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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sábado, 25 de outubro de 2014

Dilemas do transe eleitoral

por Daniel Guimarães*

Não sei vocês, mas estou contando as horas pra domingo chegar e acabar logo essa eleição. Não porque conversar sobre política seja ruim, acho o contrário, gostaria é de poder falar de política sempre, mas com menos contaminação da agenda de marketing eleitoral, com mais liberdade e tempo para debater as questões estruturais e conjunturais. Com mais paciência para trocar uma ideia, desde os fantasmas conservadores até a camarada mais radical à esquerda. Mas já que o Thiago foi irresponsável/generoso o suficiente para me convidar a escrever aqui neste espaço, acho que o mais honesto é manter a irresponsabilidade e expor, pelo menos na reta final, a formação do meu pensamento sobre o que a eleição representa. Dilemas sobre formas de atuação política, coletiva ou individualmente, sobre o tipo de sociedade desejável e possível, por exemplo. Aviso desde já que um dos meus objetivos nessas eleições é não perder nenhum amigo ou amiga, nenhum camarada e nenhuma camarada. Independente do que venha a acontecer, será necessário um grande esforço de unidade entre a esquerda para lidar com um Congresso mais conservador e com este verdadeiro transe da direita que parece ter saído das caixas de comentários dos portais, dos murais do Facebook e que chegou às ruas.

Aviso também que esse texto não foi feito pensando nas questões que os conservadores estão atravessando, nem para pensar sobre como a direita se relaciona com as instituições. Estas instituições foram desenhadas à imagem e semelhança dos vencedores desta etapa histórica mala que é o capitalismo. Neste pequeno texto penso a partir do lado esquerdo, em especial o lado esquerdo não institucional. No limite é um texto sobre como eu lido com este dilema, ok. Não irei dissecar a experiência petista no governo federal, nem defender uma proposta que se pretenda hegemônica para lidar com a questão. Estou dando um passo atrás e pensando na posição subjetiva diante do dilema, não em como resolvê-lo.

Acho prudente desde já deixar claro que minha perspectiva utópica de sociedade é uma sociedade sem classes, na qual os trabalhadores e as trabalhadoras tenham a posse dos meios de produção; em que as pessoas possam manifestar seus desejos, que as relações entre diferentes gerações não precisem reproduzir o modelo familiar nuclear ainda hegemônico, que haja equilíbrio nas relações entre gêneros, raças; e que a organização social e política produza formas substitutivas para o Estado, dando conta das tarefas de infraestrutura, segurança, justiça, distribuição da produção, mas sem a centralização e o autoritarismo deste, que acentuam a alienação política dos sujeitos. Com sorte isso nos conduziria a um tipo de cidade, de espaço, de subjetividade menos enclausurada. Talvez nos leve a uma circunstância em que a responsabilidade e a liberdade de decidir quais inibições são importantes para nossa vida em sociedade façam sentido a todos e todas.

O problema é que esta minha utopia talvez nunca venha a existir. Meus pensamentos não são tão poderosos a ponto de transformar e moldar a realidade e realizar a mágica de deslocar as relações estruturais da minha própria psique para o mundo exterior (Freud). Como parêntese, recomendo a leitura do terceiro capítulo de Totem e Tabu (Animismo, magia e onipotência do pensamento), o mito fundador freudiano da civilização – ponto de apoio para o cara pensar uma origem da nossa organização social, comparando-a a “estrutura” neurótica. Cito um trecho como aperitivo:

“A possibilidade de uma magia contagiosa baseada na associação por contiguidade nos mostra, então, que o valor psíquico atribuído ao desejo e à vontade estendeu-se a todos os atos psíquicos que se acham à disposição da vontade. Há uma superestimação geral dos processos anímicos, ou seja, uma atitude para com o mundo que, em vista do que sabemos sobre a relação entre realidade e pensamento, só pode nos parecer uma superestimação deste último. As coisas recuam para segundo plano ante as ideias das coisas; o que se faz a essas tem de suceder àquelas. As relações existentes entre as ideias são pressupostas igualmente entre as coisas. (...) Na época animista, a imagem reflexa do mundo interior torna invisível aquela outra imagem do mundo que acreditamos perceber. (...) O princípio diretor da magia, a técnica do modo de pensar animista, é o da ‘onipotência dos pensamentos’”.

Não bastasse o limite da minha própria capacidade de transformar utopia em realidade, ainda existem muitas outras utopias para ela se relacionar. Ainda bem, diga-se, porque nesta relação as minhas tiranias inconscientes teriam maior chance de serem inibidas. À minha utopia se somam/divergem as utopias dos meus camaradas mais próximos, da organização que pertenço, que por sua vez não é única organização no mundo. Ela também se relaciona com projetos de outros atores, aliados ou inimigos.

Por fim, todas essas utopias passarão necessariamente por um teste de realidade, terão de lidar com as forças que disputam o espaço, os recursos, as demandas objetivas e subjetivas. Nunca teremos certeza sobre o que serão os resultados das nossas ações, portanto desconfio sempre de quem apresenta planos que preveem o que será da sociedade se tomarmos certo tipo de decisão, se nos mantivermos fieis a determinada cartilha; desconfio dos projetos que não incluam no cálculo político as tramas da vida cotidiana – coisas que parecem insuficientes diante do projeto utópico de sociedade, mas que dão cor e sentido a este curto período da vida de uma pessoa: ter mais ou menos conforto, morar em condições melhores ou piores (ou pior, ter ou não um lugar para morar), ter ou não um pedaço de chão para plantar, poder se deslocar no espaço ou ficar restrito ao que a especulação imobiliária determina, poder ou não ter satisfações sexuais próximas dos seus desejos mais profundos, poder ou não fantasiar uma ocupação profissional interessante, poder ou não criar filhos e filhas em condições saudáveis e criativas; ter ou não ter acesso a cuidados de saúde física e psíquica, se alimentar bem ou mal (ou pior, ter ou não ter como se alimentar), ter ou não proteção diante de ataques ou estruturas machistas, ter ou não proteção diante de ataques ou estruturas racistas. A lista é extensa e considero pilar da esquerda esta solidariedade essencial à classe trabalhadora, aos dominados, excluídos. Fazer um exercício de não enxergar o povo como um objeto de experiências políticas, mas um objeto investido do nosso amor e, no limite, sujeito de sua própria existência, a quem não se deve negar o direito de fazer uso das conquistas que a beneficiem, mesmo que não sejam equivalentes ao “fim da história” revolucionário.

Ao mesmo tempo, desconfio de propostas de transformação que não passem pela organização política coletiva, que também vejam o povo como objeto de benefícios pelos quais deveriam ser gratos e transferir seu protagonismo para a vanguarda, para a liderança, para o partido, para um outro que saberá melhor como conduzir as coisas que dizem respeito a todas e todos. Discordo tanto por questões políticas como duvido de sua eficiência. A consistência das conquistas e das transformações passa pela consciência, mais do que pela aceitação. Diante de um ataque conservador contra estas mesmas conquistas, que resposta seria mais forte: a de quem as tem como suas, ou a de quem apenas as recebeu, com uma certa dose de alienação?

Por isso sempre optei pelo caminho da organização independente em coletivos e depois movimentos. Nunca fui filiado a partido e nunca serei. Não por ojeriza, mas por discordância da forma de organização hierárquica. Se pudesse escolher, gostaria que a maior parte da esquerda dedicasse seus esforços e tempo disponível para a construção dessas organizações independentes, porque são elas que terão liberdade de tocar sua luta sem estar subordinada à agenda eleitoral. Aliás, a gênese do Movimento Passe Livre (MPL) é essa. Foi necessário o rompimento de boa parte dos militantes que tocavam a Campanha pelo Passe Livre de Florianópolis (fundada em 2000 e fortemente vinculada a uma corrente de esquerda dentro do PT) para que se transformasse em um instrumento de luta para a juventude. Livre para organizar a si própria de acordo, exclusivamente, com os interesses de seus integrantes e, principalmente, da pauta que justificava sua existência. Obteve grandes vitórias e transformou-se no MPL, que se expandiu Brasil afora.

As eleições nos fazem retomar debates antigos: reforma ou revolução? Estar dentro ou estar fora? Não o repetirei. Para mim não são necessariamente excludentes. Assim com individualmente o Eu do sujeito necessita de certa elaboração até produzir desfechos diferentes para antigas inibições, também o corpo social não parece ser capaz de tolerar mudanças bruscas sem antes uma boa dose de pequenas modificações. Nesse sentido concordo com Freud quando argumenta, em A dissecção da personalidade psíquica, que traços inconscientes das gerações anteriores, a tradição, se reproduzem nas gerações vindouras. “Provavelmente as concepções históricas chamadas de materialistas pecam por subestimar esse fator. Elas o põem de lado com a observação de que as ‘ideologias’ dos homens nada mais são do que produto e superestrutura de suas relações econômicas atuais. Isso é verdade, mas muito provavelmente não é toda a verdade. A humanidade não vive inteiramente no presente; o passado, a tradição da raça e do povo prossegue vivendo nas ideologias do Super-eu, apenas muito lentamente cede às influências do presente, às novas mudanças, e, na medida em que atua através do Super-eu, desempenha um grande papel na vida humana, independentemente das condições econômicas”.

Uma interpretação certeira de um analista pode não fazer efeito algum para um paciente cujo Eu não esteja “pronto”, não tenha trabalhado o suficiente as condições para chegar por si só ao lugar onde o analista imagina estar um dos eixos do sofrimento. Faço aqui um paralelo entre política e psicanálise. A análise esclarecida das organizações mais críticas não será suficiente para superar marcas milenares, ou de pelo menos 500 anos, do psiquismo do povo brasileiro. Há um trabalho de elaboração até o sentido interno alcançar uma nova posição. Busco Noam Chomsky para expressar melhor o que estou tentando dizer, mais especificamente na sua “Teoria da Jaula”. Tomo emprestado de Felipe Corrêa uma boa definição sobre: “A sociedade contemporânea estaria trancafiada dentro de uma jaula. O objetivo daqueles compromissados com a luta pela liberdade, pela igualdade e contra a opressão deveria ser, portanto, aumentar o chão dessa jaula até que as barras se quebrem e que o povo pudesse se ver livre da opressão – da jaula, cerceadora de suas liberdades.” Nas palavras de Chomsky: “Minhas metas de curto prazo são defender e até mesmo reforçar elementos da autoridade do Estado que embora sejam ilegítimos de maneira fundamental, são decisivamente necessários neste momento para impedir os esforços dedicados a atacar os progressos que foram conseguidos na extensão da democracia e dos direitos humanos.”

Na entrevista Reforma e Revolução (que pode ser lida na íntegra aqui), publicada no Brasil no livro Notas Sobre o Anarquismo, Chomsky nos explica melhor o que pensa (a citação é longa, mas valiosa):

 “Os trabalhadores brasileiros tinham algumas escolhas. Uma delas era simplesmente se subordinar a um poder absolutamente brutal. A outra era tentar expandir, em alguma proporção, a estrutura na qual poderiam atuar, e, então, mudar e conseguir algo mais – reconhecendo que estavam numa jaula, o que significa um sistema de opressão. Ora, algum anarquista sério veria um problema sobre qual escolha fazer? Digo, você deveria permanecer sob um sistema de opressão muito mais duro, ao invés de conquistar alguns direitos, utilizando essas vitórias como base para algo além, descobrindo como são possíveis as vitórias, e continuar a partir disso? Eu acho que não. E nem acho que isso seja uma questão. Agora, uma lei sobre o salário mínimo digno é uma lei. Ela passa por alguma organização governamental. Por isso, é errado lutar pelo salário mínimo digno? Eu acho que não. De fato, lutar por esse salário é também um modo de fazer as pessoas entenderem: ‘Olhe, nós podemos vencer. Nós não temos que aceitar o que acontece conosco. Existem formas de agir. Podemos agir juntos e conquistar coisas.’ Isso nos leva à questão das alternativas. Podemos construir alternativas? Sim, se soubermos que é possível fazer alguma coisa. Se as únicas opções disponíveis forem simplesmente seguir as ordens sendo você mesmo, ou tentar distinguir da melhor forma possível num ambiente opressor, você também não estará criando alternativas.” 

Com a boa companhia de Chomsky, defendo que a luta independente pelo fortalecimento da esfera pública, de melhores condições de vida para os debaixo com protagonismo destes, não impede que tenhamos a clareza de que governos como os de um Aécio Neves (representante puro sangue da elite brasileira) não signifiquem o mesmo que o governo petista. Quanto mais próximos da utopia capitalista, pior estaremos. Um caminho bom, para mim, é a completa independência dos movimentos, com a habilidade de se relacionar (pela pressão e negociação por ampliação de direitos) com as instituições. Não é porque somos contra que elas deixarão de existir. Mas já estou saindo do tema. O que estou propondo é deslocar o significado das eleições. Não se trata de um plebiscito pela organização social ideal. Não se trata de uma afirmação de identidade de cada indivíduo. Não é um cheque em branco para ninguém. Para mim é puramente uma escolha entre formas de gerir o capital mais ou menos agressivas para os debaixo, os que realmente ficarão com o ônus desse resultado. Essa menor agressividade petista não significa que seja igualmente dividida entre todas as partes, é verdade, mas não deveríamos temer lidar com a contradição, ela é que nos move, coletiva e individualmente.

E as contradições deste governo não são poucas, para usar de eufemismo. Repressão aos movimentos sociais (ainda há petista que insista na patética tese de que junho de 2013 foi um movimento de direita, tucano, de perseguição ao governo!), aos povos indígenas e aos moradores das favelas, as demissões dos grevistas do IBGE; alianças com representantes do atraso, favorecimento ao agronegócio, à indústria do automóvel, forte inclinação do viés predatório-ambiental de desenvolvimento etc. Ao mesmo tempo foi o projeto de governo que barrou a Alca (imagino o desastre que viveríamos em especial após a crise de 2008), inverteu as relações diplomáticas e econômicas com ênfase na América Latina e África, permitiu a criação da Comissão da Verdade (cujos resultados serão fundamentais para a transformação da violência estrutural de interesse de classe do estado brasileiro), e produziu o pacto social “lulista” para tirar o Brasil do mapa da fome e incluir a parcela mais pobre da sociedade no mercado de consumo, para colocar parte da juventude pobre e negra na universidade, e sem entrar em conflito com o capital (sugestão: Lulismo, carisma pop e cultura anticrítica de Tales AbSaber, pela editora Hedra). Recomendo a leitura do texto de Luciana Oliveira, advogada que participou desde o início dos trabalhos de criação do Bolsa Família, do qual destaco um trecho aparentemente pouco significativo, mas forte demais: “O objetivo era claro, alcançar as famílias pobres, as excluídas por mais de 500 anos, as que nunca haviam sido, de fato, vistas por ninguém, as que nem “existiam” no mundo jurídico porque estavam alijadas até mesmo do processo de identificação de pessoas – muitas delas não tinham sequer certidão de nascimento.” (o texto na íntegra aqui).

Naturalmente não imagino nenhum dos conservadorismos da “era PT” sendo redesenhados de forma progressista em um retorno tucano. Pelo contrário, e não preciso mencionar a linha dura neoliberal do partido da burguesia puro sangue para convencê-los de que até mesmo as “poucas” melhorias de vida estariam sob risco. Retrocesso não é só uma palavra, o significado é real e pesará nas costas dos debaixo.

Diante deste cenário, que se encerra amanhã, alguns setores da esquerda não-petista decidiram por não apoiar a continuidade deste governo, outros decidiram apoiar com mais adesão, outros decidiram apoiar com menor adesão. Estou entre os dois últimos. Confesso que não consigo entrar no Transe Coração Valente, nem ceder parte do meu narcisismo e me identificar com o governo. Considero esta adesão acrítica nociva e permissiva para um projeto que, sem pressão pesada à esquerda, se venderá cada vez mais como algo que não é. Não estamos na utopia, não são esses os nossos sonhos de igualdade política, social e econômica. Adoraria que os militantes do voto se lançassem na militância também no período entre eleições. O perrengue que o PT passou nesta eleição tem relação direta com este abandono. Mas não quero dar ideia errada: se vierem pra luta, que não a burocratizem ou subordinem à agenda eleitoral. O movimento funciona melhor se estiver a serviço da vida.

Compreendo os setores que optam pelo voto nulo (e são diferentes os votos nulos, dos tradicionais anarquistas aos “marineiros”) tanto por não conseguirem aceitar a própria existência deste sistema ou pelos conservadorismos deste governo. Mas adoraria que pensassem em como isso pode parecer insensível diante daqueles que testemunharam melhores condições de vida. Será que isto ajuda a dialogar com a classe e criar relação de confiança? O “excesso” de solidariedade não pode parecer pouco caso? Essa impossibilidade de lidar com pragmatismo não revelaria também um traço sutil, inconsciente, de esperança por um governo não-degenerado, combativo e imune às correlações de força da “política grande”? O pessimismo completo com relação às transformações profundas via instituições é que impulsiona meu pragmatismo.

Não acredito que os não-petistas que torçam, como eu, pela vitória de Dilma, sejam favoráveis às contradições acima exemplificadas, assim como não acredito que “marineiros” de esquerda defenderiam pra valer a política econômica neoliberal do que seria o governo dela caso eleita. Prefiro acreditar que estes dois grupos venham a trabalhar juntos nas lutas pelas pautas populares, as reformas urbana e agrária popular, a democratização dos meios de comunicação, a revisão da Anistia para os torturadores e responsáveis pelos anos de chumbo, as demarcações de terras indígenas, ampliação dos direitos trabalhistas etc. Ficar demasiado preso a posições obsessivamente coerentes pode engessar o indivíduo, tornar o sujeito ativo num ambiente político radical, mas endógeno, hermético, pouco saudável além de tudo.

Aos petistas puro sangue recomendo uma “reciclagem” política. A denegação do fenômeno de junho de 2013 é absolutamente sintomática. Para começar, essa verdadeira miopia faz com que o partido não consiga compreender como aquele processo é fruto das transformações reais que empreendeu (pequenas, do ponto de vista do longo prazo e enormes, do ponto de vista do cotidiano, do tempo presente). Mexeu com a estrutura de classes no país, expôs muitas contradições. Ainda não deu tempo para que surjam novas sínteses, novas referências sobre como viver num Brasil diferente do que estávamos habituados. Meu receio é que diante de um cenário de incertezas, as forças políticas de esquerda radicais ou institucionais não estejam conseguindo oferecer respostas, apontar caminhos. Não desejo o fim do PT, gostaria que os espaços de poder político fossem ocupados por pessoas mais à esquerda. Acho que o PT tem uma responsabilidade imensa de, ao tirar boa parte do país da miséria e da fome, oferecer não apenas a saída das soluções individuais, de consumo, do estilo de vida pequeno burguês pouco generoso. É preciso disputar também os corações da “nova classe média”, com um ideal mais coletivo, menos competitivo, menos aberto para o transe de direita, essa loucura que não é apenas antipetista, mas antiesquerdista, antipopular, violenta e protofascista, extremamente regredida.

Além disso, é fundamental que desta reciclagem saia uma auto-crítica sobre como o partido perdeu (e isso é bom) a hegemonia sobre a esquerda. Aí estão o MPL, os garis do Rio de Janeiro, a luta indígena, os motoristas e cobradores de São Paulo. Junho de 2013 teve como legado a redução das passagens de ônibus em quase 200 cidades brasileiras, num montante de economia para a classe trabalhadora perto do valor de um ano de Bolsa Família, mas também o incentivo a trabalhadores e trabalhadoras a se organizar independente das direções de seus sindicatos, por exemplo. Uma cultura de luta dos debaixo se abriu no país, depois de sei lá quantos anos. Irão ignorar isso e arriscar perder ainda mais terreno aqui no chão?

O dia 26 de outubro de 2014 me faz pensar numa curiosa ironia. Foi num dia 26 de outubro, há dez anos, que o Movimento Passe Livre ocupou a Câmara dos Vereadores de Florianópolis para arrancar a aprovação da Lei do Passe Livre Estudantil (pauta principal do MPL antes de adotarmos a tarifa zero). Diante da ameaça dos vereadores em não votar o projeto, preparamos camisetas com a sugestiva pergunta: “Votação ou Revolução?” O projeto foi aprovado. Meses depois, com uma nova prefeitura conservadora, a Lei do Passe Livre foi derrubada pelos seus aliados no judiciário. Saudades de 26 de outubro de 2004. Que passe logo o 26 de outubro de 2014.

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Daniel Guimarães: Florianopolitano exilado em São Paulo, ex-jornalista em atividade. Anti-editor do site TarifaZero.org e integrante do Movimento Passe Livre. Acompanhante Terapêutico, estudando para ser psicanalista e, principalmente, acima de tudo Rubro Negro. Esse texto é a estreia de sua coluna mensal intitulada EM TRANSE

domingo, 19 de outubro de 2014

Clippagem amiga do NR para o debate eleitoral

por Thiago Domenici

Faço aqui uma seleção de textos que considero interessantes para o debate em torno das eleições. São avaliações de pessoas de vários espectros ideológicos e políticos, sobretudo, mais à esquerda, por força das características desse blog e desse editor. O que está aí considero poder ajudar a clarear as ideias sobre o cenário conjuntural do primeiro e segundo turno das eleições. Sobretudo agora, nesse clima de polarização PT-PSDB onde vemos uma avalanche de informações.
ARTIGOS
MATÉRIAS | NOTÍCIAS | ENTREVISTAS
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Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Vanguarda do atraso

por Izaías Almada

A reeleição do governador Geraldo Alckmin, a eleição do senador José Serra, a expressiva votação de Aécio Neves e Marina Silva no último domingo, o número de votos obtidos pelos deputados Russomano e Feliciano (a lista desse apagão anti-humanista é extensa e enfadonha), embora confirmem o ‘exercício da democracia’, confirmam também que o estado de São Paulo se torna de fato o representante legítimo da vanguarda do atraso brasileiro.

Uma espécie de ‘volume morto’ do conservadorismo onde, na falta de ideias progressistas na superfície, o país pode se abastecer no subsolo da mediocridade. No esgoto da intolerância e do preconceito. As declarações do imortal sociólogo carioca após a apuração de votos apontam nesta triste direção.

Paira sobre São Paulo o ectoplasma de 1932 quando naquele ano se tentou resistir ao avanço industrializante da Revolução de 1930 sob as bombachas de Getúlio Vargas. Personagem que deveria ser esquecido pelos brasileiros na opinião do mesmo imortal sociólogo acima lembrado.

Ectoplasma que sempre se manifesta, aliás, quando o país toma rumos que desagradam àquilo que se convencionou chamar de elite brasileira: homens, mulheres e instituições que vivem sob o guarda chuva de um capitalismo também ele atrasado em muitos de seus aspectos, quando ainda se pode – invocando perverso exemplo – encontrar o trabalho escravo em fazendas ou empresas espalhadas pelo país.

Ou quando se manifestam aqui e ali algumas idéias econômicas e suas contrapartidas sociais eivadas de um rançoso dejà vu, cuja insistência na prática de seus fundamentos tem deixado várias das principais economias mundiais em apuros significativos.

Há que insistir e alertar as novas gerações, ao pessoal do “é muito mais que vinte centavos”, à desorganizada “voz das ruas que é contra tudo o que está aí” que sem consciência política e conhecimento histórico, a direita come o mingau pela beirada. Ou tenta fazê-lo… Dentro ou fora da lei, é bom que não se esqueça esse importante pormenor, nessa caminhada para o segundo turno. Pior ainda quando a extrema direita arreganha os dentes…

A manipulação e as mentiras da imprensa foram de tal ordem nos últimos anos que até a esquerda, ou parte dela pelo menos, encheu-se de dúvidas sobre si mesma não sabendo se apoiava ou criticava o governo.

Muitos, inclusive, caíram na rede do “mensalão” e aderiram ao coro cotidiano da direita insuflado pela mídia e de um judiciário irresponsável, que criou um cordão de isolamento entre os desmandos, a impunidade e a verdadeira corrupção praticada há quinhentos anos em nosso país, sobretudo nos recentes governos tucanos, hipocrisia essa que ajudou a difundir a mística de que a política está dividida entre os honestos e os desonestos. Qualquer coisa minimamente semelhante a céu e inferno… Cinismo, má fé e pobreza intelectual a um só tempo.

Foi assim com Getúlio Vargas, com Juscelino em 1955 (ocasião em que um general de exército nacionalista deu um basta nos golpistas de direita que tentaram impedir a posse de Juscelino), com João Goulart. E tem sido assim com Lula e Dilma há doze anos.

Em todos esses momentos de crises e definições como agora com as eleições presidenciais, São Paulo colocou-se ao lado do mais nefasto reacionarismo, contribuindo com seu peso econômico para comprar, por conta própria ou com ajuda internacional, a lei e a ordem.

Estão aí as gordas verbas publicitárias, sobretudo de empresas transnacionais e dos governos federal, estadual e municipal, a fazer a alegria de jornalões, revistões e televisões para mais uma vez comprovar a tese. Sem contar com a presença de algumas ONGs espalhadas pelo país que não se sabe muito bem o que fazem e de onde recebem dinheiro para atuar em solo brasileiro. E contra os brasileiros.

Contudo, a obsessão costuma ser inimiga do discernimento e a mentira costuma se transformar em mãe de crises políticas e sociais profundas. A História está repleta de exemplos nesse sentido. E de surpresas também, é bom que se diga como a do general nacionalista em 1955.

A comemoração pela votação obtida por Aécio Neves no primeiro turno abriu a boca de um dragão cujo hálito recende a fascismo, a intolerância, a vingança e ao ódio contra as camadas mais pobres da população. Contra a soberania e o progresso brasileiros.

A direita e sua nova geração de militantes digitais, apoiados e insuflados por velhas raposas da política nacional agitam bandeiras perigosas para um Brasil pós monárquico que, até esse início de século XXI, jamais dormiu vinte e cinco anos seguidos no berço esplendido da democracia. Repito: vinte e cinco anos seguidos.

A quem interessa o ódio e o preconceito? O que fariam no governo aqueles que já quebraram o país três vezes, cuja noção de soberania e independência não cabe numa caixa de fósforos, arautos subservientes da dependência e do servilismo, dilapidadores do patrimônio nacional, sucateadores das Forças Armadas, cáftens da brasilidade e da alma nacional?

No próximo dia 26 o Brasil escolhe se avança mais um passo na direção de se tornar uma grande nação, soberana e desenvolvida, ou se escolhe alinhar-se com a vanguarda do atraso.

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Nota de Rodapé com a coluna eventual Pensando Alto.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Discoteca de músico: Cesinha Pivetta

por Marcos Grinspum Ferraz   Ilustração de Victor Zalma*

Um defensor engajado do samba tradicional e da cultura popular. É assim o Cesinha Pivetta (no retrato de Marcos Hermes), jovem cantor e compositor paulistano que lançou este ano seu primeiro disco solo, “Nossa Bandeira”, e que desde 2007 é um dos cabeças do Samba do Bule – grupo que se reúne para pesquisar e tocar sambas, e que promove mensalmente uma concorrida roda no Teatro Popular União e Olho Vivo, no Bom Retiro (São Paulo). Quem já assistiu de perto o Bule ou um show do Cesinha – e quem ainda não, deveria – percebe logo sua paixão pela música de raiz brasileira. E assim é feito seu samba, com intensidade.

Seguindo com a proposta de reunir nesta “Discoteca de Músico” artistas dos mais variados estilos, convidei o Pivetta, que conheço desde os tempos de colégio, para fazer aqui as escolhas de discos e clipes que marcaram sua vida. Depois de Tim Bernardes, Rashid, Bruna Caram, Gabriel Basile e Flora Poppovic, ele é o sexto entrevistado da série, que mensalmente traz um artista respondendo às mesmas cinco questões. A ideia é ter, no fim do processo, uma espécie de discoteca/videoteca virtual feita pelos músicos, voltada para o público que quer conhecer mais os artistas ou mesmo que busca sugestões do que ver e ouvir.

E por ser tão mais ligado às linguagens musicais tradicionais, Cesinha subverteu um pouco as regras do jogo aqui na coluna – na parte audiovisual – o que foi muito bem-vindo. Como bom bamba, se saiu bem do impasse de não saber dizer quais os videoclipes que o marcaram positivamente durante a vida. E, ao meu ver, o bom é saber que há de tudo na nova geração da música brasileira: quem faça rock, rap, pop, reggae, música eletrônica, funk, quem misture tudo e também quem se dedique a não deixar a chama do samba tradicional morrer. Vale a pena conhecer o som de Cesinha Pivetta, do Samba do Bule, de Lello di Sarno, do Nervos de Aço e tantos outros.

Um disco brasileiro que marcou sua formação musical

“Partido em 5”. Esse é o registro puro de uma roda de samba. Marcou profundamente pra mim pois ouvi ali o que diversas vezes havia vivido perambulando por aí. Velha, Casquinha, Wilson Moreira, Anézio e Joãozinho da Pecadora contaram com a participação de mestre Candeia e não utilizam recurso especial nenhum para a gravação, ao vivo, de uma sequência de sambas de partido-alto que fui reconhecendo e nunca soube de onde vinham. Neste disco figuram também Luna e Marçal, dois monstros na cozinha que são referência para qualquer amante de batucada como eu.

Um disco gringo que marcou sua formação musical

“Bob Marley and the Wailers, Live” – ‘Nossa, isso é legal também!’. Essa foi minha primeira reação ao escutar esse disco. Sempre fui muito restrito ao samba e em certo momento também ao próprio pagodão, mas em alguns momentos me deixei levar pela música gringa por influência dos colegas, primos... Em casa jazz e blues já tinham o gosto de minha mãe, e sempre passou legal pelos meus ouvidos, fazendo também parte da minha formação. Mas foi quando ouvi Bob que descobri algo que me fizesse querer entender melhor a língua inglesa, que sempre rejeitei. Vi ali um sujeito parecido com bambas do nosso samba, falando e mostrando sua simplicidade e quem sabe, daí, a transformação, a busca de um mundo mais justo.

Um disco lançado nos últimos anos que te marcou profundamente

“Lamento do Samba”, do Paulo César Pinheiro. Este disco me fez ver o samba de uma maneira diferente. Estes versos para mim se tornaram mantras: “O segredo da força do samba/ É a vivência do seu fundamento/ O que faz ser eterno um bom samba/ É a beleza que tem seu lamento.” O samba “Nomes de Favela”, que só conheci com o lançamento deste disco, em 2003, considero um verdadeiro hino.

Um videoclipe que marcou sua formação

“Brincadeira de Criança”, do Molejo. Falar de clipe pra mim é muito difícil, pois nunca tive o costume de acompanhar MTV, etc. Mas lembro bem deste clipe, ele me marcou, talvez negativamente (tinha pesadelos) mas duvido que alguém não se lembre!



Um videoclipe lançado nos últimos anos que te marcou profundamente

Olha....impossível eu conseguir um clipe que tenha me marcado profundamente na última década... não lembro nem de um que tenha visto... Então resolvi inverter tudo aqui sem saber se vale ou não. Vai um curta metragem bem mais velho que a última década sobre partido alto.



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Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. llustração de Victor Zalma, especial para a série

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Discoteca de músico: Flora Poppovic


por Marcos Grinspum Ferraz    Ilustração de Victor Zalma*

A convidada deste mês do Discoteca de Músico, Flora Poppovic, é a voz feminina do Pitanga em Pé de Amora, grupo paulistano que reúne cinco jovens músicos muito talentosos e que deve lançar este ano seu segundo disco. Como a banda não tem bateria, é a Flora também quem dá o pulso em boa parte das canções, tocando os instrumentos de percussão que aprendeu a “batucar” desde cedo.

crédito: Camila Passos
Foi justamente essa faceta percussionista da Flora que conheci primeiro, antes de saber que ela tinha também uma bela voz. Pois desde a adolescência até poucos anos atrás, por cerca de uma década, ela foi integrante do Batuntã, outro grupo destacado da cena paulistana e que é bastante focado nos instrumentos de percussão. Hoje ela é também professora de percussão no Instituto Brincante e no Brincantinho (braço infantil do espaço criado por Antonio Nóbrega), atividade que concilia com os ensaios e shows do Pitanga.

Pois bem. Depois de Tim Bernardes, Rashid, Bruna Caram e Gabriel Basile, a Flora é a quinta entrevistada da série “Discoteca de Músico”, que mensalmente traz um artista respondendo às mesmas cinco questões, sobre discos e videoclipes que marcaram seus caminhos na música e na vida. Discos e vídeos antigos ou atuais, já que parto aqui da constatação de que música boa não para nunca de ser produzida.

A ideia da série é ter, no fim do processo, uma espécie de discoteca/videoteca virtual feita pelos músicos – de variadas idades e adeptos de diferentes estilos –, voltada para o público que quer conhecer mais os artistas ou mesmo que busca sugestões do que ver e ouvir.

Um disco brasileiro que marcou sua formação musical

“Antônio Brasileiro”, do Tom Jobim. Bom, minha mãe é daquelas que quando gosta de um disco dá play de novo assim que ele acaba. E esse foi um dos que a gente escutou milhares de vezes no repeat! Eu decorei todas as músicas e queria muito ser a Maria Luiza, filha do Tom que canta com ele em duas faixas. Mais tarde, quando comecei a tocar percussão e conhecer um pouco sobre o universo da cultura popular brasileira, me encantei mais ainda com esse disco que trazia samba, bossa nova, jazz, baião, maracatu, peças instrumentais maravilhosas e até poema musicado do Manuel Bandeira. Hoje eu ainda ouço muito ele, e me sinto numa viagem passando por paisagens diferentes... Esse disco me traz paz.

Um disco gringo que marcou sua formação musical

“Kind of Blue”, do Miles Davis. Eu demorei muito para ouvir discos gringos. Fui conhecer melhor só aos 18 anos, quando fui apresentada ao “Kind of Blue”. E mudou minha vida! Eu estava numa fase de muita música instrumental, ouvindo choro pra caramba, e esse disco caiu como uma bomba! Era sublime! Era calmo e revolto, melancólico e me deixava feliz... Anos depois, quando entrei na Groove Escola de Música para estudar, esse disco era muito usado nas aulas, seja para cantar a linha de baixo, fazer exercícios com baqueta, e a impossível tarefa de cantar os solos em “All Blues”. Me apaixonei ainda mais! Era como se eu estivesse conhecendo de novo o cd, e até hoje ainda sinto que tem muita coisa "escondida" nele pra descobrir! Esse disco é música pura!

Um disco lançado nos últimos anos que te marcou profundamente

“Vem Ver”, Vanessa Moreno e Fi Maróstica, lançado em 2013. Em primeiro lugar, esse disco me marcou por ser extremamente corajoso: é o primeiro disco solo da carreira de dois jovens muito talentosos e é um duo de baixo e voz. Baixo e voz? Sim. E é impressionante como os dois se viram muito bem nessa corda bamba. A Vanessa com suas lindas interpretações nos leva a lugares de extrema ternura e a outros de malandragem pura. Faz coro com muitas vozes... Enfim, faz o que ela quiser! É uma danada! E o Fi é um baixista de fino trato, toca todos os baixos possíveis, batuca pra caramba e ainda enfeita com vozes de fundo em algumas faixas. O CD conta também com percussão, percussão corporal e vocal, e participações de Chico Pinheiro, Rafael Altério, Sergio Santos entre outros. Os arranjos são bonitos, criativos e a maioria das músicas desconhecidas. É um disco inspirador!

Um videoclipe que marcou sua formação

Stomp Out Loud- Kitchen, Stomp. O Stomp sempre foi uma referência pra mim!! A música está completamente integrada ao movimento, e sempre em instrumentos que não são instrumentos. Ele une música, pesquisa de timbres e humor, ou seja: diversão garantida. Por muito tempo o Stomp foi norteador de pesquisa para o Batuntã, grupo que eu fiz parte dos 14 aos 24 anos. Esse DVD inteiro me fascina, mas o vídeo que eu mais gosto é esse da cozinha, filmado todo num plano só, sem cortes, onde as coisas e a música vão acontecendo. Legumes cortados, panelas sujas, chefe mal-humorado, tudo vira som!!!



Um videoclipe lançado nos últimos anos que te marcou profundamente

The Writting's On the Wall, Ok Go. Esse clipe é demais! Muito criativo, muito bem feito. Ele é todo filmado sem cortes, e numa sala gigante cheia de coisas que te enganam e vão mudando conforme a câmera muda. É um jogo de perspectiva. A gente é surpreendido o tempo todo!




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Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. llustração de Victor Zalma, especial para a série

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Não me nego e faço gosto

por Júnia Puglia*

Quando a palavra radialista ainda nem existia, meu pai manteve um programa de rádio evangélico diário por mais de dez anos, na emissora líder da cidade, que, dizia-se, tinha um enorme alcance em ondas curtas. Acho que era mais que um ufanismo interiorano, porque ele recebia cartas, muitas cartas, dos lugares mais remotos do Brasil.

Algumas vezes, ele nos levava ao estúdio. Como o programa entrava no ar, ao vivo, às sete e meia da manhã, era preciso se levantar cedo para acompanhá-lo. O estúdio comunicava-se com um pequeno auditório, onde às vezes acontecia o programa, quando havia números especiais de música ao vivo ou alguma celebração aberta para o público. Numa placa de bronze ostentada à entrada, lia-se: “aqui se apresentou, na data tal, o tenor italiano Tito Schipa, glória da cena lírica mundial”. Eu achava lindo e muito chique.

Em todo o interior paulista, o horário das cinco às sete da manhã era ocupado por programas de música caipira. Era a hora de os trabalhadores da roça pegarem no batente. A praça próxima à minha casa ficava cheia de bóias-frias, homens e mulheres, que eram recolhidos por caminhões e levados, em pé nas carrocerias abertas, para os canaviais e laranjais. Os da cana iam vestidos dos pés à cabeça, com panos amarrados por todo lado, como proteção contra as longas folhas em formato de facas, que lhes rasgavam as carnes. Tudo muito natural e pré-determinado desde o início dos tempos.

Cada um levava consigo seu energético, o radinho de pilha, que ajudava a empurrar o facão em jornadas intermináveis medidas pela produção. Enquanto esperavam o transporte, os rádios formavam uma cacofonia de duplas caipiras tocando suas modas na longa sequência matinal do programa do Nhô Zélio. Tonico e Tinoco eram os maiorais, mas havia também Tião Carreiro e Pardinho, Alvarenga e Ranchinho, Jararaca e Ratinho e muitos outros. Eu ficava sentada no estúdio, ou quase sempre na cozinha de casa, esperando meu pai entrar no ar, ouvindo aquela música que estava impregnada nos nossos genes, apesar dos narizes torcidos do pessoal que se considerava “da cidade” e lutava vigorosamente para esquecer sua origem rural. Chique mesmo era ser urbano.

Quem chegou agora e adora um sertanejo universitário não tem ideia do que estou falando. Depois de alguns anos de um esquecimento que era visto como um alívio, a música caipira ressuscitou na voz de novas duplas. Já não falava da miséria, do trabalho no campo, da Rosinha, da filharada, choupana, vaquinhas, passarinhos e cavalos xucros. Começou a era do caipira urbano, da música de bordel de beira de estrada, levada na boleia dos caminhões que fizeram o “Brasil grande” nos anos setenta e oitenta, até se fixar definitivamente nas cidades e chegar às metrópoles e ao mundo, aos shows gigantescos e aos negócios bilionários. Atravessou um longo período de romantismo tipo tritura coração e agora está na fase da animação da balada, onde a letra é o que menos importa. Eu mesma já identifiquei algumas das canções atuais tocando em lojas e trens de metrô em lugares insólitos pelas Europas. E tive uma sensação estranhíssima, de total desencontro entre a música e o lugar.

O sertanejo de antes, que evidentemente não morreu, é a música de raiz que mais fundo me bate. Como diz a Inezita Barroso, “sou sertaneja, não me nego e faço gosto, tá escrito no meu rosto, só não enxerga quem não quer”. Mentira. Também sou urbana, mas adoro as modas de viola e a poesia sertaneja feita de terra e cheiro de mato.

Esta avalanche de hoje, conheço muito pouco, porque não me diz nada, mas tem o mérito inegável de ter capturado o grande mercado musical para o produto nacional, espantando o pop estrangeiro de péssima qualidade. Não é pouca coisa, e tem o meu respeito.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

O professor

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 14)

por Fernanda Pompeu   ilustração Fernando Carvall

Não havia nenhuma chance de um mal-entendido quanto ao local e horário. No 31 de outubro de 1975, toda São Paulo estava sabendo que na Catedral da Sé, o católico Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o pastor James Wrigth celebrariam uma missa em memória do jornalista Vladimir Herzog. Na verdade, o ato era bem mais. Estar na Praça da Sé naquele cair de tarde significava afrontar a ditadura militar.

A garota, com exatos 20 anos, sabia de tudo isso. E também esperava que ele, o professor, também soubesse. Na verdade eles estavam tendo um namorico. Se nos dias de Facebook fosse, diríamos que eles ficavam. Mas na década de 1970 ninguém falava assim. Ele era professor de História, dos melhores. Ela andava mais interessada na História do que nele, mas isso ela concluiu tempos depois, ao cavoucar as cinzas da memória.

Dentro da Catedral, ouvia-se um desagravo em nome de Herzog. Menos de uma semana antes, o jornalista da TV Cultura foi morto sob tortura no Doi-Codi da rua Tutoia - uma seção do inferno no bairro do Paraíso. Seus algozes tentaram vender a versão de que o preso havia se suicidado dentro da cela. Só que ninguém acreditou.

Onze anos depois dos militares terem roubado o poder em nome de um Brasil mais seguro, ordeiro, ovelha, muita gente já estava de saco cheio. Pelas promessas não cumpridas e pela violência contra os opositores. Violência tão desproporcional quando é - hoje, 2014 - a do exército de Israel contra os civis da Faixa de Gaza.

Antes de Vladimir Herzog, vários haviam sido torturados. Entre eles se somavam os mortos e desparecidos. Em razão disso, perto de oito mil pessoas se concentravam na Catedral e na Praça da Sé. No meio deles, ela. Com um olho na História e outro no relógio.

A aluna marcara o encontro com o professor em torno do Marco Zero - bem no centro da praça. Ele garantiu que compareceria, pois o país não podia seguir do jeito que estava. Mesmo quando a missa terminou, quando as pessoas começaram a ir embora, ela ainda esperou. Mas ele não apareceu.

No dia seguinte se encontraram na sala de aula. Lá estava o professor falando da Revolução Russa, entusiasmado com os bolcheviques e suas ações. Ele sorriu várias vezes para ela. Ela retribuiu com um olhar triste. Estava decepcionada. De alguma forma, a garota pressentia que o namorico dos dois tinha terminado.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Porque sim!

por Júnia Puglia*

Essa minha impaciência, às vezes nem eu mesma a suporto, mas que remédio, né? De tanto ouvir e responder a certas perguntas, tenho vontade de dar respostas diretas e malcriadas, mas, bem, já sou grandinha e preciso ser mais tolerante com as pessoas, dizem as regras de convivência. Sempre, interminavelmente. Afinal, o mundo é assim, bla bla blááá.

Por que precisamos de mais mulheres na política e nos espaços de poder? Porque sim! Por que devemos promover oportunidades iguais para todos os grupos populacionais como política de Estado? Porque sim! Porque não há nenhuma razão para não ser assim. Basta de explicar, argumentar, comprovar e tentar convencer as pessoas sobre o óbvio. A atividade política precisa de todas e todos que se sintam encorajados a meter a mão na massa pantanosa dos mecanismos de participação, arrombar os baús dos partidos, estar nas mesas de negociação, assim mesmo como elas são hoje, mover as engrenagens das decisões que afetam a vida de todo mundo, desde as câmaras municipais até os níveis mais elevados. A participação plena de todas as pessoas é uma das bases da democracia. E, por mais imperfeita e incompleta que seja, ainda não inventaram nada melhor que ela, clichê dos clichês.

A política é um lodaçal? Estamos fartos do conversê de candidatos e campanhas? Da guerra de informação, que nos impede de saber qual a versão mais confiável? Lamento informar que vai continuar sendo assim. Que só vai mudar quando formos capazes de entender o verdadeiro sentido da política, o que só será possível alcançar fazendo política. Não há outro caminho, e não há milagre.

Por que mulheres? Porque sim. Por que negras, índios, pessoas com deficiência, gays, lésbicas e todas as letrinhas? Porque sim. Cada um com suas propostas, suas reivindicações, levando para a arena política toda essa enorme diversidade que nos compõe. É justo, não? Como azeitar as engrenagens da vida em sociedade senão conhecendo-as, destrinchando-as, revirando-as de dentro pra fora e de fora pra dentro?

Por que homens? Jovens, velhas, conservadores, avançadas, caretas, moderninhos, nerds, com quem concordamos, de quem discordamos, bonitos, feias, inteligentes, cultas, rudes? Porque sim. Porque sim.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A outra pátria em chuteiras


por Mariana Camaroti, de Buenos Aires

Engana-se piamente o cidadão que crê que o Brasil é a única nação em que o futebol é a comida de um povo e onde a Copa do Mundo é vivida de maneira transcendental, como os dias de momo. Piamente. O futebol está para a Argentina como a praia está para o carioca; mas existe ali algo mais. E eu diria que é o tango – este lamento típico dos hermanos – que faz com que eles saibam sofrer remoendo amores – neste caso, ídolos – do passado. E aceitar o sofrimento como parte do amor. Para mim, isso explica por que futebol e argentino nasceram um para o outro. O país que pariu Ernesto Che Guevara, San Martín e Evita Perón e que tem como maior ídolo – ou melhor, deus – Diego Armando Maradona não pode ser subestimado quando de chuteiras se fala.

Era o meu terceiro Mundial no país vizinho desde que para lá me mudei, casei, comprei casa, descobri livros e tive filhos; mas este ano, quando pendurei as bandeiras alvo e celeste e a verde e amarela na minha janela, foi diferente. Sem que eu me desse conta, havia crescido dentro de mim um sentimento de pertencimento que jamais sentira. E isso não tem só a ver com meu marido argentino, mas também com a minha história com o portenho, com o saber e poder viver – bem – ali mantendo as minhas raízes.

Já no primeiro jogo, aceitei com naturalidade torcer com quase a mesma intensidade do que torcia para a canarinha. E olhe que eu odeio Maradona e não sou fã de tango. Mas a admiração deles pelo Brasil e como almejam ser como os brasileiros me toca sempre.

Mas bem, a bola começou a rolar e, em dia de partidas da Argentina, eu vestia celeste e branco, afirmava a torto e a direito que torcia por eles, como um invasor que tenta ganhar confiança do colono. Mas não, eu havia me tornado uma verdadeira torcedora de Messi, Mascherano, Higuaín e Lavezzi. E, mais tarde, de Romero. Aprendi os nomes como no campeonato de 1994, sabia quase de cór. Nem ideia de esquema tático e muito menos quem estava no grupo da Argentina. Mas a paixão me movia. E eu sei por quê. A Copa era no Brasil, o meu país, e torcer pelas duas seleções era confirmar a minha paixão pelas minhas duas casas. Como se isso reduzisse a distância.

Era lindo ver as crianças vestindo acessórios para ir ao colégio do início ao final da Copa, bandeirinhas nos carros, bandeiras desbotadas nos balcões e uma infinidade de propagandas que reafirmavam o amor pela pátria e sua independência em momentos de alta inflação e possibilidade de novo calote da dívida. Quando vi David Luiz soluçar dizendo que o povo sofrido brasileiro merecia o título, meu compadecimento se estendeu aos argentinos. Também mereciam. Vê-los cantar aquele hino sem graça como um grito de guerra, sem letra, só com urros, me tocava.

Além de mexer com a fantasia que o argentino cultiva do que vem a ser o paraíso, ter o Brasil como sede do Mundial despertou pelo menos dois sentimentos: 1. É logo ali, vamos ocupar o território tupiniquim; 2. Inveja de não sermos nós os anfitriões. Para os hermanos, o Brasil é a nação em que tudo deu certo e que, quando não dá, se sabe levar com a alegria. Invejam essa – para eles – qualidade nobre do povo brasileiro.

A torcida argentina foi invadindo o país sede à medida que sua seleção avançava. E veio o terceiro e mais forte sentimento, aquele de humilhar o Brasil na sua própria casa. A rivalidade, que se restringe apenas ao futebol, claro está, incomodava cada vez que os argentinos cantarolavam sem vergonha perguntando ao Brasil o que se sente; e cada vez que os brasileiros torciam pelo rival da seleção alvo e celeste, até mesmo quando este foi o Irã. E tudo foi potencializado pela imprensa e pelas redes sociais.

As duas seleções progrediram. Perdemos de 7x1 e ficamos em quarto com um país se sentindo humilhado; eles chegaram a segundo e, ainda que feridos, tiveram sua paixão pelo futebol enaltecida, renovada. E eu nunca entendi de onde vem essa rivalidade. Será a minha compaixão, sentimento de pertencimento ou será o meu marido. Mas desconfio que é o meu espírito de atleta que ainda me faz admirar quem joga com raça e paixão.

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Mariana Camaroti, jornalista, mudou-se pra Buenos Aires depois de se apaixonar por um argentino; mãe de dois argentinos, torcedores do Boca Juniors como o pai, e amante das livrarias portenhas. Texto escrito especialmente para o Nota de Rodapé

domingo, 13 de julho de 2014

Ainda bem que tivemos “los ticos”!


por Aleksander Aguilar*

Ah, Costa Rica! O que teria sido de nós, brasileiros, nesta Copa sem ti. Pensar na tua história neste Mundial, especialmente depois do trauma do Brasil na semifinal “Mineiraço”, é um alento e uma inusitada forma de olhar a toda nuestra América. Exemplo, sim, que futebol mistura-se com política, que só aumentou o imprevisto, mas merecido, reconhecimento da tua seleção por parte desta “impávida” nação sul-americana – e por extensão do teu país, e por ampliação de toda a região da América Central.

Para mim, filho de salvadorenho, a Costa Rica era, sim, a América Central no Mundial! Admito que cada vez que eu ouvia a massa gritar em coro, meu orgulho centro-americano silenciosamente se manifestava: "¡oé-oé-oé-oé, ticos, ticoooos!". Eram os anfitriões, nas ruas durante as partidas costarriquenhas, entoando o nome, com tanta empolgação e carinho quanto com sotaque brasileiro, que para eles é o apelido da seleção costarriquenha – a equipe de um país da América Central! Mas não, não, compatriotas. Ticos é um gentilício coloquial para todo o povo da Costa Rica, algo que ocorre com vários países centro-americanos. Os hondurenhos são os Catrachos, os salvadorenhos são os Guanacos, os guatemaltecos são os Chapines, e cada um desses apelidos possui uma explicação sociohistórica.

Quem no Brasil, além de um grupo muito específico como aqueles que estudamos esta região quase invisível do mapa-mundi, saberia disso ou se importaria? No Brasil, nação onde a paixão por futebol não é apenas um simples cliché, a seleção desse país centro-americano tornou-se um xodó nesta Copa, pelo incontestável brilhantismo do seu desempenho, deixando o campeonato de forma invicta após enfrentar, e vencer a maioria, grandes potências do esporte mais popular do planeta. Ao derrotar Uruguai e Itália, empatar com Inglaterra, eliminar a Grécia e levar a Holanda para a decisão nos pênaltis numa quarta-de-final, a imprensa mundial aborrecidamente insistiu que ninguém imaginava que a seleção deste pequeno e “exótico” país iria tão longe num campeonato de grandes potências esportivas. E para a maioria da mídia aqui no Brasil, o importante era justamente esse feito. E só. Ao ponto de para muitos a Costa Rica ser uma seleção “caribenha” (afinal, América Central e Caribe é tudo igual, tudo perto por ali no mapa...)

Ocorre que o significado da participação da Costa Rica neste Mundial nunca fez tão evidente a oposição ao adágio popular de que política e futebol não se discutem. Na América Latina discutem-se, inclusive e de preferência, conjuntamente. Importa mesmo é constatar que importantes meios de comunicação no Brasil destacam de repente a história e os índices de desenvolvimento deste país da América Central. Surpresa mesmo, e satisfação, é ver os brasileiros pela primeira vez curiosos com fatos como a Costa Rica não ter exército (mais de 60 anos de sua extinção) mas ter um ganhador do Prêmio Nobel. O Brasil, via futebol, desenvolveu quase sem querer um sentimento de latino-americanidade, expresso neste caso precisamente pela invisibilizada região centro-americana, e demonstra ter mais interesse em saber quem são esses países do istmo.

Muito futebol, muita política

E por isso o atual futebol da Costa Rica fez-se uma dupla metáfora nessa fronteira futebol/política: enfeixa por um lado o paralelo das relações geopolíticas centro-periferia no mundo com o das disputas dos grandes atores globais do futebol no contexto – quadrado – dos meganegócios desse esporte na globalização hipercapitalista; e por outro o paralelo dos imbricados debates entre nacionalismos e identidade nacional com a questão da integração regional centro-americana e a projeção internacional dessa região.

A Costa Rica é um país da América Central. E enquanto através desse momentum no esporte demarcou para si mesmo uma janela de visibilidade e presença nas cartografias geopolíticas desse mundo cada vez mais multipolar – em que a articulação entre países do chamado Sul Global torna-se uma via para um sistema internacional mais igualitário – trouxe a reboque para uma pequena, mas importante, vitrine toda a região deste istmo socialmente convulsionado. Aos poucos, os centro-americanos passaram a ver o país Tico, que deixava mais e mais potências esportivas boquiabertas, como um representante de todos, permitindo o mundo ver que nem só de terremotos e guerras civis vive uma região. Devagar, porque, claro, internamente na América Central há rivalidades, ranços, já que historicamente as relações no istmo viram-se em altos e baixos, com divisões por conflitos políticos e limítrofes.

Entende-se. Em nome de uma suposta identidade regional, um gaúcho colorado torceria para o Grêmio durante uma Libertadores, e vice-versa? Um pernambucano torcedor do Sport apoiaria o Náutico num campeonato brasileiro, e vice –versa? De sociologia do futebol deixa-se para os especialistas, mas não se pode negar a força desse esporte em todo o continente como fator de unidade. No caso da Costa Rica, o país verdadeiramente possui diferenças enquanto Estado democrático de direito bem marcadas de vizinhos como os do chamado grupo CA-4. El Salvador, Nicarágua, Guatemala e Honduras, o que coloca o próprio debate sobre centro-americanidade e integração regional do istmo como questão.

A América Central hoje

Designada por uma espécie de destino geográfico, uma das especificidades da América Central no contexto latino-americano é justamente a de uma região de trânsito entre os dois oceanos, posição que marcou sua história sociopolítica no passado e lhe influencia no presente, dando-lhe peso geopolítico e características identitárias que a colocam em condições particulares para converter-se em um âmbito que merece análise especifico. Mesmo na América Latina, contudo, esse istmo é frequentemente abordado de forma marginal ou omissa, tangencial ou superficialmente, deixando-se de tratar, precisamente, seus singulares problemas e especificidade sociopolítica no continente. É a situação que levou o crítico literário guatelmateco Arturo Arias a caracterizá-la como “una región marginal dentro de la marginalidad”.

A chamada América Central, a que o poeta Pablo Neruda denominou “la dulce cintura de América” tem pouco mais de 500 mil km² (o Brasil sozinho tem mais de oito milhões de km²) abrigam sete Estados – (Belize, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e Panamá) com uma população de quase 50 milhões de habitantes. Atualmente, cerca de 47% dos centro-americanos vivem em condição de pobreza e 18.6% em pobreza extrema. Mais de quatro milhões de centro-americanos e descendentes moram fora do istmo, especialmente nos Estados Unidos. Ditos emigrantes enviam anualmente cerca de US$ 13 bilhões aos seus familiares nos países de origem, o que no caso de El Salvador, por exemplo, chega representar 17% do total do PIB do país.

Ao longo da história centro-americana, e depois da declaração de independência em 1821, o tema da integração regional – primeiro em suas manifestações unionistas e mais tarde nos esquemas comerciais, econômicos, políticos e institucionais – tem sido uma constante. No entanto, nas últimas décadas, especialmente depois do estabelecimento do Sistema de la Integración Centroamericana (SICA), em 1991, o interesse pelo processo integracionista aumentou e tem chamado a atenção de um número crescente de setores sociopolíticos e econômicos no istmo. Hoje a violência e as migrações, conforme entende o acadêmico da Guatemala radicado na Costa Rica, Rafael Cueva Molina, são grandes e poderosos traços que caracterizam a região e que tem como uma de suas causas primordiais as guerras civis dos anos 1980, embora certamente não a única. As guerras civis centro-americanas conformam uma fase arrebatadora da história sociopolítica do istmo cujas consequências constituíram-se como o principal marco contemporâneo para os sentidos de centro-americanidade.

Essas diversidades de sentidos expressam-se nessa diferença da Costa Rica do seu entorno. Os ticos queixam-se das deficiências dos seus serviços sociais básicos, como saúde e educação, das má-condições das suas estradas, persistência da desigualdade e da pobreza e, mais recentemente, igualmente a outros países centro-americanos, da crescente força do narcotráfico internacional no seu território. Ainda assim, a Costa Rica é um país chamado de renda média, como o Brasil, e tem alguns melhores índices econômicos e sociais do istmo e de todo o continente, com uma expectativa de vida alta de 79,4 anos (a do Brasil é de 74,6) e uma média de homicídios baixa de 8,9 por 100.000 habitantes (a de Honduras é dez vezes maior). O país atrai pela sua estabilidade política, tendo recebido diversos exilados políticos das ditaduras anos 70 e 80, tanto da América do Sul como dos vizinhos da América Central que efervesciam em guerras. Foi classificado em 2011 como o de maior liberdade de imprensa da América Latina, ocupando a posição 19 em nível mundial, de acordo com o ranking da Organização Repórteres Sem Fronteiras, e impressiona até hoje aqueles que ainda desconhecem que aboliu o seu exército em 1948, em nome de uma proposta, fruto de anos de trabalho, de aumentar a participação cidadã e evitar golpes militares de estado.

Contudo, a Costa Rica ainda não conseguiu articular respostas para alterar a tendência dos últimos anos de lentos e incertos progressos em desenvolvimento humano. Como lembra, entretanto, a acadêmica e analista política salvadorenha, Carmen Elena Villacorta, chama a atenção sobre o atual contexto político centro-americano que os partidos das chamadas esquerdas em vários países da região, como El Salvador, Nicarágua, Costa Rica, algumas antes guerrilhas e agora no poder pela via eleitoral, movam-se cada vez mais ao centro ao verem-se confrontadas por sociedades civis cada vez mais plurais e diversas, mais politizadas e exigentes, e menos leais em termos ideológicos, conscientes do poder político do voto.

No momento, por cima das limitações, sua seleção de futebol, “os filhos prediletos da nação”, como foram chamados no país, mantem ainda mais por cima a autoestima dos ticos, e de toda a América Central. Porém, acima ainda do futebol, a Costa Rica, e todo o istmo, veem-se hoje num lugar em que, como assevera o jornalista e acadêmico costarriquenho Andrés Mora Ramirez, nunca, desde a sua independência da Espanha, a região teve que enfrentar uma necessidade tão marcada de seguir por entre diferentes padrões de crescimento e de desenvolvimento para buscar sua inserção internacional.

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Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé

sábado, 12 de julho de 2014

O imponderável na Copa das Copas


por Pedro Mox*

O brasileiro sentiu o golpe. Contudo, mesmo que aos poucos, felizmente a ferida vai se fechando, as lágrimas secam, explicações (mesmo que nem um pouco convincentes) aparecem, e a Copa do mundo encaminha-se para seu clímax. A despeito da campanha brasileira, é importante ressalvar grande evento aqui realizado: tivemos belíssimos jogos, boa organização, seleções bem acolhidas. A média de gols até agora, 2,7, já é a melhor desde 1994, pode ultrapassar os 2,8 de 1982. Tem a segunda maior média de público da história, atrás apenas dos Estados Unidos. E terá a decisão no estádio quiçá mais famoso do mundo, o Maracanã. Não acho exagero dizer que, até este ano, realizamos a copa das copas.

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Não há explicações para o inexplicável. Pode-se, na verdade devemos, procurar a razão pela qual o onze canarinho não decolou em 2014. Achei a escalação equivocada, precisávamos de maior ocupação no meio de campo. As características são deveras distintas, mas o substituto mais adequado para Neymar era Willian ou Paulinho, dificultando a vida de Kroos e Cia. Talvez, ou provavelmente, não ganharia, mas evitaria o maior vexame da história da seleção brasileira de futebol. Entretanto, o desastre da última terça teve grande participação de um elemento sempre presente – e que contribui muito para a graça do futebol –, o imponderável. Da mesma forma que o Brasil entrou mal escalado e não se encontrou em campo, quatro gols em seis minutos não é e nunca será uma coisa normal. Aconteceu, e provavelmente nunca mais ocorrerá na história das copas.

Nossa atual geração não é ruim, pelo contrário – esse time é, na minha opinião, inclusive, superior ao de 2010. Foi mal preparado, e em nenhuma partida realmente convenceu, mas boa parte destes jogadores pode estar na Rússia em 2018 – tem talento, é a seleção mais comprometida que vi nos últimos anos, estarão mais experientes e quererão como ninguém reparar o fiasco aqui sofrido. Este ficará para sempre na história, o título porventura vindouro também. Considero um equívoco queimar esses jogadores, apesar do elástico escore.

Outro ponto muito comentado, por razões óbvias, e a comparação com 1950. Comparação, na minha opinião, inoportuna. No ano do maracanazo o Brasil tinha equipe bem engrenada, que vinha de duas goleadas – naquele não houve partida final, mas sim um quadrangular – 7-1 sobre a Suécia e 6-1 sobre a Espanha. Entrou no Maracanã (construído para esta copa) com, diz-se, mais de 200.000 pessoas, precisando apenas de um empate. Praticamente com as duas mãos na taça, poucos lembravam que havia um adversário a ser enfrentado. Cenário completamente distinto do atual, quando: tínhamos um time que não convencia desde o primeiro prélio; enfrentamos uma seleção tida por todos como a melhor da competição. Nada que justifique o apagão apresentado, mas um contexto bem diferente de outrora.

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Não será aqui que o seleto grupo de campeões ganhará um novo membro. Domingo Alemanha e Argentina partirão para o tira-teima de decisões, são protagonistas inclusive da primeira vez que dois países reprisaram uma final. Em 1986, no México, os hermanos abriram dois gols de diferença e cederam o empate. Entretanto, ao contrário de 1954 e 1974, os alemães não viraram; com passe de Maradona, Burruchaga marcou o tento que deu o bicampeonato à albiceleste. Quatro anos depois, ambos vinham de semifinais vencidas nas penalidades. A revanche germânica deu-se em Roma: com um gol de pênalti convertido por Brehme aos 40 do segundo tempo, os comandados de Beckenbauer eram os melhores do planeta pela terceira vez.

São seis partidas em Copas do Mundo, com três vitórias e 11 gols marcados pelos alemães, uma vitória e cinco gols para os argentinos, além de dois empates. O último embate foi na África do Sul, pelas quartas de final. As equipes mantiveram boa base em relação àquele torneio: oito atletas pela Alemanha e seis pela Argentina (considerando Di Maria) se reencontrarão. Joachim Löw já comandava o time alemão, enquanto na argentina Maradona vivia sua primeira experiência como treinador. O resultado, um sonoro 4-0, com dois gols de Klose e um de Müeller. Se o ataque alemão continua fulminante, o time comandado por Alejandro Sabella melhorou e muito sua defesa, além do poderoso trio de frente com Messi. Jogo mais que digno de uma final.

Na disputa pelo terceiro lugar, hoje em Brasília, outro confronto das quartas de 2010. Se lá fomos eliminados com a fatídica trombada de Julio César e Felipe Melo, agora é a chance de uma despedida ao menos digna. Do outro lado, os craques Robben, Van Persie e Sneijder despedem-se de copas do mundo. Quatro partidas em mundiais, perdemos duas, empatamos uma e ganhamos outra. Destaco esta vitória, um suado 3-2 em 1994, com gol da vitória numa falta cobrada por Branco e um desvio de corpo milimétrico do baixinho Romário. Que nossos atletas tirem daí inspiração para os últimos 90 minutos neste mundial, levantem a cabeça e vislumbremos um futuro mais promissor.

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*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR
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