Era maio de 2002, a Copa do Mundo estava prestes a começar, e eu esperava no aeroporto de Barajas, em Madri, o voo que me levaria de volta ao Brasil depois de ter morado durante dez meses na Espanha.
Para passar o tempo, matar a fome e gastar as moedinhas de euros que eu trazia no bolso, fui até uma máquina e comprei refrigerante, salgadinho e chocolate. Quando terminei de comer procurei um cesto de lixo. Andei todo o corredor, voltei, e não achei.
Era de madrugada, não havia ninguém para me informar e não sabia o que fazer. Até que apareceu uma senhora da limpeza, varrendo o chão. Perguntei onde havia uma lixeira e me disse que não havia. “E que faço com isso”, perguntei mostrando o que tinha na mão. “Jogue no chão que eu recolho”, respondeu.
Foi naquele momento, depois de ter ouvido e lido à exaustão sobre o terrorismo do ETA, de ter participado de minutos de silêncio na universidade em homenagem às vítimas, de ter conversado com muita gente contra o grupo extremista (e alguns a favor), foi naquele momento, digo, que me dei conta realmente do que era viver sob aquele temor.
Não havia cesto de lixo no aeroporto porque era um lugar onde alguém poderia colocar uma bomba – como já havia acontecido e voltou a acontecer (em 2006, um furgão que estava no estacionamento do Terminal 4 explodiu e matou duas pessoas).
A existência do ETA significou, durante décadas, um pavor diário. A qualquer momento, em qualquer lugar, uma bomba poderia explodir. Foi o que aconteceu em Logroño - cidade onde eu vivi - meses antes de eu chegar à Espanha pela primeira vez. Um amigo morava a alguns metros do prédio que explodiu.
Conta que a polícia foi avisada uma hora antes e só teve tempo de evacuar aquele edifício. Não avisaram os moradores dos prédios vizinhos porque a saída deles poderia trazer piores consequências.
Por volta das duas da madrugada um forte estrondo arrebentou os vidros do apartamento do meu amigo – e de metade do quarteirão. “Ninguém precisou me dizer nada para eu saber o que tinha acontecido”, me contou.
O que realmente foi o ETA (Euskadi Ta Askatazuna, que significa em euskera, a língua basca, País Basco e Liberdade) é um assunto que requer muito mais espaço e conhecimento do que eu tenho agora.
O que acontecerá a partir de hoje, primeiro dia após o grupo ter anunciado que, depois de 50 anos e mais de 800 assassinatos, abandona as armas, também é tema que não me sinto capacitado para adentrar.
Mas o que posso dizer, como estrangeiro que pela segunda vez mora na Espanha, é que o dia de ontem foi muito importante para o país. Importante politicamente, importante para as famílias das vítimas do terrorismo, importante para todos os cidadãos que não estão de acordo com a violência. “Meus filhos só saberão do ETA pelo livros de história. Sonhei com esse dia durante metade da minha vida e ainda não acredito”, disse um político basco à Rádio Nacional.
Ainda resta a dor, as lembranças – o que não é pouco -, mas o medo já não tem porque existir. Já não há porque revisar os carros, não há porque usar guarda-costas, não há porque se assustar com um furgão estacionado no meio da rua. As lixeiras já podem voltar ao aeroporto de Madri.
Ricardo Viel, jornalista, colunista do NR, atualmente mora em Salamanca, Espanha
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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 21 de outubro de 2011
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Wikileaks em “primeira mão” ao público brasileiro
O site Wikileaks, que escarafuncha os segredos militares dos EUA, agora tem uma versão para o público brasileiro que já está no ar. Entre as informações recentes, assinadas no texto da repórter Natalia Viana, o relato de um telegrama do ex-embaixador americano no Brasil, Clifford Sobel, que acusa a Polícia Federal (PF) brasileira de encobrir investigações sobre a atuação de terroristas no país. Outros documentos dizem que o governo brasileiro está preocupado com o avanço de organizações terroristas, principalmente com a aproximação dos Jogos Olímpicos, em 2016.
Segundo o site, "Ontem, dia 28 de novembro de 2010, o WikiLeaks começou a publicar o maior vazamento de documentos confidenciais da história. São telegramas enviados pelos diplomatas de diversas embaixadas pelo mundo para Washington ou do Departamento de Estado para as representações americanas. Eles mostram ordens expedidas aos consulados e embaixadas, a inteligência pedida pelo Departamento de Estado e o que os diplomatas descobrem a respeito de cada lugar, além de relatos detalhados de encontros com membros dos governos - e a verdadeira opinião dos americanos a respeito de cada um deles. São 261.276.536 palavras que cobrem um grande período da história moderna – de 28 de dezembro de 1966 a 28 de fevereiro de 2010.", explica o texto (na íntegra). No caso brasileiro, são 2.855 documentos no total, sendo 1.947 da embaixada em Brasília, 12 do Consulado em Recife, 119 no Rio de Janeiro e 777 em São Paulo.
- Por dentro do Wikileaks: a democracia passa pela transparência radical (Natalia Viana, no Opera Mundi)
Segundo Natalia Viana explicou ao Nota de Rodapé, o Wikileaks convidou alguns jornalistas investigativos independentes para colaborar com eles escrevendo reportagens a respeito de seus países e regiões. “Eu estou fazendo a parte do Brasil. Tem sido muito intenso e incrível”, conta Natalia. “A preocupação do site é poder trazer em primeira mão para o público brasileiro, em uma comunicação direta, o que os documentos contêm”, afirmou. Nessa primeira semana todo dia pela manhã novas matérias sobre o Brasil em português. Os textos podem ser acessados AQUI.
Thiago Domenici, jornalista
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| Julian Assange, fundador do Wikileaks |
- Por dentro do Wikileaks: a democracia passa pela transparência radical (Natalia Viana, no Opera Mundi)
Segundo Natalia Viana explicou ao Nota de Rodapé, o Wikileaks convidou alguns jornalistas investigativos independentes para colaborar com eles escrevendo reportagens a respeito de seus países e regiões. “Eu estou fazendo a parte do Brasil. Tem sido muito intenso e incrível”, conta Natalia. “A preocupação do site é poder trazer em primeira mão para o público brasileiro, em uma comunicação direta, o que os documentos contêm”, afirmou. Nessa primeira semana todo dia pela manhã novas matérias sobre o Brasil em português. Os textos podem ser acessados AQUI.
Thiago Domenici, jornalista
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Os EUA querem salvar o mundo do terrorismo e quem salvará o mundo dos EUA?
A arrogância e a prepotência com que o governo dos EUA se comporta no mundo contemporâneo, além de cansativas, estão se tornando um perigo para a sobrevivência da humanidade. Que eu saiba, à exceção dos poucos países cujos governos mantêm uma postura totalmente submissa aos interesses norte americanos (cito de cabeça a Colômbia, a Costa Rica, a Arábia Saudita e a Coréia do Sul como exemplos mais significativos), nenhum de nós, mortais, deu procuração a Washington para pensarem e agirem em nosso nome.
Essa “luta contra o terrorismo”, a “defesa da democracia” e o “combate ao narcotráfico” já não convencem a ninguém mais. A quem quer enganar o Tio Sam? Luta contra o terrorismo? Mas quem é que armou o Talibã? Quem criou Osama Bin Laden? Quem tortura inocentes na prisão de Guantánamo? Quem apoiou a maioria dos golpes de estado na América Latina nos anos 50, 60 e 70 e o recente golpe em Honduras? Quem apoiou a Operação Condor e praticou atentados terroristas no Cone Sul? Quem financiou terroristas como Posada Carriles e que vive exilado nos EUA?
“Democracia”? Mas de qual democracia estamos falando, cara pálida? Dessa que paga salários monstruosos a executivos para fraudarem balanços e balancetes a enganarem a própria sociedade norte-americana? Essa democracia, cujos bancos, lavam dinheiro da droga? Essa democracia envia dez mil soldados em “ajuda humanitária” ao Haiti? Essa democracia que mata civis inocentes no Iraque e no Afeganistão? Essa democracia que apóia a ignomínia de Israel contra os palestinos?
“Combate ao narcotráfico”? Mas qual é, segundo dados da própria ONU, o país que mais consome drogas pesadas do mundo, como o ópio e a cocaína? Cujos lucros passam já de 400 bilhões de dólares anuais, dinheiro sujo, mas legalmente lavado em alguns dos principais bancos do Tio Sam? Dinheiro, que já se suspeita, financia algumas operações da CIA “around the world”?
Nesse item particular, do “combate ao narcotráfico”, cabem aqui algumas perguntinhas que não querem calar: do que precisa o maior país consumidor de drogas do mundo? Da droga, é claro, responderia o conselheiro Acácio. Onde se produz mais ópio? AFEGANISTÃO. Onde se produz mais cocaína? COLÔMBIA. Muito bem.
Vamos investigar mais um pouquinho. Como é que se faz para o ópio chegar aos Estados Unidos da América em grande quantidade e segurança, se há uma guerra de invasão ao Afeganistão e o país está sob o comando das Forças Armadas dos EUA? Como é que a cocaína deixa a Colômbia em quantidade e segurança, se boa parte do território está vigiada pelo exército Colombiano e por sete bases militares dos EUA com os mais sofisticados armamentos e sistemas de vigilância do mundo?
Contem essas histórias para outros... Até quando o mundo será obrigado a conviver com essa hipocrisia, com tanta mentira e empulhação, como se fossemos todos uns idiotas que não sabemos o que queremos? Ou somos?
O drama é real para todos, enquanto a pobre sociedade norte-americana vai se tornando cada vez mais doente, em parte alienada pela droga, em parte pela lavagem cerebral que sofrem seus cidadãos dos meios de comunicação, e em parte ainda por ter de suportar quase que em tempo integral seus jovens partirem para guerras umas atrás das outras.
Só no primeiro semestre de 2010, 145 soldados americanos cometeram suicídio no Iraque e no Afeganistão. E 1713 tentaram.
Quem salvará o mundo dos Estados Unidos da América?
No vídeo
"O Jornal da Record descobriu o local onde ficava o principal centro da operação Condor, no centro de São Paulo. A Condor era uma operação que atuava em conjunto com outros países sob supervisão dos EUA."
Izaías Almada é escritor e colunista do NR.
Essa “luta contra o terrorismo”, a “defesa da democracia” e o “combate ao narcotráfico” já não convencem a ninguém mais. A quem quer enganar o Tio Sam? Luta contra o terrorismo? Mas quem é que armou o Talibã? Quem criou Osama Bin Laden? Quem tortura inocentes na prisão de Guantánamo? Quem apoiou a maioria dos golpes de estado na América Latina nos anos 50, 60 e 70 e o recente golpe em Honduras? Quem apoiou a Operação Condor e praticou atentados terroristas no Cone Sul? Quem financiou terroristas como Posada Carriles e que vive exilado nos EUA?
“Democracia”? Mas de qual democracia estamos falando, cara pálida? Dessa que paga salários monstruosos a executivos para fraudarem balanços e balancetes a enganarem a própria sociedade norte-americana? Essa democracia, cujos bancos, lavam dinheiro da droga? Essa democracia envia dez mil soldados em “ajuda humanitária” ao Haiti? Essa democracia que mata civis inocentes no Iraque e no Afeganistão? Essa democracia que apóia a ignomínia de Israel contra os palestinos?
“Combate ao narcotráfico”? Mas qual é, segundo dados da própria ONU, o país que mais consome drogas pesadas do mundo, como o ópio e a cocaína? Cujos lucros passam já de 400 bilhões de dólares anuais, dinheiro sujo, mas legalmente lavado em alguns dos principais bancos do Tio Sam? Dinheiro, que já se suspeita, financia algumas operações da CIA “around the world”?
Nesse item particular, do “combate ao narcotráfico”, cabem aqui algumas perguntinhas que não querem calar: do que precisa o maior país consumidor de drogas do mundo? Da droga, é claro, responderia o conselheiro Acácio. Onde se produz mais ópio? AFEGANISTÃO. Onde se produz mais cocaína? COLÔMBIA. Muito bem.
Vamos investigar mais um pouquinho. Como é que se faz para o ópio chegar aos Estados Unidos da América em grande quantidade e segurança, se há uma guerra de invasão ao Afeganistão e o país está sob o comando das Forças Armadas dos EUA? Como é que a cocaína deixa a Colômbia em quantidade e segurança, se boa parte do território está vigiada pelo exército Colombiano e por sete bases militares dos EUA com os mais sofisticados armamentos e sistemas de vigilância do mundo?
Contem essas histórias para outros... Até quando o mundo será obrigado a conviver com essa hipocrisia, com tanta mentira e empulhação, como se fossemos todos uns idiotas que não sabemos o que queremos? Ou somos?
O drama é real para todos, enquanto a pobre sociedade norte-americana vai se tornando cada vez mais doente, em parte alienada pela droga, em parte pela lavagem cerebral que sofrem seus cidadãos dos meios de comunicação, e em parte ainda por ter de suportar quase que em tempo integral seus jovens partirem para guerras umas atrás das outras.
Só no primeiro semestre de 2010, 145 soldados americanos cometeram suicídio no Iraque e no Afeganistão. E 1713 tentaram.
Quem salvará o mundo dos Estados Unidos da América?
No vídeo
"O Jornal da Record descobriu o local onde ficava o principal centro da operação Condor, no centro de São Paulo. A Condor era uma operação que atuava em conjunto com outros países sob supervisão dos EUA."
Izaías Almada é escritor e colunista do NR.
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