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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Foram me chamar


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna*

Eu estou aqui – o que é que há? A vida desocupada ia muito bem, obrigada. Para quem passou quase quarenta anos na ralação, viver sem agenda é uma bênção. Os dias em câmera lenta, as viagens despreocupadas, o sagrado direito de fazer nada, e também o de ir e vir, esticaaaados. Vez ou outra, invento um rango vegetariano, pra variar, e também porque tenho achado que devo dar umas folgas pras vacas, porcos, galinhas e companhia. As horas diante do computador, navegando, pensando e escrevendo, com pausas pra apreciar as árvores, a chuva e a bicharada lá fora. Leituras meio desconexas, por puro prazer, cinema no meio da tarde. Os almoços de sexta-feira com a turma do escritório, sempre estressada mas divertida. Muito engraçado e reconfortante ouvi-las falar de coisas que não me atormentam mais.

Nem cogitava voltar. De vez em quando, me dava uma ligeira nostalgia de estar ocupada, mas não muito, e das bobagens que a gente falava o dia todo e morria de rir, disto sim. De planos, planilhas e agendas alucinadas, saudade zero.

Eu vim de lá pequenininha, porque é por poucas semanas e porque, como sempre creem os coroas, não dá pra desperdiçar esse acúmulo de décadas de experiência que levo comigo. Além disto, apesar do apreço pelo ócio do último ano e meio, sinto que ainda posso contribuir, talvez equilibrando a pressão cotidiana com um olhar irônico e sereno de quem já aprendeu, com a mestra Lourdinha, que no fim tudo dá certo. Se não deu certo, é porque não chegou ao fim.

Passaram-se duas semanas, o suficiente pra confirmar que tudo mudou, mas nada mudou. A rotina do escritório continua pontilhada de urgências e emergências, incêndios a ser apagados o tempo todo. As horas passadas no trabalho ainda são insuficientes para tudo o que é preciso fazer, pois rola uma crença de que sempre se deve pedir e esperar mais do que as pessoas podem oferecer. As instituições são inclementes mesmo. Minha fonte mais frequente de desgaste é a maldita conexão de internet sem fio, instável e rebelde. Acho que ela não gosta de mim, ou está só querendo me atazanar, sei lá. Hei de vencer.

Por muito afastada da vida profissional, eu achava que poderia não saber mais como encaminhar os assuntos, como se dão os processos. Talvez acreditando que, por não ter precisado lembrar, teria esquecido. Que nada! Foi só vestir o modelito mais sério e pendurar o crachá, voltou tudo à memória, como uma caixa que se abre.

Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho. Nem precisava. Lá eu vivi grande parte dos últimos quase trinta anos. Como disse um ex-colega, que encontrei na porta um dia desses, a gente nunca sai de verdade. E ninguém conhece as dobras da instituição como nós, os veteranos, que repassamos cada uma delas em detalhes, vezes incontáveis. Por isso volto reverente e quero ficar meio invisível, quase um holograma. Juntei-me aos bambas pra me distrair. Segura a onda, preguiça! Fui ali e já volto.

* * * * * *

Os trechos em vermelho foram pincelados da música "Alguém me Avisou" de Dona Ivone Lara, ouça a versão do álbum Sorriso Negro, 1982.

* * * * * * 

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Seja feliz, demita-se

Eu nunca cheguei a conhecê-lo mas sempre o achei triste. A impressão vinha das vezes em que nos cruzamos pelos corredores da emissora. Era muito gordo e baixo e usava um rabo de cavalo que não dava conta de esconder o início da calvície. Caminhava com dificuldade, sempre fumando um Marlborão vermelho, exalando tédio e cansaço.

Só o vi sorrir uma vez. Na verdade foi no mesmo dia em que ouvi sua voz pela primeira vez. Estava estranhamente radiante. As mãos tremiam de empolgação, segurando um cigarro que não fazia questão de acender. O motivo? Acabara de ser demitido.

– Vou pra Bahia, deitar embaixo de um coqueiro e fumar um quilo de maconha – dizia rindo feito criança.

Eu olhava aquele pobre ser humano, que durante dez anos trabalhou sem vontade, acumulando banha e alcatrão, e secretamente o invejava. Na vida, há poucos prazeres comparáveis a abandonar um emprego.

Tive essa grata experiência algumas vezes e frequentemente sonho em repeti-la. A mais memorável aconteceu há uns quatro anos, na Folha de S.Paulo. Estava terminando um período de cinquenta dias cobrindo férias no caderno Cotidiano. Trabalhava muito, ganhava pouco, não tinha benefícios e sempre acabava com as tarefas mais ingratas.

Certa vez, durante o julgamento de Suzane Von Richthofen, o jornal havia conseguido uma pista de onde estava o irmão mais novo da loira homicida. Me mandaram com um carro de reportagem para a frente da casa, num bairro residencial, perto do aeroporto de Congonhas. A ordem era esperar para ver se o guri entrava ou saía, e tentar arrancar alguma declaração. Fiquei das sete da noite às três da manhã parado na rua escura, ao lado do motorista que ferrou num sono pesado.

Em outro julgamento, dos cúmplices do Champinha, passei vinte e cinco horas na rua, diante do fórum de Embu Guaçu. Havia outros repórteres do jornal que iam alternado turnos e não escrevi uma linha sequer.

Por tudo isso, estava feliz da vida que minha temporada de suplício chegava ao fim, quando o editor do caderno me chamou de lado. Hoje ele é Secretário de Redação do jornal e já à época ocupava um cargo importante.

Talvez por isso não tenha se dado ao trabalho de sentar pra conversar. Falou enquanto andava, apressado. O jornal estava com um novo projeto, explicou, e eu seria o encarregado. Não perguntou nada, apenas me comunicou, como se eu fosse uma mesa, ou uma impressora, que pudesse simplesmente ser mudada de lugar. Foi falando e caminhando por corredores desconhecidos da redação até chegarmos a uma sala de espera, onde nos sentamos e ele terminou de explicar.

A Folha passaria a publicar diariamente um texto de obituário. Queriam que eu escrevesse. Para isso, eu teria de gastar meus dias telefonando para famílias enlutadas, à cata de informações sobre seus defuntos.
O prazer de deixar um emprego, creio eu, é o mesmo de arrumar a mala para viajar a um país desconhecido, de levantar a saia daquela garota pela primeira vez, de cair na estrada sem rumo. É um prazer que está nas possibilidades.
Acontece que eu não só estava feliz por deixar a redação como tinha um projeto de um livro-reportagem aprovado pelo maior grupo editorial do país. Quando expliquei isso tudo, a cara dele congelou e caiu no chão. E nesse exato momento a secretária nos mandou entrar. Sem ação, ele obedeceu. Entramos os dois, na sala que pertencia a Suzana Singer, à época a todo-poderosa Secretária de Redação do jornal. Nós entramos, sentamos, e ele me apresentou, com o sorriso mais amarelo do mundo.

– Oi Suzana, esse é o Tomás. Como eu te falei, ele ia tocar o novo projeto, mas acabou de dizer que está deixando jornal.

Ah, quanto prazer!... Mas não só por ver o rosto do chefe se partindo. Pedir demissão é muito mais do que isso. Também não creio que tenha a ver com as maravilhas do ócio, que fatalmente se transforma em tédio. Meu ex-colega do rabo-de-cavalo já deve estar de saco cheio da maconha, da brisa do mar, dos coqueiros e daquele maldito pôr-do-sol deslumbrante, todo santo dia no mesmo horário.

O prazer de deixar um emprego, creio eu, é o mesmo de arrumar a mala para viajar a um país desconhecido, de levantar a saia daquela garota pela primeira vez, de cair na estrada sem rumo. É um prazer que está nas possibilidades. Na esperança de que amanhã ou na semana que vem poderemos estar num lugar melhor, realizando coisas mais interessantes, vivendo a intensidade dos comerciais de cartão de crédito.

Infelizmente, como todos os prazeres intensos, este também passa rápido. E no fim não nos deixa mais do que uma lembrança feliz misturada à vontade de experimentá-lo de novo o quanto antes.

Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Trabalho e ideias: precarização do jornalismo

O texto Morte no Exercício de Jornalismo, publicado semana passada neste NR, sobre a morte do cinegrafista Gelson Domingos da Silva, da TV Bandeirantes, no último dia 6, pedia continuação. Falar do assunto sem pensar na precariedade do trabalho jornalístico e, na atuação coletiva como solução, tornaria a questão tão delicada, quase que só um desabafo.

O que se vê nas redações e assessorias são habituais condições trabalhistas distantes do ideal. Mostra disso, ocorre na contratação do jornalista como pessoa jurídica (o famigerado PJ), sem registo em carteira. Dessa forma, o profissional é transformado numa “empresa”, com todos os ônus que isso traz.

Já o contratante, se vê livre de uma série de obrigações, como pagamento de 13° salário, depósito de fundo de garantia, recolhimento de INSS e outras seguranças que o trabalhador teria no modelo registrado.

Tal prática vem sendo rechaçada por tribunais do trabalho, pois agride normas celetistas e constitucionais, causando prejuízos não somente aos trabalhadores, mas também aos órgãos fiscais e previdenciários que deixam de receber receitas.

E o pior: das corporativas às alternativas, das de direita às de esquerda, das “conservadoras” às “progressistas”, a situação não é incomum. Há exceções, claro, mas elas só confirmam a regra.

Mesmo nas publicações ligadas a entidades sindicais não é raro observar contratações pelo modelo PJ, o que é bastante incongruente com o discurso de quem representa os interesses da classe trabalhadora.

Mobilizar passa
pelo olho no olho

As entidades de classe que representam os jornalistas fazem pouco pelo debate da precarização. Até lançam reivindicações pontuais, principalmente em momentos quando a situação é exposta radicalmente – como no caso de Gelson que, além de cinegrafista, era motorista da reportagem da Bandeirantes – mas estão minimamente presentes na prática: seja na verificação das relações trabalhistas burocráticas ou no cotidiano das redações, abarrotadas de superexploração, falta de estrutura e várias formas de assédio.

O grosso da categoria (e me incluo) faz pouco para mudar tal realidade. Mesmo no espaço aberto da rede, se nota escassez de discussão sobre o assunto. Além disso, com tantos pequenos projetos coletivos que pululam na internet, são poucas as inciativas de aproximação, da criação de laços para saltos maiores, que possam unificá-los, por exemplo, em formato de cooperativas, agências, portais que pudessem amplificar e divulgar bons trabalhos de foco alternativo (na ausência de melhor nome).

Nesse ritmo, o que se vê são os meios de produção, aqueles capazes de gerar renda para que os ofertadores de mão-de-obra tenham condições de sustento das necessidades básicas, concentrados nas mãos de minorias. Ainda que na rede, no geral, continuam a frente, como provocadores dos debates, jornalistas renomados. Mesmo que, de fato, não sejam eles os geradores das pautas, terminam por ser os retransmissores/massificadores e os que crescem significativamente em audiência e faturamento.

Não afirmo aqui que a relação em rede não seja boa quando um blogue “maior” indica um “menor”. Claro que não é isso. Longe de apontar a condição como nociva, a classifico como insuficiente. O problema é que, muitas vezes, os pequenos são levados para o centro dos debates pelos de grande audiência, numa espécie de sistema orbital, onde centenas de ótimos coletivos giram em torno de “astros de brilho mais intenso”.

O que busco (também) neste espaço, já que o texto, essencialmente, trata do trabalho coletivo como solução minimizadora da precariedade, é somente trazer à discussão a criação de mecanismos que equilibrem a possibilidade de chegada ao público, inclusive na internet, e a construção de projetos baseados no coletivismo que não necessitem de nomes famosos – sem necessariamente dispensá-los – para serem sustentáveis economicamente.

Talvez mais encontros, mais pizzas, cervejas e muito bate-papo possibilitem começar a produzir cenário favorável. Talvez menos conversas pelo virtual e mais olho no olho sejam a possibilidade de fazer florescer ideias. Hoje, a correria é de tirar o fôlego, certo, mas quantas das grandes propostas do jornalismo sairiam a partir de rabiscos em guardanapos de mesas de bar?

A discussão aqui é embrionária, os argumentos são simplistas, sei disso, mas quem topa engrossá-la, se possível, olho no olho?

Moriti Neto é jornalista, colunista do NR
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