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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 31 de julho de 2015

Presidente


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna

 A Izilda era uma menina alegre, faladeira e debochada, agitava o recreio com suas tiradas engraçadas e comentários mordazes do tipo metralhadora giratória. O nome da santa criança, então muito popular no interior paulista, felizmente não a impedia de imitar os professores pra nos fazer rir e animar a torcida em qualquer jogo. Queria cursar administração e trabalhar na grande fábrica de meias que era o orgulho da cidade.

Estudamos juntas uns três anos, e daí cada uma tomou o seu rumo. Tempos depois, numa tarde nublada, eu a vi num ponto de ônibus, com a barriga enorme e a expressão de desamparo, os olhos opacos, dos quais desciam lágrimas teimosas, que ela secava com as mãos. Trazia uma aliança no anelar esquerdo. Ainda não tínhamos chegado aos dezessete anos. Não me aproximei, ela nem me olhou, nunca mais nos vimos.

Para matricular os filhos na escola, era preciso declarar a profissão do pai. A da mãe era automaticamente preenchida como "do lar", sem mais. Mas a nossa mãe era professora, precisávamos retificar sempre. A profissão feminina mais disseminada, depois de empregada doméstica, junto com enfermeira e cabeleireira. Tudo o que as mulheres faziam para "ajudar o marido", ou mesmo para sustentar os filhos sozinhas, era desimportante e entrava na conta da obrigação, na base do quebra-galho. Cresci cercada de mulheres que davam um duro danado, submetidas e desvalorizadas, sem perspectiva de crescimento pessoal ou carreira. Menos ainda em plena ditadura militar, quando qualquer comportamento ou aspiração fora da caixinha era um baita risco, você não faz ideia.

Aos seis anos, a Leila curte ler livros de bichos e aventuras, visitar os avós e primos na Espanha e brincar com a irmã menor. Leva uma vida boa, de ir à escola e ter tempo livre. Adoro ver seu jeito leve e solto de criança cujo futuro se fará a seu tempo, sem muita pressão e ansiedade, filha de pais que escolheram descomplicar. No aniversário em que nos encontramos, há poucos dias, sua mãe nos contou da recente conversa da Leila: quer ser presidente da república. E o que você vai fazer como presidente? Dar todo o dinheiro do governo aos pobres, reciclar o lixo e limpar o planeta. Acordes iniciais da promissora, tanto quanto imprevisível, sinfonia da Leila.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Calendário

por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Em algum momento do passado remoto, nossos ancestrais começaram a juntar observações sobre mudanças na vegetação, chuvas, temperatura e comportamento dos outros animais com a repetição periódica dos eventos, e concluíram que vivíamos sob o efeito de um fenômeno chamado tempo. Depois inventaram o calendário, tornando possível programar a vida de acordo com os humores sazonais, semeaduras e colheitas. Mais recentemente, com o imposto de renda, a fatura do cartão de crédito e os aniversários. Dependendo do temperamento e da rotina individuais, um ano da nossa vida moderna pode transbordar de celebrações as mais variadas, religiosas, cívicas, sociais, familiares e pessoais.

A memória me traz um dos grandes romances da minha adolescência, “O tempo e o vento”, do gaúcho Érico Veríssimo, uma caudalosa saga dos começos do Rio Grande do Sul. Li os sete volumes de enfiada, como se perseguisse um seriado sobre as aventuras dos Terra-Cambará. Logo nas primeiras páginas, Ana Terra, moradora, com os pais e dois irmãos, de um campo perdido na conturbada fronteira das colônias disputadas por Espanha e Portugal, expressava seu profundo tédio pela rotina de trabalho incessante e isolamento, tal que não lhe permitia acompanhar a sequência dos dias da semana – que, afinal, não fazia nenhuma diferença, pois eram sempre iguais – ou saber exatamente em que ano estavam. Para a inquieta e curiosa leitora, ávida por finalmente completar os benditos dezoito anos, que nunca chegavam, uma inimaginável desconexão.

Fazemos com o tempo todo tipo de associações: “não lembro o ano, mas foi quando viajei de avião pela primeira vez”, ou “vi esse filme na época do impeachment do Collor”, ou ainda “quando isto aconteceu, eu estava grávida da segunda filha”. Isto porque, no fim das contas, o tempo fica marcado dentro da gente, os números são apenas uma referência, à qual nos ensinaram a dar demasiada importância.

E as datas comemorativas? Dá de um tudo, especialmente depois que a internet nos colocou nessas redes sociais. Com a minha enorme preguiça de celebrações obrigatórias, passo batida por todas elas. Até para aniversários me falta competência, o que às vezes me coloca numas tremendas saias justas.

Um dia desses, avisaram que era Dia do Amigo. Quem precisa dele? O encontro, a afinidade, a empatia, o prazer do contato e da companhia, a história compartilhada, o silêncio cúmplice, a conversa – fiada ou relevante – quando tudo isso se junta, com a assessoria de uma taça de vinho autorreabastecida, o tal Dia acontece. Beijinho no ombro pro calendário.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Conversa dentro


por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*

Do lado de cá da mesa, três coroas e uma de trinta e poucos, mais ou menos respeitáveis, casadas e supostamente comportadas. Completando o círculo da mesa, três amigas pouco entradas na quarta década, algumas vezes casadas, no momento não. No espaço entre nós, delícias árabes e uma garrafa de vinho tinto que nunca esvazia.

Uma delas informa estar noiva e exibe o anel na mão direita, dando o mote para um divertido passeio pelo mundo delas, as solteiras. Reajo supreendida: noiva? Isto ainda existe? A noiva em questão responde que já foi casada três vezes, e vai encarar a quarta. É dona de um pequeno negócio de roupas, já ralou muito, e entra a filosofar sobre relacionamentos modernos. Que os homens se assustam muito quando percebem que estão lidando com uma mulher autônoma, dona da própria vida, mas que ela gosta mesmo é de se sentir protegida, espera isto dos namorados e do atual noivo, futuro marido.

Uma outra, alta e grande, de olhos azuis claríssimos, dois ou três casamentos no currículo, conta das dificuldades com a altura e dos ficantes baixinhos que já teve. Um deles foi buscá-la num Fiat 500, coitado, e ela penando pra encaixar no banco do carro. Os grandes como ela pelo menos têm um Duster, mas nenhum deles gosta de mulher muito independente, se sentem inseguros, ameaçados, desnecessários.

A terceira comenta que o último namorado reclamava por ela não estar disponível para passar todo o fim de semana com ele. Mas como, se tenho uma filha pequena, que mora comigo? Difícil de entender, né? Ele mesmo pai de vários filhos, cada um vivendo com sua respectiva mãe, claro. Faz sentido?

As três muito dispostas a se divertir ao máximo. Talvez a grande, enorme diferença em relação às gerações anteriores. Encaram a vida, casamentos e descasamentos, filhos, trabalho duro, mas quando chega a hora da balada, estão tinindo e chegam arrasando, prontas para aproveitar tudo o que se lhes ofereça. Como as bambas Dóris, Auremília, Teresinha e Marina da canção de Ana Carolina. E sabem aonde pisam, não esperam o príncipe irromper na pista montado num cavalo branco. Quero dizer, isto penso eu.

E nós, as boas senhoras, fascinadas com a conversa, que termina numa galinhagem de abrir as várias malas de roupas trazidas pela lojista, fuçar, experimentar e dar palpites. Quando nos despedimos, alguém avisa que há uma cronista no grupo, ao que a altona me pede: pode contar, mas não ponha meu nome, por favor. Claro que não, Adriana!

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Letras douradas


por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna*

 De saída para mais uma de suas frequentes viagens a São Paulo, ouvi meu pai dizer à minha mãe: o Antenor me pediu que lhe compre uma harpa. Uma harpa! Era a coisa mais maravilhosa que eu ouvia em muito tempo. O instrumento dos anjos dos sermões do meu pai e dos discos de hinos de Natal.

Como seria uma harpa de verdade? Ela tocaria na nossa banda destrambelhada, cheia de metais, sanfonas e repiques? Isto transformaria a obrigação de ir à igreja num prazer que eu nem conseguia imaginar. Passei a sonhar o tempo todo com como soaria o dedilhar da harpa ali, diante dos meus olhos e ouvidos, e pensei que nada mais importaria. Estaríamos definitivamente salvos da dureza da vida e, com sorte, eu me livraria dos olhos que me seguiam por toda parte, verificando onde punha os pés, que fazia com as mãos, em que se fixava o meu olhar.

Depois de pensar muito, não consegui atinar em quem a tocaria. Estava certa de que os agricultores, pedreiros e encanadores da nossa banda jamais teriam a necessária elevação, a delicadeza nos dedos, o ar enlevado que certamente acompanhava qualquer pessoa que tivesse a suprema felicidade de tocar uma harpa. Mas não importava. Quando ela chegasse, tudo se solucionaria.

Quando, finalmente, meu pai voltou, e eu já estava quase explodindo de ansiedade, corri até ele e perguntei: trouxe a harpa? Trouxe, já a entreguei ao Antenor. Com uma cara de quem não entendia como eu sabia da encomenda, nem que importância poderia ter.

Então era verdade mesmo! Saí voada, aos pulos atravessei o quarteirão que nos separava da igreja, driblei um monte de gente que já transitava por ali esperando a hora do culto, perguntei aqui e ali se alguém havia visto o Antenor. Disseram que ele estava de papo na casa da zeladora, fui até lá com o coração na boca, entrei e gritei: Antenor, cadê a harpa?

Está aqui. Onde? Aqui, menina. Mas eu não via nada. Ninguém parecia se dar conta que havia chegado uma harpa! Já meio ressabiada, mas não querendo acreditar, cheguei mais perto do livro que ele estendia em minha direção. Quando olhei, estava cheio de notas musicais, e sobre a lombada de couro preto, em góticas letras douradas, li: Harpa Cristã. O hinário completo, com partituras. Uma beleza, por certo.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Quase novo

por Júnia Puglia

É quase uma grande novidade. Três anos depois de ter-me inaugurado como alguém com enorme parcela de controle sobre o próprio tempo, decisões, prioridades e preferências, fiz um rápido flashback na rotina de acordar, banho, café da manhã corrido, modelito escolhido e vestido, voar para o escritório, muitas horas de ralação ininterrupta, voltar pra casa exausta, cochilar na frente da televisão, dormir um sono fuleiro, acordar… Por poucos dias, para mal e para bem.

No caso, o mal é a consciência aguda do espaço que o trabalho ocupa na vida da gente e da energia que ele consome, bem como das míseras aparas que sobram para o espontâneo e o inesperado. Ah, e também do estrago que o dia inteiro à frente do computador faz nas costas, braços e dedos da pessoa. E o bem é revisitar o que se fez por muitos anos, já um tanto forasteira (só que não), reencontrar pessoas e passar por uma reciclagem que ajuda a desenferrujar habilidades já meio abaladas. Tudo no ritmo da internet, a grande e insaciável patroa.

Bem, acabou de novo, e a sensação de acordar de man
hã em câmera lenta e poder recuperar a frouxidão é que é quase nova de novo. É bom devolver o noticiário a um lugar de certa desimportância. O próximo passo talvez seja ir para São Paulo de carro, como quem não tem nada mais relevante pra fazer.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Caixa de surpresas


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Na área de embarque do aeroporto de Quito, entramos numa livraria e procuramos a estante de Rosa Montero, à época bem menos conhecida e traduzida no Brasil. Faz uns doze anos. Cada uma de nós três comprou um livro diferente, com o acordo de fazermos um rodízio deles. Não lembro qual era o meu. Sentamos à espera do nosso embarque, folheando os livros novos. O título do que a colega ao meu lado havia comprado me chamou a atenção e pedi para vê-lo. Era "A louca da casa", que começa com uma instigante e divertida reflexão sobre a memória, tanto a individual como a compartilhada entre pessoas, por exemplo, da mesma família. Fala da construção que cada um faz dos fatos e situações vividas, tornando-as únicas, e das enormes discrepâncias entre os registros que individualmente fazemos de um mesmo episódio. Não consegui largar o livro e nunca o devolvi à sua dona.

Dado que a memória não é absoluta, muito menos objetiva, sendo, portanto, inútil buscar nela a verdade dos fatos, fica fácil entender a diferença entre o que sempre lembraremos e o que nunca esqueceremos, nuances sujeitas, em larga medida, aos sentimentos que associamos ao que nos acontece. E lembranças não pedem licença.

Durante as férias na fazenda, que eu detestava mas nunca consegui driblar, a solidão era a minha melhor amiga. Se fosse no meio do ano, a colheita do milho verde me dava algumas alegrias, como o curau, um dos doces preferidos, e o dia de pamonha, que era um acontecimento. Sacos enormes de espigas eram colocados na varanda de trás da casa e um grupo de umas dez mulheres se organizava para a trabalheira. Descascar e limpar as espigas cuidadosamente, de maneira a preservar a palha o mais inteira possível, ralar o milho em grandes ralos feitos de folhas de latas de óleo de vinte litros furadas com pregos, costurar à máquina bolsas com as folhas de palha, que receberiam a massa de milho verde, amarrar as bolsas cheias com finas tiras da mesma palha, ferver panelões de água e neles cozinhar as pamonhas. E eu ali no meio, ralando milho verde horas a fio e aprendendo o mundo daquelas matutas no conversê que nunca parava e era pura diversão. Era muito transparente o ar nos dias de inverno na roça.

Assim, passou-me voando pela cabeça a cena do grupo ralando o milho verde, enquanto eu escrevia o primeiro parágrafo. Que emendei, por razões insondáveis, com o relato do escritor chileno Antonio Skármeta sobre sua paixão adolescente pela Dalva de Oliveira. Nossa grande estrela do rádio excursionava pelo Chile, e o rapaz de quinze anos foi assisti-la. Saiu em êxtase, teve febre, insônia, inapetência, até descobrir onde a sua deusa estaria e ir até lá, levando um ramalhete de rosas, que lhe custou a mesada inteira. Dalva se comoveu com aquela aparição e, não sendo nada boba, sacou a fornalha que o consumia. Deu-lhe um beijo e lhe escreveu na capa de um disco: "ao meu único amor chileno". Queria que você visse a expressão dele contando a história. Emende aí à vontade.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Os fundos


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna

Os milhares de motoristas e passageiros que percorrem a W3 norte o tempo todo não veem, não têm como ver. Precisei morar vinte anos na região pra perceber.

Tem a avenida, com blocos comerciais dos dois lados, em toda a sua extensão e, atrás destes, no rumo oeste, pequenos blocos com lojas no térreo e dois ou três andares de apartamentos. Mais atrás ainda, outra linha de lojas e apartamentos. Entre estes e os conjuntos de casas, uma calçada.

Como em tudo o que se construiu aqui em Brasília, especialmente no Plano Piloto, houve uma ideia, um conceito inicial para esse estranho lugar, onde tudo parece improvisado. Ignoro totalmente qual tenha sido a proposta, mas acho que ela ficou perdida pelos caminhos gerenciais burocráticos. Um sinal disto são os endereços ininteligíveis, até mesmo para esta cronista candanga veterana.

O que se encontra, ao explorar a área, é uma calçada que começa e acaba de repente, começa e acaba de novo, sem qualquer razão aparente. De um lado, os fundos dos apartamentos, meio brutos, mal acabados e cheios de grades ⎼ sob cuja marquise às vezes se abrigam alguns moradores de rua com suas sacolas e cobertores ⎼, pessoas passeando cachorros, carros abandonados, carros estropiados, carros estacionados sobre a calçada, pneus velhos, oficinas mecânicas informais em vagas de estacionamento, lojas transformadas em igrejas evangélicas, pequenos restaurantes que servem por quilo, academias de ginástica e artes marciais e toda uma variedade de pequenos negócios. A melhor parte: como a circulação de veículos na área é complicada e desorganizada, os carros em movimento são poucos e, portanto, não tem barulho de trânsito.

Do lado oposto, as quadras residenciais, com suas casas geminadas e alguns blocos de apartamentos bem mais arrumados, cheias de gramados, belas árvores e cercas vivas. Um verde exuberante e bem cuidado, que abriga passarinhos, calangos, gatos, insetos, borboletas e parquinhos infantis onde ainda não vi criança brincando. Entre os dois territórios quase inconciliáveis, a estreita calçada que aparece e desaparece. Pouca gente circula por ela.

Nas primeiras caminhadas, eu ia imaginando como seria se aquela passarela intermitente fosse transformada num bulevar para pedestres, bem pavimentado e ajustado a caminhantes de todas as idades e diversas condições físicas. Em linguagem moderna, que tivesse acessibilidade, iluminação e sinalização adequadas, talvez uns bancos de praça e alguns lugares de descanso e encontro. Imaginar não paga imposto, inclusive porque desconfio que este lugar deve ocupar a milésima posição na ordem de prioridades do governo local.

Além de mais bonito, atrairia o uso dos moradores, que, no entanto, parecem não estar nada interessados. Minha sensação é de que demos as costas para este lugar, porque fica nos fundos de uma área comercial nada elegante, algo que a vizinhança despreza e não quer nem ver.

Pensando melhor, podia ficar tudo como está, só que com uma calçada contínua e lisinha, onde ninguém estacionasse seus malditos carros, pra que a gente pudesse percorrer a pé, sem interrupções, esse furdunço urbano inesperado no coração do Plano Piloto, cidade bem arrumada, feita para pessoas sobre rodas. Plano é bom, mudar o plano pode ser melhor.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Meninas roubadas


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Daqui deste meu canto com vista para os ipês amarelos floridos do quintal do vizinho, é fácil pensar nelas e mergulhar na inquietação que vem junto. As meninas roubadas na essência daquilo que a vida requer para ser uma vida bem básica. De seres humanos com potencial pleno, como quase todas nascemos, foram transformadas em coisas, peças dos terríveis jogos que tantos homens jogam para perpetuar sua superioridade, exigência maldita imposta a tantas mulheres, que não conseguimos conter, que dirá reverter.

Quando nasci um anjo esbelto, /desses que tocam trombeta, anunciou: /vai carregar bandeira. /Cargo muito pesado pra mulher, /esta espécie ainda envergonhada, disse Adélia Prado no definitivo poema "Com licença poética”.

Meninas nigerianas, que cometeram dois equívocos essenciais: nascer mulher e ir à escola. Tragadas pelo jogo de vida e morte, ou morte em vida, ditado pelos senhores ensandecidos que o vêm herdando desde sempre, e sempre acrescentando novos ingredientes de horror, que parece jamais bastar.

Fácil pensar nelas e nas muitas outras usadas e abusadas nos conflitos e nas guerras, entre países ou facções criminosas, por guerreiros brutos e mal encarados ou por moços branquinhos limpinhos encarregados de protegê-las. As mulheres não fazem as guerras, mas as sofrem profundamente, mesmo sem dar um único passo neste sentido. As guerras dos homens sempre as alcançam.

Foram resgatadas do cativeiro extremista, as meninas nigerianas, depois de ver e sofrer o inominável. Das centenas que sobreviveram ao quinto ou sétimo inferno, mais de duzentas estão grávidas, como resultado da violência sexual a que foram submetidas, no seu papel obrigatório e inescapável de trastes disponíveis aos tais jogos. Voltam com filhos da tragédia no ventre ou nos braços, perdidas, esvaziadas de si mesmas. Fácil pensar nelas, mas, por mais que eu me esforce, não faço ideia de como se sentem.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Do baú


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna

Das pequenas surpresas que aprecio muito: acabo de ver um vídeo de um famoso grupo de samba cantando e tocando "Mercedes-Benz", clássico da contracultura (ironia à parte), que debocha dos valores e símbolos de riqueza e status, composto e gravado por Janis Joplin em 1970. Tão, mas tão definitivamente Janis, que não esperava ouvi-lo em outra voz, muito menos em ritmo de samba. É óbvio que se trata de uma brincadeira, mas muito competente e divertida. (Se tivesse sobrevivido a toda aquela loucura, e depois de ajudar a virar a cultura judaico-cristã ocidental de pernas pro ar, talvez Janis estivesse hoje "em casa, guardada por Deus, contando o vil metal". Nunca saberemos.)

Daí, sabe como é, a memória abre o baú e eu me lembro de, por volta dos doze anos, sentir a mesma surpresa com o inusitado ao ver Jair Rodrigues, no auge da fama e popularidade, cantando lindamente a valsa "Eu sonhei que tu estavas tão linda", ao vivo, num programa de televisão. Achei muito estranho, não sei se por vê-lo cantando uma canção derramada, ou por ele não estar se sacudindo todo no palco enquanto cantava. Talvez pelas duas coisas. Ficamos todos em casa muito impressionados com a beleza daquela interpretação, rendeu vários dias de comentários.

E um rápido presencial: em Nova York, durante uma conferência mundial, uma jovem militar brasileira, que integrava a comitiva de alguma autoridade, buscava alguém que a fotografasse no plenário da ONU, enquanto rolava um pronunciamento da delegação brasileira (faltava muito para a era selfie). Estava ansiosa por registrar o momento e estrear a câmera digital recém-comprada, uma grande novidade. De forma aleatória, aproximou-se de Nair Benedicto (vai no Google!) e perguntou se poderia lhe fazer o favor. Ato contínuo, passou a explicar como se operava a máquina, insistindo no detalhe do foco e da visualização na tela de dois centímetros, que substituía os visores mínimos das máquinas analógicas. Nair, muito compenetrada, ouviu as explicações e orientações e partiu para a tarefa, deixando sob nossos cuidados seu precioso e completíssimo equipamento e os quilos de filmes que havíamos comprado na véspera. Ficamos de longe saboreando a cena e anotando a dedicação da fotógrafa "ocasional". Aposto que a moça nunca se deu conta de quem estreou sua câmera.

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 Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Roupa nova


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna

Acontecia uma ou duas vezes por ano e era um assunto muito sério, restrito a formaturas, casamentos ou grandes eventos religiosos. Em qualquer caso, "roupas feitas" (aquelas compradas prontas nas lojas) ainda eram raras e caríssimas, muito além das nossas possibilidades. Tudo o que nos cobria era produzido pelas costureiras da vizinhança ou por nossas mães e avós, até mesmo pijamas, calcinhas e cuecas. Ninguém perguntava às crianças o que queriam ou gostariam de vestir. O que saísse das máquinas movidas a pedaladas era vestido, geralmente nos maiores, e depois repassado a irmãs e irmãos menores, primas, vizinhos e uma enorme cadeia de aproveitamento, pois tudo era usado até acabar.

Com os sapatos era a mesma coisa, com a diferença de que, não podendo ser feitos em casa, eram recebidos e repassados entre a mesma cadeia ou, com muito menor frequência, comprados. Os novos eram reservados para as principais ocasiões e calçados com reverência. Pequenos acidentes resultavam de caminhar com os olhos fixos neles. Os da formatura da quarta série, de verniz em duas cores, branco e cinza, ocupam um lugar de destaque na memória afetiva.

Num certo verão, nossa tia nos levou, minha irmã e eu, a uma loja que acabara de receber uma grande novidade: sandálias de dedo feitas de borracha colorida azul, amarela ou verde, com solado branco na face em contato com os pés. Cada uma de nós ganhou um par, e até pudemos escolher a cor. Recebemos nossas primeiras havaianas dentro de sacos plásticos amarrados com barbante colorido, fascinadas, de longe o acontecimento mais importante daquelas férias.

Também ficou gravado na minha biografia o episódio do vestido pesado, de veludo vermelho, herdado de uma prima, que maravilhou mãe e tias, mas que eu detestei completamente. Além de a textura do veludo me ser insuportável, dentro dele eu ficava parecendo a gata borralheira numa roupa das meio-irmãs ricas. Recusei-me terminantemente a usá-lo, para enorme decepção das adultas.

Elas ainda nem desconfiavam, mas eu começava a odiar as roupas que me eram destinadas. Queria poder escolher e, entre as minhas preferências, não havia lugar para os invariáveis modelos desmilinguidos, lambidos, cheios de flores, rendas, fitas e laçarotes. Eu olhava comprido para algumas roupas nas vitrines das lojas, nas telenovelas e nas revistas, pois me pareciam cheias de personalidade e capazes de refletir algo ainda indefinível, que se tornaria para mim uma obsessão: liberdade, ou aquilo que para mim mais se parecesse com ela. Era eu começando a pensar em agir como eu mesma. Terremotos se seguiram.

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sexta-feira, 10 de abril de 2015

Caras


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna

 Quem nunca folheou uma Caras atire a primeira pedra! Revista feita de fotos e comentários ligeiros, mostra celebridades – em toda a amplitude da palavra – lindas, sorridentes, ryyykhas e felizes. A bíblia das salas de espera e dos salões de beleza, onipresente, oferecendo distração para os olhos naqueles momentos em que conteúdo é o que menos importa. É só abrir e se atualizar sobre festas, casamentos, descasamentos, passeios de iate, estações de esqui, casas de praia, bebês, roupas, modelos, decoração, almoços e jantares frequentados por pessoas portadoras de cabelos lisos e louros, olhos azuis e muita maquiagem.

À parte a nossa curiosidade intrínseca sobre a vida alheia, sabemos que os felizardos retratados estão dando tudo de si para nos confirmar, naquelas expressões e frases soltas, como são satisfeitos e perfeitos. Sim, porque ninguém fala ali do quanto deseja mandar pras cucuias o marido que sai tão bem na foto, e se jogar de vez nos braços do bombeiro do condomínio. Ou do medo de ficar pobre ou cair da fama, que impede o galã de novelas de dormir e até mesmo de usufruir da sua tão prezada virilidade. Mas para nós, espectadores/leitores mortais, o que importa é a foto, sempre produzida com muita luz, cor e sorrisos, de modo a sequer sugerir interpretações.

Talvez o que realmente nos atraia nessas fotos é a sensação de que aquelas pessoas estão mesmo felizes e realizadas, por muito que saibamos o quanto tudo aquilo é falso e fabricado. Você me pergunta o que é ser feliz? Desconfio que seja, em escassas palavras, viver um grande amor e realizar com ele o seu projeto de vida, mesmo que seja um projetinho de dois meses, ou mesmo de um fim de semana. E, principalmente, nunca, jamais envelhecer. Tem Caras nova nas bancas.

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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Foco


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

 A quantidade de informação produzida durante a última campanha eleitoral deu para deixar qualquer um desorientado. Não vou sequer tentar alinhavar tudo o foi dito, publicado, impresso, compartilhado, gravado, bisbilhotado, investigado, inventado, camuflado, enfeitado, exagerado, revelado e ocultado. Ao mesmo tempo em que muita gente se pergunta qual o sentido de tudo isto e se era realmente necessário, temos que lidar com o depois, a ressaca, os ressentimentos e desavenças, as mentiras, as cobranças, o alívio de uns e a frustração de outros.

Acontece que lá, bem no centro do redemoinho, permanecem os temas que exigem ser vistos, abordados e resolvidos. São muitos, mas nem sobre eles vou me deter. Qualquer pessoa que não tenha acabado de desembarcar de Marte os conhece, lá à sua maneira, e, de resto, já tem gente demais alugando nossos ouvidos e miolos com o rescaldo da campanha e do resultado das eleições. Para mal ou para bem, não sou dada a argumentos altruístas e mensagens edificantes. Apenas penso aqui com os meus botões algumas coisas que às vezes tenho vontade de compartilhar.

Tempos atrás, fui a uma festa de casamento nos arredores de Bruxelas. A animação ia já avançando pela fria madrugada. Como criatura diurna que sou, saí em busca de um transporte que me devolvesse ao quarto quente do hotel com sua boa cama, e consegui uma carona com o casal de fotógrafos, já dispensado da tarefa. Ele vietnamita, ela belga. No trajeto de quase uma hora, conversávamos sobre a Bélgica e a secular disputa entre flamengos e valões, que estava novamente em temperatura acima do recomendável. A questão, com viés separatista, envolve poder político e econômico, um lado reclamando que o outro tem privilégios, recebe mais atenção e investimentos e tem maior presença nos mecanismos de poder. Comentávamos, ele e eu, como nos soava absurdo, quase ridículo, que ali houvesse gente brigando por eventuais desequilíbrios na divisão do muito que há para ser desfrutado na Europa central, em termos de dinheiro, oportunidades, conforto e bem estar. Ele, então, disse: a única explicação que encontro para isto é que, quando não há grandes problemas a resolver ou enormes dificuldades a superar, as pessoas as inventam.

Nós aqui não precisamos procurar, nem inventar – como esse papo de país dividido, valhamedeus! E se de enfrentar problemas como motivação para a vida se trata, o nosso cardápio é extenso, e de tédio não morreremos. Expressar a nossa indignação e colocar energia para atacar ou defender candidatos na disputa democrática é apenas o começo. Seria um enorme adianto se, contentes ou contrariados com o quadro político, colocássemos toda essa vibração na busca e na cobrança das soluções de que tanto precisamos. Vambora ajustar o foco?

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

No DNA

por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna*

Eram pelo menos quinze horas de estrada. Na rodoviária do Plano Piloto, eu embarcava no ônibus que me deixaria em Ribeirão Preto, Campinas ou São Paulo, às vezes Rio ou mesmo Porto Alegre, do outro lado do mundo. Neste último caso, como não havia uma linha direta regular, o jeito era ir até a capital paulista, descer no Glicério e tomar outro ônibus, para mais umas vinte horas de chão até o destino final. Assim cheguei a Buenos Aires e Assunção. Mas eu não reclamava de nada, qual o quê? Aos vinte anos, a energia é infinita. Ah, e nessa época, para mim o Brasil rumo norte ainda era uma total abstração.

Mal o ônibus arrancava, eu me enfiava na cabine do motorista, sempre que nela houvesse uma poltrona adicional, privativa de funcionários da empresa, e perguntava: posso viajar aqui? Foram muitas noites comendo asfalto naquela vitrine invertida, de olho na estrada, ouvindo as modas de viola que faziam companhia ao motorista solitário, em sua dura tarefa de não dormir e nos entregar inteiros muitos quilômetros à frente. Viajar sozinha jamais me incomodou, bem ao contrário. E, talvez pelo espanto que causava meu atrevimento de me aboletar por minha conta na poltrona da cabine, nunca nenhum motorista, aliás, ninguém, me disse qualquer inconveniência, ou tentou uma aproximação abusiva.

Numa dessas, saí de Araraquara rumo a Ribeirão Preto, para de lá embarcar até Brasília, às dez da noite. Não existia essa história de reservar passagem, nem compra antecipada. Quando cheguei ao guichê da companhia, em Ribeirão, fui informada de que o ônibus que eu pretendia tomar estava lotado. Bateu o desespero. Engoli o pânico e perguntei qual seria a opção, pois passar a noite sozinha, naquela rodoviária (mais de trinta anos atrás, nem te conto como era), me parecia aventura demais, veja só. Você pode ir para o trevo da Anhanguera, de táxi, fazer parar e tentar embarcar no ônibus que vem de Campinas, sugeriu o funcionário. Topei na hora, e consegui, totalmente alheia aos riscos, e talvez por isso protegida deles. Mais uma cabine para a minha coleção.

As luzes de Catalão e Araguari nas madrugadas me sugeriam a enormidade do mundo à minha espera. E eu o ia perseguindo, nas paradas tristes e sujas dos cafundós de Minas e Goiás, cruzando o cerrado de árvores encarquilhadas, que o pasto e a soja já engoliram faz tempo. Quando não conseguia viajar na cabine, eu ia junto com os outros passageiros, e rapidinho rolava um papo. Assim percebi que muita gente adora ouvir a narrativa da própria vida, especialmente quando contada à “vítima” da poltrona ao lado, uma total desconhecida. Sempre com ênfase nas dores e injustiças, mas também nos causos engraçados. Para quem estamos vendo aquela única vez, a nossa versão sempre será a única, verdadeira e definitiva. O curioso é eu mesma nunca ter embarcado nessa viagem, ficava só ouvindo.

Quilômetro vai, quilômetro vem, a vizinha, que devia ter uns vinte e cinco anos, me contou que se casaria no fim de semana, com o amor da sua vida, que ele havia terminado o noivado com uma amiga dela poucas semanas antes, a tempo de se livrar do compromisso herdado numa pequena comunidade rural e ir ao encontro da paixão, que ferveu quando olhares se encontraram numa festa religiosa. Uma grande história, e eu nem respirava, com medo de perder algum detalhe. Ficamos amigas de infância, naquelas poucas horas de noite fechada sobre rodas, nos despedimos como velhas conhecidas, ela me convidando para a festança, e pronto acabou.

As viagens de ônibus ficaram para trás. Os aviões e, de vez em quando, os deslizantes trens do tal de primeiro mundo, são totalmente outra coisa. E eu também, mas com o DNA da BR infiltrado.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Essa doida


texto e imagem Júnia Puglia

De passagem pelo Rio, o apartamento que nos acolhe fica na Domingos Ferreira, linda e curta rua paralela à orla em Copacabana, cheia de árvores, restaurantes, bares e do inconfundível ar ultracarioca impregnado em cada partícula do mitológico bairro. Caminhando lado a lado, meu filho e eu somos surpreendidos por uma moça que, vindo em sentido contrário, o chama pelo nome, ao passar por nós. Ela se explica. É aquela menininha de grandes olhos escuros e pestanudos, do apartamento vizinho, quando meu filho e ela tinham uns três anos, frequentavam a mesma escola maternal e aprendiam juntos a nadar na piscina do parquinho, em Brasília. Fazia muito que não a víamos, mas ela nos reconheceu e nos presenteou com um encontro inesperado e delicioso, os três em pé na calçada repassando afetos e memórias.

A saia que comprei há pouco, e deixei para ser encurtada às pressas, está à minha espera no ateliê da Odinéa, conforme instruções da vendedora da loja. Na enorme galeria comercial, misturam-se cubículos de treino de muay thai com lojas de moda cigana, de roupas esportivas e de praia, óticas, joalherias, sex shops, costureiras, agências de viagens e o que mais se puder pensar. Seis mulheres se espremem numa sala sem janelas, uma delas com sotaque hispânico, cada qual com sua máquina de costura. Conversam animadas, tagarelas como suas máquinas, chupando balas, contando casos e rindo muito, enquanto eu provo a saia e me marcam o novo comprimento. À falta de troco, o senhor velhinho que espera à porta se oferece para resolver o problema. Entrego-lhe o dinheiro e ele desaparece no corredor. Em menos de dois minutos, volta, todo feliz, com o dinheiro trocado.

Esse furdunço que é Copacabana nem sempre me atraiu. Talvez por ser barulhenta demais, bagunçada demais, com gente demais, gringos demais, apartamentos demais, cachorros demais, carros demais, tudo demais. Porém, quanto mais o tempo passa, mais essa confusão urbana me fascina. O mar e o calçadão ondulado sugerindo férias permanentes e, logo ali ao lado, a favela e o asfalto juntos, como irmãos siameses que jamais se verão frente a frente. E em cada centímetro quadrado desse mosaico alucinado, o DNA do que somos como gente e como país. Não há o que não caiba aqui dentro. É o que sinto.

Copacabana, sua doida, você nem me nota. Eu venho pouco aqui e fico na minha, andando nas ruas e te aprendendo como posso. Amanhã vou devolver para a aridez do cerrado os pulmões encharcados da umidade atlântica que você tão generosa e democraticamente distribui. Lá, além da estiagem sazonal, temperatura ascendente, em ano de eleição presidencial com uma campanha política pela qual ninguém dava muita coisa. Vamos que vamos. Obrigada e até qualquer hora.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Lettera 22


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna*

Aquela pequena maravilha pertencia ao mundo dos adultos. Seu ruído me chamava. Era um tlec tlec tlec blim tlec tlec tlec tlec tlec blim que me fazia imaginar como eu seria poderosa quando pudesse usá-la. Eu sabia que era uma máquina de escrever, que cada tlec tlec correspondia a uma tecla de letra e o plim era quando chegava na margem direita do papel e a gente tinha que empurrar a alavanca à esquerda, que fazia o papel subir um pouco e abria espaço para uma nova linha. Nenhum brinquedo jamais me provocou tanto fascínio, o que eventualmente me levou a aproveitar os momentos em que ela estava ao alcance das minhas mãos e sem ninguém mais por perto.

Era com enorme prazer clandestino que eu pegava uma folha de papel, introduzia-a no cilindro com uma das mãos, enquanto o girava com a outra. O papel entrava, às vezes meio de lado, ou com a ponta dobrada; fui aprendendo a ajeitá-lo e a dominar os truques daquele aparelho genial, onde eu podia brincar com as letras e palavras como num quebra-cabeça só meu, sem princípio nem fim. Quando se deram conta, eu já podia bater à máquina com razoável agilidade e precisão, usando os dedos “errados”, pois datilografar era uma arte cheia de métodos e regras. Eu bem que tentei, mas jamais consegui fazer como ensinavam nos cursos.

Depois vieram as máquinas elétricas e, mais recentemente, os computadores. Tudo é possível com a tecnologia digital aplicada a esses teclados modernos. O que vai para as folhas de papel impressas nessas traquitanas são produtos limpos e acabados, pois qualquer ajuste é feito na tela, jamais no papel.

Ontem fui procurar na internet uns documentos oficiais do final da década de setenta. Encontrei folhas de papel digitalizadas, com a aparência e a estética originais. Amoleci por dentro e entrei no clima. Resolvi aplicar uma aparência de máquina de escrever ao relato que eu havia começado a escrever, mas, por incrível que pareça, não consegui reproduzir ao computador as imperfeições sujinhas da minha amada Olivetti Lettera 22 portátil. Um conflito de gerações, provavelmente devido às minhas limitadas habilidades no mundo digital. Vou de itálico.

Morei no Rio por um breve período, entre 1978 e 1980. Vinha de Brasília, que era então um lugar muito tranquilo e silencioso. Uma das minhas primeiras saídas foi para ir ao banco. Instalada em Botafogo, e seguindo instruções precisas, peguei um ônibus para Copacabana, via Túnel Velho. Ao sair do túnel, dei com um barulho intenso e contínuo, um ronco alto, como num galpão industrial. Quando saltei do ônibus (em carioquês), que deve ter sido nas imediações da praça Cardeal Arcoverde, então isolada por tapumes e completamente destroçada pelas obras do metrô, o barulho continuava, como se estivesse me seguindo. E estava. Logo percebi que aquele era o ruído do bairro, uma mistura de tráfego pesado com um mundo de gente fervendo nas ruas de altíssima densidade humana.

Entrei na agência bancária e fui para a fila do caixa. Pouco depois, entrou um sujeito, segurando papéis e dinheiro na ponta dos dedos, vestindo apenas uma sunga e calçando chinelos de dedo. Vinha da praia, obviamente, e me deixou tão atônita que eu duvidei dos meus olhos. Fiquei esperando que o segurança o pusesse porta a fora, mas ele se encaminhou para a fila e esperou tranquilamente a sua vez. Mais chocante ainda. Nunca na vida eu havia pensado que alguém poderia ir ao banco pelado. Era o primeiro dos muitos espantos que o Rio causaria na minha provinciana pessoa.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Não me nego e faço gosto

por Júnia Puglia*

Quando a palavra radialista ainda nem existia, meu pai manteve um programa de rádio evangélico diário por mais de dez anos, na emissora líder da cidade, que, dizia-se, tinha um enorme alcance em ondas curtas. Acho que era mais que um ufanismo interiorano, porque ele recebia cartas, muitas cartas, dos lugares mais remotos do Brasil.

Algumas vezes, ele nos levava ao estúdio. Como o programa entrava no ar, ao vivo, às sete e meia da manhã, era preciso se levantar cedo para acompanhá-lo. O estúdio comunicava-se com um pequeno auditório, onde às vezes acontecia o programa, quando havia números especiais de música ao vivo ou alguma celebração aberta para o público. Numa placa de bronze ostentada à entrada, lia-se: “aqui se apresentou, na data tal, o tenor italiano Tito Schipa, glória da cena lírica mundial”. Eu achava lindo e muito chique.

Em todo o interior paulista, o horário das cinco às sete da manhã era ocupado por programas de música caipira. Era a hora de os trabalhadores da roça pegarem no batente. A praça próxima à minha casa ficava cheia de bóias-frias, homens e mulheres, que eram recolhidos por caminhões e levados, em pé nas carrocerias abertas, para os canaviais e laranjais. Os da cana iam vestidos dos pés à cabeça, com panos amarrados por todo lado, como proteção contra as longas folhas em formato de facas, que lhes rasgavam as carnes. Tudo muito natural e pré-determinado desde o início dos tempos.

Cada um levava consigo seu energético, o radinho de pilha, que ajudava a empurrar o facão em jornadas intermináveis medidas pela produção. Enquanto esperavam o transporte, os rádios formavam uma cacofonia de duplas caipiras tocando suas modas na longa sequência matinal do programa do Nhô Zélio. Tonico e Tinoco eram os maiorais, mas havia também Tião Carreiro e Pardinho, Alvarenga e Ranchinho, Jararaca e Ratinho e muitos outros. Eu ficava sentada no estúdio, ou quase sempre na cozinha de casa, esperando meu pai entrar no ar, ouvindo aquela música que estava impregnada nos nossos genes, apesar dos narizes torcidos do pessoal que se considerava “da cidade” e lutava vigorosamente para esquecer sua origem rural. Chique mesmo era ser urbano.

Quem chegou agora e adora um sertanejo universitário não tem ideia do que estou falando. Depois de alguns anos de um esquecimento que era visto como um alívio, a música caipira ressuscitou na voz de novas duplas. Já não falava da miséria, do trabalho no campo, da Rosinha, da filharada, choupana, vaquinhas, passarinhos e cavalos xucros. Começou a era do caipira urbano, da música de bordel de beira de estrada, levada na boleia dos caminhões que fizeram o “Brasil grande” nos anos setenta e oitenta, até se fixar definitivamente nas cidades e chegar às metrópoles e ao mundo, aos shows gigantescos e aos negócios bilionários. Atravessou um longo período de romantismo tipo tritura coração e agora está na fase da animação da balada, onde a letra é o que menos importa. Eu mesma já identifiquei algumas das canções atuais tocando em lojas e trens de metrô em lugares insólitos pelas Europas. E tive uma sensação estranhíssima, de total desencontro entre a música e o lugar.

O sertanejo de antes, que evidentemente não morreu, é a música de raiz que mais fundo me bate. Como diz a Inezita Barroso, “sou sertaneja, não me nego e faço gosto, tá escrito no meu rosto, só não enxerga quem não quer”. Mentira. Também sou urbana, mas adoro as modas de viola e a poesia sertaneja feita de terra e cheiro de mato.

Esta avalanche de hoje, conheço muito pouco, porque não me diz nada, mas tem o mérito inegável de ter capturado o grande mercado musical para o produto nacional, espantando o pop estrangeiro de péssima qualidade. Não é pouca coisa, e tem o meu respeito.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Porque sim!

por Júnia Puglia*

Essa minha impaciência, às vezes nem eu mesma a suporto, mas que remédio, né? De tanto ouvir e responder a certas perguntas, tenho vontade de dar respostas diretas e malcriadas, mas, bem, já sou grandinha e preciso ser mais tolerante com as pessoas, dizem as regras de convivência. Sempre, interminavelmente. Afinal, o mundo é assim, bla bla blááá.

Por que precisamos de mais mulheres na política e nos espaços de poder? Porque sim! Por que devemos promover oportunidades iguais para todos os grupos populacionais como política de Estado? Porque sim! Porque não há nenhuma razão para não ser assim. Basta de explicar, argumentar, comprovar e tentar convencer as pessoas sobre o óbvio. A atividade política precisa de todas e todos que se sintam encorajados a meter a mão na massa pantanosa dos mecanismos de participação, arrombar os baús dos partidos, estar nas mesas de negociação, assim mesmo como elas são hoje, mover as engrenagens das decisões que afetam a vida de todo mundo, desde as câmaras municipais até os níveis mais elevados. A participação plena de todas as pessoas é uma das bases da democracia. E, por mais imperfeita e incompleta que seja, ainda não inventaram nada melhor que ela, clichê dos clichês.

A política é um lodaçal? Estamos fartos do conversê de candidatos e campanhas? Da guerra de informação, que nos impede de saber qual a versão mais confiável? Lamento informar que vai continuar sendo assim. Que só vai mudar quando formos capazes de entender o verdadeiro sentido da política, o que só será possível alcançar fazendo política. Não há outro caminho, e não há milagre.

Por que mulheres? Porque sim. Por que negras, índios, pessoas com deficiência, gays, lésbicas e todas as letrinhas? Porque sim. Cada um com suas propostas, suas reivindicações, levando para a arena política toda essa enorme diversidade que nos compõe. É justo, não? Como azeitar as engrenagens da vida em sociedade senão conhecendo-as, destrinchando-as, revirando-as de dentro pra fora e de fora pra dentro?

Por que homens? Jovens, velhas, conservadores, avançadas, caretas, moderninhos, nerds, com quem concordamos, de quem discordamos, bonitos, feias, inteligentes, cultas, rudes? Porque sim. Porque sim.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Areia e vento


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna*

Voltando da escola a pé, eu observava alguns itens específicos. Onde havia frutas maduras que pudessem ser apanhadas sem problemas, goiabas, mangas, mixiricas, e se havia algum monte de areia novo, disponível para ser atacado nas minguadas horas de folga entre aulas e deveres de casa. Eles surgiam e desapareciam ao ritmo das construções e reformas das casas do bairro. Muitas obras eram largadas pelo meio e a areia ficava ali, na calçada, ao deus-dará. Mesmo assim, acontecia de o pessoal da casa ficar de olho para que ninguém tocasse nela, muito menos crianças em busca de diversão, sempre vistas com má vontade.

Às vezes dava certo. Era com enorme prazer que eu subia na areia e começava a cavoucá-la com as mãos. Pegar um bom tanto e soltá-lo entre os dedos era uma prévia indispensável para as tentativas de construir toscos cones com uns buracos como portas e janelas, os meus castelos. Depois de pronto o cone, respingar água por cima, para não despencar tudo em seguida, o que sempre acontecia. Refazer também era parte do jogo. E se repetia a mágica da areia que podia virar qualquer coisa e depois se desfazia, e eu refazia.

São muitos e surrados os simbolismos associados à areia, velhíssima cúmplice na representação do tempo e da vida. Nos últimos dias, estou tentando acomodar aqui dentro a morte de uma pessoa querida, que vivia bem longe daqui. Era dessas com brilho nos olhos, que traziam luz, alegria e um bom solavanco de generosidade e sabedoria a quem tivesse a sorte de conhecê-la e pudesse deixar a indiferença de lado. Uma doença terrível plantou nela a semente mortífera, que, apesar das muitas tentativas de eliminação, decidiu resistir e ganhou o jogo. Seu corpo, embalagem já obsoleta, foi, a seu pedido, doado a uma universidade para servir como instrumento de pesquisa na busca por mais vida para outros humanos. Na forma mais direta e simples, bem como ela viveu e agiu.

Vejo-a tentando conter o punhado de areia com as mãos bem fechadas, sabendo que ela vai acabar escapando e se espalhando por todo lado. Não um saibro grosso de construção, mas aquela fina areia colorida de beira de rio, com que se montam paisagens em garrafas e quadros vendidos nos mercados populares. Vital e cheia de energia. O vento fará o seu trabalho.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Roda mundo roda moinho


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna*

E ele fez setenta anos na semana passada, celebrado e paparicado. Na minha opinião, sempre menos do que merece, pela vertiginosa quantidade de maravilhas que já produziu, em palavras e notas, desde a mais delicada filigrana até os gritos de dor e impotência diante das inesgotáveis complicações da vida.

Deparei-me com uma daquelas comemorações contábeis, em que alguém fez uma lista das dez canções de Chico Buarque que considera mais bonitas. Já não gostei da proposta, pois eu aqui posso citar umas quarenta e cinco, de carreirinha, sem piscar. Mas fui ver a tal lista, para constatar que seu autor e eu nada temos em comum, exceto a tietagem do Chico. Espremeu tanto para tirar dez, deixando de fora “Beatriz”, “Todo o sentimento” e “Roda viva”, por exemplo. Deve ter sido escolha de computador. Mas é que são tantas, tantas, que posso entender a enorme dificuldade da tarefa.

Comecei a me interessar pela MPB lá pelos quinze anos. Antes disso, só curtia Jovem Guarda. Um belo dia, sem aviso prévio, aquelas canções ingênuas ou açucaradas sobre carros, namoradinhas e beijos no cinema perderam o sentido. Foi como amanhecer um dia com febre, uma enorme vontade de mergulhar na música que eu entreouvia aqui e ali, que era de outro jeito, falava de outras coisas. “Roda viva” já era um grande sucesso, fui ler a letra, aprender a cantar junto. Senti-me muito mais inteligente e adulta do que na véspera.

Tantas coisas cabem numa canção, bendito clichê, ainda mais quando saída de neurônios e sentimentos capazes de ler e traduzir a experiência humana. O tempo rodando as voltas do coração naqueles dias em que a gente se sente como quem partiu ou morreu. O mundo cresceu ou foi a gente que estancou? Remamos contra a corrente até não poder resistir, e quando o barco faz a volta sentimos o quanto faltou cumprir. A gente toma a iniciativa, sai cantando pela rua de viola em punho, mas é tudo ilusão passageira, levada pela primeira brisa. O concreto mesmo é a roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda pião. Parece que estamos sempre atrasados? É ilusão.

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 Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Pra boi dormir ou dá muita preguiça 2


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna*

O pessoal que xingou a Presidente na abertura da Copa. Foi imperdoável etcétera, mas já deu, né? Esse vício maldito de falar mal do Brasil o tempo todo e esperar sempre o pior. Achar e dizer que "lá fora" tudo dá certo, funciona, é bem gerido, bem resolvido e entregue no prazo. Culpar a "corja do PT" e "a Dilma" por tudo de ruim que aconteceu por aqui nos últimos quinhentos e catorze anos. Atribuir ao PT e à Dilma tudo de bom que aconteceu por aqui nos últimos quinhentos e catorze anos. Achar que precisamos fabricar novos pobres pra suprir a escassez de gente subserviente e mão de obra quase grátis – é o ó.

FIFA. "Imagina na Copa", vuvuzela, Fuleco e Cristiano Ronaldo. Cláudia Leite, fantasiada de Galinha Pintadinha ou de si mesma. A rivalidade com os argentinos, que só vale pra gente rir. Ver jogo na Globo. Bom Dia Brasil do Neymar, Jornal Hoje do Neymar, Globo Esporte do Neymar e Jornal Nacional do Neymar. Declarações de Ronaldo, o fenômeno. A novela "Em família". Gringo que vem aqui só pra pegar mulher. Cerveja sem álcool. Jogo de Copa que termina zero a zero.

As maravilhas de pessoas que frequentam as redes sociais, todas inteligentes, éticas, interessadas no bem comum, educadas e ágeis em postar lindos exemplos de superação, respeito ao próximo e aos animais e práticas altruístas. E dispostas a opinar sobre como resolver o problema alheio, que é mesmo muito fácil. Prontas pra reclamar dos "outros", do governo, do país, da conspiração cósmica, da ONU, da política externa, da falta de incentivo ao que quer que seja, do consumismo, do capitalismo, do comunismo e o que mais aparecer pela frente.

Musiquinha, comidinha, amorzinho, benzinho e coitadinho, saidinha, cineminha, queridinha, barzinho e cervejinha, roupinha e sapatinho, comprinhas e empadinhas, caipirinha, filhinhos, criancinhas, mãezinhas e paizinhos, batatinhas, feijãozinho, bifinho, churrasquinho e essa nossa mania de falar em diminutivês.

O cenário eleitoral: é preciso estômago pra chegar até a eleição e votar. O governador de São Paulo afirmando que não há racionamento de água. Essas inaugurações de obras inacabadas, malfeitas e micadas; já era tempo de superarmos isto. Pedir a volta da ditadura.

Show de fim de ano do Roberto Carlos. Concurso de miss. Big Brother Brasil. Zzzzzzzzzzzzzzzzz.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
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