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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 13 de março de 2014

Ferréz: "o meu olhar é de guerra"

UMA CONVERSA SEM FRESCURA E EXPLOSIVA! 



Pouco antes de o país explodir com as jornadas de junho do ano passado, o Nota de Rodapé, em parceria com a Bonita Produções, colocou em prática projeto concebido meses antes: um programa de entrevistas para a internet - e, quem sabe, para a televisão - no qual a ideia central é que não exista assunto proibido com o entrevistado.

Chamamos a empreitada de NR conversa. A ideia aqui é levantar temas de relevância nacional, tabus ou não, que contribuam para o debate social e político mais amplo, que fuja, eis o grande desafio, da mesmice dos programas do gênero que estão disponíveis ao público.

Caricatura de Carvall Estúdio Saci 
Para a primeira conversa, convidamos o romancista, cronista e contista Reginaldo Ferreira da Silva, conhecido pela alcunha de Ferréz. O autor de Capão Pecado, Manual Prático do Ódio e Deus foi Almoçar é também o criador da 1daSul, que, além de ser uma marca de roupas e acessórios criada para os moradores da periferia, promove eventos e ações culturais na região do Capão Redondo, bairro onde mora, com forte influência do movimento hip-hop.

Durante o NR conversa, no Bar Tubaína, em São Paulo, numa tarde fria e chuvosa, Ferréz opinou com propriedade sobre temas como a polícia militar, aborto, maconha, maioridade penal, literatura, partidos políticos, corrupção e educação, sempre com a verve contundente de quem respira o dia a dia da periferia paulistana. Logo de início, ele provoca: “Costumo dizer que o meu olhar é de guerra. Hoje em dia, nos vivemos numa sociedade que ninguém quer se apegar a nada”. “Quem tem ponto de vista machuca, quem não tem, não causa nada. Tem coisas que você têm que tocar mesmo no assunto, porque o país virou um groselha, mano”. Uma entrevista sem frescura e explosiva. Esperamos que você goste e compartilhe. Mais do que isso: que sirva de reflexão. Aproveite!

Os jornalistas entrevistadores do programa são: Thiago Domenici, coordenador e editor do Nota de Rodapé, também da revista Retrato do Brasil; Moriti Neto, colaborador do NR e um dos editores da Rede Brasil Atual, e Marina Amaral, sócia-diretora da Pública, a primeira agência de jornalismo investigativo do país.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Érika Mesquita, a primeira brasileira a estudar a antropologia do clima


foto de Nayanna Marques
A antropóloga Érika Mesquita, doutora pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) é a primeira brasileira a pesquisar antropologia do clima. Ela realizou durante quase cinco anos uma pesquisa pioneira que trata sobre a percepção das mudanças climáticas por grupos indígenas e comunidades extrativistas na região do Alto Juruá no estado do Acre. Ela se debruçou sob dois grupos étnicos, os Ashaninka e os Kaxinawá, e sob três comunidades extrativistas, situadas na Reserva Extrativista Alto Juruá. A linha de pesquisa denominada também de etnoclimatologia, trás informações importantes para entender a cosmovisão indígena sobre o tema e notar, com exemplos concretos, qual é a contribuição dessas populações para a manutenção da floresta e da vida. Este ano Mesquita irá lançar um livro com o resultado de sua tese de doutorado pela editora Mercado das Letras, em Campinas. Confira a entrevista que o Nota de Rodapé fez com a antropóloga.

entrevista por Ana Mendes*

NR – O que te motivou a fazer este trabalho?

Eu me motivei a pensar sobre o clima aqui na região porque hoje em dia os paradigmas sobre esse assunto estão completamente mudados. E eu queria entender até que ponto os indígenas tem conhecimento disso e o que eles tem a acrescentar nessa temática. A verdade é que as Ciências Sociais não está trabalhando as questão das mudanças climáticas. E ela tem que se voltar pra isso, principalmente a antropologia. Os geógrafos e os engenheiros ambientais falam muito sobre o clima. Mas nós, antropólogos, sabemos que nessas análises falta o olhar do cotidiano. Daí a ideia de trabalhar essa produção de conhecimento com os indígenas e com as populações tradicionais. Onde eu trabalhei a maioria das pessoas não tem acesso a informação da mídia. Então eu pude compartilhar como eles enxergam isso realmente.

NR – O que é antropologia do clima?

A antropologia do clima está nascendo agora. Ela é um olhar dentro da antropologia que está buscando analisar as mudanças climáticas. Existem poucas pessoas trabalhando com isso, uma delas é uma colega do México, Esther Katz, que pesquisa populações originárias lá, e eu, aqui. O meu desejo é que muito mais gente faça isso, pra que possamos montar um mapa dos conhecimentos tradicionais indígenas em todo o Brasil. Mas, claro, há que se tomar muito cuidado porque trata-se de uma etnografia somada a uma nova forma de olhar que a antropologia está pegando emprestado das ciências naturais, da geografia física. Em resumo, estamos buscando saber como isso [mudanças climáticas] está sendo sentido no dia-dia, não só nas situações de catástrofe, mas no cotidiano.

NR – Li no teu trabalho que os índios Ashaninka precisam fazer o reflorestamento de certas espécies que antes era feito naturalmente, quando a época dos ventos coincidia a floração. Há outras iniciativas nesse sentido?

Justamente, eles já fazem estas coisas a sua maneira. Há também a agrofloresta que os índios já praticam, mas isto não é fomentado por nenhuma política. Então, a questão é mostrar pro poder público que se pode fazer mais. O conhecimento que eles produzem pode gerar políticas públicas. Não basta só olharem o painel do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas]. E eu não estou criticando, mas estes dados devem ser somado à outros olhares. Os governos tem que saber que essas populações podem contribuir, contribuir na prática. Lá nas Filipinas, perto de onde aconteceu essa grande catástrofe recentemente, um xamã percebeu que vinha o tsunami. Aquele último, de 2004. Ele avisou pra todos da aldeia. E as pessoas foram se refugiar nas montanhas mais altas. Mas na cidade, o poder local não acreditou nele quando tentou alertá-los sobre a onda gigante. É justamente pra fazer com que esse tipo de coisa não passe batido que deve-se trazer à tona o conhecimento tradicional. Os poderes locais e globais tem que acreditar que este conhecimento não é mito. São uma categoria que tem prática sim. Ainda há um precipício entre o conhecimento tradicional e o conhecimento institucionalizado. E essa história está aos poucos sendo fecundada. Porque em relação às políticas públicas para povos indígenas o tratamento ainda é de cima pra baixo, infelizmente. Este ano a UNESCO vai lançar um coletânea de artigos sobre o viés das Ciências Sociais a respeito das mudanças climáticas, incluindo o meu trabalho.

Indios Katukina, proxima etnia a ser pesquisada
[Foto Ana Mendes] 
NR – Você acha que a Academia está conseguindo absorver esse conhecimento?

Nos grandes polos de conhecimento do Brasil sim. Ainda não atingiu a grande mídia, mas a gente já vê que o movimento é pra que isso aconteça. Muitos antropólogos brasileiros estão trabalhando nessa mesma linha. Eu bebi muito nessas fontes: Manuela Carneiro da Cunha, Gilles Deleuze, Marcel Mauss, Eduardo Viveiros de Castro. A começar por Marcel Mauss, que na década de vinte fez uma classificação do pensamento nativo. Ele foi visto como um grande etnógrafo, mas nunca foi colocado em prática. Então, muita coisa escrita por grandes antropólogos estavam engavetadas e parece que agora está vindo à tona. Hoje em dia vivemos um novo paradigma da ciência tradicional. Muitos cientistas estão com os olhos mais abertos para a ciência nativa. Já temos graduações indígenas, médicos indígenas e daqui a pouco os primeiros doutores indígenas.

NR – Me fala um pouco sobre as tabelas que tu elaborou com os tipos de chuva, de sol e de lua. Porque tu sentiu a necessidade de fazer essa organização?

É inacreditável pensar que as populações tradicionais enxergam seis tipos de sóis. Vou te dar um exemplo prático, quando fui morar em uma aldeia na cidade de Marechal Taumaturgo, achava que qualquer água que caia do céu era chuva. Mas tem chuva feminina, masculina tem chuva que é 'feita acontecer'. Os Ashanika mascam batata e sopram, aí a chuva vem. Foi surpreendente quando eu comecei a perceber que essa noção pra eles não é tão genérica como pra nós. Quando eu falei 'tá chovendo' a primeira vez me corrigiram 'Isso não é chuva, é puagem. Chuva é quando molha a terra.' Quem não vive na floresta tem um olhar mecânico, os índios são cheio de pormenores. Eles tem um conhecimento muito grande que até então, há mais ou menos cinco anos não era valorizado, mas agora a coisa tá mudando. Como dizem nas manifestações, Brasil a fora, 'o gigante acordou!' e acordou pra muita coisa mesmo. Não só tardiamente em manifestações, mas também na ciência com relação ao conhecimento indígena. Só tá faltando virar política pública.

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Ana Mendes, gaúcha de nascimento, é fotógrafa e cineasta documental formada em Ciências Sociais. Mantém a coluna mensal Faço Foto.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Entrevista: o dinamismo de Cidinha da Silva

por Júnia Puglia    foto André Frutuôso 

Em seu novo livro, “Racismo no Brasil e afetos correlatos” (Conversê Edições), Cidinha da Silva solta o verbo e os adjetivos em observações e análises diretas, profundas e contundentes sobre o que rola na nossa “casa grande e senzala” de todos os dias, aquela que alguns se esforçam para eliminar, enquanto muitos preferem alimentar. Com sua lupa voltada para os meios de comunicação, faz uma varredura completa. Oferecemos um aperitivo.

NR – É possível afirmar que há hoje mais sinceridade e transparência no que os meios de comunicação mostram sobre as relações raciais no Brasil do que, digamos, dez anos atrás?

Cidinha da Silva: Penso que “sinceridade e transparência” são expressões muito generosas e muito abrangentes. Há exceções que se enquadrariam nessa definição, mas, de um modo geral, vejo dois outros movimentos simultâneos. O primeiro é pautado por algumas mudanças positivas (presença temática e de sujeitos negros, em certos casos como protagonistas) e o segundo é uma reação conservadora, principalmente da televisão, orientada pelo que se discute na blogosfera e redes sociais. O caso recente da apresentadora Fernanda Lima/FIFA é elucidativo. Vejamos: 1 – aventaram-se os nomes de Camila Pitanga e Lázaro Ramos (atores negros) para apresentarem o sorteio dos grupos da Copa. 2 – Vazou a informação de que a FIFA os teria preterido em favor do casal de modelos brancos Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert. 3 – Houve reações generalizadas na Web acusando a FIFA de racismo. 4 – A FIFA responde às acusações por meio de nota que justificava a escolha dos modelos, embasada em experiência internacional e trabalho anterior para a instituição. 5 – A justificativa não cola e então Fernanda Lima vai a campo, questiona a reação do povo na web, defendendo-se como cidadã que paga impostos e “branquinha” perseguida que “não tem nada a ver com o racismo”. 6 – Não contente, ela usa o programa de televisão do qual é apresentadora para responder a um debate que ocorreu em blogues e nas redes sociais. Uma reação típica de modernização conservadora, que considera uma discussão de ponta, de criticidade apurada, como subsídio para produção de mais uma peça de escárnio aos negros brasileiros na TV. Fernanda Lima se veste de colonizadora, canta e dança “cada macaco no seu galho” esvaziando o sentido político da letra: “esse negócio da mãe preta ser leiteira / já encheu sua mamadeira / vá mamar noutro lugar”! A apresentadora ridiculariza o posicionamento que problematizava a escolha da FIFA, transforma o conflito racial em piada e reforça a crença de que o racismo é um problema dos racistas e dos discriminados, não dela, uma “simples pessoa do bem”.

NR – O Emmy dado à telenovela “Lado a lado” atropelou a campeã de audiência “Avenida Brasil”. É um sinal dos tempos?

Cidinha da Silva: Não creio. Penso que seja um sinal alvissareiro, um recado vindo de fora sobre o que deveria ser valorizado e reconhecido aqui dentro, mas não chega a ser um sinal dos tempos. Tecnicamente são dois produtos televisivos excelentes, com interpretações memoráveis de grandes atrizes e atores, entretanto, Lado a lado tem o requinte do tema e da abordagem inovadora das relações raciais e de gênero neste tipo de produto, para ater-me a apenas duas qualidades da novela. Mas não creio que chegue a ser um sinal dos tempos.

NR – Remar, remar, remar e chegar no concurso para eleger a nova Globeleza. Por que a televisão insiste no retrocesso? O público aprecia mesmo?

Cidinha da Silva: Porque a televisão se autocompreende, se projeta e se perpetua como máquina de produção de bobos, de gente acrítica que mantém o status quo, principalmente no que concerne às assimetrias raciais. O papel que a Globo atribuiu a Sheron Mennezes (e ela aceitou) nesta edição da Globeleza é muito triste. Assim o descrevi em crônica recente, intitulada “A roda gigante e o motor da casa grande”: “Em uma das salas da casa grande, outra atriz negra da novela Lado a Lado surpreende a gente altiva ao apresentar-se como pregoeira de um conjunto de bundas e pernas negras naturais (hiper malhadas) ou siliconadas: glúteos, vasto lateral, bíceps da coxa, trato iliotibial. Acém. Cupim. Músculo. Coxão duro. Paleta. E não se sabe que parte da imagem é mais triste e deprimente, a carne de segunda e seu corte de costas ou o filé mignon disfarçado, maquiado, bem vestido, de sorriso angelical e dengoso a serviço do leilão de mulheres no mercado dos corpos.”

NR – Você é bem jovem ainda e já tem uma obra considerável publicada, tanto em livros quanto na internet – sem falar no teatro. Como é lidar com os vários meios e linguagens ao mesmo tempo?

Cidinha da Silva: Obrigada pelo “bem jovem ainda”, Júnia. Eu gosto do dinamismo, ele me alimenta muito e é uma necessidade. Eu comecei a publicar literatura tarde, então tenho muitos projetos acumulados e não tenho mais tanto tempo para desenvolvê-los, porque não comecei aos vinte, comecei aos 39. Por isso trabalho muito e disciplinadamente no pouco tempo deixado pelo trabalho que garante a sobrevivência econômica para dedicação à literatura. A dramaturgia era um sonho que ora realizo com Capulanas Cia de Arte Negra e Cia Os Crespos, grupos de teatro negro de São Paulo. Tem coisas lindas sendo ensaiadas para 2014, tão lindas quanto “Sangoma” e “Engravidei, pari cavalos e aprendi a voar sem asas”, as duas peças deste 2013.

NR – Como você consegue manter a contundência do texto num ritmo tão intenso? Fartura de material nesse nosso Brasil complicado?

Cidinha da Silva: O amigo e bailarino Rui Moreira diz que minha caneta é de Ogum, deve ser por isso. Mas minha meta é ser cada vez mais água, busco a beleza, a alegria, a poesia na escrita. Quero estetoscópios para descobrir a vida que escapa do cotidiano endurecido (e enfurecido). Quero uma espada banhada em mel na mão esquerda e uma caneta de Oxum na outra para traçar o caminho.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Revista Cesárea vem para "subverter o óbvio"


Nascida como “banda de garagem”, revista literária que acaba de surgir propõe resistência e renovação do jornalismo cultural

por Ricardo Viel*

No final de agosto recebi um e-mail de Schneider Carpeggiani (acima, à direita) que dizia assim: “Ricardo, eu estou num projeto de fazer uma revista de literatura pra tablet, a ideia é ver se lanço o primeiro volume dela em novembro como piloto, para ver o mercado. Queria ver se a gente podia conversar sobre esse projeto. Toparia?”. Eu respondi que, se tivesse dinheiro, pagaria para entrar. Três meses depois, a revista está em trabalho de parto. Na próxima quarta-feira, dia 27, a Cesárea – assim se chama – estará à venda nas lojas on-line (nesse primeiro número eu assino um perfil de Daniel Mordzinski, “o fotógrafo dos escritores”).

Schneider e eu não nos conhecemos pessoalmente, mas há mais de um ano trocamos e-mails com frequência. Ele é editor de uma publicação para a qual colaboro, o Suplemento Pernambuco. Do primeiro correio que lhe mandei, em que o chamava de “estimado senhor Schneider Carpeggiani”, até hoje muita água passou debaixo da ponte. Descobri que o editor com nome de personagem histórico tem mais ou menos a minha idade, corte de cabelo moderno – como esses que a juventude de hoje usa, diria minha avó –, que é dj nas horas vagas, e que é um cara simples e cheio de ideias. Nesses meses trocamos impressões sobre jornalismo, literatura e sobre a vida (sobre fracassos, amores e sonhos), e agora estamos ansiosos com a tal Cesárea.

Desde o começo do projeto fiquei curioso para saber como tinha surgido a ideia, quem mais participaria, como seria etc. Até que achei que valia fazer uma entrevista com o Schneider para que mais gente pudesse conhecer a história.

Nota de Rodapé  –  O que é a Cesárea? O leitor pode esperar o que dessa nova revista?
Schneider Carpegianni – Cesárea é uma revista de literatura, a princípio, para iPad, que será vendida trimestralmente na loja da Apple por US$1, 99. Eu não gosto de pensar que a revista vai seguir essa ou aquela linha editorial, apenas parto do princípio de que a base é literatura, ou seja: uma narrativa, real ou não, que subverte o óbvio. Acho que é isso o que me move como editor de texto e a edição de arte de Jaine Cintra (acima, à esquerda), minha sócia. Provavelmente, o segundo número da revista não terá nada a ver com o primeiro, porque pensamos que a edição precisa ser sempre uma espécie de mostra artística, um work in progress. Além da questão dessa raiz literária a revista é pensada a partir da perspectiva de trazer várias vozes e colocar essas vozes diversas de forma horizontal, sem hierarquia para o leitor: nessa edição, por exemplo, temos nomes consagrados como Silviano Santiago, José Castello e outros, ao lado de autores praticamente inéditos. Misturar essas vozes é meio que a nossa pretensão. Acho que é isso o que o leitor poderá esperar a cada três meses: novas visões de um work in progress e um coro heterogêneo falando para ele.

Cesárea é uma revista de literatura, a princípio, para iPad, que será vendida trimestralmente na loja da Apple por US$1, 99. Eu não gosto de pensar que a revista vai seguir essa ou aquela linha editorial, apenas parto do princípio de que a base é literatura, ou seja: uma narrativa, real ou não, que subverte o óbvio. 

NR –  Por que o nome Cesárea?
Cesárea Tinajero é uma personagem do livro “Detetives Selvagens” do Roberto Bolaño, um autor que sou especialista por conta do doutorado que fiz sobre ele. Cesárea desapareceu do mapa e acabou despertando a curiosidade desses detetives selvagens, que acreditam que ao encontrarem Cesárea, encontrarão a salvação na poesia. Bolaño é mestre em criar essas tramas em que somos atraídos por miragens, que seguimos coisas que não se mexem. Acho que em tempos de crise como vivemos, em que todo mundo procura uma solução, uma saída, a metáfora da Cesárea seria perfeita; além disso é um nome próprio, e o Brasil tem tradição de nomes próprios para batizar suas publicações; e esse título também tem razões bem pessoais para mim, na verdade um problema que decidi colocar uma luz neon em cima ao usar o nome Cesárea. Mas a criação é um pouco por aí, sempre.

NR – Como surgiu a ideia da revista? Por que faze-la para plataforma virtual?
A Cesárea surgiu por vários fatores: Jaine Cintra, minha sócia, havia chegado de um ano de curso para publicações para ipad num Portugal corroído pela crise, em que as pessoas estavam desesperadas e pessoas desesperadas do it better, criam soluções; eu estava frustrado após um projeto frustrado com uma revista impressa, que era legal, a ArtFliporto, mas que justamente por ser impressa acabava tropeçando nos problemas das outras, distribuição, falta de controle da editora, essas coisas. Aí juntamos o olhar dela do desespero criativo e a minha criatividade diante da frustração, isso fez surgir a Cesárea. O iPad é a plataforma meio que como o estúdio caseiro, que possibilitou tanta gente a fazer música sem grandes gravadoras. iPad, o tablet, a tecnologia de forma geral é o verdadeiro punk rock: traz independência, ajuda você a fazer as coisas por você mesmo.

A Cesárea é uma forma de resistência, eu não sei ainda se estou resistindo certo, mas estou resistindo. Acho que mais do que um momento de se trazer a verdade absoluta, esse é o momento das pessoas trazerem novas propostas.

NR –  A Bravo! e Sabático morreram. Outros jornais cortaram páginas dos cadernos de Cultura. Criar uma revista literária/cultural numa época dessa é uma forma de resistência?
Eu pelo menos sou de uma geração que é dita migrante, a geração que nasceu no analógico e que vai morrer no digital. Eu não gosto de segurar uma bandeira dizendo: isso é o futuro, tudo acabou e tal. Mas o jornal como é feito hoje em dia é um cadáver em praça pública. Não apenas por conta das notícias que já sabemos na véspera (quando havia só tv nós já sabíamos tudo na véspera), mas por conta de uma certa forma como ele é pensado que datou, esta anacrônico, sobretudo ideologicamente: o jornal ainda quer que a gente acredite que é ele é imparcial. Não existe isenção ou imparcialidade, por favor... A crise no jornalismo é extremamente bem-vinda. Mas estamos no meio dela e não sabemos direito o que fazer com ela, como sair dela, mas é preciso tentar alguma coisa. A Cesárea é uma forma de resistência, eu não sei ainda se estou resistindo certo, mas estou resistindo. Acho que mais do que um momento de se trazer a verdade absoluta, esse é o momento das pessoas trazerem novas propostas. Talvez o futuro seja mais de novas propostas do que de grandes verdades. Se for assim, vou achar ótimo.

NR – Quais as maiores dificuldades que encontrou em colocar em marcha o projeto? Como a revista pretende se financiar? Que significa isso de que funcionará como cooperativa?
Já não é novidade que talvez o futuro do jornalismo seja a cooperativa: um grupo se une e divide os lucros pela venda, como uma grande sociedade; e talvez o futuro seja esse especialização, publicações cada vez mais segmentadas. É arriscado fazer futurologia, mas sem palpite ninguém sai de casa. Todo mundo que participar da Cesárea receberá igualmente uma porcentagem pelas vendas. A diferença vai ser nessa primeira edição, que os primeiros mil downloads serão para pagar o startup do projeto. Como é uma cooperativa, estão todos envolvidos. Eu e minha sócia, Jaine Cintra, tivemos muita sorte porque reunimos alguns dos melhores profissionais do mercado para fazer a revista. Acho que a parte mais difícil vai ser agora, dar continuidade ao projeto, fazer com que ele não morra, ajudar esse projeto a inspirar outras iniciativas semelhantes.

Não é possível hoje em dia ser jornalista sem pensar em design;  ou ser design sem pensar na importância do conteúdo. Uma coisa está atrelada a outra. Acho que isso faz parte da mudança.

NR –  Quem é o Schneider? Quem mais comanda esse barco? 
Digamos que existem Os Cesáreos, algo como uma dupla sertaneja, eu e Jaine Cintra que é diretora de arte e design. Tudo é feito em conjunto, como se fosse um coral, a gente pensa muito parecido em termos visuais e de texto, então é fácil. Não é possível hoje em dia ser jornalista sem pensar em design;  ou ser design sem pensar na importância do conteúdo. Uma coisa está atrelada a outra. Acho que isso faz parte da mudança.

NR –  A Cesárea tem alguma publicação como modelo/inspiração?
Na verdade, é como colocar uma bandeira na lua com essa revista. Em geral as revistas para iPad que tenho observado elas são muito mais de imagem do que texto, o texto é algo meio que decorativo, na verdade as revistas no Brasil de forma geral caíram na falácia de que o leitor quer menos palavras, que quer facilitação, eu não acredito nisso. Com exceção acho que da Piauí as revistas brasileiras têm textos minúsculos, e como nem todo mundo sabe a força de ser sintético, o material acaba ficando superficial. A ideia é justamente fazer uma revista com muito texto, muita palavra, nosso material é literatura, então precisávamos ver como a palavra em si vai se adequar ao universo do tablet.

Tenho muita sorte porque Jaíne Cintra, minha sócia, é genial em transformar o óbvio e o simples em coisas surpreendentes e perturbadoras – na verdade isso é um pouco o que a própria literatura faz, não? 

NR –  O fato de ser virtual significa algumas limitações em relação a uma publicação impressa, mas ao mesmo tempo uma enormidade de vantagens, a começar pelo custo, não é? Tentarão explorar alternativas multimídias?
Eu gosto de dizer que a Cesárea é um projeto punk-rock por excelência. O punk dos anos 70 colocou um pouco isso: você não precisa ser um exímio cantor ou um grande músico para fazer música, você precisava simplesmente fazer. A tecnologia atual, que tanto está afundando as grandes corporações, é punk: qualquer um pode fazer sua revista, seu livro e tal. A revolução digital é muito mais aguda que aquela dos anos 1960, que a gente olha de forma tão romântica, sobretudo porque não vivemos aquele momento. Eu sentia a falta da literatura, do texto da literatura, de entrar nesse universo, é como se a literatura estivesse meio vivendo à margem dessa mudança, o que é uma bobagem, afinal o século 21 é o século da palavra, como o século 20 foi o da imagem. É a palavra que norteia tudo o que fazemos. A Cesárea ainda é, em termos de multimídia, simples. Precisamos de mais recursos. Mas é um work in progress. Nesse primeiro número, por exemplo, há um leitura arrepiante de Luis Henrique Pellanda de uma crônica dele; no segundo número, haverá mais recursos multimídia. Tenho muita sorte porque Jaíne Cintra é genial em transformar o óbvio e o simples em coisas surpreendentes e perturbadoras – na verdade isso é um pouco o que a própria literatura faz, não? Nós temos também uma página no Facebook para divulgar a revista e também notícias de literatura que tenham a ver com o tom da Cesárea e também uma página no mixcloud onde iremos disponibilizar mixtapes para os leitores. O bom de trabalhar nesse tipo de plataforma é justamente oferecer essas outras coisas, que não são necessariamente enfeites da literatura; o problema é que temos ainda uma visão muito restrita do que implica a palavra literatura.

NR –  Só quem tem iPad poderá ler a revista? Como se compra?
A princípio sim, porque até então é a plataforma das empresas que trabalham com revistas desse tipo no Brasil. Mas a partir do ano que vem a revista deve passar para outras plataformas. O leitor poderá comprar a Cesárea na loja da Apple por US$ 1, 99, o valor médio de um app.

 

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

“Biografia jornalística não é showbiz”

Em entrevista exclusiva ao NR, o jornalista e biógrafo Mário Magalhães defende biografias não autorizadas quando a vida privada de alguém tem impacto público

por Moriti Neto*

Enquanto está matéria era escrita, na tarde deste dia 23 de outubro, a Câmara dos Deputados debatia a urgência do projeto de lei que libera biografias não autorizadas no Brasil. E, mais uma vez, o plenário adiou a votação da proposta do deputado Newton Lima (PT-SP), que prevê a publicação das obras, independentemente da autorização da pessoa biografada ou de familiares, e está entre os pontos do projeto de lei de reforma do Código Civil. Pelas regras atuais, o código autoriza a publicação de material biográfico, mas somente se houver permissão prévia.

O objetivo das discussões dos parlamentares era garantir que seja reconhecido o caráter urgente do projeto e que a votação ocorresse nos próximos dias, já que, na semana que vem, os deputados voltarão atenções totais ao Marco Civil da Internet.

A importância da pauta no Congresso aumentou desde que a autorização para a publicação de biografias se tornou debate público neste mês. Essencialmente, as discussões ganharam corpo quando o grupo Procure Saber, encabeçado ou apoiado por artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso e Roberto Carlos, colocou questões como direito à privacidade e divisão de lucros entre biografados e biógrafos no centro da polêmica.

De outro lado, jornalistas, escritores e artistas, caso de Alceu Valença, se posicionaram pela garantia do acesso à informação e estranharam os argumentos de personalidades públicas – defensoras históricas da liberdade de expressão – alinhadas na trincheira da censura prévia.
Mário Magalhães
Foto: Leonardo Aversa/Divulgação.

Em entrevista exclusiva e este NR, o vencedor do Prêmio Jabuti deste ano na categoria biografia, Mário Magalhães, com o livro “Marighella: O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo”, sobre o guerrilheiro Carlos Marighella, se manifesta a respeito da polêmica. Na conversa, ele avalia várias questões, como a postura obscurantista do Procure Saber, a relação público/privado que envolve personagens históricos, o que o jornalismo pode tirar da discussão e afirma que biografia jornalística não é entretenimento.

NR - Na questão das biografias, a ação de restringir a produção tem a ver com controle econômico e político? A preocupação com ataques à honra seria só um disfarce?

Eu seria muito presunçoso se afirmasse “o que está por trás...” O certo é que o grupo Procure Saber defende a manutenção de uma legislação obscurantista e antidemocrática, que impede relatos jornalísticos e historiográficos sem autorização dos retratados ou herdeiros.

NR - Sobre os ganhos pretendidos pelos familiares dos biografados, a discussão a respeito dos valores financeiros é forte. Por quê?

Biografia jornalística é reportagem. A reportagem é um gênero do jornalismo. O pagamento a biografados subverte o conceito de biografia independente e não autorizada. Como pagar a um torturador uma parcela da receita obtida com um livro contando crimes? O padrão das biografias, como no meu caso, é distinto: perde-se muito mais dinheiro do que se ganha. Se os biografados receberem por livros independentes sobre eles, o senador José Sarney também receberá pelos perfis que a imprensa lhe dedica? Biografia jornalística não é entretenimento, showbiz.

NR - Em contextos de regimes democráticos consolidados, se espera que a lei garanta que autores possam biografar sem autorização prévia e que respondam civil e criminalmente em caso de violações. A tentativa de restrição tem a ver com a construção complicada da democracia brasileira e a sombra de autoritarismo?

Embora o Código Civil seja de 2002, parece evidente que ele incorpora vestígios do autoritarismo da ditadura encerrada em 1985. É inacreditável que muitas biografias e perfis publicados durante a ditadura (1964-85) hoje poderiam ser barrados, com base em uma lei do tempo democrático.

NR - Quando uma pessoa tem vida pública intensa e é reconhecida por ela, é natural que a privacidade tenha limites diferentes de quem vive no anonimato, principalmente se ela, a personalidade pública, interfere fortemente na história da sociedade a qual pertence. Por que isso ainda não está consagrado entre a classe artística no Brasil? Ela não deveria se preocupar somente com a publicação de fatos mentirosos?

É uma boa pergunta, a ser feita a quem defende exclusividade de biografias chapas-brancas. De fato, eu não tenho direito de escrever sobre eventuais amantes de uma vizinha, mas seria intelectualmente desonesto se omitisse o vínculo entre D. Pedro I e a Marquesa de Santos. Ainda mais porque ela influenciou o primeiro reinado. A relação privada teve consequências públicas, atingiu a vida dos cidadãos.

NR - Como explicar nomes históricos que lutaram em defesa da liberdade de expressão no País à frente de uma investida que quer liberdade apenas a elogios?

A defesa da censura prévia, assumida por certos artistas, é legítima, embora eu não concorde com eles, mas a adesão de certos gigantes da nossa cultura à tese autoritária é mesmo surpreendente.

NR - Você vê essa situação como algo isolado ou certa tendência ao controle da informação na atualidade?

No caso específico, é uma iniciativa muito isolada, como se viu pela reação de outros artistas e de intelectuais dos mais diversos matizes ideológicos. Do ponto de vista histórico, os poderosos nunca gostaram de liberdade de expressão e de livre circulação de ideias. O poder não é só econômico e político, mas também cultural, esportivo...

NR - Até para o trabalho acadêmico restrições ao direito de abordar a vida de personagens históricos é perigoso?

Restrições devem existir e já estão contempladas na lei, mas a legislação em vigor também atinge a produção acadêmica. Invasão criminosa de privacidade é isso mesmo: crime. Porém, o que isso tem a ver com censura prévia?

NR - Por outro lado, o jornalismo que calunia, difama, injuria, com interesses, por exemplo, políticos, contribui para a existência de uma proposta rasa como essa, que coloca as pretensões financeiras e a vaidade individual acima da história de um País. Como lutar contra isso?

Há muitas maneiras, tanto rejeitando audiência a esse tipo de jornalismo, quanto exigindo punição judicial mais célere a jornalistas que cometem crimes.

NR - Sobre a profissão de jornalista, o que se pode esperar de evolução com esse debate? O que a categoria e as empresas jornalísticas podem fazer para contribuir, além da produção, para a relação com a história e os biografados?

Há dois movimentos em curso. Por um lado, cada vez mais jornalistas sonham em se dedicar a relatos de fôlego, como opção à frustração com o cotidiano do trabalho. Por outro, muitos desistem de escrever biografias, devido à censura prévia permitida pelo marco legal.

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*Moriti Neto, jornalista, repórter e editor-assistente do NR.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Falta tudo, inclusive médicos



O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, falou ao NR sobre alguns aspectos do Mais Médicos, programa federal que pretende levar profissionais da medicina aos rincões do país

por Moriti Neto*

“Onde há profissional médico, ele se torna um catalisador de desenvolvimento para o município, não só em saúde”, diz o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, em entrevista concedida por email a este Nota de Rodapé.

Desde 8 de julho, Padilha roda o País para explicar e defender o programa emergencial Mais Médicos, que pretende levar profissionais de saúde para regiões onde não existem médicos na atenção básica. Mais de dois meses depois do lançamento da iniciativa, sob uma chuva de críticas das entidades médicas, o virtual candidato ao governo do Estado de São Paulo pelo PT em 2014, segue firme no debate.

Neste momento, a questão da segurança jurídica é mais visível do que os embates ideológicos sobre os médicos estrangeiros, especialmente com o acordo para a vinda de 4 mil cubanos até o final deste ano. Durante a semana passada, o Mais Médicos recebeu parecer favorável da Advocacia Geral da União (AGU) para que os Conselhos Regionais de Medicina (CRMs) emitam o registro provisório dos médicos estrangeiros – somente com esse registro, eles poderão atuar no programa.

A questão é que muitos CRMs se recusam a emitir os registros, sob diversas alegações. Uma delas é de que haveria “exercício ilegal da medicina” quando o médico intercambista atua sem a revalidação do diploma adquirido fora do País.

O Conselho Federal de Medicina (CFM), após alguns embates judiciais, orientou que todas as autorizações de trabalho fossem concedidas pelos CRMs. “Nós temos segurança jurídica. O Governo Federal obteve decisões favoráveis em 17 das 29 ações de CRMs de 26 unidades federativas e em dois mandados de segurança no Supremo Tribunal Federal. Até agora, os CRMs de Roraima e do Maranhão foram os únicos que não entraram na Justiça questionando o programa”, diz o ministro.

Num País de grandes dimensões territoriais e populacionais, com apenas 1,8 médico por mil habitantes, índice bastante inferior, por exemplo, aos vizinhos Argentina (3,2 por mil) e Uruguai (3,7 por mil), o ministro ainda acredita no bom senso dos CRMs. “Estou certo que os CRMs terão bom senso com a questão, pois existem milhares de brasileiros dependendo apenas de detalhes para terem atendimento médico”, ressalta.

Foi a ausência de médicos na atenção básica que estimulou o Ministério da Saúde (MS), primeiro, a abrir editais para profissionais brasileiros no programa. Somente no caso de não preenchimento das vagas, são chamados os estrangeiros.

No caso dos cubanos, eles vieram por intermédio de um “acordo de cooperação técnica” da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), ligada à Organização Mundial de Saúde (OMS). “Eles têm grande experiência com medicina familiar e ajudarão a mudar o paradigma do ponto de vista de atenção primária no Brasil e também a cumprir os horários, pois a população sabe que terá o médico todos os dias da semana no município, fazendo visitas, atendendo consultas na unidade de saúde”, garante. Atualmente, há mais de 700 municípios que não possuem nenhum médico. Casos simples, como doenças infectocontagiosas de fácil prevenção, são motivos frequentes de mortes. Essa situação se concentra em periferias de grandes cidades, municípios de interior e nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. Nesses lugares, quem, na maioria das vezes, previne e auxilia os pacientes são enfermeiros e agentes comunitários de saúde. O MS aponta que a atenção básica pode resolver 80% dos problemas.

Sobre a “falta de sensibilidade” citada por Padilha em relação ao Mais Médicos, o ministro diz crer que são poucos os médicos brasileiros que agem dessa forma. “Eles [os médicos] têm o direito de não querer sair de onde estão, de querer atender onde têm raízes, mas, se faltam médicos no Brasil, é nosso dever tomar medidas para garantir atendimento à população desassistida. Vamos levar mais médicos, mais infraestrutura, mais vagas de graduação e especialização para localidades que mais precisam”, enfatiza.

Num “trabalho de formiguinha”, o ministro da Saúde prossegue os diálogos com deputados e senadores, mostrando o diagnóstico da falta de médicos, principalmente em municípios de extrema pobreza, para aprovar a lei que institui o programa.

Formado em medicina pela Unicamp, Alexandre Padilha fez residência médica pelo Núcleo de Medicina Avançada da Universidade de São Paulo (USP), em uma comunidade indígena do Povo Zoé, na cidade de Santarém, no Pará: “Salvei muitas vidas na residência. E não sabia falar o dialeto deles, não sei até hoje. Isso não foi obstáculo para atender pacientes. A falta de infraestrutura também não impediu isso”.

*Moriti Neto, jornalista, repórte e editor-assistente do NR

quarta-feira, 24 de julho de 2013

É tempo de celebrar Wilson Baptista


por André Carvalho ilustração Kelvin Koubik "Kino"*

Wilson Baptista (1913-1968) deu vida, com versos rabiscados em guardanapos e melodias forjadas no batuque de caixas de fósforo, aos tipos mais caricatos das ruas do Rio de Janeiro. Do malandro mais valente ao trabalhador mais “pelego”, do marido machista à mulher da orgia, do carioca flamenguista ao português vascaíno. Cantou a Lapa, a Mangueira, o Salgueiro.

Fez do Bonde 56 o Bonde Alegria, condutor de amores e inspirador de versos musicados. Criou personagens marcantes como Etelvina, Seu Oscar, Chico Brito, Hildebrando, Dona Inês, Emília, Alberto e Nega Luzia. Para celebrar o centenário de um dos grandes nomes da música brasileira, o Nota de Rodapé entrevistou o biógrafo do sambista, Rodrigo Alzuguir, que lançou, no início de julho o livro de partituras “Wilson Baptista – Cancioneiro Comentado”. Em setembro, Alzuguir vai lançar outra publicação sobre o sambista, a biografia “Wilson Baptista – O samba foi sua glória!”. Antes, o produtor cultural, ator, músico e pesquisador já havia produzido o espetáculo musical e o CD duplo que levaram o mesmo nome “O samba carioca de Wilson Baptista”. Alzuguir é imperativo ao afirmar que Baptista, um criador de personagens, foi além da composição, tornando-se um cronista social à frente de seu tempo, autor de aproximadamente 700 letras que viraram canções. 

Nota de Rodapé - Quando Wilson Baptista morreu, amargava o ostracismo, a despeito de sua genialidade. Por quê? 
Rodrigo Alzuguir - Ele morreu em 1968, um ano muito conturbado, de muitos protestos e de uma efervescência política muito grande. Os jornais naquela época só falavam em passeata, revolta, AI-5. Além disso, ele já estava meio esquecido, não chegou a pegar a revitalização do samba que estava começando a acontecer naquela época. Cartola, Nelson Cavaquinho gravaram seus primeiros discos nos anos 70. Se tivessem morrido antes, também teriam chegado com menos força até nós.

NR - Olhando por essa ótica, Noel Rosa é uma exceção, já que morreu muito cedo, ainda nos anos 30, desde então muito celebrado.
RA - Sem dúvida. Ele morreu muito cedo, no auge, e ficou como um mito. E tiveram duas pessoas fundamentais para a memória dele: Aracy de Almeida, que praticamente parou a sua carreira na década de 50 pra ficar gravando Noel, e Almirante, que fez a biografia do Noel, produziu vários programas de rádio e séries sobre ele. Badalou Noel até dizer chega. Noel teve esses dois arautos dedicadíssimos.

NR - E o Wilson não teve alguém que cuidasse de sua obra, seu legado?
RA - Wilson tinha muito orgulho de sua obra, falava com os filhos pra que eles cuidassem daquilo depois que ele morresse. Ele falava que tinha uma “bagagem” muito grande e queria que essas músicas dessem algum retorno, que eles pudessem viver disso. Mas isso nunca ocorreu. A obra dele ficou muito dispersa, inclusive as listagens oficiais, as músicas registradas em editoras, sociedades autorais. As listagens são totalmente incompletas, é uma coisa muito bagunçada. Eles, realmente, não puderam desfrutar disso.

NR - Por que você escolheu o Wilson Baptista para pesquisar? Por que ele dentre tantos outros?
RA - Porque eu acho que ele é o grande injustiçado de sua geração. Foi um dos que mais compôs entre os seus contemporâneos - até agora, levantei em torno de 500 músicas gravadas. Mas, além disso, ele tem uma série de inéditas e vendia muito samba para poder sobreviver (ele vivia de música). Então deve ter chegado a umas 700 músicas compostas. E apesar disso tudo ele era considerado um malandro.
Os próprios amigos dele falam em depoimentos: “Ah, o Wilson nunca trabalhou”. Aí eu fico pensando que é um baita preconceito, né? Porque uma cara que fez 700 músicas, e dizer que nunca trabalhou? É, no mínimo, um preconceito.

NR - E uma obra de extrema qualidade.
RA - Exatamente. Porque ele poderia ter feito 700 músicas medianas. Mas sua obra tem muita qualidade e acho que é até mesmo à frente de seu tempo, tanto em termos musicais, como nas temáticas que ele abordava. O olhar que ele tinha sobre a vida. Ele era um cara muito original pra sua época.

NR - Como você conheceu a obra de Wilson Baptista?
RA - Eu sempre fui apaixonado por essa geração dos anos 30, 40. Acho maravilhoso. Assis Valente, Ari Barroso, Noel Rosa, Ataulfo Alves. E o Wilson era um nome que eu já tinha ouvido falar, mas não conhecia grandes coisas.
Fui conhecer mais seus sambas quando eu fiz o encarte do disco “Ganha-se pouco, mas é divertido”, da Cristina Buarque, em tributo ao Wilson Baptista. Nessa época, em 2000, eu estava trabalhando à beça como designer e fiz a programação visual do Cd. E aí foi um banho de Wilson Baptista. E ela me emprestou bastante coisa, umas fitas do acervo da Collectors. E aí, eu fiquei ouvindo aquilo e vi que ele era realmente especial.

Rodrigo Alzuguir em foto de Jaqueline Machado
NR - E aí te despertou uma atenção especial pelo Wilson Baptista?
RA - É. Aí eu vi que não tinha muita coisa publicada sobre ele. Tinha uma monografia da Funarte (“Wilson Baptista e Sua Época”, de Bruno Ferreira Gomes), e um outro livro, da série “Perfis do Rio” (“Wilson Baptista na corda bamba do samba”, de Luis Fernando Vieira), pouca coisa. Uma introdução ao assunto. Eu achava que merecia um mergulho maior, mas eu não sabia exatamente o que fazer sobre ele.
Então, comecei a pesquisar e reunir todas as gravações que eu pudesse, ouvindo tudo, estudando as letras. Aí eu confirmei minha impressão inicial de que o cara era super moderno e original para época.

NR - Mas você não sabia direito que rumo tomar na pesquisa, né?
RA - O que me despertou mais foi a coisa dos personagens. Ele era um cara que levava isso às últimas consequências. Em “Oh, seu Oscar”, no primeiro verso, já aparecem três personagens: O Seu Oscar chegando em casa, a vizinha que traz o bilhete da esposa, e a esposa. Achei muito teatral isso e queria bolar algo pra teatro.
Depois, fui vendo que a vida dele era muito interessante. E fui entrando em contato com contemporâneos seus que se foram ao longo da pesquisa: Roberto Silva, Jorge Goulart, Dorival Caymmi, Dercy Gonçalves, Emilinha Borba, Roberto Roberti.
Também encontrei a Ceci, do Noel, dançarina de cabaré, que motivou uma espécie de “triângulo amoroso” com o Wilson.

NR - Seria este o tema verdadeiro da “Polêmica”?
RA - O tema verdadeiro foi uma outra dançarina do Cabaré Apolo, antes da Ceci. Essa mulher - o nome dela não ficou registrado - era uma outra dançarina. Noel ficou afim da menina, mas o Wilson chegou antes e ganhou a parada. E o Noel iniciou a “Polêmica”, escrevendo “Rapaz Folgado”, um samba que debochava de um sucesso recente de Wilson, “Lenço no pescoço”.
Depois, o negócio esfriou um pouco e a Ceci apareceu no circuito nesse mesmo cabaré. E ela era de Campos, conterrânea do Wilson. Noel viu ele se aproximar dela e pensou: “Ah, não, de novo, não”. E aí, os ânimos se acirraram um pouco.

NR - Wilson ficou estigmatizado como o “vilão da polêmica com Noel”, para as gerações seguintes?
RA - A “Polêmica” em si trouxe muito mais desvantagem para ele. Porque as pessoas comentam que ele ganhou projeção por conta da “Polêmica”, como se tivesse sido uma coisa boa para a carreira dele. Mas eu acho que foi uma faca de dois gumes, porque trouxe uma certa projeção pra ele, ao passo que ele ficou com um papel de vilão na trajetória de Noel Rosa.
Ele já tinha emplacado um ou dois sucessos antes da “Polêmica” acontecer, e o Noel já era um cartaz, porque ele já tinha bombado com o samba “Com que roupa”, em 1930.
Noel era um jovem talento. De classe média, bem aceito nos jornais, era um artista do rádio. E o Wilson era um cara mais humilde, veio de Campos, era negro, não era um cara que estava acontecendo, que estava na crista da onda.
Quem iniciou a “Polêmica”, na verdade, foi o Noel. O “Lenço no pescoço” não era um samba de provocação a ninguém. Era um samba em que ele retratou um malandro muito bem. E todos os outros sambistas da geração dele já tinham feito samba exaltando malandro, retratando malandro. Inclusive Ari Barroso, Bide e Marçal, todos os caras do Estácio, Sinhô, todos eles, né?
E as pessoas ainda falam que Wilson iniciou a “Polêmica” com Noel. Um absurdo. Noel ficou enciumado com o lance da morena, a dançarina do cabaré, e foi provocar o Wilson. Mas nada além de uma brincadeira entre compositores.

NR - Que talvez tenha ganhado uma proporção maior algum tempo depois. Na época não foi tão falado, não?
RA - Na época ficou como uma piada interna entre os músicos, os frequentadores da Praça Tiradentes, da Lapa, do Café Nice. Não teve a menor repercussão fora dali. As músicas que Wilson fez para Noel nem foram gravadas na época, nem eram pra ser gravadas. Eram piadas, brincadeiras. “Ah, vou responder o fulano”.
O negócio só ganhou forma mesmo, quando o Almirante, nos anos 50, fez a série de rádio sobre o Noel. Era o programa “No tempo de Noel Rosa”, onde ele conta a vida do Noel em capítulos. E um capítulo dessa série fala sobre a “Polêmica”. Então, o Almirante dá uma rearranjada na história, apaga a morena do Cabaré Apolo da história e diz que a motivação do Noel teria sido uma preocupação com os temas poéticos da música brasileira. Mas, na verdade, o Noel era amigo de malandro. Amigo do Baiaco, do Zé Pretinho. Na verdade, aquilo era uma galhofa com o Wilson, não uma crítica à malandragem. Mas para a nossa geração, o Wilson ficou muito associado à “Polêmica”.
Pô, um cara que tem mais de 500 músicas gravadas, um compositor cheio de sucessos, cantado pelos melhores cantores de sua geração, ficar pra gente como “o vilão da polêmica com Noel Rosa” é triste. É uma pena que muita gente só se lembre da “Polêmica”, pois ele é um dos gênios da nossa música. O próprio Paulinho da Viola, uma vez, disse em um programa de televisão: “O Wlison Baptista, pra mim, é o maior sambista brasileiro”.

NR - Voltando a falar sobre a pesquisa que fez para escrever a biografia. Você teve um contato forte com pessoas bem próximas a ele?
RA - Como eu disse, tive a sorte de poder entrevistar pessoas que conviveram bem com ele. Sua irmã, dois de seus filhos, uma ex-companheira, amigos que ele fez nas décadas de 50 e 60. Fora os matusaléns todos que ainda estavam vivos, que citei antes. E fui procurando, também, pesquisadores que já tinham um trabalho sobre o Wilson. O Luis Fernando Viera é um pesquisador que têm entrevistas feitas nos anos 70 com toda essa gente que conviveu com o Wilson e que já havia partido quando eu entrei em campo – como Erasmo Silva, Roberto Martins, Ciro de Souza, Zilda do Zé... Então, eu digitalizei e pude escutar todo esse material, que é fantástico. Luis foi super generoso.
O acervo da Biblioteca Nacional, do Museu da Imagem e do Som, do Instituto Moreira Salles, tudo isso eu vasculhei. E fui procurando as viúvas e os herdeiros dos parceiros dele, que às vezes tinham acervos. Do Ataulfo Alves, do Déo, do Erasmo Silva, do Roberto Martins, que eram grandes amigos e parceiros dele. Um quebra-cabeça, cara, que eu fui montando, e aí já imbuído desse objetivo de escrever a biografia.

Baptista na década de 50 [Arquivo O Cruzeiro]
NR - À princípio, você teve a ideia de fazer o teatro e aí veio a ideia da biografia? Como foi isso?
RA - Inicialmente, eu comecei a pesquisar sem nenhum objetivo, encantado com essa história dos personagens. Aí logo veio essa vontade de fazer a biografia. Achei que era o que eu podia deixar de mais legal, de fruto mais proveitoso, de toda essa pesquisa.

NR - E já faz pelo menos uma década que você já está pesquisando para preparar essa biografia...
RA - Exatamente. E aí, em paralelo a isso, fui encontrando parceiros que trabalham nessa área de projetos culturais e a gente foi colocando em editais algumas derivações dessa pesquisa. O espetáculo, o CD, o songbook. E acabou que essas coisas foram acontecendo antes da biografia ficar pronta. E até, nesses momentos, tive que abandonar um pouco o texto e caí dentro dos projetos, pra eles rolarem. Mas foi bacana porque me trouxe um aprofundamento ainda maior, porque escrevi o texto da peça, cantei o repertório com a Claudinha (Ventura), minha parceira no espetáculo. Então, você vai ficando cada vez mais à vontade dentro daquele universo né?

NR - E o que veio primeiro? A peça ou o CD?
RA - Primeiro veio a peça. E foi bacana porque rolou uma sincronia perfeita. A peça veio através do FATE, o Fundo de Apoio ao Teatro da prefeitura do Rio, que nos deu o patrocínio. Logo depois veio um suporte da Petrobrás para a produção do CD duplo (“O samba carioca de Wilson Baptista”, mesmo nome do espetáculo).
E aí, como a gente estava com tudo organizado, com os arranjos do Roberto Gnattali e do Nando Duarte ensaiadíssimos para a peça, pensamos: “vamos fazer um dos CDs com a trilha da peça, cantados por mim e pela Claudinha, e o outro com repertório raro, inédito, cantado por convidados como Elza Soares, Marcos Sacramento, Céu, Mart ´nália, Cristina Buarque, Rosa Passos...” Os sambas mais desconhecidos com intérpretes conhecidos e o registro da peça. Eu acho que funcionou bem, ficou bem abrangente.

NR - E esses trabalhos todos têm um projeto gráfico comum?
RA - É. Porque como essas coisas a gente faz com pouca grana, eu acabei fazendo a programação visual do CD e do espetáculo. E aí a gente vai aproveitando as ideias e criando uma certa unidade.

NR - E agora, está saindo o livro das partituras.
RA - Aí, a gente conseguiu, através de outro edital, o FAM, que é ligado a música, fazer o songbook, que acabou de ficar pronto. São 105 músicas, tem um perfil biográfico que eu escrevi, uma apresentação do Sérgio Cabral, fotos raras. É um apanhado bem abrangente da obra dele e a gente fez num formato voltado pra músico mesmo – tentamos colocar uma música por página, em um formato de fácil manuseio.
Acho que o Wilson teria o maior orgulho desse trabalho, porque ele falava muito da “bagagem” dele, do seu legado. Então, acho que de todos os projetos, este é o que ele ficaria mais feliz de ver na rua.
Eu dei uma organizada no material dele. Muitas dessas músicas nunca tinham sido editadas. Ou foram editadas só nos anos 40 e nunca mais. Então, foi muito legal.

NR - E como foi a questão da organização das partituras? Como foi o contato com as editoras, para liberação dos direitos autorais, etc?
RA - O Wilson editou em umas seis ou sete editoras diferentes. E encontrei um super parceiro nesse trabalho, que foi Fernando Vitale, da editora Irmãos Vitale. E o Wilson tinha muito samba editado na Vitale. Então, Fernando fez esse meio de campo com as editoras. A nossa parceria com a Vitale foi fundamental.

NR - E esses trabalhos te deram muita base pra aprofundar a pesquisa na biografia, não é?
RA - Eu sou músico. Toco, canto e conheço muito bem o repertório dele. Então, não sou só um cara que tá escrevendo e ouvindo, mas musicalmente não sabe justificar o que está acontecendo ali. Eu tenho formação de músico, e isso facilita. Dá um olhar um pouco diferente sobre o assunto, uma propriedade pra falar. Daí quando vou escrever um trecho que está na peça ou que saiu no encarte do CD, aquilo já está digerido, fica mais fácil.
Acho que foi um processo abençoado. Qualquer um desses produtos que tivesse saído, eu já estaria feliz de ter conseguido fazer. E a gente conseguiu fazer um “combo” de biografia, songbook, espetáculo e CD.
O Wilson era um segredo que estava ali, gritando pra aparecer. O nome dele tem uma fagulha e a parada aconteceu.

NR - Conte mais sobre o processo de pesquisa da biografia.
RA - Eu dei sorte porque tinham algumas pessoas bem interessantes vivas quando eu comecei a pesquisar. O Jorge Goulart era uma fonte maravilhosa, o Roberto Silva, o Caymmi, a Ceci. E também tive a sorte de ter acesso àquele material de entrevistas do Luis Fernando Vieira. Aí pude ter acesso a entrevistas com a maioria dos parceiros do Wilson. O próprio Luis Fernando gostava muito do Geraldo Pereira, do Wilson, e perguntava muito sobre eles para os entrevistados. Então era um material bem precioso.
Além disso, encontrei uma irmã do Wilson, a Dona Yolanda, e uma companheira dele, Alverinda. E cheguei a fazer uma entrevista bem legal com uma filha do Wilson, a Marilza, que tinha 50 anos, mais ou menos, e nunca tinha sido entrevistada. Passou um lado mais pessoal do Wilson. E também falei com um filho caçula dele, Vílson, com “V”, que era um figuraça. Foi uma entrevista muito legal, um contato bacana porque ele me ajudou muito nessas investigações nas editoras, quando eu precisava de uma entrada mais oficial da família pra saber de alguma informação. Eles dois faleceram, não chegaram a ver os projetos acontecendo. A peça eu dediquei ao Vílson, o caçula, que era o maior fã do pai. Então, eu tive essa sorte de encontrar essas figuras-chave.
Eu acho que eu consegui mapear bem a vida do Wilson. Claro que tem trechos da vida dele que são difíceis de investigar, ainda mais ele que não deixava muita pegada, não deixou grandes entrevistas, entrevistas longas. Então, realmente tem coisas que eu até intuo, mas não sei realmente o que aconteceu.

NR - E ele teve uma fase mais reclusa, né? O final da vida dele, que ele já estava afastado da vida artística. Como foi essa época?
RA - Dessa época, eu consegui encontrar bastante gente para entrevistar, porque ele era um cara muito generoso com o pessoal mais novo que ele. Então, tinha muita gente que estava começando naquela época.
Ele estava mais recluso porque estava esquecido. E também estava muito amargo, revoltado. Porque, da geração dele, todos acabaram migrando para cargos burocráticos nas sociedades de autores, compondo num ritmo menor. Wilson não. E foi ficando pra trás.
Ele foi ficando na pior, porque não era mais gravado, não era mais badalado. E passou a ter problemas de saúde, porque ele tinha o coração aumentado. Cardiomiopatia dilatada, eles chamam de “coração de boi”. Tinha falta de ar, taquicardia, náuseas. Estava sem grana, preocupado com o aluguel. Aquelas coisas do Brasil, problemas da vida prática. E aí foi ficando mais recluso.

NR - E como foram as pesquisas em arquivos, jornais, revistas e institutos?
RA - Tem uma ferramenta da Biblioteca Nacional do Rio, que eu acho que vai revolucionar a pesquisa no Brasil. Era uma coisa que eu sonhava que um dia fosse existir: a Hemeroteca Digital Brasileira. É um site da Biblioteca Nacional que tem 700 coleções de jornais e revistas. E dá pra pesquisar por palavra-chave. Antes disso, passei séculos mergulhado nos microfilmes da seção de periódicos da Biblioteca, no centro da cidade.

NR - Ele ficou estigmatizado com a pecha de malandro? Por quê?
RA - Se você for fazer uma estatística da obra dele, tem pouco samba que fala de malandragem. Na verdade, eles sobressaíram porque eram muito bons e faziam muito sucesso.

NR - E quanto ao samba “O Bonde de São Januário”, feito com Ataulfo Alves, em que ele exalta o trabalho e que ficou como um marco dessa virada na temática, antes focada na malandragem e agora na exaltação ao trabalho, por conta da pressão do DIP, do Estado Novo, de Getúlio Vargas. Como você vê isso?
RA - Isso foi uma onda que aconteceu pra todos os compositores. No carnaval de 40, aconteceu um baita festival, chamado “Noite da música popular”, com uma premiação de 50 contos para os vencedores. Foi um escândalo, porque era muita grana. Foi patrocinado pelo Estado Novo, o festival. E quem ganhou em primeiro lugar, entre os sambas, foi “Oh Seu Oscar”, de Wilson e Ataulfo. Então acho que isso gerou uma expectativa para o ano seguinte. No ano seguinte, os compositores ficaram meio que alvoroçados com esta possibilidade de ganhar uma grana com o concurso do Estado Novo.

NR - Era o concurso do carnaval?
RA - Exatamente. Eram eleitos o melhor samba e a melhor marcha. Foi o primeiro e maior festival patrocinado pelo DIP, criado alguns meses antes. Aí, acho que todo mundo ali ficou vendo a oportunidade de fazer o filme com Getúlio, de repente ganhar o concurso de carnaval. Então, todo mundo se alinhou a essa política, da exaltação do trabalho. Mas foi uma coisa curta. Isso não era uma marca do Wilson.

NR - E qual era a marca do Wilson?
RA - A originalidade do Wilson é marcante. Ele tem uma coisa muito forte com personagens. Você encontra personagens na obra de muita gente, né? Mas, na obra do Wilson, isso é levado às últimas consequências. Você tem sambas que são quase minioperetas.

Aracy de Almeida foi a que mais gravou Baptista
NR - O Cabo Laurindo foi um personagem inventado por ele?
RA - O Cabo Laurindo foi inventado pelo Noel, no samba “Triste cuíca”. Depois desse samba do Noel, vários compositores pegaram esse personagem. E o Wilson foi quem mais levou adiante essa história, com uns quatro ou cinco sambas. Tem a Etelvina, personagem que aparece em vários sambas. São muitos sambas teatrais. Ele usava os personagens várias vezes. Às vezes não com o mesmo nome, mas o mesmo “tipo”.

NR - São crônicas sociais, né?
RA - Exatamente. Outra coisa que eu acho muito forte nele: ele foi um dos primeiros a fazer samba pra mulher cantar, na primeira pessoa. Nos anos 40, fazia muito pra Aracy de Almeida, pra Odete Amaral. E são mulheres das mais libertárias. Não é feito de maneira machista. Um cacoete da época é a mulher reclamar do marido, reclamar do malandro. Então era muito comum. Mas as mulheres do Wilson eram mulheres muito à frente do tempo.

NR - Elas iam para orgia...
RA - É! Largam o marido pra pular carnaval. E aí, depois, a sandália estragava de tanto que ela sambava. Tem o samba “Boca de Siri”, em que ela narra a farra dela toda no carnaval, e depois pede pra ninguém contar para o marido. São mulheres meio “Leila Diniz”. Acho essa coisa da mulher muito forte nele também.

NR - Apesar de ter composto “Emília”, que é lembrado até hoje como um samba machista, não é mesmo?
RA - Pois é. Mas se você for ver em quantidade, ele tem muito mais samba em que a mulher é retratada com muita liberdade. Tem o samba “Chinelo velho”, em que a mulher não tá nem aí se o cara vai embora. Então isso é muito raro pra época.

NR - Ele foi um precursor nessa temática?
RA - Eu acho. Essa mulher é da geração da minha avó, a mulher não se separava. Ela ficava em casa presa ao marido e às tarefas do lar. Imagina a mulher roubar dinheiro pra pular carnaval? Depois pedir pra ninguém contar? Era muito engraçado, eu acho demais.
Outra coisa que eu acho muito interessante nele, apesar dele ser considerado o maior sambista por Paulinho da Viola e outras pessoas, ele remava contra a maré de vários clichês do samba. Por exemplo, religiosidade. Que é um tema muito caro ao samba, né? Sambas do Dorival, que falam do Senhor do Bonfim, do Ary Barroso, falando da Igreja da Penha, os padroeiros, os orixás... E o Wilson era avesso a qualquer ritual religioso, ele não tinha a menor ligação ao tema.

NR - Para a nova geração, que está descobrindo o samba e quer conhecer mais os compositores, os grandes intérpretes, por que conhecer o Wilson Baptista?
RA - Por conta dessa originalidade dele como compositor. No campo musical, ele era um compositor que tinha umas soluções de harmonia arrojadas e, ao mesmo tempo, simples, intuitivas. A geração dele, do Geraldo Pereira, trouxe uma coisa de síncope para o samba, um samba mais de bossa, despreocupado com métrica, com rima, um samba um pouquinho mais livre. Que é um samba que as pessoas dançam na gafieira e adoram, porque é cheio de síncope, é bem propício para aqueles passos. Então, musicalmente, eu acho que é um cara muito interessante.
E tudo que eu falei dessa originalidade, desse olhar. Um olhar muito livre de preconceito e livre de sentimentalismo barato. Ele era um cara que não fazia melodrama. As músicas dele têm humor, são criativas, têm originalidade.

NR - E tem questão social, também, não é?
RA - Algumas pessoas se referiam a ele como sambista “filósofo”. Ele dizia que as músicas tinham que ser fortes. Que cada música era um veículo do pensamento. Você consegue extrair das músicas dele um pensamento bacana. Por exemplo, no samba “Chico Brito”, ele afirma: “Se o homem nasceu bom e bom não se conservou, a culpa é da sociedade que o transformou”. Ele era um cara que tirava onda, botava um pensamento de Rousseau no samba.
Era um cara muito à frente do tempo. Acho que se não tivesse a censura do DIP, ele teria ido além. O samba “Lealdade”, também retrata uma relação super moderna. Vamos ficar juntos enquanto cada um gosta do outro. Se você não gostar mais de mim, sinta-se livre para ir embora. Naquela época, as relações eram super hipócritas, os casamentos infelizes se arrastavam até o fim. Ele era avançado mesmo!

Seleção de músicas para celebrar Baptista:



*André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba. Ilustração de Kelvin Koubik, "Kino", colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre

quarta-feira, 1 de maio de 2013

O Tom de Irará


por Marcos Grinspum Ferraz*

Tom Zé surpreendeu mais uma vez. Surpreendeu, primeiro, por fazer propaganda da Coca-Cola, o que gerou críticas fervorosas nas redes sociais. “Vendido! Americanizado!”, bradaram internautas. Mas surpreendeu ainda mais ao lançar, como uma espécie de resposta às críticas, o EP “Tribunal do Feicebuqui”, (baixe grátis aqui) com cinco faixas criadas a partir da polêmica que surgiu.

Surpreendeu também ao lançar músicas com letras como: “Tom Zé mané/ Baixou o tom/ Baba Baby/ Bebe e baba/ Velho babão”; e ainda ao convidar músicos da novíssima geração paulistana para criar e gravar ao seu lado. Tive o privilégio de participar desse processo (como integrante da banda Trupe Chá de Boldo) e nesta coluna, chamada Verbo Sonoro, não me ocorreu assunto melhor do que o novo trabalho desse incrível “velho babão”.

Liguei para Tom Zé na semana passada e perguntei se ele topava bater um papo para ser publicado no Nota de Rodapé. Aceitou e me pediu para aparecer no dia seguinte pela manhã em sua casa. Lembrei de ele comentar que almoçava às 9h, e fiquei preocupado em atrapalhar seus horários de rotina. Quando cheguei ele logo disse: “Não se preocupe, Marquinhos, já almocei. Pra quem tomou café da manhã às 3h, não tem problema”.

Nota de Rodapé – Você está feliz com o resultado do EP?
Tom Zé –
Pra te dizer a verdade, na hora que nós ouvimos as gravações prontas, eu e Neuza (mulher de Tom Zé), foi emocionante, nós achamos lindo, e a Neuza chegou a chorar.

NR – E com a repercussão?
TZ –
Sim. O Marcus Preto que é jornalista [idealizador do projeto] me disse que está muito boa a repercussão. E ele tem longa experiência na área. Estou satisfeito. É assim mesmo, esses altos e baixos do psicológico da pessoa.

NR – No Facebook, às vezes, as mesmas pessoas que elogiam num momento detonam em outro. Falam o que der na telha, né?
TZ –
Como todos nós, né? Nós mesmos que fazemos música, uma hora a gente fotografa a coisa com os olhos de determinada parte da população. Depois a fotografia é uma observação de outro grupo da população... é mais ou menos assim.

NR – É, mas nas redes sociais, às vezes, tem essa coisa raivosa, um lado meio assustador das pessoas.
TZ –
Não, nós todos. Por exemplo, eu não ouço rádio, nem música. Tenho horror à música. Só ouço música de amigos e tal, mas minha inspiração sempre veio mais de situações, de quadros, de teatro ou de outro tipo de arte que não é a própria música. Bom, mas a rádio Cultura FM, por exemplo, toca música erudita. Eu, como passei metade da minha vida no meio de música erudita, e como Beethoven e companhia não concorrem comigo, posso ouvir como se nem fosse música. Já se eu ouço música popular estou ouvindo os concorrentes, estou com o coração palpitando, e a música me ganha. E fica um eterno sofrimento. Então eu ouço música clássica. E quando a rádio Cultura ameaça começar a tocar música popular eu fico em fúria. Se eu fosse deixar minha criança falar ia dizer: “Vão pra puta que pariu! De dois em dois anos vocês inventam essa viadagem atrás de audiência!”. Mas eu não sou o tipo de pessoa que pode fazer isso. Mas as pessoas que podem fazem, é ótimo!

NR – O público se sente meio dono do artista?
TZ –
Não, o público conversa, discute. E tem direito, afinal de contas, se abriram os canais de comunicação para uma pessoalidade que antes da internet era impossível.

"Eu acabei me agarrando 
em música como tábua
de salvação. Não é que eu nasci
para ser músico, nem sei se eu
tenho vocação para isso
"

NR – Mas você ficou chateado ao ler as críticas das pessoas sobre a propaganda da Coca-Cola?
TZ –
Não é chateado. Fiquei preocupado, porque tenho o hábito de tentar falar com essas pessoas que me acompanham. Sempre escolho assuntos que possam interessar, tento chamar a atenção pra certos aspectos do mundo moderno. E quando começaram a falar mal, fiquei preocupado. Mas quando gravei a propaganda, eu nem pensei, só me lembrei de futebol, que gosto, que eu joguei... Quis até ser profissional. Sabe, essa loucura de ter esperança em tudo quanto é coisa. Porque eu acabei me agarrando em música como tábua de salvação. Não é que eu nasci para ser músico, nem sei se tenho vocação para isso. Bom, mas eu fiquei preocupado, e postei aquela mensagem [no Facebook], dizendo que eu sempre tinha trabalhado com eles ao meu lado. Aí muita gente passou a me defender, mas uma pequena parte continuou falando mal, dizendo que “era uma coisa estranha”. E foi aí que o Marcus Preto teve essa ideia de chamar vocês [Trupe Chá de Boldo, O Terno, Filarmônica de Pasárgada, Tatá Aeroplano e Emicida] para tocar junto comigo, que foi uma ideia maravilhosa. E teve essa convivência, que é uma coisa alimentadora.

NR – Que coragem chamar esse monte de menino para trabalhar com você...
TZ –
Não, menino não. Eu já conhecia. Para mim, é o caso de dizer que o Brasil está em boas mãos. O Ezra Pound [Ezra Weston Loomis Pound foi um poeta, músico e crítico literário americano] disse que quando a poesia começa a enfraquecer em um país, significa que ele vai perder o comando de si próprio. No Brasil, como música talvez seja mais importante ainda que poesia – é a grande expressão cultural, cantada por gente séria e por gente irresponsável como eu –, então a próxima geração tem o país garantido como um país forte.

NR – Você disse que quando era pequeno, as suas tias comunistas falavam para você não tomar Coca-Cola. O que é isso que a Coca-Cola representa para as pessoas?
TZ –
Naquele tempo, para uma família comunista como a minha, era o principal símbolo do capitalismo. E qualquer garoto podia comprar com alguns centavos. Na Bahia tinha um concorrente forte, que eram os irmãos Fratelli Vita. Faziam uma gasosa de limão, de pera, de maçã, e um guaraná, que depois foi comprado pela Coca-Cola.
Mas é isso, a Coca-Cola continua sendo um símbolo. Você vê, a guitarra elétrica, em certo momento, foi esse símbolo também, o que é uma estupidez enorme. Vocês se esqueceram que um dos primeiros fabricantes de guitarra surgiu na Bahia? Usavam os fundamentos com os quais, depois, os americanos desenvolveram o instrumento. E mesmo assim teve até uma manifestação contra a guitarra no Brasil. O negócio mais fantástico de que eu já ouvi falar na minha vida...

"Como eu não
sou bom músico, eu
acabei nunca tendo um
estilo próprio (...) É por
isso que falam em
renovação "

NR – Os comentários que tenho lido das pessoas, sobre o novo EP, são sobre como o Tom Zé está sempre surpreendendo, reinventando-se. De onde vem essa inquietação?
TZ –
Mas veja bem: se reinventando, não. Primeiro, porque no disco vocês tocam o estilo de vocês, e estou como se fosse um patrono. Segundo, foi o Marcus Preto que teve a ideia, mesmo que em cima de um negócio que eu já tinha feito, que era a “imprensa cantada”. Aliás, o que é EP?

NR – É menor que um disco, tem quatro, cinco faixas...
TZ –
Ah, sim. Mas o negócio de se reinventar merece uma resposta. Como eu não sou bom músico, acabei nunca tendo um estilo próprio. Vou fazendo uma coisa que na hora penso que deve ser interessante para a população. Você podia imaginar que eu faria “Estudando o Pagode”? Que eu pudesse fazer um disco de bossa, que eu nem sabia a batida? Ou depois esse disco de tropicalismo? Porque eu pego um assunto e estudo e tento imitar. Então eu não tenho um estilo, é por isso que falam em renovação.

NR – E a ideia agora é fazer um disco?
TZ –
Isso. E que a gente possa, de alguma maneira, ir lá em Irará tocar. Ou pelo menos eu, se não der pra levar todos, porque tudo é caro. Eu dei o cachê todo da Coca-Cola lá pra banda de Irará. E a Prefeitura de Irará não tem condições de pagar, é paupérrima.

NR – Aliás, você está sempre falando de Irará, mesmo morando há tanto tempo longe. Irará é a sua base?
TZ –
A Neuza diz que eu posso estar em qualquer lugar do mundo, mas que eu não saio de Irará.


*Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Ele enganou o El País?

NR entrevista Tommaso Debenedetti, 43 anos, que se diz professor de literatura e história em Roma, com “vida normal” e pai de “dois filhos”. Ele afirma ser o responsável por plantar a falsa foto de Hugo Chávez publicada na capa do jornal espanhol El País no mês passado. Além desse ato, Debenedetti alega ser o autor de outras mentiras publicadas em jornais e divulgadas na internet nos últimos anos.

por Ricardo Viel, de Lisboa

No último 24 de janeiro o prestigiado jornal espanhol El País cometeu um erro que custou à empresa cerca de 300 mil euros e arranhou profundamente sua credibilidade: publicou uma suposta foto do presidente venezuelano Hugo Chávez sendo operado em um hospital cubano. Como se confirmou em seguida, não era Chávez, mas uma fraude grosseira.

Durante a madrugada daquela sexta-feira, o periódico espanhol, após perceber o erro, colocou em marcha uma operação para resgatar seus exemplares das bancas. Conseguiu, em parte, recuperá-los e substituí-los por outra edição, mas a foto falsa já havia se espalhado pelo internet – onde o jornal também a publicou com destaque em seu site.

Como foi possível que um dos mais prestigiados periódicos do mundo cometesse um erro tão grosseiro? Parte da resposta deu o próprio jornal, ao publicar no domingo dia 26 um extenso relato em que conta, passo a passo, a sucessão de erros cometidos até a publicação da imagem (leia aqui).

Falhas tão absurdas como, por exemplo, não contatar o seu correspondente na Venezuela e nem sua colunista em Cuba. O jornal relata que a foto foi comprada por 15 mil euros de uma agência que prestava serviços ao jornal. Venderam a foto como tendo sido feita por uma enfermeira cubana que tinha familiares na Espanha. Era mentira.

O que o jornal não explica é como essa foto chegou à agência. Um personagem pode ter a resposta. Tommaso Debenedetti é um italiano que ficou famoso em 2010 quando foi desmascarado (o próprio El País publicou uma entrevista muito divertida com ele).

Durante dez anos o jornalista inventou entrevistas que nunca aconteceram e as vendeu para pequenos jornais da Itália. Foram mais de cem, com personalidades como Mijaíl Gorbatchov, Dalai Lama, Joseph Ratzinger, além de dezenas de prêmios Nobel de literatura. Ficou conhecido como o campeão italiano da mentira, e foi descoberto quando o escritor norte-americano Philip Roth, indagado sobre uma suposta entrevista em que criticava Obama, disse nunca ter feito tal afirmação. Foi quando a farsa veio abaixo.

Debenedetti classifica suas mentiras como um “jogo literário” e continua gerando falsas notícias na rede. Recentemente criou um perfil de Vargas Llosa no Facebook e plantou declarações polêmicas publicada por vários meios como sendo do Nobel peruano.

No ano passado, o italiano “matou” o escritor Gabriel García Márquez e Fidel Castro. Agora, assegura ser o autor da falsa foto que o El País publicou. O Nota de Rodapé o entrevistou por email. Leia a seguir.

O "campeão" da mentira Debenedetti (Foto: Stephanie Gengotti / Iberpress / Caters)

NR – Foi você que fez a foto que o El País publicou?
TD – Sim, eu sou o “autor” da falsa foto de Chávez publicada pelo El País. Posso dizer que se tratava de um jogo, um jogo de suplantar midiaticamente uma notícia para denunciar a falta de credibilidade dos meios.

NR– Como foi que criou esse jogo?
TD – No dia 10 de janeiro, por circunstâncias casuais, encontrei no Youtube o vídeo de um homem sendo entubado. Pensei: “parece um pouco a Chávez. Um pouco não, muito!” Portanto, como um jogo, tomei uma foto desse vídeo e a enviei a três agências de notícias, uma na Costa Rica, outra na Venezuela e outra de Cuba. Enviei a foto de uma conta falsa no nome do ministro venezuelano de cultura Pedro Calzadilla. Mandei com as seguintes palavras: o comandante Hugo Chávez hospitalizado em Havana. Não recebi resposta e a foto não foi publicada, mas dois dias depois um homem que se apresentava como jornalista cubano respondeu o correio: “muito importante, vamos enviar a Porto Rico e Madri.” Dias depois a conta de e-mail falsa que eu criei foi bloqueada, não sei por que, e não tive mais respostas. Só na manhã do dia 24 a foto apareceu na capa do El País. Tenho para mim que a foto foi enviada a Madri por jornalistas cubanos com duas finalidades: tirar dinheiro e, sobretudo, desacreditar o El Pais e, de certa forma, a imprensa ibérica.

NR – Teme ser processado? Recebeu algo pela foto?
TD – Ninguém me ameaçou e eu não tenho nenhum medo de ser processado: sou o autor “intelectual” da farsa, mas não tenho responsabilidade nenhuma na publicação da foto por um periódico. Não me deram qualquer dinheiro pela foto.

NR – Crê na versão que o El País dá sobre toda essa história?
TD – Acho que a reconstrução que o jornal faz é justa e verdadeira. Mas eu, como “autor” da foto e quem iniciou sua circulação, posso dizer que o jornal foi claramente vítima de uma manobra política que não deve ser ignorada. Repito: creio que de dentro de Cuba alguém quis desacreditar a imprensa europeia e por isso inventou essa história de que a foto teria partido de uma enfermeira cubana com familiar na Espanha.

NR – Mudando um pouco de assunto. Gostaria de saber sobre as entrevistas que o senhor criou. Como as justifica? Nesses casos o senhor recebeu pelo trabalho?
TD – As entrevistas eram jogos literários. Eu recebi 20 euros por cada entrevista, e só isso. Era um jogo de suplantar a identidade própria da literatura do último século. Eu gostava muito de fazer e a imprensa italiana, onde normalmente ninguém checa qualquer informação, me ofereceu a possibilidade de fazê-lo.

NR – Depois das entrevistas falsas, o senhor partiu para as redes sociais. Criou perfis falsos e plantou notícias. Há alguma surpresa que está preparando?
TD – Continuo com o Twitter e tenho duas grandes surpresas: um texto literário que aparecera assinado por um grande escritor Prêmio Nobel e que é, na verdade, meu. Também sou o autor de vários erros no Wikipédia. Faço para demonstrar como falta credibilidade na internet. Eu aconselharia os jornalistas a ficarem atentos com textos e fotos que são apresentadas como exclusivas. O caso Chávez pode se repetir em outros países.

Finalizada a entrevista durante a semana passada, Debenedetti enviou-me uma nova mensagem, em que dizia:

Posso lhe passar outra informação sobre ideias minhas futuras. As contas do Twitter do Papa (especialmente as em inglês, espanhol e português) não são seguras: é muito fácil encontrar o password e entrar. Se o Vaticano não muda seus critérios, será possível para mim escrever tweets com o nome do Papa. A mesma fragilidade de senhas há no Brasil com duas personalidades. Um famosíssimo escritor e um político. Saudações, Tommaso Debenedetti

Ricardo Viel, jornalista, atualmente em Lisboa, Portugal, é colunista do NR
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