por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*
E cá estou eu de novo, desviando-me da tão apreciada desocupação, mas é por uma boa causa. Rapidamente constatei que retomar o batidão da vida do escritório pode ser bem menos natural do que parece, apesar das décadas pregressas. O tempo faz o seu trabalho, bem caladinho, e nem precisa de plano estratégico corporativo.
Voltei a ter sobrenome institucional. O “sou de mim mesma”, que adotei quando encerrei essa carreira, em resposta à infalível pergunta “a senhora é de onde?”, que busca definir (e classificar) os seres humanos frequentadores desses ambientes, foi para um rápido intervalo no freezer.
Ressuscitado o crachá, começou a ciranda de reuniões. Logo na primeira, num alto gabinete da república, me senti numa realidade paralela, como se de repente eu entrasse num enredo que não era o meu, num cenário absurdo. Apesar da intensidade saariana do sol de agosto em Brasília, a parede de vidro aonde se encaixam grandes janelas basculantes estava tapada, de cima a baixo, por largas persianas verticais do tipo blackout. Com o sistema de ar condicionado a toda, começou a reunião de pessoas meio azuladas pela iluminação fluorescente, em torno de uma grande mesa, devidamente hierarquizada.
Ouvidos e neurônios destreinados bem que tentaram decifrar o grego falado ali. Em vão. Quando muito, consegui acompanhar o que disseram e anotar o que me soou relevante, pra depois repassar com quem está em dia com o dialeto, aí incluído o emaranhado de siglas, conexões e níveis de responsabilidade. Quando comecei a sentir o que esta breve reencarnação exigirá de mim, fui salva da danação eterna pela voz de Gilberto Gil soprando ao meu ouvido uma triste melodia, que parecia um prelúdio bachiano, um frevo pernambucano, um choro do Pixinguinha.
Inspiradíssima e curiosa canção(*), relato de um sonho em que o autor falava à plateia de um congresso mundial de economia. Enquanto ele, empoderado e convicto, argumentava em favor de mais trabalho, mais esforço, mais controle, apresentando estatísticas e gráficos que demonstravam os maléficos efeitos da teoria do lazer, do descanso e da poesia, um velho levantou-se da cadeira e saiu porta a fora assoviando e levando atrás de si a plateia inteira, até esvaziar o salão e deixar o preletor sozinho com seu portentoso powerpoint. O sonhador acordou assustado, se levantou e foi pra calçada ver o céu azul. Os estudantes e operários que passavam riam e gritavam: viva o índio do Xingu!
Conversando sobre tudo isto, inclusive a minha sensação de realidade paralela, alguém lembrou das promessas que nos fizeram algumas décadas atrás, de que a vida no trabalho se simplificaria muito com a tecnologia digital e as facilidades de comunicação em rede, dando lugar à possibilidade de instalação de uma cultura de ócio criativo, em que todos teríamos tempo para gastar com aquilo que fosse importante para cada um. A realidade - real ou virtual, à escolha do freguês - é bem outra.
(*) “Um sonho” - Gilberto Gil
* * * * * *
Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 14 de agosto de 2015
sexta-feira, 31 de julho de 2015
Presidente
por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna
A Izilda era uma menina alegre, faladeira e debochada, agitava o recreio com suas tiradas engraçadas e comentários mordazes do tipo metralhadora giratória. O nome da santa criança, então muito popular no interior paulista, felizmente não a impedia de imitar os professores pra nos fazer rir e animar a torcida em qualquer jogo. Queria cursar administração e trabalhar na grande fábrica de meias que era o orgulho da cidade.
Estudamos juntas uns três anos, e daí cada uma tomou o seu rumo. Tempos depois, numa tarde nublada, eu a vi num ponto de ônibus, com a barriga enorme e a expressão de desamparo, os olhos opacos, dos quais desciam lágrimas teimosas, que ela secava com as mãos. Trazia uma aliança no anelar esquerdo. Ainda não tínhamos chegado aos dezessete anos. Não me aproximei, ela nem me olhou, nunca mais nos vimos.
Para matricular os filhos na escola, era preciso declarar a profissão do pai. A da mãe era automaticamente preenchida como "do lar", sem mais. Mas a nossa mãe era professora, precisávamos retificar sempre. A profissão feminina mais disseminada, depois de empregada doméstica, junto com enfermeira e cabeleireira. Tudo o que as mulheres faziam para "ajudar o marido", ou mesmo para sustentar os filhos sozinhas, era desimportante e entrava na conta da obrigação, na base do quebra-galho. Cresci cercada de mulheres que davam um duro danado, submetidas e desvalorizadas, sem perspectiva de crescimento pessoal ou carreira. Menos ainda em plena ditadura militar, quando qualquer comportamento ou aspiração fora da caixinha era um baita risco, você não faz ideia.
Aos seis anos, a Leila curte ler livros de bichos e aventuras, visitar os avós e primos na Espanha e brincar com a irmã menor. Leva uma vida boa, de ir à escola e ter tempo livre. Adoro ver seu jeito leve e solto de criança cujo futuro se fará a seu tempo, sem muita pressão e ansiedade, filha de pais que escolheram descomplicar. No aniversário em que nos encontramos, há poucos dias, sua mãe nos contou da recente conversa da Leila: quer ser presidente da república. E o que você vai fazer como presidente? Dar todo o dinheiro do governo aos pobres, reciclar o lixo e limpar o planeta. Acordes iniciais da promissora, tanto quanto imprevisível, sinfonia da Leila.
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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
sexta-feira, 24 de julho de 2015
Calendário
por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*
Em algum momento do passado remoto, nossos ancestrais começaram a juntar observações sobre mudanças na vegetação, chuvas, temperatura e comportamento dos outros animais com a repetição periódica dos eventos, e concluíram que vivíamos sob o efeito de um fenômeno chamado tempo. Depois inventaram o calendário, tornando possível programar a vida de acordo com os humores sazonais, semeaduras e colheitas. Mais recentemente, com o imposto de renda, a fatura do cartão de crédito e os aniversários. Dependendo do temperamento e da rotina individuais, um ano da nossa vida moderna pode transbordar de celebrações as mais variadas, religiosas, cívicas, sociais, familiares e pessoais.
A memória me traz um dos grandes romances da minha adolescência, “O tempo e o vento”, do gaúcho Érico Veríssimo, uma caudalosa saga dos começos do Rio Grande do Sul. Li os sete volumes de enfiada, como se perseguisse um seriado sobre as aventuras dos Terra-Cambará. Logo nas primeiras páginas, Ana Terra, moradora, com os pais e dois irmãos, de um campo perdido na conturbada fronteira das colônias disputadas por Espanha e Portugal, expressava seu profundo tédio pela rotina de trabalho incessante e isolamento, tal que não lhe permitia acompanhar a sequência dos dias da semana – que, afinal, não fazia nenhuma diferença, pois eram sempre iguais – ou saber exatamente em que ano estavam. Para a inquieta e curiosa leitora, ávida por finalmente completar os benditos dezoito anos, que nunca chegavam, uma inimaginável desconexão.
Fazemos com o tempo todo tipo de associações: “não lembro o ano, mas foi quando viajei de avião pela primeira vez”, ou “vi esse filme na época do impeachment do Collor”, ou ainda “quando isto aconteceu, eu estava grávida da segunda filha”. Isto porque, no fim das contas, o tempo fica marcado dentro da gente, os números são apenas uma referência, à qual nos ensinaram a dar demasiada importância.
E as datas comemorativas? Dá de um tudo, especialmente depois que a internet nos colocou nessas redes sociais. Com a minha enorme preguiça de celebrações obrigatórias, passo batida por todas elas. Até para aniversários me falta competência, o que às vezes me coloca numas tremendas saias justas.
Um dia desses, avisaram que era Dia do Amigo. Quem precisa dele? O encontro, a afinidade, a empatia, o prazer do contato e da companhia, a história compartilhada, o silêncio cúmplice, a conversa – fiada ou relevante – quando tudo isso se junta, com a assessoria de uma taça de vinho autorreabastecida, o tal Dia acontece. Beijinho no ombro pro calendário.
Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
Em algum momento do passado remoto, nossos ancestrais começaram a juntar observações sobre mudanças na vegetação, chuvas, temperatura e comportamento dos outros animais com a repetição periódica dos eventos, e concluíram que vivíamos sob o efeito de um fenômeno chamado tempo. Depois inventaram o calendário, tornando possível programar a vida de acordo com os humores sazonais, semeaduras e colheitas. Mais recentemente, com o imposto de renda, a fatura do cartão de crédito e os aniversários. Dependendo do temperamento e da rotina individuais, um ano da nossa vida moderna pode transbordar de celebrações as mais variadas, religiosas, cívicas, sociais, familiares e pessoais.
A memória me traz um dos grandes romances da minha adolescência, “O tempo e o vento”, do gaúcho Érico Veríssimo, uma caudalosa saga dos começos do Rio Grande do Sul. Li os sete volumes de enfiada, como se perseguisse um seriado sobre as aventuras dos Terra-Cambará. Logo nas primeiras páginas, Ana Terra, moradora, com os pais e dois irmãos, de um campo perdido na conturbada fronteira das colônias disputadas por Espanha e Portugal, expressava seu profundo tédio pela rotina de trabalho incessante e isolamento, tal que não lhe permitia acompanhar a sequência dos dias da semana – que, afinal, não fazia nenhuma diferença, pois eram sempre iguais – ou saber exatamente em que ano estavam. Para a inquieta e curiosa leitora, ávida por finalmente completar os benditos dezoito anos, que nunca chegavam, uma inimaginável desconexão.
Fazemos com o tempo todo tipo de associações: “não lembro o ano, mas foi quando viajei de avião pela primeira vez”, ou “vi esse filme na época do impeachment do Collor”, ou ainda “quando isto aconteceu, eu estava grávida da segunda filha”. Isto porque, no fim das contas, o tempo fica marcado dentro da gente, os números são apenas uma referência, à qual nos ensinaram a dar demasiada importância.
E as datas comemorativas? Dá de um tudo, especialmente depois que a internet nos colocou nessas redes sociais. Com a minha enorme preguiça de celebrações obrigatórias, passo batida por todas elas. Até para aniversários me falta competência, o que às vezes me coloca numas tremendas saias justas.
Um dia desses, avisaram que era Dia do Amigo. Quem precisa dele? O encontro, a afinidade, a empatia, o prazer do contato e da companhia, a história compartilhada, o silêncio cúmplice, a conversa – fiada ou relevante – quando tudo isso se junta, com a assessoria de uma taça de vinho autorreabastecida, o tal Dia acontece. Beijinho no ombro pro calendário.
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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
sexta-feira, 17 de julho de 2015
Máscaras
por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*
Às vezes, parece que a morte está atrasada com as encomendas, de tanto que atravessa os caminhos à nossa volta. Nos últimos tempos, está caprichando no serviço, tanto entre pessoas públicas da minha estima quanto no círculo próximo ao coração. Sem falar no cenário mais amplo, da mortandade desnecessária e banalizada na atuação das nossas polícias e de grupos criminosos, das guerras civis, conflitos internacionais e atentados terroristas. Mas acho que nesses casos a personagem principal nem é solicitada, pois a produção no atacado dispensa seus trabalhos. E se repete a velha história dos humanos que eliminam outros humanos, em nome de que mesmo? Nem se lembram mais, com tanto sangue nos olhos e no juízo.
Mas ela pode ser também sabida, esperada e serena. Meses atrás, uma querida amiga partiu do nosso convívio, cercada de afetos e cuidados, numa passagem tranquila e suave. É certo que lutou com fúria para que seu corpo vencesse os ataques de uma doença insidiosa, num embate de força e determinação de ambos os lados. Venceu o lado mais experiente, que conhece há muito mais tempo os segredos dessa guerra.
Durante a noite em que estive muito tempo tratando de acolher a notícia da sua partida, ela esteve viva como nunca. Entre outras situações, em Buenos Aires, uns dez anos atrás, quando ambas participávamos de uma longa reunião de trabalho. Surgiu um raro momento de folga, e saímos num pequeno grupo a andar por Caminito. Sob um céu de aquarela e a luz amarelada do outono no sul, perambulamos por uma feira de artesanato e bugigangas turísticas. De longe ela avistou lindas máscaras venezianas expostas em determinada banca. Provou várias e escolheu duas, em meio a muitos comentários divertidos e gargalhadas, jamais economizadas. (Máscaras que talvez tenham sido usadas no embate final, para tentar iludir o outro lado.)
As dezenas de pulseiras, adornos inseparáveis do seu braço esquerdo, suas echarpes, brincos, colares, anéis, sapatos número quarenta, casacos que a protegiam dos intensos frios do norte, outros agasalhos, cintos e sabe-se mais o que, foram organizados pela família e repartidos entre as pessoas queridas, convidadas para uma celebração da sua vida, seguida de festa na sua amada Casa Azul que, na verdade, era de todos nós.
Se eu tivesse estado lá, teria procurado e trazido comigo as máscaras de Caminito. Nas horas de desconsolo, vazio ou desamor, com uma delas me olharia no espelho e me veria mais forte e preparada para encontrar aqui dentro a saída. A outra me caberia com perfeição para aqueles momentos em que o espelho devesse me devolver em dobro a alegria e o transbordamento dos sentidos.
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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
sexta-feira, 10 de julho de 2015
Jornal do dia
por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*
Nem mais nem menos do que todos os dias, nesses tempos comprimidos e turbinados pela velocidade em que a roda-mundo-roda-gigante tem rodado, muitas coisas estão sempre acontecendo. Surpreendentes, mas nem tanto, complexas algumas, contundentes e desconcertantes, dá de tudo. São a essência da crônica.
Muitas delas me chamam a atenção, mas devo confessar que tenho tentado não me entupir de acontecimentos, porque desanima e intoxica. É só pensar na situação econômica, na indigência política e na extrema crueldade dirigida à Dilma, atacada com um tal nível de desrespeito e agressão, que só posso interpretar como misoginia, poderosa ferramenta desqualificadora das mulheres que paira acima de qualquer possibilidade de avaliação real.
Também nas ratazanas se aproveitando e se fartando no banquete do poder a que entraram por delegação do eleitorado. Tem gente achando bom, mas a fatura, em variados itens e cifras corrigidas, será cobrada lá na frente, e aí o esperneio será inteiramente inútil.
E no racismo nosso de cada dia - jamais assumido, sempre o dos outros - mostrando sua cara imunda, em rede nacional de televisão e no cotidiano infernal que impingimos, impunemente, a tantíssima gente, da forma mais cínica e covarde.
Daí: os gregos, inventores da democracia, que vinham pagando com sangue, suor e lágrimas dívidas inventadas, tomam a dura decisão de peitar a tal troika e tentar retomar o controle do país; minha mãe, do alto dos seus oitenta anos, que ultimamente parecia mais conformada com as mechas lambidas que a natureza plantou em nossas cabeças, se rebela e decide voltar a fazer permanente nos cabelos; e as gêmeas Olívia e Irene chegam ao mundo, pequeníssimas e apressadas, fazendo-nos recapitular, num curso-relâmpago, o que é realmente importante e valioso nesta roda-mundo-roda-gigante.
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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a:deumtudocronicas@gmail.com
sexta-feira, 3 de julho de 2015
Conversa dentro
por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*
Do lado de cá da mesa, três coroas e uma de trinta e poucos, mais ou menos respeitáveis, casadas e supostamente comportadas. Completando o círculo da mesa, três amigas pouco entradas na quarta década, algumas vezes casadas, no momento não. No espaço entre nós, delícias árabes e uma garrafa de vinho tinto que nunca esvazia.
Uma delas informa estar noiva e exibe o anel na mão direita, dando o mote para um divertido passeio pelo mundo delas, as solteiras. Reajo supreendida: noiva? Isto ainda existe? A noiva em questão responde que já foi casada três vezes, e vai encarar a quarta. É dona de um pequeno negócio de roupas, já ralou muito, e entra a filosofar sobre relacionamentos modernos. Que os homens se assustam muito quando percebem que estão lidando com uma mulher autônoma, dona da própria vida, mas que ela gosta mesmo é de se sentir protegida, espera isto dos namorados e do atual noivo, futuro marido.
Uma outra, alta e grande, de olhos azuis claríssimos, dois ou três casamentos no currículo, conta das dificuldades com a altura e dos ficantes baixinhos que já teve. Um deles foi buscá-la num Fiat 500, coitado, e ela penando pra encaixar no banco do carro. Os grandes como ela pelo menos têm um Duster, mas nenhum deles gosta de mulher muito independente, se sentem inseguros, ameaçados, desnecessários.
A terceira comenta que o último namorado reclamava por ela não estar disponível para passar todo o fim de semana com ele. Mas como, se tenho uma filha pequena, que mora comigo? Difícil de entender, né? Ele mesmo pai de vários filhos, cada um vivendo com sua respectiva mãe, claro. Faz sentido?
As três muito dispostas a se divertir ao máximo. Talvez a grande, enorme diferença em relação às gerações anteriores. Encaram a vida, casamentos e descasamentos, filhos, trabalho duro, mas quando chega a hora da balada, estão tinindo e chegam arrasando, prontas para aproveitar tudo o que se lhes ofereça. Como as bambas Dóris, Auremília, Teresinha e Marina da canção de Ana Carolina. E sabem aonde pisam, não esperam o príncipe irromper na pista montado num cavalo branco. Quero dizer, isto penso eu.
E nós, as boas senhoras, fascinadas com a conversa, que termina numa galinhagem de abrir as várias malas de roupas trazidas pela lojista, fuçar, experimentar e dar palpites. Quando nos despedimos, alguém avisa que há uma cronista no grupo, ao que a altona me pede: pode contar, mas não ponha meu nome, por favor. Claro que não, Adriana!
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sexta-feira, 26 de junho de 2015
Sampa
por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*
Atendo alguém ao celular enquanto espero o meu ônibus, sentada no banco da parada, quando se aproxima uma pessoa visivelmente maltratada pelo dia-a-dia nas ruas de São Paulo. Um homem, com a barba crescida, vestido com o que um dia foi uma saia estampada, agora bem encardida, uma camiseta regata vários números maior que ele e chinelos. Fala alto, coisas desconexas, com gestual e entonação de bicha bagaceira, cheira mal de longe, faltam-lhe alguns dentes. Senta-se ao meu lado, falando sem parar. Um ônibus se aproxima, ele se encaminha para embarcar, o motorista fecha a porta e arranca.
Ele grita sua indignação e senta de novo ao meu lado. Continuo ao celular. Uma senhora, com pinta de moradora do bairro, chega e me pede uma informação. Peço-lhe que espere um minuto, por favor, ela insiste. Interrompo a conversa para atendê-la, e ela me diz: na verdade, eu só queria te advertir que não fique falando ao celular aqui, é muito perigoso; mantenha-o bem guardado na bolsa. Retomo a conversa.
Jantando com a amiga que me hospeda, ela me conta uma história fascinante. Na primeira metade do século vinte, viveu nesta cidade uma milionária, única herdeira de grande fortuna em dinheiro e propriedades, com hábitos refinados e atitudes avançadas. Ainda bem jovem, dirigia automóvel e tirava fotografias, para espanto das pessoas de boa família. A certa altura, começou a apresentar sinais de doença mental. Uma de suas casas foi, então, transformada numa espécie de manicômio exclusivo, por ordem do seu tutor legal. Não tendo deixado herdeiros, seu patrimônio foi entregue à Universidade de São Paulo, que recentemente realizou um primoroso trabalho de restauração dessa casa e instalou nela os escritórios da faculdade de arquitetura.
Fui visitar a bela Casa da Dona Yayá, que é também um espaço cultural. Os detalhes são um tanto inquietantes, como as estreitas janelas pivotadas, que impediam a moradora de escapulir por uma delas, as aberturas nas paredes por onde lhe serviam a comida, e o solarium, ladeado por muros tão altos, que só mesmo voando ela poderia ultrapassá-los. Ali ela viveu confinada até morrer, prisioneira em sua própria casa. Como muitas outras, antes e depois dela, com mais ou menos recursos, mas igualmente submetidas às determinações de quem as considera sua propriedade.
Os drinks e a conversa fiada saboreados numa deliciosa espelunca da Praça Roosevelt, seguidos do macarrão com vinho tinto na cantina do Bixiga, proporcionam aquela indispesável conexão com as melhores coisas de São Paulo. Num súbito ataque de nostalgia e adolescência, peço "Dio, comme ti amo" ao cantor que se oferece à mesa, acompanhado por violão e acordeon. Tenho quinze anos de novo.
Ínfimas amostras das infinitas possibilidades paulistanas. Obrigada, São Caetano Velloso, por ter forjado um nome para todas elas.
Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
Atendo alguém ao celular enquanto espero o meu ônibus, sentada no banco da parada, quando se aproxima uma pessoa visivelmente maltratada pelo dia-a-dia nas ruas de São Paulo. Um homem, com a barba crescida, vestido com o que um dia foi uma saia estampada, agora bem encardida, uma camiseta regata vários números maior que ele e chinelos. Fala alto, coisas desconexas, com gestual e entonação de bicha bagaceira, cheira mal de longe, faltam-lhe alguns dentes. Senta-se ao meu lado, falando sem parar. Um ônibus se aproxima, ele se encaminha para embarcar, o motorista fecha a porta e arranca.
Ele grita sua indignação e senta de novo ao meu lado. Continuo ao celular. Uma senhora, com pinta de moradora do bairro, chega e me pede uma informação. Peço-lhe que espere um minuto, por favor, ela insiste. Interrompo a conversa para atendê-la, e ela me diz: na verdade, eu só queria te advertir que não fique falando ao celular aqui, é muito perigoso; mantenha-o bem guardado na bolsa. Retomo a conversa.
Jantando com a amiga que me hospeda, ela me conta uma história fascinante. Na primeira metade do século vinte, viveu nesta cidade uma milionária, única herdeira de grande fortuna em dinheiro e propriedades, com hábitos refinados e atitudes avançadas. Ainda bem jovem, dirigia automóvel e tirava fotografias, para espanto das pessoas de boa família. A certa altura, começou a apresentar sinais de doença mental. Uma de suas casas foi, então, transformada numa espécie de manicômio exclusivo, por ordem do seu tutor legal. Não tendo deixado herdeiros, seu patrimônio foi entregue à Universidade de São Paulo, que recentemente realizou um primoroso trabalho de restauração dessa casa e instalou nela os escritórios da faculdade de arquitetura.
Fui visitar a bela Casa da Dona Yayá, que é também um espaço cultural. Os detalhes são um tanto inquietantes, como as estreitas janelas pivotadas, que impediam a moradora de escapulir por uma delas, as aberturas nas paredes por onde lhe serviam a comida, e o solarium, ladeado por muros tão altos, que só mesmo voando ela poderia ultrapassá-los. Ali ela viveu confinada até morrer, prisioneira em sua própria casa. Como muitas outras, antes e depois dela, com mais ou menos recursos, mas igualmente submetidas às determinações de quem as considera sua propriedade.
Os drinks e a conversa fiada saboreados numa deliciosa espelunca da Praça Roosevelt, seguidos do macarrão com vinho tinto na cantina do Bixiga, proporcionam aquela indispesável conexão com as melhores coisas de São Paulo. Num súbito ataque de nostalgia e adolescência, peço "Dio, comme ti amo" ao cantor que se oferece à mesa, acompanhado por violão e acordeon. Tenho quinze anos de novo.
Ínfimas amostras das infinitas possibilidades paulistanas. Obrigada, São Caetano Velloso, por ter forjado um nome para todas elas.
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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
sexta-feira, 19 de junho de 2015
Letras douradas
por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*
De saída para mais uma de suas frequentes viagens a São Paulo, ouvi meu pai dizer à minha mãe: o Antenor me pediu que lhe compre uma harpa. Uma harpa! Era a coisa mais maravilhosa que eu ouvia em muito tempo. O instrumento dos anjos dos sermões do meu pai e dos discos de hinos de Natal.
Como seria uma harpa de verdade? Ela tocaria na nossa banda destrambelhada, cheia de metais, sanfonas e repiques? Isto transformaria a obrigação de ir à igreja num prazer que eu nem conseguia imaginar. Passei a sonhar o tempo todo com como soaria o dedilhar da harpa ali, diante dos meus olhos e ouvidos, e pensei que nada mais importaria. Estaríamos definitivamente salvos da dureza da vida e, com sorte, eu me livraria dos olhos que me seguiam por toda parte, verificando onde punha os pés, que fazia com as mãos, em que se fixava o meu olhar.
Depois de pensar muito, não consegui atinar em quem a tocaria. Estava certa de que os agricultores, pedreiros e encanadores da nossa banda jamais teriam a necessária elevação, a delicadeza nos dedos, o ar enlevado que certamente acompanhava qualquer pessoa que tivesse a suprema felicidade de tocar uma harpa. Mas não importava. Quando ela chegasse, tudo se solucionaria.
Quando, finalmente, meu pai voltou, e eu já estava quase explodindo de ansiedade, corri até ele e perguntei: trouxe a harpa? Trouxe, já a entreguei ao Antenor. Com uma cara de quem não entendia como eu sabia da encomenda, nem que importância poderia ter.
Então era verdade mesmo! Saí voada, aos pulos atravessei o quarteirão que nos separava da igreja, driblei um monte de gente que já transitava por ali esperando a hora do culto, perguntei aqui e ali se alguém havia visto o Antenor. Disseram que ele estava de papo na casa da zeladora, fui até lá com o coração na boca, entrei e gritei: Antenor, cadê a harpa?
Está aqui. Onde? Aqui, menina. Mas eu não via nada. Ninguém parecia se dar conta que havia chegado uma harpa! Já meio ressabiada, mas não querendo acreditar, cheguei mais perto do livro que ele estendia em minha direção. Quando olhei, estava cheio de notas musicais, e sobre a lombada de couro preto, em góticas letras douradas, li: Harpa Cristã. O hinário completo, com partituras. Uma beleza, por certo.
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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
sexta-feira, 5 de junho de 2015
Menu principal
por Júnia Puglia
Eu sei quem sou, às vezes não. Muitas vezes sei de onde venho, e levo a vida a buscar o meu próprio caminho, que não sei aonde vai dar. Ou melhor, sei, mas evito pensar sobre isto, por inútil. Às vezes, me dá um tédio profundo de tudo o que fiz e vivi até agora, mas passa logo. Considero o sol essencial para manter minha conexão com a vida e continuar circulando por aí, tanto quanto é crucial ter ao meu alcance e sentir as pessoas que me são importantes.
Fico muito impressionada cada vez que me deparo com gente de olhos opacos, que apenas traduzem o nada que têm lá dentro. Nada me parece tão terrível quanto a energia vital desperdiçada, submetida ao piloto automático ou engolida pelas circunstâncias, ou pela simples impossibilidade de reagir a ela, acolhê-la, nutri-la. (Agora percebo por quê me foi tão definitiva a rápida visita que há poucos meses fiz a alguém que por muitos anos me inspirou, cujo brilho me alentou a juventude, mas que está entregue a uma desvida insuportável de tão dolorosa.)
Abomino esses condomínios fechados que são uma triste imitação de Miami, e se alastram como praga entre pessoas ávidas por se proteger da pretensa inveja alheia e da convivência com os diferentes, de modo a se sentirem valorizadas, diferenciadas, separadas daqueles que desprezam, por se sentirem as únicas merecedoras do que consideram o melhor em suas vidinhas pequenininhas. Estão cada vez mais apavoradas com a perspectiva de sermos menos desiguais.
Tenho lamentado muito os imensos gramados com que atapetamos o mundo urbano, padronizado pela negação do espontâneo. Mais árvores e vegetação nativa por perto nos ampliariam a percepção do quanto dependemos dos outros seres vivos para continuar existindo, e também do estrago que somos capazes de fazer no nosso mundo.
Depois de viver algumas décadas e, como todo mundo, aprender e absorver uma montoeira de coisas e fazer outras tantas (sempre menos do que eu gostaria), acho que estou mesmo é querendo voltar para o menu principal, e ficar só com ele. Neste caso, o vinho do supermercado é bom o suficiente, e melhor ainda quando compartilhado naquela conversa mansa, que não começa nem acaba, apenas flui.
Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
Eu sei quem sou, às vezes não. Muitas vezes sei de onde venho, e levo a vida a buscar o meu próprio caminho, que não sei aonde vai dar. Ou melhor, sei, mas evito pensar sobre isto, por inútil. Às vezes, me dá um tédio profundo de tudo o que fiz e vivi até agora, mas passa logo. Considero o sol essencial para manter minha conexão com a vida e continuar circulando por aí, tanto quanto é crucial ter ao meu alcance e sentir as pessoas que me são importantes.
Fico muito impressionada cada vez que me deparo com gente de olhos opacos, que apenas traduzem o nada que têm lá dentro. Nada me parece tão terrível quanto a energia vital desperdiçada, submetida ao piloto automático ou engolida pelas circunstâncias, ou pela simples impossibilidade de reagir a ela, acolhê-la, nutri-la. (Agora percebo por quê me foi tão definitiva a rápida visita que há poucos meses fiz a alguém que por muitos anos me inspirou, cujo brilho me alentou a juventude, mas que está entregue a uma desvida insuportável de tão dolorosa.)
Abomino esses condomínios fechados que são uma triste imitação de Miami, e se alastram como praga entre pessoas ávidas por se proteger da pretensa inveja alheia e da convivência com os diferentes, de modo a se sentirem valorizadas, diferenciadas, separadas daqueles que desprezam, por se sentirem as únicas merecedoras do que consideram o melhor em suas vidinhas pequenininhas. Estão cada vez mais apavoradas com a perspectiva de sermos menos desiguais.
Tenho lamentado muito os imensos gramados com que atapetamos o mundo urbano, padronizado pela negação do espontâneo. Mais árvores e vegetação nativa por perto nos ampliariam a percepção do quanto dependemos dos outros seres vivos para continuar existindo, e também do estrago que somos capazes de fazer no nosso mundo.
Depois de viver algumas décadas e, como todo mundo, aprender e absorver uma montoeira de coisas e fazer outras tantas (sempre menos do que eu gostaria), acho que estou mesmo é querendo voltar para o menu principal, e ficar só com ele. Neste caso, o vinho do supermercado é bom o suficiente, e melhor ainda quando compartilhado naquela conversa mansa, que não começa nem acaba, apenas flui.
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sexta-feira, 22 de maio de 2015
Caixa de surpresas
por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*
Na área de embarque do aeroporto de Quito, entramos numa livraria e procuramos a estante de Rosa Montero, à época bem menos conhecida e traduzida no Brasil. Faz uns doze anos. Cada uma de nós três comprou um livro diferente, com o acordo de fazermos um rodízio deles. Não lembro qual era o meu. Sentamos à espera do nosso embarque, folheando os livros novos. O título do que a colega ao meu lado havia comprado me chamou a atenção e pedi para vê-lo. Era "A louca da casa", que começa com uma instigante e divertida reflexão sobre a memória, tanto a individual como a compartilhada entre pessoas, por exemplo, da mesma família. Fala da construção que cada um faz dos fatos e situações vividas, tornando-as únicas, e das enormes discrepâncias entre os registros que individualmente fazemos de um mesmo episódio. Não consegui largar o livro e nunca o devolvi à sua dona.
Dado que a memória não é absoluta, muito menos objetiva, sendo, portanto, inútil buscar nela a verdade dos fatos, fica fácil entender a diferença entre o que sempre lembraremos e o que nunca esqueceremos, nuances sujeitas, em larga medida, aos sentimentos que associamos ao que nos acontece. E lembranças não pedem licença.
Durante as férias na fazenda, que eu detestava mas nunca consegui driblar, a solidão era a minha melhor amiga. Se fosse no meio do ano, a colheita do milho verde me dava algumas alegrias, como o curau, um dos doces preferidos, e o dia de pamonha, que era um acontecimento. Sacos enormes de espigas eram colocados na varanda de trás da casa e um grupo de umas dez mulheres se organizava para a trabalheira. Descascar e limpar as espigas cuidadosamente, de maneira a preservar a palha o mais inteira possível, ralar o milho em grandes ralos feitos de folhas de latas de óleo de vinte litros furadas com pregos, costurar à máquina bolsas com as folhas de palha, que receberiam a massa de milho verde, amarrar as bolsas cheias com finas tiras da mesma palha, ferver panelões de água e neles cozinhar as pamonhas. E eu ali no meio, ralando milho verde horas a fio e aprendendo o mundo daquelas matutas no conversê que nunca parava e era pura diversão. Era muito transparente o ar nos dias de inverno na roça.
Assim, passou-me voando pela cabeça a cena do grupo ralando o milho verde, enquanto eu escrevia o primeiro parágrafo. Que emendei, por razões insondáveis, com o relato do escritor chileno Antonio Skármeta sobre sua paixão adolescente pela Dalva de Oliveira. Nossa grande estrela do rádio excursionava pelo Chile, e o rapaz de quinze anos foi assisti-la. Saiu em êxtase, teve febre, insônia, inapetência, até descobrir onde a sua deusa estaria e ir até lá, levando um ramalhete de rosas, que lhe custou a mesada inteira. Dalva se comoveu com aquela aparição e, não sendo nada boba, sacou a fornalha que o consumia. Deu-lhe um beijo e lhe escreveu na capa de um disco: "ao meu único amor chileno". Queria que você visse a expressão dele contando a história. Emende aí à vontade.
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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
sexta-feira, 15 de maio de 2015
Os fundos
por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna
Os milhares de motoristas e passageiros que percorrem a W3 norte o tempo todo não veem, não têm como ver. Precisei morar vinte anos na região pra perceber.
Tem a avenida, com blocos comerciais dos dois lados, em toda a sua extensão e, atrás destes, no rumo oeste, pequenos blocos com lojas no térreo e dois ou três andares de apartamentos. Mais atrás ainda, outra linha de lojas e apartamentos. Entre estes e os conjuntos de casas, uma calçada.
Como em tudo o que se construiu aqui em Brasília, especialmente no Plano Piloto, houve uma ideia, um conceito inicial para esse estranho lugar, onde tudo parece improvisado. Ignoro totalmente qual tenha sido a proposta, mas acho que ela ficou perdida pelos caminhos gerenciais burocráticos. Um sinal disto são os endereços ininteligíveis, até mesmo para esta cronista candanga veterana.
O que se encontra, ao explorar a área, é uma calçada que começa e acaba de repente, começa e acaba de novo, sem qualquer razão aparente. De um lado, os fundos dos apartamentos, meio brutos, mal acabados e cheios de grades ⎼ sob cuja marquise às vezes se abrigam alguns moradores de rua com suas sacolas e cobertores ⎼, pessoas passeando cachorros, carros abandonados, carros estropiados, carros estacionados sobre a calçada, pneus velhos, oficinas mecânicas informais em vagas de estacionamento, lojas transformadas em igrejas evangélicas, pequenos restaurantes que servem por quilo, academias de ginástica e artes marciais e toda uma variedade de pequenos negócios. A melhor parte: como a circulação de veículos na área é complicada e desorganizada, os carros em movimento são poucos e, portanto, não tem barulho de trânsito.
Do lado oposto, as quadras residenciais, com suas casas geminadas e alguns blocos de apartamentos bem mais arrumados, cheias de gramados, belas árvores e cercas vivas. Um verde exuberante e bem cuidado, que abriga passarinhos, calangos, gatos, insetos, borboletas e parquinhos infantis onde ainda não vi criança brincando. Entre os dois territórios quase inconciliáveis, a estreita calçada que aparece e desaparece. Pouca gente circula por ela.
Nas primeiras caminhadas, eu ia imaginando como seria se aquela passarela intermitente fosse transformada num bulevar para pedestres, bem pavimentado e ajustado a caminhantes de todas as idades e diversas condições físicas. Em linguagem moderna, que tivesse acessibilidade, iluminação e sinalização adequadas, talvez uns bancos de praça e alguns lugares de descanso e encontro. Imaginar não paga imposto, inclusive porque desconfio que este lugar deve ocupar a milésima posição na ordem de prioridades do governo local.
Além de mais bonito, atrairia o uso dos moradores, que, no entanto, parecem não estar nada interessados. Minha sensação é de que demos as costas para este lugar, porque fica nos fundos de uma área comercial nada elegante, algo que a vizinhança despreza e não quer nem ver.
Pensando melhor, podia ficar tudo como está, só que com uma calçada contínua e lisinha, onde ninguém estacionasse seus malditos carros, pra que a gente pudesse percorrer a pé, sem interrupções, esse furdunço urbano inesperado no coração do Plano Piloto, cidade bem arrumada, feita para pessoas sobre rodas. Plano é bom, mudar o plano pode ser melhor.
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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
sexta-feira, 8 de maio de 2015
Meninas roubadas
por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*
Daqui deste meu canto com vista para os ipês amarelos floridos do quintal do vizinho, é fácil pensar nelas e mergulhar na inquietação que vem junto. As meninas roubadas na essência daquilo que a vida requer para ser uma vida bem básica. De seres humanos com potencial pleno, como quase todas nascemos, foram transformadas em coisas, peças dos terríveis jogos que tantos homens jogam para perpetuar sua superioridade, exigência maldita imposta a tantas mulheres, que não conseguimos conter, que dirá reverter.
Quando nasci um anjo esbelto, /desses que tocam trombeta, anunciou: /vai carregar bandeira. /Cargo muito pesado pra mulher, /esta espécie ainda envergonhada, disse Adélia Prado no definitivo poema "Com licença poética”.
Meninas nigerianas, que cometeram dois equívocos essenciais: nascer mulher e ir à escola. Tragadas pelo jogo de vida e morte, ou morte em vida, ditado pelos senhores ensandecidos que o vêm herdando desde sempre, e sempre acrescentando novos ingredientes de horror, que parece jamais bastar.
Fácil pensar nelas e nas muitas outras usadas e abusadas nos conflitos e nas guerras, entre países ou facções criminosas, por guerreiros brutos e mal encarados ou por moços branquinhos limpinhos encarregados de protegê-las. As mulheres não fazem as guerras, mas as sofrem profundamente, mesmo sem dar um único passo neste sentido. As guerras dos homens sempre as alcançam.
Foram resgatadas do cativeiro extremista, as meninas nigerianas, depois de ver e sofrer o inominável. Das centenas que sobreviveram ao quinto ou sétimo inferno, mais de duzentas estão grávidas, como resultado da violência sexual a que foram submetidas, no seu papel obrigatório e inescapável de trastes disponíveis aos tais jogos. Voltam com filhos da tragédia no ventre ou nos braços, perdidas, esvaziadas de si mesmas. Fácil pensar nelas, mas, por mais que eu me esforce, não faço ideia de como se sentem.
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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
sexta-feira, 1 de maio de 2015
Puritana
por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna
Intriga-me que sejamos protestantes há pelo menos quatro gerações, de ambos os lados da família, num Brasil onde os protestantes, ou "evangélicos", como se diz hoje, eram uns gatos pingados - até bem pouco tempo. Do lado paterno, descendentes diretos de imigrantes italianos, desembarcados por aqui na década de 1890. Do materno, uma mistura bem brasileira de portugueses, espanhóis e italianos, além de seculares mineiros. Todos misteriosamente metodistas. Nunca consegui uma boa explicação para isto.
O que importa mesmo, aqui, é o que veio junto. Ainda que os seguidores do inglês John Wesley sejam dos mais liberais, os primeiros que aqui chegaram, em meados do século 19, eram norte-americanos, trazendo consigo, mais que uma doutrina religiosa, uma inconfundível e pesada herança puritana, que se traduziu nos mínimos detalhes da formação de várias gerações da família. E que foi um pouco mais longe, pois uma importante ala de ambos os lados tornou-se pentecostal, atraída pela grande novidade que aportou pelo interior de São Paulo nos idos de 1950-60, também por obra de americanos. Meu pai, então pastor metodista, desencadeou a guinada familiar e se tornou um líder pentecostal de algum prestígio. Nesse meio, conheci o que bem mais tarde vim a identificar como fundamentalismo religioso.
O recado, como eu o recebi, era muito claro: sem o evangelho não havia salvação. Com o evangelho, não se podia: falar palavrão, brigar, reclamar, ter medo do escuro, expressar raiva, contestar a autoridade, dançar, fumar, beber algo que valesse a pena, usar roupa provocante, explorar o corpo de quem quer que fosse e mais uma lista enorme. Depois de tudo, ganhava-se a vida eterna no céu.
Assim crescemos: recatados, ingênuos, contidos, reprimidos e culpados. E volto ao singular, pois não falo em nome de ninguém mais. Lá pelas tantas, quando pude pensar e agir por conta própria, o peso pesou de vez. Dei um basta e me afastei de qualquer prática religiosa.
Durante alguns anos, acreditei que havia conseguido exorcizar a religião e o grande olho de Deus que haviam posto a me vigiar a cada minuto. Até me dar conta de que é inútil, nunca vai ser possível. Independentemente de como vivo e das minhas convicções de hoje, é só cavoucar um pouco para constatar que, no terreno do básico e primordial, não deixei de ser protestante, pentecostal, puritana. Porque a religião a gente herda no sangue, no leite, ela se mistura aos mínimos detalhes da nossa definição como indivíduo, do olhar para o mundo. Mesmo descolada da intenção ou da prática, ela joga um papel tão essencial na formação de pessoas e sociedades, que até mesmo a sua ausência torna-se definidora.
Puritana coroa rebelde libertária convicta. Pode ser?
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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
sexta-feira, 24 de abril de 2015
Do baú
por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna
Das pequenas surpresas que aprecio muito: acabo de ver um vídeo de um famoso grupo de samba cantando e tocando "Mercedes-Benz", clássico da contracultura (ironia à parte), que debocha dos valores e símbolos de riqueza e status, composto e gravado por Janis Joplin em 1970. Tão, mas tão definitivamente Janis, que não esperava ouvi-lo em outra voz, muito menos em ritmo de samba. É óbvio que se trata de uma brincadeira, mas muito competente e divertida. (Se tivesse sobrevivido a toda aquela loucura, e depois de ajudar a virar a cultura judaico-cristã ocidental de pernas pro ar, talvez Janis estivesse hoje "em casa, guardada por Deus, contando o vil metal". Nunca saberemos.)
Daí, sabe como é, a memória abre o baú e eu me lembro de, por volta dos doze anos, sentir a mesma surpresa com o inusitado ao ver Jair Rodrigues, no auge da fama e popularidade, cantando lindamente a valsa "Eu sonhei que tu estavas tão linda", ao vivo, num programa de televisão. Achei muito estranho, não sei se por vê-lo cantando uma canção derramada, ou por ele não estar se sacudindo todo no palco enquanto cantava. Talvez pelas duas coisas. Ficamos todos em casa muito impressionados com a beleza daquela interpretação, rendeu vários dias de comentários.
E um rápido presencial: em Nova York, durante uma conferência mundial, uma jovem militar brasileira, que integrava a comitiva de alguma autoridade, buscava alguém que a fotografasse no plenário da ONU, enquanto rolava um pronunciamento da delegação brasileira (faltava muito para a era selfie). Estava ansiosa por registrar o momento e estrear a câmera digital recém-comprada, uma grande novidade. De forma aleatória, aproximou-se de Nair Benedicto (vai no Google!) e perguntou se poderia lhe fazer o favor. Ato contínuo, passou a explicar como se operava a máquina, insistindo no detalhe do foco e da visualização na tela de dois centímetros, que substituía os visores mínimos das máquinas analógicas. Nair, muito compenetrada, ouviu as explicações e orientações e partiu para a tarefa, deixando sob nossos cuidados seu precioso e completíssimo equipamento e os quilos de filmes que havíamos comprado na véspera. Ficamos de longe saboreando a cena e anotando a dedicação da fotógrafa "ocasional". Aposto que a moça nunca se deu conta de quem estreou sua câmera.
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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
sexta-feira, 17 de abril de 2015
Roupa nova
por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna
Acontecia uma ou duas vezes por ano e era um assunto muito sério, restrito a formaturas, casamentos ou grandes eventos religiosos. Em qualquer caso, "roupas feitas" (aquelas compradas prontas nas lojas) ainda eram raras e caríssimas, muito além das nossas possibilidades. Tudo o que nos cobria era produzido pelas costureiras da vizinhança ou por nossas mães e avós, até mesmo pijamas, calcinhas e cuecas. Ninguém perguntava às crianças o que queriam ou gostariam de vestir. O que saísse das máquinas movidas a pedaladas era vestido, geralmente nos maiores, e depois repassado a irmãs e irmãos menores, primas, vizinhos e uma enorme cadeia de aproveitamento, pois tudo era usado até acabar.
Com os sapatos era a mesma coisa, com a diferença de que, não podendo ser feitos em casa, eram recebidos e repassados entre a mesma cadeia ou, com muito menor frequência, comprados. Os novos eram reservados para as principais ocasiões e calçados com reverência. Pequenos acidentes resultavam de caminhar com os olhos fixos neles. Os da formatura da quarta série, de verniz em duas cores, branco e cinza, ocupam um lugar de destaque na memória afetiva.
Num certo verão, nossa tia nos levou, minha irmã e eu, a uma loja que acabara de receber uma grande novidade: sandálias de dedo feitas de borracha colorida azul, amarela ou verde, com solado branco na face em contato com os pés. Cada uma de nós ganhou um par, e até pudemos escolher a cor. Recebemos nossas primeiras havaianas dentro de sacos plásticos amarrados com barbante colorido, fascinadas, de longe o acontecimento mais importante daquelas férias.
Também ficou gravado na minha biografia o episódio do vestido pesado, de veludo vermelho, herdado de uma prima, que maravilhou mãe e tias, mas que eu detestei completamente. Além de a textura do veludo me ser insuportável, dentro dele eu ficava parecendo a gata borralheira numa roupa das meio-irmãs ricas. Recusei-me terminantemente a usá-lo, para enorme decepção das adultas.
Elas ainda nem desconfiavam, mas eu começava a odiar as roupas que me eram destinadas. Queria poder escolher e, entre as minhas preferências, não havia lugar para os invariáveis modelos desmilinguidos, lambidos, cheios de flores, rendas, fitas e laçarotes. Eu olhava comprido para algumas roupas nas vitrines das lojas, nas telenovelas e nas revistas, pois me pareciam cheias de personalidade e capazes de refletir algo ainda indefinível, que se tornaria para mim uma obsessão: liberdade, ou aquilo que para mim mais se parecesse com ela. Era eu começando a pensar em agir como eu mesma. Terremotos se seguiram.
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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
sexta-feira, 10 de abril de 2015
Caras
por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna
Quem nunca folheou uma Caras atire a primeira pedra! Revista feita de fotos e comentários ligeiros, mostra celebridades – em toda a amplitude da palavra – lindas, sorridentes, ryyykhas e felizes. A bíblia das salas de espera e dos salões de beleza, onipresente, oferecendo distração para os olhos naqueles momentos em que conteúdo é o que menos importa. É só abrir e se atualizar sobre festas, casamentos, descasamentos, passeios de iate, estações de esqui, casas de praia, bebês, roupas, modelos, decoração, almoços e jantares frequentados por pessoas portadoras de cabelos lisos e louros, olhos azuis e muita maquiagem.
À parte a nossa curiosidade intrínseca sobre a vida alheia, sabemos que os felizardos retratados estão dando tudo de si para nos confirmar, naquelas expressões e frases soltas, como são satisfeitos e perfeitos. Sim, porque ninguém fala ali do quanto deseja mandar pras cucuias o marido que sai tão bem na foto, e se jogar de vez nos braços do bombeiro do condomínio. Ou do medo de ficar pobre ou cair da fama, que impede o galã de novelas de dormir e até mesmo de usufruir da sua tão prezada virilidade. Mas para nós, espectadores/leitores mortais, o que importa é a foto, sempre produzida com muita luz, cor e sorrisos, de modo a sequer sugerir interpretações.
Talvez o que realmente nos atraia nessas fotos é a sensação de que aquelas pessoas estão mesmo felizes e realizadas, por muito que saibamos o quanto tudo aquilo é falso e fabricado. Você me pergunta o que é ser feliz? Desconfio que seja, em escassas palavras, viver um grande amor e realizar com ele o seu projeto de vida, mesmo que seja um projetinho de dois meses, ou mesmo de um fim de semana. E, principalmente, nunca, jamais envelhecer. Tem Caras nova nas bancas.
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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Pelas praças
por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna
Minha encarnação candanga já dura muito mais que a anterior. Considerando uma expectativa de vida realista, será a mais longa, mesmo que eu me mude daqui amanhã. Viver num lugar insólito como Brasília tem suas consequências, e para mim uma das mais fortes é o fascínio por cidades "normais", aquelas onde tudo se mistura. São as áreas mistas das cidades que me seduzem, lugares onde é só por os pés na rua e se acha de tudo, gente, loja, cinema, cachorro, padaria, pastelaria, banco, café e praça. Se tiver uma feira livre no caminho, me perco de vez na felicidade. Quando viajo, quase não consigo fazer outra coisa que não seja andar sem destino certo, sentindo a energia urbana sem filtros e sem intermediários.
Ah as praças! Nelas a gente capta o espírito do lugar, quase o apalpa. E como eu saio sem plano e sem programa, pedindo para ser surpreendida, elas me atendem, generosamente. Assim aconteceu em Lisboa, quando cruzei o arco da Praça do Comércio pela primeira vez, num dia de céu azul profundo, o Tejo logo ali na frente, o espaço aberto vibrando sob o sol. E no Largo do Chiado, com sua delicada iluminação noturna, convidando a gente a se sentar e desfrutar a suave melancolia portuguesa matizada pela Babel em que se transformou essa magnífica cidade coalhada de lugares de encontro.
Também em Madri, num fim de tarde, ao entrar na Plaza Mayor por uma lateral singela, e dar com o retângulo enorme todo ladeado de edifícios centenários da mesma altura, nos quais se vê uma infinidade de arcos e varandas. O impacto foi tremendo, como se ali, onde pairam a memória e o eco de um mercado aberto, eu pudesse sentir toda a verve espanhola em plena pulsação.
Outras são tímidas, como a Plazoleta Carlos Pellegrini, que descobri num canto da Recoleta, em Buenos Aires. Numa cidade com arquitetura e gente dramática e monumental, a pracinha tem um toque introvertido, quase singelo. Linda.
Entre as mais belas, está a Praça Tiradentes, em Ouro Preto, que visitei há muitos anos, mas não me sai da memória. Tem um quê de tragédia no ar, mas parece dizer, sutilmente, mineiramente, que é preciso superar a dor e tocar em frente.
Como em tantas cidades brasileiras, lá na minha querida Araraquara também tem uma Praça Independência, tão bonita, mas tão bonita, que dá vontade de armar uma barraca na grama e ficar por lá, curtindo as árvores poderosas e pensando na vida num banco compartilhado com gatos vagabundos. E lá nos cafundós do interminável interior de São Paulo fica Jurupema, um povoado de duas mil almas com uma pequena igreja redonda em formato de farol, rodeada por uma praça aonde me senti dentro de uma pintura de Portinari e engasguei, quase chorei.
Levanto os olhos da tela, e é Brasília que eu vejo lá fora, com este céu escancarado ameaçando despejar um baita de um temporal e as maritacas fugindo dele, apressadas e tagarelas.
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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
sexta-feira, 27 de março de 2015
Insignificância
por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna
"Como brilha a insignificância das pessoas quando as coisas começam a dar errado." Comentário ácido e certeiro da escritora espanhola Rosa Montero, a propósito de um funcionário sindicalista que quer se aproveitar do assassinato de uma líder para emplacar sua carreira política. Pulou do papel enquanto eu lia o romance de ficção científica "Lágrimas na chuva", cujo bem tramado enredo gira em torno da uma detetive androide, contratada para investigar uma série de mortes de semelhantes seus, num futuro situado no ano de 1109.
Com a criatividade e a competência que lhe sobram, e tendo como ponto de partida a cena final do filme "Blade runner" (quando o protagonista replicante, antes de morrer, diz: "vi coisas nas quais vocês não acreditariam… todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva"), Rosa coloca humanos e androides numa convivência complicada, permeada por situações que remetem às crenças supremacistas e práticas racistas que conhecemos tão bem. No futuro imaginado por ela, o caráter e o comportamento humanos continuam intactos, bem como a recorrente ênfase da autora na empatia e solidariedade entre os marginalizados e os esquisitos, uma das características mais cativantes da sua escrita. Para o grande prazer de seus leitores, ela já escreveu sobre um bocado de coisas.
A frase é tão bem sacada que dá a sensação de ser, simultaneamente, uma bela surpresa e uma velha conhecida. Isto acontece sempre que alguém consegue dar uma forma exata a algo que captamos ou sentimos, mas não conseguimos ou não nos detemos em formular. Tive que compartilhá-la.
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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
sexta-feira, 20 de março de 2015
A birosca do Josué
por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna
Acabo de passar um grande susto. Caminhava pela vizinhança, fazendo aquelas averiguações de praxe ao circularmos nos nossos lugares de referência, quando se fez um vazio: a birosca do Josué não estava mais lá, e no seu lugar encontrei um pequeno edifício de apartamentos.
A uma centena de metros de casa, forneceu picolés, pirulitos, chicletes, refrigerantes e biscoitos recheados clandestinamente aos meus filhos crianças, pois esses eram itens que eu supunha controlados pelo nosso zelo parental, observado com algum rigor. Descobri, há não muito tempo, que os caraminguás que recebiam toda sexta-feira, como virtuoso treinamento orçamentário, eram torrados no Josué, sob a proteção da empregada, mais generosa com os meninos do que preocupada com açúcar e cáries. A revelação me enterneceu profundamente. Depois eu soube que comprar cigarros para ela era a recompensa.
Fiquei atônita, parada na calçada, examinando desarvorada o lugar onde deveria estar a venda. Como assim, sumiu? Da creche pública recém-inaugurada saíam as crianças ao final do turno, acompanhadas de mães ou avós, e ninguém dava a mínima para a minha aflição. Nenhum pedestre que passava por ali me deu qualquer indício de consternação. Acabou e pronto.
Eu mesma entrei poucas vezes na espelunca, apesar das décadas de vizinhança. A cabeça e a agenda estavam cheias de coisas maiores, mais urgentes e importantes que caminhar pelo bairro. Ir ao supermercado de carro era muito mais prático e eficiente.
Parece que faz tanto tempo e, ao mesmo tempo, posso tocar com a ponta dos dedos aqueles dias em que a rotina era pautada pelo horário do transporte escolar, o cardápio era ditado pelas preferências infantis e o calendário festivo era enfrentado sem muito entusiasmo, mas tentando não contaminar as crianças com a minha impaciência diante de celebrações obrigatórias e pré-fabricadas. A infância dos filhos, que, enquanto acontecia, às vezes parecia demorar-se um pouco além da conta, na verdade durou uns cinco minutos e me deixou aqui dentro uma nostalgia tranquila e conformada. Crescer é preciso e inadiável, então somos adestrados desde pequenos a ter responsabilidade e princípios, ou seja, a levar a vida a sério. Coisa sobre a qual, quanto mais o tempo passa, mais eu penso que estamos todos exagerando. Outra hora eu explico.
Mas não, a birosca do Josué não acabou. Eu é que caí numa dessas armadilhas que a mente nos coloca de vez em quando, e fui procurá-la no lugar errado. Acabei encontrando-a aonde sempre esteve, mas agora com o baú refrigerado de picolés do lado de dentro.
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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
sexta-feira, 13 de março de 2015
A marvada pinga
por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna
Quando consideramos como era a vida das mulheres na nossa cultura algumas décadas atrás, com as restrições, o controle, as expectativas plenamente estereotipadas, a total falta de autonomia sobre a vida e o corpo, sempre encontramos algumas figuras que saltam aos olhos, por contrariar tudo isso e inventar seus próprios caminhos. A que tem ocupado meus pensamentos nos últimos dias é Inezita Barroso, recém-falecida, aos noventa anos.
Moça de fino trato, nascida e criada na capital paulista, recebeu da família conforto e educação. Mas, sabe-se lá por que diabos, e para nossa grande sorte, tinha os pés bem plantados na roça e uma curiosidade gigantesca sobre quem éramos os brasileiros, de onde vínhamos, o que nos comovia e nos motivava, o que nos falava ao coração, o que fazia de nós uma nação. Tornou-se cantora, violeira, atriz, folclorista e muitas outras coisas, vocações que identificou, perseguiu e realizou de forma primorosa até bem recentemente.
Enquanto ia armando um legado de pura sensibilidade e beleza, ela se divertia muito, coisa para a qual as moças, especialmente as paulistas quatrocentonas, estavam pouco autorizadas. Nas suas andanças, conheceu uma moda de viola que contava uma estória de cachaceiro. Ao mesmo tempo em que ouviu na canção um lamento nostálgico por um passado rural ingênuo, travestido de versos cômicos sobre o sujeito que evitava entornar o garrafão de uma só vez "porque acho feio", captou a oportunidade de desafiar os costumes com humor, gravando a moda no feminino (em 1954!) e emprestando seu vozeirão à mulher que ousa declarar que a "prosa de omi nunca dei valor" e que, depois de beber todas e criar confusão numa festa, termina faceira, encantada por chegar em casa "de braço dado com dois sordado, ai muito obrigado".
Quem não conhece a "Moda da Pinga"? Marca registrada de Inezita, para a qual as pessoas de boa família torciam o nariz, incapazes de se divertir com a brincadeira e, mais ainda, de perceber a sacada genial. Essa pequena joia atravessou gerações, sobrevivendo até mesmo ao vendaval politicamente correto.
Inezita foi puxar roda de viola nas galáxias. Ouvi dizer que tem feito duetos memoráveis com Cássia Eller e que, quando Chavela Vargas se junta a elas, rola também um "marvado tequila", nas ilustríssimas companhias de Frida Kahlo, Chiquinha Gonzaga, Elis Regina, Leila Diniz, Hilda Hilst e quem mais quiser aparecer.
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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
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