por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*
Dia Internacional da Mulher. Não me lembro quando foi a primeira vez que ouvi falar dele, mas acho que faz mais de trinta anos.
E faz mais ou menos isso que eu soube que existiam umas mulheres chamadas feministas. No rastro do livro de Betty Friedan, um furacão nos anos setenta, e que até hoje não li, me chegaram notícias de mulheres que começavam a expressar publicamente seu repúdio à tutela masculina e ao tratamento que recebiam como seres frágeis, dependentes, incapazes e tolos.
Na mesma época, uma série de rumorosos assassinatos de mulheres – sim, porque eles sempre aconteceram, mas não tinham nenhuma importância até então – levou para as ruas do Brasil a irresistível campanha “Quem ama não mata”. E a violência que se comete contra as mulheres na vida privada começou a ganhar contornos de problema público.
Tudo por causa das tais feministas. Pelo terrível incômodo que causaram ao questionarem verdades profundamente arraigadas na sociedade, na religião, na vida das pessoas, foram combatidas, ridicularizadas, desprezadas. Delas se dizia que eram infelizes, mal amadas, revoltadas, amarguradas, feias e por aí vai, como se as mulheres oprimidas, agredidas e conformadas fossem todas lindas e felizes.
Mas elas não se importaram com nada disso, ou melhor, relevaram os insultos e continuaram em frente, sabendo que tinham uma tarefa gigantesca a cumprir.
Então, é o seguinte. Se hoje podemos escolher com quem queremos viver, e por quanto tempo, é por causa delas. Se temos o direito de não ser agredidas e espancadas, é por causa delas. Se podemos nos dedicar a qualquer profissão ou tarefa que nos ocorra, é por causa delas. Se podemos decidir se queremos ser mães, quantos filhos queremos ter, e quando, é por causa delas. Se o exercício do prazer e da sexualidade livres é considerado um direito, é por causa delas. Se não somos obrigadas a suportar chefes, patrões, médicos, pais, irmãos e tios que nos consideram objetos disponíveis à sua libidinagem, é por causa delas. Isso pra ficar só no super básico.
De vez em quando, ouço ou leio acusações contra elas, do tipo “onde estavam com a cabeça quando nos obrigaram a sair do nosso papel submisso e dependente tão cômodo e conveniente”. E sempre penso que quem quiser ser assim, e achar que vive melhor desse jeito, que viva. A possibilidade de optar passou a existir também por causa delas.
Feminista não é palavrão. É apenas uma palavra, que define uma turma batalhadora, insistente, que não se contenta com pouco, e leva um monte de gente atrás. Aliás, metade da humanidade.
Às feministas o meu respeito, meu reconhecimento e minha gratidão.
*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna De um tudo. Texto escrito em 25 de janeiro de 2009. Fernando Vianna, artista visual, especial para o texto
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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 8 de março de 2013
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Bebedouros de frescor
Deve ser inevitável que toda aventura, empreitada, trilha, empresa, época, anoiteça. Afinal, irremediavelmente e por todos os dias do mundo, o sol se põe. Sem falar que haverá a hora da nossa morte, amém!
Meus olhos, que completaram cinquenta e sete anos de janela, observaram alguns padrões de entusiasmo, consolidação e, não querendo aguar a festa, de declínio. Também notaram que a institucionalização ergue muros onde antes havia terrenos baldios.
Faz mais de trinta anos participei de um grupo feminista deveras especial. Se chamava SOS Mulher e tinha como missão combater a violência doméstica sofrida pelas mulheres. Éramos um bando de gente jovem, destemida, esfomeada de vida.
A formalidade do SOS era próxima de zero. Não era ONG, não era governo, não era uma política pública. Era tão somente um grupo de pessoas com o sonho de eliminar olhos roxos, dentes quebrados, almas partidas das vítimas de maridos e namorados violentos.
Depois vieram as delegacias especializadas de mulheres, as secretarias, os conselhos. Num certo sentido, o Estado encampou a luta contra a violência de gênero. Vide a lei Maria da Penha. É claro que tudo isso é muito bom e absolutamente necessário.
Mas - defeito colateral - a institucionalização dos assuntos das mulheres fechou as portas para grupos feministas mais libertários e inovadores. Hoje, todo e qualquer projeto de ação passa necessariamente por sistemas de controle e escaninhos burocráticos.
Outra experiência similar vivi no Senac São Paulo. Na década de 1990, participei das primeiras turmas de cursos de vídeo. Eles eram chamados de "cursos livres", e nós docentes tínhamos carta branca para propor metodologias.
Lembro que um curso não era igual ao outro. Inventávamos sem parar. Usávamos e abusávamos da intuição. Ensinávamos de "ouvido". Pois no fundo erámos também aprendizes. Funcionou! Havia entusiasmo! Um parâmetro difícil de constar em relatórios.
Poucos anos depois, baixou o braço forte. Os cursos foram formatados e formalizados. Perderam a liberdade. Entrou a política de "diplomar". E óbvio chegou o MEC com suas regras e seu controle. De novo, nada disso é ruim. Mas aqueles corredores e salas explodindo em ideias desapareceram.
Será que é sempre assim? Boas iniciativas levam à institucionalização? Esta leva a um engessamento? Ou será que tudo isso é bobagem de meus olhos pré-sessentões? Alguém aí me empresta um colírio?
fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.
Meus olhos, que completaram cinquenta e sete anos de janela, observaram alguns padrões de entusiasmo, consolidação e, não querendo aguar a festa, de declínio. Também notaram que a institucionalização ergue muros onde antes havia terrenos baldios.
Faz mais de trinta anos participei de um grupo feminista deveras especial. Se chamava SOS Mulher e tinha como missão combater a violência doméstica sofrida pelas mulheres. Éramos um bando de gente jovem, destemida, esfomeada de vida.
A formalidade do SOS era próxima de zero. Não era ONG, não era governo, não era uma política pública. Era tão somente um grupo de pessoas com o sonho de eliminar olhos roxos, dentes quebrados, almas partidas das vítimas de maridos e namorados violentos.
Depois vieram as delegacias especializadas de mulheres, as secretarias, os conselhos. Num certo sentido, o Estado encampou a luta contra a violência de gênero. Vide a lei Maria da Penha. É claro que tudo isso é muito bom e absolutamente necessário.
Mas - defeito colateral - a institucionalização dos assuntos das mulheres fechou as portas para grupos feministas mais libertários e inovadores. Hoje, todo e qualquer projeto de ação passa necessariamente por sistemas de controle e escaninhos burocráticos.
Outra experiência similar vivi no Senac São Paulo. Na década de 1990, participei das primeiras turmas de cursos de vídeo. Eles eram chamados de "cursos livres", e nós docentes tínhamos carta branca para propor metodologias.
Lembro que um curso não era igual ao outro. Inventávamos sem parar. Usávamos e abusávamos da intuição. Ensinávamos de "ouvido". Pois no fundo erámos também aprendizes. Funcionou! Havia entusiasmo! Um parâmetro difícil de constar em relatórios.
Poucos anos depois, baixou o braço forte. Os cursos foram formatados e formalizados. Perderam a liberdade. Entrou a política de "diplomar". E óbvio chegou o MEC com suas regras e seu controle. De novo, nada disso é ruim. Mas aqueles corredores e salas explodindo em ideias desapareceram.
Será que é sempre assim? Boas iniciativas levam à institucionalização? Esta leva a um engessamento? Ou será que tudo isso é bobagem de meus olhos pré-sessentões? Alguém aí me empresta um colírio?
fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.
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domingo, 8 de julho de 2012
Teatro: mulheres vermelhas
SUGESTÃO DE IZAÍAS ALMADAPARA OS LEITORES DO NR
Gostaria de indicar aos leitores de NR uma peça teatral a que tive oportunidade de assistir quando fui lançar o meu novo romance "Sucursal do Inferno" na cidade de Ribeirão Preto. Saí bastante emocionado do espetáculo que apresenta - com bastante sensibilidade - um tema trágico. Não é nada fácil falar e representar a tortura num palco de teatro, por exemplo, mas o grupo "Ribeirão em Cena" o faz com bastante dignidade, sem apelos ao melodrama ou à violência desnecessária.
Regressando ao mito da tragédia grega de Antígona, as histórias de Olga Benário, Zuzu Angel, entre dezenas de outras, falam da vida privada de mulheres “subversivas” que foram torturadas ou perderam a vida durante o confronto contra regimes ditatoriais, entre 1928 e 1979, e são mostradas dramaticamente na peça “Mulheres Vermelhas”, que chega a São Paulo para curta temporada no Teatro Studio 184, da praça Roosevelt, nesse mês de julho.
O espetáculo teve sua estreia oficial no Festival Internacional de Teatro de Curitiba deste ano e é realizado com incentivos fiscais através do PROAC- da Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo.
Após a referência ao drama de Antígona, a encenação começa em 1928 na Alemanha, passa pelo golpe de 64 e chega a 1979 quando foi instituída a Anistia no país.
São setenta minutos onde 25 atores, músicos e dançarinos profissionais, com música ao vivo, mostram as historias de Olga Benário Prestes, Lilian Celiberti, Lídia Guerlenda, Maria do Socorro Diógenes, Damaris Lucena, Rose Nogueira, Dulce Maia, Dinalva Oliveira Teixeira, Renata Guerra de Andrade, Vera Silvia Magalhães, Maria Auxiliadora Lara Barcelos, Anadyr Nacinovic, Gilse Cocenza, Cecília Coimbra,Yara Spadini, Sonia Lafoz, Lucia Murat , Zuzu Angel, Áurea Moretti, Maria Aparecida dos Santos e Madre Maurina Borges, entre outras.
"A temática", segundo o diretor do espetáculo Gilson Filho, "não faz proselitismo político e está sintonizada com a necessidade de defesa dos direitos humanos, o mesmo que inspira a “Comissão da Verdade e Reconciliação”.
Mesmo sem intenção, garante o diretor, “será difícil as pessoas não saírem emocionadas ao final do espetáculo, especialmente os que passaram pelos mesmos problemas e voltam ao clima da época ao som de Chico Buarque, Milton Nascimento e João Bosco, por exemplo”.
SERVIÇO
Onde: Teatro Studio 184, Praça Roosevelt 184 SP
Quando: de 12 a 15 de julho às 21 hs.
Quanto: R$ 10
Informações e Reservas: (11) 3259-6940.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Caso Eloá: só alguns minutos
"Esse texto foi escrito à época do assassinato de Eloá (outubro de 2008) e circulou entre um grupo restrito. Achamos oportuno publicá-lo no momento em que o caso vai a julgamento."Assentada a poeira inicial, não consigo parar de pensar neste assunto. Nos últimos dias, vimos passar diante de nossos olhos, pelas telas de nossas TVs, um tratado completo sobre as relações de poder entre mulheres e homens. Aquilo que os “iniciados” chamam de “relações de gênero”, e que tanta gente tem dificuldade para entender.
Lindemberg e Eloá eram jovens moradores de um conjunto habitacional de trabalhadores da Grande São Paulo. Até onde sei, com histórias e vidas parecidas. Nada que envolvesse grandes disparidades socioeconômicas.
Envolveram-se num relacionamento amoroso, quando ela era pouco mais que uma criança, e ele um rapaz de dezenove anos. Segundo informações que circulam, era um namoro tumultuado, com vários rompimentos e reconciliações, geralmente motivados pelo comportamento possessivo de Lindemberg.
Até o dia que Eloá decidiu não se reconciliar mais com ele. Uma decisão que ele não podia aceitar, um atrevimento, uma manifestação insuportável de egoísmo, como falou por telefone a um repórter. Como ela não cedia às suas tentativas de diálogo, ele resolveu obrigá-la, da forma que lhe pareceu mais adequada. Ou seja, ela o empurrou a tomar aquela atitude extrema!
Invadiu a casa dela numa tarde de segunda-feira, insinuando que os colegas que estavam ali tinham intenções a respeito de Eloá que só ele mesmo poderia ter. Estava armado, e a situação logo evoluiu para cárcere privado.
Não tinha nada para pedir em troca, pois o que ele queria, que era a atenção exclusiva dela, já havia conseguido. Que fazer, então? Prolongar indefinidamente o inferno, para que não restasse dúvida sobre quem controlava a situação, para reafirmar, hora após hora, que ela era propriedade dele, e faria o que ele quisesse.
Não me venham com essa lorota de que ele foi movido pela paixão. O que moveu Lindemberg foi o medo de ser rejeitado de forma definitiva e de perder a voz de mando numa relação que ele controlava tão bem. Como ficaria sua hombridade? Como lidar com o vazio deixado por tamanha humilhação?
Passaram-se os dias, as noites, mais dias e noites, até que ele mesmo não suportava mais a situação que havia criado. Mas, como sair? Impedindo que Eloá continuasse a viver, e, agora, sem ele, que é um rapaz inteligente e sabe que não teria mais nenhuma chance. Mirou seu revólver na cabeça e no sexo da ex-namorada. Bem dentro da lógica de que “se não for minha, não será de mais ninguém”.
Lindemberg inviabilizou sua vida e seu futuro, mas ele ainda pode dispor de uma e de outro. Eloá foi imolada para que o macho pelo menos preservasse sua macheza, pois viverá o resto de seus dias assombrado pelo que foi capaz de fazer. Isto pode soar como uma simplificação extrema, e talvez seja mesmo, mas como encontrar razões defensáveis para o que aconteceu?
Peço vários minutos de silêncio e reflexão sobre este caso tão emblemático e, ao mesmo tempo, tão corriqueiro, em maior ou menor grau, em tantas relações supostamente afetivas entre mulheres e homens.
Júnia Puglia, cronista, após o carnaval escreverá a coluna De um tudo toda sexta-feira.
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sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Nem com uma flor
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| Hoje, 25 de novembro #FimDaViolênciaContraMulher |
Elas foram assassinadas numa emboscada, em 1960, durante a ditadura de Rafael Leonidas Trujillo, assassinado no ano seguinte, pondo fim ao período repressor.
Por conta do brutal assassinato das Mirabal a ONU, em 1999, declarou o dia 25 de novembro como o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher.
Cinco anos da Lei
Maria da Penha
“Acordei de repente com um forte estampido dentro do quarto. Abri os olhos, não vi ninguém. Tentei me mexer, mas não consegui. Imediatamente fechei os olhos e só um pensamento me ocorreu: ‘Meu Deus, o Marco me matou com um tiro’”, relembrou no vídeo abaixo a bioquímica Maria da Penha Maia Fernandes, que deu nome à Lei nº 11.340, sancionada em 7 de agosto de 2006, há cinco anos em vigor.
Por aqui, a progressista Lei responsabiliza família, Estado e sociedade pela garantia dos direitos da mulher, prevendo ainda a elaboração de políticas públicas para resguardá-los. Com ela, o Código Penal foi alterado e permite que agressores sejam presos em flagrante ou tenham prisão preventiva decretada.
“Uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil, deixando o país em 12º lugar no ranking mundial de homicídios de mulheres.”Outras medidas para proteger a mulher, como por exemplo, a saída do agressor de casa, a proteção dos filhos e o encaminhamento das vítimas e seus filhos para uma casa abrigo foram incorporadas.
A questão, no entanto, continua grave apesar de cada vez mais mulheres denunciarem seus agressores. A lei foi um passo fundamental, mas ainda não funciona em todos os casos – a maior parte das mulheres assassinadas por companheiros ou ex-companheiros já havia registrado queixa contra o agressor.
E inúmeros casos de violência e feminicídios acontecem todos os dias. Segundo o Mapa da Violência 2010, do Instituto Sangari, “Uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil, deixando o país em 12º lugar no ranking mundial de homicídios de mulheres.”
O machismo quando chega ao ponto da covarde agressão em suas variadas formas é uma excrescência dessa cultura perpetuada no seio do conservadorismo e que deve ser combatida diariamente, principalmente na educação das novas gerações.
Quando nos deparamos com dados que dizem que a maioria das vítimas – 40 % delas têm entre 18 e 30 anos – é morta por parentes, maridos, namorados, ex-companheiros ou homens que foram rejeitados por elas, revela-se a magnitude do desafio a se enfrentar.
Alguns dados, segundo a ONU:
◯ cerca de 70% das mulheres sofrem algum tipo de violência;◯ a forma mais comum de violência experimentada pelas mulheres em todo o mundo é a violência física praticada por um parceiro íntimo;
◯ uma em cada cinco mulheres se tornará uma vítima de estupro ou tentativa de estupro no decorrer da vida;
◯ 80% das pessoas que são traficadas anualmente em situações de prostituição, escravidão ou servidão, são mulheres.
Para saber mais, recomendamos:
◯ Em caso de violência ligue para 180 para receber orientação.◯ Campanha da ONU: Una-se pelo fim da violência contra as mulheres
◯ Boletim do CFEMEA: Mulheres pelo fim da violência contra mulheres negras
◯ Geledés – Instituto da Mulher Negra
◯ Portal Quebre o Ciclo.
◯ Entenda o que é feminicídio.
O texto é uma parceria de Natalia Mendes do TodasNós e Thiago Domenici do Nota de Rodapé e faz parte da Blogagem Coletiva proposta pelas Blogueiras Feministas.
domingo, 5 de junho de 2011
SlutWalk SP: um grito diversificado contra o machismo
Cartazes com frases como: “Respeito é sexy, machismo brocha” e “Sou mulher, não sex toy” eram carregados entre a cantoria e a batucada. Muita gente fotografando, filmando, registrando. Por onde passava a marcha, era possível notar olhares curiosos de pedestres, comerciantes e moradores da região.
Jovens, velh@s, homens, mulheres. Homem vestido de mulher, mulher com adesivo “periguete”, mulheres com roupas “provocantes”, mulheres com roupas mais “discretas” e protegidas do frio, ou até mesmo quase sem roupa andavam junt@s.
| Mulher diz não é "pedaço de carne" |
A Marcha, que tinha como principal objetivo questionar a ideia de que vítimas de violência sexual tem culpa por serem violentadas, começou na av. Paulista e desceu a rua Augusta até a porta do clube de comédia dos CQCs Rafinha Bastos e Danilo Gentili.
“Machismo mata,
estupro não é piada”
| Rumo ao Comedians, na rua Augusta. |
“A nossa luta é todo dia, somos mulheres e não mercadoria”, “Preste atenção, o corpo é meu, a minha roupa não é problema seu”, cantavam @s manifestantes, que, ao chegarem na porta do Comedians, emendaram “Me processa, Tas”, em referência à ameaça de processo que o apresentador Marcelo Tas fez a blogueira feminista Lola.
| Ponto final: cartazes em protesto |
Um dos policiais que fazia a escolta ficou curioso como os comentários e cartazes que criticavam Rafinha Bastos e perguntou “qual deles é o Rafinha”. Depois quis saber qual tinha sido a piada. Quando contei, fez uma cara de indignação e afirmou com firmeza “Vocês têm razão”.
Já começaram a ser organizadas mais Marchas em outras cidades, como Brasília e Belo Horizonte.
Natalia Mendes é jornalista
(Imagens/Vídeo de Thiago Domenici/Natalia Mendes)
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Será que sou uma vadia?
Com toda essa história da SlutWalk, surgiram muitos questionamentos. Eu gostei da ideia de cara, nem tinha passado pela minha cabeça que não era um baita movimento legal. Mas, claro, não foi assim com todo mundo.
Li textos com dúvidas importantes e outros que tiveram uma boa repercussão, mas que discordo de alguns pontos. E li por aí mulheres dizendo que não sabiam se queriam ir na marcha porque “não são vadias”.
Isso tudo me levou a uma pergunta: mas, afinal, o que é ser uma vadia? Quem determina isso? Se uma mulher dá pra um número X de caras em X tempo, ok. Mas se ela dá pra um número Y em Y tempo, ah, é vadia, certeza! Se ela usa uma saia três dedos acima do joelho, ok, mas cinco dedos acima do joelho, imperdoável, "sua promíscua!". Essa ideia de vadia é muito subjetiva. Quem decide qual o limite para ser uma mulher “livre” ou uma “vagabunda”? Claro que quando alguém fala em alguma situação específica “aquela puta” entendo o que a pessoa quer dizer. Talvez não concorde, não ache “aquela mina uma puta”. Aí é que está a questão.
Imagino que tenha gente que me ache vadia por não ser mais virgem há um bom tempo sem nunca ter sido casada. Não vou sofrer com isso, por mais que adore passar uma “boa impressão”.
Vim de uma família que valoriza a mulher, que segue princípios feministas e tem atitudes feministas. Mas sempre fui ensinada a “não ser uma vadia”, a “me valorizar”, pois se usasse um determinado tipo de roupa não iriam me respeitar, se me relacionasse com determinado tipo de homem, não me levariam a sério e nunca conseguiria um parceiro/namorado “legal”.
| Amanhã, 14h, avenida Paulista, a “Marcha das Vadias” |
Mas e se eu quiser dar (porque vadia não transa, nem faz amor, só dá por aí) pra um número Y de caras? Eu vou ser uma pessoa pior por isso? Isso significa que eu não tenho o direito de dizer não prum cara? Tenho que aceitar qualquer um que queira me comer?
A marcha é pela direito de escolha. Pelo controle do seu próprio corpo. Pelo direito de ser “vadia”, de ser “santa”, de ser humano, sem violência. E essa é uma causa de mulheres e de homens.
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