosso grupo andando pelo bairro vizinho ao Pinheirinho, em São José dos Campos, chamava muita atenção. Não tinha como passarmos despercebidos, éramos claramente de fora.

Sem contar o fato de que, no Campo dos Alemães, todos estavam fora de suas casas. O bairro é vizinho ao Pinheirinho e suas ruas estavam lotadas. Todos em silêncio, olhares atentos. Muito pesado, muito tenso. Todos com medo. O Pinheirinho estava isolado pelas barreiras da tropa de choque.

Muitos jovens de bicicleta: adolescentes, pré-adolescente e pós-adolescentes. As crianças ficavam enrodilhadas nos pés dos pais. Bastava um sinal de polícia despontando, a algumas esquinas de distância, ou sendo precedida pela luz da sirene, a correria era geral. Não importava quem: todos estavam com muito medo da polícia e de suas bombas e tiros.

Os jovens, os adultos, todos saíam do caminho. Isso porque, como alguns moradores nos disseram, não podia haver nenhuma aglomeração, nenhum grupinho de três, quatro pessoas que, se a polícia visse, de longe já começava a atirar com bala de borracha e usar bombas de efeito moral.

Dobrando à direita em direção ao que seria o alojamento preparado para receber os recém-desabrigados, vi uma mãe andando a esmo com um cesto de bebê num braço, segurando uma criança pela mão do outro. Em vez de um bebê dentro do cesto, um filhotinho de cachorro, todo preto, não mais velho que alguns dias.

Penso em quantos animais foram deixados para trás, como parte da mobília das casas, para serem “demolidos” junto das casas.

Talvez aquela família estivesse a caminho da igreja, onde havia a maior concentração de pessoas que foram expulsas de suas casas naquele domingo. Foi para onde fomos. Lá, conversando com uma liderança do movimento, ouvi que essa ação foi diferente. “Nunca vi nada igual”, disse. Em geral há um verniz democrático, republicano, de cumprimento da lei. Naquele dia, o oficial da justiça federal foi expulso a bala de borracha.

Isso foi para o oficial de justiça, pois, diferente do que foi dito, a polícia usou, sim, bala de chumbo.

Havia algumas centenas de pessoas na rua, em frente à igreja, esperando o padre abri-la. Ninguém sabia dizer por que a polícia não dispersava apenas aquela concentração de gente – com grupos muito menores havia bem mais violência.

Um carro de som
pede água aos vizinhos


Ouço que não há nenhuma certeza de quem morreu, de quem pode ter morrido, mas que com certeza ocorreram falecimentos. Teve gente que tomou tiro de bala de borracha. Teve gente que tomou tiro de bala de chumbo. Alguém me conta que, até pouco antes, o helicóptero da polícia – que, naquela altura, ainda rondava acima de nossas cabeças, com potentes holofotes apontados para nós – era quem lançava parte das bombas.

Eu via pessoas com malas. Via alguns carros carregados. E via algumas pessoas sem nada. Alguém usa o carro de som para pedir aos vizinhos que tragam água, pois os desabrigados não tiveram nem como beber água durante o dia.

Converso com um senhor, que diz que não conseguiu pegar nada de sua casa. Pergunto o que “eles” falaram, se daria para pegar depois seus pertences. Ele afirma que deveria dar, mas que não havia nenhuma segurança de que sua casa estaria inteira ainda. “Eu era o músico da cidade”, explica ele, “era com a minha aparelhagem que o pessoal fazia as assembleias, na igreja evangélica”. Presto atenção ao tempo verbal, “era” o músico da cidade. E como fazer agora, sem aparelhagem?

Mesmo na noite escura, pude ver seus olhos marejarem. Ele levanta o boné, passa a mão na cabeça engolindo o choro. Levanta a mão que tinha uma sacola de plástico e oferece: “Vamos tomar um café. Está com adoçante mas está bom”. Recuso gentilmente. Nada passaria na minha garganta. “E água? Tem água também...”

Na rua do lado, várias pessoas faziam barricadas, queimando o que parecia ser um sofá. Começaram a quebrar as placas das ruas para alimentar o fogo. Pegavam tudo que tinham à mão e que não pertenciam a ninguém para alimentar o fogo. Já tínhamos passado por várias barricadas daquela. A primeira, inclusive, na maior avenida, já estava até apagada com os restos de um carro, inidentificável.

A revolta era tudo que eles tinham. A força dos policiais, a arbitrariedade com que eles trataram aquelas pessoas levou a isso. Um grupo de uns oito meninos, vindo da direção da barricada, passa de bicicleta – sempre as bicicletas – e ouço um deles “bora, lá em casa tem álcool”.

Eu nunca tinha vivenciado nada assim. Parecia guerra mesmo ou como imagino ser uma. Qualquer barulho assusta. Ao andar pela rua dava para sentir a respiração das pessoas e a tensão. A opressão de se estar cercado de um monte de soldados armados até os dentes. Bombas estourando ao fundo se tornaram um barulho comum. Volta e meia acontecia alguma coisa e um monte de gente saía correndo de algum lugar.

Companheiros foram aos hospitais da cidade em busca de informações. Segundo relataram, os médicos e funcionários negavam que tivesse chegado qualquer pessoa do Pinheirinho. Mas conversando com outras pessoas, o vendedor de cachorro quente da porta do hospital, o outro paciente que ainda estava na sala de espera, todos contam, de forma unânime, das pessoas que viram chegando, ensanguentadas, arrebentadas.

Várias pessoas. Crianças. Inclusive uma de três anos, que foi a primeira vítima confirmada da operação – corroborando a história que havia circulado do lado de fora da igreja. Nos hospitais, policiais militares circulavam pelos corredores. Havia uma deliberada e ordenada sonegação de informações.

Depois que as pessoas entraram na igreja, resolvemos ir embora, já que as portas seriam fechadas. Passando pelas ruas cada vez mais desertas, ainda víamos algumas pessoas em silêncio, só olhando tudo que acontecia em volta. Com medo. Em uma praça, uma biblioteca queimava, completamente incendiada.

Nós ainda chamávamos atenção. Mais do que as barricadas em chamas.

Rodrigo Mendes de Almeida, jornalista e editor de livros, especial para o NR. Foto do cachorro no pós-reintegração de Victor Moriyama, também colunista do NR, realizada para o jornal O Vale, São José dos Campos.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

De dentro da barbárie

O Coletivo de Comunicadores Populares produziu o vídeo a seguir, sobre a reintegração do Pinheirinho. É, sem dúvida, um material que precisa ser visto. "Pinheirinho: a verdade não mora ao lado".

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Qual classe média, presidenta?

 Geraldo e Dilma em evento na semana passada em SP
A afirmação feita por Dilma Rousseff na última semana em São Paulo é sintetizadora da visão que a presidenta vem expondo ao longo de pouco mais de um ano de mandato.

“Queremos um país com pessoas ricas e prósperas, mas principalmente um país de classe média. E ninguém é classe média se não tiver sua casa. Ninguém”, afirmou ao lado do amigo tucano Geraldo Alckmin durante assinatura de convênio para o programa Minha Casa, Minha Vida 2.

A frase mostra que a presidenta, a exemplo dos caciques do PSDB, confunde cidadania com consumo, conceitos nada parecidos. Não há problema algum na intenção de compra da casa própria, e é algo economicamente estimulado em uma cidade como São Paulo, em que o valor do aluguel pode superar o valor da parcela do financiamento imobiliário.

Mas daí a achar que se trata de um pré-requisito para ingressar na classe média guarda-se uma distância. Ser classe média, no caso brasileiro, deveria significar a garantia financeira de cumprimento das funções básicas (alimentação, vestuário) e o acesso aos serviços públicos fundamentais (saúde, educação, transporte). Dilma, porém, parece nutrir uma visão não muito diferente da patética classe média resumida na música feita em 2006 por Max Gonzaga.
“Sou classe média
Compro roupa e gasolina no cartão
Odeio coletivos
E vou de carro que comprei a prestação”
Em vez de valorizar propostas coletivas de construção da cidadania, Dilma parece preferir iniciativas galgadas na conquista individual, estimulando ao crescimento da massa trancafiada em seus automóveis nas grandes cidades e em condomínios cercados em todas as demais.

Obviamente, não se trata de desprezar realizações do primeiro ano do novo mandato, ainda que poucas e, em geral, de continuidade e melhoria da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva.

Nesta linha de pensamento, e de novo próxima ao ideário tucano, Dilma prioriza as liberdades individuais às liberdades coletivas, o que explica o veto ao kit contra homofobia produzido pelo Ministério da Educação.

"Não aceito propaganda de opções sexuais. Não podemos intervir na vida privada das pessoas" foi a infeliz afirmação feita à ocasião, submetendo o dever do Estado de combater o preconceito ao “direito” individual de ser homofóbico.

Com um balanço assim, difícil imaginar que Dilma queira avançar na regulação da comunicação. Até hoje evitou posição clara sobre o assunto. Nas poucas vezes em que comentou indiretamente a questão, no entanto, deu a entender que só gosta do controle remoto, abrindo mão do papel do Estado de regular um setor que descumpre quatro artigos da Constituição. Haja equívoco.

João Peres, jornalista, mantém a coluna mensal Extremo Ocidente no NR

sábado, 19 de novembro de 2011

Os órfãos de Ratão

No mês passado, Fernando Evangelista, publicou a crônica “Os mosqueteiros” sobre um morador de rua de Florianópolis e seus companheiros caninos. Uma história que quando li, pensei: “gostaria de ter feito sobre o Ratão”.
Ratão e dois de seus companheiros no ponto onde passava
a maior parte do seu dia a dia.  (Foto: NR)


Explico: Ratão é o nome do morador de rua – senhor – que habitava até a semana passada a rua da casa de minha mãe em São Paulo, no bairro da Lapa de Baixo, na zona oeste. Já faz muitos anos que virou personagem do local, conhecido de todos e que, de uns tempos para cá, vivia acompanhado dos seus quatro cachorros.

“Dona Ziiiilda, tô com fomeeee!” gritava para minha mãe quase todos os dias quando ela saia para fazer alguma tarefa fora de casa. Sempre recebia um prato de comida, um dinheiro para a pinga que, diante do seu corpo maltratado e da falta de perspectiva, era sua companhia constante.

Do que se sabe – que é quase nada – Ratão teria sido tecelão antes de perder o emprego, família e se instalar nas ruas. É mais uma história triste de quem vive sem rumo, como relata o meu amigo Tomás Chiaverini, no seu livro Cama de Cimento – uma reportagem sobre o povo das ruas.

Não sei seu nome. Não sei sua idade. Nos cumprimentávamos de um jeito sem palavras, só um gesto de levantar o braço. Não faz muito tempo também, pouco antes de eu mudar da Lapa para Perdizes, fotografei da janela Ratão no que era o comum de seu dia a dia: ficar sentado na calçada tomando “conta” dos carros.

Se tinha comida, dividia com o bichos. Um deles, incrivelmente, andava igual seu dono, maltrapilho e arrastando uma das patas. Franzino, Ratão caminhava com dificuldades há tempos. A bengala improvisada, o ajudava a se equilibrar. Suas coisas pessoais, guardava num carrinho de supermercado.

Latiram o
dia todo

Soube, infelizmente, que Ratão morreu. Foi assassinado a pauladas. A primeira informação é que teria sido por traficantes. A segunda, que teria sido por Skinheads. Nada disso, no entanto, foi confirmado.

O rapaz que o socorreu e que ligou para o SAMU – que teria chegado horas depois – e outro morador que foi espancado com Ratão relatou que dois homens “queriam roubar o rádio novo” que ele tinha ganhado dias antes. Tentaram intimidá-lo, Ratão reagiu como pôde.

Não se sabe se os agressores também são moradores de rua. É fato que, muitos dos que rodeavam Ratão no dia a dia, eram pequenos traficantes e consumidores de drogas. Eu mesmo já presenciei o uso de crack na porta de casa.

Na mesma rua, aliás, foi o local do crime. Ratão, provavelmente, foi enterrado como indigente. As circunstâncias reais da sua morte talvez não sejam esclarecidas pela polícia. É o tipo de morte que não sai nos jornais e não gera comoção da opinião pública.

Não vou entrar neste texto nos méritos das desigualdades sociais e da merda que é tentar sobreviver sem ajuda do poder público. O fato aqui relatado, em si, se presta a uma homenagem ao homem sem identidade. Mais um.

Seus cachorros, pelo que soube, estão sofrendo e perdidos nas ruas. Latiram muito no dia seguinte a sua morte. Ficaram horas na esquina à espera do dono que não voltaria mais. Ganharam carinho e comida dos moradores antigos que tentam algum lugar que queria adotá-los.

Morrer a pauladas, sem socorro, por conta de um rádio, seria digno de um conto policial ficcional não fosse a realidade de mais um morador de rua assassinado.

Thiago Domenici, jornalista

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

À espera do despejo

Cortiço, favela, marginais, absurdo. Adjetivos como esses são comuns de se ouvir na porta das ocupações. Moradores antigos da região central esbravejam e não querem ter como vizinhos inquilinos que não pagam aluguel, muito menos contas de água e luz.

É o que acontece atualmente na Rua da Consolação, em frente ao cemitério, onde um grupo de pessoas ocupou de forma invadida um imóvel abandonado há anos com o objetivo de residir no local.

[clique para ampliar as imagens]


O grupo, liderado por Sílvio acabara de ser removido pela tropa de choque de outra ocupação, que já durava dois anos num antigo prédio estatal, na Rua Martins Fontes, e se mudara para um ponto nobre da cidade, ao lado do bairro Higienópolis.

"Em seis horas a gente já tinha ligado luz no prédio todo e colocado uma mangueira comunitária para abastecimento de água. Demos sorte que as estruturas desse edíficio não foram muito danificadas" relata Sílvio sobre a noite da ocupação.




As invasões por razões discretas são sempre realizadas durante a madrugada, na surdina, sem causar estardalhaço. No dia seguinte, um mutirão de pessoas trabalha sob o sol para deixar o local "mais habitável".




Roupas estendidas no varal, pilhas de lixo sendo removidas, mulheres lavando o quintal, são alguns sinais de reativação do local. Cenas como essa acontecem mensalmente em diversos edíficios espalhados pela região central ocupados, em sua maioria, por movimentos populares.




Estima-se que existam atualmente cerca de 14 mil moradores de rua na cidade de São Paulo. Em contrapartida, especialistas afirmam que há disponível uma área de 5,2 milhões de metros quadrados divididos em centenas de imóveis abandonados.




Em grande parte estes edifícios acumulam dívidas estratosféricas e os proprietários acabam abandonando o espaço. "Quando a gente entra no lugar, conversa com os nóias (usuários de crack) e argumenta com eles que estamos querendo tomar o local para morar, e não para usar droga. Fumar pedra eles podem fazer na rua não é verdade?", relata Juliana, moradora do local.

Lugares como estes sempre me cativaram, me atraem de uma forma inexplicável, trata-se de um convite espiritual a penetrar um universo marginal da existência humana. Tomo fôlego, olho para cima e avisto um grupo de pessoas, que com a mão acenam para que entre.




O líder da ocupação é uma pessoa carismática, polida, cuja vivência de rua demonstra um conhecimento particular da malandragem e das coisas mundanas. Após um gole de café, me convida para conhecer seu apartamento, classificado por ele como 'suíte presidencial' localizada no último andar do edíficio.




O local transcende o conceito de improvisação. Paredes de maderite são rearranjadas toda noite conforme o vento e o frio, barris de água coletada da chuva servem para fazer a higiene cotidiana de Sílvio e sua família. A televisão funciona tão bem que as cores do filme 300 são tão intensas quanto as do cinema.

Invasão

O nome apropriado não deveria ser esse. Numa cidade com tantos moradores de rua, a quantidade de imóveis vazios seria mais do que suficiente para abrigar toda essa gente.

Reflexo da desigualdade e da falta de políticas públicas equilibradas para atender este contingente de pessoas comuns, que levam os filhos as escolas, que trabalham e que acima de tudo tem enorme dignidade.

Cabeça erguida para recomeçar tudo de novo quando a polícia vier com a ordem de despejo. Não querem confusão, não querem vandalizar o patrimônio privado, ao contrário, clamam pelo direito à moradia e mais do que isso, por uma vida digna, fora das calçadas traiçoeiras de São Paulo.

Me despeço de Sílvio com a promessa de colaborar no dia das crianças com a festa que darão para os pequenos da ocupação.




O dia será cheio de alegria para estas pessoas cujo futuro incerto chega a ser apavorante. "Quando vier o despejo a gente continua com a cabeça erguida, escolhe um novo local e começa tudo de novo. Desistir? Eu que não vou deixar minha mulher e meus filhos vivendo em calçada!"

Victor Moriyama, 26 anos, é repórter fotográfico do Jornal O Vale, em São José dos Campos, cidade que reside atualmente. Mantém coluna Fotógrafo-escreve no NR.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Truculência policial em desocupação no Rio de Janeiro

A Oficina Autonoma de Produção de Informação, por meio do amigo Lucas Duarte de Souza, do Coletivo Cinestésicos, enviou a nota, imagens e vídeo da desocupação de um prédio no Rio de Janeiro no qual moravam 25 famílias. Pelo vídeo e relatos, novamente, a truculência policial predominou no despejo. Mais uma situação em que o direito à moradia digna foi solapado.

o prédio que foi desocupado no RJ
(Foto: Lucas Duarte de Souza)
"Na manhã de terça-feira, 13, um ato pacífico a favor da moradia foi realizado na Rua Mem de Sá, centro do Rio de Janeiro. Concomitante à manifestação, 25 famílias ocuparam um prédio local inutilizado e, poucas horas depois, foram despejadas violentamente pela polícia. Os manifestantes que prestavam apoio aos moradores da ocupação também sofreram com a ação truculenta dos policiais, que atiraram balas de borracha, spray de pimenta e gás lacrimogêneo. Um estudante que estava numa lanchonete ao lado foi ferido no pescoço e teve que ser socorrido no INCA e outras sete pessoas foram presas.
O edifício ocupado pertence ao INSS e há mais de 20 anos está inutilizado, o que contraria leis como do Estatuto da Cidade. A Constituição Federal prevê o direito à moradia e define que todo imóvel deve cumprir sua função social, o que torna ilegal mantê-lo desocupado para especulação imobiliária. No entanto, o que deveria garantir moradia digna à população não é cumprido, e as estatísticas demonstram que no Brasil o número de imóveis inutilizados ultrapassa o de pessoas sem boas condições de moradia. Segundo dados do IBGE, há mais de 6 milhões de imóveis abandonados, mais que os 5,8 milhões necessários para atender a demanda da população por lares adequados. Assim sendo, ocupar prédios que não cumprem sua função social é garantir que um direito seja atendido, ou seja, não é ilegal.
Policial joga spray de pimenta
(Foto: Thais Morelli)
A ação vergonhosa da Polícia Militar, que expulsou os ocupantes e reprimiu a manifestação sem considerar a presença de crianças e grávidas no local, não é inédita no Rio de Janeiro, e demonstra que a opressão tem respaldo do Estado. Os planos de revitalização da cidade levam à exclusão social em grande escala, e beneficiam poucos em detrimento dos que constituem a parcela mais pobre da população. Manifestações contrárias aos métodos adotados são sistematicamente reprimidas e silenciadas devido ao apoio da grande mídia ao governo. Mesmo quando o enfrentamento dos participantes de movimentos sociais com a polícia é mostrado, os motivos que geraram as manifestações são negligenciados e não entram em discussão. A consequencia é uma absorção incompleta dos fatos pela população, ausente de análise e, por causa disso, muitas vezes indiferente aos fatos.

[o vídeo de seis minutos mostra a cena da violência policial]




Este acontecimento remete a outro dia 13 de dezembro. Em 1968 foi instituido o AI-5, decreto emitido durante a ditadura militar brasileira que suspendia diversas garantias constitucionais e funcionava como lei do silêncio. Resta então uma pergunta: apesar de legítima a atuação dos manifestantes,houve repressão policial. Mas a maior violência está no ataque direto aos participantes do ato ou no silenciamento de seus propósitos?" Mais imagens AQUI.
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