Queridas e queridos navegantes deste coletivo. Ano que vem está logo aí e vamos, a partir de hoje, tirar umas férias. Nos vemos a partir de janeiro, 14. A seguir uns desejos e reflexões de alguns de nossos colunistas. Boa leitura!
Ana Mendes
"As coisas que não existem são mais bonitas" (Manoel de Barros)
De dois anos pra cá, tenho enfeitado a casa pra virada do ano. Em 2011 recortei tecidos e fiz uma luminária. Esse ano, tô envolvida com velas e rendas. Acho graça. Quem vê a manufatura dos objetos, por dias a fio, me desreconhece. E eu atravesso um período de água. Caibo em qualquer destino. Fico acariciando pensamentos com formato de fita. Não é exatamente uma retrospectiva ou sequer uma projeção. Me enredo na ignorância gostosa sobre o que me reserva o ano seguinte, os dias seguintes, o resto da vida.
André Carvalho
Em 2012, o Nota de Rodapé deu samba. Com a coluna "Batucando", o ritmo mais quente do Brasil ganhou espaço. Com palavras minhas e traços de Kelvin Koubik, exaltamos baluartes como Carlos Cachaça, Ederaldo Gentil, Herivelto Martins e Paulinho da Viola. Agora, como um bom samba de Moreira da Silva, é hora do breque. Se a vida é uma música, ela é feita de sonhos - que são melodias -, e realizações - nossas rimas. Se nossa existência é uma canção, certamente é um samba. Voltamos em janeiro, com os tamborins, surdos e pandeiros numa batucada enfezada!
Fernanda Pompeu
Se você está lendo esta mensagem significa que afinal o mundo não se acabou. Ao contrário, ele segue. Ora firme, ora trêmulo, ora cor de sangue, ora cor do arco-íris. O mundo redondo como nossas cabeças. Prometo para minhas leitoras e leitores – e para meus ilustres colegas do Nota de Rodapé – caprichar (ainda mais) nas webcrônicas. Caprichar é escrever com sinceridade e carinho.
Fernando Evangelista
Queridos e queridas, leitores e leitoras, leitões e leitoas,
Se o mundo não acabar, desejo a todos um 2013 inspirado e
generoso, com muita sorte e muito amor.
Obrigado pelo carinho.
Beijos e abraços.
Izaías Almada
Em 13 de dezembro de 2013, o mundo vai acabar... Até lá tenham todos um feliz natal e um ótimo réveillon.
Júnia Puglia
Participar do NR e manter esta coluna tem sido uma bela e inesperada experiência, graças à equipe do NR e a vocês, leitores e leitoras que nos acompanham. Como esse mundão velho não vai acabar assim fácil, estarei de volta em 2013 pra retomar nossa conversa. Até logo, e tenham um ótimo começo de ano!
Marcos Grinspum Ferraz
2012 foi intenso! Fins e recomeços, voos e aterrisagens,
mortes e nascimentos. Mas se esse papo parece muito pessoal, digo isso porque
um dos voos mais emocionantes foi começar a escrever neste Nota de Rodapé. Um
desafio a cada mês e uma satisfação enorme de fazer parte desse time. 2013 será
também intenso, então, que venha nos dizer a que vem!
Moriti Neto
Ano bom este 2012. Para o NR, sem dúvida, excelente. Que em 2013, este maravilhoso coletivo continue a angariar leitores e colaboradores. E, principalmente, siga a encantar com belas crônicas e a serviço do jornalismo que intervém socialmente. Feliz ano novo!
Ricardo Viel
Há uma frase de Caetano que acho maravilhosa (se fosse de Paulo Coelho, provavelmente eu acharia besta) que diz assim: "É impressionante a força que as coisas têm quando elas têm queacontecer".
Tenho para mim que o Nota de Rodapé tem tanta força porque tinha que acontecer. E foi graças a um editor fantástico (como profissional e como pessoa) que esse projeto, assim meio sem plano, foi ganhando vida, leitores, colaboradores e foi se tornando um espaço diverso e divertido. Estamos – leitores e colaboradores – espalhados por esse mundão, mas há algo que nos une, e é isso que faz com que o NR seja um projeto que já atingiu seu objetivo: ser bonito, alegre e prazeroso para quem faz e lê. Desejo a todos nós, grupo que faz o NR, um 2013 cheio de força. O resto a gente constrói. Um abração. Feliz 2013
Ricardo Sangiovanni
Olha, se há algo que aprendo com esse ofício de jornalista - algo bonito, que rende mesmo uma mensagem de fim de ano - é o exercício do dom divino da apuração. Pois é dom que a graça de Deus (ou da Natureza) nos deu e dará sempre a todos - muito embora nós, oh povo de dura cerviz!, sigamos dele fazendo uso tão encurtado. Aprender, para depois ensinar ao mundo, a apurar (no sentido luso do “depurar”; evite o “apressar” castelhano) é a missão sagrada de todos nós jornalistas. Só apurando é que chegamos a desbastar intrigas, a desfazer mal-entendidos, a escapar de tolos embates maniqueus, a saber de fato quem disse o quê, sobre quem, por quê, quando e como. Só apurando é que aprendemos a aceitar que as relações entre as pessoas são complexas, que a vida não aceita dobrar-se às narrativas fáceis de nossa literatura ruim. Só apurando é que, no mínimo, evitamos dizer maiores bobagens. Portanto, caro leitor, aproveite as reuniões de final de ano para apurar o quanto puder de onde vem aquela rusga com o tio do interior, aquele cenho franzido para a colega de trabalho chata, aquela simpatia falsa com o amigo das antigas que trocou de carro antes de lhe pagar aquela dívida vencida. Apurar faz bem para o espírito. Feliz Natal, Feliz 2013.
Thiago Domenici
O NR virou, meio que sem querer, depois querendo muito, talvez por ter se tornado um vale encantado de bons amigos, de boas ideias, um refúgio pessoal e profissional. Sabe aquele lugar único que você vê algum sentido em trabalhar e também se divertir por algo que julga relevante?
É um pouco como me sinto em relação ao blog. Sem dúvida tem sido uma grande responsabilidade, sobretudo, um grande aprendizado.
2012 foi até agora o nosso melhor ano, ainda mais com o reconhecimento do internauta, que votou para estarmos entre os três melhores blogs profissionais do país na categoria notícias e cotidiano do prêmio TopBlog. E nesse esquema coletivo e colaborativo a gente cresce desde 2008; mais leitores e colunistas trazendo informação e conteúdo de qualidade.
A Fernanda Pompeu, na sua sabedoria, costuma brincar entre nós, que somos o “Barcelona dos Blogs”. Sem o tom pretensioso que isso possa causar em você, pra gente é gostoso pensar que somos ou que podemos jogar bonito sempre. É um estímulo, quer queiramos ou não, precisamos de estímulo pra ir mais adiante.
Às vezes, confesso, é difícil colocar tantas vontades em pratica. Falta braço, perna, tempo... Mas vamos em frente! Enquanto houver leitores, haverá NR. Espero voltar em 2013 mais satisfeito, de um jeito de não caber na gente, que transborda. Desejo a todos força e entusiasmo pelo que vale a pena. Meu pensamento bom, leve para esse fim de ano é: uma taça de vinho, pés relaxados, um sorriso, boas leituras e pensamentos soltos. Saravá!
.
30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sábado, 8 de dezembro de 2012
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Bem guardados
A memória é uma coisa louca: ora generosa, ora torturante, surpreendente, desalentadora, ou tudo ao mesmo tempo. Tem gente que defende a “exatidão” daquilo que lembra, como sendo a verdade, como se a memória fosse desinteressada e pudesse congelar o que aconteceu de forma objetiva. Nada mais enganoso. Cada pessoa que tenha estado presente numa determinada situação terá a sua própria memória do fato, pessoal e intransferível, moldada pela história e pelas características individuais.
Começo assim porque quero falar da infância, assunto que vem me rondando há algum tempo. Quem me companha aqui já leu várias menções à maternidade e aos filhos. Somos todos filhos, todos fomos fetos e bebês, e todos tivemos todas as idades anteriores à que temos hoje. No entanto, é muito comum que, uma vez encerrada determinada etapa da vida, guardemos dela uma memória idealizada. Deixando de lado a vida intrauterina e os três primeiros anos, dos quais poucos de nós se lembram de forma consciente, há uma espécie de consenso de que na infância se concentram as lembranças mais felizes.
Desconfio muito desse artifício. Aprender quem somos, o lugar onde estamos e como devemos nos comportar para obter aceitação e afeto – essenciais, mas nem sempre disponíveis – implicam um processo sumamente complexo e doloroso, que cada um de nós enfrenta como pode. Somos civilizados, enquadrados, moldados para caber naquilo que se espera de cada um, conforme a miríade de variáveis envolvidas na equação individual. Então, não me venham com esse papo de que tudo era lindo e perfeito. Não era, mas pode ter se tornado, para ficar mais confortável na memória.
Sim, é verdade que entre tudo o que eu não entendia e ninguém explicava, porque não há como explicar tudo, e não há como se desviar da dor dos filhos – como um dia desses a Eliane Brum escreveu lindamente em sua coluna semanal – vivi momentos mágicos quando criança. Entre eles, estão: olhar para as letras e entender como usá-las para formar palavras e expressar qualquer coisa – um deslumbramento; a banda de melancia devorada no quintal, com o suco escorrendo pelos braços e pingando dos cotovelos no chão – um prazer quase selvagem de tão intenso; acordar do sono da tarde banhada em suor, por causa do remédio para gripe, e encontrar minha mãe ao lado e uma jarra de Mirinda sobre a mesa. Estão lá, bem guardados, e de vez em quando os trago de volta. Você com certeza os tem também.
Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR. + Textos da autora.
Começo assim porque quero falar da infância, assunto que vem me rondando há algum tempo. Quem me companha aqui já leu várias menções à maternidade e aos filhos. Somos todos filhos, todos fomos fetos e bebês, e todos tivemos todas as idades anteriores à que temos hoje. No entanto, é muito comum que, uma vez encerrada determinada etapa da vida, guardemos dela uma memória idealizada. Deixando de lado a vida intrauterina e os três primeiros anos, dos quais poucos de nós se lembram de forma consciente, há uma espécie de consenso de que na infância se concentram as lembranças mais felizes.
Desconfio muito desse artifício. Aprender quem somos, o lugar onde estamos e como devemos nos comportar para obter aceitação e afeto – essenciais, mas nem sempre disponíveis – implicam um processo sumamente complexo e doloroso, que cada um de nós enfrenta como pode. Somos civilizados, enquadrados, moldados para caber naquilo que se espera de cada um, conforme a miríade de variáveis envolvidas na equação individual. Então, não me venham com esse papo de que tudo era lindo e perfeito. Não era, mas pode ter se tornado, para ficar mais confortável na memória.
Sim, é verdade que entre tudo o que eu não entendia e ninguém explicava, porque não há como explicar tudo, e não há como se desviar da dor dos filhos – como um dia desses a Eliane Brum escreveu lindamente em sua coluna semanal – vivi momentos mágicos quando criança. Entre eles, estão: olhar para as letras e entender como usá-las para formar palavras e expressar qualquer coisa – um deslumbramento; a banda de melancia devorada no quintal, com o suco escorrendo pelos braços e pingando dos cotovelos no chão – um prazer quase selvagem de tão intenso; acordar do sono da tarde banhada em suor, por causa do remédio para gripe, e encontrar minha mãe ao lado e uma jarra de Mirinda sobre a mesa. Estão lá, bem guardados, e de vez em quando os trago de volta. Você com certeza os tem também.
Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR. + Textos da autora.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Mania de presente
Algumas semanas atrás, sentado na plateia para assistir a um show de homenagem aos 30 anos do disco “Bloco na Rua”, de Sérgio Sampaio, ouvi um comentário rápido que muito me fez pensar. O DJ Zé Pedro, ali ao meu lado, disse: “Velho, as coisas estão acontecendo! A gente é que não dá conta de acompanhar tudo”. No palco estavam Juliano Gauche, Tatá Aeroplano e Gustavo Galo. Ao menos na minha interpretação, Zé Pedro se referia a uma efervescência cultural e criativa na cena musical do país, e ao tanto de bons discos e shows a que temos acesso diariamente. Que fique claro: isso não excluí, de modo algum, o tanto de coisas ruins que também proliferam por aí.
Chegando ao fim do ano, neste último texto de 2012 da coluna Verbo Sonoro, não me ocorreu assunto melhor para tratar do que essa efervescência musical, aproveitando para, junto a isso, combater qualquer mania de passado. Se vou, aqui, listar vários nomes que vem a cabeça, de gente que está produzindo música boa atualmente, este texto não se propõe a fazer nenhum tipo de ranking de “melhores discos do ano” – como é usual nesta época de Papai Noel. Primeiro, porque ninguém dá conta de acompanhar tudo o que surge na música brasileira, o que já torna falha qualquer lista que se proponha “total”. Mas mais do que isso, porque música não é competição, não é feita no ringue; não tem primeiro, segundo e terceiro lugares. Música agrega, soma e multiplica, mesmo que possam existir rivalidades (por vezes tolas) neste meio.
Este texto, de saída, corre riscos. Talvez soe muito otimista; talvez pareça uma “visão parcial” das coisas, já que conheço alguns dos músicos que cito. Bom, seja como for, garanto que não perdi o senso crítico! E, além disso, é importante ressaltar: o manual de redação do Nota de Rodapé (ainda não redigido no papel...) não nos define como um blog “neutro, plural e apartidário”. Sabe esse papo? Então, deixemos o (falso) discurso da neutralidade para a grande mídia...
Bom, voltando. As coisas estão acontecendo. As coisas estão sempre acontecendo, claro, e não estou querendo dizer que os tempos de hoje são melhores ou piores que os de ontem. E se isso parece óbvio, não é tanto assim. Me lembro de, na adolescência, ficar lamentando por não ter vivido nos anos 60, 70 e 80, para poder ter visto ao vivo todos aqueles músicos que eu ouvia aos 15 anos. Sim, eu ainda gostaria de tê-los visto, mas a verdade é que também me satisfaz, e muito, o que temos para ver e ouvir hoje. Como escreveu Gil em “Era Nova”: “Novo tempo sempre se inaugura (...) O tempo que você perdeu, perdeu, não volta”.
Entre shows e discos de trabalhos brasileiros recentes (de 2011 para cá), adentraram meus tímpanos neste ano, e agradaram muito, os sons de Karina Buhr, Céu, Pélico, Romulo Fróes, Passo Torto, Tatá Aeroplano, Bixiga 70, Tulipa Ruiz, Otto, Criolo, Emicida, Racionais, Metá Metá, Batuntã, Afroelectro, Peri Pane, Meno Del Picchia, Zafenate, Curumim, Gaby Amarantos, Los Sebosos Postizos, Herbert Vianna, Márcia Castro, Vintena Brasileira, Loungetude 46 e vários outros. Gente trabalhando com novas linguagens, se reapropriando de sonoridades ou dando continuidade a pesquisas antigas, mas sempre com ideias originais, conectadas aos nossos tempos de conectividade.
Um parênteses aqui. Eu diria também que, de diferentes modos, é gente com muita coisa a dizer, ao contrário do que escreveu Pedro Alexandre Sanches em um texto recente na revista Caros Amigos. Falando sobre a cidade de São Paulo ele argumentou que os músicos do lado de lá do rio (na maioria rappers de origem humilde) tem muito a dizer, enquanto as pessoas do lado de cá do rio não. Pois bem, esse assunto renderia páginas, mas só digo, de passagem, que ter algo a dizer não é apenas fazer música de protesto, nem tem relação direta com classe social – isso seria uma visão muito rasa de arte.
E nesse ponto lembro de algo que Tom Zé me disse em entrevista nesse ano, quando perguntado sobre suas parcerias com Mallu Magalhães, Pélico, Emicida e Rodrigo Amarante: “Digamos que, assim como eu vi o tropicalismo apontar setas para o futuro – não só na profissão de músico, mas em todas as áreas –, eu vejo nesses músicos novos que chegaram perto de mim uma grande capacidade de crítica, de visão. Acho que quando estivermos diante da terceira revolução industrial, com todos os problemas que devem vir, a gente vai precisar no Brasil que os artistas produzam massa mental para fazer frente à essa novidade. Aí, quando eu vejo esses artistas novos, eu penso: pode ter jeito, porque esses caras são de foder! Quer dizer, acho que a música dará sua contribuição.”
Pois bem, aproveitando a referência a Tom Zé, entramos aqui em um outro aspecto fundamental disso que chamo de “efervescência atual”: ela não se refere nem a um único estilo musical, nem a uma geração “etária” específica, mas ao momento em que nós vivemos em sentido mais amplo. Ter 20 ou 80 anos não inclui ou exclui ninguém. E os novos trabalhos de Tom Zé, Caetano Veloso, Chico Buarque e Gal Costa, por exemplo, mostram que modernidade nada tem a ver com idade. São CDs que dão passos à frente e nos instigam a pensar o futuro da música popular brasileira.
Esses trabalhos mostram também como é grande o diálogo entre as gerações. Além de Tom Zé, com os participantes que citei, basta pensar que a banda de Caetano é formada por três jovens (dois deles do grupo Do Amor), que Gal gravou com Kassin e Moreno Veloso e que vários dos novos artistas tem trazido participações de músicos com longa estrada em seus discos e shows: Tulipa com Lulu Santos, Pitanga em Pé de Amora com Mônica Salmaso, Garotas Suecas com Elza Soares, Karina Buhr com Edgar Scandurra, Peri Pane com Alzira E., O Terno com Abujamra, Léo Cavalcanti com Arnaldo Antunes, Cinco à Seco com Lenine e Chico César etc., etc., etc.
Alguns podem argumentar que sempre foi assim, que as gerações sempre dialogaram. Certamente, mas parece que, de fato, há uma notável abertura neste momento por parte dos músicos consagrados para olhar para artistas novos e independentes. E no caso atual, não parece haver por trás disso nenhum grande interesse comercial, o que poderia explicar esses tipos de relação; pois não são gravadoras ou empresários incentivando as parcerias; a troca parece, mesmo, artística.
Então estamos no paraíso? Uhm, não é isso. Cada um que abra os ouvidos e tire suas conclusões. Só não deixem de abrir os ouvidos, isso é importante. Pois as coisas estão, sim, acontecendo. E, mesmo que seja melhor não ser “maníaco”, prefiro ter “mania” de presente do que de passado. É hoje que estamos vivendo. Acabo o texto, assim, citando algumas palavras do grande Belchior, consagradas na voz de Elis Regina: “Você pode até dizer que eu tô por fora, ou então que eu tô inventando. Mas é você que ama o passado e que não vê, é você que ama o passado e que não vê, que o novo sempre vem”. E a música brasileira nos dá boas perspectivas de futuro: que venha 2013!
Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura e música. Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, também colunista do blog, especial para o texto
Chegando ao fim do ano, neste último texto de 2012 da coluna Verbo Sonoro, não me ocorreu assunto melhor para tratar do que essa efervescência musical, aproveitando para, junto a isso, combater qualquer mania de passado. Se vou, aqui, listar vários nomes que vem a cabeça, de gente que está produzindo música boa atualmente, este texto não se propõe a fazer nenhum tipo de ranking de “melhores discos do ano” – como é usual nesta época de Papai Noel. Primeiro, porque ninguém dá conta de acompanhar tudo o que surge na música brasileira, o que já torna falha qualquer lista que se proponha “total”. Mas mais do que isso, porque música não é competição, não é feita no ringue; não tem primeiro, segundo e terceiro lugares. Música agrega, soma e multiplica, mesmo que possam existir rivalidades (por vezes tolas) neste meio.
Este texto, de saída, corre riscos. Talvez soe muito otimista; talvez pareça uma “visão parcial” das coisas, já que conheço alguns dos músicos que cito. Bom, seja como for, garanto que não perdi o senso crítico! E, além disso, é importante ressaltar: o manual de redação do Nota de Rodapé (ainda não redigido no papel...) não nos define como um blog “neutro, plural e apartidário”. Sabe esse papo? Então, deixemos o (falso) discurso da neutralidade para a grande mídia...
Bom, voltando. As coisas estão acontecendo. As coisas estão sempre acontecendo, claro, e não estou querendo dizer que os tempos de hoje são melhores ou piores que os de ontem. E se isso parece óbvio, não é tanto assim. Me lembro de, na adolescência, ficar lamentando por não ter vivido nos anos 60, 70 e 80, para poder ter visto ao vivo todos aqueles músicos que eu ouvia aos 15 anos. Sim, eu ainda gostaria de tê-los visto, mas a verdade é que também me satisfaz, e muito, o que temos para ver e ouvir hoje. Como escreveu Gil em “Era Nova”: “Novo tempo sempre se inaugura (...) O tempo que você perdeu, perdeu, não volta”.
Entre shows e discos de trabalhos brasileiros recentes (de 2011 para cá), adentraram meus tímpanos neste ano, e agradaram muito, os sons de Karina Buhr, Céu, Pélico, Romulo Fróes, Passo Torto, Tatá Aeroplano, Bixiga 70, Tulipa Ruiz, Otto, Criolo, Emicida, Racionais, Metá Metá, Batuntã, Afroelectro, Peri Pane, Meno Del Picchia, Zafenate, Curumim, Gaby Amarantos, Los Sebosos Postizos, Herbert Vianna, Márcia Castro, Vintena Brasileira, Loungetude 46 e vários outros. Gente trabalhando com novas linguagens, se reapropriando de sonoridades ou dando continuidade a pesquisas antigas, mas sempre com ideias originais, conectadas aos nossos tempos de conectividade.
Então estamos no paraíso? Uhm, não é isso. Cada um que abra os ouvidos e tire suas conclusões. Só não deixem de abrir os ouvidos, isso é importante. Pois as coisas estão, sim, acontecendo.
Um parênteses aqui. Eu diria também que, de diferentes modos, é gente com muita coisa a dizer, ao contrário do que escreveu Pedro Alexandre Sanches em um texto recente na revista Caros Amigos. Falando sobre a cidade de São Paulo ele argumentou que os músicos do lado de lá do rio (na maioria rappers de origem humilde) tem muito a dizer, enquanto as pessoas do lado de cá do rio não. Pois bem, esse assunto renderia páginas, mas só digo, de passagem, que ter algo a dizer não é apenas fazer música de protesto, nem tem relação direta com classe social – isso seria uma visão muito rasa de arte.
E nesse ponto lembro de algo que Tom Zé me disse em entrevista nesse ano, quando perguntado sobre suas parcerias com Mallu Magalhães, Pélico, Emicida e Rodrigo Amarante: “Digamos que, assim como eu vi o tropicalismo apontar setas para o futuro – não só na profissão de músico, mas em todas as áreas –, eu vejo nesses músicos novos que chegaram perto de mim uma grande capacidade de crítica, de visão. Acho que quando estivermos diante da terceira revolução industrial, com todos os problemas que devem vir, a gente vai precisar no Brasil que os artistas produzam massa mental para fazer frente à essa novidade. Aí, quando eu vejo esses artistas novos, eu penso: pode ter jeito, porque esses caras são de foder! Quer dizer, acho que a música dará sua contribuição.”
Pois bem, aproveitando a referência a Tom Zé, entramos aqui em um outro aspecto fundamental disso que chamo de “efervescência atual”: ela não se refere nem a um único estilo musical, nem a uma geração “etária” específica, mas ao momento em que nós vivemos em sentido mais amplo. Ter 20 ou 80 anos não inclui ou exclui ninguém. E os novos trabalhos de Tom Zé, Caetano Veloso, Chico Buarque e Gal Costa, por exemplo, mostram que modernidade nada tem a ver com idade. São CDs que dão passos à frente e nos instigam a pensar o futuro da música popular brasileira.
Esses trabalhos mostram também como é grande o diálogo entre as gerações. Além de Tom Zé, com os participantes que citei, basta pensar que a banda de Caetano é formada por três jovens (dois deles do grupo Do Amor), que Gal gravou com Kassin e Moreno Veloso e que vários dos novos artistas tem trazido participações de músicos com longa estrada em seus discos e shows: Tulipa com Lulu Santos, Pitanga em Pé de Amora com Mônica Salmaso, Garotas Suecas com Elza Soares, Karina Buhr com Edgar Scandurra, Peri Pane com Alzira E., O Terno com Abujamra, Léo Cavalcanti com Arnaldo Antunes, Cinco à Seco com Lenine e Chico César etc., etc., etc.
Alguns podem argumentar que sempre foi assim, que as gerações sempre dialogaram. Certamente, mas parece que, de fato, há uma notável abertura neste momento por parte dos músicos consagrados para olhar para artistas novos e independentes. E no caso atual, não parece haver por trás disso nenhum grande interesse comercial, o que poderia explicar esses tipos de relação; pois não são gravadoras ou empresários incentivando as parcerias; a troca parece, mesmo, artística.
Então estamos no paraíso? Uhm, não é isso. Cada um que abra os ouvidos e tire suas conclusões. Só não deixem de abrir os ouvidos, isso é importante. Pois as coisas estão, sim, acontecendo. E, mesmo que seja melhor não ser “maníaco”, prefiro ter “mania” de presente do que de passado. É hoje que estamos vivendo. Acabo o texto, assim, citando algumas palavras do grande Belchior, consagradas na voz de Elis Regina: “Você pode até dizer que eu tô por fora, ou então que eu tô inventando. Mas é você que ama o passado e que não vê, é você que ama o passado e que não vê, que o novo sempre vem”. E a música brasileira nos dá boas perspectivas de futuro: que venha 2013!
Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura e música. Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, também colunista do blog, especial para o texto
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sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Olha o fim do ano aí, gente!
Eu fico quietinha, tentando me fingir de morta, mas não funciona. Ele vem, vem mesmo, e acaba me achando assim, crente que estava invisível. O fim do ano, com pacote completo. Começa cada vez mais cedo, quando as lojas se enchem de luzinhas piscantes, botam “aquelas” músicas pra tocar o tempo todo (então é nataaaaaal...) e começam a se encher de gente. O resto, todo mundo sabe como é. Vontade de dormir hoje e acordar no 2 de janeiro – uma imagem escrita das mais surradas.
Este fim de ano está meio ameaçado por um fim de mundo anunciado. Já pensou? A festança organizada, geladeira abarrotada, presentes, árvore enfeitada, fantasia de papai noel comprada, amigo oculto esperando pra ser revelado e... caput! Acabou-se, instantaneamente, sem guerra nuclear e sem a revolta definitiva dos elementos naturais. Até que não seria mau. Não ficaria ninguém pra contar a história, nem Hollywood pra fazer o filme.
Na boa mesmo, não tenho nada contra festas, confraternizações e presentes, muito pelo contrário. Mas tem que dar liga, e liga é uma coisa que o calendário não consegue criar, porque a especialidade dele é impor, controlar e cobrar. A mistura de espírito festivo com obrigação desanda sempre, e deixa um gosto de “ufa, que bom que acabou”. Enquanto a gente é criança, tem a magia da inocência, que gera expectativa e surpresa, mesmo que repetida. Uma vez acionado o piloto automático, parece que se não houver festas, comilanças e presentes, tudo grande, animado e com muita gente, estaremos numa uma espécie de limbo pessoal, que, se assim for percebido, pode ter efeitos profundos. Sem falar na desigualdade, que ganha um ímpeto especial nesta época, quando corações momentaneamente amolecidos querem fazer parecer que somos mais iguais que durante o resto do ano.
Mas não, não quero azedar a festa de ninguém, nem a minha própria. É só uma tentativa de lembrar que a celebração das coisas que são importantes pra nós podia ser menos programada e mais sentida. Só isso. No mais, vem ni mim, fim de ano!
Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR. + Textos da autora.
Este fim de ano está meio ameaçado por um fim de mundo anunciado. Já pensou? A festança organizada, geladeira abarrotada, presentes, árvore enfeitada, fantasia de papai noel comprada, amigo oculto esperando pra ser revelado e... caput! Acabou-se, instantaneamente, sem guerra nuclear e sem a revolta definitiva dos elementos naturais. Até que não seria mau. Não ficaria ninguém pra contar a história, nem Hollywood pra fazer o filme.
Na boa mesmo, não tenho nada contra festas, confraternizações e presentes, muito pelo contrário. Mas tem que dar liga, e liga é uma coisa que o calendário não consegue criar, porque a especialidade dele é impor, controlar e cobrar. A mistura de espírito festivo com obrigação desanda sempre, e deixa um gosto de “ufa, que bom que acabou”. Enquanto a gente é criança, tem a magia da inocência, que gera expectativa e surpresa, mesmo que repetida. Uma vez acionado o piloto automático, parece que se não houver festas, comilanças e presentes, tudo grande, animado e com muita gente, estaremos numa uma espécie de limbo pessoal, que, se assim for percebido, pode ter efeitos profundos. Sem falar na desigualdade, que ganha um ímpeto especial nesta época, quando corações momentaneamente amolecidos querem fazer parecer que somos mais iguais que durante o resto do ano.
Mas não, não quero azedar a festa de ninguém, nem a minha própria. É só uma tentativa de lembrar que a celebração das coisas que são importantes pra nós podia ser menos programada e mais sentida. Só isso. No mais, vem ni mim, fim de ano!
Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR. + Textos da autora.
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