.

.
30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
Mostrando postagens com marcador mudanças. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mudanças. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Do amor e das mudanças

por Nina Madsen*

Nesses últimos dias, ando às voltas com uma grande mudança. De casa, de cidade, de país. A quarta mudança em quatro anos. É um tal de colocar livro em caixa, tirar livro de caixa, arranjar estante pra tanto livro. É um constrangimento a cada gaveta que se abre, diante das repetidas constatações do humano poder acumulador seja lá do que for. Crachás, por exemplo. Caixinhas. Roupas. E livros.

Revisitar as caixas de fotos, cadernos, cartas de toda a vida, empoeiradas, sempre à espera do momento tão prometido da organização, da produção de álbuns, da digitalização.

E é também o enterrar e desenterrar raízes, criar mudas de si mesma capazes de multiplicar o amor que a terra onde paramos nos traz e multiplica também em nós. Porque cada mudança me ensina que as raízes que nos sustentam não são apenas as nossas, mas também aquelas dos amores que nos deixam suas pequenas mudas ao longo do caminho e de cada paragem.

Pensei logo em Quintana, que me ensinou que amar é mudar a alma de casa. “Rapaz”, eu disse a ele, “não será por acaso que esse negócio de amar é assim tão trabalhoso, não é verdade?” Carregar para a casa do outro o acumulado, o empoeirado, o quebrado, o mal consertado. E juntar um tanto mais, e quebrar um outro tanto. E também construir, e descobrir, e deixar que se aprofundem e se misturem novas raízes. Ter que fazer mudança do amor do outro, ou de um amor para outros, é revisitar muito, é mover muito.

Há quem ame mais leve, assim como há quem viva mais leve. Sem pouso permanente em casa ou coração. E vá flanando pela vida, carregando casas e amores mais etéreos e abstratos em espaços aéreos mais facilmente transportáveis (lembrei agora de um livro infantil lindo, lindo, que mostra os amores como balões...).

Há também quem ame no concreto dos tijolos e do cimento, da permanência. Terra ocupada, lavrada e preparada pedaço por pedaço. Morada construída com a consciência do peso e do sentido de cada pedra. Amor patrimônio.

E entre uma ponta e outra, tantas combinações e misturas quanto permitir a imaginação e o desejo humano de ocupar e ser ocupado.

Eu fico meio lá, meio cá, certa de que há que se construir e guardar o amor para imprimir sentido à existência, mas há também que se levar o amor, mover o amor e movimentar a alma. E assim como ficaram em mim pedaços de cada casa que se foi, ficam sempre em mim pedaços dos amores que vivi. Amores que não acabam só porque se mudam. Ficam aqui guardados, nas caixas e nas estantes da alma.

* * * * * *

Nina Madsen escreve por gosto e necessidade desde que se lembra. Formada em Letras, caminhou pelos campos da educação até que se fez feminista e socióloga, por azar ou sorte. Integra o colegiado de gestão do Centro Feminista de Estudos e Assessoria, o CFEMEA, e colabora com a Universidade Livre Feminista. Aventura-se pelo avesso do mundo quinzenalmente, na coluna Crônicas do desmundo. *Desmundo aqui faz referência ao romance de Ana Miranda, uma lindeza literária que nos conduz pelas fronteiras entre o real e o onírico.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Cadê a minha vaga?



por Júnia Puglia       ilustração Fernando Vianna*

Quando alguém ataca de “no meu tempo” não era assim, era assado, tudo era muito melhor etc., me dá uma preguiça danada. Mesmo que a pessoa seja um tanto mais velha que eu, sempre acho que o tempo de quem está vivo é agora. Se, no entanto, disser que “trinta anos atrás os computadores não dominavam a nossa rotina como hoje” e outras constatações sobre a inevitável passagem do tempo, vou concordar com muitas delas.

Um das boas que têm frequentado as conversas Brasil afora é “no meu tempo, empregada doméstica se vestia de empregada, não tirava férias e nem pensava em viajar de avião”. Outra: “no meu tempo, era fácil estacionar; hoje em dia, está impossível encontrar vaga, depois que todo mundo comprou carro em sessenta prestações”. Mais uma: “antigamente, só vinha gente bonita nesse shopping; agora, dá de tudo”. É, minha gente, os últimos anos viraram nosso mundinho classe média de pernas pro ar.

Quinze anos atrás, as filas de check-in nos aeroportos, bem como as salas de embarque e os aviões, eram territórios demarcados de homens brancos engravatados, quase sempre viajando a trabalho. Éramos poucas mulheres, umas gatas pingadas, as exceções que confirmavam a regra. Aeroporto não era lugar de multidão e caos, pois cabíamos todos, e éramos quase sempre bem adestrados.

Neste nosso tempo de hoje, seu, meu e de todo mundo que respira, as cartas se embaralharam mesmo. Sabe por que? Os pobres e incultos de ontem estão comendo, estudando e acessando informação como nunca. Em consequência, a miséria vai ficando pra trás, num caminho sem volta dos mais virtuosos, que tenho o privilégio de acompanhar no meu tempo. Se nenhuma catástrofe política, econômica, institucional ou natural se interpuser, as próximas gerações terão da miséria e das privações apenas uma vaga lembrança.

Sua vaga de estacionamento sumiu? Seu assento fica bem no meio daquele animado grupo de cinquentonas que pisa num avião pela primeira vez, rumo a Lisboa, e com enorme dificuldade encontra seus lugares e acomoda dezenas de malas, bolsas e sacolas? Ficou chocado com a quantidade de formandos negros no curso de arquitetura do seu filho? Trate de se acostumar e encarar com bom humor, porque aquele cada um no seu quadrado “de antes” já era, e vem muito mais por aí. Este é o nosso tempo, que, da minha parte, é mais do que bem-vindo.

* Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto
Web Analytics