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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Nazis Soltos, Rolezinhos no Corredor Polonês


por Cidinha da Silva*

Fazia sol bonito depois da chuva que havia espantado muita gente da Benedito Calixto. A mulher albina, de dreads grossos no cabelo crespo, meio amarelo, meio branco, circulava protegida por óculos escuros que lhe guardavam parte da face. Vez ou outra renovava a proteção dos lábios e da pele com cremes importados.

Ela vasculhava os produtos das barracas em busca das últimas lembrancinhas encomendadas pelos amigos estadunidenses, sandálias de dedo, de todos os tipos, cores e estampas, eram o must daquele verão.

Depois de finalizar as compras, a estrangeira decide comer algo. Em meio a tantos pratos saborosos escolhe um bacalhau gratinado com batatas. Pede na barraca ao lado um caldo de cana, bem gelado. Um cheiro de dendê fumegante move seus olhos para os boxes seguintes e ela paralisa o garfo a caminho da boca quando vê um homem a espera de um acarajé, tatuado com a suástica no peito.

Era branco, tinha quase dois metros, corpanzil trabalhado no anabolizante. Usava botas de alpinista, calça do exército do país dela, cortada como bermuda. A cabeça era raspada, o peito nu e a tatuagem cravada ali, deixando-a em estado de alerta.

Em situações de perigo (e em política, circunstância não menos perigosa), reza a norma que você imagine cenários. Ela já conhecia as assimetrias brasileiras o suficiente para saber quem pode se sentir protegido e quem é o suspeito preferencial na escala cromática do biopoder.

Ninguém molestava o indivíduo, cuja presença parecia não incomodar a ninguém. Aquela tatuagem não era Mandela, Gandhi, Benazir Butho, não, era a suástica! Embora ela tivesse consciência plena de que quem vê tatuagem de pacifista inscrita em um corpo, não vê coração. Há muita gente do fã clube do Mandela morto incapaz de agradecer ao ascensorista ou à faxineira que segura a porta do elevador para que a beldade entre. Mas a suástica é diferente, é explícita, direta. Ela emite uma mensagem instantânea de ódio racial dirigido às pessoas que não são arianas e isso deveria ser reprimido por quem zela pelas liberdades civis.

A moça passa os olhos ao redor em busca de um policial. Quem sabe se avisasse sobre o homem da tatuagem odiosa, talvez tratassem pelo menos de observar os movimentos do suspeito. Não há polícia e mesmo que houvesse, costumam ser treinados para garantir a segurança dos civis de classe média e para reprimir a circulação de meninos pretos e pobres em shopping centers, em nome da garantia da liberdade de consumo dos que têm dinheiro para consumir.

Está sozinha. Apavora-se. Vê então outro homem tatuado, desta vez perto de si, na barraca de churrasco. A tatuagem é verde e fica esmaecida na pele preta do homem. Ele a observa com cara amigável. Ela pede socorro com os olhos. Ele entende e sorri. Levanta um espeto bem acima da cabeça, olhando-o contra o Sol para conferir se está mesmo limpo. Faz isso com vários outros instrumentos perfurantes. A moça resolve mudar de lugar e senta-se próxima ao homem. Nunca se sabe quando um espeto de churrasco será útil.

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 escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A dívida é nossa, Regina


por Moriti Neto   imagem Viviane Vallar*

Três semanas depois, ainda tinha a necessidade de escrever. Não tê-lo feito até pouco tempo, por aridez intelectual ou por estar atolado com os afazeres burocráticos da rotina, me causava um incômodo constante, dor de consciência mesmo. Era impossível esquecer os olhos de Regina, moradora de rua e dependente química, a quem encarei no dia 26 de setembro passado, constrangido pela minha incapacidade de intervir na realidade social trágica deste País, enquanto a mulher era varrida da Praça da Sé.

“Vai pra onde?”, foi a pergunta que consegui balbuciar depois de saber seu nome. A vergonha me impedia de falar muito. “Pra onde der, moço. Sou usuária de drogas e minha vida é assim, sempre foi, na rua. Onde conseguir espaço pra montar minha barraca é que vou ficar”, foi a reposta de Regina, de sobrenome Ferreira.

Naquele fim de manhã, ela era uma entre os cerca de 200 moradores de rua que haviam montado acampamento na Praça da Sé e despertaram com a Guarda Civil Metropolitana (GCM) e equipes de limpeza da Prefeitura de São Paulo. A ordem era desmontar as barracas, “liberar espaço”. Um caminhão foi usado para retirar móveis, madeiras, lonas e demais objetos, que eram jogados na caçamba, muitos, inclusive, de uso pessoal.

Havia raiva no ar. Moradores protestavam contra o prefeito Fernando Haddad e afirmavam que não tinham para onde ir. Outros ofendiam e ameaçavam jornalistas, resultado óbvio da criminalização que a população de rua, principalmente os dependentes químicos, sofre de parte da mídia.

Regina não xingava, não ameaçava. O jeito, segundo ela, era mesmo procurar outra praça ou, como falava em tom mais baixo, esperar a saída da equipe da Prefeitura e voltar. Algo que uma parcela fez, a exemplo de 60 pessoas que, de novo, foram removidas, no dia 9 de outubro.

Não sei se Regina voltou. Não sei se foi novamente removida. Aliás, sei de pouca coisa, pois o mal-estar com a situação aumentou minha incompetência frente àquela tragédia social. Não consegui ficar mais tempo ali. Só graças a minha esposa, que nem jornalista é, tenho imagens registradas.

O peso ao ver as pessoas sendo varridas (quase literalmente) da ocupação na Sé, cheia de meninos de rua e famílias desabrigadas usando barracas de camping, me fez sentir e pensar por semanas. Refleti que Haddad, Alckmin, Kassab, eu, somos todos responsáveis. Mesmo a ausência de uma política séria voltada a essa população – que envolveria projetos habitacionais, assistenciais, educacionais e de saúde eficazes – é responsabilidade coletiva, nossa. Somente um debate constante, verdadeiro, comprometido e distante das soluções rasas pode retirar o tema da invisibilidade. O povo que circula na Sé – 3 milhões de seres humanos transitam diariamente por ali –ignora, por motivos diversos, a condição dramática exposta dos que ali ficam ao relento.

Marcante sobre a dificuldade dos governos na questão, a história de Regina e do grupo a que pertencia naquele dia (o verbo no passado indica que a formação de grupos e dos sentimentos de pertencimento e reconhecimento ficam comprometidos com a instabilidade da vida daquelas pessoas), passa pela Cracolândia, desocupada agressivamente pelo Governo do Estado em 2012, numa remoção motivada por disputa que envolve interesses imobiliários na área e que, já se sabe, espalhou pelo centro de São Paulo um problema socioeconômico e de saúde pública.

Não bastasse isso, o sofrimento seguiu com o fechamento, via prefeitura petista, da Tenda do Parque D. Pedro II, abrigo que funcionava próximo da região da Sé e foi reaberto recentemente, desorganizado e precário, segundo moradores de rua e até funcionários que lá estiveram após as “limpezas”.

Todas as gestões, de tucanos a petistas, têm discursos recheados de justificativas para as medidas, mas, na verdade, o que se vê são apenas discussões e ações precárias, seja no interior das administrações públicas, que mal apostam no princípio da transversalidade de gestão para atuar, seja na abordagem midiática, superficial e cheia de rótulos. Talvez admitir que não se sabe exatamente a forma de agir e que não se pode fazer muito sem grande envolvimento coletivo, fosse o passo a ser dado para tornar o debate tão amplo quanto necessita ser.

Enquanto tal discussão não ocorre, as “limpezas” continuam. Resulta disso, cada vez mais, um povo marcado, dizimado emocional e fisicamente, a quem os “homens de bem” culpam pelos maus-tratos à cidade, pela violência e a “praga da droga que destrói famílias”. A cobrança está errada, meus caros. Nós é que devemos.

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Moriti Neto, jornalista, repórter e editor-assistente do NR.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Último corujão



por Carlos Conte   ilustração Caco Bressane*

Conhecem o último corujão da Lapa? Fica na rua Guaicurus, próximo ao Mercado, aonde eu ia com a minha avó fazer compras quando criança. De dia, o comércio popular fervilha, os estudantes indo e vindo, as padarias cheias, as lotéricas cuspindo filas de gente para as calçadas, os taxistas pitando e vendo TV no ponto. Mas é o sol baixar um pouco, as persianas vão se fechando, as portas metálicas ficam semicerradas, o povo nervoso quer espaço para voltar para casa, árvores escurecem o passeio e, daí pra frente, as almas descem às ruas pra dar suas bandas. Só permanecem abertas as pizzarias delivery e o bar do Silvinho, o último corujão do bairro da Lapa, certamente um dos últimos fecha-nunca da cidade.

A censura aos bares andou degolando muita gente nos últimos tempos. As multas são tão altas que a maioria vai à falência. Quando batem as dez da noite, todos os donos de bar de São Paulo tornam-se figuras preocupadas, ansiosas, com medo de servir. Põem a conta na mesa sem o cliente pedir, oferecem uma saideira, porque os vizinhos... ai, os vizinhos... lamentam-se. Só no Silvinho que não. Lá não existe Lei do Psiu e às dez a noite está apenas começando.

É por volta das sete e meia que as portas se levantam e só vão se fechar lá pelas seis da madrugada. Não se ouve falar de reclamação ou problema com a polícia. Pelo contrário. Os policiais acenam das viaturas fazendo ronda. E o Silvinho acena de volta. Seu sócio, o Lagarto, tem cara mesmo de lagarto, ou de crocodilo, com seu papo gordo e sua barriga inchada. Todos ali têm barriga inchada, como se estivessem de oito meses, a ponto de explodir.

Parece que o bar inteiro está assim: a ponto de explodir. A impressão é de que alguma coisa grave pode acontecer a qualquer momento. Respira-se sujeira nesse bar. O ar é impregnado de futum de fossa, de catinga de bueiro. Enquanto os barrigões se encostam, alguém bebe sozinho, triste. Dois bêbados, um deles usando um uniforme de funcionário da CET, o outro de jaqueta de couro, gastam todas as suas moedas ouvindo Zé Ramalho na jukebox. Na frente, alguns carros de luxo estacionados. Seus donos são sujeitos simpáticos, quase sempre calvos, morenos, cinquentões, que conversam entre si em roda, mas também interagem com o restante do pessoal. São os policiais civis, todos sabem. Os caras têm grana mas preferem beber no Silvinho. Não sei por que o bar do Silvinho virou o reduto dos policiais civis do bairro da Lapa. E dos bandidos também. A legião de jogadores ali tem salvo-conduto para entrar e sair quantas vezes quiser pela porta do salão dos fundos, onde ficam as maquininhas caça-níqueis, proibidas por lei. Também não se sentem constrangidos os que, em dupla, em trio ou em bando entram no banheiro para cheirar. Todo mundo sabe que é o motoboy da rua Fábia quem passa a farinha.

Um vendedor de frutas deixa o carrinho na calçada e pede Cynar com 51. Pedreiros e pintores tomam sua sopa em silêncio. Do balcão dá pra ver os caldeirões soltando vapor. O meu preferido é o caldo de piranha, que dizem ser afrodisíaco. Todos os vícios andam por lá. O bar do Silvinho é o refúgio da boêmia assustada da cidade. Bolos de dinheiro entram e saem pela porta a todo instante. Maços de notas de dez vão e vêm, maceradas pela agitação nervosa da noite.

Ali eu sempre encontro o Otávio, um amigo do meu falecido avô. Quando termina o expediente na cantina, onde trabalha há décadas como garçom, desce em direção ao Silvinho, mas fazendo o pinga-pinga de sempre nos botecos do itinerário. Chega com as mãos no bolso, de camisa branca de manga comprida, os cabelos amarelados penteados para trás com gel, a cara cheia de rugas. Cumprimenta um por um, conhecendo ou não, mostrando sua boca vazia de dentes, porém cheia de afeto. Tem dias em que o Otávio parece uma alma penada.

Enquanto isso, os jovens, não menos decadentes, ficam em pé na entrada, curvados, ou encostados nas paredes, de moletom, boné e calça jeans, bebendo litrão. A maioria dos bandidos (assaltantes, traficantes) está entre eles. Todos se conhecem. Há amigos de infância nessas rodas. Mesmo os estranhos são bem recebidos, porque podem ser conhecidos de alguém, não se sabe... Em lugares como o bar do Silvinho não se veem muitas confusões, porque pouca gente se arrisca a ver no que vai dar... De vez em quando o Silvinho ou o Lagarto é obrigado a tocar dali um beberrão inconveniente, e ainda assim o faz com naturalidade e delicadeza, que nem se percebe. Não tem brigas. Não tem gritos. Há um entendimento superficial, um acordo velado, nos cumprimentos, nas saudações, mas é impossível não sentir, no meio do vapor dos caldeirões e da fumaça dos cigarros, no último corujão da Lapa, vestígios de pólvora, sangue e crime.

* Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Ilustração de Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, especial para o texto

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O inferno do abandono

Desabrigados pelas enchentes desde 2010, moradores de alojamento improvisado em Atibaia (SP) sofrem, seguidamente, com descaso do Poder Público

Pela quinta vez, o Nota de Rodapé chega ao Campo do Santa Clara, no bairro do Caetetuba, periferia de Atibaia. Nesta visita à cidade interiorana, localizada a 60 quilômetros de São Paulo, encontramos Elisa da Fonseca, Josefa Ferreira da Silva, Eliane Aparecida Narciso e Regiane Aparecida Narciso. Quatro mulheres e um mesmo lugar. Nomes e documentos diferentes, mas situação de abandono e preconceito comum desde as enchentes que atingiram o município nos verões de 2010 e 2011.

Como tantos outros, elas são ex-moradoras da rua dos Pires, na Vila São José, bairro próximo e uma das áreas mais pobres da região bragantina. Todas tiveram as casas demolidas e queimadas pela Prefeitura em janeiro de 2010. De acordo com os números oficiais, atualmente são 32 famílias habitando o outrora campo de futebol.

Ali os moradores já foram enlatados em contêineres e quase entraram num alojamento com o venenoso amianto sob as cabeças, como denunciou este NR.

Além disso, até hoje estão nas precárias casas de madeirite do abrigo improvisado, recebem valores exorbitantes nas cobranças de água e luz, e ainda convivem com a truculência policial.

Eliane, que mora com cinco filhos no local, tenta proteger a família tanto da influência do tráfico de drogas quanto da agressividade e discriminação da polícia. “Eu nem trabalho, pois não posso largar eles aqui, não tem nada pra fazer. Se deixar, eles vão se envolver mesmo. É o que tem pra eles”, diz.

Com o poder dos traficantes, ela pouco pode fazer para cuidar da família. Fora isso, tem que enfrentar ações policiais que criminalizam a população do lugar e já até “profetizaram” o destino de dois de seus filhos. “Um policial da Rota falou pra mim assim: ‘esse bebê que está no seu colo, daqui a alguns dias já vai estar no meio das drogas e a de 11 anos vai estar vendendo’, contou.

“A Polícia Militar, o pessoal da Rota, da Força Tática, quer que a gente denuncie traficante, mas eles vêm aqui pra prender um ou outro e vão embora. Nós vamos continuar morando. Como fica a segurança se a gente entrega alguém?”, pergunta Eliane.

Elisa também vivenciou a condição de criminalidade ser estendida para toda e qualquer pessoa que viva no campo. A unidade do alojamento em que mora com o marido e a filha foi invadida por uma operação policial. A suspeita da PM era que a casa fosse “ponto de drogas”. A moradora lembra que foi vigiada por 15 dias até que cinco viaturas a cercaram na porta de casa. “Pensaram que eu ia sair correndo”, explica a senhora, hoje aposentada e que tem sérios problemas na coluna.

Violência e precariedade

Josefa Ferreira da Silva, conhecida no bairro como Julia, instalou, na parte do abrigo em que mora com o marido, uma mercearia. “A gente precisa de renda. Dá pra ganhar uns trocados aqui, né?”, comenta. O pequeno comércio acabou por se tornar ponto de encontro, principalmente para as mulheres que têm a precaução de vigiar os filhos.
A partir da esquerda: Eliane, Elisa, “Julia” e Regiane
(Foto de Mayra Bondança)

Segundo Julia, o abrigo, com a forte presença do tráfico, violência da polícia e precariedade estrutural, é “um pedacinho do inferno”. “Ficamos no meio do fogo cruzado, pois as casas são procuradas por gente que se esconde da polícia. Aí a PM entra sem pedir licença, acusando que a gente protege bandido”.

Não bastasse o que se vive de dificuldades de habitação, já que as casas, entre outros problemas, têm telhados que se assemelham a papelão – não suportam chuva e esquentam absurdamente expostos ao sol – e infestações de ratos que abalam as estruturas frágeis das casas, fazendo ceder pisos e abrindo buracos nas paredes, o preconceito com a comunidade alojada no Campo do Santa Clara vai além da polícia.

Regiane Aparecida Narciso, irmã de Eliane, foi vítima de discriminação quando buscava trabalho em Atibaia. Candidata a uma vaga no Supermercado Extra, situado em área central, chegou antes da hora marcada para a entrevista. “Meia hora depois, chegou outra moça. A pessoa que ia atender a gente perguntou onde cada uma morava. Quando eu disse Campo do Santa Clara, chamaram a outra pra fazer entrevista antes de mim, no meu horário marcado. Depois, avisaram que a vaga tinha sido preenchida. Mal falaram comigo”, revela. Grávida do quinto filho, ela segue desempregada.

Os exemplos de acontecimentos como esse parecem comuns. A juventude do alojamento está entre os que mais sofrem. “Meu filho de 15 anos também já passou por isso. Os meninos procuram trabalho, mas o pessoal não emprega, fala que tem medo. Tem preconceito sim. Gente que poderia dar oportunidade diz que não ajuda porque não conhece o tipo de gente que mora aqui”, aponta Eliane.

Até quando?

Durante bastante tempo, os moradores escutaram da Prefeitura que o prazo para sair do alojamento seria de dois anos, a contar de fevereiro de 2010, quando a obra do alojamento se iniciou. Na época, uma placa colocada no campo pelo Poder Público mostrava o mês, mas indicava uma data inusitada.

Vista dos prédios do futuro conjunto habitacional
(Foto de Moriti Neto)
O destino das famílias seria um conjunto habitacional chamado de Assentamento Caetetuba II, em outro bairro periférico. Contudo, os prazos para a entrega dos prédios foram alterados. A Prefeitura anunciou várias datas. “Depois dos dois anos de prazo, falaram em dezembro de 2012. Daí mudou pra fevereiro do ano que vem. Modificaram pra abril e já tem comentário de funcionário da Prefeitura de que fica pronto só no final de 2013”, descreve Eliane.

A preocupação de Eliane é baseada não só nos comentários. Numa visita ao futuro conjunto, é fácil notar que a construção está em estágio que necessita da finalização de diversos itens. Os sete prédios, com 24 apartamentos cada, estão erguidos, mas não há qualquer sinal do acabamento no trabalho dos poucos operários que tocam a obra. Água e esgoto ainda não têm as instalações concluídas. Tudo indica que os dias no “inferno” estão longe de terminar.


Moriti Neto, jornalista, mantém a coluna mensal Escarafunchar

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Mirella carrega o legado da ditadura

Em tempos de Comissão da Verdade, um caso recente, que estourou nas redes sociais – dessas coisas que acontecem com frequência razoável –, nos faz pensar por que é importante desencavar os ossos das vítimas da ditadura brasileira. A violência que impera hoje, principalmente, nas periferias, as ultracomuns violações de direitos humanos no sistema carcerário, não terá fim, nem sequer vai diminuir, sem desvelarmos esse passado de nossa história que alguns setores da sociedade insistem em que fique trancafiado.

O caso a que me refiro é o da repórter baiana Mirella Cunha. Repórter da pior estirpe, reproduziu o jornalismo mais canalha e violento em uma matéria para um programa local da Bahia, da Rede Bandeirantes, a versão local do “Brasil Urgente”. Está pagando o pato, atualmente, sozinha, pelo seu péssimo trabalho, ainda que ela tenha apenas parcela da responsabilidade por sua bárbara tortura psicológica contra um detido.

 Mirella da Bandeirantes e entrevistado humilhado
Mirella Cunha entrevistava um suspeito de assalto e estupro. O jovem de 18 anos, preso no dia 31 de março (que bela comemoração do aniversário do golpe de 1964), estava algemado, com marcas de violência absolutamente visíveis no rosto. Ele cresceu nas ruas, nunca se alfabetizou, vendeu balas em ônibus. Na tela, a chamada da matéria já condenava o jovem: “Chororô na delegacia: acusado de estupro alega inocência”. Ou seja, ele alegar inocência é “chororô”.

Mirella já foi mais direta, chamando-o de “estuprador”. O jovem confessa que assaltou uma mulher, que roubou um celular e uma corrente dela, mas mostra desespero ao dizer que não a estuprou, e que não tinha essa intenção.

A repórter pergunta da marca que ele tem no rosto, e o jovem conta que foi espancado. A informação passa batido. Um jovem de 18 anos que é espancado enquanto está sob custódia do Estado não levantou NENHUMA curiosidade na repórter, NENHUM questionamento.

O vídeo é conhecido, sua versão mais curta, com cerca de um minuto, já teve mais de um milhão de visualizações no YouTube. A versão maior mostra os comentários do apresentador do programa, Uziel Bueno, brincando insistentemente com o fato de o garoto topar fazer um exame de próstata. Em determinado momento, Uziel enrola uma folha de papel ao redor de dois dedos da mão, transformando-o num símbolo fálico, e diz que é urologista nas horas vagas e vai ajudar a fazer o exame.

Os abusos continuam, com a repórter humilhando e rindo do jovem, que não sabia o nome ou o tipo de exame a que teria que se submeter para comprovar sua inocência. Mirella e Uziel Bueno aumentam o tom das piadinhas quando ele se dispõe a fazer o exame de próstata, com provocações absurdamente homofóbicas. Lembrando da dificuldade que é convencer a maioria da população masculina de fazer tal exame. E lembrando da quantidade de homens que morrem todos os anos por câncer de próstata, um tipo comum, mas tratável, de câncer.
O apresentador Uziel do Brasil Urgente da Bandeirantes

Esse tipo de jornalismo policial que é, na verdade, policialesco, mostra como a cobertura jornalística, em especial de televisão e rádio, do que se convencionou chamar (principalmente pelo setor mais “intelectual e enlevado” dos jornalistas) de “programas sensacionalistas” reproduz uma lógica afinada com o que há de mais despudoradamente violento nas forças policiais. E isso é uma herança direta de um passado que se tenta deixar “quieto”.

Segundo a pesquisadora Kathryn Sikking, que conduziu estudos sobre respeito aos direitos humanos e como isso é diferente onde há diferenças ao se lidar com a históricos ditatoriais em mais de 100 países, “a quantificação de índices de respeito aos direitos humanos (elaborado pela Anistia Internacional) permite a afirmação de que os países que revisitaram seu passado e julgaram os perpetradores de tortura têm, hoje, um grau maior de respeito aos direitos humanos” (Correio da Cidadania, 5 de agosto de 2009). Os que não revisitaram têm “Brasil Urgente”, têm Mirella, têm Uziel.

Ou seja, ela afirma que há uma ligação direta nos países que souberam lidar melhor com seus esqueletos nos armários (ou nas valas) e buscaram a verdade e o respeito aos direitos humanos. Já nos países onde se varreu para baixo um passado de violência por parte do Estado, há uma herança perene, que permanece até hoje, e que faz com que haja muito menos percepção e, consequentemente, respeito aos direitos humanos. Esse é, claramente, o caso do Brasil, onde a forma de a polícia lidar com a população resguarda fortíssimas semelhanças com a da época da ditadura. Essa falta de “revisitar o passado” faz com quem não haja crítica, em um perpétuo “não se ver” o que acontece. A Polícia Militar, hoje, não se sente compelida em nenhuma medida a respeitar qualquer tipo de direito.

Segundo o site da revista Época, após a divulgação do vídeo, a Defensoria Pública da Bahia publicou o seguinte sobre o entrevistado por Mirella: “É réu primário, vive nas ruas desde criança, apesar de ter residência em Cajazeiras 11. Tem seis irmãos, é analfabeto e já vendeu doces e balas dentro de ônibus. Ao ser questionado sobre como se sentiu durante a entrevista, ele diz: ‘Eu me senti humilhado, porque ela ficou rindo de mim o tempo todo. Eu chorei porque sabia que eu iria pagar por algo que não fiz, e que minha mãe, meus parentes e amigos iriam me ver na TV como estuprador, e eu sou inocente’” (Da coluna de 28 de maio de Eliane Brum, no site da revista Época).

Como bem disse Eliane Brum nessa mesma coluna, o caso que estourou está longe de ser exceção. Ele foi apenas mais um desses fenômenos de internet que estoura de uma hora para outra. Mas esse tipo de comportamento pode ser visto todos os dias. Na televisão e, principalmente, no rádio – esse meio de comunicação que é “primo pobre” mas que tem enorme penetração.

Não é incomum, nas redações de jornais, a editoria de Polícia ficar parada quando os policiais fazem greve. Porque essa editoria só funciona para reproduzir o que a assessoria de imprensa da polícia envia. É a única versão aceitável, e quando não há essa versão, não há nada a ser escrito. Vi isso com meus próprios olhos.

A Band afirmou que Mirella será demitida. Como se a reportagem e sua veiculação tivessem sido fruto da cabeça tresloucada da repórter, e não de uma cadeia de produção jornalística que tenta ser “do agrado do povão”, da fictícia “nova classe média”, que é um setor mais despolitizado e conservador que a média da população. Que é a favor da pena de morte e, contraditoriamente, contra o aborto por “defender a vida”. Que acha que suspeito que está algemado na delegacia “não é nenhum inocente” e, por isso, precisa ser humilhado, apanhar, “sofrer as consequências de seus crimes”; que não tinha “ninguém bonzinho” entre os mais de 111 presos do Carandiru.

Os arquivos que são mantidos fechados no Brasil não são referentes apenas à ditadura. Há documentos com mais de 130 anos, que vêm desde a Guerra do Paraguai, segundo a historiadora Ângela Mendes de Almeida. Ângela conta, em entrevista ao Correio de Cidadania em 2009, que “pouca gente percebe que aquele passado oculto pelo exército tem tudo a ver com a violência hoje, e ninguém quer enxergar a violência por parte do Estado. Ainda por cima temos uma opinião pública obscurantista que defende o extermínio dos pobres, ou faz alguns espetáculos de civilização que são inócuos.” Ora, estaria ela falando de Mirella três anos antes?

Rodrigo Mendes de Almeida, jornalista e editor de livros, especial para o Nota de Rodapé

domingo, 25 de março de 2012

Pinheirinho. Depois.

Na última semana completaram-se três meses da invasão e reintegração de posse da área conhecida como Pinheirinho em São José dos Campos. Ontem e hoje você tem uma uma retrospectiva do ANTES e DEPOIS em fotos e textos do fotógrafo Victor Moriyama.


Bombas de gás lacrimogênio e de efeito moral, armas de fogo e granadas não são as melhores lembranças para se guardar na memória de uma criança. Mas foi assim a reintegração de posse do assentamento Pinheirinho, em São José dos Campos, interior de São Paulo que aconteceu sorrateiramente na manhã do Domingo de 21 de Janeiro de 2012.

Tida pelo alto escalão da Polícia Militar do Estado como uma operação "perfeita", seus desdobramentos sociais se iniciaram a partir da saída imediata das aproximadas 5.000 famílias que viviam no local.

A manhã que sucede o dia D numa guerra nunca é bela, e naquele domingo não poderia ser diferente. O cinza do céu parecia descer sobre a terra e o sol definitivamente não apareceria. Grupos de ex-moradores do assentamento ainda arremessavam pedras nos policiais militares que reagiam com balas de borracha.

Se um grupo de mais de três jovens se reunissem nas intermediações do Bairro Campo dos Alemães, região colada ao Pinheirinho e tida pelo poder público como o reduto do tráfico de drogas na cidade, era motivo de revista por parte da PM e esculacho na frente da população.

No decorrer do dia, inúmeros carros e prédios públicos foram incendiados por rebeldes. Grupos de ex-moradores do assentamento se espalhavam pelas sombras das árvores e boa parte rumava para a Igreja do Bairro que abrigaria nos próximos dias boa parte da população do assentamento.

A prefeitura por sua vez disponibilizou de imediato dois conjuntos poliesportivos para servir de moradia provisória as famílias sem-teto. No início da semana que sucedeu a descoupação do assentamento, o número de famílias habitando estes abrigos era elevado.

Colchões se amontoavam em quadras de basquete, filas de espera de horas para o banho, crianças berrando em busca de consolo, e um cheiro indescritível de seres humanos amontoados imperavam as sensações naquele local.

O calor já elevava a temperatura em quase 40 graus e as famílias saiam para fora das quadras em busca de uma sombra para descansar. Cachorros, galinhas, patos e gatos também integravam a bagagem daquelas pessoas e se acomodavam da melhor forma no novo lar.

A noite foi longa. Mães discutiam e reclamavam dos gritos estridentes dos bebês e a impossibilidade de se ter uma noite tranquila de sono. O silêncio necessário para o repouso daqueles que vão acordar cedo para trabalhar parecia ser um luxo muito distante daquelas pessoas.

As noites de verão tem o clima agradável e aquela não era diferente, fazia as crianças brincarem até a exaustão. Pergunto para uma delas, que bebe água desesperadamente no bebedouro público, o que estava entendendo daquela situação e se sentia saudades do Pinherinho: “Aqui está super legal, parece acampamento, tem um monte de amigo e a gente brinca o dia todo.”

Para uma criança de 9 anos, como a Jeniffer, aquela situação de caos social parecia mais uma colônia de férias. São 05:45 am, e a noite havia sido longa e exaustiva. Os roncos se misturavam ao choro das crianças e a conversa com uma moça que trabalhava no local havia sido bastante produtiva. Observo que apenas 7 ou 8 pessoas, dentre aproximadamente 300 instaladas no local, se levantam para ir trabalhar e me pergunto o que as outras farão ao longo do dia.

Não tardo a descobrir que a maior parte passaria o dia estirado nos colchões confabulando sobre o episódio passado de desocupação sem outras preocupações. O sol brilha forte e percebo que chega e é hora de ir dormir.

Antes de partir uma cena me chama a atenção em frente a uma montanha de roupas vindas de doações: “Essas roupas estão bem piores que as minhas” diz uma moradora e indago para ela sobre trabalho: “Eu não vou me sujeitar e me humilhar para este sistema”, me calo e lembro da miséria que vi no Haiti. Para mim é suficiente, o pernoite no alojamento havia rendido bons frutos.

Victor Moriyama, 26 anos, é repórter fotográfico do Jornal O Vale, em São José dos Campos, cidade que reside atualmente. Mantém a coluna mensal Fotógrafo-escreve.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Caso Eloá: só alguns minutos

"Esse texto foi escrito à época do assassinato de Eloá (outubro de 2008) e circulou entre um grupo restrito. Achamos oportuno publicá-lo no momento em que o caso vai a julgamento."


Assentada a poeira inicial, não consigo parar de pensar neste assunto. Nos últimos dias, vimos passar diante de nossos olhos, pelas telas de nossas TVs, um tratado completo sobre as relações de poder entre mulheres e homens. Aquilo que os “iniciados” chamam de “relações de gênero”, e que tanta gente tem dificuldade para entender.

Lindemberg e Eloá eram jovens moradores de um conjunto habitacional de trabalhadores da Grande São Paulo. Até onde sei, com histórias e vidas parecidas. Nada que envolvesse grandes disparidades socioeconômicas.

Envolveram-se num relacionamento amoroso, quando ela era pouco mais que uma criança, e ele um rapaz de dezenove anos. Segundo informações que circulam, era um namoro tumultuado, com vários rompimentos e reconciliações, geralmente motivados pelo comportamento possessivo de Lindemberg.

Até o dia que Eloá decidiu não se reconciliar mais com ele. Uma decisão que ele não podia aceitar, um atrevimento, uma manifestação insuportável de egoísmo, como falou por telefone a um repórter. Como ela não cedia às suas tentativas de diálogo, ele resolveu obrigá-la, da forma que lhe pareceu mais adequada. Ou seja, ela o empurrou a tomar aquela atitude extrema!

Invadiu a casa dela numa tarde de segunda-feira, insinuando que os colegas que estavam ali tinham intenções a respeito de Eloá que só ele mesmo poderia ter. Estava armado, e a situação logo evoluiu para cárcere privado.

Não tinha nada para pedir em troca, pois o que ele queria, que era a atenção exclusiva dela, já havia conseguido. Que fazer, então? Prolongar indefinidamente o inferno, para que não restasse dúvida sobre quem controlava a situação, para reafirmar, hora após hora, que ela era propriedade dele, e faria o que ele quisesse.

Não me venham com essa lorota de que ele foi movido pela paixão. O que moveu Lindemberg foi o medo de ser rejeitado de forma definitiva e de perder a voz de mando numa relação que ele controlava tão bem. Como ficaria sua hombridade? Como lidar com o vazio deixado por tamanha humilhação?

Passaram-se os dias, as noites, mais dias e noites, até que ele mesmo não suportava mais a situação que havia criado. Mas, como sair? Impedindo que Eloá continuasse a viver, e, agora, sem ele, que é um rapaz inteligente e sabe que não teria mais nenhuma chance. Mirou seu revólver na cabeça e no sexo da ex-namorada. Bem dentro da lógica de que “se não for minha, não será de mais ninguém”.

Lindemberg inviabilizou sua vida e seu futuro, mas ele ainda pode dispor de uma e de outro. Eloá foi imolada para que o macho pelo menos preservasse sua macheza, pois viverá o resto de seus dias assombrado pelo que foi capaz de fazer. Isto pode soar como uma simplificação extrema, e talvez seja mesmo, mas como encontrar razões defensáveis para o que aconteceu?

Peço vários minutos de silêncio e reflexão sobre este caso tão emblemático e, ao mesmo tempo, tão corriqueiro, em maior ou menor grau, em tantas relações supostamente afetivas entre mulheres e homens.

Júnia Puglia, cronista, após o carnaval escreverá a coluna De um tudo toda sexta-feira.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Divina tragédia

Deus, no verão, trata de esticar os dias; os homens, de os encolher - antiga teima.

Há dez dias sem a Polícia Militar nas ruas da Cidade da Bahia, os expedientes se encerram pelas quatro da tarde, e o povo se apressa no encalço de casa. Aí anoitece mais cedo, os bares ficam sem pé de gente, namorados não passeiam, amigos não se visitam, e na janela faz um silêncio que de tão sombrio faz até o vento ficar frio.

Pois a greve da polícia já dura dez dias. Fossem dez dias que mudassem o mundo, como os daquele livro lá, menos mal. Mas não.

São só dez dias de uma insegurança que emerge mais porque sabe-se da falta de polícia na rua do que pela vinda à tona de uma violência à qual já não estejamos acostumados.

É melancólico que precisemos sentir falta da polícia para nos lembrarmos de sua importância enquanto tampão da verdadeira panela de pressão em que vivemos.

Receita da violência: pelo metal da panela, tome-se o Estado; pelo feijão, a sociedade em ebulição; a polícia fique então sendo a válvula. Pois quando dá defeito na válvula, parceiro, a panela explode: voa feijão pra tudo quanto é lado. Palavras do Capitão Nascimento.

De modo que, desde o início desta greve, 127 já saltaram fora da panela. 127 mortos em dez dias, até agora, enquanto escrevo. Mas, ao que parece, pouco importa: dali, o governo diz que não pode pagar o que os polícias merecem; de lá, os meganhas bradam que não aceitam o que o governo pode pagar - e, de quebra, não se acanham em tocar o terror na cidade, só para marcar presença.

Cabeças-duras, povo de dura cerviz!, diria aquele Deus lá de cima. Povo aliás que esse Deus, o da Bíblia, quis exterminar quando flagrou adorando um bezerro de ouro, justo enquanto Moisés anotava as leis nas tábuas. E só não o fez porque o profeta não deixou: pediu a Deus que lhes poupasse, que lhes desse mais uma chance.

Aí Deus deu. E deu no que deu.

Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta, com um texto mensal toda primeira quarta-feira do mês corrente. Escreve de Salvador.

sábado, 19 de novembro de 2011

Os órfãos de Ratão

No mês passado, Fernando Evangelista, publicou a crônica “Os mosqueteiros” sobre um morador de rua de Florianópolis e seus companheiros caninos. Uma história que quando li, pensei: “gostaria de ter feito sobre o Ratão”.
Ratão e dois de seus companheiros no ponto onde passava
a maior parte do seu dia a dia.  (Foto: NR)


Explico: Ratão é o nome do morador de rua – senhor – que habitava até a semana passada a rua da casa de minha mãe em São Paulo, no bairro da Lapa de Baixo, na zona oeste. Já faz muitos anos que virou personagem do local, conhecido de todos e que, de uns tempos para cá, vivia acompanhado dos seus quatro cachorros.

“Dona Ziiiilda, tô com fomeeee!” gritava para minha mãe quase todos os dias quando ela saia para fazer alguma tarefa fora de casa. Sempre recebia um prato de comida, um dinheiro para a pinga que, diante do seu corpo maltratado e da falta de perspectiva, era sua companhia constante.

Do que se sabe – que é quase nada – Ratão teria sido tecelão antes de perder o emprego, família e se instalar nas ruas. É mais uma história triste de quem vive sem rumo, como relata o meu amigo Tomás Chiaverini, no seu livro Cama de Cimento – uma reportagem sobre o povo das ruas.

Não sei seu nome. Não sei sua idade. Nos cumprimentávamos de um jeito sem palavras, só um gesto de levantar o braço. Não faz muito tempo também, pouco antes de eu mudar da Lapa para Perdizes, fotografei da janela Ratão no que era o comum de seu dia a dia: ficar sentado na calçada tomando “conta” dos carros.

Se tinha comida, dividia com o bichos. Um deles, incrivelmente, andava igual seu dono, maltrapilho e arrastando uma das patas. Franzino, Ratão caminhava com dificuldades há tempos. A bengala improvisada, o ajudava a se equilibrar. Suas coisas pessoais, guardava num carrinho de supermercado.

Latiram o
dia todo

Soube, infelizmente, que Ratão morreu. Foi assassinado a pauladas. A primeira informação é que teria sido por traficantes. A segunda, que teria sido por Skinheads. Nada disso, no entanto, foi confirmado.

O rapaz que o socorreu e que ligou para o SAMU – que teria chegado horas depois – e outro morador que foi espancado com Ratão relatou que dois homens “queriam roubar o rádio novo” que ele tinha ganhado dias antes. Tentaram intimidá-lo, Ratão reagiu como pôde.

Não se sabe se os agressores também são moradores de rua. É fato que, muitos dos que rodeavam Ratão no dia a dia, eram pequenos traficantes e consumidores de drogas. Eu mesmo já presenciei o uso de crack na porta de casa.

Na mesma rua, aliás, foi o local do crime. Ratão, provavelmente, foi enterrado como indigente. As circunstâncias reais da sua morte talvez não sejam esclarecidas pela polícia. É o tipo de morte que não sai nos jornais e não gera comoção da opinião pública.

Não vou entrar neste texto nos méritos das desigualdades sociais e da merda que é tentar sobreviver sem ajuda do poder público. O fato aqui relatado, em si, se presta a uma homenagem ao homem sem identidade. Mais um.

Seus cachorros, pelo que soube, estão sofrendo e perdidos nas ruas. Latiram muito no dia seguinte a sua morte. Ficaram horas na esquina à espera do dono que não voltaria mais. Ganharam carinho e comida dos moradores antigos que tentam algum lugar que queria adotá-los.

Morrer a pauladas, sem socorro, por conta de um rádio, seria digno de um conto policial ficcional não fosse a realidade de mais um morador de rua assassinado.

Thiago Domenici, jornalista
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