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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 12 de junho de 2015

Quase novo

por Júnia Puglia

É quase uma grande novidade. Três anos depois de ter-me inaugurado como alguém com enorme parcela de controle sobre o próprio tempo, decisões, prioridades e preferências, fiz um rápido flashback na rotina de acordar, banho, café da manhã corrido, modelito escolhido e vestido, voar para o escritório, muitas horas de ralação ininterrupta, voltar pra casa exausta, cochilar na frente da televisão, dormir um sono fuleiro, acordar… Por poucos dias, para mal e para bem.

No caso, o mal é a consciência aguda do espaço que o trabalho ocupa na vida da gente e da energia que ele consome, bem como das míseras aparas que sobram para o espontâneo e o inesperado. Ah, e também do estrago que o dia inteiro à frente do computador faz nas costas, braços e dedos da pessoa. E o bem é revisitar o que se fez por muitos anos, já um tanto forasteira (só que não), reencontrar pessoas e passar por uma reciclagem que ajuda a desenferrujar habilidades já meio abaladas. Tudo no ritmo da internet, a grande e insaciável patroa.

Bem, acabou de novo, e a sensação de acordar de man
hã em câmera lenta e poder recuperar a frouxidão é que é quase nova de novo. É bom devolver o noticiário a um lugar de certa desimportância. O próximo passo talvez seja ir para São Paulo de carro, como quem não tem nada mais relevante pra fazer.

* * * * * *

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

terça-feira, 26 de maio de 2015

O tempo que nos resta


por Fernando Evangelista* 

Minha crise existencial começou numa longínqua manhã de agosto de 2012, exatamente às 15h58min, quando a norte-americana Katie Ledecky tocou sua mão direita na borda da piscina do Parque Aquático de Londres e sagrou-se campeã olímpica de natação. Katie tinha 15 anos de idade.

“Ultimamente têm passado muitos anos”, percebeu Rubem Braga décadas atrás. E eles, os anos, parecem mais velozes e fugidios do que a adolescente americana, nascida em 17 de março de 1997. Valha-me Deus, 1997 foi logo ali, quase um piscar de olhos, quase anteontem. Certo? Errado – faz um tempão.

Em março de 1997, o Brasil mal conhecia o tenista Guga Kuerten – passou a conhecê-lo depois da vitória em Roland Garros, em junho daquele ano. Logo em seguida, outro cabeludo surpreenderia o mundo, sendo anunciado – com pompa e capim – como o primeiro mamífero clonado da história. Muita água poluída correu sob a ponte: Guga está aposentado e a ovelha Dolly já passou desta para a melhor.  

Foi o ano do Guga, da Dolly e do escândalo da compra de votos no Congresso, para aprovação da emenda da reeleição do Fernando Henrique Cardoso, que na época não gostava de maconha. Lula e o PT eram baluartes da ética e denunciaram a falcatrua.

Quando a campeã olímpica nasceu, ninguém conhecia a inglesa J. K. Rowling, porque a saga Harry Porter ainda não havia sido lançada. A Princesa Diana não havia morrido, Titanic era uma famosa tragédia marítima (e não um estrondoso sucesso cinematográfico) e a seleção francesa de futebol havia derrotado o Brasil apenas uma vez, na Copa de 1986.

Alhos e bugalhos à parte, há algo em comum entre navios, ex-presidentes, bruxos ingleses, uma princesa samaritana e a seleção brasileira. Todos prometeram fantasia e um final redentor, bateram recordes de popularidade e, em certos momentos, nos deram a sensação de invulnerabilidade.

Entretanto, a história ensina e a morte confirma, essas promessas só funcionam na literatura de ficção, porque na ficção da política ou mesmo na vida real, elas frequentemente acabam em retumbantes quebrações de cara, em naufrágios irremediáveis, como aquele (já faz tanto tempo) jogo entre Brasil e Alemanha na Copa de 2014.

Voltando ao passado remotíssimo, Neymar tinha 5 anos em 1997 e o maior medalhista olímpico da história, o anfíbio Michael Phelps, 12. Em 1997, a internet engatinhava e o bate-papo virtual mais conhecido era um troço chamado mirc – que a gurizada só usava depois da meia-noite por causa da conta telefônica. Não existia tela-plana, televisão HD, iPads, iPods, Android ou Michel Teló.

Para não pensar na rapidez do tempo, resolvi desperdiçá-lo na internet. E passei a vasculhar nas gavetas virtuais a identidade do esportista mais velho a conquistar uma medalha olímpica. Este deveria ser a minha referência e exemplo. Tremi de emoção ao descobrir que o mais velho atleta olímpico a ganhar uma medalha tinha 72 anos.

O sueco Oscar Swahn – este é o nome do vovô – conquistou medalha de bronze nos jogos olímpicos da Antuérpia em 1920. Tudo perfeito, não fosse um detalhe: ele ganhou medalha e fama mundial praticando “Tiro Duplo ao Veado”. Sendo eu vegetariano e a favor da diversidade, este sueco foi uma baita decepção.

Depois da descoberta deste vovô, até alegrei-me com o ouro conquistado pela adolescente Katie Ledecky, que poderia estar por aí matando bichos, mas vive de superar limites e bater recordes, numa luta constante contra o tempo.

E esta parece ser a grande ironia porque quanto mais os homens e as mulheres superam cronômetros e limitações, o tempo se defende correndo mais e mais, para que ninguém o alcance, nem mesmo o jamaicano Usain Bolt.

A nós, pobres mortais, medalhistas ou não, cabe a tarefa de lembrar o tempo que passou e, a partir daí, sem pressa e sem preguiça, usufruir o tempo que nos resta.  

Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Três vivas para a conversinha sobre o tempo


por Tomás Chiaverini     ilustração Victor Zalma*

 Ele mal dá seta e já para na sua frente. Você para em seguida e leva um buzinaço que não lhe cabe. Mas que filho da puta! E ainda vai entrar na garagem do seu prédio. Agora fica aí, enrolando pra abrir o portão eletrônico. É só apertar o botão do controle, filho, não tem mistério não. Custa comprar uma bateria nova? Pronto, finalmente, um ano depois... Agora mais meia hora pra conseguir engatar a primeira. Mas foi. Aleluia, irmão!

Cacete! Não é que a vaga dele é mais fácil que a sua? Que filho da puta, com esse carrão enorme, todo automático, com sensor que apita em tudo que é canto. Tá na cara que é um desses novos ricos da Dilma. Deve pagar um por fora pro síndico. Agora você fica aí, fazendo manobra e o sujeitinho já parou, já se escapuliu do carrão, saiu todo apressado e vai tomar o elevador sem nem te esperar. Ok, esperou. Mas te fez correr. Fica embaçando no carro e agora dá de apressadinho aí, segurando a porta. Tem pressa de que? Piriri?

E esse terno? Lã fria risca de giz, camisa sob medida... Capaz que ganhe o dobro que você. Por isso corre tanto. Tem de subir logo pra abrir o Ipad e ver se não tem nenhum email do patrãozinho. Bem feito.

Rá, seu andar é mais alto. Mas o apartamento dele deve ser de dois quartos, cheio de televisores de led, home theaters e sofás reclináveis de veludo. Fica do outro lado do prédio, então a vista deve ser melhor também. Mas o que importa? Se tem de correr tanto pra responder o email nem deve conseguir parar em casa, muito menos olhar a vista.

Você pensa, tentando não olhar pro sujeitinho enquanto são içados juntos rumo ao céu, no caixote de metal espremido em meio a toneladas de concreto. E lá vem aquele silêncio constrangedor maldito. Ou:

- Esquentou, né?

- Pois é...

- Previsão disse que ia mudar o tempo, mas firmou.

- Parece que vai virar no fim de semana.

- Putz, é sempre assim. Sempre no fim de semana né? Quando o pessoal vai viajar, chove.

- Pois é.

- Boa noite.

- Boa.

E não é que o cara parece ser gente fina?

* * * * * *

Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de Victor Zalma, especial para o texto

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Condição humana


por Júnia Puglia       ilustração Fernando Vianna*

Durante uma recente e longa viagem aérea, um sereníssimo voo diurno, em que não pude perceber nem a mais leve turbulência, a travessia do Atlântico me fez pensar na tragédia de alguns anos atrás, quando um avião foi capturado pela força dos elementos e atirado ao mar.

Havia muita gente dentro dele. Ninguém entrou ali pensando que no meio do caminho encontraria a doce morte inconsciente – como afirmam os especialistas – enquanto o bichão voador despencava lá de cima. Essas mortes foram virtuais para os que ficaram, pois os corpos inertes de seus queridos foram irremediavelmente tragados pela água imensa, na qual aquele enorme avião teve o efeito de uma bola de gude levada pela enxurrada.

Temos muito pouco tempo aqui, é a constatação-clichê que todo mundo faz depois de cada tragédia, e geralmente o gastamos com bobagens, incompreensões, intolerâncias, desamor, desatenção, rotina e banalidades vazias (e longe de mim tirar o valor da banalidade, pois só os realmente insuportáveis aguentam ser inteligentes e profundos o tempo todo).

Com o pouco tempo que temos, proponho que nos dediquemos mais a: pensar, ouvir, cozinhar, coçar os pés, afagar os filhos, jogar conversa fora, olhar as pessoas amadas, ler, rir – principalmente de nós mesmos – viajar, fazer sexo, imprimir as fotos digitais, comer coisas gostosas, cantar e dançar.

Enquanto isso, proponho que nos observemos muito e busquemos em nós mesmos todos os motivos possíveis para ampliar nossa compreensão sobre a condição humana. Não há limitação, pecado, inadequação, fraqueza, esquisitice, maldade ou miséria que não possa ser encontrada em cada um de nós. Temos o privilégio de viver num tempo em que o conhecimento sobre o que significa ser gente nos permite ver as outras pessoas com uma afinidade e um respeito, pelo que nos iguala e nos difere, impossíveis há apenas uma geração. Tudo ao contrário também é possível, e muito mais fácil. É só ignorar este conhecimento.

Tudo o que conseguirmos avançar nesta área terá sido crucial para tornar esse nosso mundo um lugar menos inóspito e mais amável. Assim, talvez nosso breve tempo aqui seja melhor vivido.

* * * * *

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

A Casa da Vó


por Tomás Chiaverini  ilustração Ligia Morresi*

Uma festa dionisíaca. Música alta sem ligar pros vizinhos, intervenções artísticas nas paredes, stripers, pirofagia, fogos de artifício. A festa da demolição. Era o mínimo que poderíamos fazer pelo predinho de dois andares, encravado no âmago da boemia paulistana: Arthur de Azevedo, quase esquina com a Fradique Coutinho. A Casa da Vó.

A primeira vez, pus os pés sobre os tapetes persas puídos que forravam o chão de tacos da Casa da Vó foi há algo como quinze anos. Estava no colegial e usava um vergonhoso porém bem cuidado rabo-de-cavalo. Devia ser pouco mais de dez da noite e lembro bem do meu grande amigo Arpad entrando pé-ante-pé na minha frente, do som alto e da luz azulada da televisão vindo do quarto da Dona Alzira.

– Vó?... – Ele gritou da sala, com a voz cheia de receio. – Trouxe um amigo pra dormir aqui, tudo bem?

– Contanto que não durma comigo!... – Foi a resposta bradada num português arquetipicamente alentejano.

Dona Alzira era assim. Baixota e gorducha, dona de um mau-humor tão direto e evidente que ganhava contornos cômicos. Lúcida e ativa, sabia da fama de birrenta e usava isso a seu favor, às vezes (talvez na maior parte delas) apenas por diversão. Tinha uma vitalidade incomum para os oitenta anos e estava sempre viajando, o que, ao longo de uma década e meia, nos deu oportunidade de realizar um sem número de festas dionisíacas no seu apartamento recheado de fotos antigas e flores de plástico.

Não lembro quantas vezes dormi embriagado nos lençóis de Dona Alzira enquanto ela viajava pelo Brasil em excursões da terceira idade. Mas lembro bem de algumas em que sucumbi às carícias femininas, pecaminosamente alheio ao Cristo de madeira, obrigado a assistir a tudo com as mãos pregadas na parede da cabeceira.

Dona Alzira sofria com nossa boemia, com a boemia do bairro e, em especial, com a boemia do neto. Um desabafo dela ao próprio tornou-se anedota recorrente no fabulário da Casa da Vó. Estava inconformada com a morte de duas plantas postas em dois grandes vasos na calçada, ao lado da porta da frente.

– Toda noite esses bêbados sem-vergonha mijam nas minhas plantas – revoltava-se sem saber que a fonte da ureia mortífera era, vejam só, a bexiga de seu próprio neto.

Há cerca de dois anos, Dona Alzira ficou doente. Na verdade foram vários problemas na sequência, um agravando o outro. Ela perdeu a vitalidade numa velocidade espantosa e em pouco tempo já não podia morar sozinha. Há pouco mais de um ano, mudou-se para a casa da filha, e alugou o apartamento para o neto, que convidou outra amiga, a Marilia, para dividir a casa e as despesas.

A vocação ainda mais festiva da nova configuração já se evidenciou na mudança. Pleno sábado de carnaval, uma van, três amigos, daí passamos na casa do Paulo que incrivelmente estava de bobeira na calçada, pensando no que fazer da tarde modorrenta, e foi imediatamente sequestrado junto com a Nat, e logo era tudo uma confusão de coisas velhas sendo jogadas fora e perucas da Dona Alzira distribuídas para acompanharmos o bloco de rua que logo passou na nossa porta, como aconteceria se a vida fosse um filme de Felini.

Em pouco tempo, o que era um ponto de apoio à boemia, logo se tornou o centro da nossa interação social, zona franca dos prazeres mundanos. Por um regulamento nunca escrito ou sequer falado, alguns membros subjetivamente eleitos daquele grupo tinham liberdade de marcar comemorações, aniversários ou churrascos na Casa da Vó.

Alheia às alegrias que sua ex-casa nos proporcionava, Dona Alzira ficou novamente doente. Foi internada algumas vezes, por períodos progressivamente mais longos... Até que, já viram... Há alguns meses Dona Alzira não está mais entre nós. E algum tempo após a sua morte, a família finalmente capitulou às investidas de uma construtora. Não havia escolha. Ou vendiam o predinho por uma polpuda quantia de reais, ou teriam de conviver com uma obra que se estenderia durante anos e faria da Casa da Vó uma verruga encravada em mais um arranha-céu neoclássico. Isso se as velhas fundações resistissem aos bate-estacas.

Daí, portanto, a ideia da festa da demolição. Uma última homenagem ao prédio moribundo. Um misto de comemoração, catarse e funeral, uma histérica e dolorosa ode a Shiva e à inclemência do tempo. Chegamos a planejar as intervenções artísticas e até escolhemos a data. Não aconteceu na primeira e adiamos, sem muita certeza. Também não aconteceu na segunda.

E, novamente, já viram... A festa da demolição nunca se concretizou. Meu grande amigo Arpad arrancou as peças dos banheiros, as janelas e as portas para instalar na sua nova casa, num sítio no extremo da Zona Sul. O máximo que pude fazer foi quebrar um pedaço de parede com um ponta-pé. E hoje nosso querido sobrado não passa da uma pilha de escombros.

Aos leitores, peço perdão pelo anticlímax final. Mas assim parece ser a vida, uma vertiginoso desfile de caprichos e picuinhas do tempo. Poderia, talvez, terminar com o doloroso clichê de que éramos felizes e não sabíamos. Mas não seria verdade. Éramos felizes e sabíamos muito bem disso.


*Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de Ligia Morresi, designer e ilustradora, especial para o texto

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Cadê a minha vaga?



por Júnia Puglia       ilustração Fernando Vianna*

Quando alguém ataca de “no meu tempo” não era assim, era assado, tudo era muito melhor etc., me dá uma preguiça danada. Mesmo que a pessoa seja um tanto mais velha que eu, sempre acho que o tempo de quem está vivo é agora. Se, no entanto, disser que “trinta anos atrás os computadores não dominavam a nossa rotina como hoje” e outras constatações sobre a inevitável passagem do tempo, vou concordar com muitas delas.

Um das boas que têm frequentado as conversas Brasil afora é “no meu tempo, empregada doméstica se vestia de empregada, não tirava férias e nem pensava em viajar de avião”. Outra: “no meu tempo, era fácil estacionar; hoje em dia, está impossível encontrar vaga, depois que todo mundo comprou carro em sessenta prestações”. Mais uma: “antigamente, só vinha gente bonita nesse shopping; agora, dá de tudo”. É, minha gente, os últimos anos viraram nosso mundinho classe média de pernas pro ar.

Quinze anos atrás, as filas de check-in nos aeroportos, bem como as salas de embarque e os aviões, eram territórios demarcados de homens brancos engravatados, quase sempre viajando a trabalho. Éramos poucas mulheres, umas gatas pingadas, as exceções que confirmavam a regra. Aeroporto não era lugar de multidão e caos, pois cabíamos todos, e éramos quase sempre bem adestrados.

Neste nosso tempo de hoje, seu, meu e de todo mundo que respira, as cartas se embaralharam mesmo. Sabe por que? Os pobres e incultos de ontem estão comendo, estudando e acessando informação como nunca. Em consequência, a miséria vai ficando pra trás, num caminho sem volta dos mais virtuosos, que tenho o privilégio de acompanhar no meu tempo. Se nenhuma catástrofe política, econômica, institucional ou natural se interpuser, as próximas gerações terão da miséria e das privações apenas uma vaga lembrança.

Sua vaga de estacionamento sumiu? Seu assento fica bem no meio daquele animado grupo de cinquentonas que pisa num avião pela primeira vez, rumo a Lisboa, e com enorme dificuldade encontra seus lugares e acomoda dezenas de malas, bolsas e sacolas? Ficou chocado com a quantidade de formandos negros no curso de arquitetura do seu filho? Trate de se acostumar e encarar com bom humor, porque aquele cada um no seu quadrado “de antes” já era, e vem muito mais por aí. Este é o nosso tempo, que, da minha parte, é mais do que bem-vindo.

* Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Moto contínuo

Das pessoas que moram no meu coração, duas estão grávidas. Esta continuação da vida, que não deixa as misérias humanas dominarem tudo, sempre me comove. Já imaginou o que seria de nós se soubéssemos que não haveria mais bebês, que a vida humana acabaria na nossa geração?

Meus dois filhos nasceram há mais de duas décadas – e, antes que se arme alguma confusão, esses bebês do momento não estão vindo deles. Mesmo não sendo das mais nostálgicas, há anos sinto que a infância dos meus filhos, que, enquanto acontecia, com toda a proverbial intensidade, exigiu de mim o que já se sabe que exige, durou uns cinco minutos. Foi tão rápido, no meio de tanta coisa, e numa idade minha tão borbulhante, que quando eu me dei conta, já havia acabado.

Deixou um gosto de coisa boa, de baião-de-dois bem temperado, com um toque de pimenta malagueta, delícia total. Eles fizeram de mim uma pessoa melhor, com o perdão do clichê. Porque eu sinto que virei gente grande de verdade quando percebi que trazia em algum lugar uma reserva de energia até então desconhecida, essencial para driblar a exaustão completa, frequente na ralação da mãe-que-trabalha-muito-e-viaja. E quando, por causa deles, tive que exercitar intensivamente a superação de limites, a tolerância, a compreensão e o acolhimento. Acompanhava-me alguém muito especial, com quem compartilhei a travessia do oceano desconhecido, durante a qual aquelas crianças viraram adultos.

Espero com comovida expectativa os dois bebês a caminho desse mundão besta, que estamos dando conta de estragar bem, mas que tem música, passarinhos, macarrão e livros. Como não dá pra guardá-los no armário, vamos ter que contar pra eles que, misturadas com a beleza, o afeto e a harmonia, os humanos sabem fazer coisas terríveis. Vamos ajudá-los a absorver as novidades e se ajustar ao programado pra eles, que já é um bocado de coisa, tentando não esquecer que eles poderão fazer aquilo que quiserem com o que estaremos oferecendo. Nessa troca inigualável, que dá sentido ao momento presente, o frescor e a energia deles nos abastecerão para o futuro.



Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR. + Textos da autora.

quinta-feira, 25 de março de 2010

São Paulo é uma cidade com obesidade mórbida, mas e daí, quem liga?

SP está se degenerando a cada chuva, a cada trânsito de centenas de quilômetros, a cada morte sem sentido no farol, a cada árvore que cai ou favela que desaba, a cada recorde de vendas no comércio, a cada shopping a mais, a cada bolo de aniversário. Uma cidade que não se suporta, que virou uma obesa mórbida, com vícios que levam ao “sem sentido” diário. Assim é São Paulo, o meu quintal, o meu jardim de cimento que todos os dias apronta uma molecagem com seus mais de 11 milhões de habitantes.
É a cada porrada dolorida que vamos levando a rotina. E a gente se conforma. Será que no fundo a gente gosta? O trânsito virou o óbvio e a volta para casa uma corrida ao tesouro que para uns pode ser o deitar no sofá, ver a novela, usar a sua droga, brigar ou namorar com a sua vida singular. Trabalhar e ir pra casa. Ir pra casa e trabalhar.
Isso aqui me parece um refúgio de doidos. Todos, do pobre ao rico, em seus carros e motos e nesses prédios todos. Ou o povão suado e esfolado que todos os dias enfrenta filas infindáveis a espera das lotações que são paus de arara em versão moderna. Tem o aquecimento global que ninguém liga; tem os alagados paulistanos do Jardim Pantanal e Romano que servem de “notícia”; tem a miséria na esquina da sua casa ou defronte ao seu prédio de luxo; tem tudo isso aí que estamos cansados de ver, cheirar e mastigar. Ouvir a mediocridade é um prazer cotidiano.
Qual o sentido de habitar, então? De conviver? Me digam, vai, os especialistas...
O tempo, os dois, o do relógio e do clima se estapeiam para ver quem leva a melhor em nos deixar, por nossa culpa, na pior. A gente criou o monstro da convivência desproporcional e, na boa, ninguém sabe resolver. Eu mesmo escrevo esse texto egoisticamente, porque voltei para casa da Vila Madalena até a Lapa de Baixo de moto, cortando trânsito, na busca do meu refúgio, da minha ilha. O lema é economizar o tempo.
Uma amiga me liga à tarde. “Minha rua virou um rio. Estou ilhada, nos vemos outro dia” Dizer o que? Ah, a culpa é dos governantes, a gente paga nossos impostos e esses filhos de uma puta só nos fodem. Mentira! Não é só isso. A tal da mobilização popular virou item em descompasso com a atual realidade. Quem se mobiliza? A minoria. E a minoria, a não ser que tenha o poder da caneta mágica, não consegue transformar.
Essa porra toda é fruto da nossa criação. A cidade só faz crescer em número de carros, prédios, estacionamentos, restaurantes, estradas... Só faz crescer em consumo de energia, de água, de comida. A cidade e quem vive nela só pensa em metas. Cumprir metas de crescimento. “Vai, vai, vai!”. Produção!
Já não vejo árvore na minha rua. Só existem postes e um horizonte interrompido por um prédio. Longe de ser poético, longe de ser mais ácido do que consigo com esse desabafo, pense, reflita aqui vai, só um pouco: o lugar onde você vive melhorou ou piorou nos últimos 10 anos?
Há tempos entrevistei a filósofa Olgária Mattos. O tema era o tempo. Me disse: “Esse sentimento de não ter tempo é a manifestação de algo estrutural na sociedade, que é o trabalho. O trabalho é totalmente esvaziado de sentido, no mundo capitalista, com a automação do movimento do gesto do trabalhador (...) O trabalho continua sendo o trabalho alienado que esmaga fisicamente ou espiritualmente, porque não tem sentido nenhum. Agora, a monotonia contemporânea é o tempo da longa duração, e no capitalismo essa longa duração é insuportável, por isso as pessoas querem matar o tempo, porque não sabem o que fazer com o tempo livre.”
O tempo livre, diria mais, é solapado nessa volta para casa. Mas se só piora é porque, bem lá no fundinho, gostamos assim, de sofrer, de ter motivo.
Não posso pensar ou planejar sem me angustiar. Sair do trabalho e exercer qualquer atividade não laboral se tornou um obstáculo fruto da nossa falta de inteligência social. Simplesmente não comporta mais. Viver o “seu tempo” é uma espécie de “assédio moral”. Viramos uma sociedade desconectada de sentido. O desenvolvimento alucinado serve a quem? A maioria é que não é. Mas e daí, quem liga?

Thiago Domenici, jornalista
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