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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Lina Bo Bardi: a arquiteta-antropóloga

CENTENÁRIO: autora de projetos famosos, como os do Masp e do Sesc Pompeia, Lina Bo Bardi, que ainda na Itália juntou-se à resistência antifascista e se dizia “stalinista”, alcança um nível de reconhecimento que não teve em vida.

por Marcos Grinspum Ferraz
[texto originalmente escrito para a revista Retrato do Brasil]

Lina Bo Bardi, nascida em Roma, na Itália, em dezembro de 1914, não só escolheu o Brasil como pátria, como foi apaixonada por este país, suas paisagens e culturas. Como ela mesma escreveu: “Naturalizei-me brasileira. Quando a gente nasce, não escolhe nada, nasce por acaso. Eu não nasci aqui, escolhi este lugar para viver. Por isso, o Brasil é meu país duas vezes, e eu me sinto cidadã de todas as cidades, desde o Cariri ao Triângulo Mineiro, às cidades do interior e da fronteira”. Mas, se a arquiteta escolheu o Brasil com tamanha convicção, o Brasil não parece tê-la aceitado, ou compreendido, do mesmo modo. Hoje celebrada como um dos maiores nomes da arquitetura mundial da segunda metade do século XX, sendo tema de exposições, livros, artigos de jornais e estudos acadêmicos, Lina não teve o mesmo reconhecimento em vida.

Na verdade, de 1946, quando desembarcou no Brasil, até sua morte, em 1992, a arquiteta enfrentou uma série de dificuldades na carreira, passou por longos períodos de ostracismo e deixou, ao todo, não mais de dez obras construídas. Entre elas estão algumas das mais notáveis edificações do Brasil moderno, como o Museu de Arte de São Paulo (Masp), o Sesc Pompeia (ambos na capital paulista) e o restaurado Solar do Unhão (em Salvador), mas poderia ter deixado mais. E, se é difícil explicar com precisão os motivos de tantas adversidades – que passam pelos fatos mais óbvios de ser mulher em uma sociedade machista, ser “estrangeira” em tempos de nacionalismo ou, ainda, ser casada com um sujeito polêmico, como Pietro Maria Bardi –, há algo notável sobre a arquiteta que se relaciona à maioria de seus fracassos e sucessos: Lina não seguiu padrões, modelos prontos e modismos, nunca escolheu os caminhos fáceis e não hesitou em experimentar, subverter e ir contra os discursos hegemônicos na política ou na cultura. Sem se enquadrar – mesmo dentro do modernismo ou da esquerda –, ela fez da arquitetura sua arma para a transformação do mundo em um lugar mais igualitário e “humano”. Incomodou e por isso pagou preços, mas deixou, ao fim, um valioso legado para a arquitetura e para o País.

“Hoje as pessoas veem a obra dela com certa esperança, com grande frescor, algo que não houve à época”, diz Zeuler Lima, professor da Washington University em Saint Louis (EUA) e autor de extensa pesquisa sobre Lina. “O discurso modernista também não abria espaço para certos experimentos, e acho que a obra dela foi bastante experimental, não só do ponto de vista tecnológico, prático, mas também na maneira como ela pensava.” O pesquisador costuma dizer que Lina foi uma arquiteta moderna, mas não modernista, já que não perseguia uma linguagem específica nem seguia determinadas regras formais em sua produção – ao contrário, por exemplo, de outros grandes, como Oscar Niemeyer. “A Lina constrói com tijolo, concreto, ferro, pedra, barro, palha, com qualquer tipo de coisa”, diz o arquiteto André Vainer, que trabalhou com Lina por cerca de 13 anos, entre 1977 e 1992. “Você olha a cobertura da Casa do Benin [Salvador, 1987], de barro, e compara com o Masp [São Paulo, 1957–1968], são coisas diametralmente opostas, e isso é um sinal de liberdade enorme, de abertura para projetar.”

Construir sem regras técnicas e formais não era algo gratuito, mas parte de uma concepção de que o arquiteto deve entender os contextos sociais e humanos de cada local para poder projetar. Para Lina, cada caso era um caso, e a arquitetura deveria ter como protagonista o ser humano, não o espaço, como ela mesma disse certa vez. “Ela olhava o espaço não como os arquitetos geralmente definem, que é um espaço vazio cartesiano geométrico, mas como os antropólogos definem, que é o espaço vivido”, diz Lima. “Iniciava um projeto com o que ela tinha, seus princípios, mas recebia do mundo e das situações, e esse diálogo criava-se na própria obra.” Quando, num fim de semana, foi pela primeira vez à velha fabrica instalada no bairro paulistano da Pompeia – que seria transformada em uma das sedes do Serviço Social do Comércio (Sesc) – e viu famílias comendo e conversando, com seus filhos brincando, Lina afirmou: “É essa a atmosfera que quero manter aqui”. Nesse sentido, diz Vainer, “a Lina representa um tipo de arquitetura que tem um respaldo com a realidade muito grande, o que é raro hoje. Ela sempre trabalhava a partir de ideias que não eram de arquitetura, mas de relacionamento humano, de sociedade, de justiça entre os homens e de comportamento”.

Se não teve tantas obras construídas, Lina foi incansável em sua produção em diferentes áreas. Foi também designer, cenógrafa, editora de revistas, curadora de museus e exposições e até “estilista” – chegou a desenhar roupas e joias, principalmente nos primeiros anos no Brasil. Mas, na verdade, tudo para ela era arquitetura. As coisas se misturavam, de modo híbrido, e tudo estava dentro de um jeito maior de pensar a profissão, o mundo e o ser humano dentro dele. “Arquitetura, para mim, é ver um velhinho, ou uma criança, com um prato cheio de comida atravessando elegantemente o espaço do nosso restaurante à procura de um lugar para se sentar, numa mesa coletiva”, disse certa vez no Sesc Pompeia. Lina trazia de sua formação em Roma, influenciada pelo professor Gustavo Giovannoni, uma ideia do “arquiteto total”. “Para ela, o arquiteto deve vestir a ‘pele do lobo’: ser cozinheiro para projetar uma boa cozinha, ser aluno e professor para projetar uma boa escola, ser ator e espectador para projetar um bom teatro”, escreve Marcelo Ferraz, arquiteto que trabalhou por 15 anos com Lina.

Para poder se propor a fazer uma arquitetura tão diversa e experimental e conseguir transitar com tamanho êxito por variados campos do conhecimento, ainda mais sendo mulher em meados do século XX, Lina precisava de conhecimentos e ferramentas poderosos. E os tinha, como relembra Vainer: “Uma capacidade de desenho e de síntese impressionante, um entendimento da história da arquitetura, uma postura ideológica muito bem definida e construída e uma postura de liberdade”. Para entender um pouco como isso foi criado, é preciso voltar à vida de Lina desde os primeiros tempos.

Os anos de infância e juventude de Achillina Bo (nome de batismo) na Itália não transcorreram em período tranquilo da história do país. Muito pelo contrário. Se a Primeira Guerra Mundial (1914–1918) acabou quando ela tinha apenas quatro anos, a ascensão do nazifascismo e a tensão do período entreguerras foram vividas de perto pela garota, que, em seus anos de formação, já demonstrava talento excepcional para a pintura e o desenho.

Após se formar na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Roma, em 1939, Lina mudou-se para Milão e foi trabalhar no escritório do célebre arquiteto Gió Ponti. Enquanto aprendia com a prática diária da profissão, Lina logo teve que lidar com a eclosão da guerra, o que a marcou de modo profundo. “Entre bombas e metralhadoras, fiz um ponto da situação: importante era sobreviver, de preferência incólume. Mas como? Senti que o único caminho era o da objetividade e racionalidade, um caminho terrivelmente difícil quando a maioria opta pelo ‘desencanto literário e nostálgico’. Sentia que o mundo podia ser salvo, mudado para melhor, que essa era a única tarefa digna de ser vivida. (...) Entrei na Resistência, com o Partido Comunista clandestino.” Em período pouco propício para a arquitetura – quando prevalecia a destruição, não a construção –, Lina intensificou o trabalho como ilustradora de revistas e jornais e como editora. Foi também aí que assimilou algumas das bases do que seria sua arquitetura até o fim da vida. “Quando as bombas demoliam sem piedade a obra e a obra [sic] do homem, compreendemos que a casa deve ser para a ‘vida’ do homem, deve servir, deve consolar, e não mostrar, numa exibição teatral, as vaidades inúteis do espírito humano. A guerra destruiu os mitos dos ‘monumentos’. Também na casa. (...) Os móveis devem ‘servir’, as cadeiras para sentar, as mesas para comer, as poltronas para ler e repousar, as camas para dormir, e a casa assim não será um lar eterno e terrível, mas uma aliada do homem, ágil e serviçal, e que pode, como o homem, morrer.”

Após chegar ao Rio de Janeiro, em 1946, Lina e Pietro (marchand, crítico de arte e jornalista) foram convidados por Assis Chateaubriand, magnata das comunicações, a ficar no Brasil para criar aqui um museu de arte. Encantada com o novo mundo, terra onde as coisas poderiam florescer livres das amarras do passado – feudal, monárquico, burguês ou de grandes guerras –, Lina convenceu Bardi a ficar. No Museu de Arte instalado na rua 7 de Abril, em São Paulo (sede do grupo Diários Associados, controlado por Chateaubriand), onde o excepcional acervo trazido pelo marido foi acomodado, Lina começou a desenvolver suas primeiras ideias de museu e expografia, que radicalizadas culminaram nos polêmicos cavaletes de vidro do Masp, hoje brutalmente banidos do local. O museu não deveria ser um recanto de memória, um túmulo obsoleto ou um depósito de obras humanas, dizia Lina, mas um lugar vivo e dinâmico, onde devem entrar “luz e ar puro”. Mais do que isso, o museu deveria ser popular, voltado a todos, em uma concepção que pautou todos os seus projetos para espaços coletivos até o fim da vida. “Tirar do museu o ar de igreja, tirar dos quadros a ‘aura’ para apresentar a obra de arte como um trabalho, altamente qualificado, mas trabalho; apresentá-lo de modo que possa ser compreendido pelos não iniciados”, escreveu Lina certa vez.

Inédito: a prisão preventiva de Lina revogada
Após a experiência no museu, para o qual também projetou uma série de móveis, e a criação da revista Habitat, Lina teve sua primeira obra construída em 1951, mesmo ano em que se naturalizou brasileira. A Casa de Vidro, erguida no bairro paulistano do Morumbi, residência construída para morar com Pietro, trazia ainda grande influência da arquitetura racionalista europeia, com a qual Lina tinha tido mais contato até ali. Após ser recusada – em concurso anulado – para dar aula na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo e com o projeto do Masp, construído na avenida Paulista, já em curso, Lina viajou para sua primeira grande estada na Bahia, o que representa talvez a grande transformação em suas ideias e obra.

Convidada para dar um curso e, posteriormente, criar o Museu de Arte Moderna da Bahia, no teatro Castro Alves, a arquiteta entrou em contato com outro Brasil, com a cultura popular e com realidades que desconhecia em São Paulo e no Rio. Lá também projetou a restauração do Solar do Unhão, um importante conjunto arquitetônico de Salvador, e conheceu o cineasta Glauber Rocha, o etnólogo Pierre Verger e outros importantes intelectuais.

Em 1964, de volta a São Paulo, já com as tensões geradas pelo golpe militar, Lina continuou tocando as obras do Masp, inaugurado finalmente em 1968. No entanto, mais engajada com a contracultura e com a luta contra a ditadura, Lina passou a apoiar a guerrilha nos chamados anos de chumbo, num capítulo pouco conhecido de sua vida. Sabe-se que a arquiteta sediou em sua casa reuniões da Ação Libertadora Nacional (ALN), grupo de Carlos Marighella, e foi perseguida pelos agentes da repressão. Com os bons contatos que tinha, principalmente o apoio do marido – homem bem relacionado e não engajado na luta política –, Lina se exilou na Itália por cerca de uma ano, enquanto um processo de prisão corria na Justiça Militar brasileira. Lina voltou em 1971, quando os militares revogaram sua prisão preventiva (imagem ao lado). A posição política da arquiteta, aparentemente bastante à esquerda e engajada quando se analisam episódios como esse, é relativizada por alguns pesquisadores de sua vida, que enxergam uma série de contradições em suas posições ao longo da vida. Lina foi amiga de figuras conservadoras e trabalhou com políticos de direita em certos momentos, ao mesmo tempo em que foi próxima de artistas libertários e chegou a afirmar, mais de uma vez, ser “stalinista”.

Sesc Pompéia, SP: espaço público igualitário e democrático 
“É uma pessoa muito complexa”, diz Vainer. “Às vezes eu fico tentando enquadrá-la, mas a verdade é que não dá. Quando ela dizia que era ‘stalinista’, isso estava muito mais ligado ao papel que Stalin teve durante a Segunda Guerra Mundial, que possibilitou que os Aliados vencessem os nazifascistas, do que a qualquer outro sentido atribuído ao termo, como os relacionados a expurgos, matanças. Ela era mais ligada a uma esquerda mais moderna, desligada do ‘partidão’, da União Soviética. Era heterogênea.” O documento da revogação do pedido de prisão na época da ditadura , por exemplo, foi dado por Lina à Vainer e Ferraz nos anos 1980, em uma pastinha que continha também uma foto de Che Guevara e outra de Lenin. “Ela tinha uma vida burguesa, afinal o Bardi tinha muito dinheiro”, diz Vainer. “E por isso também fez gratuitamente os projetos do Masp e da Igreja de Uberlândia. E acho que isso é também uma espécie de distribuição de renda, uma postura socialista de certa maneira. Algo como: ‘Eu não preciso desse dinheiro, mas quero doar meu conhecimento’.” Seja como for, com suas contradições e coerências – Lina também gostava de chocar, o que deve ser levado em conta –, o fato é que sua arquitetura sempre foi de propósito social, acessível e humanizada. O Sesc Pompeia, para o qual a arquiteta foi chamada após longos anos “colocada de escanteio” pelo poder político e também pela arquitetura dominante, talvez seja a experiência mais bem-sucedida de Lina no sentido de utilizar a arquitetura para criar um espaço democrático e igualitário. Nos anos seguintes, entre 1986 e 1990, já bastante madura e calejada, Lina pôde, em seu segundo período na Bahia, fazer uma série de projetos, como Casa do Benin, Casa do Olodum e Ladeira da Misericórdia – o qual viu ser abandonado e parcialmente destruído ainda em vida. Ali levou ao máximo sua experiência como arquiteta-antropóloga, se assim podemos dizer, investigando e vivenciando intensamente a cultura popular baiana e afro-brasileira.

“Lina tinha um grande idealismo. E isso é diferente de utopia, pois era um idealismo de pensar não o impossível, mas o possível. Pensar um futuro melhor não abstratamente, mas no que existe, no aqui e no agora”, diz Lima. “Ela era uma pessoa extremamente generosa com a arquitetura, com a ideia de que a arquitetura tem um propósito e que ele tem que ser social, humano”, conclui. Com a visão de alguém que conviveu de perto por tanto tempo, com uma experiência não só profissional, mas afetiva e de amizade, Vainer ressalta que a generosidade ia para muito além da arquitetura. “Tanto que ela deu para mim e para o Ferraz isso tudo que temos. Ela nunca regulou conhecimento, sempre nos ensinou, exigiu que a gente tivesse uma postura em relação ao trabalho, às ideias. Quando a gente se conheceu, ela tinha 63 anos, eu 23 e o Ferraz, 22. E acho que ela pensou: ‘Vou pegar esses dois caras, porque eu preciso de alguém para fazer os desenhos e tal, mas também vou pegar para ensinar’.”

Em tempos de arquitetura monumental e extremamente cara, por vezes pouco conectada às realidades e contextos locais, Lina ressurge como outro modo possível de se pensar e fazer. Se isso ocorre um tanto tardiamente, o que importa é que a arquiteta é cada vez mais lembrada e difundida, especialmente no ano de seu centenário. “A obra da Lina não era como essa arquitetura ‘do espetáculo’, que é basicamente um exercício de técnica e virtuosismo, tão distante da realidade do homem”, diz Vainer, referindo-se a uma arquitetura de obras faraônicas que predominou nos anos 1990 e 2000. Na mesma linha, Lima conclui: “A arquitetura de Lina é espetacular, não é ‘do espetáculo’. É de propósito à vida”.

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Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. Crédito da imagem de abertura: Arquivo Joaquim Guedes

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Discoteca de músico: Cesinha Pivetta

por Marcos Grinspum Ferraz   Ilustração de Victor Zalma*

Um defensor engajado do samba tradicional e da cultura popular. É assim o Cesinha Pivetta (no retrato de Marcos Hermes), jovem cantor e compositor paulistano que lançou este ano seu primeiro disco solo, “Nossa Bandeira”, e que desde 2007 é um dos cabeças do Samba do Bule – grupo que se reúne para pesquisar e tocar sambas, e que promove mensalmente uma concorrida roda no Teatro Popular União e Olho Vivo, no Bom Retiro (São Paulo). Quem já assistiu de perto o Bule ou um show do Cesinha – e quem ainda não, deveria – percebe logo sua paixão pela música de raiz brasileira. E assim é feito seu samba, com intensidade.

Seguindo com a proposta de reunir nesta “Discoteca de Músico” artistas dos mais variados estilos, convidei o Pivetta, que conheço desde os tempos de colégio, para fazer aqui as escolhas de discos e clipes que marcaram sua vida. Depois de Tim Bernardes, Rashid, Bruna Caram, Gabriel Basile e Flora Poppovic, ele é o sexto entrevistado da série, que mensalmente traz um artista respondendo às mesmas cinco questões. A ideia é ter, no fim do processo, uma espécie de discoteca/videoteca virtual feita pelos músicos, voltada para o público que quer conhecer mais os artistas ou mesmo que busca sugestões do que ver e ouvir.

E por ser tão mais ligado às linguagens musicais tradicionais, Cesinha subverteu um pouco as regras do jogo aqui na coluna – na parte audiovisual – o que foi muito bem-vindo. Como bom bamba, se saiu bem do impasse de não saber dizer quais os videoclipes que o marcaram positivamente durante a vida. E, ao meu ver, o bom é saber que há de tudo na nova geração da música brasileira: quem faça rock, rap, pop, reggae, música eletrônica, funk, quem misture tudo e também quem se dedique a não deixar a chama do samba tradicional morrer. Vale a pena conhecer o som de Cesinha Pivetta, do Samba do Bule, de Lello di Sarno, do Nervos de Aço e tantos outros.

Um disco brasileiro que marcou sua formação musical

“Partido em 5”. Esse é o registro puro de uma roda de samba. Marcou profundamente pra mim pois ouvi ali o que diversas vezes havia vivido perambulando por aí. Velha, Casquinha, Wilson Moreira, Anézio e Joãozinho da Pecadora contaram com a participação de mestre Candeia e não utilizam recurso especial nenhum para a gravação, ao vivo, de uma sequência de sambas de partido-alto que fui reconhecendo e nunca soube de onde vinham. Neste disco figuram também Luna e Marçal, dois monstros na cozinha que são referência para qualquer amante de batucada como eu.

Um disco gringo que marcou sua formação musical

“Bob Marley and the Wailers, Live” – ‘Nossa, isso é legal também!’. Essa foi minha primeira reação ao escutar esse disco. Sempre fui muito restrito ao samba e em certo momento também ao próprio pagodão, mas em alguns momentos me deixei levar pela música gringa por influência dos colegas, primos... Em casa jazz e blues já tinham o gosto de minha mãe, e sempre passou legal pelos meus ouvidos, fazendo também parte da minha formação. Mas foi quando ouvi Bob que descobri algo que me fizesse querer entender melhor a língua inglesa, que sempre rejeitei. Vi ali um sujeito parecido com bambas do nosso samba, falando e mostrando sua simplicidade e quem sabe, daí, a transformação, a busca de um mundo mais justo.

Um disco lançado nos últimos anos que te marcou profundamente

“Lamento do Samba”, do Paulo César Pinheiro. Este disco me fez ver o samba de uma maneira diferente. Estes versos para mim se tornaram mantras: “O segredo da força do samba/ É a vivência do seu fundamento/ O que faz ser eterno um bom samba/ É a beleza que tem seu lamento.” O samba “Nomes de Favela”, que só conheci com o lançamento deste disco, em 2003, considero um verdadeiro hino.

Um videoclipe que marcou sua formação

“Brincadeira de Criança”, do Molejo. Falar de clipe pra mim é muito difícil, pois nunca tive o costume de acompanhar MTV, etc. Mas lembro bem deste clipe, ele me marcou, talvez negativamente (tinha pesadelos) mas duvido que alguém não se lembre!



Um videoclipe lançado nos últimos anos que te marcou profundamente

Olha....impossível eu conseguir um clipe que tenha me marcado profundamente na última década... não lembro nem de um que tenha visto... Então resolvi inverter tudo aqui sem saber se vale ou não. Vai um curta metragem bem mais velho que a última década sobre partido alto.



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Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. llustração de Victor Zalma, especial para a série

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Discoteca de músico: Rashid


por Marcos Grinspum Ferraz    Ilustração de Victor Zalma*

Michel Dias Costa, o Rashid, não teve um caminho fácil para chegar aonde chegou. Com pouca grana e estrutura, mas muito vigor criativo, começou ainda na adolescência a participar das batalhas de MC e a escrever seus primeiros versos. Nascido na zona norte de São Paulo em 1988, conquistou espaço aos poucos e é considerado um dos principais nomes da nova geração do rap nacional na atualidade. Porque se a vida não deu facilidades, ela “deu caneta e papel”, como ele canta em verso de “Nada Pra Ninguém”.

Rashid na foto de Rafael Kent
Conheci o rap de Rashid no ano passado, por meio do disco “Confundindo Sábios”. Quanto mais ouvi, mais gostei do estilo e das letras, que para além da crítica social e das narrativas urbanas, explicitam também essa energia de Rashid para seguir fazendo música independente de qualidade, sem se deslumbrar com o sucesso. “Sabe por que eu vim?/ Porque eu quero entregar o melhor/ Nem que eu pague com meu suor/ Se esse é o preço pra sonhar”, diz outro verso do MC.

Em janeiro deste ano entrevistei Rashid para a revista Brasileiros (leia aqui) e o papo rendeu bastante. Agora, depois da estreia com Tim Bernardes da banda O Terno (leia aqui) é a vez do rapper ser o entrevistado da série “Discoteca de Músico”, que a cada mês trará um artista respondendo às mesmas cinco questões, sobre discos e videoclipes que marcaram seus caminhos na música e na vida. Discos e vídeos antigos ou atuais, já que parto aqui da constatação de que música boa não para nunca de ser produzida.

A ideia da série é ter, no fim do processo, uma espécie de discoteca/videoteca virtual feita pelos músicos – de variadas idades e adeptos de diferentes estilos –, voltada para o público que quer conhecer mais os artistas ou mesmo que busca sugestões do que ver e ouvir.

Um disco brasileiro que marcou sua formação musical

“Cartola”, os dois, de 1974 e de 1976. Esses discos são de uma riqueza incrível. Alguns clássicos da música brasileira estão aí. Cartola me inspira muito pela sensibilidade e simplicidade da sua escrita, que é crua e extremamente rica ao mesmo tempo. O sofrimento (de amor principalmente) virava uma coisa muito bonita nas palavras dele.

Um disco gringo que marcou sua formação musical

O “Reasonable Doubt”, do Jay-Z. Ele é um dos caras que mais curto lá de fora, e esse disco é um clássico. É o primeiro disco dele. Tem muita coisa boa aí, desde os times de produtores até o conteúdo das letras, que nessa época falavam muito da vida dele no tráfico.

Um disco lançado nos últimos anos (nesta década) que te marcou profundamente

Brasileiro, “Se Me Chamar, Ô Sorte”, do Wilson das Neves. Estrangeiro, “Good Kid, Mad City”, do Kendrick Lamar. O disco do Wilson das Neves foi umas das melhores coisas que escutei ano passado, tanto liricamente, quanto nos arranjos. Um samba muito elegante e de muito bom gosto. Já o do Kendrick foi praticamente uma unanimidade quando saiu (em 2012). Ele trouxe uma riqueza poética que há tempos o Rap “mainstream” norte-americano não apresentava. Esse cara é muito bom, virei fã!

Um videoclipe que marcou sua formação

O Rappa, “O Que Sobrou do Céu”. A música é forte, e quando você junta a essas imagens, vira uma bomba. O roteiro desse clipe é muito bom, e a locação, os atores, todo mundo foi muito bem na minha opinião! Todas as vezes que assisto, ele causa um impacto. Sou fã dos caras também, sempre curti muito, posso dizer que são parte das minhas referências musicais.



Um videoclipe lançado nos últimos anos (nesta década) que te marcou profundamente

Inquérito, “Meu Super Herói”. Inquérito é um grupo de Rap de Campinas, e os caras são bons demais. O Renan é um ótimo letrista e esse clipe é lindo, cara. Fala sobre a falta que o pai dele faz, sobre as lembranças e tal… As imagens são de um bom gosto incrível, e o moleque que é o personagem principal, mandou muito bem. Foi gravado na Favela do Flamengo, na zona norte de São Paulo, perto da minha casa. A direção é do Levi Vatavuk. Foi o primeiro trampo que vi dele, e pirei!




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Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. llustração de Victor Zalma, especial para a série

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Discoteca de músico: Tim Bernardes da banda O Terno

por Marcos Grinspum Ferraz  Ilustração de Victor Zalma*

Antes mesmo de conhecer o Tim, eu já tinha ouvido falar – por meio de alguns amigos – de um tal “moleque” que, com menos de 20 anos, era um baita músico talentoso, tocava muita guitarra e compunha belas músicas. De fato, Martim Bernardes, agora aos 22, tem todas essas qualidades, e isso ficou evidente para mim quando o vi pela primeira vez, em 2012, num show da banda O Terno – da qual ele é membro ao lado de Victor Chaves e Guilherme d’Almeida.

Tim Bernardes na foto de Sérgio Galvão
Foi justamente naquele ano que o power trio de rock’n’roll brasileiro lançou seu primeiro disco, “66”, e começou a fazer shows pelo País. Depois de gravar com Tom Zé em 2013, eles preparam para este ano o segundo álbum da banda, que deve ser lançado em agosto. Ainda bastante jovens, mas mais maduros, certamente vão colocar coisa boa no mundo...

Pois bem. É com Tim Bernardes como entrevistado que estreio aqui no Nota de Rodapé a série “Discoteca de Músico”, que a cada mês trará um artista respondendo às mesmas cinco questões, sobre discos e videoclipes que marcaram seus caminhos na música e na vida. Discos e vídeos antigos ou atuais, vale ressaltar, já que parto aqui da constatação de que música boa não para nunca de ser produzida.

A ideia da série é ter, no fim do processo, uma espécie de discoteca/videoteca virtual feita pelos músicos – de variadas idades e adeptos de diferentes estilos –, voltada para o público que quer conhecer mais os artistas ou mesmo que busca sugestões do que ver e ouvir. Sejam benvindos!

Um disco brasileiro que marcou sua formação musical

Difícil ser só um, hein... Por mais que que eu possa escolher qualquer um da discografia dos Mutantes, vou na verdade escolher o segundo disco do Cassiano. "Apresentamos Nosso Cassiano", de 1973. Desde que eu era muito pequeno esse disco morou no rádio do carro lá em casa e foi dos poucos que eu nunca cansei de ouvir. Pelo contrário, só fui achando ele mais foda a cada uma das milhões de vezes que eu ouvi. Os sons de bateria são insuperáveis, as orquestras, os hammonds, as guitarrinhas toscas (na verdade nada toscas), soa tudo muito bem. As músicas são incríveis, esquisitas, ele canta esganiçado e é lindo ao mesmo tempo... Demais!

Um disco gringo que marcou sua formação musical

O “Pet Sounds”, do Beach Boys, de 1966, é outro que eu conheci quando era criança e fui redescobrindo em várias fases da minha vida. Teve épocas que eu ficava de cara com os vocais, outras que eu pirava na sonoridade, os reverbs, os arranjos, a massaroca fina que é a instrumentação desse disco... Já pirei nas harmonias, em como são mega simples e mega sofisticadas ao mesmo tempo, cheio daquelas inversões lindas que vão se encadeando com uma puta classe. Isso sem falar nas composições. Pra mim, o Brian Wilson não tinha nem que ter grilado no “Sgt. Peppers” dos Beatles porque o “Pet Sounds” ganha de todo mundo.

Um disco lançado nos últimos anos (nesta década) que te marcou profundamente

Teve vários também, especificamente o “Helplessness Blues” dos Fleet Foxes pra mim é uma obra prima. Impressionante o capricho em cada aspecto do disco. Desde cada canção em si como nos jeitos que elas se agrupam no disco. Os arranjos e o som do disco são chocantes, muito fino, muito lindo. Vai além da canção folk, parece um filme foda.

Um videoclipe que marcou sua formação

“Your Life Is A Lie”, do MGMT. Esse clipe é muito doido, uma metralhadora de cenas incríveis meio nonsense, meio engraçado, com uma estética impecável à la Wes Anderson.



Um videoclipe lançado nos últimos anos (nesta década) que te marcou profundamente

Acho que os clipes que mais me marcaram são a maioria de 2010 pra cá. A produção independente de clipes chegou a uma qualidade incrível, então as ideias doidas estão virando clipes fodas sem precisar de gravadora, muita grana, ou um equipamento hollywoodiano. Um cara que eu sou fã dos clipes recentemente é o Tyler, The Creator. O clipe da música "IFHY" é sinistro.



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Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. llustração de Victor Zalma, especial para a série

sábado, 27 de julho de 2013

Um papo com Dominguinhos



por Marcos Grinspum Ferraz*

Quando Dominguinhos completou 69 anos, no início de 2010, comemorou a data com um show no Canto da Ema, tradicional reduto do forró em São Paulo. Eu estava no meu primeiro mês de trabalho na Ilustrada (Folha de S.Paulo) – ainda um pouco tenso de entrevistar pessoas como o mestre da Sanfona e escrever para um público tão grande – e alguns dias antes propus para a editora uma matéria sobre o show. Ela não deu muita bola, mas falou para eu tocar a pauta, porque tentaríamos publicar algo.

Arranjei o contato do sanfoneiro e liguei para fazer a entrevista. Ele atendeu, e o nervosismo logo passou, dada sua voz calma e sua simpatia. O papo foi rápido, mas acabamos conversando não só sobre o show, mas também sobre Carnaval, política e os “50” anos de carreira. A matéria entrou na edição no dia da apresentação, mas com muito menos espaço do que eu desejava e achava que merecia. Por isso mesmo, nessa semana em que Dominguinhos partiu, aos 72 anos, lembrei que havia um material dessa entrevista guardado, que não havia sido publicado. E fui atrás para ver se rendia algo aqui para o Nota de Rodapé. Segue abaixo um apanhado de alguns trechos da conversa:

SHOW DE 69 ANOS

“Todo ano o Paulo Rosa, proprietário do Canto da Ema, tem a preocupação de fazer um show no meu aniversário, com alguns colegas. A turma do nordeste. Os “cabeça chatas” vão todos. E tocar nessas casas de shows pequenas, redutos do forró, tem um gosto especial. Eles dão o maior valor, têm respeito, gostam da música nordestina. O povo dançando a noite toda, brincando o tempo todo... é bonito.”

CARNAVAL E POLÍTICA

“Eu ia fazer uma participação no Carnaval de Pernambuco esse ano. Ao total, são 340 artistas contratados para fazer o Carnaval de lá, entre Olinda e Recife. E aí decidiram não me levar, argumentando que não tinham verba... (risos). Aí você vê: sou de lá, já fiz tantos Carnavais lá... e agem dessa forma, infelizmente. A prefeitura é do PT, e como já fiz coisas pro Fernando Henrique em águas passadas, eles me colocam como adversário. Eu já fiz trabalhos pro PT também, não tem nada a ver... No fim, o show é para o povo, não para governos.”

50 OU 60 ANOS DE CARREIRA? 

“Toco desde os 8 anos. Então seria até 60 anos de carreira mesmo. Mas quando falo 50 e poucos, eu considero quando cheguei aqui no Rio (anos 1950), e me associei a Luiz Gonzaga. Ele me ajudou demais, e eu fiquei praticamente morando com ele. E dali parti para a Rádio Nacional, pras boates todas de Ipanema, Copacabana, Leblon. Antes disso, no NE eu tocava com meus irmãos, em portas de hotéis. Foi em um hotel lá em Garanhuns que eu conheci o Gonzaga. (...) Mas pode colocar aí 60 anos de carreira (muitos risos).”

A SANFONA

“A sanfona nordestina é a mesma sanfona que toca em qualquer gênero. E é um instrumento que está em um momento muito bom. Todo mundo está usando o acordeom. Até em banda de rock. Bom, os ingleses sempre usaram né... no Leste Europeu também. Então somos nós que chegamos atrasados. Mas também, eles são muito velhos, né?! (risos)”.

MESTRE ZINHO 

“Escreve aí também, por favor, que eu lamento muito a perda nessa semana do Mestre Zinho (1943-2010). Era um dos maiores cantores nordestinos”.

*Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

O Tom de Irará


por Marcos Grinspum Ferraz*

Tom Zé surpreendeu mais uma vez. Surpreendeu, primeiro, por fazer propaganda da Coca-Cola, o que gerou críticas fervorosas nas redes sociais. “Vendido! Americanizado!”, bradaram internautas. Mas surpreendeu ainda mais ao lançar, como uma espécie de resposta às críticas, o EP “Tribunal do Feicebuqui”, (baixe grátis aqui) com cinco faixas criadas a partir da polêmica que surgiu.

Surpreendeu também ao lançar músicas com letras como: “Tom Zé mané/ Baixou o tom/ Baba Baby/ Bebe e baba/ Velho babão”; e ainda ao convidar músicos da novíssima geração paulistana para criar e gravar ao seu lado. Tive o privilégio de participar desse processo (como integrante da banda Trupe Chá de Boldo) e nesta coluna, chamada Verbo Sonoro, não me ocorreu assunto melhor do que o novo trabalho desse incrível “velho babão”.

Liguei para Tom Zé na semana passada e perguntei se ele topava bater um papo para ser publicado no Nota de Rodapé. Aceitou e me pediu para aparecer no dia seguinte pela manhã em sua casa. Lembrei de ele comentar que almoçava às 9h, e fiquei preocupado em atrapalhar seus horários de rotina. Quando cheguei ele logo disse: “Não se preocupe, Marquinhos, já almocei. Pra quem tomou café da manhã às 3h, não tem problema”.

Nota de Rodapé – Você está feliz com o resultado do EP?
Tom Zé –
Pra te dizer a verdade, na hora que nós ouvimos as gravações prontas, eu e Neuza (mulher de Tom Zé), foi emocionante, nós achamos lindo, e a Neuza chegou a chorar.

NR – E com a repercussão?
TZ –
Sim. O Marcus Preto que é jornalista [idealizador do projeto] me disse que está muito boa a repercussão. E ele tem longa experiência na área. Estou satisfeito. É assim mesmo, esses altos e baixos do psicológico da pessoa.

NR – No Facebook, às vezes, as mesmas pessoas que elogiam num momento detonam em outro. Falam o que der na telha, né?
TZ –
Como todos nós, né? Nós mesmos que fazemos música, uma hora a gente fotografa a coisa com os olhos de determinada parte da população. Depois a fotografia é uma observação de outro grupo da população... é mais ou menos assim.

NR – É, mas nas redes sociais, às vezes, tem essa coisa raivosa, um lado meio assustador das pessoas.
TZ –
Não, nós todos. Por exemplo, eu não ouço rádio, nem música. Tenho horror à música. Só ouço música de amigos e tal, mas minha inspiração sempre veio mais de situações, de quadros, de teatro ou de outro tipo de arte que não é a própria música. Bom, mas a rádio Cultura FM, por exemplo, toca música erudita. Eu, como passei metade da minha vida no meio de música erudita, e como Beethoven e companhia não concorrem comigo, posso ouvir como se nem fosse música. Já se eu ouço música popular estou ouvindo os concorrentes, estou com o coração palpitando, e a música me ganha. E fica um eterno sofrimento. Então eu ouço música clássica. E quando a rádio Cultura ameaça começar a tocar música popular eu fico em fúria. Se eu fosse deixar minha criança falar ia dizer: “Vão pra puta que pariu! De dois em dois anos vocês inventam essa viadagem atrás de audiência!”. Mas eu não sou o tipo de pessoa que pode fazer isso. Mas as pessoas que podem fazem, é ótimo!

NR – O público se sente meio dono do artista?
TZ –
Não, o público conversa, discute. E tem direito, afinal de contas, se abriram os canais de comunicação para uma pessoalidade que antes da internet era impossível.

"Eu acabei me agarrando 
em música como tábua
de salvação. Não é que eu nasci
para ser músico, nem sei se eu
tenho vocação para isso
"

NR – Mas você ficou chateado ao ler as críticas das pessoas sobre a propaganda da Coca-Cola?
TZ –
Não é chateado. Fiquei preocupado, porque tenho o hábito de tentar falar com essas pessoas que me acompanham. Sempre escolho assuntos que possam interessar, tento chamar a atenção pra certos aspectos do mundo moderno. E quando começaram a falar mal, fiquei preocupado. Mas quando gravei a propaganda, eu nem pensei, só me lembrei de futebol, que gosto, que eu joguei... Quis até ser profissional. Sabe, essa loucura de ter esperança em tudo quanto é coisa. Porque eu acabei me agarrando em música como tábua de salvação. Não é que eu nasci para ser músico, nem sei se tenho vocação para isso. Bom, mas eu fiquei preocupado, e postei aquela mensagem [no Facebook], dizendo que eu sempre tinha trabalhado com eles ao meu lado. Aí muita gente passou a me defender, mas uma pequena parte continuou falando mal, dizendo que “era uma coisa estranha”. E foi aí que o Marcus Preto teve essa ideia de chamar vocês [Trupe Chá de Boldo, O Terno, Filarmônica de Pasárgada, Tatá Aeroplano e Emicida] para tocar junto comigo, que foi uma ideia maravilhosa. E teve essa convivência, que é uma coisa alimentadora.

NR – Que coragem chamar esse monte de menino para trabalhar com você...
TZ –
Não, menino não. Eu já conhecia. Para mim, é o caso de dizer que o Brasil está em boas mãos. O Ezra Pound [Ezra Weston Loomis Pound foi um poeta, músico e crítico literário americano] disse que quando a poesia começa a enfraquecer em um país, significa que ele vai perder o comando de si próprio. No Brasil, como música talvez seja mais importante ainda que poesia – é a grande expressão cultural, cantada por gente séria e por gente irresponsável como eu –, então a próxima geração tem o país garantido como um país forte.

NR – Você disse que quando era pequeno, as suas tias comunistas falavam para você não tomar Coca-Cola. O que é isso que a Coca-Cola representa para as pessoas?
TZ –
Naquele tempo, para uma família comunista como a minha, era o principal símbolo do capitalismo. E qualquer garoto podia comprar com alguns centavos. Na Bahia tinha um concorrente forte, que eram os irmãos Fratelli Vita. Faziam uma gasosa de limão, de pera, de maçã, e um guaraná, que depois foi comprado pela Coca-Cola.
Mas é isso, a Coca-Cola continua sendo um símbolo. Você vê, a guitarra elétrica, em certo momento, foi esse símbolo também, o que é uma estupidez enorme. Vocês se esqueceram que um dos primeiros fabricantes de guitarra surgiu na Bahia? Usavam os fundamentos com os quais, depois, os americanos desenvolveram o instrumento. E mesmo assim teve até uma manifestação contra a guitarra no Brasil. O negócio mais fantástico de que eu já ouvi falar na minha vida...

"Como eu não
sou bom músico, eu
acabei nunca tendo um
estilo próprio (...) É por
isso que falam em
renovação "

NR – Os comentários que tenho lido das pessoas, sobre o novo EP, são sobre como o Tom Zé está sempre surpreendendo, reinventando-se. De onde vem essa inquietação?
TZ –
Mas veja bem: se reinventando, não. Primeiro, porque no disco vocês tocam o estilo de vocês, e estou como se fosse um patrono. Segundo, foi o Marcus Preto que teve a ideia, mesmo que em cima de um negócio que eu já tinha feito, que era a “imprensa cantada”. Aliás, o que é EP?

NR – É menor que um disco, tem quatro, cinco faixas...
TZ –
Ah, sim. Mas o negócio de se reinventar merece uma resposta. Como eu não sou bom músico, acabei nunca tendo um estilo próprio. Vou fazendo uma coisa que na hora penso que deve ser interessante para a população. Você podia imaginar que eu faria “Estudando o Pagode”? Que eu pudesse fazer um disco de bossa, que eu nem sabia a batida? Ou depois esse disco de tropicalismo? Porque eu pego um assunto e estudo e tento imitar. Então eu não tenho um estilo, é por isso que falam em renovação.

NR – E a ideia agora é fazer um disco?
TZ –
Isso. E que a gente possa, de alguma maneira, ir lá em Irará tocar. Ou pelo menos eu, se não der pra levar todos, porque tudo é caro. Eu dei o cachê todo da Coca-Cola lá pra banda de Irará. E a Prefeitura de Irará não tem condições de pagar, é paupérrima.

NR – Aliás, você está sempre falando de Irará, mesmo morando há tanto tempo longe. Irará é a sua base?
TZ –
A Neuza diz que eu posso estar em qualquer lugar do mundo, mas que eu não saio de Irará.


*Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins.

quarta-feira, 6 de março de 2013

De onde vem o Português da padaria?



por Marcos Grinspum Ferraz*

“Flor do Minho”, “Dom João VI”, “Lisboa”, “Flor de Coimbra”, “Cabral”, “Estado Luso”, “Nova Portuguesa”, “Camões”, “Do Porto”, “Lusitana” e até mesmo “Salazar”. São todos nomes de padarias paulistanas, que explicitam um pouco a origem lusa de nossas casas de pães. Pois o fato é que, no Brasil, sempre que pensamos em padarias pensamos na figura do imigrante português. Mas é fato, também, que muito pouco sabemos sobre essa história, ou melhor, sobre o porquê da existência dessa figura já folclórica no país: o “português da padaria”. Interessado no assunto, acabei descobrindo um tanto de coisas. Vamos lá.

Quem já viajou para outros países certamente reparou que não há pelo mundo padarias como a brasileira. Em geral, existem locais que fazem e vendem o pão, mas não espaços onde se pode sentar, comer sanduíches, pizzas e almoçar; tomar café, suco e cerveja; comprar frios, bebidas e até revistas. O curioso é que a nossa padaria, tão tipicamente brasileira e que domina as cidades do país, foi criada não por nativos da terra, mas principalmente por portugueses, em um modelo que não existe nem mesmo em Portugal. Por isso podemos chamá-las, aqui, de luso-brasileiras.

GRANDES MIGRAÇÕES

Apesar de os portugueses terem “descoberto” o Brasil ainda em 1500, a época em que vieram em maiores fluxos para nosso país vai de meados do século 19 a meados do século 20, na época das “grandes migrações”. Entre 1855 e 1914, por exemplo, as estatísticas de Portugal registram cerca de 1,3 milhões de saídas, e quase 90% delas são rumo ao Brasil. Ou seja, em um período de vacas magras na terrinha, os imigrantes – principalmente jovens e do sexo masculino – vinham em busca de novas oportunidades e de uma vida melhor.

Entre os milhares de portugueses que desembarcavam em portos brasileiros, uma parte seguia diretamente para o campo, para trabalhar nas plantações. Eram parte, também, do projeto de “branqueamento” da população levado a cabo pelo Estado. Outro grupo, mais numeroso, ia diretamente para as cidades, sendo Rio e São Paulo os principais destinos. Apesar de saídos principalmente das zonas rurais de Portugal, a vontade maior dos que chegavam ao Brasil era de viver nas áreas urbanas, que prometiam mais dinheiro no bolso e maiores oportunidades de ascensão social.

Eles se estabeleceram nas mais diversas profissões – desde jornaleiros, sapateiros, taberneiros, leiteiros e vendedores de roupas até funcionários da construção civil ou da grande indústria que florescia nas novas metrópoles. Muitos se tornaram também pequenos empresários, e abriram negócios para suprir as novas demandas de consumo de uma população urbana em rápido crescimento no Brasil. Demandas como, por exemplo, por pão.

Com a forte presença de imigrantes de todo o mundo e com o acelerado crescimento das cidades, novos costumes e hábitos alimentares foram se difundindo. A farinha de trigo, por exemplo, começou a ocupar o lugar das farinhas de milho ou mandioca, com as quais se fazia o pão. Até então, pelo meio do século 19, o ramo era comandado principalmente por mulheres, com uma produção ainda caseira e um sistema de distribuição apenas de entrega nas casas e venda nas ruas.

A mudança no quadro se deu pelas mãos de portugueses, espanhóis e, no primeiro momento, principalmente italianos. Surgiram então as primeiras padarias, dominadas por homens, onde se fazia e vendia o pão, com uma estrutura que permitia uma produção regular e em maior escala. Com farinha de trigo importada e fermentação natural, eles produziam o chamado pão caseiro – mais duro e que durava dias –, em padarias como a portuguesa “Santa Teresa” (1872) – hoje a mais antiga em funcionamento no país, em São Paulo – ou a italiana “Popular” (1890).

O DOMÍNIO PORTUGUÊS

Virada para o século 20 e o domínio português no setor já começava a dar sinais. O motivo principal: a invenção do popular pão francês, que de francês só tem o nome. A propagação do uso do fermento biológico, que permitia uma produção rápida, foi sabiamente aproveitada pelos padeiros portugueses, que “lançaram” no mercado o tal pão, pequeno e macio, que saia em várias fornadas ao dia. Os italianos, por sua vez, seguiram fazendo pães mais duros, de casca grossa, que duravam alguns dias nas bancadas. Nada contra os italianos e suas saborosas receitas, mas é claro que o pão francês, fresquinho em diferentes horários, dominou o mercado.

Padaria do Floriano Nunes, em Assis (SP), em 1936.
As entregas feitas em casa com pequenas carrocinhas puxadas por burros também ajudaram os portugueses a ganhar a freguesia. Os clientes viravam fiéis a uma ou outra padaria e a um ou outro carroceiro, criando uma relação de intimidade que envolvia exigências de qualidade e a possibilidade de comprar fiado. Assim, já em 1938, dos 298 sócios registrados no Sindicato dos Industriais de Panificação de SP, 52,4% eram portugueses, seguidos por 26% italianos e 17% brasileiros.

Nas padarias de portugueses do início do século 20, diferentemente de hoje, os lusos ocupavam todos os cargos: eram desde os donos até os masseiros, forneiros, carvoeiros e carroceiros. Vale lembrar que a nacionalidade em comum não impedia o surgimento de conflitos de classe dentro das padarias. Para funcionar até 20 horas por dia, todos os dias da semana, os patrões impunham jornadas aos funcionários de até 18 horas. Muitos jovens moravam dentro das próprias padarias, em cômodos precários cedidos pelos proprietários, perto de fornos, de modo que o controle sob suas vidas era quase total.

Nas décadas seguintes, em meio a demoradas melhoras nas condições de trabalho – resultado de muitas lutas –,  o domínio português no setor da panificação se tornou quase total. Entre os anos 1950 e 1960 – quando desceram aqui mais cerca de 240 mil imigrantes lusos – os portugueses chegaram a ser cerca de 90% dos donos de padarias em São Paulo, e dominaram o ramo  também em Santos, Rio de Janeiro, Belém-do-Pará etc. As padarias foram sendo passadas de pai para filho, como ainda o são em muitos casos, assim como foram transmitidas as técnicas dos padeiros e forneiros. Diferentemente de hoje, em que cursos de formação são comuns, aprendia-se a fazer o pão trabalhando.

AS NOVAS PADARIAS

Hoje, século 21, qualquer bairro ainda tem alguma boa e velha padaria tradicional. Mas as padarias modernas, que dominaram a cena, são diferentes. Cupcakes, sushis, carnes, saladas, frutas, comidas congeladas, vinhos, champanhes e por aí vai; tudo pode ser comprado na padaria. Pois a partir dos anos 1990 um novo modelo revolucionou o setor, após a constatação de que a demanda por produtos “chiques” subia e que a competição com as lojas de conveniência e supermercados aumentava. Desse modo, temos hoje as padarias que ficam abertas 24 horas, com estacionamentos e caixas eletrônicos, farmácias etc.

E, sim, mais uma vez o processo de mudança foi comandado por portugueses e por seus descendentes. Dessa vez, por uma nova geração que teve boa formação e usufruiu de melhores condições de vida que seus pais e avós. A “Dona Deôla”, por exemplo, criada pelos netos da padeira portuguesa Dona Deolinda, se tornou uma bem-sucedida rede e está abrindo a 5a filial. A “Casa dos Pães”, no nobre Jardim América, emprega 520 funcionários, recebe cerca de 8 mil visitantes por dia e vende aproximadamente 900 mil pães por mês. O estabelecimento, claro, é comandado por filhos e netos de imigrantes portugueses.

Assim, cerca de 150 anos após seu surgimento, a padaria brasileira é, paradoxalmente, uma instituição nacional e ainda um lugar um tanto “português”. Em 2007, quando o time da Portuguesa lutava para voltar à primeira divisão do campeonato nacional, os donos de padaria de São Paulo organizaram uma grande arrecadação de dinheiro para premiar os jogadores, caso eles conseguissem levar o clube de volta a elite do futebol. E deu certo. Está claro: mesmo servindo ciabatta, brioche, pão preto, sushi ou cupcake, as padarias brasileiras certamente não abandonarão tão cedo os pasteis de Belém e de Santa Clara, nem os seus nomes ligados à história de Portugal.


*Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura e música. 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Mania de presente

Algumas semanas atrás, sentado na plateia para assistir a um show de homenagem aos 30 anos do disco “Bloco na Rua”, de Sérgio Sampaio, ouvi um comentário rápido que muito me fez pensar. O DJ Zé Pedro, ali ao meu lado, disse: “Velho, as coisas estão acontecendo! A gente é que não dá conta de acompanhar tudo”. No palco estavam Juliano Gauche, Tatá Aeroplano e Gustavo Galo. Ao menos na minha interpretação, Zé Pedro se referia a uma efervescência cultural e criativa na cena musical do país, e ao tanto de bons discos e shows a que temos acesso diariamente. Que fique claro: isso não excluí, de modo algum, o tanto de coisas ruins que também proliferam por aí.

Chegando ao fim do ano, neste último texto de 2012 da coluna Verbo Sonoro, não me ocorreu assunto melhor para tratar do que essa efervescência musical, aproveitando para, junto a isso, combater qualquer mania de passado. Se vou, aqui, listar vários nomes que vem a cabeça, de gente que está produzindo música boa atualmente, este texto não se propõe a fazer nenhum tipo de ranking de “melhores discos do ano” – como é usual nesta época de Papai Noel. Primeiro, porque ninguém dá conta de acompanhar tudo o que surge na música brasileira, o que já torna falha qualquer lista que se proponha “total”. Mas mais do que isso, porque música não é competição, não é feita no ringue; não tem primeiro, segundo e terceiro lugares. Música agrega, soma e multiplica, mesmo que possam existir rivalidades (por vezes tolas) neste meio.

Este texto, de saída, corre riscos. Talvez soe muito otimista; talvez pareça uma “visão parcial” das coisas, já que conheço alguns dos músicos que cito. Bom, seja como for, garanto que não perdi o senso crítico! E, além disso, é importante ressaltar: o manual de redação do Nota de Rodapé (ainda não redigido no papel...) não nos define como um blog “neutro, plural e apartidário”. Sabe esse papo? Então, deixemos o (falso) discurso da neutralidade para a grande mídia...

Bom, voltando. As coisas estão acontecendo. As coisas estão sempre acontecendo, claro, e não estou querendo dizer que os tempos de hoje são melhores ou piores que os de ontem. E se isso parece óbvio, não é tanto assim. Me lembro de, na adolescência, ficar lamentando por não ter vivido nos anos 60, 70 e 80, para poder ter visto ao vivo todos aqueles músicos que eu ouvia aos 15 anos. Sim, eu ainda gostaria de tê-los visto, mas a verdade é que também me satisfaz, e muito, o que temos para ver e ouvir hoje. Como escreveu Gil em “Era Nova”: “Novo tempo sempre se inaugura (...) O tempo que você perdeu, perdeu, não volta”.

Entre shows e discos de trabalhos brasileiros recentes (de 2011 para cá), adentraram meus tímpanos neste ano, e agradaram muito, os sons de Karina Buhr, Céu, Pélico, Romulo Fróes, Passo Torto, Tatá Aeroplano, Bixiga 70, Tulipa Ruiz, Otto, Criolo, Emicida, Racionais, Metá Metá, Batuntã, Afroelectro, Peri Pane, Meno Del Picchia, Zafenate, Curumim, Gaby Amarantos, Los Sebosos Postizos, Herbert Vianna, Márcia Castro, Vintena Brasileira, Loungetude 46 e vários outros. Gente trabalhando com novas linguagens, se reapropriando de sonoridades ou dando continuidade a pesquisas antigas, mas sempre com ideias originais, conectadas aos nossos tempos de conectividade.

Então estamos no paraíso? Uhm, não é isso. Cada um que abra os ouvidos e tire suas conclusões. Só não deixem de abrir os ouvidos, isso é importante. Pois as coisas estão, sim, acontecendo.

Um parênteses aqui. Eu diria também que, de diferentes modos, é gente com muita coisa a dizer, ao contrário do que escreveu Pedro Alexandre Sanches em um texto recente na revista Caros Amigos. Falando sobre a cidade de São Paulo ele argumentou que os músicos do lado de lá do rio (na maioria rappers de origem humilde) tem muito a dizer, enquanto as pessoas do lado de cá do rio não. Pois bem, esse assunto renderia páginas, mas só digo, de passagem, que ter algo a dizer não é apenas fazer música de protesto, nem tem relação direta com classe social – isso seria uma visão muito rasa de arte.

E nesse ponto lembro de algo que Tom Zé me disse em entrevista nesse ano, quando perguntado sobre suas parcerias com Mallu Magalhães, Pélico, Emicida e Rodrigo Amarante: “Digamos que, assim como eu vi o tropicalismo apontar setas para o futuro – não só na profissão de músico, mas em todas as áreas –, eu vejo nesses músicos novos que chegaram perto de mim uma grande capacidade de crítica, de visão. Acho que quando estivermos diante da terceira revolução industrial, com todos os problemas que devem vir, a gente vai precisar no Brasil que os artistas produzam massa mental para fazer frente à essa novidade. Aí, quando eu vejo esses artistas novos, eu penso: pode ter jeito, porque esses caras são de foder! Quer dizer, acho que a música dará sua contribuição.”

Pois bem, aproveitando a referência a Tom Zé, entramos aqui em um outro aspecto fundamental disso que chamo de “efervescência atual”: ela não se refere nem a um único estilo musical, nem a uma geração “etária” específica, mas ao momento em que nós vivemos em sentido mais amplo. Ter 20 ou 80 anos não inclui ou exclui ninguém. E os novos trabalhos de Tom Zé, Caetano Veloso, Chico Buarque e Gal Costa, por exemplo, mostram que modernidade nada tem a ver com idade. São CDs que dão passos à frente e nos instigam a pensar o futuro da música popular brasileira.

Esses trabalhos mostram também como é grande o diálogo entre as gerações. Além de Tom Zé, com os participantes que citei, basta pensar que a banda de Caetano é formada por três jovens (dois deles do grupo Do Amor), que Gal gravou com Kassin e Moreno Veloso e que vários dos novos artistas tem trazido participações de músicos com longa estrada em seus discos e shows: Tulipa com Lulu Santos, Pitanga em Pé de Amora com Mônica Salmaso, Garotas Suecas com Elza Soares, Karina Buhr com Edgar Scandurra, Peri Pane com Alzira E., O Terno com Abujamra, Léo Cavalcanti com Arnaldo Antunes, Cinco à Seco com Lenine e Chico César etc., etc., etc.

Alguns podem argumentar que sempre foi assim, que as gerações sempre dialogaram. Certamente, mas parece que, de fato, há uma notável abertura neste momento por parte dos músicos consagrados para olhar para artistas novos e independentes. E no caso atual, não parece haver por trás disso nenhum grande interesse comercial, o que poderia explicar esses tipos de relação; pois não são gravadoras ou empresários incentivando as parcerias; a troca parece, mesmo, artística.

Então estamos no paraíso? Uhm, não é isso. Cada um que abra os ouvidos e tire suas conclusões. Só não deixem de abrir os ouvidos, isso é importante. Pois as coisas estão, sim, acontecendo. E, mesmo que seja melhor não ser “maníaco”, prefiro ter “mania” de presente do que de passado. É hoje que estamos vivendo. Acabo o texto, assim, citando algumas palavras do grande Belchior, consagradas na voz de Elis Regina: “Você pode até dizer que eu tô por fora, ou então que eu tô inventando. Mas é você que ama o passado e que não vê, é você que ama o passado e que não vê, que o novo sempre vem”. E a música brasileira nos dá boas perspectivas de futuro: que venha 2013!


Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura e música. Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, também colunista do blog, especial para o texto

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Profissão mesário

Com o nome “Verbo Sonoro”, esta coluna se propõe a falar, de modo geral, sobre música e outros assuntos culturais. Em época de eleições, no entanto, abrimos uma exceção: a trilha sonora de hoje é o agudo apito da urna eletrônica; aquele que foi repetido seguidamente nos tímpanos dos mesários das 8h às 17h no último domingo.

Para o eleitor, talvez exista até algum tipo de prazer ao ouvir o “barulhinho” após olhar para a foto do candidato e apertar “confirma”. Mas para quem passa o dia sentado ao lado da máquina – meu caso –, a coisa é um pouco diferente...

Mas sem problemas; este texto não pretende ser uma reclamação mimada por um dia a mais ou a menos de trabalho. Pretende apenas ser um breve relato do dia mais especial (profissionalmente falando) na vida destes cidadãos (os mesários) escolhidos, entre tantos, para uma função tão importante para a democracia.

PELA SEXTA VEZ 
Domingo, dia 7, primeiro turno das Eleições Municipais. Ainda cedo, na porta da sala de aula, um simpático eleitor me vê e diz: “Eu te conheço de algum lugar!”. E eu: “Sim senhor, daqui mesmo, das últimas cinco eleições...”.

Sim, já estive sentado naquela sala do colégio Objetivo, na rua Teodoro Sampaio, em 2004, 2005 (plebiscito), 2006, 2008, 2010 e, agora, em 2012. Nestas últimas duas, inclusive, como presidente de mesa. Como disse um amigo meu, fui reeleito para o cargo (provavelmente o único de presidência que terei na vida).

Cabe aqui um pequeno parênteses. Está definido em lei que a obrigatoriedade, para os convocados, é de trabalhar em apenas quatro eleições. Quando fui protestar da última convocação no cartório, tive a seguinte resposta da secretária: “Só temos registrado aqui que você trabalhou nas últimas três eleições. Nosso sistema foi trocado em 2005, talvez seja por isso”. E por fim: “Eu acredito em você, mas não há nada que eu possa fazer”.

O DIA DA FESTA
Bom, voltemos. Domingo, dia 7, às 6h da manhã, de pé, após uma noitada no Espaço das Américas para ver o show de 30 anos dos Titãs. Ao meu lado, aliás, ali na pista do show, estava o candidato Fernando Haddad, do PT, certamente tentando relaxar um pouco na véspera da votação. Ele cantava alto, como que perguntando sobre seu próprio futuro: “É cedo ou tarde demais pra dizer adeus, pra dizer jamais?”.

Sim, sim, domingo... Desço do carro na Teodoro e caminho por cima dos milhares de santinhos jogados pelas ruas. Entre os nomes espalhados pelo chão (é importante dizer), pude ver os de: Fátima Barreira, Souza Santos, Dr. Augusto, Ricardo Teixeira, Eduardo Sanazar, Chico Valente e Helena Cabeleireira. Nenhum deles foi eleito. Talvez o método de campanha de poluir as ruas com santinhos já não seja mais tão eficiente.

A partir daí, 7h da manhã na seção número 141, o mesmo processo de sempre: cumprimentar os fiscais; imprimir a zerésima – que comprova que a urna não está corrompida –; assinar os papeis; definir o horário de almoço etc. Sob a minha presidência, organizar o horário de almoço é uma das prioridades, pelo bem-estar geral dos mesários.

VOSSA EXCELÊNCIA, O ELEITOR
Ali naquela sala, aparece todo tipo de gente. Ser mesário --usando uma expressão bem clichê, mas verdadeira –, é uma experiência quase “antropológica”. Às 8h forma-se a primeira grande fila. Misturam-se os mais idosos com alguns jovens virados da balada, claramente “pilhados” pelo uso de aditivos. Praticam o melhor voto: o voto inconsciente.

Lá pelas 10h da manhã, como em todos os anos, chega o casal mais simpático daquela seção. Ela, nascida em 1917, com seus 95 anos; ele, de 1924, com 88 --fazem questão de votar, mesmo sem precisar. Quase 70 anos depois de ter que escolher entre Eurico Gaspar Dutra e Eduardo Gomes, em 1945, escolhem agora entre Serra, Haddad, Russomanno ou, sabe-se lá, Soninha e Giannazi.

Na seção 141, o tempo passa devagar. Faz falta uma televisãozinha para assistir o clássico Barça e Real Madrid. Entram e saem jovens e velhos, pais com crianças --algumas felizes, outras transtornadas por terem que entrar em uma sala de aula em pleno domingo--, senhores engravatados e, ainda nos dias de hoje, alguns poucos analfabetos.

APURAÇÃO
É curioso ver o jeito como os eleitores olham para os mesários. Um misto de pena (por não estarmos curtindo um churrasco de domingo) e respeito. Em geral, são simpáticos. “Parabéns para vocês”, disse um homem de uns 50 anos. E outro: “Tá legal aí garotada?”.

No fim do dia, às 17h, encerra-se a sessão. Nós, mesários, sempre ocupados em “servir” os eleitores, não podemos nos esquecer de votar antes disso. Mesário também vota! – no meu caso, na mesma sala em que trabalho.

Ao fim temos que imprimir cinco vias do Boletim de Urna, com o número de votos que cada candidato teve naquela seção. Resultado: 179 para Serra, 59 para Haddad, 38 para Chalita e menos de 20 para Russomanno. Em concordância absoluta com o mapa de votos da cidade divulgado mais tarde, onde as áreas ricas da cidade são território tucano.

No dia 7, portanto, nenhum incidente grave na sessão 141, no Colégio Objetivo da Teodoro Sampaio. Nenhum eleitor quebrando a urna, como aconteceu em outros lugares; nenhum candidato posando para fotos. Apenas os eleitores comuns – até hoje obrigados a votar – e nós, mesários – obrigados a trabalhar pela democracia.

Dia 28 tem mais. Mais apitinho agudo no ouvido.

Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura e música. Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, também colunista do blog, especial para o texto

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Efervescência aeroplânica

No mesmo ano em que comemora os dez anos de sua principal banda, o Cérebro Eletrônico, o cantor e compositor Tatá Aeroplano decidiu dar seu primeiro grande voo solo.

Não que ele já não tivesse feito muitos shows sozinho, participado de dezenas de projetos independentemente de suas bandas (entre elas, Jumbo Elektro e Zeroum) e distribuído algumas de suas composições para que outras vozes as interpretassem. Mas esse ano Tatá entrou em estúdio para gravar seu primeiro disco solo, “Tatá Aeroplano”, e o resultado, mais uma vez, é marcante.

Escrevo aqui sobre Tatá não só pelo disco, mas porque sempre admirei sua mente em ebulição e sua efervescência aeroplânica – uma criatividade que mostra (junto a diversos outros artistas, claro) como é besteira esse papo de que música boa era a que se fazia antigamente.

Esses dias perguntei para o Tatá quantas dezenas de músicas ele já compôs. A resposta: cerca de 1.500. Boa parte delas estão gravadas nas pilhas de fitas cassete guardadas em sua casa.

Desse modo, para quem acompanha a cena musical independente no Brasil, parece até estranho que o compositor ainda não tivesse lançado um álbum só seu, dada sua presença tão marcante no nosso meio. Tatá já compôs, gravou ou tocou junto com Tulipa Ruiz, Bárbara Eugênia, Leo Cavalcanti, Vanguart, com a Trupe Chá de Boldo (da qual faço parte), entre vários outros. No caso da Trupe, ajudou a abrir portas, mostrou sua grande generosidade (sem aquele clima de competição que às vezes se vê no meio musical) e pulou ao nosso lado alguns bons carnavais.

No mês passado fez no Sesc Vila Mariana o show de lançamento do novo disco. Levou ao palco a sonoridade um tanto setentista da gravação (digo “um tanto” porque não é algo datado), misturada à uma poesia narrativa, urbana, por vezes íntima e amorosa, por outras violenta e escancarada. Para acompanha-lo no projeto, reuniu um time já entrosado de músicos: Junior Boca e Dustan Gallas (produtores do álbum), Bruno Buarque e Clayton Martin – além das participações de Bárbara Eugênia e Leo Cavalcanti.

Me recordo que pouco tempo atrás a jornalista Lorena Calabria escreveu em seu blog um texto muito interessante sobre o disco da Trupe Chá de Boldo. Disse, sobre a faixa Na Garrafa: “ela fala de desejo usando metáforas. Drogas que se fumam e que se bebem. Sexo implícito. E também escancarado. Nada de mixaria, tem que ser tudo. Todo. Gostoso. Na Garrafa é o contraponto da pureza e recato dos novos compositores.”

Bom, então que também se tire Tatá Aeroplano dessa lista de “novos compositores”! Nas letras: orgia, porrada, absinto, pó, personagens freaks e loucos, nights purpurina. Sem abandonar uma delicadeza e fluidez que sempre marcaram a poesia e a voz de Tatá.

Li em alguns lugares críticas negativas ao CD, dando a classificação “regular” a ele. Me pus a pensar. Primeiro, não vejo porque definir um disco com número de estrelas; algo taxativo e, em geral, burro. Uma resenha deveria ser capaz de falar do disco sem definir, prepotentemente, quantas estrelinhas a obra merece.

Mas não é esse o ponto. Tentei “entender” o que há de “regular” no ótimo disco de Tatá. Talvez o que incomode esses críticos seja justamente o CD ser um “contraponto à pureza e ao recato” da música que predomina, como disse a Lorena Calabria. Talvez o que incomode seja, por exemplo, uma faixa de dez minutos chamada “Par de Tapas que Doeu em Mim”, que não se enquadra no padrão das rádios, nem da “música fofa”, mas que traz uma narrativa intensa com sexo e porrada.

Bem, a mim não incomoda, mas inspira. E muito.

Um dos textos diz que “os dotes vocais de Tatá não ajudam”. Engraçado, a voz de Tatá sempre me intrigou e encantou pela sua peculiaridade e beleza. Mas, claro, há quem não goste de peculiaridade, e prefira o que é padronizado. Imagino que o crítico que escreveu isso também não deva gostar muito das vozes de Bob Dylan ou Jimi Hendrix...

Pra terminar, coloco aqui a letra de uma música que o Gustavo Galo (da Trupe) escreveu para o Tatá, que chegamos a tocar mas ainda não gravamos. Fala um pouco sobre o que é voar nesse aeroplano. O disco está pra download gratuito em www.tataaeroplano.com







hoje
quero a rua cheia
sem mania de passado
hoje
eu quero a alegria
fora de qualquer nostalgia
me atirar
na orgia
no céu azul
lá em cima
em cima
de você
e muito mais
quero voar
de aeroplano
sem plano
amor
de
aterrissar

Ouça o disco online aqui no NR


Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura e música.(Imagens de Maíra Acayaba)

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

A fase marighelliana de Mano Brown

Clara Charf, viúva de Marighella, com Mano Brown, na
casa dela, em junho de 2011 (Foto: Isa Grispum Ferraz)
Há cerca de três anos, quando minha mãe (Isa Grinspum Ferraz) começou a produção do documentário “Marighella” (sobre o líder comunista e guerrilheiro assassinado em 1969 pela ditadura), ela me perguntou quem seria o rapper mais interessante para fazer uma música para a trilha do filme. A ideia era dialogar também com as novas gerações e com a população de um modo mais amplo, e o rap parecia um bom caminho.

Não precisei pensar muito para responder: “O cara é o Mano Brown. Sem nenhum pingo de dúvida”. Para mim, Brown é não só o maior rapper brasileiro, mas também uns dos maiores gênios da música nacional das últimas décadas. Eu já tinha mostrado para minha mãe, desde a adolescência, faixas como “Homem na Estrada”, “Fim de Semana no Parque”, “Diário de Um Detento” e “Negro Drama”. Lembrando disso, ela topou na hora.

Mas e para ele topar? Todos sabemos que o acesso a Mano Brown não é fácil. E dessa vez não foi diferente. Demorou um ano e meio para conseguirmos fazer ele aceitar a empreitada. A produção do filme já estava bem adiantada. De cara ele pediu para assistir o primeiro corte, de cerca de quatro horas. A partir daí se encantou com a história de Marighella, começou a pesquisar mais e pediu para conhecer Clara Charf, viúva do líder.

As coisas começaram a fluir, até desembocar na música “Marighella: Mil Faces de Um Homem Leal” – que fecha o filme e ganhou clipe.

"ESSE NOME FICOU:
MARIGHELLA"


Brown: "Uma vez falaram que eu parecia com o Marighella"
Recentemente, pouco antes da estreia do filme, foi pedido para que eu fizesse uma entrevista com o Brown para ser usada pela assessoria. Não tive muito tempo de preparar, mas não dava para perder a oportunidade. Algumas perguntas tinham mais a ver com a divulgação do trabalho, e as cortei da versão que publico aqui. Minha intenção, neste NR, não é divulgar filme nenhum, mas sim colocar no mundo essa entrevista em que Brown fala coisas tão interessantes sobre sua identificação com Marighella.

Quando cheguei na casa em que fui encontrá-lo (sede da produtora do clipe), o cumprimentei e tentei puxar assunto. Comentei que estava ouvindo bastante as músicas do começo dos Racionais, como “Voz Ativa” e “Negro Limitado”. Ele me olhou meio estranho e falou: “É mesmo? Você não acha muito radical?”. Fiquei um pouco tenso, e achei que a partir daí a entrevista seria difícil. Mas não, o papo fluiu muito bem, como você verá a seguir.

NR – Como você tomou contato com a história do Marighella?
Brown – Uma vez falaram pra mim que eu parecia com o Marighella. Depois, há uns 8 anos encontrei a Clara (Charf) e ela me falou sobre ele. Aí esse nome ficou: Marighella. Eu sabia que era um cara dos nossos, mas ainda não tinha me aprofundado nas ideias dele. Eu também já tinha ouvido rap’s que citavam ele, e um pouco antes de eu ser chamado pra fazer a música, um amigo meu tinha pichado o nome do Marighella em um muro lá na minha quebrada, junto com outros como Che Guevara, Malcom X, Sabotage... Então eu já estava tendo contato aos poucos.

NR – E o convite para o filme?
Brown – Me disseram que era o filme da sobrinha do Marighella, aí eu falei que topava fazer. Eu, então, pedi pra ver o filme, porque queria ver como era a obra da diretora, eu queria entrar no contexto. Eu tinha que fazer uma música que combinasse com o filme, não simplesmente um rap sobre o Marighella. Tinha que combinar no som, no jeito de cantar, de falar...

NR – E conhecendo melhor a história do Marighella, você concordou que vocês se pareciam? Como foi essa identificação?
Brown – Parece mesmo. A origem dele é a mesma que a minha, baiano com italiano. Preto com branco. O nariz parece... E a adrenalina, ele gostava disso, era sonhador, visionário também. Quase um santo, eu diria. Se você for ver, os grandes heróis da humanidade também tiveram que pegar em armas pra lutar por suas causas. Se matou muito em vão, se matou muito em nome de Cristo também. E o Marighella lutava por uma causa até bem mais justa do que o cristianismo, que era justiça, liberdade de religião, e tantas outras liberdades.

NR – Quando aceitou fazer a música você falou para a diretora: “Eu vou fazer porque não é o seu povo que precisa de heróis, mas o meu povo”. Para quais brasileiros você acha que a história do Marighella serve como lição de resistência, como exemplo?
Brown – O brasileiro no geral. É bom saber que você teve um cara que acreditava na justiça, acreditava no país. Era um cara do povo que acreditava no povo dele. Ele via condições de o Brasil ser grande já naquela época. E via que o que não deixava o país ser grande era a corrupção, a desinformação, a alienação. E ele lutou contra isso de todas as formas, ensinando, sendo político... E num certo momento chegou a conclusão de que contra a força, só usando a força. Contra a força, a força.

"A minha maior inspiração  foi aproximar o Marighella da periferia, mostrar que é um cara como nós (...)"

NR – E a história do Marighella ainda é pouco conhecida de modo geral, principalmente nas periferias, entre as classes baixas... Então o seu rap leva essa história pra muita gente que nunca teve acesso a ela...
Brown – Foi essa a minha maior inspiração, aproximar o Marighella da periferia, mostrar que é um cara como nós. Um cara de um valor inestimável, gigante para a história do Brasil e para a raça negra também.

NR – E sobre o processo de composição do rap, ouvi você dizer que não queria apenas contar uma história, mas “somar”, contribuir com algo novo. Como foi isso?
Brown – Para dialogar com o filme, eu não podia copiar o estilo da diretora. Eu tinha que entender a forma de ver dela, mas fazer a minha, pra somar mesmo. Como se eu colocasse um bonezinho ali em cima do fraque, bem no meu estilo. Então assisti o filme umas quatro vezes, pra ver o caminho que a autora seguiu e seguir um outro complementar, mas diferente. Porque é arte. Música é arte e cinema é arte. São duas artes, elas não podem se copiar. E tem ali no rap a minha visão, claro, mas eu também não quis “entortar” a história do Marighella pro lado que eu quisesse. Quis levar ele pra periferia, mas não “entortar” a história dele pra fazer com que os caras gostassem. Existe uma verdade. Era um cara que gostava de samba, carnaval, de fazer poesia, mas também pegava uma arma e assaltava um banco. É um herói mesmo, que deu a vida por uma causa.

NR – Em “Voz Ativa”, lá no começo dos Racionais, vocês falam que o Brasil precisava de um líder, um herói como Malcom X foi na América...
Brown – Marighella! Se fosse fazer essa música Parte 2 seria o Marighella, com certeza. É um herói brasileiro, mas foi bloqueado ao povo saber da história dele. Porque quando os caras ouvem se identificam rápido. Pensam: porra, era um cara comum, que jogava bola, se fantasiava no carnaval... mas era um monstro, de inteligência e de disposição, de foco. Eu queria ter um cara desses na minha família!

NR – Naquela época (ditadura) havia uma clareza maior de quem era o inimigo, contra o que lutar. Como é a resistência hoje? Contra o que?
Brown – Resistência contra qualquer forma de injustiça. Injustiças cotidianas, pequenas ou grandes. Pequenos racismos, grandes racismos. A luta é fazer a teoria virar prática. Não ficar só falando, mas fazer mais. Às vezes, sair da música e ir pra escola, por exemplo. Nos anos 1990 tudo foi muito cantado, nos anos 2000 tá sendo vivido. Talvez a música tenha dado mais espaço à prática. Se faz o que se cantava nos 90.
Tem muita coisa pra melhorar ainda. No Brasil todo. O país tá mais antenado com o mundo, mas falta muita coisa. Falta escola, universidade gratuita pra todos. Tem muita repressão ainda. Tem ainda uma guerra de poderes no novo Brasil, tem ainda uma esquerda e uma direita. De vez em quando eles convivem, negociam. Mas quando não dá certo quem paga é o povo.

"Marighella é pesado, fui mexer com o cara... foi uma fase marighelliana. Parei tudo pra fazer a música, não tinha como fazer mais nada"
NR – Por que os brasileiros devem ver um filme como “Marighella”?
Brown – Porque o país está em um momento novo e o brasileiro precisa saber que tem gente com a cara dele que faz tempo que é grande. Tem Zumbi, tem Marighella.

NR – E entre várias músicas do Racionais compostas depois do último CD, por que vocês escolheram fazer um clipe justamente de “Marighella”?
Brown – O Marighella precisava de um clipe, de uma apresentação, mostrar a figura dele. E é uma música compacta, que já dava um caminho pro clipe. Foi uma música que foi impactante de fazer. Acima da média. Bati três carros... fiquei doente (risos). Marighella é pesado, fui mexer com o cara... foi uma fase, essa fase marighelliana. Parei tudo pra fazer a música, não tinha como fazer mais nada. É uma puta responsa. Falar de mim é uma coisa, falar de outros é foda.

Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo estreia hoje a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura e música.
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