Das pessoas que moram no meu coração, duas estão grávidas. Esta continuação da vida, que não deixa as misérias humanas dominarem tudo, sempre me comove. Já imaginou o que seria de nós se soubéssemos que não haveria mais bebês, que a vida humana acabaria na nossa geração?
Meus dois filhos nasceram há mais de duas décadas – e, antes que se arme alguma confusão, esses bebês do momento não estão vindo deles. Mesmo não sendo das mais nostálgicas, há anos sinto que a infância dos meus filhos, que, enquanto acontecia, com toda a proverbial intensidade, exigiu de mim o que já se sabe que exige, durou uns cinco minutos. Foi tão rápido, no meio de tanta coisa, e numa idade minha tão borbulhante, que quando eu me dei conta, já havia acabado.
Deixou um gosto de coisa boa, de baião-de-dois bem temperado, com um toque de pimenta malagueta, delícia total. Eles fizeram de mim uma pessoa melhor, com o perdão do clichê. Porque eu sinto que virei gente grande de verdade quando percebi que trazia em algum lugar uma reserva de energia até então desconhecida, essencial para driblar a exaustão completa, frequente na ralação da mãe-que-trabalha-muito-e-viaja. E quando, por causa deles, tive que exercitar intensivamente a superação de limites, a tolerância, a compreensão e o acolhimento. Acompanhava-me alguém muito especial, com quem compartilhei a travessia do oceano desconhecido, durante a qual aquelas crianças viraram adultos.
Espero com comovida expectativa os dois bebês a caminho desse mundão besta, que estamos dando conta de estragar bem, mas que tem música, passarinhos, macarrão e livros. Como não dá pra guardá-los no armário, vamos ter que contar pra eles que, misturadas com a beleza, o afeto e a harmonia, os humanos sabem fazer coisas terríveis. Vamos ajudá-los a absorver as novidades e se ajustar ao programado pra eles, que já é um bocado de coisa, tentando não esquecer que eles poderão fazer aquilo que quiserem com o que estaremos oferecendo. Nessa troca inigualável, que dá sentido ao momento presente, o frescor e a energia deles nos abastecerão para o futuro.
Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR. + Textos da autora.
