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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O Papa arrependido?


por Thiago Domenici*

A renúncia do quase ex-papa Bento XVI é mais um desses assuntos mundano-celestiais que me intrigam. Querendo ou não, católicos e simpatizantes, sejam favoráveis a linha conservadora adotada, criam esperança com o anúncio da renúncia e vinda de um novo pontífice por um mundo, sei lá, menos desigual? mais espiritualizado? O que esperam as pessoas de um novo Papa? O que espera o Papa das pessoas?

Não sei se por ranhetice, não acho que a mudança do padre alemão para um latino-americano ou africano influencie atitudes mais nobres e humanas das pessoas. O que está em jogo nessa história é a tentativa de recuperação política da igreja que, desgastada e envolvida em brigas pelo poder e falta de carisma, busca um respiro de renovação.

A Igreja joga com essa renúncia os holofotes para si, num período em que perde fiéis para outras religiões e vive assombrada por escândalos de pedofilia. Entre 1960 e 2010, por exemplo, o Brasil viu a parcela de sua população que se declara católica cair de 93,1% para 64,6%, segundo dados do último senso do IBGE.

Seguindo nesse meu raciocínio, não entendo como uma Igreja que fala em amor ao próximo, fé em Deus, bondade, justiça social se mantém soberba em vestimentas, atitudes e pensamentos como, por exemplo, em relação ao uso da camisinha e do casamento entre pessoas do mesmo sexo. E as mulheres religiosas na Igreja, que tem papel sempre inferior ao do homem religioso. Por que isso ainda tem de ser assim? Será que somente nos próximos 700 anos veremos uma Papisa?

O Vaticano, um país sem povo, é um império cheio de riquezas e ostentação. É curioso que uma das últimas atitudes de Bento XVI foi escolher o novo presidente do banco do Vaticano, já que o anterior em busca de mais "transparência" foi demitido pelo secretário do Vaticano, o papável italiano Tarcisio Bertone.

A igreja católica que aplaudo, de uma vertente verdadeiramente social, a teologia da libertação, uma espécie de agulha no palheiro, rara mais ainda presente na figura de alguns batalhadores, como Dom Pedro Casaldáliga, que no último sábado fez 85 anos, e que foi soterrada com ajuda do mesmo que agora pede para sair, será apoiada por um novo santo padre?

É interessante que Bento XVI, a figura central do que se tornou a igreja católica nas últimas décadas, peça uma “verdadeira renovação” daqui em diante.  Ele usou essa expressão em cerimônia de despedida com padres de sua diocese em Roma e afirmou que ficará "escondido do mundo" depois de renunciar no fim deste mês. Será, diante de sua nítida fragilidade e da Igreja, um sinal de arrependimento?

*jornalista, Thiago Domenici coordena e edita o Nota de Rodapé

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Mania de presente

Algumas semanas atrás, sentado na plateia para assistir a um show de homenagem aos 30 anos do disco “Bloco na Rua”, de Sérgio Sampaio, ouvi um comentário rápido que muito me fez pensar. O DJ Zé Pedro, ali ao meu lado, disse: “Velho, as coisas estão acontecendo! A gente é que não dá conta de acompanhar tudo”. No palco estavam Juliano Gauche, Tatá Aeroplano e Gustavo Galo. Ao menos na minha interpretação, Zé Pedro se referia a uma efervescência cultural e criativa na cena musical do país, e ao tanto de bons discos e shows a que temos acesso diariamente. Que fique claro: isso não excluí, de modo algum, o tanto de coisas ruins que também proliferam por aí.

Chegando ao fim do ano, neste último texto de 2012 da coluna Verbo Sonoro, não me ocorreu assunto melhor para tratar do que essa efervescência musical, aproveitando para, junto a isso, combater qualquer mania de passado. Se vou, aqui, listar vários nomes que vem a cabeça, de gente que está produzindo música boa atualmente, este texto não se propõe a fazer nenhum tipo de ranking de “melhores discos do ano” – como é usual nesta época de Papai Noel. Primeiro, porque ninguém dá conta de acompanhar tudo o que surge na música brasileira, o que já torna falha qualquer lista que se proponha “total”. Mas mais do que isso, porque música não é competição, não é feita no ringue; não tem primeiro, segundo e terceiro lugares. Música agrega, soma e multiplica, mesmo que possam existir rivalidades (por vezes tolas) neste meio.

Este texto, de saída, corre riscos. Talvez soe muito otimista; talvez pareça uma “visão parcial” das coisas, já que conheço alguns dos músicos que cito. Bom, seja como for, garanto que não perdi o senso crítico! E, além disso, é importante ressaltar: o manual de redação do Nota de Rodapé (ainda não redigido no papel...) não nos define como um blog “neutro, plural e apartidário”. Sabe esse papo? Então, deixemos o (falso) discurso da neutralidade para a grande mídia...

Bom, voltando. As coisas estão acontecendo. As coisas estão sempre acontecendo, claro, e não estou querendo dizer que os tempos de hoje são melhores ou piores que os de ontem. E se isso parece óbvio, não é tanto assim. Me lembro de, na adolescência, ficar lamentando por não ter vivido nos anos 60, 70 e 80, para poder ter visto ao vivo todos aqueles músicos que eu ouvia aos 15 anos. Sim, eu ainda gostaria de tê-los visto, mas a verdade é que também me satisfaz, e muito, o que temos para ver e ouvir hoje. Como escreveu Gil em “Era Nova”: “Novo tempo sempre se inaugura (...) O tempo que você perdeu, perdeu, não volta”.

Entre shows e discos de trabalhos brasileiros recentes (de 2011 para cá), adentraram meus tímpanos neste ano, e agradaram muito, os sons de Karina Buhr, Céu, Pélico, Romulo Fróes, Passo Torto, Tatá Aeroplano, Bixiga 70, Tulipa Ruiz, Otto, Criolo, Emicida, Racionais, Metá Metá, Batuntã, Afroelectro, Peri Pane, Meno Del Picchia, Zafenate, Curumim, Gaby Amarantos, Los Sebosos Postizos, Herbert Vianna, Márcia Castro, Vintena Brasileira, Loungetude 46 e vários outros. Gente trabalhando com novas linguagens, se reapropriando de sonoridades ou dando continuidade a pesquisas antigas, mas sempre com ideias originais, conectadas aos nossos tempos de conectividade.

Então estamos no paraíso? Uhm, não é isso. Cada um que abra os ouvidos e tire suas conclusões. Só não deixem de abrir os ouvidos, isso é importante. Pois as coisas estão, sim, acontecendo.

Um parênteses aqui. Eu diria também que, de diferentes modos, é gente com muita coisa a dizer, ao contrário do que escreveu Pedro Alexandre Sanches em um texto recente na revista Caros Amigos. Falando sobre a cidade de São Paulo ele argumentou que os músicos do lado de lá do rio (na maioria rappers de origem humilde) tem muito a dizer, enquanto as pessoas do lado de cá do rio não. Pois bem, esse assunto renderia páginas, mas só digo, de passagem, que ter algo a dizer não é apenas fazer música de protesto, nem tem relação direta com classe social – isso seria uma visão muito rasa de arte.

E nesse ponto lembro de algo que Tom Zé me disse em entrevista nesse ano, quando perguntado sobre suas parcerias com Mallu Magalhães, Pélico, Emicida e Rodrigo Amarante: “Digamos que, assim como eu vi o tropicalismo apontar setas para o futuro – não só na profissão de músico, mas em todas as áreas –, eu vejo nesses músicos novos que chegaram perto de mim uma grande capacidade de crítica, de visão. Acho que quando estivermos diante da terceira revolução industrial, com todos os problemas que devem vir, a gente vai precisar no Brasil que os artistas produzam massa mental para fazer frente à essa novidade. Aí, quando eu vejo esses artistas novos, eu penso: pode ter jeito, porque esses caras são de foder! Quer dizer, acho que a música dará sua contribuição.”

Pois bem, aproveitando a referência a Tom Zé, entramos aqui em um outro aspecto fundamental disso que chamo de “efervescência atual”: ela não se refere nem a um único estilo musical, nem a uma geração “etária” específica, mas ao momento em que nós vivemos em sentido mais amplo. Ter 20 ou 80 anos não inclui ou exclui ninguém. E os novos trabalhos de Tom Zé, Caetano Veloso, Chico Buarque e Gal Costa, por exemplo, mostram que modernidade nada tem a ver com idade. São CDs que dão passos à frente e nos instigam a pensar o futuro da música popular brasileira.

Esses trabalhos mostram também como é grande o diálogo entre as gerações. Além de Tom Zé, com os participantes que citei, basta pensar que a banda de Caetano é formada por três jovens (dois deles do grupo Do Amor), que Gal gravou com Kassin e Moreno Veloso e que vários dos novos artistas tem trazido participações de músicos com longa estrada em seus discos e shows: Tulipa com Lulu Santos, Pitanga em Pé de Amora com Mônica Salmaso, Garotas Suecas com Elza Soares, Karina Buhr com Edgar Scandurra, Peri Pane com Alzira E., O Terno com Abujamra, Léo Cavalcanti com Arnaldo Antunes, Cinco à Seco com Lenine e Chico César etc., etc., etc.

Alguns podem argumentar que sempre foi assim, que as gerações sempre dialogaram. Certamente, mas parece que, de fato, há uma notável abertura neste momento por parte dos músicos consagrados para olhar para artistas novos e independentes. E no caso atual, não parece haver por trás disso nenhum grande interesse comercial, o que poderia explicar esses tipos de relação; pois não são gravadoras ou empresários incentivando as parcerias; a troca parece, mesmo, artística.

Então estamos no paraíso? Uhm, não é isso. Cada um que abra os ouvidos e tire suas conclusões. Só não deixem de abrir os ouvidos, isso é importante. Pois as coisas estão, sim, acontecendo. E, mesmo que seja melhor não ser “maníaco”, prefiro ter “mania” de presente do que de passado. É hoje que estamos vivendo. Acabo o texto, assim, citando algumas palavras do grande Belchior, consagradas na voz de Elis Regina: “Você pode até dizer que eu tô por fora, ou então que eu tô inventando. Mas é você que ama o passado e que não vê, é você que ama o passado e que não vê, que o novo sempre vem”. E a música brasileira nos dá boas perspectivas de futuro: que venha 2013!


Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura e música. Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, também colunista do blog, especial para o texto

Cheiro de tinta


Não
sou dada a futurologias. Gosto mesmo é do odor da naftalina, da cor sépia das fotografias, do papéis amarelados. Talvez pelo fato do passado deixar marcas, manchas, trilhas tangíveis, ao passo que o futuro é tão somente uma assombração de promessas.

Mas, apesar do amor pelas coisas pretéritas, não sou do tipo nostálgico. Não posto fotos do meu eu jovem no facebook. Também não cultivo saudades. De forma alguma acho que o tempo passado seja melhor ou superior ao tempo presente.

Ele foi apenas distinto. Hoje, pouco a pouco, vou me acostumando a ler jornais na tela. É muito dinâmico, pois foco na notícia do meu interesse e checo em veículos diferentes como ela foi trabalhada. Aqui vale um parênteses: vejo tudo muito parecido, nada autoral.

Dá a impressão que um jornalista copiou do outro, mudando ou acrescentando um detalhe embaixo, outro em cima. Tenho a sensação de que ninguém quer se comprometer. Como se fosse apenas um bater o ponto. Um se desfazer rapidamente de um encargo chato.

Creio que os jornalistas da web devem atentar para a relação íntima entre a qualidade e a diversidade no tom e no estilo. Basta conferir a história de dois gigantes de papel que morreram faz pouco tempo. Falo do carioca Jornal do Brasil (1891-2010) e do paulistano Jornal da Tarde (1966-2012).

O Jornal do Brasil, JB, teve longa vida de influência e importância. Foi referência como "jornal do país". Fez reformas editoriais e gráficas copiadas muitas vezes pela concorrência. Foi o primeiro a inventar um caderno B. Durante décadas serviu como contrapeso ao O Globo. Agora existe uma versão digital, mas na verdade só carrega o mesmo nome.

Já o Jornal da Tarde, JT, teve vida bem mais breve. No entanto foi brilhante na sua proposta inicial de inovação de texto e de paginação. Produziu capas memoráveis, legítimos "quadros" para, com gosto, a gente pendurar na parede. Ele apostava no visual bonito e leveza verbal muito antes da internet.

Na minha modesta opinião, creio que os dois começaram a morrer tempos antes das suas rotativas calarem. A agonia teve início quando cada um abriu mão da inovação e ousadia que, em boas fases, os caracterizaram. Os diferenciaram da maioria.

O leitor abandonou o Jornal do Brasil quando seus editores abriram mão ou perderam colunistas de primeira. Quando seu estilo passou a não cheirar e nem feder. Idem o leitor do Jornal da Tarde que não se sentiu disposto a acompanhar uma proposta cada vez mais ligeira e desimportante.

Uma bênção do passado é a de abrir os nossos olhos. Por exemplo, enxergar que o sucesso precisa ser renovado dia a dia. Não é tatuagem permanente, nem louro para se dormir. Os jornais digitais ainda não encontraram o ponto do doce.

Os webjornalistas precisam rapidamente ousar. Necessitam pôr tom e estilo em seus textos. Caso contrário, os leitores de notícias vão migrar em massa para os portais gerais e para o São Google. Nada é para amanhã.


fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas a coluna Observatório da Esquina. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Somos chupadores

Chupar é bom e da nossa fisiologia. No futebol,
no entanto, não é bem assim. (GettyImages)

Fulano grita diante do gol de seu time “Chupaaaa”. Outro reverbera de outro ponto com mais ardor “Chupaaaaaaaaaaaaaaaaa”.

Sempre, é claro, com o complemento: “Porcada”, “Gambá”, “Bambi” para ficar em poucos exemplos regionais de São Paulo.

O “chupa” ou “ chupar”, utilizado com essa eloquencia entre torcedores rivais diante de um gol, vitória ou título sempre me encafifou. Explico. Chupar, segundo o dicionário, significa “levar (líquido) à boca por meio de uma sucção feita pelos movimentos dos lábios e da língua”.  É da nossa fisiologia como, por exemplo, beber, mastigar e cheirar.

Chupar é também um ato de prazer que pode ser conseguido de várias maneiras – além do sexo oral, no sorvete, na bala, no mel etc; no mundo animal, o exemplo que me vem a cabeça é o beija-flor, que não deixa de ser um chupa-flor.

A sanguessuga (ou sangue-chupa) é um bicho que se alimenta do sangue de outros animais. E não esqueçamos dos recém-nascidos e crianças que chupam o dedo a doidado ou se abastecem de chupetas bem transadas dadas pelos pais.

Chupa é até nome de um distrito do Peru, no departamento de Puno, localizada na província de Azángaro. Tem gente que gosta de chupar o gelo de um drink. E o chimarrão? Ora, pessoas chupam o mate para conseguir o sabor proporcionado pelo alimento da erva-mate; precisam da cuia, bomba e água morna. É um hábito cultural tradicional herdado dos índios.

E o Chup-Chup (também conhecido como geladinho e sacolé) com seu frescor de gelo com algum sabor de sucos artificiais, tudo dentro de um saquinho? Em épocas de vacas magras, cheguei a vender de limão, tangerina e chocolate para levantar um trocado.

Da grupo musical Aviões do Forró se tira outro caso: “Na sua boca eu viro fruta/Chupa que é de uva!/Chupa! Chupa!/Chupa que é de uva!”. Da letra sensual se supõe o óbvio. E além da uva, são chupaveis a manga, laranja, limão, mexerica, lichia, jabuticaba, ameixa e outras delícias.

E se fizermos uma pesquisa mais detalhada descobriremos outras canções que tem no “chupar” o seu mote musical. Gostamos da coisa de várias maneiras e somos todos chupadores.

A expressão “Chupa que a cana é doce” é mais antiga e muitos devem se lembrar. Se a cana for mesmo doce, chupá-la é uma delícia. Talvez daí se origine o chupa do futebol, como interjeição de vitória.

Acho, no entanto, que mandar o rival chupar tem também o sentido de fazer sexo oral a contragosto e sem prazer; fulano manda geralmente “chupar o pau” do outro como uma forma de submissão e inferioridade do adversário.

O torcedor que se propõe a essa tentativa de ofensa cai numa armadilha inevitável. É que, mesmo sem saber e sem querer, reforça toda uma cultura machista e homofóbica que impregna o esporte (e grande parte da sociedade).

O que me conforta é que se me mandarem chupar vai me soar como “tenha prazer”. O que é bonito e solidário, vejam só, já que ao obter seu prazer futebolístico vai me lembrar que posso obter o meu ao chupar um sorvete de doce de leite, dos meus preferidos, para amenizar o meu desgosto.

Thiago Domenici, jornalista. Texto publicado em conjunto no blog TodasNós.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Trabalho e ideias: precarização do jornalismo

O texto Morte no Exercício de Jornalismo, publicado semana passada neste NR, sobre a morte do cinegrafista Gelson Domingos da Silva, da TV Bandeirantes, no último dia 6, pedia continuação. Falar do assunto sem pensar na precariedade do trabalho jornalístico e, na atuação coletiva como solução, tornaria a questão tão delicada, quase que só um desabafo.

O que se vê nas redações e assessorias são habituais condições trabalhistas distantes do ideal. Mostra disso, ocorre na contratação do jornalista como pessoa jurídica (o famigerado PJ), sem registo em carteira. Dessa forma, o profissional é transformado numa “empresa”, com todos os ônus que isso traz.

Já o contratante, se vê livre de uma série de obrigações, como pagamento de 13° salário, depósito de fundo de garantia, recolhimento de INSS e outras seguranças que o trabalhador teria no modelo registrado.

Tal prática vem sendo rechaçada por tribunais do trabalho, pois agride normas celetistas e constitucionais, causando prejuízos não somente aos trabalhadores, mas também aos órgãos fiscais e previdenciários que deixam de receber receitas.

E o pior: das corporativas às alternativas, das de direita às de esquerda, das “conservadoras” às “progressistas”, a situação não é incomum. Há exceções, claro, mas elas só confirmam a regra.

Mesmo nas publicações ligadas a entidades sindicais não é raro observar contratações pelo modelo PJ, o que é bastante incongruente com o discurso de quem representa os interesses da classe trabalhadora.

Mobilizar passa
pelo olho no olho

As entidades de classe que representam os jornalistas fazem pouco pelo debate da precarização. Até lançam reivindicações pontuais, principalmente em momentos quando a situação é exposta radicalmente – como no caso de Gelson que, além de cinegrafista, era motorista da reportagem da Bandeirantes – mas estão minimamente presentes na prática: seja na verificação das relações trabalhistas burocráticas ou no cotidiano das redações, abarrotadas de superexploração, falta de estrutura e várias formas de assédio.

O grosso da categoria (e me incluo) faz pouco para mudar tal realidade. Mesmo no espaço aberto da rede, se nota escassez de discussão sobre o assunto. Além disso, com tantos pequenos projetos coletivos que pululam na internet, são poucas as inciativas de aproximação, da criação de laços para saltos maiores, que possam unificá-los, por exemplo, em formato de cooperativas, agências, portais que pudessem amplificar e divulgar bons trabalhos de foco alternativo (na ausência de melhor nome).

Nesse ritmo, o que se vê são os meios de produção, aqueles capazes de gerar renda para que os ofertadores de mão-de-obra tenham condições de sustento das necessidades básicas, concentrados nas mãos de minorias. Ainda que na rede, no geral, continuam a frente, como provocadores dos debates, jornalistas renomados. Mesmo que, de fato, não sejam eles os geradores das pautas, terminam por ser os retransmissores/massificadores e os que crescem significativamente em audiência e faturamento.

Não afirmo aqui que a relação em rede não seja boa quando um blogue “maior” indica um “menor”. Claro que não é isso. Longe de apontar a condição como nociva, a classifico como insuficiente. O problema é que, muitas vezes, os pequenos são levados para o centro dos debates pelos de grande audiência, numa espécie de sistema orbital, onde centenas de ótimos coletivos giram em torno de “astros de brilho mais intenso”.

O que busco (também) neste espaço, já que o texto, essencialmente, trata do trabalho coletivo como solução minimizadora da precariedade, é somente trazer à discussão a criação de mecanismos que equilibrem a possibilidade de chegada ao público, inclusive na internet, e a construção de projetos baseados no coletivismo que não necessitem de nomes famosos – sem necessariamente dispensá-los – para serem sustentáveis economicamente.

Talvez mais encontros, mais pizzas, cervejas e muito bate-papo possibilitem começar a produzir cenário favorável. Talvez menos conversas pelo virtual e mais olho no olho sejam a possibilidade de fazer florescer ideias. Hoje, a correria é de tirar o fôlego, certo, mas quantas das grandes propostas do jornalismo sairiam a partir de rabiscos em guardanapos de mesas de bar?

A discussão aqui é embrionária, os argumentos são simplistas, sei disso, mas quem topa engrossá-la, se possível, olho no olho?

Moriti Neto é jornalista, colunista do NR

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Puro desperdício do olhar

A evolução do homem não está associada, necessariamente, aos seus feitos de inovação tecnológica ou de ordem industrial. Muito menos com a produção do capital. Esses são uma consequência da nossa capacidade de usar a linguagem articulada, observar, pensar, entender e criar - para o bem ou para o mal.

Na tecnologia, por exemplo, temos um leque de produtos que facilitam tarefas cotidianas e que encurtam o tempo de espera e execução. A comunicação interpessoal é das mais emblemáticas dessas evoluções ao longo das décadas passadas.
 
O telefone celular, surgido nos anos de 1970 nos EUA, é um apêndice dessa comunicação e ganhou tamanha importância nas sociedades que virou parte integrante do corpo humano; uma extensão, algo como um terceiro braço, um terceiro olho. Esquecer esse “membro” ou não ter um é sinônimo de preocupação para quem usa ou atraso tecnológico para quem não o tem.

É como se naquele exato dia em que ele está inutilizado na prateleira alguém vai te ligar ou mandar o SMS, MMS, BBM, e-mail que mudará o rumo dos acontecimentos. E não é assim, sabemos bem. Existe um apego exagerado, como em tantas outras engenhocas materiais.

A dificuldade, eu diria, é justamente ver a vida além dessas bugigangas. E os celulares - e num futuro muito breve os tablets - são um exército de bilhões. São tantos quanto a população mundial. Para ser mais específico, neste ano, projeções indicam 7 bilhões de pessoas no mundo ante 5,1 bilhões de aparelhos celulares. Tivessem vida inteligente, dominariam o mundo como na trilogia Matrix - em que as regras são ditadas por máquinas.

A pergunta diante dessa população de aparelhos que habitam nossos bolsos, bolsas, mãos e orelhas é: por conta deles é que não olhamos mais para o céu? Não só, é claro. Da autocrítica que cabe a tantos outros como eu - sem tirar o fato de que a verticalização das cidades nos tirou o horizonte - o celular é mais um vilão que nos inibe de olhar em outra direção que não a da tela do aparelho.

O vilão maior, por falta de outro adjetivo mais adequado, somos nós. Nós que andamos enferrujados e atrofiados cada vez mais com o uso excessivo dessas tecnologias. À essa causa - cidadãos hiperconectados - o efeito é tempo menor de descanso, mais trabalho e pouca interação real. O andar cabisbaixo sempre vidrado na telinha de algumas polegadas e a imagem do cidadão teclando furiosamente no alfabeto de siglas é o puro desperdício do olhar.

Nos espaços públicos repare (caso não esteja com o mobile em ação) no movimento de massa conectado. É cada vez mais comum pessoas interagindo com o celular em vez de conversar com o amigo, esposa ou filho que o acompanha. Ali, bem na sua frente, e você, alucinando em algum buraco virtual. Goethe escreveu certa vez. “Se o olho não fosse ensolarado, não poderia avistar o sol”.

A beleza de olhar a que se refere o escritor alemão, de reparar os detalhes, expressões, hábitos e costumes é mesmo saboroso e fundamental. Não perder a capacidade de observar é um desafio que se impõe. Nossos ancestrais mais próximos na evolução, os macacos, praticam a observação com vigor e dedicação. Como eles, como sugestão, vamos equilibrar nosso pescoço em outras direções?

O amigo Caco Bressane, ilustrador desse texto combinado sob a ótica da minha pseudorreflexão desconexa sintetiza o propósito. Afinal de contas, o mesmo Goethe observou que “para compreender que o céu é azul por toda a parte não é preciso dar a volta ao mundo.”

Thiago Domenici é jornalista e um cidadão hiperconectado. Caco Bressane é arquiteto e ilustrador.
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