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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 19 de junho de 2014

As filhas

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 11)


por Fernanda Pompeu  ilustração Fernando Carvall*

se vão quase trinta anos que minha amiga, num gesto tresloucado e para sempre inexplicável, atirou contra a própria cabeça interrompendo uma mente brilhante. Pois, com 20 anos, ela era rápida, criativa, ousada e, supreendentemente para sua idade, muito culta. Por que se matou? Essa resposta só terei se um dia encontrá-la quando eu me mudar para as nuvens. Mas a história que vou contar começa numa festa. Já embriagadas, ela me sussurrou - em tom de confidência - que seu pai foi um dos caras que mataram Carlos Marighella (1911-1969). O assassinado, todos sabemos, foi tachado pela ditadura como seu inimigo número 1.

Fiquei surpresa com a revelação. Por delicadeza, não fiz nenhum comentário. Mas ela estava com vontade de desabafar. Contou que seu pai era da equipe de Sérgio Paranhos Fleury, uma espécie de delegado pit bull dos milicos (sem querer ofender os cachorros dessa raça). Ela era uma menininha de pré-primário quando da emboscada a Marighella. Ouviu a história em casa e se encheu de orgulho: Papai havia matado o monstro vermelho!

Toda orgulhosa - afinal toda criança reverencia um papai que mata monstros - espalhou para os coleguinhas o feito. Isso foi lá atrás. À medida que ela foi crescendo e sabendo das coisas, a admiração pelo pai virou constrangimento. Tanto que ela só me revelou a história depois de altos graus etílicos. A festa acabou, cada uma foi para sua casa, e nunca mais retomamos esse assunto.

Mas, por certo, pensei bastante sobre a situação. Minha amiga fazia letras na USP, em meados dos anos 1980, quando 95% dos alunos eram de esquerda, com a sociedade sedenta pelas liberdades democráticas e por novas possibilidades. Daí compreendi que o pai delegado, matador do Marighella, era uma mancha na alva toalha dos cafés da manhã dela.

Em novembro de 2013, perdi meu pai. Lá no velório, um amigo dele pediu licença para discursar. Ele exaltou o quanto o falecido foi um companheiro comprometido com as lutas da esquerda, um militante incansável. Senti um orgulho! Por momentos, estiou a chuva dentro de mim. No dia seguinte, recordei da minha amiga de quase trinta anos atrás. Pensei que nem sempre é vantajoso ter um papai matador de monstros.

* * * * * *

Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Grande décio

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar.Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 2)


por Fernanda Pompeu    ilustração Fernando Carvall

Ele viveu uma infância e adolescência danadas. Fazia o que dava para engolir as chacotas e os dedinhos apontados. Chegou a sonhar em trocar seu problema por outro menos ofensivo às pessoas. Gostaria ter nascido dentuço, ou vesgo, até mesmo manco. O mais intolerável era a solidão que sua condição causava. Eram os anos 1940, muitas famílias escondiam crianças diferentes no quartinho dos fundos. Os pais de Décio até que foram corajosos, botaram ele na escola. Socializar foi torturante para o menino. Ninguém o tratava como um igual. Mas infância e adolescência uma hora acabam.

Décio entrou na vida adulta como um sobrevivente. Um forte. Afastou, como pôde, os preconceitos e as discriminações que entristeciam seu caminho. Fez curso para técnico de som e conseguiu um emprego em uma rádio estatal. Mostrou-se um bom profissional. Fita magnética, durex e gilete ganhavam asas e arte nas mãos dele. Quando se deu por si, havia passado vinte anos no mesmo emprego. Décio não se casou, aliás nunca namorou. Depois da morte dos pais, sua vida social se restringia a domingos na casa da irmã Ivete. Ele também se dava bem com o cunhado, delegado de polícia. Era o início da década de 1970. A ditadura rugia solta no país. Décio dava a mínima para a política. Para ele política e futebol americano eram iguais. Ele não entendia nada e também jogos de bola e poder lhe eram indiferentes.

Mas o cunhado se importava e muito. Um dia perguntou para o Décio se ele conhecia os comunas da rádio estatal. Pois se conhecesse, que tal fazer uma lista com os nomes dos subversivos? "Você não precisa se envolver com nada. Ninguém nunca ficará sabendo. Top secret! É só me passar os nomes", explicou o cunhado. Por algum tempo, Décio se fez de desentendido. Não estava na alma dele ser um dedo duro. Pois lembrava e lembrava da dor provocada por dedinhos apontados para ele. Mas seus domingos se tornaram nublados por uma certa frieza de Ivete e a cara amarrada do delegado. Décio baixou a guarda. Afinal, os comunistas da rádio nem eram seus amigos. "Danem-se!", concluiu durante uma noite insone.

Aos pouquinhos dedurou um produtor de programa, um músico, uma moça do departamento pessoal. E foi gostando da coisa. Sentia a adrenalina subir ao pesquisar, se certificar e canetar o nome na lista. Passou a curtir a carícia sensual do poder. O último que Décio entregou foi um foca de jornalismo. Ele experimentou um prazer particular nessa delação, pois o comunazinho media quase dois metros. Ele odiava homens altos. Décio, agora alcaguete, nascera anão.

* * * * * *

Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Democracia, uma interpretação

por Fernando Carvall*




*Ilustrador e caricaturista, Carvall é um dos grandes nomes da ilustração brasileira; professor do Senac há quase 20 anos, mantém o Estúdio Saci e colabora com o NR desde 2011

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Dim! Dim!

por Fernando Carvall*

O logo da rede Globo é uma síntese perfeita do que deveria ser a função de uma tv aberta. O tempo mostrou, contudo, que os papéis de sujeito (o mundo) e espelho (a tv) se inverteram.

 Hoje o mundo é um espelho da tv!



*Ilustrador e caricaturista, Carvall é um dos grandes nomes da ilustração brasileira; professor do Senac há quase 20 anos, mantém o Estúdio Saci e colabora com o NR desde 2011

quinta-feira, 25 de abril de 2013

OU já era


por Fernanda Pompeu           ilustração Fernando Carvall*

Uma das melhores contribuições da cultura internet, creio, é fragilizar a dinâmica do isso ou aquilo, do fla ou flu, do feminino ou masculino, do pensar ou agir. Como se estivéssemos nos preparando para adotar comportamentos unissex, unirracias, unitudo.

Estamos começando a civilização do E. Do isto e aquilo. Leio jornal e portal. Visto saia e coturno. Uso email e sussurro no pé do ouvido. Quero desenvolvimento econômico e natureza. Tenho vida online e offline. Em suma, estamos no tudo ao mesmo tempo.

Mas não é fácil. Estou com cinquenta e sete anos. Fui educada na lógica das oposições. Do sólido ou do líquido. Da esquerda ou da direita. Do amigo ou inimigo. Do sim ou do não. De uma certa maneira, venho de um mundo confortável. No qual, você é ou não é. Ponto sem com.

Tendo sido configurada desse jeito, me custou - e ainda me custa - certo esforço para embarcar no universo líquido, onde os muros perdem vigas de sustentação. E tremem. Também não sou bobinha para acreditar que diferenças e conflitos ficaram para trás. É claro que não.

A sociedade humana segue classista, sexista, racista, injusta. O que mudou, a meu ver, são as formas de transformação. Agora, posso conjugar ativismo físico com ativismo online. Posso misturar maneiras de estar. Posso postar meu comentário (meu grafite mental) em quase-infinitos espaços.

Antes não. Para que minha expressão, opinião, protesto, aplauso fossem publicados, eu precisava de intermediários. Um veículo, um editor, um pistolão, uma panelinha. Entre o poema na gaveta e ele na página, havia uma paisagem de obstáculos. Em resumo: poucos vitoriosos para uma multidão de perdedores.

A cultura internet mexe com nossos neurônios. Ela faz a parede virar janela. Demonstra que a interação e o compartilhamento não são opções. São fatos. Impossível querer crescer, inovar, produzir, acontecer sem considerar a fala, o comentário, o medo, a coragem do outro.

O outro toca a campainha da nossa cabeça. Sem pedir licença, despeja suas necessidades, demandas e desejos. Ele acha que se expressar é direito inalienável. É um outro enxerido, caprichoso, cheio de si.

Paciência. Mas também esse cidadão digital nos lembra de um óbvio muitas vezes esquecido. Nos lembra que só existe escritor se houver leitor, mercado se houver consumidor, poema se houver sonho. Clique que segue.

Resumo da crônica: não sou eu OU ele. Sou eu E ele. Nós no líquido.


fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Sumidinhos


por Fernanda Pompeu  Ilustração Fernando Carvall

Tive que bater pernas – e anote que moro em Sampa – para achar alguém que consertasse o relógio carrilhão de propriedade da minha mãe. Para os mais jovens explico: o carrilhão soa horas e meias horas com badaladas. O exemplar foi comprado por meu bisavô Cassiano, nascido na época da carochinha, no Minuto Inglês no bairro carioca Estácio de Sá.

Por fim, em uma obscura galeria da Brigadeiro Luís Antônio, consegui um mago capaz de manipulá-lo. Um velho japonês, encurvado e seco. Numa simples olhada, disse o problema e o orçamento. Uma semana depois, mamãe sorria feliz com o som do carrilhão.

Fiquei pensando que afinal as pessoas morrem. O velho japonês não ficará para semente. E não deixará seguidores. Com a imposição de objetos cada vez mais descartáveis, relojoeiros, técnicos de máquinas de lavar e congêneres estão a meio passo da extinção.

Mas não só técnicos de coisas tangíveis correm perigo. Também os doutores da palavra entram na fila para o além. Por exemplo, está cada vez mais complicado encontrar revisores. E quando os encontramos, não nos atendem de tão assoberbados.

É claro que não me refiro a revisores de conveniência. Ou seja, a secretária que foi boa aluna em português, o colega que nunca desgruda de um livro, o autor do texto. Aliás, este último é o menos indicado. Pois por ter escrito, ele fica cegueta na hora de revisar.

Faço menção aos revisores que conhecem a língua como a quebradeira, o coco. Aquele pessoal que zela pela correção e elegância. Que manja de sintaxe e semântica. Os que saboreiam conjugar, concordar, ritmar.

Alguém lembrará: esse "desparecimento" ocorreu em massa com os bancários. Quando entraram as caixas eletrônicas e bancos onlines, a categoria murchou. Minha irmã, uma bancária aposentada, costuma dizer: "Os correntistas foram transformados em bancários. Esse é o melhor do mundo para o lucro dos banqueiros."

Alguém que goste de história dirá que sempre foi assim. Profissões desparecem e outras nascem. Citará o que ocorreu na Revolução Industrial, no século dezoito. Artesãos se tornaram operários. O feito à mão perdeu espaço para o feito à máquina.

Hoje com a revolução digital, numa aceleração espantosa, profissões e profissionais são descartados, ao mesmo tempo que centenas de ofícios surgem a cada manhã. As pessoas, notadamente as mais velhas, reagem ora com nostalgia, ora com depressão, ora com entusiasmo.

Eu estou na turma das entusiastas. Acredito que o reino da internet veio para incluir e potencializar interações. Macaqueando o slogan da loja de hamburger, amo muito tudo isso. Filha da Remington e da Olivetti tento me adaptar no máximo.

No entanto, isso não impede que me arrepie ao calcular quanto de experiência e conhecimento irão morrer. Assistimos ao velório da arte de consertar relógios, somar números, revisar palavras. É o momento em que o real esvanece para no futuro ressuscitar como mito.

*fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

É o poder, Maria!


por Fernanda Pompeu  Ilustração de Carvall*
 

Estou numa idade curiosa. Uma espécie de adolescência da velhice. Muito longe da juventude e muito perto da difusa Terceira Idade. Se for verdade que o inverno é a velhice, digamos que me encontro no outono. Época em que caem as folhas, os seios, a pele.

Época também em que há muita matéria de vida a ser lembrada e narrada. O fato é que me pego lembrando de cada coisa! Exemplos, do sabor do Grapette, da ditadura militar, do Sidney Miller: "Segue em frente, violeiro, que lhe dou a garantia de que alguém passou primeiro na procura da alegria."

E lembro do meu grupo escolar. Lá tive lições permanentes. A mais importante delas foi a de que mulheres não tinham importância. Só dava homem: Pedro Álvares Cabral, Mem de Sá, Araribóia, Zumbi dos Palmares. Eu matutava: cadê nós?

no ginásio (era assim que se chamava), tomei coragem e perguntei para o professor de história: "Onde diabo estavam as mulheres na história do país?". Um colega espertinho respondeu: "Nas cozinhas."

Hoje tenho certeza que nós – descendentes das cozinheiras – até que ousamos bastante. Sem nenhum passado reconhecido ou glorioso fomos muito longe. Mas não é suficiente. Porque ninguém é feito só do presente. E o futuro é igual a comer ar.

Vamos precisar de escavadeiras para trazer à superfície nomes e histórias de mulheres que fizeram muitas arruaças e mudanças sociais. Negras e brancas que realizaram e não levaram crédito nenhum.

Aqui conto uma passagem. Em 2004, escrevi uma série de perfis de escritores hispano-americanos para o suplemento Fim de Semana da Gazeta Mercantil – jornal que fechou e não me pagou as duas últimas colaborações.

Eu tinha carta branca para escolher o escritor que me desse na telha. Escrevi sobre Juan Rulfo, Augusto Monterroso, Pablo Neruda, Julio Cortázar, entre outros. Não encarei nenhuma escritora.

Deixei de fora Alfonsina Storni, Rosario Castelanos, Gabriela Mistral, entre muitas outras. Sabe por quê? Porque, há nove anos, era trabalhoso encontrar boas informações sobre elas no Google. Eu dispunha de um dia para pôr no papel oito mil caracteres com espaço.

Ao menos essa é a desculpa racional que dou para mim mesma. Não quero crer que a falta de modelos femininos na minha infância tenha alguma relação com a minha omissão no caderno Fim de Semana.

Mas foram ocasião e oportunidade perdidas. Para não afundar no mantra minha culpa, minha máxima culpa, vou comprar uma pá. Oxalá, ainda terei tempo de escavar muitas histórias de mulheres.


* webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, fernanda pompeu escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Tragédia de erros

Morei em Niterói aos quatorze anos de idade. A cidade era então capital do estado do Rio de Janeiro. Portanto estamos falando de muito tempo atrás. Precisamente 1970. Pois bem, nessa época eu era apaixonada por teatro. Queria subir no palco de qualquer maneira.

O Teatro Municipal de Niterói havia organizado um curso para pretendentes a atores. Foi muito bom, pois me fez desistir da coisa toda. Durante o curso ficou evidente minha falta de talento. Do mínimo talento. Na avaliação final, o professor gentilmente explicou que me faltavam: postura no palco, boa dicção, soltura do espírito.

Engraçado que essa passagem da minha vida se encontrava no quarto dos fundos da memória. A faísca que fez ela saltar para a sala de visitas foi o incêndio medonho da Boate Kiss na gaúcha Santa Maria. Esse que matou 235 garotos e garotas na casa dos vinte.

Antes que a leitora ou leitor conclua que estou variando, explico. Uma tarde a caminho do curso no Teatro Municipal dei de cara com uma moça de rosto desfigurado. Na minha lembrança, faltava-lhe o nariz. O resto era uma máscara esculpida pelo fogo. Senti um choque de altos volts.

Ao chegar no Teatro comentei o que havia visto. O professor, o mesmo que revelaria a minha falta de talento, disse que provavelmente a moça seria uma vítima do incêndio do circo, ocorrido nove anos antes. Acrescentou que centenas de pessoas ficaram deformadas pelas queimaduras.

A história do incêndio é esta: 17 de dezembro de 1961. Um domingo de verão escaldante que atraiu perto de três mil pessoas para a matinê do Gran Circo Norte-Americano (que de gringo só tinha o nome). Não precisa dizer que a maioria dos espectadores eram crianças.

Num número de trapézio, de repente, o fogo surgiu debaixo da lona e numa velocidade furiosa subiu, subiu. Pânico! Como não havia saídas de emergência (surpresa?) e a lona era de material altamente inflamável (surpresa?), o Gran Circo se transformou numa ratoeira incandescente.

Total oficial: 503 mortos e centenas de sobreviventes mutilados. A comoção tomou conta do país. Dizem que o então presidente João Goulart, ao visitar as pessoas queimadas no hospital Antonio Pedro, foi para um canto e chorou. Fica a dúvida: foram lágrimas de compaixão ou de vergonha pela incúria de quem devia fiscalizar?

O que sei é que o rosto da moça de Niterói atrapalhou meu sono por muitas noites. Depois, é claro, escapuliu para o baú sem fundo das recordações. Lá ficou por 42 anos. Ressurgiu na manhã do último domingo quando conectei a internet.

Vale a pergunta. Na hora que passar a comoção pelas vítimas de Santa Maria e mais uma vez a memória se recolher, quantos anos essas imagens de horror levarão para despertar novamente? Oxalá que jamais.


fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

De papel ou de carne?

Faz um ano que não leio nenhum livro de ficção. Não me orgulho, mas também não me repreendo. Simplesmente aconteceu. Depois de décadas como leitora quase exclusiva de literatura, passei a mergulhar em biografias, memórias, autoajudas chiques, grandes reportagens.

O fato é que agora prefiro as personagens de carne e osso. Essas, como nós, são incompletas, sextavadas. Ora decididas, ora vacilantes. Ora cheias de coragem, ora cobertas de medo. Essa gente que respira e transpira no interior dos trens de metrôs, ou dentro dos pernósticos Hyundais.

Gente que sonha alto e realiza baixo. Que trai seu amor. Que deixa passar a grande oportunidade. Que detesta os corruptos, mas molha a mão do guarda. Que foge de si mesma. Em suma, gente sem heroísmo.

Mas também capaz de altas ternuras. Capaz de solidariedade. Capaz de trabalhar por uma vida inteira e morrer assim de repente. Morrer sem ter pintado um quadro, escrito uma página, tocado uma flauta, preparado uma moqueca.

Gente que não chega aos pés de uma Emma Bovary, uma Capitu, uma/um Orlando, um Riobaldo, um Fabiano, um Otelo, uma Julieta, um Don Quijote, uma Ana Karenina, uma Lisbeth Salander. Complete a lista de personagens memoráveis.

Não sei porque minha curiosidade se voltou para a caixa da padaria, o atendente da farmácia, o dono da quitanda, o blogueiro de setenta anos, a jornalista sem jornal, a médica que cuida da minha mãe, o marronzinho da avenida.

Talvez seja uma reação a tantos anos bebendo da imaginação de autores bons e ruins. Anos acompanhando narrativas inventadas. Amando, como uma louca, a arte da ficção. Ou talvez por mesquinhez e vingança já que não escrevi o grande romance, que não criei a personagem estupenda.

Pode ser. Pode ser. Sabe-se lá o que passa pela alma e pela cabeça das personagens de carne e osso. Ou talvez, o meu cansaço seja com as categorias, com as fronteiras de gênero, as etiquetas tão ao gosto das academias.

Quiçá eu esteja atrás do misturado, de uma narrativa-água que transborde da gaveta. Que abandone a dualidade fato-invenção, realidade-imaginação. Por conta disso, é cada vez mais difícil definir que diabo de escrita eu faço.

Pois todos os dias com os dedos no teclado: minto ou escrevo a verdade? Imagino ou investigo? Sou honesta ou trapaceio? Ou será que faço tudo isso junto e ao mesmo tempo?

A pergunta é: quem é mais real? A moça que acabou de tocar a campainha aqui de casa para me oferecer a palavra de Deus, ou o Homem-Aranha escalando prédios de papel machê?

fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Bebedouros de frescor

Deve ser inevitável que toda aventura, empreitada, trilha, empresa, época, anoiteça. Afinal, irremediavelmente e por todos os dias do mundo, o sol se põe. Sem falar que haverá a hora da nossa morte, amém!

Meus olhos, que completaram cinquenta e sete anos de janela, observaram alguns padrões de entusiasmo, consolidação e, não querendo aguar a festa, de declínio. Também notaram que a institucionalização ergue muros onde antes havia terrenos baldios.

Faz mais de trinta anos participei de um grupo feminista deveras especial. Se chamava SOS Mulher e tinha como missão combater a violência doméstica sofrida pelas mulheres. Éramos um bando de gente jovem, destemida, esfomeada de vida.

A formalidade do SOS era próxima de zero. Não era ONG, não era governo, não era uma política pública. Era tão somente um grupo de pessoas com o sonho de eliminar olhos roxos, dentes quebrados, almas partidas das vítimas de maridos e namorados violentos.

Depois vieram as delegacias especializadas de mulheres, as secretarias, os conselhos. Num certo sentido, o Estado encampou a luta contra a violência de gênero. Vide a lei Maria da Penha. É claro que tudo isso é muito bom e absolutamente necessário.

Mas - defeito colateral - a institucionalização dos assuntos das mulheres fechou as portas para grupos feministas mais libertários e inovadores. Hoje, todo e qualquer projeto de ação passa necessariamente por sistemas de controle e escaninhos burocráticos.

Outra experiência similar vivi no Senac São Paulo. Na década de 1990, participei das primeiras turmas de cursos de vídeo. Eles eram chamados de "cursos livres", e nós docentes tínhamos carta branca para propor metodologias.

Lembro que um curso não era igual ao outro. Inventávamos sem parar. Usávamos e abusávamos da intuição. Ensinávamos de "ouvido". Pois no fundo erámos também aprendizes. Funcionou! Havia entusiasmo! Um parâmetro difícil de constar em relatórios.

Poucos anos depois, baixou o braço forte. Os cursos foram formatados e formalizados. Perderam a liberdade. Entrou a política de "diplomar". E óbvio chegou o MEC com suas regras e seu controle. De novo, nada disso é ruim. Mas aqueles corredores e salas explodindo em ideias desapareceram.

Será que é sempre assim? Boas iniciativas levam à institucionalização? Esta leva a um engessamento? Ou será que tudo isso é bobagem de meus olhos pré-sessentões? Alguém aí me empresta um colírio?

fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Cheiro de tinta


Não
sou dada a futurologias. Gosto mesmo é do odor da naftalina, da cor sépia das fotografias, do papéis amarelados. Talvez pelo fato do passado deixar marcas, manchas, trilhas tangíveis, ao passo que o futuro é tão somente uma assombração de promessas.

Mas, apesar do amor pelas coisas pretéritas, não sou do tipo nostálgico. Não posto fotos do meu eu jovem no facebook. Também não cultivo saudades. De forma alguma acho que o tempo passado seja melhor ou superior ao tempo presente.

Ele foi apenas distinto. Hoje, pouco a pouco, vou me acostumando a ler jornais na tela. É muito dinâmico, pois foco na notícia do meu interesse e checo em veículos diferentes como ela foi trabalhada. Aqui vale um parênteses: vejo tudo muito parecido, nada autoral.

a impressão que um jornalista copiou do outro, mudando ou acrescentando um detalhe embaixo, outro em cima. Tenho a sensação de que ninguém quer se comprometer. Como se fosse apenas um bater o ponto. Um se desfazer rapidamente de um encargo chato.

Creio que os jornalistas da web devem atentar para a relação íntima entre a qualidade e a diversidade no tom e no estilo. Basta conferir a história de dois gigantes de papel que morreram faz pouco tempo. Falo do carioca Jornal do Brasil (1891-2010) e do paulistano Jornal da Tarde (1966-2012).

O Jornal do Brasil, JB, teve longa vida de influência e importância. Foi referência como "jornal do país". Fez reformas editoriais e gráficas copiadas muitas vezes pela concorrência. Foi o primeiro a inventar um caderno B. Durante décadas serviu como contrapeso ao O Globo. Agora existe uma versão digital, mas na verdade só carrega o mesmo nome.

o Jornal da Tarde, JT, teve vida bem mais breve. No entanto foi brilhante na sua proposta inicial de inovação de texto e de paginação. Produziu capas memoráveis, legítimos "quadros" para, com gosto, a gente pendurar na parede. Ele apostava no visual bonito e leveza verbal muito antes da internet.

Na minha modesta opinião, creio que os dois começaram a morrer tempos antes das suas rotativas calarem. A agonia teve início quando cada um abriu mão da inovação e ousadia que, em boas fases, os caracterizaram. Os diferenciaram da maioria.

O leitor abandonou o Jornal do Brasil quando seus editores abriram mão ou perderam colunistas de primeira. Quando seu estilo passou a não cheirar e nem feder. Idem o leitor do Jornal da Tarde que não se sentiu disposto a acompanhar uma proposta cada vez mais ligeira e desimportante.

Uma bênção do passado é a de abrir os nossos olhos. Por exemplo, enxergar que o sucesso precisa ser renovado dia a dia. Não é tatuagem permanente, nem louro para se dormir. Os jornais digitais ainda não encontraram o ponto do doce.

Os webjornalistas precisam rapidamente ousar. Necessitam pôr tom e estilo em seus textos. Caso contrário, os leitores de notícias vão migrar em massa para os portais gerais e para o São Google. Nada é para amanhã.


fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas a coluna Observatório da Esquina. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.

sábado, 1 de dezembro de 2012

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Vlado em 4 atos

1.
Há 13.505 dias o mundo era outro. Por exemplo, as Bienais de São Paulo ainda eram importantes. No 25 de outubro de 1975, um sábado, eu fui até o Ibirapuera. Na época, quando São Google nem sonhava em nascer, eu tinha uma reverência ao evento Bienal. De fato, na de 1975, foi possível ver alguma coisa da novidadeira instalação de vídeo-arte e entrar numa maloca indígena reproduzida em tamanho natural.

Tenho a impressão que chovia. Digo impressão, pois 37 anos são 37 anos. A tinta da memória, igual a das canetas sem uso, também seca. Mas eu guardei esse dia não por causa da Bienal, mas por conta do que soube ao cair da tarde. Cheguei em casa e meu pai, entre solene e preocupado, disse: "Olha, mataram um jornalista da TV Cultura. Vai ter mobilização."

2.
Domingo. Acho que continuava chovendo. Lembro que meu pai e eu fomos para o velório do jornalista no Hospital Albert Einstein. Hospital tão afamado quanto hoje é o Sírio-Libanês. O clima, a indignação das pessoas nem preciso descrever. Havia também o danado medo. Entre os presentes circulavam homens de terno e gravata fotografando. "Agentes do Dops" sussurrávamos.

Mas ninguém arredou pé. Sabíamos que tínhamos que ficar onde estávamos. Entre os ilustres, o arcebispo Dom Paulo Arns e o senador Franco Montoro. Até aquele dia eu não fazia ideia de quem era Vladimir Herzog. Mas sabia que a ditadura torturava e matava muito gente. E aquele cara, estendido no caixão, não havia se suicidado.

3.
O enterro foi no Cemitério Israelita do Butantã. Mais longe do que é hoje. Lembro de uma estradinha de terra (será?). E, é claro, da grande comoção. Eu assisti a tudo de um lugar alto. Choros. Rápidos e compungidos discursos da Ruth Escobar (ninguém fala mais dela) e de Audálio Dantas –  então presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. A sensação era que desta vez haveria uma resposta. Acho que isso estava escrito na cara de todo mundo: "Não vamos deixar barato."

4.
No 31 de outubro, ocorreu a grande concentração na Praça da Sé. Desafiando o aparato repressivo, e graças ao trabalho dos estudantes da USP, PUC, GV e do Sindicato dos Jornalistas, mais de cinco mil pessoas estavam em frente à Catedral da Sé. Lá dentro se desenrolava uma missa-ato ecumênico (ou quase isso, pois não convidaram uma mãe de santo). Representando os católicos, os corajosos dons Paulo Evaristo Arns e Helder Câmera. Os judeus contaram com o rabino Henry Sobel. Em nome dos protestantes, o pastor James Wrigth.

Mas tudo isso foi muito mais. Hoje sabemos que o protesto contra o assassinato do cidadão Vlado, 38 anos, foi um punhal certeiro no coração da ditadura militar. Toda tirania, minhas amigas e amigos, um dia tem seu fim.


fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas a coluna Observatório da Esquina. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.

sábado, 17 de novembro de 2012

Quadrinho_Confete

Fernando Carvall, mais em www.estudiosaci.com.br

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Libelu

Sou filha de um comunista de carteirinha. Passei a infância e adolescência aprendendo a admirar a União Soviética e Cuba. Antes de dar meu primeiro beijo de língua, eu já sabia quem tinham sido Vladimir Lenin e Alexandra Kollontai.

Meu pai acreditava que uma vez derrubada a ditadura de 1964 e instaurada a democracia, o PCB – Partido Comunista Brasileiro- retornaria à legalidade. Quando isso ocorresse, o Partidão conquistaria o coração do povo.

Pois aconteceu que, no final da década de 1970, eu entrei na Escola de Comunicações e Artes, da USP. Logo no primeiro dia, na recepção aos calouros, fui conquistada pelos veteranos do Centro Acadêmico. Todos da Liberdade e Luta, mais tarde chamados de os libelus.

Nessa época o movimento estudantil punha as manguinhas de fora, deixando as salas de aula para se arriscar em atos públicos e passeadas pela ruas de Sampa. Foi a época de ouro das tendências estudantis. Havia a Liberdade e Luta, a Refazendo, a Travessia, a Caminhando, entre outras.

Como entrei na ECA, me tornei libelu. Hoje tenho certeza que se tivesse entrado na História e Geografia teria me tornado Refazendo. Era assim que funcionava para a maioria. Você não escolhia a tendência. Os centros acadêmicos chegavam em você.

Vamos ao conflito: a Liberdade e Luta se denominava trotskista e minha tradição familiar era stalinista. Para quem não lembra: o camarada Trotsky e o camarada Stalin se odiavam de morte. Sendo o primeiro considerado um mártir e este último um feroz ditador.

De repente aquela garotada linda, criativa, leve e solta punha o dedo na cara de comunistas como o meu pai. O dedo dizia: "Vocês são os traidores da causa operária-camponesa. Enquanto nós somos os legítimos defensores dos pobres e oprimidos."

Apesar do choque fiquei ao lado dos meus novos amigos, é claro. Verdade que os militantes da Libilu nada tinham de operários, ou de camponeses. A maior parte morava em casas confortáveis e vivia de mesadas bem burguesas.

Eles tinham uma vida muito mais folgada do que a minha. Pois o meu pai havia sido demitido, pelo Ato Institucional número 1, do bom emprego no Banco do Brasil. Justamente por ser comunista. Foi aí que a família teve que trocar a deliciosa manteiga pela insípida margarina.

Contradições, né? Mas adorei ter sido uma libelu. Foi um momento brilhante da minha vida. Conheci pessoas que se tornaram máximas referências afetivas. Em suma, fiz grandes amigas e amigos. É isso que interessa no começo, meio e fim de qualquer história.

Água que rola. Meu pai deixou o PCB e abraçou o PT. Eu deixei a ECA e esqueci a Liberdade e Luta. Peguei o barquinho da não militância. Encontrei minha turma: a tribo das palavras. Pela primeira vez na vida fiz uma eleição sincera.

Não foram as palavras que me escolheram. Fui eu quem elegi essa forma de estar no mundo. Escrevendo. Tirando a roupa da memória para exibir sua nudez despudorada e útil.

fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve a coluna Observatório da Esquina, às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.

sábado, 10 de novembro de 2012

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Aconteceu numa primavera


Estou com preguiça de datas. Mas vamos lá. A coisa sucedeu no 22 de setembro de 1977. Peguei a maquininha de subtrair: há exatos trinta e cinco anos. Ou seja, muitas leitoras e leitores deste Nota de Rodapé nem tinham nascido.

Foi uma invasão. A polícia cercou o prédio. Entrou. Distribuiu cacetadas. Quebrou muita coisa. Feriu pessoas. Prendeu mais de 700 estudantes. Eu era um deles. Vou dizer: senti um medo medonho. Medo de apanhar, medo de ficar presa, medo da ditadura.

Vou fazer a narração linear. O assalto foi à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a PUC. Eu era aluna da USP e estava na PUC, ao lado de mais de dois mil colegas, para tentar realizar um Encontro Nacional dos Estudantes.

Apenas isso. Um encontro de estudantes. Mas na ditadura, toda e qualquer oposição era vista pelos militares como um atentado à segurança nacional. Nitroglicerina pura. Eu sei que para os menores de 30 anos fica difícil acreditar nessas histórias de repressão e autoritarismo. Mas são fatos.

Então eu estava na PUC de Perdizes, quando vi a tropa de choque cercando o prédio novo (que hoje é velho). Daí passei a ouvir, ver, cheirar as bombas de gás lacrimogênio disparadas contra nós. A cor do gás era alaranjada, se é que a memória não está trapaceando.

Também lembro de um corredor polonês. De todos no estacionamento em frente à universidade. Ouço a voz do coronel Erasmo Dias (procurem por ele no google) ordenando: "Todos os que forem estudantes da USP estão presos!"

Estava claro, ele não podia prender os alunos da PUC: "Pois nem todos estavam aqui fazendo baderna." Aí vi uma fileira de ônibus da antiga CMTC abrindo as portas para nos carregar. Pela janela do ônibus olhava as pessoas nas varandinhas das casas. Me lembro da cara de espanto de um senhor.

Fomos levados para o Quartel Tiradentes, na avenida com o mesmo nome. Lá fomos fichados, constrangidos e, na manhã seguinte, a maioria foi liberada. Quem já havia sido preso foi encaminhado para mais constrangimentos no DOPS. Cujo prédio hoje abriga o Museu da Resistência.

Vida que segue. A ditadura caiu. A democracia chegou. Nos dias que correm, todo mundo pode fazer encontros nacionais do que quiser. A internet está aí garantindo o fluxo livre e contínuo de opiniões. O Brasil e o mundo são outros.

Eu também mudei. Deixei de crer em muitas coisas. Sigo acreditando em tantas outras. Estou me aproximando dos sessenta anos. Sou uma senhora, afinal. E como toda senhora tenho várias histórias para contar. Esta tarde, resolvi contar essa.

fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e colunista do Nota de Rodapé, escreve a coluna mensal Observatório da Esquina. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

sábado, 3 de novembro de 2012

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