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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 31 de julho de 2014

O professor

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 14)

por Fernanda Pompeu   ilustração Fernando Carvall

Não havia nenhuma chance de um mal-entendido quanto ao local e horário. No 31 de outubro de 1975, toda São Paulo estava sabendo que na Catedral da Sé, o católico Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o pastor James Wrigth celebrariam uma missa em memória do jornalista Vladimir Herzog. Na verdade, o ato era bem mais. Estar na Praça da Sé naquele cair de tarde significava afrontar a ditadura militar.

A garota, com exatos 20 anos, sabia de tudo isso. E também esperava que ele, o professor, também soubesse. Na verdade eles estavam tendo um namorico. Se nos dias de Facebook fosse, diríamos que eles ficavam. Mas na década de 1970 ninguém falava assim. Ele era professor de História, dos melhores. Ela andava mais interessada na História do que nele, mas isso ela concluiu tempos depois, ao cavoucar as cinzas da memória.

Dentro da Catedral, ouvia-se um desagravo em nome de Herzog. Menos de uma semana antes, o jornalista da TV Cultura foi morto sob tortura no Doi-Codi da rua Tutoia - uma seção do inferno no bairro do Paraíso. Seus algozes tentaram vender a versão de que o preso havia se suicidado dentro da cela. Só que ninguém acreditou.

Onze anos depois dos militares terem roubado o poder em nome de um Brasil mais seguro, ordeiro, ovelha, muita gente já estava de saco cheio. Pelas promessas não cumpridas e pela violência contra os opositores. Violência tão desproporcional quando é - hoje, 2014 - a do exército de Israel contra os civis da Faixa de Gaza.

Antes de Vladimir Herzog, vários haviam sido torturados. Entre eles se somavam os mortos e desparecidos. Em razão disso, perto de oito mil pessoas se concentravam na Catedral e na Praça da Sé. No meio deles, ela. Com um olho na História e outro no relógio.

A aluna marcara o encontro com o professor em torno do Marco Zero - bem no centro da praça. Ele garantiu que compareceria, pois o país não podia seguir do jeito que estava. Mesmo quando a missa terminou, quando as pessoas começaram a ir embora, ela ainda esperou. Mas ele não apareceu.

No dia seguinte se encontraram na sala de aula. Lá estava o professor falando da Revolução Russa, entusiasmado com os bolcheviques e suas ações. Ele sorriu várias vezes para ela. Ela retribuiu com um olhar triste. Estava decepcionada. De alguma forma, a garota pressentia que o namorico dos dois tinha terminado.

* * * * * *

Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

segunda-feira, 18 de março de 2013

A verdade restabelecida

Pelo direito à memória e à verdade.

Hoje este NR publica a imagem do atestado de óbito de Wladimir Herzog, jornalista assassinado na Ditadura Militar, nas dependências do DOI-Codi de São Paulo. Esse atestado, verdadeiro, entregue a família na última sexta-feira (15), é o reconhecimento oficial de algo ocultado pelo Estado há décadas: de que ele, Herzog, ao contrário do que queriam fazer crer os torturadores, não se suicidou.

O documento traz como causa da morte “lesões e maus-tratos sofridos durante o interrogatório nas dependências do segundo Exército DOI-Codi”. Ou seja, tortura. No atestado anterior, a versão para a morte dizia em “enforcamento por asfixia mecânica”. Mentira. A verdade agora se restabelece. Há muito a se fazer, como descobrir as circunstâncias da morte do jornalista. Esse situação abre prerrogativa para que outras famílias tenham atestados na linha da verdade.


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Vlado em 4 atos

1.
Há 13.505 dias o mundo era outro. Por exemplo, as Bienais de São Paulo ainda eram importantes. No 25 de outubro de 1975, um sábado, eu fui até o Ibirapuera. Na época, quando São Google nem sonhava em nascer, eu tinha uma reverência ao evento Bienal. De fato, na de 1975, foi possível ver alguma coisa da novidadeira instalação de vídeo-arte e entrar numa maloca indígena – reproduzida em tamanho natural.

Tenho a impressão que chovia. Digo impressão, pois 37 anos são 37 anos. A tinta da memória, igual a das canetas sem uso, também seca. Mas eu guardei esse dia não por causa da Bienal, mas por conta do que soube ao cair da tarde. Cheguei em casa e meu pai, entre solene e preocupado, disse: "Olha, mataram um jornalista da TV Cultura. Vai ter mobilização."

2.
Domingo. Acho que continuava chovendo. Lembro que meu pai e eu fomos para o velório do jornalista no Hospital Albert Einstein. Hospital tão afamado quanto hoje é o Sírio-Libanês. O clima, a indignação das pessoas nem preciso descrever. Havia também o danado medo. Entre os presentes circulavam homens de terno e gravata fotografando. "Agentes do Dops" – sussurrávamos.

Mas ninguém arredou pé. Sabíamos que tínhamos que ficar onde estávamos. Entre os ilustres, o arcebispo Dom Paulo Arns e o senador Franco Montoro. Até aquele dia eu não fazia ideia de quem era Vladimir Herzog. Mas sabia que a ditadura torturava e matava muito gente. E aquele cara, estendido no caixão, não havia se suicidado.

3.
O enterro foi no Cemitério Israelita do Butantã. Mais longe do que é hoje. Lembro de uma estradinha de terra (será?). E, é claro, da grande comoção. Eu assisti a tudo de um lugar alto. Choros. Rápidos e compungidos discursos da Ruth Escobar (ninguém fala mais dela) e de Audálio Dantas –  então presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. A sensação era que desta vez haveria uma resposta. Acho que isso estava escrito na cara de todo mundo: "Não vamos deixar barato."

4.
No 31 de outubro, ocorreu a grande concentração na Praça da Sé. Desafiando o aparato repressivo, e graças ao trabalho dos estudantes da USP, PUC, GV e do Sindicato dos Jornalistas, mais de cinco mil pessoas estavam em frente à Catedral da Sé. Lá dentro se desenrolava uma missa-ato ecumênico (ou quase isso, pois não convidaram uma mãe de santo). Representando os católicos, os corajosos dons Paulo Evaristo Arns e Helder Câmera. Os judeus contaram com o rabino Henry Sobel. Em nome dos protestantes, o pastor James Wrigth.

Mas tudo isso foi muito mais. Hoje sabemos que o protesto contra o assassinato do cidadão Vlado, 38 anos, foi um punhal certeiro no coração da ditadura militar. Toda tirania, minhas amigas e amigos, um dia tem seu fim.


fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas a coluna Observatório da Esquina. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.
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