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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 10 de março de 2015

Quem tem saudade da Oban?

por Tomas Chiaverini*

  – O que você acha? – o doutor Carlos, meu médico, perguntou uma semana atrás, enquanto eu sentava em frente à mesa ampla do consultório no bairro do Jardins.

Fiz cara de quem não entendeu e ele foi adiante.

– Não acha que a gente tem de pegar em armas? Você que trabalha na televisão, sabe das coisas de bastidores, não acha que a gente tem de soltar umas bombas em Brasília, arrancar esse povo de lá e começar tudo de novo?

Na hora confesso que fiquei um pouco sem ação. Desconfortável e sem jeito argumentei que não, que qualquer democracia é melhor do que qualquer ditadura, que os problemas devem ser resolvidos dentro das instituições estabelecidas.

O doutor Carlos rebateu dizendo que democracia é muito bom quando o povo é educado, mas que aqui não tem jeito, porque com os votos do Nordeste o PT vai ficar no poder pra sempre.

Ainda tentei argumentar mais um pouco, mas, como o doutor Carlos estava prestes a examinar partes um tanto delicadas, minha resposta foi curta e rasa. Agora que o exame já passou, tudo está bem e estou a uma distância segura do estimado discípulo de Hipócrates, vou tentar melhorar minha sustentação verbal.

Eu não só não acho que devemos pegar em armas como acho que, no nível atual da nossa democracia, pessoas educadas como o senhor, doutor Carlos, deviam ter vergonha de sequer aventar tal hipótese. Vou tentar simplificar, pra não ter perigo de o senhor não entender.

Na última vez que alguém resolveu pegar em armas pra resolver as coisas, o país viveu vinte dos mais negros anos de sua história. Médicos como o senhor, ou como meu avô, doutor Reinaldo Chiaverini, eram expulsos de universidade pelos simples fato de pensaram diferente do pessoal das armas. O pessoal das armas, claro, não gosta de pensar porque, por ser dono das armas, não precisa. Por isso mesmo odeia os que pensam, acha que são ameaças. Então, da última vez que estava no poder, o pessoal das armas saiu à caça dos que pensavam. Agora imagine um país em que só por pensar o senhor podia ser preso num lugar como, por exemplo, a Operação Bandeirantes, a Oban.

A Oban era um carcinoma típico da ditadura, um modelo logo replicado por todo o país. Era uma espécie de delegacia financiada com dinheiro de gente como o senhor, que achava o povo das armas legal, e comandada por um homem que gostava de judiar dos outros, o delegado Sergio Paranhos Fleury. Também tinha espaço para os sádicos do exército, mas o senhor, uma vez preso lá no meio, nunca saberia direito quem era o que.

Em lugares como a Oban, o povo das armas torturava. Hoje, a nossa Polícia ainda gosta de usar métodos parecidos e o pessoal do panelaço finge que não vê porque as vítimas, em geral, são pretas e pobres. Mas na época a coisa era mais profissional. Eles tinham aparelhos feitos especialmente para infligir dor. O mais famoso era o pau de arara, onde penduravam gente como se fossem pedaços de carne num açougue.

Mas tinha coisas mais elaboradas, como a “cadeira do dragão”, onde os presos eram sentados nus pra longas sessões de eletrochoques, ou a “coroa de cristo”, uma braçadeira de metal com parafusos que apertava lenta e implacavelmente o crânio dos interrogados, causando dores lancinantes. Ou ainda o “telefone”, um magneto ligado numa manivela pros torturadores irem aumentando pouco a pouco dose de energia dos choques, o que ajudava a desestabilizar os presos. Antecipar a dor provoca tanta agonia quanto a dor em si.

Eles gostavam especialmente de eletrocutar órgão genitais porque isso humilha, ajuda a implodir a autoestima. Eles realmente adoravam machucar essas partes mais queridas. Enfiavam arames pelas uretras dos presos e iam esquentando até ficar incandescente. Amputavam os bicos dos peitos com alicates para cortar metal.

As mulheres sofriam mais. Eram estupradas, não só por vários homens da lei, mas por cassetetes, porretes e barras de ferro. Eles gostavam muito também de torturar casais. Enquanto a mulher era estuprada, levava choques, safanões, pontapés, cusparadas e mijadas, o companheiro era obrigado a assistir. Depois invertiam as posições e o que tinha apanhado era obrigado a assistir, sabendo como ninguém a dor que seu ente querido estava experimentando.

Se o senhor acabasse preso, doutor Carlos, eles poderiam torturar o senhor por meses a fio. E nem o senhor nem ninguém poderia fazer algo pra mudar isso porque as instituições simplesmente não funcionavam. Eles se divertiam muito com tudo isso. Quando algum preso falava, tinham uma bandinha dos torturadores, que descia as escadas tocando marchinhas pra comemorar.

Como torturavam por muito tempo e com muita violência, eles tinha um médico que cuidava pros presos não morreram. Mesmo assim, alguns presos, que podiam muito bem ser inocentes porque nunca haviam sido julgados, acabavam morrendo. Nem por isso a diversão terminava.

Eles cortavam os corpos, quase sempre de jovens universitários, em vários pedaços pra enterrar em lugares diferentes. Mas guardavam as pontas dos dedos. Depois saíam com elas numa viatura descaracterizada, de preferência na hora do rush, e iam largando os pedacinhos de gente sobre o asfalto. Assim os outros carros passavam por cima e destruíam de vez as digitais.

Isso tudo, doutor Carlos, aconteceu na rua Tutóia, a menos de três quilômetros do consultório do senhor. Foi há pouco tempo, talvez na época que o senhor começasse a pensar na carreira de medicina.

* * * * * *

Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha no Nota de Rodapé.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Musashi e Spider

por Cidinha da Silva

Mais uma luta do Spider, o campeão volta ao tatame e os meninos ressentidos entram em ação. Às vezes penso que o Santo Antônio deles é um ídolo do esporte, tratado (e torturado) como familiar ambiguamente amado.

O Santo é amarrado, posto de cabeça para baixo, afogado em penicos, toda a sorte de malvadezas para que cumpra o dever de conseguir casamento para a dona da imagem.

Com os esportistas, no plano simbólico, é a mesma coisa. Ai do atleta que não corresponder aos instintos, às táticas (neste caso de luta) ou, simplesmente, aos desejos dos fãs. A resposta é tortura verbal certa. Uns poucos são sinceros, assumem que se tornam rancorosos com ídolos que os decepcionam.

É um perigo ser ídolo. Gente sempre se decepcionará com quem não atende suas individualistas expectativas. Dessa forma se sentiu decepcionado o poetamigo que se aproximou de mais um artista e concluiu: “quanto mais conheço artistas na intimidade, mais quero ficar perto dos meus amigos ‘peão de obra’.” E como ressoou sua declaração! Muita gente aplaudiu e concordou. Ainda bem que houve outro poeta, artista como eu, como o poetamigo, como os artistas que o frustram por quererem ser algo diferente do comum, que se opôs à voz unificada e argumentou que “tem-se uma ideia muito errada do artista, considerado quase um Deus, por muita gente. Eu, por exemplo, artista da palavra que sou, não faço a menor questão de agradar ou de ser simpático. Isso tem muito de subserviência (ao público, à imprensa, ao status quo). Quem quiser que leia minha literatura que não é feita para fazer amigos. É para inquietar e para o meu prazer, só isso. Sim! Sou apenas escritor.”

Corria frouxo o remi-remi de fã frustrado com ídolo que o desaponta até que alguém critica uma tática de luta do Spider que teria aberto a guarda, humilhando assim o adversário. O interlocutor discorda e menciona a luta entre Musashi e Seijuro, na qual o primeiro teria aberto a guarda para desestabilizar o segundo e quando este investiu confiante, aquele, já prevendo o golpe, o teria liquidado, como acontece tantas vezes também na Capoeira Angola.

A conversa então ficou interessante, onde é que Musashi lutou com Seijuro? No livro que li e que diante do solo arrasado da batalha de Sekigahara o narrador poetizava: “E depois de tudo, céu e terra aí estão, como se nada tivesse acontecido. A esta altura, a vida e as ações de um homem têm o peso de uma folha seca no meio da ventania...”, não foi. Mas também não pode haver dois Musashis, meu herói é único. Onde teria ocorrido esta batalha que não li?

Musashi é o romance épico que mais me arrebatou até ontem. Quando faltavam umas 100 páginas para terminar a leitura, eu que lia 20, 30 páginas por dia, passei a ler duas (achando que estava rápido demais). Para as últimas 10 páginas devo ter levado uns 10 dias e quando, finalmente, fechei o livro, não pude acreditar. Como? Otsu foi vencida pelo destino reservado às jovens virgens do período Keicho, foi arrastada pela velha Obaba para cuidar dela até a morte e assim Obaba matou meu sonho romântico de que Otsu vivesse a prometida história de amor com Musashi?

Finda a leitura, deixei o livro bem à vista (não consegui devolvê-lo à estante) e olhava para ele todo dia como se assim pudesse convencer Yoshikawa a enviar para a editora capítulos psicografados da história para que ela não terminasse, para que vivesse e me mantivesse acordada por mil e uma noites. Os deuses de Musashi ouviram minhas preces, organizaram em resposta uma nova luta do Spider e, graças ao burburinho em torno dela, descobri que existe o volume azul, onde acontece a batalha de Musashi e Seijuro.

Eu não assisto suas lutas Spider, não sou devota de você, nem de Santo Antônio, mas continuo admirando os sentimentos bons que você desperta na gente achatada que o enxerga como vingador altivo, leal e de bem com a vida. Admiro a família negra que você constituiu. E te devo mais essa, malungo. Musashi só voltou para mim porque devotos do UFC estavam malhando o Judas. Valeu, Spider! Boa sorte no tatame e fora dele.

* * * * * * *

escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Do amor e das mudanças

por Nina Madsen*

Nesses últimos dias, ando às voltas com uma grande mudança. De casa, de cidade, de país. A quarta mudança em quatro anos. É um tal de colocar livro em caixa, tirar livro de caixa, arranjar estante pra tanto livro. É um constrangimento a cada gaveta que se abre, diante das repetidas constatações do humano poder acumulador seja lá do que for. Crachás, por exemplo. Caixinhas. Roupas. E livros.

Revisitar as caixas de fotos, cadernos, cartas de toda a vida, empoeiradas, sempre à espera do momento tão prometido da organização, da produção de álbuns, da digitalização.

E é também o enterrar e desenterrar raízes, criar mudas de si mesma capazes de multiplicar o amor que a terra onde paramos nos traz e multiplica também em nós. Porque cada mudança me ensina que as raízes que nos sustentam não são apenas as nossas, mas também aquelas dos amores que nos deixam suas pequenas mudas ao longo do caminho e de cada paragem.

Pensei logo em Quintana, que me ensinou que amar é mudar a alma de casa. “Rapaz”, eu disse a ele, “não será por acaso que esse negócio de amar é assim tão trabalhoso, não é verdade?” Carregar para a casa do outro o acumulado, o empoeirado, o quebrado, o mal consertado. E juntar um tanto mais, e quebrar um outro tanto. E também construir, e descobrir, e deixar que se aprofundem e se misturem novas raízes. Ter que fazer mudança do amor do outro, ou de um amor para outros, é revisitar muito, é mover muito.

Há quem ame mais leve, assim como há quem viva mais leve. Sem pouso permanente em casa ou coração. E vá flanando pela vida, carregando casas e amores mais etéreos e abstratos em espaços aéreos mais facilmente transportáveis (lembrei agora de um livro infantil lindo, lindo, que mostra os amores como balões...).

Há também quem ame no concreto dos tijolos e do cimento, da permanência. Terra ocupada, lavrada e preparada pedaço por pedaço. Morada construída com a consciência do peso e do sentido de cada pedra. Amor patrimônio.

E entre uma ponta e outra, tantas combinações e misturas quanto permitir a imaginação e o desejo humano de ocupar e ser ocupado.

Eu fico meio lá, meio cá, certa de que há que se construir e guardar o amor para imprimir sentido à existência, mas há também que se levar o amor, mover o amor e movimentar a alma. E assim como ficaram em mim pedaços de cada casa que se foi, ficam sempre em mim pedaços dos amores que vivi. Amores que não acabam só porque se mudam. Ficam aqui guardados, nas caixas e nas estantes da alma.

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Nina Madsen escreve por gosto e necessidade desde que se lembra. Formada em Letras, caminhou pelos campos da educação até que se fez feminista e socióloga, por azar ou sorte. Integra o colegiado de gestão do Centro Feminista de Estudos e Assessoria, o CFEMEA, e colabora com a Universidade Livre Feminista. Aventura-se pelo avesso do mundo quinzenalmente, na coluna Crônicas do desmundo. *Desmundo aqui faz referência ao romance de Ana Miranda, uma lindeza literária que nos conduz pelas fronteiras entre o real e o onírico.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A luz


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna

Coisas acontecem enquanto cozinhamos. Dia desses, na casa de uma amiga, aberta a garrafa de vinho da inspiração culinária e providenciado o fundo musical, as vozes de Simon & Garfunkel me levaram a uma viagem no tempo e na memória. Há muito não os ouvia, o que é lamentável e exige imediata correção de rumo. Algumas das canções que essa dupla compôs e interpretou décadas atrás estão entre as mais lindas que me acompanharão sempre.

A sorte é que o caldo do risoto já estava pronto e a minha principal tarefa era orientar na preparação do prato, porque o golpe foi forte. Viajei para aqueles tempos em que a música nos consolava pela falta de liberdade e perspectiva, e nos conduzia a lugares mais amenos, cheios de poesia e respostas, ora amorosas, ora engajadas, ora inquietantes, para nossos jovens corações e mentes repletos de perguntas.

Tempos em que as letras das músicas vinham impressas nos encartes dos discos. Na ausência deles, exercitávamos nossos ouvidos e nossos rudimentos de inglês, transcrevendo as palavras conforme as entendíamos. Coisas incríveis resultavam dessas tentativas, que já renderam muito texto divertido por aí. Levei anos para acertar alguns trechos da antológica “O bêbado e a equilibrista” (de Bosco e Blanc), por exemplo.

“Kathy’s song”, composta pelo Paul Simon, é uma das que amei muito e estava submersa na memória. Emergiu ali, à beira do fogão, grudou no meu juízo, enquanto eu despejava conchas de caldo no arroz, e ficou de campana em alguma dobra, esperando o momento de me atormentar. Este chegou hoje e me fez buscar a letra, comprar a gravação (bendita internet!) e mergulhar no seu lirismo.

É tão bonita, mas tão bonita, que nem sei explicar. As palavras justas, simples e diretas, enfileiradas e costuradas à melodia com perfeição, descrevem sentimentos conhecidos e recorrentes, de maneira única. Melancolia, saudade, solidão e a chuva encharcando a rua, paredes e telhados. Quem desentende? Para mim, a melhor poesia e a melhor comida se fazem com ingredientes básicos, precisão, simplicidade e a sensibilidade de quem prepara. O resultado depende do estado de espírito, da inspiração e da intimidade com os ingredientes. Beleza pura foi o que encontrei lendo Adélia Prado ou ouvindo “Mucuripe” (de Fagner e Belchior) pela primeira vez, para mencionar apenas duas entre as muitas maravilhas que essa vida danada de complicada nos oferece. E sentidos atentos são indispensáveis para que se produza o encanto.

Tocar os sentidos e sentimentos das pessoas parece fácil e barato, ainda mais agora, com a facilidade que temos para entupir o espaço digital com enxurradas de palavrório e notas musicais amontoadas – aonde encontramos também um sem-número de aulas, dicas e receitas culinárias. Engano. É preciso ter a luz.


* * * * * * 

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Balcão, bebiba, barra, Biro

por Carlos Conte*

O bar do Biro é o melhor que eu conheço. Baiano albino, o Biro tem esse apelido por causa do ex-volante corintiano dos anos 80, o Biro-Biro (que o presidente Mateus certa vez chamou de Lero-Lero...). O Biro me lembra um personagem sertanejo da Rachel de Queiroz chamado José Alexandre, “caboclo hercúleo” que vivia isolado numa fazendinha no Ceará e que pelo fato de falar muito pouco sua voz era sempre rouca, “como a de um bicho que aprendesse a falar”. O Biro também não é de falar muito e está sempre rouco. Algumas pessoas são roucas por natureza e acho que esse é o caso do Biro. Por isso, pra ser escutado no meio do barulho do boteco, ele é obrigado a forçar a voz: “vai uma seLEta?”, ele pergunta, com ênfase na tônica, como se levasse um susto no meio da frase.

Crônica tem um quê de conversa de bar. E tem bares que merecem uma crônica. Já escrevi sobre o Silveirinha, poderia escrever sobre o Valadares, o Biu, o bar do Paulo, o bar do finado Vavá... Esses são os meus bares. Meus bares! Com pronome possessivo e tudo. Desses todos, porém, o Biro é o meu predileto, pois no quesito mais importante que existe quando se julga um bar, o Biro vence.

Variedade de cervejas? Sem dúvida esse quesito é importante, mas o Sagarana não é o meu bar preferido, muito menos o Frangó lá da Freguesia. Petiscos? Claro, são fundamentais (aliás, descobri que tem um bar de happy-hour numa travessa da Paulista que tem rodízio de petiscos, mas nunca fui). Atendimento? Limpeza? Serviço delivery?...

Quando elejo o Biro, não me refiro a nenhum desses quesitos adotados pelos críticos dos Guias e Revistas de São Paulo, até porque o Biro perderia em todos, exceto atendimento, pois simpatia e solicitude são a marca registrada do Biro, auxiliado por seu fiel escudeiro Geladeira (porque ele sempre está atrás do balcão, de pé, parado, como uma geladeira... Apelidos de bar é um tema que daria outra crônica).

Para mim, o principal aspecto quando se avalia um bar é tão subjetivo quanto o conceito de liberdade: cada um sente de um jeito diferente, cada um pode relatar experiências, manifestações reais, efêmeras ou duradouras, mais intensas ou menos, mas é difícil cravar “liberdade é isso”, “felicidade é aquilo”, como para mim é difícil encontrar a melhor palavra que defina essa adoração que tenho pelo bar do Biro.

Tem a ver com acolhimento. Sem dúvida. O Biro é meu refúgio. Eu procuro isso num bar. Nem sempre, é claro. Algumas vezes procuro mulheres. E cada vez mais elas estão indo ao Biro. O Biro é um bar que o Antônio Prata chamaria de “meio intelectual, meio de esquerda”, com seu balcão velho de fórmica, os bancos gastos, um enorme mapa múndi, um barrilzinho de pinga com o distintivo do Corinthians, a mesa de sinuca no fundo (onde as caçapas são tão apertadas que às vezes parece que o jogo não vai acabar nunca), mas o principal são os dois grandes painéis laterais, retratando cavalgadas e paisagens bucólicas. Esses painéis são realmente incríveis, eu não me canso de olhar para eles. A típica coisa brega/autêntica que a galera pira, e eu já me acostumei tanto com aqueles cavalos ali, me olhando, que não imagino como seria o bar sem eles. Até que um dia, dando na telha ou entrando um dinheiro extra, o Biro manda passar uma tinta, faz uma parede com textura ou algo do tipo, mais “moderno”, mais fácil de limpar, e acaba com a graça da galera hipster.

Voltando ao meu critério para preferir o Biro, refiro-me a um estado de bem-estar simples, absolutamente trivial: encostar-me ao balcão, tendo a minha frente uma garrafa de cerveja e um copo americano. Isso é o básico de um bar. O resto é acessório. Isso remonta, sem dúvida, ao primeiro bar da história da humanidade e ao seu primeiro frequentador, que certamente saiu de lá, montando em seu cavalo, satisfeito e surpreso com aquela experiência incrível, tão simples, tão fundamental: sentar-se ao balcão e beber, se possível beliscando um amendoim, mas isso já é secundário. O principal: balcão, bebida, barra. Sem pentelhação, sem encheção de saco, ninguém tagarelando na orelha. Balcão, bebida, barra – com aliteração e tudo! Sem dar satisfação, sem olhar o cardápio, sem ter que xavecar ninguém, sem ter que escolher a roupa antes de sair de casa. Balcão, bebida, barra e foda-se a menina que você tem que paquerar, que você tem que dar em cima, senão algum filho da puta incansável vai levar a melhor nessa história. Balcão, bebida, barra e não preciso me posicionar politicamente, nem falar de trabalho, nem convencer ninguém sobre nada. Balcão, bebida, barra, Biro e foda-se o mundo, amanhã eu volto a me preocupar com ele...

Tudo isso eu encontro lá, talvez você encontre em outro bar, talvez isso não faça o menor sentido pra você, e neste caso eu recomendo o happy-hour-rodízio-de-petiscos da Paulista ou qualquer lugar novo na Vila Madalena onde a gente não consegue nem escutar o próprio pensamento.

Sobre a barra, o Migue, amigo que entende de bar como poucos e que por isso adora o Biro, me contou que foi ela, a barra, que deu origem ao nome “bar”. Ela é essencial. É onde a gente apoia os pés – quer coisa mais importante do que isso? Mas não é todo mundo que tem consciência da importância dessa barra, sem a qual a gente começa a sentir desconfortos terríveis nas pernas e nas costas. Muito dono de bar não sabe disso e simplesmente manda tirar, como se não fosse fazer falta.

Do outro lado do balcão, está o Biro, solícito, honesto, atento (qualidades que lembram o seu Zé, o garçom que fez tanta fama que acabou dando nome ao bar das empanadas chilenas. Que fim ele teve?). Ali está o Biro e toda vez eu tenho vontade de dizer pra ele como eu gosto do seu bar, como para mim é bom estar ali olhando os cavalos, o mapa, o Geladeira, as bolas numeradas correndo pra lá e pra cá, escutando os frequentadores da velha guarda combinando seus churrascos de aniversário, suas caravanas para o litoral... Enquanto isso, amigos de facebook fumam seu cigarro na calçada. Enquanto isso, eu medito, e bebo.

* * * * * * *

Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Neguinho, o pistoleiro

por Maria Shirts   ilustração Ligia Morresi

“Oi… Marcio?”

“Isso!”

“Boa noite!” saúdo o taxista do apllicativo, entrando no carro.

“Posso te dar uma dica?”.

“Pode, claro”, respondi, um pouco apreensiva.

“Nunca pergunte o nome do taxista antes de entrar. Sempre diga ‘você veio buscar quem?’. Porque o cara pode tá agindo de má fé e vai falar que é o taxista quando ele não é, sabe”.

“Ahn…” me limitei a grunhir, um pouco perplexa com a paranoia do motorista.

“Hoje em dia a gente nunca sabe moça. E aí, vamo pra onde?”.

“Vamo lá pra Vila Romana. Acho que você pode ir aqui por dentro, pela Vanderlei, sabe?”.

“Ah esse caminho né bom não. Por dentro é escuro, vai que uma moto segue a gente…”

“Bom, moço, então faz o caminho que o senhor quiser”.

“To falando pro nosso bem senhora. Hoje em dia tem um monte de motoqueiro ladrão. Você nunca foi assaltada por um motoqueiro?”.

“Já….” respondi, agora já um tanto arrependida.

“Pois então. Esses dias um colega meu matou um filha da puta desses”.

“Como assim moço? Que horror”.

“Foi a reação dele ué”.

“Mas ele não ficou em choque de matar uma pessoa?”

“Ficou. Mas é o que dizem né, depois do primeiro…”

“Hein?”

“Sabe como é moça. Quem mata um pega gosto”.

“Na verdade não, não sei não”.

“O meu amigo neguinho que falava isso. Trabalhou pro meu pai lá na Mooca, quando a família tinha negócio no bairro. Na verdade ele começou a dormir lá porque era meio desabrigado, não tinha casa, mas era boa gente sabe. Aí meio que cuidava da loja, tipo vigia, sabe? Um dia entrô um cara lá pa roubar o caixa e assustou, de certo, quando viu o neguinho. Diz que o ladrão partiu pra cima, era ele ou o cara”.

“Eu hein”.

“Pois é… aí o neguinho matou o bandido na facada. Vomitou a noite inteira, ficou mal, disse que nunca mais ia conseguir dormir. Precisou remédio pra derrubar o hômi. E olha que ele era grande. Ma nunca tinha relado o dedo em ninguém sabe”.

“Sei…”

“Fia, eu sei que o hômi pegou um gosto pela coisa. Ma um gosto. Que depois disso ele virou o maior matador de aluguel que a Mooca já viu”. “Como assim moço?”.

“Assim ué. Matava com prazer. Tinha vez que ele matava sem receber, quando os cara assaltava loja de amigo dele”.

“Geeente… que horrível”.

“Tem quem goste né”.

“Tem?”

“Ô…”

“Mas e aí moço, que fim deu o neguinho?”

“Morreu”.

“Do que?”

“Matador de aluguel. Encomendaram a morte dele”.

“….”

* * * * * * * * *

Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana. Ilustração Ligia Morresi, especial para o texto

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Hippie de BR

por Carlos Conte   ilustração Marcelo Martins Ferreira

Nas últimas férias, dei carona para um sujeito chamado Gnomo. Gnomo é seu nome de estrada. Três anos na estrada, pegando carona e caminhando pelas BRs com sua pequena mochila e seu mostruário hippie feito de pano e canos de PVC.

– Valeu pela carona, brother! – tirou do próprio pulso uma pulseira de linha de bordado adornada com uma pedra azul e me deu. – Presentinho do Gnomo pra lembrar do brother da estrada!

Agradeci, amarrei no pulso e acelerei rumo ao sul. Saímos de Salvador com o sol nascendo. Nosso destino: Vitória.

– Vou terminar um Filtro dos Sonhos antes de chegar em Vitória. Peguei umas penas de arara no zoológico de Recife. O guardinha não queria deixar. Mas eu voltei lá depois quando ele não tava olhando. Vou fazer um Filtro dos Sonhos pra você com essas penas de arara. Curte?

Mesmo sem saber o que era um Filtro dos Sonhos, aceitei. Era a maneira de me retribuir, já que estava completamente liso. Penas de arara colhidas do chão não afetaram minha consciência ecológica a ponto de recusar. “Se ele tivesse arrancado da arara, recusaria”, pensei. Mas Gnomo era um sujeito pacífico. Sua matéria-prima vem da coleta. Na primeira parada, enquanto eu abastecia o carro e tomava um café, ele se ocupou catando coisas no mato atrás do posto de gasolina. Voltou com uma sacola cheia de materiais:

– Olha só, brother, achei umas coisinhas legais: pedra, semente, corda, arame, cipó... Seu Filtro dos Sonhos vai ficar massa: vai ser de galho de chorão! As pessoas jogam muita coisa boa no lixo. O que eles jogam fora eu uso na minha arte – orgulhou-se.

Encontrar Gnomo me fez lembrar de uma andarilha que pedia carona na viagem de ida. Fiquei mal por não ter dado carona pra ela. A mais de 100km/h, não deu tempo. Pedir carona exige estratégia e ela estava no lugar errado! Gnomo me explicou detalhadamente: tem que escolher um trecho de velocidade reduzida, de preferência trevo ou ponto de lombadas, e é preciso que o acostamento seja largo e longo, na verdade um recuo é o ideal para o carro conseguir desviar-se da pista sem provocar acidente.

– Você foi um anjo no meu caminho, Carlão! Carona de 2 dias não é toda hora que aparece!

Fiz questão de dar carona para ele porque, de certo modo, me sentia em débito. Quando vi a menina, já tinha passado por ela e logo atrás de mim vinham carros e carretas a toda velocidade... Acostamento estreito. Não teve jeito. Segui viagem. Agora era a vez de Gnomo e eu precisava dar essa carona, como se minha viagem ganhasse muito mais sentido com um estradeiro de verdade ao meu lado. Faz tempo que sou fascinado pela vida na estrada: desde que li On the Road pela primeira vez, Dean e Sal cruzando os Estados Unidos com uma mochila nas costas, ou o relato zen de Os Vagabundos Iluminados; desde que ouvi falar dos sadhus, monges andarilhos indianos que vivem de doações, de sol e de água; ou o relato de Che Guevara pela América Latina explorada e miserável; desde então, a viagem me fascina e não me canso de ir atrás de outros relatos de viagem: a desobediência civil de Thoureau, as andanças de Rousseau pelos bosques suburbanos, as perambulações opiáceas de De Quincey pela Inglaterra. E Gnomo, de certa forma, era a realização desse modo de vida (pelo menos no que diz respeito à simplicidade e ao nomadismo). Gnomo, meu copiloto. Mais de mil quilômetros ao lado do Vagabundo Solitário Gnomo, que sempre que encontrava oportunidade exaltava as qualidades de sua arte. “Arte hippie”, ele dizia.

Mas o encantamento durou pouco. Romantismo. Idealização. Os livros também falam do “lado B” da vida andarilha. Os beats nunca esconderam isso. A vida na estrada é dura, como se pode imaginar, e Gnomo estava definitivamente na pior. Em vários sentidos. Pra começar, estava duro. Convidei-o para almoçar: ele fez um prato gigantesco – “vai saber quando vou almoçar de novo?”. Contou-me seus infortúnios: a ex-mulher voltou para o Chile e levou o cachorro; a única filha está em Pernambuco sendo sustentada pelos avós; as vendas andam mal... Em Salvador, vendeu pouco e bebeu muito. “É a fase...”, lamentou-se. Agora precisava encontrar uns amigos em Belo Horizonte: fixar-se por um tempo, trabalhar bastante, juntar mercadoria e só então seguir viagem de novo. Por ora, seu mostruário hippie tinha pouco a oferecer aos fregueses, algumas pulseiras e brincos... Era preciso fazer uma parada estratégica até a temporada de fim de ano, quando as praias se enchem de gringos e paulistas. Mas enquanto dezembro não vem, trabalhar, esperar... Gnomo não escondia sua aflição. Ele sabia que estava na pior.

Em Teixeira de Freitas, pequena cidade perto da divisa com o Espírito Santo, paramos para dormir. Gnomo já havia anunciado que deixaria suas coisas no carro e iria se ajeitar na rodoviária, o lugar mais iluminado e seguro da cidade. Para ele, numa boa. Já estava acostumado a fazer isso. Mas eu não conseguiria dormir tranquilo pensando em Gnomo na rodoviária. Afinal de contas, éramos parceiros de viagem e aquilo não estava certo. Paguei 20 reais pelo pernoite dele, assim como paguei a carne de sol do jantar e a cerveja. Gnomo se encostava em mim sem nenhum grilo, resignado. Se não fosse em mim, seria em outro. Se não fosse em ninguém, seria pedindo, como um sadhu indiano. Mendigando. Virei umas pingas e fui me deitar, pensando em Gnomo. Pensava também como seria fazer como ele: escapar de tudo e viver na estrada, dormindo ao relento, conhecendo lugares novos, vivendo da natureza e da bondade dos outros. Mas havia as dificuldades, os “perreios”... E cheguei à conclusão de que Gnomo vivia num “perreio” eterno, embora ele não se importasse muito com isso. Talvez ele se importasse um pouco. Não sei... talvez eu me importasse muito mais do que ele.

Dia seguinte, cruzamos a fronteira de estados, Gnomo foi dormindo quase todo o caminho embalado pelo som de Gil: “O sonho acabou/quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou”.

O tempo na estrada vai rápido. 100km ficam cada vez mais curtos. “É logo ali...”, dizem os caminhoneiros, “É logo ali, só mais uns 100km...”. Para falar com caminhoneiro, é preciso se referir a grandes distâncias. Sempre que falava que tinha saído de São Paulo dias atrás, percebia que me olhavam com alguma consideração, porque sabem que essas BRs são sofridas pra cacete, ainda mais pra um carro de passeio. O lema dos carreteiros é “Veículo leve que saia da frente!”. Se não estiver alerta, eles passam por cima mesmo.

Entramos em Vitória quando anoitecia. Parei em frente à praia e anunciei a ele o fim da carona.

– Agora vou pra catedral, onde os brothers se juntam pra vender. Valeu pela carona, Carlão! Foi foda! Te agradeço de coração...

Antes de ir, me pediu umas moedas para o ônibus, pegou suas coisas e seguiu adiante, enquanto fiquei encostado no carro olhando para aquela imagem pequena, cheia de dreads que foi ficando cada vez mais escura e pequena até desaparecer no meio do tráfego. Dia seguinte, tentaria entrar clandestinamente no trem que vai pra Belo Horizonte. Mais um dia de viagem, nessa viagem tão incerta e fugidia que era o seu próprio modo de vida. Fiquei triste e admirado vendo Gnomo partir. Só mais tarde me dei conta de que sua sacola de “materiais” de coleta tinha ficado no banco traseiro. E o Filtro dos Sonhos prometido, feito de galho de chorão e penas de arara, vai ficar para a próxima.

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Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Marcelo Martins Ferreira, ilustrador, design e músico, especial para o texto

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Arquétipos do busão

por Maria Shirts*

Quem anda de busão já deve ter notado que o transporte é cheio dos arquétipos.

Só de cobradores eu consigo tipificar uns 3. Por exemplo:

O cobrador que dorme

Quem usa o Bilhete Único não se relaciona com o cobrador que dorme . Mas quando a tarjeta eletrônica se esvai de créditos, é preciso passar por aquela situação do sorriso amarelo na cara, da delicada-cutucada na mão do sujeito que abre os olhos, assustado, enquanto pega o dinheiro estendido no ar.

O cobrador sociável

É o mais bacana dos cobradores. Faz piada, enche o saco do motorista e te conta milhões de casos que, provavelmente, não aconteceram de verdade. É o Forest Gump dos cobradores.

O cobrador xavequeiro

Tá sempre de óculos escuros e escutando música. E mesmo com os olhos escondidos é possível saber que ele mira a bunda de todas as meninas que passam pela catraca.

Falando em escutar música, quase todo ônibus tem o cara da música alta, que pode não ser o cobrador xavequeiro, mas sim um passageiro inconveniente que acha que todos merecem partilhar de seu gosto melódico. Quem não quer cantar junto que ponha os fones de ouvido, oras.

Do fone de ouvido

Sou eu, no caso. Fico balançando a cabeça junto do balancê do busão e paro de cantar, um pouco avexada, quando percebo que estou sendo observada por exceder os decibéis permitidos a uma cantante amadora no transporte público.

Do escandaloso do celular

Ele não fala, mas berra ao telefone móvel. Apesar da indiscrição, devo confessar que eu gosto um pouco do escandaloso do celular porque eu adoro ouvir conversa alheia. Quase sempre rende uma boa crônica.

Do babão

Aquele que dorme. Profundamente. (Eu não sei como essas pessoas não perdem o ponto. Ou perdem, né, vai saber.)

Do perdido

Para o busão pra perguntar pra onde ele vai, empata a fila da catraca pra perguntar onde para, não sabe se senta ou fica de pé e atrapalha toda dinâmica espaço-temporal do coletivo.

Do antisocial

É o que eu mais desgosto: senta na cadeira do corredor só para evitar que as pessoas sentem do seu lado. Constrangidos, os demais passageiros desistem de pedir licença para sentar na janela e escolhem outro assento.

E, por fim, há o motorista alucinado que simula cenas de Velocidade Máxima com gosto.

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Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Medo e culpa na prática de exercício


por Alexandre Luzzi   ilustração Marcelo Martins Ferreira*

É comum ouvirmos das pessoas que há uma relação de causalidade entre a prática de exercícios físicos e o conceito de saúde. É um posicionamento com raízes no consenso encabeçado, principalmente, pela comunidade médica e científica.

O certo e o errado, as relações de funcionalidade, os processos de intervenção em nosso próprio corpo, em nossas vidas, o que fazemos, o quanto fazemos, são mediados pelos manuais da ciência. Quando alguém quer fundamentar um argumento como “a verdade” diz que “os estudos científicos comprovam”.

Agora, se mudarmos essa perspectiva do sentido e do significado sobre o que entendemos como saúde a relação de causalidade é colocada em “xeque”. A maioria de nós assume que praticar exercícios é bom para a saúde e determinante para o pleno desenvolvimento em outros âmbitos de nossas vidas.

Pergunto: quais são as razões de tanta dificuldade em aderir a uma prática e uma rotina de exercícios? Ausência de tempo, muito trabalho, filhos, falta de locais adequados, inadequação em relação aos ambientes oferecidos, pouca oferta de modalidades interessantes, incompetência profissional na prestação de serviço, cansaço, desinteresse, enfim... a lista é grande.

Observo diariamente pessoas que tentam iniciar uma prática corporal e desistem nas primeiras semanas. Tenho consciência que as barreiras citadas acima podem se tornar intransponíveis. No entanto, pouco iluminada pelos holofotes da nossa razão é a injunção exercício físico e saúde, essa, sim, a maior de todas as barreiras.

Sugiro ao leitor um pequeno exercício para melhor compreensão. Pegue um pedaço de papel e, em poucas linhas, escreva o que significa para você a palavra saúde. Em linhas gerais, perceberá que são as condições negativas que fazem a saúde existir. Ou seja, a saúde só pode ter sentido quando relacionada à doença. Logo, o principal elemento utilizado, de forma deliberada, para motivá-lo a praticar exercícios é uma emoção chamada medo.

Caso optem ao sedentarismo, o convencimento à prática de exercícios virá da alimentação do medo de doenças e a contrapartida dessa engrenagem gera um outro sentimento que conhecemos como culpa. Eis uma dupla quase imbatível para te convencer a praticar exercícios. E se você não praticar e adoecer: "a culpa é sua!"

Quando o sujeito se propõe a uma prática corporal, o caminho mais curto é a ressignificação, ou seja, essa adesão se situa na possibilidade de criação de um novo sentido que surge a partir da qualidade do encontro consigo mesmo e com o outro.

O medo e o sentimento de culpa puxam nossa percepção para o nível onde os imperativos ideológicos sobre atividade física e saúde são operados e reduzem toda a possibilidade de resignificação de sentido. Preso a essa rede de sentido, o sujeito sucumbi à demanda de esforço para sustentação de qualquer prática corporal, já que todo sentido que o mobiliza é externo a ele mesmo.

Concorda comigo o Professor de Educação Física Flávio Soares Alves ao afirmar que: “Quando se dobra a atenção sobre uma prática corporal e se força a incuti-la como exercício regular de cuidado, tal movimento pode ser estimulado pela força imperativa dos ideais vigentes na esfera pública, ou por um movimento original de cuidado que não abre mão de si mesmo frente à presença insondável do ideológico.” Para ele, “enquanto no primeiro caso a prática não passa pelos crivos da adesão, no segundo o sujeito realmente se apropria da prática que realiza e faz deste movimento um exercício de cuidado consigo e com o outro.”

A educação para uma ciência positivista predomina na cultura moderna e a Educação Física parece ser afetada por isso, situação na qual predomina uma visão extremamente tecnicista e biológica do corpo humano, esvaziando de suas práticas um sentido maior para o movimento que não seja a prevenção de doenças, a estética e o desempenho motor em níveis máximos, excluindo do trabalho com o corpo uma percepção maior do mesmo – o que sentimos ao movimentá-lo, as relações desse corpo com a cultura, com o outro e com a natureza.

No próximo texto vou mostrar ao leitor como uma modalidade como o Pilates, se bem conduzida, pode coincidir com essa nova proposta.

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*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzi coordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo. Marcelo Martins Ferreira, ilustrador, design e músico, especial para o texto

segunda-feira, 24 de março de 2014

As duas vidas de um menino negro

por Cidinha da Silva*

A primeira vida é de um rapaz de família, trabalhador, pacato, cercado de amigos negros e brancos. Um homem jovem, para quem, ser negro, talvez vá pouco além da alegria e do orgulho de uma bela coroa Black Power.

A segunda vida é a do sujeito descrito, mas, tratado como um negro qualquer pela polícia. Toda singularidade se esvai como bolha de sabão colorida diante da perseguição dos estereótipos.

Por um lance simples de sorte e provável proteção espiritual, Vinícius Romão de Souza não foi abatido como Cláudia da Silva Ferreira. Em comum, a negritude de ambos, o pertencimento à mesma comunidade de destino.

O racismo é o que menos se evidencia nas histórias de Cláudia e Vinícius. A mulher trabalhadora, mãe zelosa de filhos e sobrinhos, sucumbe à condição de “a arrastada”. A mídia não se dá ao trabalho sequer, de dizer seu primeiro nome, Cláudia! De Vinícius exploram a juventude, os sonhos, a família forte que supera os sofrimentos das perdas precoces, a cabeleira Black Power, atributos que o individualizam, emprestam-lhe uma história particular que não é respeitada, por isso, ele é “o injustiçado”. Contudo, o que pegou mesmo, quer para a prisão de Vinícius, quer para o assassinato de Cláudia, foi o fato de serem negros desprotegidos, expostos à sanha racista e ao humor sórdido de policiais, que, para os que não querem entender, prendem e matam as pessoas negras a esmo, como insetos ou vermes.

Depois de sair da prisão, em busca de recuperar a primeira vida, Vinícius afirma que nunca fora vítima de racismo, sempre foi respeitado. Vítima, não. Isso é certo. Vinícius é alvo de uma sociedade que, estrategicamente, refuta a existência do racismo dirigido aos negros, para garantir os privilégios dos brancos; que enlouquece os que atestam sua virulência, pois querem provar a eles que o que julgam ser racismo é apenas a vida inexorável do negro (não por acaso conveniente para manter intactos os louros da branquitude).

Vinícius terá se sentido respeitado todas as vezes que levou baculejo da polícia? Ao voltar da universidade, do colégio, talvez até da escola primária com uniforme escolar. Porque é assim que homens e meninos negros são tratados! Ou não? Terá se sentido respeitado a cada vez que uma mulher protege a bolsa ao sentir sua aproximação? Ou nas inúmeras vezes em que foi ridicularizado por sua compleição física de descendente de africanos?

Para infelicidade dos negros, a história individual não tem evitado sua morte, seja física, seja simbólica. Mas, Vinícius, como a maioria dos seus, foi levado a dormir dentro dessa casca de ovo, até que a segunda vida a quebre e surja de dentro um cheiro insuportável de coisa podre que toma conta de todo o ambiente. Então, mesmo não havendo como fugir, disfarçar, negar o óbvio, a primeira vida será evocada outra vez, na ilusão de que possa proteger as pessoas- alvo da voracidade do racismo.

E a trilha viciosa se repetirá até que as duas vidas se encontrem e se fundam. Até que se compreenda que todas as vezes que um negro sofre discriminação porque é negro, trata-se de uma agressão coletiva. Desse modo, não existe um negro que nunca tenha sido discriminado.

A repetição ocorrerá até que se entenda a alteridade como direito que não exime a população negra do pertencimento à mesma comunidade de destino. Os “negros especiais” não existem, apenas negros que contaram com mais sorte ou acessos ao longo da vida. O povo negro será tratado como negro, descendente de escravizados as vezes sem conta em que o poder branco se sinta ameaçado. É a regra do jogo da opressão racial.

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 escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Banzo


por Júnia Puglia     ilustração Fernando Vianna*

Chegamos ao bairro quando eu tinha dez anos. Do lado esquerdo da casa onde viveríamos os sete anos seguintes, havia um terreno baldio, o campinho oficial das peladas dos meninos da rua. Só deles, pois meninas brincavam de bola com as mãos, jamais com os pés. Eles pareciam um bando de gafanhotos, e recebiam um reforço especial quando meu pai cismava de entrar no jogo, descalço e com o short escorregando pança abaixo, feliz da vida. A bola suja de terra teimava em vazar para o nosso quintal e carimbar as roupas postas para quarar ou secar. Era recebida com impropérios variados e devolvida ao cabo de muita negociação.

À direita, uma família japonesa, isto sim uma grande novidade. Três gerações na mesma casa, incluindo uma trinca de crianças de idades próximas às nossas. Àquela altura, já havia uma grande comunidade nipônica no interior de São Paulo, mas nunca havíamos convivido tão de perto.

A integração da galera miúda foi imediata. Para nós, havia pouca diferença entre as casas e a rua, pois as crianças transitavam livremente. Quando não estávamos na escola, nos juntávamos na rua para a amarelinha e o campeonato de pião, ou entrávamos em alguma casa para filar bolo com groselha e nos abrigar do sol a pino. Os adultos não se enturmavam muito, interagiam apenas em função da criançada circulante.

A casa do Seu Zé e da Dona Elisa era muito diferente. Logo na chegada, estranhamos os canteiros de agrião na frente da casa, onde normalmente se plantavam jardins. Em sua primeira visita à nossa nova casa, meus avós ficaram muito impressionados com o tamanho e o viço dos agriões, cultivados na terra e não na água, coisa desconhecida para eles, grandes apreciadores de hortaliças. Ficaram ainda mais maravilhados quando descobriram a enorme horta que a Dona Elisa e os sogros cultivavam no terreno dos fundos, enquanto o Seu Zé dava duro em sua oficina mecânica. A horta era mesmo uma beleza, mas eu estava muito mais interessada nos estranhos cheiros daquela casa e nos sorridentes velhinhos japoneses, capazes de dizer umas dez palavras em brasileiro, se tanto.

Pendurado na parede da sala, um retrato dos velhos quando jovem casal se aventurando do outro lado do mundo e o indefectível calendário com a foto do monte Fuji, distribuído pelos comerciantes, que adornava todas as casas, japonesas ou não. Nas datas festivas nipônicas, a Dona Elisa mandava um dos meninos entregar lá em casa um prato de deliciosos bolinhos doces à base de feijão ou uma goma colorida que, se bem me lembro, era feita com amido de arroz. Uma forma de demonstrar seu contido apreço por aqueles vizinhos pra lá de animados.

Em certas noites quentes do nosso mundo, o velhinho se sentava na cama, com a janela aberta para a rua, e tocava o que nos parecia um banjo de três cordas, cantando a mesma melodia, imóvel, horas a fio. Desde a primeira vez que ouvi, me impressionou aquele canto triste, com ondulações na voz que pareciam acompanhar o som do instrumento. As não mais que três ou quatro notas daquela melodia estão aqui, intactas na minha memória, tanto na batida das cordas quanto na voz do Seu Tsuha. Ele provavelmente desconhecia a palavra “banzo”, que acho até que existe em japonês – a palavra, com outro sentido – mas era este o sentimento, então indefinível, que me tomava quando, encolhida nos panos da minha cama, dormia ouvindo aquele som pungente.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Historietas Urbanas


por Maria Shirts* 

***

Da Solidariedade

Ambiente: Ônibus na Avenida Angélica

O motorista estaciona no meio da Avenida Angélica, em Higienópolis, bairro central da capital paulista. Em meio às muitas buzinas dos Audis detrás do ônibus, ele fala com o passageiro do primeiro banco:

– Vamos lá André?

Os passageiros, atônitos, procuram ver o homem, que se levanta com agilidade e uma bengala própria para cegos na mão.

O motorista abre a porta do veículo, pega André pelo braço, cruza a Angélica parando, mais uma vez, o trânsito de carros. Volta correndinho, entra e retoma o caminho.

***

Histeria sem noção

Ambiente: Rua Coronel José Eusébio

Vindo a mais de 60 por hora numa rua estreita e pequena, a senhora teve que freiar suas 2 toneladas de carro quando uma mãe com seu pequeno filho atravessava a rua, uns 20 metros antes da faixa de pedestres.

Ela, que vinha buzinando histericamente há bons 50 metros parou e começou a bater palma ironicamente, ao mesmo tempo em que gritava “DÁ PRÓXIMA VEZ VAI PELA FAIXA SUA SEM NOÇÃO”.

***

Em inglês

Ambiente: Busão na Avenida Sumaré

Dei sinal para descer e me levantei para esperar o meu ponto de ônibus junto à porta. Estava lendo O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald, em inglês. Já chegando em meu destino o cobrador perguntou:

– Você fala inglês?

– Falo sim

– Demorou pra aprender?

– Com certeza, acho que fiz uns 10 anos de aula

Levantou as sobrancelhas em expressão de surpresa e disse:

– Deve ser legal falar inglês

Emudeci. E desci no ponto.

***

Xavequeiros Indecisos

Ambiente: Rua Aspicuelta

Passaram por mim buzinando. Eram quatro homens num só carro:

– Gostosaaa!!!! Gostosa!!!! Uhuu!!!!

Respondi:

– Vai à merdaaa!!! Bando de folgado!!!!

O trânsito, parado, os fez frear. Eu, a pé, continuei pela calçada que beirava o veículo do quarteto fantástico. Sem delongas, gritaram: - Fiu fiu! Que princesa hein!!! Gostosaaaa!!!

Me limitei a fazer um tradicional e obsceno gesto com as mãos.

Eles, ofendidos, gritaram:

– Vai se fudêê! Gordaaaaa!! Feiaaa!!!

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Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O alienígena



por Cidinha da Silva

Um homem foi surpreendido na plataforma do trem em confabulação serena com os próprios botões. Perdia-se no infinito da linha férrea enquanto aguardava a máquina transportadora, de gente, de sonhos, de preguiça, de cansaço, de medos.

Ele mesmo portava esses sentimentos todos. Tinha preguiça de ver tantos dedos teclando, tantos olhos vidrados na tela, tanta conversa sem escuta, tanta exibição de conquistas pelos canais virtuais em busca de afeto e admiração.

Tinha o cansaço da faina diária, oito horas no computador, as preocupações com o dinheiro curto e muito trabalho, os colegas desesperados no banheiro acessando as redes sociais pelo celular.

Tinha medos e pesadelos. Medo de ser soterrado pelos aparelhos de comunicação, pelos auriculares, teclados, microfones, fibra ótica, telas sensíveis, falantes e curiosas, pelos avisos de compra efetuada naquele momento via cartão de crédito dele, cujos dados desconhecia (da compra e do cartão).

Tinha sonhos de viajar nas férias, de encontrar um novo amor, de pedalar com esse amor e curtir as montanhas, próximo a um lago e uma estação de esqui. No lago haveria patos selvagens mansos, cisnes, botos e as vitórias régias que ele teria importado dos rios amazônicos nas férias do ano anterior.

O homem esperava o trem e tinha a alma silenciosa e feliz de um ser urbano que não vive a vida num smartphone.

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Absurdada

por Cidinha da Silva 

– Pela milionésima vez, por favor, se amostrar, não existe. Não pega bem para você, uma pessoa formada e reformada pela universidade, usar uma expressão incorreta como essa.

– Ora veja, incorreto para mim é o que não faz sentido, se amostrar faz sentido para boa parte do país.

– Não faz sentido e está errado.

– Prismando pela gramática você pode até estar certa, mas no cotidiano das pessoas está errada.

– Por que você não usa um sinônimo mais simples da palavra? Exibido, por exemplo. Todo mundo conhece.

– Não dá, porque uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Quem se exibe é exibido, quem se amostra é amostrado.

– Compreendo. Mas, quem se exibe e quem se amostra não busca o mesmo resultado, ou seja, vender o próprio peixe? Pense bem, é melhor vender seu peixe com as palavras adequadas.

– Pois é aí que sua isca se engana, se exibir é assunto de vitrine, se amostrar é assunto de farmácia.

– Como assim? Você está me parecendo assunto de confusão mental.

– Não é que eu queira me gambá, mas confusa é você que prisma pela gramática e não entende os prismas criativos do olhar. Vou dar um exemplo para ver se te ajudo. Quando a pessoa compra uma roupa e não tira mais do corpo, aproveita e conta para todo mundo que comprou aquela peça, ela está se exibindo, é exibida. Mas quando a pessoa compra um corselet do tamanho de Minas Gerais, espreme o Pará, coloca dentro de Minas, depois vai debutar num ambiente para 20 convidados, ela quer se amostrar, é amostrada. Pensando em termos mais contemporâneos, os vendedores de shopping que olham com desprezo para os meninos dos rolezinhos e no fim das contas moram no mesmo bairro deles são exibidos. Eles acham que o nariz empinado, a gomalina no cabelo, a roupa padrão vendedor de loja de shopping e aquele olhar de conferência nojento em cada pessoa diferente do branco que eles almejam ser, faz deles seres diferentes e superiores ao rolezistas. Por outro lado, as meninas e meninos dos rolezinhos vão para os corredores dos shoppings para se amostrar, para serem consumidos uns pelos outros, são, portanto, amostrados. Percebeu a sutileza da diferença?

– Entendo, mas está errado.

– Como é que está errado se você entende? Se milhões de pessoas entendem e usam? Você não aceita a inventividade linguística do povo, isso é que é. Aceite que dói menos. Amostrar é verbo torto no breviário das conjugações e amostrado é particípio de amostra grátis! Pronto. Captou?

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Terminal Pinheiros 209P



por Maria Shirts    ilustração Camila Rocun*

Esses dias peguei um ônibus de Perdizes com destino à minha casa, que fica em algum limbo entre a Sumaré e a Vila Madalena (num daqueles bairros que ninguém nunca sabe o nome). O trajeto é fácil e corriqueiro na minha vida: basta aguardar o Terminal Pinheiros que vai toda vida pela Paulo VI, onde desço no último ponto.

Pra quem não sabe, sou uma ativista fervorosa do transporte público. Nunca aprendi a dirigir, e nem vontade tenho. Acho os automóveis inconvenientes, grandes carcaças de toneladas mal-educadas. Não sei porque, mas tenho algum incômodo com o individualismo que o modal representa.

Por isso, fico militando nas vidas virtual e real em prol do busão. Tento espalhar a notícia de que as novas faixas estão mudando a cidade e o nosso modo de se locomover. “É muito melhor do que você imagina”, costumo dizer com frequência. No mês passado, entretanto, o Terminal Pinheiros demorou um pouco mais do que o comum. Quando veio, chegou um ônibus enorme, daqueles de sanfona, anunciando uma mudança de numeração no letreiro.

Era o Terminal Pinheiros 209P, antiga linha 117Y. Perguntei pro cobrador o porquê da demora: “Muito trânsito senhor?”. “Não minha filha, é que essa linha mudou né, por enquanto tá meio confuso”.

É verdade, pensei comigo mesma, lembrando que a mudança faz parte da reestruturação nas linhas que procuram, até onde entendi, otimizar as viagens de ônibus, tornando-as menores e mais rápidas. “Entendi. Mas por que que trocaram por esse ônibus enorme?”, perguntei. “Pra levar mais gente né”, respondeu. “Uhm!” murmurei, um pouco envergonhada com minha própria ingenuidade.

Mas isso não pareceu incomodar o cobrador, o Sergio, que percebeu que eu sou dessas que puxa papo no busão. Sem mais delongas, ele começou a me mostrar todas as vantagens desse novo ônibus, que tinha duas câmeras (uma em cada saída) pra auxiliar o motorista, um painel eletrônico, luzes mais modernas e o melhor de tudo: era bem mais gostoso de dirigir. “Afinal, eu sou motorista também, sabe, tô de cobrador só por hoje”, avisou. E prosseguiu: “Adivinha quanto custa esse ônibus?”.

“Não tenho ideia!”. Já havia cometido uma ingênua gafe e fiquei tímida de lançar outra. “1 milhão e 200. E sabe quem paga? O BNDES”.

Fiz aquela cara de nossa, não sabia! Acho que o Sergio pressupôs o que eu estava pensando e continuou: “Pois é minha filha, os empresários não tiram R$ 1 do bolso, o preço da passagem é que vai pagar tudo!”.

O preço da passagem é que vai pagar tudo. E mais um pouco, concluí, mas quando fui responder já tinha chegado no meu ponto e me limitei a desejar apenas uma boa noite pro Sergio, que ia continuar a viagem naquele novo Terminal Pinheiros 209P, antigo 117Y.

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Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana. Ilustração de Camila Rocun, graduanda em Design Digital, ilustradora e apaixonada por cinema, divide seu tempo entre fazer arte pelo Portal R7 e ser mãe do Léo.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Querida Bety


por Carlos Conte      ilustração Marcelo Martins Ferreira*

Querida Bety, conheci você há alguns anos, dentro de um sebo no bairro de Pinheiros. Seu nome está na folha de rosto do livro que eu comprei, “6 propostas para o próximo milênio”, do Italo Calvino: “Bety, espero que me perdoe. Feliz 92. Te amo demais! Alfredo. 31/12/91”, diz a dedicatória. Livro especial, sem dúvida. O Alfredo, além do bom gosto, tinha ótimas intenções ao lhe ofertar esses valores literários que o Calvino transmitiu para as gerações do novo milênio. O que o Alfredo te fez, Bety? Alguma mancada grave? Para o livro ter ido parar na estante do sebo, acredito que sim. Com certeza quis apagá-lo da lembrança. Você não o perdoou.

Confirma minha hipótese o fato do livro estar praticamente novo. Mais de 20 anos depois, Bety, e nenhuma folha amassada, nenhuma orelhinha sequer... Você não leu esse livro, tenho certeza. Tivesse lido, teria deixado algum sinal. E olha que eu sou atento! Consigo divisar um vestígio em livro como poucos. Aliás, confesso, tenho mania por livros usados. Dizem que cada qual tem a sua. Ou até mais de uma. No meu caso, livros usados. E por isso não ligo para rasuras, como a maioria. Para mim, é interessante saber como um desconhecido leu as mesmas palavras que eu estou lendo. Comentários marginais, exclamações, interrogações – ah, como pode esse cara não entender esse parágrafo!... Me divirto.

Só me deixam angustiados os trechos grifados, alguns marcados com asteriscos, que eu leio, releio, e não entendo. Como pode alguém ter encontrado tanto sentido nessa parte tão difícil?... Nessas horas, Bety, tendo a me considerar um mau leitor. Desatento. Limitado. Meio burrinho, se é que você me entende.

Tudo bem. Quem sabe um dia, pegando de novo o bicho, eu entendo. Vou passar pelas mesmas linhas, pelas mesmas frases, e me deparar com as interrogações aflitas que eu mesmo rabisquei anos atrás. Dois Carlos, enfim, se encontrando, separados por um intervalo de cinco, dez anos. E aí, Bety, nesse encontro inusitado, vou olhar com indulgência para as minhas garatujas preocupadas de outros tempos, minhas antigas marcas da adolescência.

Já ganhei trevos de quatro folhas, recortes de jornal, fotos pessoais. Objetos esquecidos no meio de livros. Livros que foram parar em sebos, não se sabe por quais circunstâncias da vida: desinteresse pela leitura, falta de grana (caso de quem vende parte de sua biblioteca para levantar algum), falta de espaço, mudança de endereço, falecimento.

No seu caso, Bety, deduzo que tenha se livrado do livro por falta de amor. Mas também pode ter sido por excesso. Sim, excesso de amor é uma hipótese plausível. Isso já aconteceu comigo mais de uma vez. Para me livrar completamente de uma pessoa que eu amo demais, mas que preciso esquecer de qualquer maneira, já que esquecê-la é a única maneira de tornar a existência suportável, preciso jogar fora todos os seus vestígios materiais: chinelos, presilhas de cabelo, cartas, calcinhas, presentes... Livros, dentre os presentes, têm importância especial. Afora as pessoas que escolhem livros como quem escolhe meias numa gôndola de supermercado, presentear com um livro geralmente requer sensibilidade, sofisticação. Não é um presente qualquer. Acertar na escolha de um livro significa que se está em sintonia com a pessoa presenteada. Quase telepatia. E há livros que, de tão especiais, acabam se tornando marcos de um relacionamento: positiva ou negativamente. Exemplifico. Num momento de fogo, de grande libertação, inclusive sexual, quando viajávamos e nos descobríamos, comprei para uma ex-namorada On the Road, do Jack Kerouac (que ela não leu). No final do namoro, simbolizando a lápide fria da inércia típica do final de um relacionamento, ela me deu de presente de aniversário um dicionário (extremamente útil, um Houaiss tamanho grande, completo, atualizado com a nova grafia), mas um dicionário.

Sabe, Bety, no seu lugar não teria me livrado do livro, como você fez. Apagar o Alfredo da memória talvez fosse mesmo inadiável, mas não em troca de um ótimo livro, como esse do Calvino. Poderia, em vez disso, ter rabiscado a dedicatória, ou arrancado a folha de rosto. Por causa do Alfredo? Não deve valer grande coisa... Ao menos deveria ter ficado com a literatura. Mas aí eu nem te conheceria. De qualquer maneira, espero que tenha passado um feliz 92, querida Bety.

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Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Ilustração de Marcelo Martins Ferreira, design e músico, especial para o texto

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Pra boi dormir ou dá muita preguiça


por Júnia Puglia*

Propaganda eleitoral. Quase todos os livros de auto-ajuda. Gênero musical new age, com destaque especial para Enya. Bloqueio de sinal de celular em cadeias e penitenciárias. A polêmica das biografias. A farsa das UPPs – eu acreditei.

Pintura naïf, flores artificiais, cerveja sem álcool, feijoada light, refrigerante zero, espírito natalino, meta de inflação. Chamar a velhice de “melhor idade”. Grande parte da linguagem politicamente correta. Postagens edificantes nas redes sociais. Postagens malcriadas nas redes sociais. A glorificação da maternidade e dos laços familiares. Caridade. Revistas de celebridades. Gente que chora com as reportagens sobre cachorrinhos maltratados e continua comendo carne.

Reuniões de trabalho intermináveis. Marombeiros convictos. Tudólogos convictos. Microfone aberto ao público em seminários e palestras. Discutir a relação, qualquer uma. Festa de aniversários do mês. Amigo oculto de fim de ano. Dia das mães, dia dos pais, dia da família, dia das crianças, dia dos namorados. Bêbado enturmado. O persistente item “estado civil” em questionários banais – pra quê?

Restaurante com cardápio em francês ou que serve porções mínimas, ou as duas coisas. Restaurante com fila na porta, nem morta! Fotos das viagens alheias. Fazer sala, entreter socialmente. Ser inteligente às sete da manhã.

Reforma política, reforma previdenciária, reforma fiscal. Copa do Mundo no Brasil. Declarações do Pelé, corrida de carro, voto obrigatório. Comentários tipo “classe média sofre”. Grandes corporações tentando me convencer do seu compromisso com o meu bem-estar. Sulistas, incluindo paulistas, que acham que carregam o Brasil nas costas. Governante decretando a felicidade suprema.

Vou aos poucos, ainda tem muito mais.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Viajar leve


por Júnia Puglia     ilustração Fernando Vianna*

Viajar virou uma febre. O que até poucas décadas atrás era privilégio dos “happy few”, dos privilegiados que podiam bancar as altas contas de passagens e hospedagem, tornou-se amplamente acessível à classe média e menos média. O resultado é muita gente viajando e lotando os lugares que antes eram reservados para os poucos escolhidos pela fortuna.

Quem ainda acha que o ato de viajar implica conforto e glamour está precisando desembarcar no aeroporto de Lisboa ou de Miami às seis horas da manhã. Ali, parece que o fim do mundo é uma questão de minutos para aqueles que como nós, brasileiros, ostentam passaportes da base da hierarquia viajeira, apesar de estarmos generosamente irrigando economias do topo, para lá de combalidas. Dinheiro não é tudo, repetem convenientemente os que nasceram do lado de cima do mundo quando questionados sobre as agruras enfrentadas por quem vai lhes fazer o favor de comprar diárias de hotel e fartas bugigangas.

A bagagem é todo um tema. Para algumas pessoas, viajar significa quase só a oportunidade de comprar, e muito, para juntar com o outro muito que já trazem nas malas. Carregam bagagens inacreditáveis, como se o avião fosse seu e não houvesse a necessidade de acomodar a tralha de todos. Já presenciei cenas de franca selvageria por parte de passageiros e tripulantes de voos em que era impossível chegar aos assentos do fundo devido ao caos provocado pelo entulhamento de volumes por todos os milímetros cúbicos possíveis e impossíveis. Estas experiências, somadas a outras de viajar por terra em transporte público, estão me impondo um exercício disciplinar dos mais interessantes.

Não preciso andar carregada, não quero mais andar carregada. É trabalhoso e muito chato. Posso muito bem ir e voltar sem comprar absolutamente nada no lugar de destino, se não cruzar com algo realmente especial, que simbolize aquela viagem - e que tenha formato e dimensões fáceis de lidar. Buscando atentamente nos armários, encontro roupas, sapatos e acessórios em quantidade mínima, que se conjuminem o suficiente para uma semana, seja a viagem de dez ou trinta dias. Estou treinando, e gostando muito.

Viajar leve é levar-se a si mesma a andar por aí, sem precisar arrastar um guarda-roupa sobre rodinhas e acumular mais cinco camisetas, três perfumes e quatro pares de tênis porque estão muito baratos. É olhar para os lados atentamente, nas feiras livres, nos parques, nas praças e praias e ruas onde estão as pessoas do lugar. Provar suas comidas, sentir seus cheiros, ouvir sua língua e sua música, observar como constroem suas casas, como organizam a vida e levar consigo a bagagem do que lhe chamou a atenção nas cores, paisagens, sabores e sensações, misturando com o que trouxe de casa. Dessa misturança a gente vai tirando um mundo maior aqui dentro e fora também, que cada vez mais aguce nosso interesse e admiração, em sua inesgotável capacidade de nos surpreender e impressionar. Quero treinar muito mais.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Três vivas para a conversinha sobre o tempo


por Tomás Chiaverini     ilustração Victor Zalma*

 Ele mal dá seta e já para na sua frente. Você para em seguida e leva um buzinaço que não lhe cabe. Mas que filho da puta! E ainda vai entrar na garagem do seu prédio. Agora fica aí, enrolando pra abrir o portão eletrônico. É só apertar o botão do controle, filho, não tem mistério não. Custa comprar uma bateria nova? Pronto, finalmente, um ano depois... Agora mais meia hora pra conseguir engatar a primeira. Mas foi. Aleluia, irmão!

Cacete! Não é que a vaga dele é mais fácil que a sua? Que filho da puta, com esse carrão enorme, todo automático, com sensor que apita em tudo que é canto. Tá na cara que é um desses novos ricos da Dilma. Deve pagar um por fora pro síndico. Agora você fica aí, fazendo manobra e o sujeitinho já parou, já se escapuliu do carrão, saiu todo apressado e vai tomar o elevador sem nem te esperar. Ok, esperou. Mas te fez correr. Fica embaçando no carro e agora dá de apressadinho aí, segurando a porta. Tem pressa de que? Piriri?

E esse terno? Lã fria risca de giz, camisa sob medida... Capaz que ganhe o dobro que você. Por isso corre tanto. Tem de subir logo pra abrir o Ipad e ver se não tem nenhum email do patrãozinho. Bem feito.

Rá, seu andar é mais alto. Mas o apartamento dele deve ser de dois quartos, cheio de televisores de led, home theaters e sofás reclináveis de veludo. Fica do outro lado do prédio, então a vista deve ser melhor também. Mas o que importa? Se tem de correr tanto pra responder o email nem deve conseguir parar em casa, muito menos olhar a vista.

Você pensa, tentando não olhar pro sujeitinho enquanto são içados juntos rumo ao céu, no caixote de metal espremido em meio a toneladas de concreto. E lá vem aquele silêncio constrangedor maldito. Ou:

- Esquentou, né?

- Pois é...

- Previsão disse que ia mudar o tempo, mas firmou.

- Parece que vai virar no fim de semana.

- Putz, é sempre assim. Sempre no fim de semana né? Quando o pessoal vai viajar, chove.

- Pois é.

- Boa noite.

- Boa.

E não é que o cara parece ser gente fina?

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Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de Victor Zalma, especial para o texto

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Essa tal de rede



por Júnia Puglia      ilustração Fernando Vianna*

 Fico atordoada quando penso nela. Eu aqui, batucando num teclado macio e silencioso, tento colocar na tela pensamentos e frases que façam sentido para quem vier a ler, e também para mim, que tenho muita dificuldade com o que não me faz sentido. Quando acho que consegui alinhavar algo com começo, meio e fim, e que reflita o que estou querendo transmitir, me dou por satisfeita, faço uma boa faxina e declaro o texto pronto. Depois de receber uma ilustração saída dos neurônios e sentimentos de outra pessoa, será enviado ao editor e publicado na próxima sexta-feira. A partir daí, perco o rastro do que fiz. No máximo, consigo monitorar quantas pessoas se sentiram estimuladas a “curtir” ou comentar determinada crônica, na própria página digital ou por mensagens de correio eletrônico.

Para mim, essa tal rede é um mistério, tão grave e profundo quanto o da origem de todas as coisas. Juro. Um maravilhoso mistério. Tudo o que eu quiser saber, sobre qualquer assunto, pergunto a ela. Às vezes, a resposta é um tanto estranha, enviesada, mas sempre me dá dicas sobre como procurar melhor. Aliás, desconfio que as respostas esquisitas são muito mais um produto de perguntas imprecisas do que da capacidade de resposta. Ou vice-versa, se partirmos da perspectiva de que a precisão é um produto da inteligência, e não o contrário. É que, apesar da impressão de inteligência que nos causa, a rede não pensa. Nadinha. Ela só executa o que lhe comandam. E comando pode vir de tudo que é cabeça, né não? Por isso inventaram a hierarquia.

Impossível para mim captar as dimensões do que acontece. Não basta pensar no meu próprio país, com esse mundo de gente dentro, acessando milhões de computadores – e ainda longe de chegar a todos os lugares. As contas andam na casa dos bilhões de seres humanos fuçando o espaço digital, cada um buscando atender seus interesses e sua curiosidade. Muitos já participam de redes dentro da rede, compartilhando interesses comuns e retransmitindo exaustivamente todo tipo de conteúdo.

Daí a ocupar o lugar do contato pessoal e do olho no olho, é um passo. Basta um descuido ou uma acomodação à cadeira e ao teclado. A conexão wi-fi disponível em lugares públicos está aí para isso mesmo. Acho que cheguei aonde queria quando comecei este texto. Não consigo pensar na vida sem ver, sentir, tocar e falar com gente de carne e osso. Passear pelas redes sociais, visitar a Muralha da China e as pirâmides egípcias, comprar bugigangas, ler notícias, artigos, livros, ouvir música, assistir a vídeos sobre tudo quanto há, conversar com amigos distantes, vale tudo. Mas o calor e a emoção de lidar com pessoas e coisas concretas ainda vale muito mais.

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*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.
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