por Fernando Carvall*
*Ilustrador e caricaturista, Carvall é um dos grandes nomes da ilustração brasileira; professor do Senac há quase 20 anos, mantém o Estúdio Saci e colabora com o NR desde 2011
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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 5 de setembro de 2013
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Guantánamo em foco
Na quinta entrevista da série "O mundo Amanhã", o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, entrevista Moazzam Begg, ex-detento de Guantánamo, e Asim Qureshi, advogado que
largou o mundo corporativo para lutar contra os abusos da guerra ao
terror
Desde o início da ofensiva norte-americana, em 2001, na chamada Guerra ao Terror, centenas de prisioneiros foram levados à base de Guantánamo onde permanecem encarcerados sem acusação formal e sem direito à defesa.
O britânico Moazzam Begg, intelectual muçulmano detido sob suspeita de ser integrante da Al-Qaeda, é um deles. Preso em 2002 no Afeganistão, só foi libertado três anos depois, sob muita pressão do Reino Unido. Jamais foi acusado formalmente de terrorismo.
Ao sair de Guantánamo, Begg juntou-se ao advogado Asim Qureshi para fundar Cagepriosioners, organização que defende o direito ao devido processo legal para prisioneiros detidos na guerra contra o terrorismo.
“O que você tem que entender é que, até onde os muçulmanos sabem, eles estão sob ataque em países ao redor do mundo todo. Há centenas de milhares de pessoas morrendo”, diz Asim Qureshi, em entrevista concedida a Julian Assange durante sua prisão domicliar, no interior da Inglaterra. “E se você olhar o conceito de jihad no contexto atual, ele diz que, como muçulmanos, temos o direito de nos defendermos. Não tem sentido dizer que as pessoas que estão sendo mortas por ocupações, domínios coloniais, racismo, não devem se defender e devem continuar levando tapas, sendo estupradas…”
Julian pergunta, então, se esta “defesa” significaria resistência militar. “Claro”, responde o advogado, ponderando que as “armas” da Cageprisoners são o lobby e as campanhas.
Para Moazzam Begg, que hoje é um reconhecido defensor de direitos humanos, a grande diferença na guerra ao terror entre as administrações Bush e Obama foi a seguinte: “Eu costumava dizer que Bush era o presidente do governo em que as detenções extrajudiciais estavam acontecendo. Mas o Obama é o presidente do governo em que as mortes extrajudiciais estão acontecendo. Então, Obama prometeu uma mudança, disse que a mudança tinha chegado à América. E é isso: a mudança é de detenções extrajudiciais para mortes extrajudiciais”.
O material foi produzido pelo WikiLeaks em parceria com o canal RT, da Rússia e a publicação e adaptação no Brasil é de responsabilidade da Agência Pública.
O Nota de Rodapé é um dos sites/blogs parceiros da Pública na reprodução dessas entrevistas, 12 no total, que vão ao ar todas às quartas-feiras, às 18h.
Assista a seguir a entrevista em vídeo e com legendas em português ou clique aqui para baixar o texto completo da conversa.
Desde o início da ofensiva norte-americana, em 2001, na chamada Guerra ao Terror, centenas de prisioneiros foram levados à base de Guantánamo onde permanecem encarcerados sem acusação formal e sem direito à defesa.
O britânico Moazzam Begg, intelectual muçulmano detido sob suspeita de ser integrante da Al-Qaeda, é um deles. Preso em 2002 no Afeganistão, só foi libertado três anos depois, sob muita pressão do Reino Unido. Jamais foi acusado formalmente de terrorismo.
Ao sair de Guantánamo, Begg juntou-se ao advogado Asim Qureshi para fundar Cagepriosioners, organização que defende o direito ao devido processo legal para prisioneiros detidos na guerra contra o terrorismo.
“O que você tem que entender é que, até onde os muçulmanos sabem, eles estão sob ataque em países ao redor do mundo todo. Há centenas de milhares de pessoas morrendo”, diz Asim Qureshi, em entrevista concedida a Julian Assange durante sua prisão domicliar, no interior da Inglaterra. “E se você olhar o conceito de jihad no contexto atual, ele diz que, como muçulmanos, temos o direito de nos defendermos. Não tem sentido dizer que as pessoas que estão sendo mortas por ocupações, domínios coloniais, racismo, não devem se defender e devem continuar levando tapas, sendo estupradas…”
Julian pergunta, então, se esta “defesa” significaria resistência militar. “Claro”, responde o advogado, ponderando que as “armas” da Cageprisoners são o lobby e as campanhas.
Para Moazzam Begg, que hoje é um reconhecido defensor de direitos humanos, a grande diferença na guerra ao terror entre as administrações Bush e Obama foi a seguinte: “Eu costumava dizer que Bush era o presidente do governo em que as detenções extrajudiciais estavam acontecendo. Mas o Obama é o presidente do governo em que as mortes extrajudiciais estão acontecendo. Então, Obama prometeu uma mudança, disse que a mudança tinha chegado à América. E é isso: a mudança é de detenções extrajudiciais para mortes extrajudiciais”.
O material foi produzido pelo WikiLeaks em parceria com o canal RT, da Rússia e a publicação e adaptação no Brasil é de responsabilidade da Agência Pública.
O Nota de Rodapé é um dos sites/blogs parceiros da Pública na reprodução dessas entrevistas, 12 no total, que vão ao ar todas às quartas-feiras, às 18h.
Assista a seguir a entrevista em vídeo e com legendas em português ou clique aqui para baixar o texto completo da conversa.
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domingo, 23 de outubro de 2011
Vídeo: Hillary está feliz com a morte de Gaddafi
Hillary Clinton está feliz.
Como citou meu amigo Renato Pompeu em seu blog, a rede de TV americana CBS mostra, em vídeo abaixo, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, rindo quando foi informada por um repórter de televisão de que Muammar Gaddafi havia morrido.
E tripudiou. "Viemos, vimos, ele morreu", lembrando o "Vim, vi, venci", do romano Júlio César.
Com a morte de Gaddafi, com a morte de Osama Bin Laden, muitos temas deixarão de ser esclarecidos.
Tempos atrás, o embaixador dos Estados Unidos na Líbia, Gene A. Cretz comentou:
Como citou meu amigo Renato Pompeu em seu blog, a rede de TV americana CBS mostra, em vídeo abaixo, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, rindo quando foi informada por um repórter de televisão de que Muammar Gaddafi havia morrido.
E tripudiou. "Viemos, vimos, ele morreu", lembrando o "Vim, vi, venci", do romano Júlio César.
Com a morte de Gaddafi, com a morte de Osama Bin Laden, muitos temas deixarão de ser esclarecidos.
Tempos atrás, o embaixador dos Estados Unidos na Líbia, Gene A. Cretz comentou:
"Sabemos que o petróleo é a joia da coroa dos recursos naturais líbios, mas mesmo no tempo de Gaddafi eles estavam começando de A a Z em termos de construir infraestruturas e outras coisas. Se conseguirmos trazer companhias americanas aqui numa escala razoavelmente grande, o que vamos tentar de fazer tudo para alcançar, então isso vai redundar em melhorar a situação nos Estados Unidos com respeito a nossos próprios empregos."
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Na capa: uma retrospectiva da guerra ao terror
Uma retrospectiva. O Pointer.org, fez um troço interessante. Copilou primeiras páginas de jornais de 2001 até 2011 - do ataque a WTC até o assassinato de Bin Laden - década da chamada “guerra ao terror”.
Uma história desses 10 anos por meio das páginas de jornais de todo o mundo. Vale a visita.
Uma história desses 10 anos por meio das páginas de jornais de todo o mundo. Vale a visita.
domingo, 20 de março de 2011
Intervenção nossa de cada dia
Os Estados têm suas razões para intervir na Líbia. Mas, e nós, cidadãos comuns? Que podemos pensar sobre a intervenção?
Agora é oficial: o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou na madrugada desta sexta-feira, 18 de março, o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia. A medida foi justificada pela necessidade de proteger a vida de milhares de civis que têm sido massacrados pelo aparato militar do ditador Muamar Gadafi.
Após o avanço dos rebeldes para regiões perigosamente próximas à capital, Trípoli, Gadafi ordenou a reconquista do território perdido e não teve pudores em utilizar caças para bombardear as posições rebeldes. Assim, recuperou o controle do oeste líbio, onde algumas cidades já haviam caído nas mãos dos opositores, e avançou rumo ao leste para atacar –exitosamente– as milícias em Bin Jawad, Ras Lanuf e Ajdabiya.
Enquanto os rebeldes perdiam terreno, o Conselho de Segurança da ONU deliberava sobre a pertinência de intervir no conflito líbio. Há semanas os inimigos internos de Gadafi vinham requisitando a imposição de uma zona de exclusão aérea. Desde o começo, porém, vêm se manifestando contra uma incursão terrestre de forças estrangeiras: queriam apenas que a comunidade internacional impedisse que os caças do ditador executassem bombardeios sobre a população civil e sobre as posições da resistência. Assim, teriam melhores condições de disputar o poder com o ditador e, eventualmente, vencê-lo.
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| Os primeiros mísseis dos EUA foram disparados neste sábado |
Por pouco a decisão da ONU não chega tarde demais. A resolução foi aprovada quando as tropas de Gadafi já estavam nos arredores de Bengasi –uma espécie de capital da sublevação– preparando a incursão definitiva sobre o bastião rebelde. A notícia de que o Conselho de Segurança irá impor, nos próximos dias ou horas, uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia fez Gadafi recuar em sua sede de sangue. Pouco tempo depois de divulgada a decisão, em Nova York, e enquanto os opositores do regime comemoravam a chegada de ajuda estrangeira num dos momentos mais críticos de toda a rebelião, em Trípoli o governo líbio decretou um cessar-fogo.Então, Barack Obama subiu no palanque da Casa Branca para dizer que esta é a última chance de Gadafi encerrar de uma vez por todas a ofensiva militar contra os rebeldes — que, vale lembrar, começaram manifestando-se pacificamente mas, diante da violência que sofreram, acabaram pegando em armas contra o governo. O presidente dos Estados Unidos afirmou ainda que, caso não cumpra com as determinações da ONU, os termos da resolução serão impostos à força.
Intervenção respaldada
A decisão das Nações Unidas conta com o apoio da Liga Árabe, da União Africana e da União Europeia. Porém, não recebeu votação favorável de todos os países que compõem o Conselho de Segurança. Há um mês, todos concordaram que os crimes de guerra cometidos por Gadafi deveriam ser julgados pelo Tribunal Penal Internacional, em Haia. Mas, nesta sexta-feira, Brasil, Índia, China, Rússia e Alemanha preferiram ficar em cima do muro, relativizando os insistentes chamados de França, Estados Unidos e Inglaterra para agir na Líbia o mais rápido possível e com consentimento da ONU.
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| 2009, Obama e Kadafi em reunião de chefes de Estado (Reuters) |
Enfim, existem “n” maneiras de enganar a opinião pública sobre a relevância de intervir militarmente num terceiro país. Para quem está de fora e não tem acesso aos bastidores da política internacional, é quase impossível saber quais as reais motivações que levam os países a apoiar (ou não) uma intervenção. Às vezes é –ou parece– mais fácil. Por exemplo, achamos que o Brasil está no Haiti porque quer um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, e também porque vê com bons olhos a ideia de expandir sua influência sobre o a América Central e o Caribe, região que tradicionalmente tem sido tratada como o quintal dos Estados Unidos. Tem muita gente que jura com os pés juntos que Washington decidiu invadir o Iraque e o Afeganistão neste começo de século não porque queria livrar os iraquianos de Saddam Hussein ou porque precisa desesperadamente capturar Osama Bin Laden: ali, a sede por petróleo e a constante ameaça de recessão econômica teriam falado mais alto. Será?
Ser ou não ser?
Deixando de lado as inescrutáveis razões de Estado, vem a pergunta: como um cidadão comum (eu e, talvez, você) deve se posicionar sobre a possibilidade concreta de intervenção militar em terras longínquas?
Minha primeira reação é sempre contrária. Exatamente porque não dá pra saber ao certo que tipo de interesses concretos existem por trás de quem defende o uso da força para resolver o problema dos outros. A história está cheia de episódios condenáveis, nos quais as forças armadas de alguma potência foram enviadas para determinados países por discordâncias econômicas e políticas que jamais justificariam o emprego da violência. Contudo, bastou dizer que se está defendendo os valores universais da liberdade que tudo se ajeita: a invasão é levada a cabo e a liberdade nunca chega ao povo que se queria libertar. Haiti, Iraque e Afeganistão são ótimos exemplos, no presente e no passado. A Iugoslávia e a Somália dos anos 90 também.
Apesar da desconfiança que devemos nutrir em relação aos que se dizem paladinos da felicidade, é extremamente complicado permanecer imóvel ao sofrimento alheio. Os genocídios no Sudão, Ruanda e Camboja, o apartheid na África do Sul, o holocausto nazista e os expurgos de Stálin merecem ou mereceram a repulsa internacional. Em alguns casos, e com razão, houve intervenções. O problema é que as operações militares quase nunca alcançam os resultados esperados. E, mesmo quando são alcançados e as injustiças são corrigidas, o invasor fatalmente pratica uma série de novas injustiças na consecução de seu nobre objetivo. Os civis sempre sofrem mais – e alguém sempre sai ganhando, pois os benefícios da nova ordem dificilmente são compartilhados entre todos.
No que se refere à Líbia, o observador interessado apenas no respeito aos direitos humanos –como eu e, provavelmente, você– poderá comemorar a imposição de uma zona de exclusão aérea. Pode ser uma garantia de que Gadafi deixará de bombardear covardemente seus opositores. Todavia, não há nenhum dispositivo que impeça massacres terrestres nas cidades reconquistadas. É óbvio que o ditador não terá piedade de quem se aliou aos rebeldes. Certamente, os democratas líbios estão vivendo agora seus piores dias, talvez os últimos, em Ras Lanuf e outras cidades perdidas para as tropas de Gadafi.
O que podemos esperar caso o ditador recupere o controle total do país? Caso percam a guerra, os rebeldes não mais encontrarão refúgio seguro em Bengasi, que ainda resiste, e estarão diante do dilema: exilar-se ou morrer — o mesmo com que se depararam os republicanos espanhóis quando foram derrotados por Franco em 1939. Muitos tentaram, mas não conseguiram escapar. Se por ventura Gadafi vencer a peleja, outros tantos ficaram presos à Líbia e poderão esperar o pior.
Eu, interventor
Isso justifica a intervenção? Parece extremamente complicado responder a esta questão sem se molhar. Ao responder “sim”, estamos de alguma maneira compactuando com todos os podres que nascem de uma operação militar do tipo. Ainda se existissem versões ideais de intervenção, se as missões de paz, de estabilização e de ajuda humanitária se limitassem a cumprir exclusivamente o propósito que trazem no nome… Mas a gente sabe que não é assim. Porém, se nos colocamos contra qualquer intervenção, é como se estivéssemos lavando as mãos para uma injustiça (massacres, opressões, vinganças etc.) que não nos afeta diretamente. Fica fácil dizer: “eles que se virem sozinhos”, assim, de longe, quando nem sequer há igualdade de condições na luta.
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| População comemora coalizão entre EUA, França, Reino Unido, Canadá e Itália (EFE) |
Não é a toda que os rebeldes líbios entocados em Bengasi ficaram felizes da vida após o anúncio do Conselho de Segurança da ONU. Se eu fosse um deles, também ficaria: por mais que tenha consciência de que esse tipo de ajuda nunca vem de graça e que, dali algum tempo, possa me arrepender de tê-la recebido. Imediatamente, porém, a zona de exclusão aérea é um sinal de que não mais receberei mísseis na cabeça. Como um rebelde líbio, por mais íntegro e anti-imperialista que seja, pode não comemorar uma coisa dessas?
Apesar de condenar o governo de Muamar Gadafi pela maneira como vem lidando com a oposição, o Brasil se absteve de votar a resolução do Conselho de Segurança porque enxerga que o termo “uso da força”, constante do texto, extrapola a obrigação da ONU em assegurar a observância dos direitos humanos e do direito internacional. “Do nosso ponto de vista, o texto da resolução (…) contempla medidas que vão muito além desse chamado. Não estamos convencidos de que o uso da força (…) levará à realização do nosso objetivo comum – o fim imediato da violência e a proteção de civis”, escreveu a embaixadora brasileira nas Nações Unidas, Maria Luiza Viotti. “Estamos também preocupados com a possibilidade de que tais medidas tenham os efeitos involuntários de exacerbar tensões no terreno e de fazer mais mal do que bem aos próprios civis com cuja proteção estamos comprometidos.”
Ou seja, por mais que o governo brasileiro repudie as atitudes de Gadafi, um detalhe textual, com claras implicações legais, o impediu de apoiar e dar suporte ao fim das hostilidades contra civis na Líbia. É compreensível que ninguém, muito menos um governo, deva assinar algo com o qual não concorda, mas chama atenção o fato de que em nenhum momento a embaixadora diz que o Brasil é contrário a intervenções militares de qualquer natureza. Muito pelo contrário, a carta de Maria Luiza Viotti afirma: “Levamos em conta também o chamado da Liga Árabe por medidas enérgicas que deem fim à violência, por meio de uma zona de exclusão aérea. Somos sensíveis a esse chamado, entendemos e compartilhamos suas preocupações.”
O medo do Brasil parece ser que a zona de exclusão aérea descambe para uma ocupação terrestre, com todos os riscos que contém para a geopolítica do mundo árabe, para a suposta coerência da diplomacia brasileira e, obviamente, para os civis líbios. É um receio razoável, que todos nutrimos.
Abster-se, porém, é estar do lado de quem? Abster-se é lavar as mãos para um problema que nos é alheio e para um sofrimento que não nos diz respeito? Ou é confessar que compactuamos com todas as desconfianças possíveis e imagináveis em relação às intervenções militares?
Eis uma questão que, por enquanto, me abstenho de responder.
Tadeu Breda é jornalista, colunista do NR e vive em Latitude Sul (siga no Twitter @tadeubreda)
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Em vídeo, Marines matam iraquiano indefeso e riem
O amigo Renato Pompeu publicou e republico aqui outro absurdo da guerra insana ao terror dos EUA. No vídeo abaixo um civil iraquiano ferido, deitado no chão e totalmente indefeso, é assassinado por um fuzileiro americano, enquanto outros fuzileiros dos Estados Unidos se regozijam ruidosamente. O soldado que fala ao fim do vídeo, diz algo do tipo: "foi legal, a sensação é boa, vamos fazer novamente".
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Os EUA querem salvar o mundo do terrorismo e quem salvará o mundo dos EUA?
A arrogância e a prepotência com que o governo dos EUA se comporta no mundo contemporâneo, além de cansativas, estão se tornando um perigo para a sobrevivência da humanidade. Que eu saiba, à exceção dos poucos países cujos governos mantêm uma postura totalmente submissa aos interesses norte americanos (cito de cabeça a Colômbia, a Costa Rica, a Arábia Saudita e a Coréia do Sul como exemplos mais significativos), nenhum de nós, mortais, deu procuração a Washington para pensarem e agirem em nosso nome.
Essa “luta contra o terrorismo”, a “defesa da democracia” e o “combate ao narcotráfico” já não convencem a ninguém mais. A quem quer enganar o Tio Sam? Luta contra o terrorismo? Mas quem é que armou o Talibã? Quem criou Osama Bin Laden? Quem tortura inocentes na prisão de Guantánamo? Quem apoiou a maioria dos golpes de estado na América Latina nos anos 50, 60 e 70 e o recente golpe em Honduras? Quem apoiou a Operação Condor e praticou atentados terroristas no Cone Sul? Quem financiou terroristas como Posada Carriles e que vive exilado nos EUA?
“Democracia”? Mas de qual democracia estamos falando, cara pálida? Dessa que paga salários monstruosos a executivos para fraudarem balanços e balancetes a enganarem a própria sociedade norte-americana? Essa democracia, cujos bancos, lavam dinheiro da droga? Essa democracia envia dez mil soldados em “ajuda humanitária” ao Haiti? Essa democracia que mata civis inocentes no Iraque e no Afeganistão? Essa democracia que apóia a ignomínia de Israel contra os palestinos?
“Combate ao narcotráfico”? Mas qual é, segundo dados da própria ONU, o país que mais consome drogas pesadas do mundo, como o ópio e a cocaína? Cujos lucros passam já de 400 bilhões de dólares anuais, dinheiro sujo, mas legalmente lavado em alguns dos principais bancos do Tio Sam? Dinheiro, que já se suspeita, financia algumas operações da CIA “around the world”?
Nesse item particular, do “combate ao narcotráfico”, cabem aqui algumas perguntinhas que não querem calar: do que precisa o maior país consumidor de drogas do mundo? Da droga, é claro, responderia o conselheiro Acácio. Onde se produz mais ópio? AFEGANISTÃO. Onde se produz mais cocaína? COLÔMBIA. Muito bem.
Vamos investigar mais um pouquinho. Como é que se faz para o ópio chegar aos Estados Unidos da América em grande quantidade e segurança, se há uma guerra de invasão ao Afeganistão e o país está sob o comando das Forças Armadas dos EUA? Como é que a cocaína deixa a Colômbia em quantidade e segurança, se boa parte do território está vigiada pelo exército Colombiano e por sete bases militares dos EUA com os mais sofisticados armamentos e sistemas de vigilância do mundo?
Contem essas histórias para outros... Até quando o mundo será obrigado a conviver com essa hipocrisia, com tanta mentira e empulhação, como se fossemos todos uns idiotas que não sabemos o que queremos? Ou somos?
O drama é real para todos, enquanto a pobre sociedade norte-americana vai se tornando cada vez mais doente, em parte alienada pela droga, em parte pela lavagem cerebral que sofrem seus cidadãos dos meios de comunicação, e em parte ainda por ter de suportar quase que em tempo integral seus jovens partirem para guerras umas atrás das outras.
Só no primeiro semestre de 2010, 145 soldados americanos cometeram suicídio no Iraque e no Afeganistão. E 1713 tentaram.
Quem salvará o mundo dos Estados Unidos da América?
No vídeo
"O Jornal da Record descobriu o local onde ficava o principal centro da operação Condor, no centro de São Paulo. A Condor era uma operação que atuava em conjunto com outros países sob supervisão dos EUA."
Izaías Almada é escritor e colunista do NR.
Essa “luta contra o terrorismo”, a “defesa da democracia” e o “combate ao narcotráfico” já não convencem a ninguém mais. A quem quer enganar o Tio Sam? Luta contra o terrorismo? Mas quem é que armou o Talibã? Quem criou Osama Bin Laden? Quem tortura inocentes na prisão de Guantánamo? Quem apoiou a maioria dos golpes de estado na América Latina nos anos 50, 60 e 70 e o recente golpe em Honduras? Quem apoiou a Operação Condor e praticou atentados terroristas no Cone Sul? Quem financiou terroristas como Posada Carriles e que vive exilado nos EUA?
“Democracia”? Mas de qual democracia estamos falando, cara pálida? Dessa que paga salários monstruosos a executivos para fraudarem balanços e balancetes a enganarem a própria sociedade norte-americana? Essa democracia, cujos bancos, lavam dinheiro da droga? Essa democracia envia dez mil soldados em “ajuda humanitária” ao Haiti? Essa democracia que mata civis inocentes no Iraque e no Afeganistão? Essa democracia que apóia a ignomínia de Israel contra os palestinos?
“Combate ao narcotráfico”? Mas qual é, segundo dados da própria ONU, o país que mais consome drogas pesadas do mundo, como o ópio e a cocaína? Cujos lucros passam já de 400 bilhões de dólares anuais, dinheiro sujo, mas legalmente lavado em alguns dos principais bancos do Tio Sam? Dinheiro, que já se suspeita, financia algumas operações da CIA “around the world”?
Nesse item particular, do “combate ao narcotráfico”, cabem aqui algumas perguntinhas que não querem calar: do que precisa o maior país consumidor de drogas do mundo? Da droga, é claro, responderia o conselheiro Acácio. Onde se produz mais ópio? AFEGANISTÃO. Onde se produz mais cocaína? COLÔMBIA. Muito bem.
Vamos investigar mais um pouquinho. Como é que se faz para o ópio chegar aos Estados Unidos da América em grande quantidade e segurança, se há uma guerra de invasão ao Afeganistão e o país está sob o comando das Forças Armadas dos EUA? Como é que a cocaína deixa a Colômbia em quantidade e segurança, se boa parte do território está vigiada pelo exército Colombiano e por sete bases militares dos EUA com os mais sofisticados armamentos e sistemas de vigilância do mundo?
Contem essas histórias para outros... Até quando o mundo será obrigado a conviver com essa hipocrisia, com tanta mentira e empulhação, como se fossemos todos uns idiotas que não sabemos o que queremos? Ou somos?
O drama é real para todos, enquanto a pobre sociedade norte-americana vai se tornando cada vez mais doente, em parte alienada pela droga, em parte pela lavagem cerebral que sofrem seus cidadãos dos meios de comunicação, e em parte ainda por ter de suportar quase que em tempo integral seus jovens partirem para guerras umas atrás das outras.
Só no primeiro semestre de 2010, 145 soldados americanos cometeram suicídio no Iraque e no Afeganistão. E 1713 tentaram.
Quem salvará o mundo dos Estados Unidos da América?
No vídeo
"O Jornal da Record descobriu o local onde ficava o principal centro da operação Condor, no centro de São Paulo. A Condor era uma operação que atuava em conjunto com outros países sob supervisão dos EUA."
Izaías Almada é escritor e colunista do NR.
terça-feira, 15 de junho de 2010
Se foi mesmo você, Bradley, obrigado
Em abril postei "Guerra sem sentido: um lançador de foguetes, na verdade, uma teleobjetiva", vídeo que mostra a bárbarie do exército dos EUA contra civis metralhados no Iraque em 2007, numa praça de Bagdá, entre eles, um fotógrafo da Reuters Namir Noor-Eldeen, de 22 anos, e o motorista dele, Saeed Chmagh, de 40 anos. Além deles, mais 10 pessoas morreram. O vídeo, obviamente, foi vazado por alguém que merece o meu respeito. Uma denúncia com imagens da realidade da guerra estúpida. No último dia 9, no entanto, um soldado americano foi preso por suspeita de ter fornecido o vídeo ao site de denúncias WikiLeaks. O nome dele é Bradley Manning, de 22 anos, um analista militar. O site afirma ter obtido o vídeo de uma fonte militar. Bom, me parece normal. Só mesmo alguém de dentro e com acesso para fornecer o vídeo. As explicações do exército, vejam vocês, ignoram os fatos registrados com desculpas e criticas lastimáveis. Primeiro, afirmaram que a câmera do fotógrafo foi confundida pela tripulação do helicóptero Apache com um lança-granadas. Oras, se não existe certeza do que está fazendo, não faça. Certo? São vidas e não um videogame. É basicamente dizer que "matou por precaução". No caso do suspeito Bradley, preso no Kuwait, resta aplaudir sua atitude, caso se confirme a autoria, e torcer para que não seja punido, afinal, fez um bem em revelar o ocorrido mesmo que tenha quebrado um código de segurança. Ao secretário de Defesa dos EUA Robert Gates que criticou o site WikiLeaks por divulgar as imagens "sem contexto" fica a dúvida: de que contexto ele está falando?
terça-feira, 6 de abril de 2010
Guerra sem sentido: um lançador de foguetes, na verdade, uma teleobjetiva
É estarrecedor. Me faltam palavras para compreender o sentido desses dois vídeos. Por quê? Civis metralhados no Iraque em 2007 como se fossem personagens de video-game. Deboche dos soldados estadunidenses. "Nice" com a vida dos outros. Crianças e jornalistas entre as vítimas. Qual o sentido desta merda toda? Socorro negado. É a tal Guerra ao Terror isso aí? Que terror? Divulgue-se, é preciso!
Procurei o vídeo com o amigo Caio Amaral na redação após ler no Estadão no pé de página A12 que soldados americanos disparam contra um grupo de homens desarmados em uma rua de Bagdá. "É autêntico confirmou ontem um oficial de alto escalão do Exército dos EUA", diz notícia. "O oficial disse que o vídeo postado pela ONG Wikileaks é de 12 de julho de 2007. Entre os mortos no ataque está o fotógrafo da Reuters Namir Noor-Eldeen, de 22 anos, e o motorista dele, Saeed Chmagh, de 40 anos. O vídeo é uma rara e perturbadora mostra da situação em Bagdá quando a violência atingiu seu auge no Iraque e o número de mortos entre os soldados americanos estava cada vez mais elevado. Nesse incidente em particular, soldados em helicópteros de ataque são chamados para respaldar tropas em terra. De acordo com oficiais americanos, os pilotos chegaram quando um homem levava o que parecia ser um lançador de foguetes, mas que, na verdade, era uma teleobjetiva, segundo investigação militar."
Parte 1
Parte 2
Thiago Domenici, jornalista
Procurei o vídeo com o amigo Caio Amaral na redação após ler no Estadão no pé de página A12 que soldados americanos disparam contra um grupo de homens desarmados em uma rua de Bagdá. "É autêntico confirmou ontem um oficial de alto escalão do Exército dos EUA", diz notícia. "O oficial disse que o vídeo postado pela ONG Wikileaks é de 12 de julho de 2007. Entre os mortos no ataque está o fotógrafo da Reuters Namir Noor-Eldeen, de 22 anos, e o motorista dele, Saeed Chmagh, de 40 anos. O vídeo é uma rara e perturbadora mostra da situação em Bagdá quando a violência atingiu seu auge no Iraque e o número de mortos entre os soldados americanos estava cada vez mais elevado. Nesse incidente em particular, soldados em helicópteros de ataque são chamados para respaldar tropas em terra. De acordo com oficiais americanos, os pilotos chegaram quando um homem levava o que parecia ser um lançador de foguetes, mas que, na verdade, era uma teleobjetiva, segundo investigação militar."
Parte 1
Parte 2
Thiago Domenici, jornalista
sexta-feira, 12 de março de 2010
Filme vencedor transforma os assassinos que dizimam culturas em heróis-santos

Reproduzo critica de Luiz Bolognesi publicada no Estadão durante esta semana "E ganhou a máquina de guerra". Bolognesi fala sobre o Oscar e seus vitoriosos de um ponto de vista muito interessante.
Ao contrário do que parece à primeira vista, a polarização entre Avatar e Guerra ao Terror não traduz uma disputa entre cinema industrial e cinema independente, nem batalha entre homem e mulher. O que estava em jogo e continua é o confronto entre um filme contra a máquina de guerra e a economia que a alimenta e outro absolutamente a favor, com estratégias subliminares a serviço da velha apologia à cavalaria.
Avatar foi acusado nos Estados Unidos de ser propaganda de esquerda. E é. Por isso é interessante. No filme, repleto de clichês, os vilões são o general, o exército americano e as companhias exploradoras de minério do subsolo. Os heróis são o "povo da floresta". A certa altura, eles reúnem todos os ''clãs'' para enfrentar o invasor americano. Clãs? Invasor americano? Que passa? É difícil entender como a indústria de Hollywood conseguiu produzir um filme tão na contramão dos interesses do país e transformá-lo no filme mais visto na história do cinema. Esse fato derruba qualquer teoria conspiratória, derruba décadas de pensamento de esquerda segundo a qual a indústria de Hollywood está sempre a serviço da ideologia do fast-food e da economia que avança com mísseis, aviões e tanques. Como explicar esse fenômeno tão contraditório?
Brechas, lacunas na história. Ou como diria Foucault, a história é feita de acasos e não de uma continuidade lógica cartesiana. A necessidade do grande lucro, da grande bilheteria mundial produziu uma antítese sem precedentes chamada James Cameron. O homem de Titanic tinha carta branca. Pelas regras da cultura do "ao vencedor, as batatas", Cameron podia tudo porque era capaz de fazer explodir as bilheterias mundiais.
Mas calma lá, cara pálida, uma incoerência desse tamanho, você acredita que passaria despercebida? O general americano, vilão? As companhias americanas que extraem minério debaixo das florestas tratadas como o império das sombras? Alto lá. Devagar com o andor, mister Cameron.
Aí, alguém chegou correndo com um DVD na mão. Vocês viram esse filme da ex-mulher do Cameron? Não, ninguém viu? Então vejam. É sensacional. Ao contrário de Avatar, nesse DVD aqui o soldado americano é o herói. Aliás, mais que herói, ele é um santo que arrisca sua própria vida para salvar iraquianos inocentes. Jura? Temos esse filme aí? Sim, o pitbull americano é humanizado e glamourizado, mais que isso, ele é santificado.
Então há tempo.
Guerra ao Terror estreou no Festival de Veneza há dois anos. Por acaso eu estava lá como roteirista de Terra Vermelha, do diretor italiano Marco Bechis, e fui testemunha ocular da história. O filme da diretora Kathryn Bigelow foi absolutamente desprezado pelos jornalistas e pelo público. E seguiu assim. Indo direto ao DVD, em muitos países, sem passar pelas salas de cinema. Até ser resgatado pela indústria americana como um trunfo necessário para contestar Avatar e reverenciar a máquina de guerra e o sacrifício de tantos jovens americanos mortos e decepados em campo de batalha.
Trabalhando num projeto para o mesmo diretor italiano, que pretendia fazer um filme sobre os viciados em guerra no Iraque, eu pesquisei o assunto durante alguns meses. Tudo muito parecido com o filme de Bigelow, exceto por um detalhe. O detalhe é que os soldados americanos que se tornam dependentes da adrenalina da guerra tornam-se assassinos compulsórios e não salvadores de vidas. O sintoma dos viciados em guerra é atirar em qualquer coisa que se mexa, tratar a realidade como videogame e lidar com armas e balas de verdade como um brinquedo erótico. Se Guerra ao Terror representasse nas telas essa dimensão da realidade, seria um filme sensacional, mas não teria levado o Oscar, podem apostar.
Guerra ao Terror venceu o Oscar porque, como nos filmes de forte apache, transforma os assassinos que dizimam outras culturas em heróis santificados. A cena extremamente longa e minimalista em que os jovens soldados americanos em situação desprivilegiada combatem no deserto os iraquianos é o que, se não uma cena clássica de caubóis cercados por apaches? Sem nenhuma surpresa para filmes desse gênero, os garotos americanos vencem, matam os iraquianos sem rosto, como os caubóis faziam com os apaches no velho-oeste. A cena do garoto iraquiano morto, com uma bomba colocada dentro do corpo por impiedosos iraquianos, que literalmente matam criancinhas, tem a sutileza de um elefante numa loja de cristais. Propaganda baratíssima da máquina de guerra.
No filme de Cameron, os na"vi azuis podem ser os apaches que derrotam o general e expulsam a cavalaria americana. Mas isso é apenas uma ficção. Na vida real do Oscar, a cavalaria precisa continuar massacrando os apaches.
Luiz Bolognesi é roteirista de filmes como Bicho de Sete Cabeças e Chega de Saudade
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