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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 10 de março de 2014

A vitória dos garis no Rio de Janeiro


por Cidinha da Silva

Senti o peso da chegada aos 40 quando em conversa com duas aguerridas ativistas de direitos humanos, uma de 27 e outra de 23 anos, convicta, usei a palavra pelego para caracterizar determinado setor de trabalhadores, sem maiores explicações. Elas me olharam desentendidas e a mais jovem, escusando-se da suposta ignorância, perguntou-me que conceito era aquele. Antes de explicar, fui obrigada a concluir, estou mesmo envelhecendo.

Passada uma década, a mais velha da dupla, que agora chega aos 40, deve sorrir ao ver a abundância de referências ao sindicato pelego dos garis do Rio de Janeiro. A expressão, extremamente usual na década de 80 do século passado, volta à baila em 2014, trazida pelo movimento grevista dos garis do Rio de Janeiro, que abandonaram as vassouras, ergueram punhos, vozes e marcharam durante 8 dias pelo centro da cidade, reivindicando a destituição de decisões anteriores tomadas pelo sindicato pelego que havia se vendido ao patrão (a prefeitura), melhores salários e condições de trabalho. Ascenderam faróis inertes desde as greves do ABC do final dos 70 e dos professores da rede pública na década de 80.

Os meninos e meninas de laranja, cuja força, o peleguismo da mídia hegemônica demonizava e diminuía, o peleguismo do sindicato traía e a prefeitura carioca fingia não ver, disseram um não rotundo a todos que queriam transformá-los em suco. Venceram! Inclusive às tropas armadas e truculentas que os forçavam a trabalhar sob o disfarce da proteção.

É imperativo aos conservadores admitir que doravante, a esperança da transformação social veste laranja e é negra. Bela e majestosa como a noite em que a carruagem abóbora de Matamba nos desperta do pesadelo!

* * * * * * *

escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Desvio lusitano



por Júnia Puglia     ilustração Fernando Vianna*

Depois de vários dias de viagem, tudo o que eu queria era voltar pra casa, mas no meu caminho havia uma greve de controladores de voo. Nenhum avião circulava pelo espaço aéreo da Bélgica durante a greve, que inicialmente não tinha duração prevista, mas acabou sendo de apenas oito horas. Só que naquele momento ninguém sabia disso.

A empresa aérea decidiu, então, nos mandar de ônibus para o aeroporto francês mais próximo, e de lá para o nosso destino, Lisboa, de avião. Essa operação demorou muito mais do que o tempo do voo cancelado, e eu perdi minha conexão de Lisboa para Brasília. Raiva, frustração e o estresse de um dia que parecia não ter fim. Até que, noite bem entrada, cheguei a um hotel designado pela companhia. Só poderia seguir viagem na noite seguinte.

Ao acordar, de manhã, e olhar pela janela, perdi o fôlego. Estava num andar muito alto, de frente para o Tejo, com uma ampla vista da cidade. Era inevitável pensar no “inevitável” e na opção de relaxar e gozar. Fui nessa.

Peguei um táxi rumo à Praça do Comércio, que, na minha memória de mais de dez anos atrás, era enorme e muito linda. O sol e o céu estavam indecentes, e se completavam com uma temperatura perfeita de início de outono. Fiquei pensando na inquietação e na ousadia que fizeram com que, há mais de quinhentos anos, uns malucos lusitanos se lançassem dali pelo mar em busca do resto do mundo, e cheguei à conclusão de que não há feito humano que se compare aos descobrimentos daqueles tempos, para mal e para bem, incluindo a exploração do espaço sideral.

Perambulei pela Rua Augusta, pelas lojas lotadas de turistas, quase todos brasileiros ou russos, cheguei à Praça da Figueira, almocei sardinhas assadas divinas numa tasca mais que popular, observando e sentindo ao máximo o lugar e a adorável gente portuguesa.

Barriga cheia, subi a Rua da Madalena. Lá no alto, virei à esquerda e me enfiei pelo labirinto da Alfama. Quando mais eu andava, mais beleza encontrava. Não sei se por viver numa cidade caçula do mundo, muito plana e onde tudo tem menos de cinquenta anos, os ângulos e a perspectiva proporcionados pelas ladeiras e pelos belos edifícios centenários me enchiam os olhos de tal forma, que transbordava. Ali, tudo era puro prazer.

Passei por restaurantes supersofisticados, ateliês de arte, muitos edifícios protegidos pelo patrimônio histórico, e fui andando. De repente, uma placa indicando “Museu Teatro Romano”. Incrédula, visitei escavações que vão aos poucos revelando um teatro completo, datado do final do primeiro século da era cristã. Lá dentro, além do nó na garganta pelo que encontrei, fui assaltada pela mais deslumbrante vista do rio e da parte baixa da cidade.

Consegui voltar à rua e subir mais um pouco, até o Largo de São Martinho, onde tomei um café e um tempo para digerir o que tinha acabado de ver e sentir.

Caminhei mais um tanto pelos becos e ruelas do bairro, até que tive que tomar um táxi de volta ao hotel, e dali para o aeroporto. Decolei de Lisboa leve, feliz e emocionada com a visita inesperada e tão profundamente prazerosa. Bendita greve! Não sabia a quem agradecer. Provavelmente, a algum líder sindical belga briguento e mal humorado.

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

sexta-feira, 30 de março de 2012

A greve geral e o pessimismo na Espanha

Ontem, durante a paralização geral (Crédito: Calabar/EFE)
"Espanha tem uma saída: Barajas." Piada antiga, que me lembro de ter escutado adaptada ao aeroporto do Galeão no Rio de Janeiro e também no argentino Ezeiza. De qualquer maneira, reflete bem o espírito atual aqui nas terras de Cervantes.

Mário Benedetti costumava dizer que um pessimista é um otimista bem informado. Se é mesmo assim, todos os meus amigos espanhóis estão muito bem informados do que está acontecendo no país: não há espaço para a esperança. Os vizinhos franceses também parecem descrentes de qualquer futuro ensolarado. O diário Le Monde, em recente editorial, chamou a Espanha de “o grande problema da Europa”.

Ontem, dia 29, o país parou. Ou deveria ter parado. Os principais sindicatos espanhóis convocaram uma greve contra a Reforma Trabalhista aprovada pelo novo governo do Partido Popular. Eleito no final do ano passado e com maioria no Congresso para não precisar pactuar com os outros partidos, o conservador Mariano Rajoy rezou a cartilha da União Europeia e adotou, antes dos cem dias de governo – a famosa lua de mel entre eleito e eleitores –, uma mudança na legislação trabalhista que promove uma mudança brutal. Para uns, facilita a contração e flexibiliza os contratos de trabalho; para outros, facilita a demissão e precariza as relações de trabalho.

Os pontos mais polêmicos são que um trabalhador pode ser contratado e demitido dentro de 364 dias sem receber nada; e um empresário pode diminuir salários de seus empregados alegando “dificuldades financeiras”.

Contra essas medidas, milhares de espanhóis tomaram as ruas para protestar. O balanço da greve, como se pode imaginar, depende de quem o faz. Para o governo, a paralisação foi “moderada” e só reforçou a ideia de que a medida é dura, mas necessária – cerca de 22% dos espanhóis em idade de trabalho estão desempregados.

Os sindicatos dizem que a adesão (principalmente do setor de transporte e indústria) foi massiva e afirmam que foi apenas o primeiro passo: se o governo não sentar para negociar haverá mais protesto e mais greve.

As informações são de que em Madri e em Barcelona o apoio foi grande. Na capital catalã houve algo de violência. Coisa pouca se pensamos na situação do país e na quantidade de gente que se manifestou.

Aqui na pequena Salamanca, cidade de estudantes e aposentados, a rotina foi pouco alterada. No final do dia os sindicatos lideraram uma marcha. A quantidade de gente era considerável, mas as diferenças se notavam de longe. Cada sindicato em um canto da praça. Enquanto a Direita conduz o país com o discurso de que é preciso enxugar – o que significa na prática eliminar conquistas sociais – a Esquerda, em frangalhos, se estapeia pelo único pedaço de pão que tem nas mãos.

Comentei com uma amiga argentina que nunca vi uma manifestação tão pacífica e tranquila. Na verdade o que eu queria dizer era monótona. No Brasil, eu disse a ela, não se faz um ato sem música, sem um pouco de bom humor. Ela respondeu que na Argentina talvez não houvesse alegria, mas sim aplausos, cantos e panelaço.

Fato é que a marcha que acompanhei pareceria um velório. As pessoas quase cochichavam enquanto caminhavam. Vez ou outra alguém puxava um grito, que era repetido duas vezes por meia dúzia de pessoas e novamente o silêncio imperava. A impressão que tive foi de que estavam ali por solidariedade ou dever, mas não acreditavam que o gesto poderia fazer alguma diferença.

Gostaria de acreditar que por aqui seja diferente e os nascimentos se pareçam aos velórios. E que essa crise servirá para que um novo país surja. E que Benedetti pode ter se equivocado.

Ricardo Viel, jornalista, colunista do NR, especial de Salamanca, Espanha.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Divina tragédia

Deus, no verão, trata de esticar os dias; os homens, de os encolher - antiga teima.

Há dez dias sem a Polícia Militar nas ruas da Cidade da Bahia, os expedientes se encerram pelas quatro da tarde, e o povo se apressa no encalço de casa. Aí anoitece mais cedo, os bares ficam sem pé de gente, namorados não passeiam, amigos não se visitam, e na janela faz um silêncio que de tão sombrio faz até o vento ficar frio.

Pois a greve da polícia já dura dez dias. Fossem dez dias que mudassem o mundo, como os daquele livro lá, menos mal. Mas não.

São só dez dias de uma insegurança que emerge mais porque sabe-se da falta de polícia na rua do que pela vinda à tona de uma violência à qual já não estejamos acostumados.

É melancólico que precisemos sentir falta da polícia para nos lembrarmos de sua importância enquanto tampão da verdadeira panela de pressão em que vivemos.

Receita da violência: pelo metal da panela, tome-se o Estado; pelo feijão, a sociedade em ebulição; a polícia fique então sendo a válvula. Pois quando dá defeito na válvula, parceiro, a panela explode: voa feijão pra tudo quanto é lado. Palavras do Capitão Nascimento.

De modo que, desde o início desta greve, 127 já saltaram fora da panela. 127 mortos em dez dias, até agora, enquanto escrevo. Mas, ao que parece, pouco importa: dali, o governo diz que não pode pagar o que os polícias merecem; de lá, os meganhas bradam que não aceitam o que o governo pode pagar - e, de quebra, não se acanham em tocar o terror na cidade, só para marcar presença.

Cabeças-duras, povo de dura cerviz!, diria aquele Deus lá de cima. Povo aliás que esse Deus, o da Bíblia, quis exterminar quando flagrou adorando um bezerro de ouro, justo enquanto Moisés anotava as leis nas tábuas. E só não o fez porque o profeta não deixou: pediu a Deus que lhes poupasse, que lhes desse mais uma chance.

Aí Deus deu. E deu no que deu.

Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta, com um texto mensal toda primeira quarta-feira do mês corrente. Escreve de Salvador.
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