De passagem pelo Rio, o apartamento que nos acolhe fica na Domingos Ferreira, linda e curta rua paralela à orla em Copacabana, cheia de árvores, restaurantes, bares e do inconfundível ar ultracarioca impregnado em cada partícula do mitológico bairro. Caminhando lado a lado, meu filho e eu somos surpreendidos por uma moça que, vindo em sentido contrário, o chama pelo nome, ao passar por nós. Ela se explica. É aquela menininha de grandes olhos escuros e pestanudos, do apartamento vizinho, quando meu filho e ela tinham uns três anos, frequentavam a mesma escola maternal e aprendiam juntos a nadar na piscina do parquinho, em Brasília. Fazia muito que não a víamos, mas ela nos reconheceu e nos presenteou com um encontro inesperado e delicioso, os três em pé na calçada repassando afetos e memórias.
A saia que comprei há pouco, e deixei para ser encurtada às pressas, está à minha espera no ateliê da Odinéa, conforme instruções da vendedora da loja. Na enorme galeria comercial, misturam-se cubículos de treino de muay thai com lojas de moda cigana, de roupas esportivas e de praia, óticas, joalherias, sex shops, costureiras, agências de viagens e o que mais se puder pensar. Seis mulheres se espremem numa sala sem janelas, uma delas com sotaque hispânico, cada qual com sua máquina de costura. Conversam animadas, tagarelas como suas máquinas, chupando balas, contando casos e rindo muito, enquanto eu provo a saia e me marcam o novo comprimento. À falta de troco, o senhor velhinho que espera à porta se oferece para resolver o problema. Entrego-lhe o dinheiro e ele desaparece no corredor. Em menos de dois minutos, volta, todo feliz, com o dinheiro trocado.
Esse furdunço que é Copacabana nem sempre me atraiu. Talvez por ser barulhenta demais, bagunçada demais, com gente demais, gringos demais, apartamentos demais, cachorros demais, carros demais, tudo demais. Porém, quanto mais o tempo passa, mais essa confusão urbana me fascina. O mar e o calçadão ondulado sugerindo férias permanentes e, logo ali ao lado, a favela e o asfalto juntos, como irmãos siameses que jamais se verão frente a frente. E em cada centímetro quadrado desse mosaico alucinado, o DNA do que somos como gente e como país. Não há o que não caiba aqui dentro. É o que sinto.
Copacabana, sua doida, você nem me nota. Eu venho pouco aqui e fico na minha, andando nas ruas e te aprendendo como posso. Amanhã vou devolver para a aridez do cerrado os pulmões encharcados da umidade atlântica que você tão generosa e democraticamente distribui. Lá, além da estiagem sazonal, temperatura ascendente, em ano de eleição presidencial com uma campanha política pela qual ninguém dava muita coisa. Vamos que vamos. Obrigada e até qualquer hora.
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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
É impossível responder à sua pergunta de perplexidade face ao assassinato do jovem negro Douglas Rafael, o DG, um dos 200 negros assassinados a cada 100 mil há pelo menos duas décadas (menção feita por você quase num suspiro), como se todos nós fizéssemos parte de um coletivo harmônico e festeiro que quer o bem do Brasil. E já aviso que não se trata do papo simplista de cidade partida entre morro e asfalto, falamos de negros e brancos, mano Hermano. De racismo de Estado e da polícia em especial. Falamos de genocídio da juventude negra no Brasil! Você já ouviu falar disso?
Outro aviso importante, ninguém aqui é tolo de responsabilizar a “Família Esquenta” por esse estado de coisas, não se trata disso, seria leviano. Mas penso que haja respostas distintas para o que vocês, a “Família”, podem fazer dentro da rede Globo, pela juventude negra e favelada e o que nós, que não vivemos no mundo de faz-de-conta do PROJAC podemos fazer (e fazemos). O que está sendo feito por quem legitima o direito de assassinar negros não é segredo. Deixemos de ser brancos ou color blind e sejamos francos.
O que a sociedade civil organizada tem feito quanto ao genocídio da juventude negra? Tem denunciado o genocídio, há décadas. Tem instado pesquisadores a produzir dados sobre esse tema, também há décadas. É por isso, por essa denúncia, pela escuta às organizações do Movimento Negro (a “Família Esquenta” sabe que existem organizações políticas negras no Brasil?) é que pesquisadoras seríssimas como Silvia Ramos, dão a necessária atenção à variável racial na análise da violência que prende, mata, e obsta a vida plena do setor sobrevivente desta juventude.
Aliás, tenho a triste certeza de que certas informações são ouvidas e creditadas porque são ditas pelos aliados brancos. Se forem produzidas pelos negros serão sempre minimizadas. A escuta ao Átila Roque é apenas uma exceção que confirma a regra.
Tem uma moçada na Bahia que vocês precisavam conhecer, ouvir, um movimento que se chama “Reaja ou será morto! Reaja ou será morta.” São assim, eles! Diretos. Contundentes. Sem pulinhos de alegria dentro do PROJAC, por estar no PROJAC. Sem pílula de faz-de-conta. São reflexo da chapa quente do mundo real que ferve do lado de cá.
Para esse mundo não existe a novidade da guerra, como não existiu para o “famoso” DG, nem para o anônimo Edilson Silva dos Santos, morto no mesmo dia, no mesmo Pavão-Pavãozinho. Em essência, trata-se de dois jovens negros expostos ao genocídio da juventude preta, mais nada.
Nós contamos nossos mortos há tempos quase imemoriais, Hermano. São inúmeros os DGs do nosso convívio. Sabe, Hermano, em São Paulo, para a gente ter uma ideia aproximada do número de mortos na onda de assassinatos de jovens negros em 2012/2013, a gente conversava com o pessoal dos cemitérios de bairro. Sabe por quê? Porque a imprensa noticiava que haviam morrido cinco ou seis jovens numa determinada noite, mas quem era da quebrada contava muitos mais caixões. O número de velórios, de famílias desesperadas era muito maior. Então descobrimos que é seguro multiplicar por cinco, o número de mortos noticiado, assim nos aproximamos da cifra total de cada noite. Foi o que os coveiros nos ensinaram.
Não creio que esteja contando qualquer novidade à “Família Esquenta”, mas, o que vocês fazem é camuflar esses números, essa realidade, por meio de uma frágil fruição humana de pessoas negras moradoras de favela, felizes por aparecerem na tevê, de maneira supostamente valorizada, por fazerem parte do mundo do entretenimento. Sim!!! As pessoas negras querem leveza, diversão, alegria, remuneração por sua arte, como a que recebia o dançarino DG, roubado em 800 reais depois de assassinado e sabe-se lá em quanto foi extorquido quando vivo. Porque as coisas são assim na racializada sociedade brasileira, não é? O negrinho que ascende e continua no morro, se não é executado pelo tráfico, por recusar-se ao aliciamento, paga pedágio à polícia. O problema é a crença de que essa solução individual ou endereçada a pequenos grupos de negros artistas (por mais que a “Família Esquenta” empregue e remunere dignamente) responde ao problema racial no Brasil. E se vocês acham que nós estamos enganados e que a “Família Esquenta” nem vê esse problema, não trata disso, estamos certos.
Na real, a proposta de programa feita por vocês é um sossega-leão para o problema racial que o Brasil vive e nega, cuja explicitação acontece quando algum negro fantástico, talentosíssimo, excelente profissional, com o qual convivemos, é assassinado por ser negro (ser preto “da Globo" não livra a cara de ninguém), como o são os outros 199 jovens negros mortos a cada 100 mil.
A “Família Esquenta” por meio de seu sociologuês da diversidade, forma pseudo-intelectualizada de coroar a “mistura” defendida com princípio do programa “Esquenta” e apresentada de forma simbólica como solução social harmoniosa para o Brasil, contribui para perpetuar a ideia de miscigenação subordinada. Ocorre que a tal “mistura” (batismo contemporâneo da miscigenação) até hoje não conseguiu provar sua efetividade para os pretos, tampouco diminuiu os privilégios dos brancos. E essa é a centralidade do tema. É disso que falamos.
Acredito, Hermano, nas intenções boas e sinceras da “Família Esquenta”, mas o que vocês fazem (e talvez só consigam fazer mesmo isso) dentro dos limites de uma rede de tevê extremamente reacionária e comprometida com o establishment, com a manutenção de privilégios para os que sempre mandaram e sempre detiveram poderio econômico e político, não altera a questão de fundo, não mexe com ela. E que questão é essa? O racismo estrutural que justifica a perda da vida de jovens negros como se eles fossem pulgas, ratos ou baratas. O racismo institucional que executa esse pressuposto por meio da polícia, o braço armado do Estado.
Imagino que a “Família Esquenta” esteja sob forte emoção, comoção, mas os termos da mensagem da Regina Casé, os seus termos, Hermano, são muito brandos para tratar uma situação que é de absoluta barbárie. Não existe nada mais perigoso no Brasil do que ser um jovem negro! Em torno de 70% dos homens mortos por homicídio no país são negros, mais da metade, jovens (dados de 2011).
Existem também algumas ações e políticas governamentais em curso, no sentido de resguardar a vida da juventude negra, mas não é minha proposta neste texto discuti-las. Prefiro me ater ao poderoso instrumento de intervenção que pode representar a “Família Esquenta” e à escuta qualificada que ela precisa fazer das organizações políticas negras, das pesquisadoras e pesquisadores negros, para além da proposição inócua de um grande pacto social pela vida, que não discuta profunda e amplamente o sentido e o significado das vidas que o racismo descarta como nada.
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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.
Assustava o mundo sensível a onda de linchamentos de pessoas negras executada por justiceiros que escolhiam pretos anônimos, desamparados pela lei, como exemplos para coibir as conquistas políticas e sociais dos negros “protegidos” pela lei de forma mínima. Ou seja, havia um recado para os pretos ascendentes: “recolham-se ao lugar estipulado ou serão vocês o próximo alvo.”
O propósito era acuar os pretos no micro-espaço, aterrorizar as comunidades negras da região onde ocorria o linchamento. A favor dos humanos negros só a vulgarização tecnológica. Pessoas indignadas registravam e divulgavam os atos bárbaros com celulares no afã de não esquecê-los, de impedir que fossem ocultados, de forçar investigação, julgamento dos linchadores e punição. Por fim, que o resultado final do registro fosse acordar a população da letargia ignorante de tais atos e cercear já no campo da intenção, o próximo linchamento.
Mas, como justiça não havia, o pânico se instaurava. O pavor de ser o próximo alvo intimidava tanto, que, não raro, as pessoas negras fugiam do tema. Enquanto em uma cidade o filho do mega-milionário atropelava, matava, era julgado rapidamente e pagava a sentença com trabalhos de re-socialização, em outra, um playboy bêbado atropelava ciclista trabalhador, arrancava-lhe o braço e atravessava bairros com o membro agarrado ao retrovisor. Em dado momento o meliante percebe a marca do crime, pára o carro, abrupto, e joga o braço do ciclista no esgoto, impune. Numa terceira cidade, uma patricinha, estudante de Medicina, atropelou e matou um gari, arrancou o carro sem prestar socorro, enquanto lamentava a sujeira de sangue na lataria. Não por coincidência, eram todos brancos, criminosos de fato e protegidos pela lei do mundo do faz-de-conta.
No mundo real, entretanto, eram sempre negros os alvos dos linchamentos. Qualquer motivo, qualquer suspeita, qualquer vacilo diante das regras do stablisment, justificava a eliminação física do suspeito. Mas aqueles não eram os alvos reais. O objetivo final era intimidar os negros insurgentes que tinham pelo menos uma noção vaga de direitos, os cotistas de universidades públicas, artistas, estudantes matriculados e uniformizados, negros intelectualizados, aspirantes a profissionais bem sucedidos, todas as pessoas portadoras de identidade negra em expansão.
Restava saber se os pretos se recolheriam aos lugares pré-definidos, iludidos pela mentira de não serem o próximo alvo. No Brasil, os negros estavam por sua própria conta desde o momento da gestação e os linchadores sabiam disso.
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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum. Desenho: Latuff
No final dos anos setenta, morei uns tempos no Rio, trabalhando no apoio à produção de um programa de TV evangélico. Sair de casa e encarar a vida adulta, um sonho acalentado fazia tempo, foi a confirmação do meu pendor por desafiar o previamente definido e as expectativas sobre mim. Ao desembarcar no Rio, eu era uma pirralha de vinte anos metida a gente grande, que tomava e executava decisões radicais.
Tempos complicados aqueles, com coisas demais pra aprender, absorver e rearrumar. O redemoinho interno girava, parava alguns segundos, girava mais, desorganizava mais, girava mais um tanto, invertia o sentido e me apertava. Foram muitas horas sentada num banco de frente para o mar em Ipanema, nas tardes de sábado, vestida da cabeça aos pés, olhando o movimento das ondas e tentando dar nome ao que sentia. Eu não era, aliás, não sou, dada a rompantes emotivos. Sou das que viajam doze horas de carro, com muito gosto, mas não encaram vinte minutos numa montanha russa, nem mesmo ao lado do George Clooney.
Passados alguns meses, comecei a participar de um grupo de conversação em inglês, uma vez por semana, no horário do almoço. De maneira simples e eficaz, um artigo de revista lido em voz alta dava o mote para a conversa, facilitada por uma norte-americana. Foram poucas reuniões, porém, apesar de breve, aquela foi para mim uma experiência singular.
Na primeira vez que, motivada pela conversa, comentei referências e fatos da minha vida, ainda que de maneira superficial, tive a nítida sensação de estar falando de outra pessoa. Como se ao mudar o idioma eu tomasse distância de mim e assim pudesse me ver de forma mais objetiva e generosa, daquele jeito que nos veem as pessoas a quem damos acesso ao nosso lado de dentro. Como se, em pleno giro, se abrisse uma fresta no redemoinho e eu pudesse vislumbrar o que estava lá bem no centro dele, mas que só se revelou claramente muito depois.
Sem saber, sem nem desconfiar, eu embarcava no trem do autoconhecimento e iniciava uma viagem só de ida, às vezes trágica, às vezes cômica, sempre intensa, inescapável, que transforma tudo, inclusive os redemoinhos e as lembranças.
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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.
Na segunda-feira pós-carnaval (10/03), li com alegria um post no facebook do meu amigo Mariano Mattos (o folião dos foliões!), do bloco Viemos do Egito. Ele compartilhou um link do jornal O Globo – nada mais nada menos que coluna assinada por Caetano Veloso dizendo que brincar carnaval na Cinelândia no meio do bloco Viemos do Egito o fez relembrar toda a história recente do carnaval brasileiro e dos blocos de rua de Salvador de sua juventude. Ao som de “O canto da cidade”, na voz de Daniela Mercury, Caetano festeja sorridente “a volta às ruas da juventude carioca”. (Se quiser ler a coluna na íntegra, acesse).
Nesse mesmo post, comentando suas vivências carnavalescas, meu amigo Mariano recorda a experiência tipicamente “momística” de tentar tomar um táxi fantasiado durante o carnaval.
(Detalhe: “momesco” ou “momístico”, esta última mais interessante, por fundir as palavras Momo + místico, são expressões usadas fartamente pelos integrantes dos novíssimos blocos de rua paulistanos. Então viva a “Momocracia”!).
Pois é, Mariano, os táxis não param mesmo. Senti isso na pele na madrugada da segunda-feira, depois de brincar carnaval no bloco Bastardo, em Pinheiros (na imagem acima).
Minha fantasia esse dia estava “bem de boa”, como se diz. Nada de vestido, saia, sutiã, sunga, colares. Penso o que teria acontecido com o folião que foi fantasiado de Borat na praia... Já viram esse filme? Imagine um sujeito alto, bigodão preto, trajando um maiô verde mínimo, com um tremendo fio dental... A melhor fantasia. A mais ousada. Geralmente as melhores fantasias são as mais ousadas. Mas com certeza teria muitas dificuldades de entrar num táxi.
Não era o meu caso nessa madrugada de segunda. Estava com uma fantasia relativamente discreta. Saí de romano. Mais especificamente de Carlos Magno Máximos III (o Neto), para divulgar o nosso nascente bloco Quem Tem Boca Vaia Roma, que desfilou na segunda à tarde causando arrepios nas donas de casa da Vila Romana. Minha fantasia não era nada escandalosa: uma toga feita de trapo de lençol velho, uma espécie de saiote improvisado com o forro branco da minha cama, galhinhos atrás das orelhas imitando folhas de louro e, nos pés, sandálias de couro emprestadas do meu amigo Cabelo. E só. Vê se pode! Nenhum táxi parar por isso?
Que foi? Acharam a pouca roupa indecência, atentado ao pudor? O problema era o saiote? Ah, já sei: veadagem... É que os taxistas não conhecem as virtudes machas de um imperador romano, como Júlio César, ou um general como Pompeu, líder militar de inúmeras façanhas. Talvez se levassem isso em conta tivessem me deixado entrar. Tudo bem que o Nero fosse cheio das extravagâncias (com suas festas eróticas repletas de convivas nus), mas aos olhos dos machões de hoje em dia seria considerado, por seus feitos militares, um cara de respeito, sujeito de fibra, destemido, cabra homem.
Será que os taxistas estavam com medo? Talvez eu fosse mesmo uma ameaça. Eu e minhas virtudes belicosas de um guerreiro do exército mais entusiasmado e dedicado que existe, embora deliberadamente pouco disciplinado – que é o nosso exército de carnaval. Como diz a canção: “nas trincheiras da alegria / o que explodia / era o amor”. Sim, estava em missão de paz. E, se não podia me considerar derrotado, pelo cansaço, pela cerveja, pela folia, era certo que estava ansioso para chegar ao QG o quanto antes para me recuperar da batalha. Mas quem disse que os taxistas estavam a fim de ajudar este pobre soldado do carnaval?
Passavam, gesticulando as mais diversas coisas, e não paravam. Alguns nem gesticulavam. Nem olhavam. Simplesmente passavam, o carro fazendo aquele típico barulho de borracha alisando o asfalto, o som da rejeição. O gesto que mais se repetiu, entre dezenas de motoristas nos seus carros pálidos, foi o do indicador em riste apontando ora para a esquerda, ora para a direita, querendo que eu acreditasse que ele estava indo atender a um chamado em outro lugar. Pensa que engana quem? Todos os carros vazios. Almas vazias. Teve motorista com a cara de pau de fazer o típico gesto de abrir e fechar a mão com os dedos voltados para cima, polegar encontrando-se com os demais, sinalizando que o carro estava cheio, sendo que a luz estava acesa e o táxi, nitidamente, vazio. Deprimente.
Ora, para um guerreiro romano, natural da Vila Romana, que precisava urgentemente descansar para estar disposto na última batalha, terça-feira, não me sobrou alternativa senão apertar o fecho das sandálias, levantar a cabeça, e seguir adiante, travando disputa com as ladeiras de Pinheiros e Lapa. Não desviei um único olhar. Enfrentei. Há uma tarefa (pensei): desentranhar o espírito carnavalesco dessa gente. Agora era verdadeira batalha. Velhinhos saindo pra comprar pão. Senhoras levando o cachorrinho pra passear. Mamães e papais tomando média na padoca com o pequeno. Zeladores de prédio fumando o cigarro na calçada. Cabeça erguida. Como se o carnaval fosse a regra. Deixando que os primeiros raios de sol refletissem no meu corpo dourado de purpurina. E cochicharam. E me ignoraram. Mas será que aquela ali sentiu tesão? E aquele senhor, me olhando de lado, será que se lembrou de seus tempos passados, não menos dourados? Quase escapou um “Viva a Momocracia!”, mas ele não ia me entender. “Viva o carnaval!”, cumprimentei-o. E ele me respondeu um “Viva!” que me deixou feliz.
De novo, o facebook. Me desculpem. É que ando digerindo este último carnaval através dos infindáveis murais. Postei em tom de lamento, na quarta-feira de cinzas, que chegou a hora, infelizmente, de tirar a purpurina do corpo. E como é difícil! Em todos os sentidos. Mas fico com o que a Evelyn, uma amiga, me respondeu: “Deixa a purpurina!”.
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Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Foto: Facebook do Bloco Bastardo.
Senti o peso da chegada aos 40 quando em conversa com duas aguerridas ativistas de direitos humanos, uma de 27 e outra de 23 anos, convicta, usei a palavra pelego para caracterizar determinado setor de trabalhadores, sem maiores explicações. Elas me olharam desentendidas e a mais jovem, escusando-se da suposta ignorância, perguntou-me que conceito era aquele. Antes de explicar, fui obrigada a concluir, estou mesmo envelhecendo.
Passada uma década, a mais velha da dupla, que agora chega aos 40, deve sorrir ao ver a abundância de referências ao sindicato pelego dos garis do Rio de Janeiro. A expressão, extremamente usual na década de 80 do século passado, volta à baila em 2014, trazida pelo movimento grevista dos garis do Rio de Janeiro, que abandonaram as vassouras, ergueram punhos, vozes e marcharam durante 8 dias pelo centro da cidade, reivindicando a destituição de decisões anteriores tomadas pelo sindicato pelego que havia se vendido ao patrão (a prefeitura), melhores salários e condições de trabalho. Ascenderam faróis inertes desde as greves do ABC do final dos 70 e dos professores da rede pública na década de 80.
Os meninos e meninas de laranja, cuja força, o peleguismo da mídia hegemônica demonizava e diminuía, o peleguismo do sindicato traía e a prefeitura carioca fingia não ver, disseram um não rotundo a todos que queriam transformá-los em suco. Venceram! Inclusive às tropas armadas e truculentas que os forçavam a trabalhar sob o disfarce da proteção.
É imperativo aos conservadores admitir que doravante, a esperança da transformação social veste laranja e é negra. Bela e majestosa como a noite em que a carruagem abóbora de Matamba nos desperta do pesadelo!
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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.
É difícil falar das violências simbólicas, dessas assim... estapafúrdias. Parece mesmo difícil falar das violências corriqueiras, normatizadas e naturalizadas no nosso convívio social. Falar sobre a violência do nosso cotidiano já parece tarefa árdua demais para um certo puritanismo-pacífico-opressor das grandes mídias – inibem as línguas e os corpos para fazer valer seu próprio conceito-notícia quando o assunto é a violência. Neste processo, uma ardilosa política dos “cidadãos de bem” parece ganhar corpo desde que as manifestações de junho iniciaram o seu work in progress. Entoar hinos de louvor em defesa de patrimônios e capitais e esquecer de pessoas – essas, de carne e osso – parece ter ganhado ares de normalidade.
De um lado parte da cobertura midiática parece entoar louvores aos bons modos durante as manifestações, de outro, para complementar, ecoam gritos condenando os possíveis “vândalos” que habitam entre nós. Sempre que penso sobre isso me vem um trecho do poema “Nossa truculência”, da Clarice Lispector que diz:
“(...)é preciso não esquecer/ E respeitar a violência que temos. (…) A nossa vida é truculenta: nasce-se com sangue/ e com sangue corta-se a união que é o cordão umbilical/ E quantos morrem com sangue/ É preciso acreditar no sangue como parte de nossa vida/ A truculência é amor também”.
Parece mais fácil apontar vândalos entre nós que observar o vandalismo em nós, na maneira como nos relacionamos uns com os outros.
Querendo brincar de separar o joio do trigo, as linhas editoriais das empresas que monopolizam a comunicação no Brasil (seis famílias controlam 70% da imprensa no país) parecem não se preocupar que algumas raízes possam estar entrelaçadas a ponto de dificultarem os cortes.
Não seria mais útil criar manuais? Vejamos... "Cartilha para o bom manifestante", ou quem sabe, "manifeste-se bem, para manifestar sempre". Talvez com as cartilhas os manifestantes possam melhor entender como servir bem para servir sempre. Um conjunto inteiro de cartilhas de etiqueta para protestos! Parece boa a ideia, não? E pode vender! Como manda o figurino.
Estou chegando à conclusão de que é mesmo difícil falar da violência. Parece ser difícil reconhecer violência em atos não “materiais”, estes que não estão ao alcance das mãos mas ainda assim perpassam os corpos. Como, em uma sociedade onde tudo se toca e dá valor (feito moeda de troca), perceber e condenar violências que não atacam bens, produtos e coisas, mas pessoas? Como fazer com que pautas como essas tornem-se fundamentais, para além das obviedades? Afinal, o que é mais violento? Quebrar paredes ou quebrar gente? A comparação parece esdrúxula? Também imaginei que sim, não fosse muita vidraça valer mais do que muita gente por aí.
Vai ser difícil ouvir em noticiários que o senhor que mora na minha calçada é violentado todos os dias. Que no corpo a corpo da pirâmide social todos nós nos violentamos enquanto sustentamos a paz e a boa vida dos 'inocentes do Leblon' como já poetizou Drummond. Que a moça que é estuprada é vítima, e sempre vítima de uma violência física e simbólica mergulhada no machismo nosso de cada dia. Que o Amarildo foi violentado, brutalmente violentado, e que tantos outros como ele também são. Que o diferente e estranho aos padrões de conduta da nossa moral 'partilhada' é violentado na sociedade dos iguais. Que o que escapa à heteronormatividade, ao patriarcado, que não é branco nem puritano, vai ser violentado mais dia menos dia. Que aquela criança que não precisa de gênero para se entender vai ser violentada pela limitação dos que mal se entendem...
Como é difícil ouvir alguém falar da violência urbana cotidiana, da violência do capital, da violência econômica, das segregações sociais, do preconceito, da violência do medo nas cidades.
O discurso de grande parte da nossa imprensa é violento quando desrespeita a comunicação como lugar de conhecimento e transformação do mundo, quando desrespeita grande parte população que raramente se sente representada. Tenho a impressão de que estes discursos produzidos também compõem a própria locomotiva da violência social, da violência do capital, da violência nas ruas, afinal.
Falar sobre a violência não é fazer apologia a ela. Ignorar que a violência existe todos os dias é. Fazer um recorte das manifestações priorizando os tais atos de “vandalismo” também. Talvez seja mais importante reconhecer primeiro a violência do Estado, do descaso dos poderes públicos, da ganância de muitos, da indiferença de tanta gente sobre as milhares de vidas condenadas à (sobre)viver todos os dias. É importante falar dos que morrem de fome e dos que sobrevivem com salários de fome também, porque viver está caro.
É importante, por fim, saber respeitar o rio quando as margens o oprimem demais, trata-se de respeitar uma sociedade que, como pode, está dizendo que como está não dá mais para continuar. Bertold Brecht tem uma frase muito bonita que já foi usada por muita gente de olhares atentos: “Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem” – pois já está na hora de começar a chamar. Por menos vidraças nos noticiários! “Decifra-me ou devoro-te”, é o que eu escuto das ruas.
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*Ana Beatriz Rosa, especial para o NR. É jornalista nômade e poeta praticante. Tem os sentidos voltados para experimentos artísticos e poéticas urbanas. Nas horas nem tão vagas garimpa olhares, palavras e ideias para o Café com Pitanga - um o espaço de comunicação antropofágica. Mora no Rio de Janeiro.
por André Carvalho ilustração Kelvin Koubik "Kino"* Wilson Baptista (1913-1968) deu vida, com versos rabiscados em guardanapos e melodias forjadas no batuque de caixas de fósforo, aos tipos mais caricatos das ruas do Rio de Janeiro. Do malandro mais valente ao trabalhador mais “pelego”, do marido machista à mulher da orgia, do carioca flamenguista ao português vascaíno. Cantou a Lapa, a Mangueira, o Salgueiro. Fez do Bonde 56 o Bonde Alegria, condutor de amores e inspirador de versos musicados. Criou personagens marcantes como Etelvina, Seu Oscar, Chico Brito, Hildebrando, Dona Inês, Emília, Alberto e Nega Luzia. Para celebrar o centenário de um dos grandes nomes da música brasileira, o Nota de Rodapé entrevistou o biógrafo do sambista, Rodrigo Alzuguir, que lançou, no início de julho o livro de partituras “Wilson Baptista – Cancioneiro Comentado”. Em setembro, Alzuguir vai lançar outra publicação sobre o sambista, a biografia “Wilson Baptista – O samba foi sua glória!”. Antes, o produtor cultural, ator, músico e pesquisador já havia produzido o espetáculo musical e o CD duplo que levaram o mesmo nome “O samba carioca de Wilson Baptista”. Alzuguir é imperativo ao afirmar que Baptista, um criador de personagens, foi além da composição, tornando-se um cronista social à frente de seu tempo, autor de aproximadamente 700 letras que viraram canções. Nota de Rodapé - Quando Wilson Baptista morreu, amargava o ostracismo, a despeito de sua genialidade. Por quê?
Rodrigo Alzuguir -Ele morreu em 1968, um ano muito conturbado, de muitos protestos e de uma efervescência política muito grande. Os jornais naquela época só falavam em passeata, revolta, AI-5. Além disso, ele já estava meio esquecido, não chegou a pegar a revitalização do samba que estava começando a acontecer naquela época. Cartola, Nelson Cavaquinho gravaram seus primeiros discos nos anos 70. Se tivessem morrido antes, também teriam chegado com menos força até nós.
NR - Olhando por essa ótica, Noel Rosa é uma exceção, já que morreu muito cedo, ainda nos anos 30, desde então muito celebrado.
RA - Sem dúvida. Ele morreu muito cedo, no auge, e ficou como um mito. E tiveram duas pessoas fundamentais para a memória dele: Aracy de Almeida, que praticamente parou a sua carreira na década de 50 pra ficar gravando Noel, e Almirante, que fez a biografia do Noel, produziu vários programas de rádio e séries sobre ele. Badalou Noel até dizer chega. Noel teve esses dois arautos dedicadíssimos.
NR - E o Wilson não teve alguém que cuidasse de sua obra, seu legado?
RA - Wilson tinha muito orgulho de sua obra, falava com os filhos pra que eles cuidassem daquilo depois que ele morresse. Ele falava que tinha uma “bagagem” muito grande e queria que essas músicas dessem algum retorno, que eles pudessem viver disso. Mas isso nunca ocorreu. A obra dele ficou muito dispersa, inclusive as listagens oficiais, as músicas registradas em editoras, sociedades autorais. As listagens são totalmente incompletas, é uma coisa muito bagunçada. Eles, realmente, não puderam desfrutar disso.
NR - Por que você escolheu o Wilson Baptista para pesquisar? Por que ele dentre tantos outros?
RA - Porque eu acho que ele é o grande injustiçado de sua geração. Foi um dos que mais compôs entre os seus contemporâneos - até agora, levantei em torno de 500 músicas gravadas. Mas, além disso, ele tem uma série de inéditas e vendia muito samba para poder sobreviver (ele vivia de música). Então deve ter chegado a umas 700 músicas compostas. E apesar disso tudo ele era considerado um malandro.
Os próprios amigos dele falam em depoimentos: “Ah, o Wilson nunca trabalhou”. Aí eu fico pensando que é um baita preconceito, né? Porque uma cara que fez 700 músicas, e dizer que nunca trabalhou? É, no mínimo, um preconceito.
NR - E uma obra de extrema qualidade.
RA - Exatamente. Porque ele poderia ter feito 700 músicas medianas. Mas sua obra tem muita qualidade e acho que é até mesmo à frente de seu tempo, tanto em termos musicais, como nas temáticas que ele abordava. O olhar que ele tinha sobre a vida. Ele era um cara muito original pra sua época.
NR - Como você conheceu a obra de Wilson Baptista?
RA - Eu sempre fui apaixonado por essa geração dos anos 30, 40. Acho maravilhoso. Assis Valente, Ari Barroso, Noel Rosa, Ataulfo Alves. E o Wilson era um nome que eu já tinha ouvido falar, mas não conhecia grandes coisas.
Fui conhecer mais seus sambas quando eu fiz o encarte do disco “Ganha-se pouco, mas é divertido”, da Cristina Buarque, em tributo ao Wilson Baptista. Nessa época, em 2000, eu estava trabalhando à beça como designer e fiz a programação visual do Cd. E aí foi um banho de Wilson Baptista. E ela me emprestou bastante coisa, umas fitas do acervo da Collectors. E aí, eu fiquei ouvindo aquilo e vi que ele era realmente especial.
Rodrigo Alzuguir em foto de Jaqueline Machado
NR - E aí te despertou uma atenção especial pelo Wilson Baptista?
RA - É. Aí eu vi que não tinha muita coisa publicada sobre ele. Tinha uma monografia da Funarte (“Wilson Baptista e Sua Época”, de Bruno Ferreira Gomes), e um outro livro, da série “Perfis do Rio” (“Wilson Baptista na corda bamba do samba”, de Luis Fernando Vieira), pouca coisa. Uma introdução ao assunto. Eu achava que merecia um mergulho maior, mas eu não sabia exatamente o que fazer sobre ele.
Então, comecei a pesquisar e reunir todas as gravações que eu pudesse, ouvindo tudo, estudando as letras. Aí eu confirmei minha impressão inicial de que o cara era super moderno e original para época.
NR - Mas você não sabia direito que rumo tomar na pesquisa, né?
RA - O que me despertou mais foi a coisa dos personagens. Ele era um cara que levava isso às últimas consequências. Em “Oh, seu Oscar”, no primeiro verso, já aparecem três personagens: O Seu Oscar chegando em casa, a vizinha que traz o bilhete da esposa, e a esposa. Achei muito teatral isso e queria bolar algo pra teatro.
Depois, fui vendo que a vida dele era muito interessante. E fui entrando em contato com contemporâneos seus que se foram ao longo da pesquisa: Roberto Silva, Jorge Goulart, Dorival Caymmi, Dercy Gonçalves, Emilinha Borba, Roberto Roberti.
Também encontrei a Ceci, do Noel, dançarina de cabaré, que motivou uma espécie de “triângulo amoroso” com o Wilson.
NR - Seria este o tema verdadeiro da “Polêmica”?
RA - O tema verdadeiro foi uma outra dançarina do Cabaré Apolo, antes da Ceci. Essa mulher - o nome dela não ficou registrado - era uma outra dançarina. Noel ficou afim da menina, mas o Wilson chegou antes e ganhou a parada. E o Noel iniciou a “Polêmica”, escrevendo “Rapaz Folgado”, um samba que debochava de um sucesso recente de Wilson, “Lenço no pescoço”.
Depois, o negócio esfriou um pouco e a Ceci apareceu no circuito nesse mesmo cabaré. E ela era de Campos, conterrânea do Wilson. Noel viu ele se aproximar dela e pensou: “Ah, não, de novo, não”. E aí, os ânimos se acirraram um pouco.
NR - Wilson ficou estigmatizado como o “vilão da polêmica com Noel”, para as gerações seguintes?
RA - A “Polêmica” em si trouxe muito mais desvantagem para ele. Porque as pessoas comentam que ele ganhou projeção por conta da “Polêmica”, como se tivesse sido uma coisa boa para a carreira dele. Mas eu acho que foi uma faca de dois gumes, porque trouxe uma certa projeção pra ele, ao passo que ele ficou com um papel de vilão na trajetória de Noel Rosa.
Ele já tinha emplacado um ou dois sucessos antes da “Polêmica” acontecer, e o Noel já era um cartaz, porque ele já tinha bombado com o samba “Com que roupa”, em 1930.
Noel era um jovem talento. De classe média, bem aceito nos jornais, era um artista do rádio. E o Wilson era um cara mais humilde, veio de Campos, era negro, não era um cara que estava acontecendo, que estava na crista da onda.
Quem iniciou a “Polêmica”, na verdade, foi o Noel. O “Lenço no pescoço” não era um samba de provocação a ninguém. Era um samba em que ele retratou um malandro muito bem. E todos os outros sambistas da geração dele já tinham feito samba exaltando malandro, retratando malandro. Inclusive Ari Barroso, Bide e Marçal, todos os caras do Estácio, Sinhô, todos eles, né?
E as pessoas ainda falam que Wilson iniciou a “Polêmica” com Noel. Um absurdo. Noel ficou enciumado com o lance da morena, a dançarina do cabaré, e foi provocar o Wilson. Mas nada além de uma brincadeira entre compositores.
NR - Que talvez tenha ganhado uma proporção maior algum tempo depois. Na época não foi tão falado, não?
RA - Na época ficou como uma piada interna entre os músicos, os frequentadores da Praça Tiradentes, da Lapa, do Café Nice. Não teve a menor repercussão fora dali. As músicas que Wilson fez para Noel nem foram gravadas na época, nem eram pra ser gravadas. Eram piadas, brincadeiras. “Ah, vou responder o fulano”.
O negócio só ganhou forma mesmo, quando o Almirante, nos anos 50, fez a série de rádio sobre o Noel. Era o programa “No tempo de Noel Rosa”, onde ele conta a vida do Noel em capítulos. E um capítulo dessa série fala sobre a “Polêmica”. Então, o Almirante dá uma rearranjada na história, apaga a morena do Cabaré Apolo da história e diz que a motivação do Noel teria sido uma preocupação com os temas poéticos da música brasileira. Mas, na verdade, o Noel era amigo de malandro. Amigo do Baiaco, do Zé Pretinho. Na verdade, aquilo era uma galhofa com o Wilson, não uma crítica à malandragem. Mas para a nossa geração, o Wilson ficou muito associado à “Polêmica”.
Pô, um cara que tem mais de 500 músicas gravadas, um compositor cheio de sucessos, cantado pelos melhores cantores de sua geração, ficar pra gente como “o vilão da polêmica com Noel Rosa” é triste. É uma pena que muita gente só se lembre da “Polêmica”, pois ele é um dos gênios da nossa música. O próprio Paulinho da Viola, uma vez, disse em um programa de televisão: “O Wlison Baptista, pra mim, é o maior sambista brasileiro”.
NR - Voltando a falar sobre a pesquisa que fez para escrever a biografia. Você teve um contato forte com pessoas bem próximas a ele?
RA - Como eu disse, tive a sorte de poder entrevistar pessoas que conviveram bem com ele. Sua irmã, dois de seus filhos, uma ex-companheira, amigos que ele fez nas décadas de 50 e 60. Fora os matusaléns todos que ainda estavam vivos, que citei antes. E fui procurando, também, pesquisadores que já tinham um trabalho sobre o Wilson. O Luis Fernando Viera é um pesquisador que têm entrevistas feitas nos anos 70 com toda essa gente que conviveu com o Wilson e que já havia partido quando eu entrei em campo – como Erasmo Silva, Roberto Martins, Ciro de Souza, Zilda do Zé... Então, eu digitalizei e pude escutar todo esse material, que é fantástico. Luis foi super generoso.
O acervo da Biblioteca Nacional, do Museu da Imagem e do Som, do Instituto Moreira Salles, tudo isso eu vasculhei. E fui procurando as viúvas e os herdeiros dos parceiros dele, que às vezes tinham acervos. Do Ataulfo Alves, do Déo, do Erasmo Silva, do Roberto Martins, que eram grandes amigos e parceiros dele. Um quebra-cabeça, cara, que eu fui montando, e aí já imbuído desse objetivo de escrever a biografia.
Baptista na década de 50 [Arquivo O Cruzeiro]
NR - À princípio, você teve a ideia de fazer o teatro e aí veio a ideia da biografia? Como foi isso?
RA - Inicialmente, eu comecei a pesquisar sem nenhum objetivo, encantado com essa história dos personagens. Aí logo veio essa vontade de fazer a biografia. Achei que era o que eu podia deixar de mais legal, de fruto mais proveitoso, de toda essa pesquisa.
NR - E já faz pelo menos uma década que você já está pesquisando para preparar essa biografia...
RA - Exatamente. E aí, em paralelo a isso, fui encontrando parceiros que trabalham nessa área de projetos culturais e a gente foi colocando em editais algumas derivações dessa pesquisa. O espetáculo, o CD, o songbook. E acabou que essas coisas foram acontecendo antes da biografia ficar pronta. E até, nesses momentos, tive que abandonar um pouco o texto e caí dentro dos projetos, pra eles rolarem. Mas foi bacana porque me trouxe um aprofundamento ainda maior, porque escrevi o texto da peça, cantei o repertório com a Claudinha (Ventura), minha parceira no espetáculo. Então, você vai ficando cada vez mais à vontade dentro daquele universo né?
NR - E o que veio primeiro? A peça ou o CD?
RA - Primeiro veio a peça. E foi bacana porque rolou uma sincronia perfeita. A peça veio através do FATE, o Fundo de Apoio ao Teatro da prefeitura do Rio, que nos deu o patrocínio. Logo depois veio um suporte da Petrobrás para a produção do CD duplo (“O samba carioca de Wilson Baptista”, mesmo nome do espetáculo).
E aí, como a gente estava com tudo organizado, com os arranjos do Roberto Gnattali e do Nando Duarte ensaiadíssimos para a peça, pensamos: “vamos fazer um dos CDs com a trilha da peça, cantados por mim e pela Claudinha, e o outro com repertório raro, inédito, cantado por convidados como Elza Soares, Marcos Sacramento, Céu, Mart ´nália, Cristina Buarque, Rosa Passos...” Os sambas mais desconhecidos com intérpretes conhecidos e o registro da peça. Eu acho que funcionou bem, ficou bem abrangente.
NR - E esses trabalhos todos têm um projeto gráfico comum?
RA - É. Porque como essas coisas a gente faz com pouca grana, eu acabei fazendo a programação visual do CD e do espetáculo. E aí a gente vai aproveitando as ideias e criando uma certa unidade.
NR - E agora, está saindo o livro das partituras.
RA - Aí, a gente conseguiu, através de outro edital, o FAM, que é ligado a música, fazer o songbook, que acabou de ficar pronto. São 105 músicas, tem um perfil biográfico que eu escrevi, uma apresentação do Sérgio Cabral, fotos raras. É um apanhado bem abrangente da obra dele e a gente fez num formato voltado pra músico mesmo – tentamos colocar uma música por página, em um formato de fácil manuseio.
Acho que o Wilson teria o maior orgulho desse trabalho, porque ele falava muito da “bagagem” dele, do seu legado. Então, acho que de todos os projetos, este é o que ele ficaria mais feliz de ver na rua.
Eu dei uma organizada no material dele. Muitas dessas músicas nunca tinham sido editadas. Ou foram editadas só nos anos 40 e nunca mais. Então, foi muito legal.
NR - E como foi a questão da organização das partituras? Como foi o contato com as editoras, para liberação dos direitos autorais, etc?
RA - O Wilson editou em umas seis ou sete editoras diferentes. E encontrei um super parceiro nesse trabalho, que foi Fernando Vitale, da editora Irmãos Vitale. E o Wilson tinha muito samba editado na Vitale. Então, Fernando fez esse meio de campo com as editoras. A nossa parceria com a Vitale foi fundamental.
NR - E esses trabalhos te deram muita base pra aprofundar a pesquisa na biografia, não é?
RA - Eu sou músico. Toco, canto e conheço muito bem o repertório dele. Então, não sou só um cara que tá escrevendo e ouvindo, mas musicalmente não sabe justificar o que está acontecendo ali. Eu tenho formação de músico, e isso facilita. Dá um olhar um pouco diferente sobre o assunto, uma propriedade pra falar. Daí quando vou escrever um trecho que está na peça ou que saiu no encarte do CD, aquilo já está digerido, fica mais fácil.
Acho que foi um processo abençoado. Qualquer um desses produtos que tivesse saído, eu já estaria feliz de ter conseguido fazer. E a gente conseguiu fazer um “combo” de biografia, songbook, espetáculo e CD.
O Wilson era um segredo que estava ali, gritando pra aparecer. O nome dele tem uma fagulha e a parada aconteceu.
NR - Conte mais sobre o processo de pesquisa da biografia.
RA - Eu dei sorte porque tinham algumas pessoas bem interessantes vivas quando eu comecei a pesquisar. O Jorge Goulart era uma fonte maravilhosa, o Roberto Silva, o Caymmi, a Ceci. E também tive a sorte de ter acesso àquele material de entrevistas do Luis Fernando Vieira. Aí pude ter acesso a entrevistas com a maioria dos parceiros do Wilson. O próprio Luis Fernando gostava muito do Geraldo Pereira, do Wilson, e perguntava muito sobre eles para os entrevistados. Então era um material bem precioso.
Além disso, encontrei uma irmã do Wilson, a Dona Yolanda, e uma companheira dele, Alverinda. E cheguei a fazer uma entrevista bem legal com uma filha do Wilson, a Marilza, que tinha 50 anos, mais ou menos, e nunca tinha sido entrevistada. Passou um lado mais pessoal do Wilson. E também falei com um filho caçula dele, Vílson, com “V”, que era um figuraça. Foi uma entrevista muito legal, um contato bacana porque ele me ajudou muito nessas investigações nas editoras, quando eu precisava de uma entrada mais oficial da família pra saber de alguma informação. Eles dois faleceram, não chegaram a ver os projetos acontecendo. A peça eu dediquei ao Vílson, o caçula, que era o maior fã do pai. Então, eu tive essa sorte de encontrar essas figuras-chave.
Eu acho que eu consegui mapear bem a vida do Wilson. Claro que tem trechos da vida dele que são difíceis de investigar, ainda mais ele que não deixava muita pegada, não deixou grandes entrevistas, entrevistas longas. Então, realmente tem coisas que eu até intuo, mas não sei realmente o que aconteceu.
NR - E ele teve uma fase mais reclusa, né? O final da vida dele, que ele já estava afastado da vida artística. Como foi essa época?
RA - Dessa época, eu consegui encontrar bastante gente para entrevistar, porque ele era um cara muito generoso com o pessoal mais novo que ele. Então, tinha muita gente que estava começando naquela época.
Ele estava mais recluso porque estava esquecido. E também estava muito amargo, revoltado. Porque, da geração dele, todos acabaram migrando para cargos burocráticos nas sociedades de autores, compondo num ritmo menor. Wilson não. E foi ficando pra trás.
Ele foi ficando na pior, porque não era mais gravado, não era mais badalado. E passou a ter problemas de saúde, porque ele tinha o coração aumentado. Cardiomiopatia dilatada, eles chamam de “coração de boi”. Tinha falta de ar, taquicardia, náuseas. Estava sem grana, preocupado com o aluguel. Aquelas coisas do Brasil, problemas da vida prática. E aí foi ficando mais recluso.
NR - E como foram as pesquisas em arquivos, jornais, revistas e institutos?
RA - Tem uma ferramenta da Biblioteca Nacional do Rio, que eu acho que vai revolucionar a pesquisa no Brasil. Era uma coisa que eu sonhava que um dia fosse existir: a Hemeroteca Digital Brasileira. É um site da Biblioteca Nacional que tem 700 coleções de jornais e revistas. E dá pra pesquisar por palavra-chave. Antes disso, passei séculos mergulhado nos microfilmes da seção de periódicos da Biblioteca, no centro da cidade.
NR - Ele ficou estigmatizado com a pecha de malandro? Por quê?
RA - Se você for fazer uma estatística da obra dele, tem pouco samba que fala de malandragem. Na verdade, eles sobressaíram porque eram muito bons e faziam muito sucesso.
NR - E quanto ao samba “O Bonde de São Januário”, feito com Ataulfo Alves, em que ele exalta o trabalho e que ficou como um marco dessa virada na temática, antes focada na malandragem e agora na exaltação ao trabalho, por conta da pressão do DIP, do Estado Novo, de Getúlio Vargas. Como você vê isso?
RA - Isso foi uma onda que aconteceu pra todos os compositores. No carnaval de 40, aconteceu um baita festival, chamado “Noite da música popular”, com uma premiação de 50 contos para os vencedores. Foi um escândalo, porque era muita grana. Foi patrocinado pelo Estado Novo, o festival. E quem ganhou em primeiro lugar, entre os sambas, foi “Oh Seu Oscar”, de Wilson e Ataulfo. Então acho que isso gerou uma expectativa para o ano seguinte.
No ano seguinte, os compositores ficaram meio que alvoroçados com esta possibilidade de ganhar uma grana com o concurso do Estado Novo.
NR - Era o concurso do carnaval?
RA - Exatamente. Eram eleitos o melhor samba e a melhor marcha. Foi o primeiro e maior festival patrocinado pelo DIP, criado alguns meses antes. Aí, acho que todo mundo ali ficou vendo a oportunidade de fazer o filme com Getúlio, de repente ganhar o concurso de carnaval. Então, todo mundo se alinhou a essa política, da exaltação do trabalho. Mas foi uma coisa curta. Isso não era uma marca do Wilson.
NR - E qual era a marca do Wilson?
RA - A originalidade do Wilson é marcante. Ele tem uma coisa muito forte com personagens. Você encontra personagens na obra de muita gente, né? Mas, na obra do Wilson, isso é levado às últimas consequências. Você tem sambas que são quase minioperetas.
Aracy de Almeida foi a que mais gravou Baptista
NR - O Cabo Laurindo foi um personagem inventado por ele?
RA - O Cabo Laurindo foi inventado pelo Noel, no samba “Triste cuíca”. Depois desse samba do Noel, vários compositores pegaram esse personagem. E o Wilson foi quem mais levou adiante essa história, com uns quatro ou cinco sambas. Tem a Etelvina, personagem que aparece em vários sambas. São muitos sambas teatrais. Ele usava os personagens várias vezes. Às vezes não com o mesmo nome, mas o mesmo “tipo”.
NR - São crônicas sociais, né?
RA - Exatamente. Outra coisa que eu acho muito forte nele: ele foi um dos primeiros a fazer samba pra mulher cantar, na primeira pessoa. Nos anos 40, fazia muito pra Aracy de Almeida, pra Odete Amaral. E são mulheres das mais libertárias. Não é feito de maneira machista. Um cacoete da época é a mulher reclamar do marido, reclamar do malandro. Então era muito comum. Mas as mulheres do Wilson eram mulheres muito à frente do tempo.
NR - Elas iam para orgia...
RA - É! Largam o marido pra pular carnaval. E aí, depois, a sandália estragava de tanto que ela sambava. Tem o samba “Boca de Siri”, em que ela narra a farra dela toda no carnaval, e depois pede pra ninguém contar para o marido. São mulheres meio “Leila Diniz”. Acho essa coisa da mulher muito forte nele também.
NR - Apesar de ter composto “Emília”, que é lembrado até hoje como um samba machista, não é mesmo?
RA - Pois é. Mas se você for ver em quantidade, ele tem muito mais samba em que a mulher é retratada com muita liberdade. Tem o samba “Chinelo velho”, em que a mulher não tá nem aí se o cara vai embora. Então isso é muito raro pra época.
NR - Ele foi um precursor nessa temática?
RA - Eu acho. Essa mulher é da geração da minha avó, a mulher não se separava. Ela ficava em casa presa ao marido e às tarefas do lar. Imagina a mulher roubar dinheiro pra pular carnaval? Depois pedir pra ninguém contar? Era muito engraçado, eu acho demais.
Outra coisa que eu acho muito interessante nele, apesar dele ser considerado o maior sambista por Paulinho da Viola e outras pessoas, ele remava contra a maré de vários clichês do samba. Por exemplo, religiosidade. Que é um tema muito caro ao samba, né? Sambas do Dorival, que falam do Senhor do Bonfim, do Ary Barroso, falando da Igreja da Penha, os padroeiros, os orixás... E o Wilson era avesso a qualquer ritual religioso, ele não tinha a menor ligação ao tema.
NR - Para a nova geração, que está descobrindo o samba e quer conhecer mais os compositores, os grandes intérpretes, por que conhecer o Wilson Baptista?
RA - Por conta dessa originalidade dele como compositor. No campo musical, ele era um compositor que tinha umas soluções de harmonia arrojadas e, ao mesmo tempo, simples, intuitivas. A geração dele, do Geraldo Pereira, trouxe uma coisa de síncope para o samba, um samba mais de bossa, despreocupado com métrica, com rima, um samba um pouquinho mais livre. Que é um samba que as pessoas dançam na gafieira e adoram, porque é cheio de síncope, é bem propício para aqueles passos. Então, musicalmente, eu acho que é um cara muito interessante.
E tudo que eu falei dessa originalidade, desse olhar. Um olhar muito livre de preconceito e livre de sentimentalismo barato. Ele era um cara que não fazia melodrama. As músicas dele têm humor, são criativas, têm originalidade.
NR - E tem questão social, também, não é?
RA - Algumas pessoas se referiam a ele como sambista “filósofo”. Ele dizia que as músicas tinham que ser fortes. Que cada música era um veículo do pensamento. Você consegue extrair das músicas dele um pensamento bacana. Por exemplo, no samba “Chico Brito”, ele afirma: “Se o homem nasceu bom e bom não se conservou, a culpa é da sociedade que o transformou”. Ele era um cara que tirava onda, botava um pensamento de Rousseau no samba.
Era um cara muito à frente do tempo. Acho que se não tivesse a censura do DIP, ele teria ido além. O samba “Lealdade”, também retrata uma relação super moderna. Vamos ficar juntos enquanto cada um gosta do outro. Se você não gostar mais de mim, sinta-se livre para ir embora. Naquela época, as relações eram super hipócritas, os casamentos infelizes se arrastavam até o fim. Ele era avançado mesmo!
Seleção de músicas para celebrar Baptista:
*André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba. Ilustração de Kelvin Koubik, "Kino", colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre
Imagens que remetam a "obscenas" políticas, econômicas e sociais é, a partir de hoje, mais um pitaco do NR nas redes sociais e por aqui. Acompanhe conforme a demanda permitir. Se tiver sugestão escreva pra contatonotaderodape@gmail.com
No olho roxo da imprensa, eu chorei. Porque o povo Pinheirinho que lutou lutou lutou morreu na praia e isso me dói demais. A mulher branca da televisão não tem sotaque nenhum e ela não nos representa. Agora favorável? A liberdade do Jabor me violentou: uma retumbante palavra malfeita. A desculpa lhe esfarrapou a própria cara. Passarálho! Acabou-se o monólogo. Dramaturgo ultrapassado!
No morro carioca o bilhete na porta do barraco diz “Por favor, seu policial, não invada a minha casa. A chave está na vizinha, a dona Chiquinha. Entre, sem bater.”.Ué, a favela pacificada não é graça e bunda preta!? Não, a humilhação está na UPP mais próxima de você. Salve, Jorge!
Não foi na desmemória da ditadura que pegou fogo a vila Liberdade em Porto Alegre. Desapropriação geral em nome da paixão nacional! Meu país, minha vida! Dilma, me dá um vale a pena!! Se o Brasil acordou hoje eu morri ontem, que nem o índio Terena do Mato Grosso do Sul com o grito seco na garganta: matança!
*Ana Mendes, gaúcha de nascimento, é fotógrafa e cineasta documental formada em Ciências Sociais. Mantém a coluna Faço Foto.
por André Carvalho ilustração Kelvin koubik "Kino"*
Eram embarcações repletas de negros que aportavam no Rio de Janeiro. Porém, ao contrário daqueles tristes tempos em que os navios que lá chegavam eram negreiros, estes traziam a bandeira branca de Oxalá. Era o sinal para avisar que mais uma leva de baianos forros desembarcaria na Baía de Guanabara.
O destino principal era o bairro da Saúde, próximo ao cais, onde muitos ex-escravos tornariam-se estivadores. Morando em cortiços e em outras instalações coletivas, não demoraria muito para o grande volume de africanos e afrodescendentes incomodar a elite branca higienista. Então, no alvorecer do século XX, o prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos, promove uma grande reforma urbana, demolindo as habitações onde os negros haviam se instalado, ao chegar da Bahia.
Retirados de lá à força, passariam a ocupar os morros próximos, dando início à criação das primeiras favelas. Outros se retiraram para o subúrbio, morando próximo às estações de trem que se espalhavam pela cidade. Muitos, porém, residiriam em um espaço que viria a ser conhecido por Pequena África – nome dado por Heitor dos Prazeres –, que partia das margens do Campo de Santana e se estendia até a Cidade Nova, terminando nos limites do bairro do Estácio de Sá. Era lá que ficava a Praça Onze de Junho, reduto de celebrações carnavalescas e local onde se estabeleceram as tias baianas, que fariam história com suas festas religiosas e pagãs, de candomblé e samba. Foi lá que brincaram, cantaram e criaram ricas páginas do nosso cancioneiro os integrantes da primeira geração do samba carioca.
Quituteiras, mães de santo, foram articuladoras de uma sociedade – que se valia do matriarcalismo, herança direta africana – configurada às margens da “civilização” proposta pelas elites. As tias baianas eram lideranças sociais de uma comunidade que buscava se afirmar em uma nova cidade, uma nova civilização e uma nova era, onde os ex-escravos almejavam, finalmente, uma integração social que lhes foi negada desde o dia em que desembarcaram dos navios negreiros no território brasileiro. Em suas casas, configuraram-se espaços de aconchego, participação, luta e festa.
Para aqueles que chegavam à Pequena África, a primeira parada era, ou na casa da Tia Sadata, ou na casa da Tia Davina, verdadeiras embaixadoras da comunidade negra baiana no Rio de Janeiro. Elas ajudavam os recém-chegados a encontrar moradia e trabalho, dando guarida a eles enquanto as oportunidades não apareciam. Havia muitas outras: Tia Perciliana (mãe de João da Baiana, que traz no nome a ligação a sua genitora), Tia Amélia (mãe de Donga), Tia Celeste (mãe de Heitor dos Prazeres), Tia Bebiana (a passagem dos ranchos e dos cordões carnavalescos sob a janela de sua casa, na Praça Onze, era obrigatória), Tia Mônica, Tia Perpétua, Tia Veridiana, Tia Dadá (onde o compositor Caninha afirmava ter ouvido samba pela primeira vez).
Uma delas, no entanto, se destacou pelo grande poder de integração sociocultural, registrando o nome, para sempre, na história do samba: Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata.
Nascida na capital baiana em 1854, migra para o Rio de Janeiro aos 22 anos de idade. Quituteira, monta seu tabuleiro na rua, mas é em sua casa que as coisas acontecem. O endereço, que depois entraria para história da música popular brasileira, é Rua Visconde de Itaúna, 177, Praça Onze, “Pequena África”, Rio de Janeiro.
Iniciada no candomblé no terreiro de João Abalá, Tia Ciata torna-se Iyá Kekerê, Mãe-Pequena, adquirindo, assim, grande respeito e influência na comunidade baiana local. Em sua casa, os cultos misturavam-se com as festas profanas. Também ali, era um espaço comunitário de trabalho. Os quitutes e doces, primeiramente oferecidos aos orixás, eram vendidos para fora. Tia Ciata também era exímia costureira e fabricava fantasias que as elites da Zona Sul alugavam para brincar o carnaval.
Casada com João Batista da Silva, consegue para ele um emprego de funcionário público de forma um tanto inusitada: curou uma doença grave na perna do então Presidente da República Wenceslau Brás, fazendo um trabalho a base de ervas e reza. A recompensa foi um cargo no gabinete de chefe de polícia para seu marido.
Muito por conta do cargo de João Batista, as constantes batidas policiais, que afligiam a vida dos negros, que sequer podiam se reunir para praticar os cultos e cantar o samba, passavam ao largo daquele espaço de celebração negra. As festas na casa da Tia Ciata duravam três dias. As panelas, sempre cheias, eram constantemente requentadas. A música envolvia a todos e, em cada espaço da casa, um ritmo predominava, obedecendo a uma reprodução sociocultural dos participantes das festas.
Na sala de estar, os mais velhos e bem-sucedidos praticavam o partido alto e o choro. O samba corrido, tocado pelos mais jovens, tinha espaço na sala de jantar, ao passo que a capoeira e a pernada ocorriam nas rodas de batucada no terreiro do quintal.
Eram bambas aqueles que frequentavam o local: Donga, Pixinguinha, João da Baiana, Heitor dos Prazeres, Caninha, Sinhô, Marinho que Toca (pai de Getulio Marinho), João da Mata, Didi da Gracinda, Hilário, João Cancio, Getúlio da Praia, Oscar Maia, Alfredinho, Tisco, Germano e Getúlio Marinho batiam cartão por lá. Os “distintos” Manuel Bandeira, Mario de Andrade, Mauro de Almeida e João do Rio também não perdiam as grandiosas festas que ocorriam ali.
Destes encontros musicais, nasceu o samba Pelo Telefone, o primeiro gravado sob o nome de samba na incipiente fonografia brasileira. Criado de forma coletiva, a música foi registrada, ardilosamente, pelo sambista Ernesto dos Santos, o Donga, como único autor – ele recolheu os estribilhos, adaptou e inseriu a letra de Mauro de Almeida na composição (que apareceu como parceiro nas gravações posteriores), uma das mais emblemáticas da história de nossa música.
A polêmica sobre a real autoria da composição rendeu debates acirrados, paródias e sérias acusações. Fato é que a música segue popular quase cem anos após a sua criação.
Em 1924, Dona Hilária Batista de Almeida, a Ciata de Oxum, parte para o Reino de Aruanda. Não se escutariam mais os pandeiros, cavacos, violões e atabaques naquele logradouro histórico. Pouco depois, uma nova geração, baseada no bairro do Estácio de Sá, revolucionaria a música popular urbana carioca, dando nova roupagem ao ritmo nascente que seria batizado como samba. Era a segunda geração de sambistas do Rio, cujos principais nomes seriam Bide, Baiaco, Mano Rubens, Mano Edgar, Marcelino, Ismael Silva, Nilton Bastos, entre outros “valentes”. Mas isto é história para outra crônica. Escute três versões de "Pelo Telefone". A primeira versão com letra, de 1917 (interpretada por Bahiano), a gravação de Zé da Zilda (de 1938) e, finalmente, o registro de Martinho da Vila, de 1973" Para saber mais, acesse a bibliografia que preparamos para você.
*André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba. Ilustração de Kelvin Koubik, "Kino", colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre
Líamos muito na Faculdade de Comunicação escritos dos anos acho que 30 de Walter Benjamin – ou talvez de Bertold Brecht, ou mais provavelmente dos dois, agorinha não estou me lembrando bem – sobre o advento do rádio e tudo o que dele derivava de bom, de ruim e sobretudo de neutro.
E então ouvíamos de nossos bons professores, para em seguida reproduzirmos alegres e doutos pelos corredores, que bastava trocar, naqueles textos, a palavra “rádio” por “televisão” – ou mais modernosamente ainda por “internet” – e estaríamos diante de análises atualíssimas, como se os próprios campeões do passado tivessem voltado da tumba e acabado de re-redigi-las. E como se rádio fosse assim coisa de um passado longínquo, muitíssimo remoto.
O que – oh lástima! – jamais chegamos a ler por recomendação acadêmica foram as preciosas e mais ainda antigas crônicas, dos anos 00 e 10 do Novecentos, do arguto e perspicaz João do Rio. Mas não me atrevo a julgar meus mestres; limito-me, antes, a afirmar que nunca é tarde: agora que me vem sendo facultada essa inverossímil condição de professor universitário, vejo a meu alcance corrigir tal clamorosa lacuna. Atrevo-me então a sugerir de saída uma contribuição de João a esse precioso acervo de pensatas as quais, substituindo-se uma palavrinha, conservam intacta a análise.
“Gente às janelas” é o título da crônica, compilada no volume “Os dias passam…”, de 1912.
Pois qual rádio, qual nada! Já pelo título se percebe que está em causa invenção bem mais antiga, seguramente milenar. Conta-nos o narrador que, ciceroneando um estrangeiro que visitava o Rio de Janeiro pós-imperial, ouvira-o comentar que lhe impressionava a espantosa quantidade de gente debruçada às janelas que via ao longo do passeio de carro que faziam. Acaso estariam à espera de alguma procissão?, indagava o homem. “Porque está toda a gente sempre à janela e às portas, dando conta do que se passa na rua…”
Bem surpreso com a observação do viajante, mas sem querer transparecer que ignorasse tal evidentíssimo traço distintivo do povo carioca – do brasileiro – , nosso narrador banca que, de fato, nossa gente tem mesmo esse “defeito” – é “janeleira”. E mete-se então a improvisar canastríssima explicação para cujo “costume original” – da qual transcrevo-lhes a seguir os principais trechos:
“Sim. O carioca vive à janela. Você tem razão. Não é uma certa classe, são todas as classes. Já em tempos tive vontade de escrever um livro notável sobre o “lugar da janela na civilização carioca”, e então passeei a cidade com a preocupação da janela. É de assustar…”
Fornecida a premissa, prossegue com a enumeração de algumas evidências empíricas de caráter mais geral:
“À janela brincam as crianças, à janela compram-se coisas, à janela espera-se o namorado, à janela namora-se, salta-se, ama-se, come-se, veste-se, e dá-se conta da vida alheia, e não se faz nada. Principalmente não se faz nada…”
Logo, aluno da boa retórica, depreende conclusão geral a partir de observação recortada:
“Ali tem uma senhora idosa, atentamente olhando. Já não vê; já nada no mundo a pode interessar. Está ali por estar, porque vendo muita gente é que melhor se isola uma pessoa. Olha, não vê, e está à janela, sempre à janela, porque a janela é a escápula do lar sem dele sair, é o conduto da rua sem seus perigos, é o óculo de alcance para a vida alheia, é a facilidade, a economia, o namoro, o amor, o relaxamento, o fundamental relaxamento…”
Até concluir, menos científico que cheio de brilhante lucidez (como Benjamin, como Brecht):
“Há tanta gente à janela, porque, realmente, sem o saber, um instinto vago lhes diz que vem aí o péstito ou a procissão. Apenas não sabem qual é o préstito. Não saber, e ficar, e não ver, e continuar, e continuar, é o que se chama esperança. Nós somos o povo mais cheio de esperança da terra – porque vivemos à janela.”
Vocês me desculpem, mas aí, a esse ponto, não me contenho e acrescento irresponsavelmente à História um fato que, se não corresponder à verdade, bem que poderia: Roberto Marinho leu certa feita essa crônica de João do Rio, substituiu “janela” pela palavrinha mágica – “televisão” – e gritou eureka! pelado no meio do banho: acabara de descobrir que não haveria território mais fértil do que o Rio de Janeiro para iniciar seu império global; e que não haveria povo mais propício à conquista do que esse nosso esperançoso povo brasileiro.
Consolidados os domínios de cujo império – em 2011, 96% dos lares do Brasil já haviam sido conquistados – , trocar hoje em dia “janela” por “internet” é só questão de atualizar a tecnologia.
Enfim: bem mais sorte que nós teve João do Rio, que, crítico contumaz do ritmo acelerado dessa vida urbana e exímio escarafunchador do universo da rua que era, não viveu para ver no que esse progresso todo deu.
*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.
Acontece que ele era baiano. Da Bahia, da praia de Itapuã, de Maracangalha, da lagoa escura do Abaeté, da ladeira do Bonfim, dos balangandãs e do samba que quando se canta todo mundo bole. Dorival Caymmi, que, a despeito do grande talento com tintas e pincéis – era um exímio pintor –, entrou para história da cultura brasileira como um dos mais geniais compositores do século XX. Criador de uma obra única, sem antecedentes nem sucessores, cantou, tocou – com seu violão – e registou, para a eternidade, o cancioneiro da Bahia.
Suas músicas são atemporais. Verdadeiras pérolas, que parecem brotadas da terra, ou trazidas à terra pelo sopro dos ventos que conduzem as embarcações no mar. Expressões divinas, lapidadas pela paciência dolente de um ourives das melodias e palavras, porta-voz de um lugar, uma época, um viver, que só a Bahia tem.
Caymmi observava a vida pelas janelas, tinha a sensibilidade para criar, sem pressa, em forma de música, cenas cotidianas que o cativavam – e compunha letra e melodia, de uma vez, sem necessidade do acompanhamento do violão. Demorava anos, às vezes décadas, para terminar as composições. Quando deixou a Bahia, e se mudou para o Rio de Janeiro, levou um caderno cheio de músicas iniciadas, que foram concluídas sob o sopro de outros mares, das águas da Guanabara.
Tinha por convicção que a verdadeira música popular era aquela feita para os garis, os pedreiros, as lavadeiras e os pescadores cantarem. Seu sonho era criar canções que se incorporassem ao imaginário, ao folclore popular dos brasileiros. Considerando que a expressão “quem não gosta de samba, bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou doente do pé” virou ditado popular, e que suas canções praieiras se incorporam ao cancioneiro do povo brasileiro, pode se dizer que Caymmi alcançou seu objetivo.
Além das canções praieiras, que distinguem o compositor de todos os outros criadores de melodias e versos da história da música popular brasileira, a obra caymmiana possui outras três vertentes: os temas baseados no folclore, os sambas “sacudidos, corridinhos, mexidinhos” (como ele os definia) – influenciados pelo samba de roda local –, e os sambas-canções, urbanos, cariocas.
Suas influências são os sons que vinham das ruas soteropolitanas, a nascente música popular – que tinha em Sinhô, nos anos 20, seu máximo expoente –, além de compositores como Debussy, Fauré, Mozart, Bach e Gershwin. Atento às expressões do folclore, nutriu-se também da literatura de Drummond, Neruda, Bandeira e daquele que viria a ser um de seus grandes amigos, Jorge Amado.
grandes amigos: Jorge Amado e Caymmi
Desse balaio de influências e vivências, o que o marcou, de forma indelével, foi o mar. De fato, em sua obra, são muito celebradas as canções praieiras, clássicos absolutos de nossa música. Composições como ”O mar”, “É doce morrer no mar”, “Quem vem pra beira do mar”, “A jangada voltou só” e “Saudade de Itapoã” são sempre lembradas quando falamos de Caymmi. Seus sambas, no entanto, merecem uma análise à parte. Influenciados pelo samba de roda, vertente baiana do gênero que se espalhou pelo Brasil e ganhou cores particulares em cada pedaço de nosso país, Caymmi criou um samba só dele. Sacudido. Corridinho. Mexidinho. “Quando se canta, todo mundo bole”
Dorival Caymmi brinca com as palavras, encaixando-as nas melodias de forma buliçosa, dando um andamento “corridinho” aos sambas que fez. “Quando você se requebrar, caia por cima de mim, caia por cima de mim, caia por cima de mim”. Diferente do uso constante da síncope, que caracteriza o samba carioca, o samba baiano, que o compositor se nutriu, é o samba de mote e glosa, com estribilhos fortes, que pedem resposta do côro. “Lá tem vatapá. Então vá! Lá tem caruru. Então vá! Lá tem munguzá. Então vá! Se quiser sambar. Então vá!”
Quando chegou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em 1938, Caymmi já havia desenvolvido muitos de seus sambas. Chegou para fazer história, ingressando, com destaque, na Era de Ouro da música brasileira, iniciada em 1929 e que perduraria até 1945. Trouxe, de Salvador, um violão embrulhado, escondido – não queria se passar por malandro (naquela época, era crime de vadiagem tocar violão pelas calçadas da então Capital Federal).
Mas, em seu quarto de pensão, primeiro lar em terras cariocas, longe de tudo e de todos, seguia criando melodias. Fazia seus acordes dissonantes, que gostava de criar, com os sons que, segundo ele, lembravam os toques de berimbau das ruas da Bahia de São Salvador. Não demoraria muito, entretanto, para entrar no meio artístico.
E a entrada não poderia ter sido melhor: com o sucesso estrondoso de “O que é que a baiana tem?”, que ganhou o Brasil (e depois, os Estados Unidos) na voz de Carmen Miranda. Um detalhe importante: a partir daí, Carmen não abandonaria mais os balangandãs, o torço de seda, os brincos de ouro, o pano da Costa, a saia engomada e as sandálias enfeitadas.
Cantando suas próprias canções, originais na estética e no conteúdo, e dispensando orquestras e conjuntos regionais, valendo-se apenas de seu violão, o compositor baiano seguia criando, sem pressa e com a paciência que sempre o acompanhou, novas peças. Muitos sambas “sacudidos” vieram, quase sempre lembrando – na letra – o requebrar, o balançar, o remelexo, o bolir das baianas, que seguiam presentes em seu imaginário.
Do requebrado da nega, da baiana, da moreninha da sandália do pompom grená, surgiram clássicos. Este requebrar, presente nas letras, também são sentidos nas melodias “corridinhas”.
“É no mexido, é no descanso, é no balanço É no jeitinho requebrado que essa nega tem Que todo mundo fica enfeitiçado E atrás do dengo dessa nega todo mundo vem” (O dengo que a nega tem)
“Quando você se requebrar caia por cima de mim” (O que é que a baiana tem)
“Acontece que eu sou baiano, acontece que ela não é Mas, tem um requebrado pro lado Minha Nossa Senhora Meu Senhor São José Tem um requebrado pro lado Minha Nossa Senhora E ninguém sabe o que é” (Acontece que eu sou baiano)
“Requebre que eu dou um doce Requebre que eu quero ver Requebre, meu bem, que eu trouxe Um chinelo pra você, ai Pra você requebrar Moreninha da sandália do pompom grená” (Requebre que eu dou um doce)
Mexer as cadeiras, bolir, sambar. Quem escuta os sambas de Caymmi, não consegue ficar parado.
"Ela mexe com as cadeiras pra cá Ela mexe com as cadeiras pra lá
Ele mexe com o juízo Do homem que vai trabalhar" (A vizinha do lado)
“Samba da minha terra deixa a gente mole Quando se canta todo mundo bole Quando se canta todo mundo bole” (O samba da minha terra)
“Não vou porque não posso resistir à tentação Se ela sambar, eu vou sofrer Esse diabo sambando é mais mulher E se eu deixar ela faz o que bem quer” (Lá vem a baiana)
Há, ainda, outras páginas de ouro do livro do samba brasileiro escritos pelas mãos do genial compositor baiano, como “O vestido de bolero”, “Maracangalha”, “Vatapá”, “365 igrejas”, “Eu não tenho onde morar” e “Você já foi a Bahia?”
Caymmi é mar, areia, vento e embarcações. É Itapuã, Maracangalha, Bonfim e Abaeté. É Bahia. Caymmi é folclore brasileiro. É Copacabana. É violão. É Rio de janeiro. É Brasil. Caymmi também é samba. Sacudido, corridinho e mexidinho. Samba da nossa terra.
Escute os sambas de Caymmi:
*André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba. Ilustração de Kelvin Koubik, colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre
Morei em Niterói aos quatorze anos de idade. A cidade era então capital do estado do Rio de Janeiro. Portanto estamos falando de muito tempo atrás. Precisamente 1970. Pois bem, nessa época eu era apaixonada por teatro. Queria subir no palco de qualquer maneira.
O Teatro Municipal de Niterói havia organizado um curso para pretendentes a atores. Foi muito bom, pois me fez desistir da coisa toda. Durante o curso ficou evidente minha falta de talento. Do mínimo talento. Na avaliação final, o professor gentilmente explicou que me faltavam: postura no palco, boa dicção, soltura do espírito.
Engraçado que essa passagem da minha vida se encontrava no quarto dos fundos da memória. A faísca que fez ela saltar para a sala de visitas foi o incêndio medonho da Boate Kiss na gaúcha Santa Maria. Esse que matou 235 garotos e garotas na casa dos vinte.
Antes que a leitora ou leitor conclua que estou variando, explico. Uma tarde a caminho do curso no Teatro Municipal dei de cara com uma moça de rosto desfigurado. Na minha lembrança, faltava-lhe o nariz. O resto era uma máscara esculpida pelo fogo.
Senti um choque de altos volts.
Ao chegar no Teatro comentei o que havia visto. O professor, o mesmo que revelaria a minha falta de talento, disse que provavelmente a moça seria uma vítima do incêndio do circo, ocorrido nove anos antes. Acrescentou que centenas de pessoas ficaram deformadas pelas queimaduras.
A história do incêndio é esta: 17 de dezembro de 1961. Um domingo de verão escaldante que atraiu perto de três mil pessoas para a matinê do Gran Circo Norte-Americano (que de gringo só tinha o nome). Não precisa dizer que a maioria dos espectadores eram crianças.
Num número de trapézio, de repente, o fogo surgiu debaixo da lona e numa velocidade furiosa subiu, subiu. Pânico! Como não havia saídas de emergência (surpresa?) e a lona era de material altamente inflamável (surpresa?), o Gran Circo se transformou numa ratoeira incandescente.
Total oficial: 503 mortos e centenas de sobreviventes mutilados. A comoção tomou conta do país. Dizem que o então presidente João Goulart, ao visitar as pessoas queimadas no hospital Antonio Pedro, foi para um canto e chorou. Fica a dúvida: foram lágrimas de compaixão ou de vergonha pela incúria de quem devia fiscalizar?
O que sei é que o rosto da moça de Niterói atrapalhou meu sono por muitas noites. Depois, é claro, escapuliu para o baú sem fundo das recordações. Lá ficou por 42 anos. Ressurgiu na manhã do último domingo quando conectei a internet.
Vale a pergunta. Na hora que passar a comoção pelas vítimas de Santa Maria e mais uma vez a memória se recolher, quantos anos essas imagens de horror levarão para despertar novamente? Oxalá que jamais.
fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.