por Fernando Carvall*
*Ilustrador e caricaturista, Carvall é um dos grandes nomes da ilustração brasileira; professor do Senac há quase 20 anos, mantém o Estúdio Saci e colabora com o NR desde 2011
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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 5 de setembro de 2013
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Democratizar a mídia não é tolice
por Pedro Mox*
Em meio à visita do papa, frio e neve em Santa Catarina, volta do Brasileirão, eis que leio o título do editorial do Diário Catarinense, do grupo RBS, salvo engano dia 15 do último mês: “democratização da mídia?”. Atentei ao texto.
A primeira frase já assusta: “Embora não seja uma demanda do país, mas de grupos minoritários movidos por ideologias fundamentadas no radicalismo, a chamada democratização da mídia tem aparecido secundariamente na pauta das manifestações que mobilizaram os brasileiros”. A conclusão mais óbvia e ululante é: manifestação que me interessa, ok; manifestação que não me agrada, não pode.
De fato é notável o contorno criado pela grande mídia desde os primeiros protestos em SP (os que não eram por vinte centavos) até a invenção do “gigante desperto”. Enquanto ela pôde ser utilizada como jogo político, tudo certo; quando pautou um tema deveras relevante – e nem um pouco interessante aos donos de jornal – passou a ser desacreditada e esquecida.
O próprio uso do radical pretende passar ideia, pejorativa, de alguém cego por sua crença. É importante, todavia, diferenciar o sectário – este sim adequado à descrição anterior – do radical, ou seja, que visa transformar pela raiz, por completo. E a mídia brasileira, sem dúvidas, merece uma reforma radical.
O texto segue na mesma balela de sempre, a tão enaltecida “liberdade de expressão” - que na prática é a liberdade de expressão do dono do jornal – e chega ao cinismo de dizer que “só quem não aceita conviver com críticas é que pode pretender a tutela sobre os meios de comunicação e da imprensa, que já são submetidos diariamente ao mais eficiente dos controles, a escolha livre do público.
Creio não ser a livre escolha ao meio de comunicação um dos mais eficientes métodos de controle, dado o festival de bobagens enfiado goela abaixo em qualquer um que assista televisão, seja na parte jornalística quanto o do entretenimento. Pior: cada vez mais e de maneira mais explícita, jornalismo e entretenimento se confundem, como se confundem também informação com propaganda e, neste caso específico, uma evidente propaganda ideológica.
Com alguns números, o texto argumenta que não há falta de pluralismo na mídia brasileira, visto existem milhares de publicações, sites, canais. E completa: “sob o falso pretexto de que os meios de comunicação são dominados por poucas empresas proprietárias que não refletiriam a pluralidade e a diversidade da sociedade, determinados fóruns e segmentos de partidos políticos pressionam governo e Congresso pela aprovação de uma lei com potencial para impor restrições à liberdade de informação”.
Entretanto, há de se ponderar uma série de questões. Mesmo com a grande quantidade de veículos, grande parte deles pertence a mesma empresa. A RBS, por exemplo, segundo o site Donos da Mídia, é a terceira maior detentora direta de veículos do país, com 18 emissoras de televisão, 21 rádios FM, cinco AM e oito jornais. Diante disso, é lógico que o editorial do Diário Catarinense seja contra a democratização dos meios de comunicação.
Quem se preocupa com a regulamentação da mídia não são fóruns ou clubes do bolinha, mas a sociedade. Pesquisa do Instituto Sensus, encomendada pela Federação Nacional dos Jornalistas, mostrou que 75% dos brasileiros são favoráveis à criação do Conselho Federal dos Jornalistas. Outra pesquisa, o “Perfil do Jornalista Brasileiro”, divulgada em abril último, também aponta que três quartos da categoria apóia a criação do órgão. Se todo ofício conta com alguma regulamentação, por que seria a imprensa detentora desta “aura de honra e justiça”?
A opinião do jornal, no editorial, de fato é o espaço para tal. Preocupa-me, contudo, a afirmação que discussões sobre democratização da mídia são tolices, fruto de desmiolados sem mais o que fazer; quando ela é de extrema relevância para país. Quiçá por isto, tão temida e combatida.
*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR
Em meio à visita do papa, frio e neve em Santa Catarina, volta do Brasileirão, eis que leio o título do editorial do Diário Catarinense, do grupo RBS, salvo engano dia 15 do último mês: “democratização da mídia?”. Atentei ao texto.
A primeira frase já assusta: “Embora não seja uma demanda do país, mas de grupos minoritários movidos por ideologias fundamentadas no radicalismo, a chamada democratização da mídia tem aparecido secundariamente na pauta das manifestações que mobilizaram os brasileiros”. A conclusão mais óbvia e ululante é: manifestação que me interessa, ok; manifestação que não me agrada, não pode.
De fato é notável o contorno criado pela grande mídia desde os primeiros protestos em SP (os que não eram por vinte centavos) até a invenção do “gigante desperto”. Enquanto ela pôde ser utilizada como jogo político, tudo certo; quando pautou um tema deveras relevante – e nem um pouco interessante aos donos de jornal – passou a ser desacreditada e esquecida.
O próprio uso do radical pretende passar ideia, pejorativa, de alguém cego por sua crença. É importante, todavia, diferenciar o sectário – este sim adequado à descrição anterior – do radical, ou seja, que visa transformar pela raiz, por completo. E a mídia brasileira, sem dúvidas, merece uma reforma radical.
O texto segue na mesma balela de sempre, a tão enaltecida “liberdade de expressão” - que na prática é a liberdade de expressão do dono do jornal – e chega ao cinismo de dizer que “só quem não aceita conviver com críticas é que pode pretender a tutela sobre os meios de comunicação e da imprensa, que já são submetidos diariamente ao mais eficiente dos controles, a escolha livre do público.
Creio não ser a livre escolha ao meio de comunicação um dos mais eficientes métodos de controle, dado o festival de bobagens enfiado goela abaixo em qualquer um que assista televisão, seja na parte jornalística quanto o do entretenimento. Pior: cada vez mais e de maneira mais explícita, jornalismo e entretenimento se confundem, como se confundem também informação com propaganda e, neste caso específico, uma evidente propaganda ideológica.
Com alguns números, o texto argumenta que não há falta de pluralismo na mídia brasileira, visto existem milhares de publicações, sites, canais. E completa: “sob o falso pretexto de que os meios de comunicação são dominados por poucas empresas proprietárias que não refletiriam a pluralidade e a diversidade da sociedade, determinados fóruns e segmentos de partidos políticos pressionam governo e Congresso pela aprovação de uma lei com potencial para impor restrições à liberdade de informação”.
Entretanto, há de se ponderar uma série de questões. Mesmo com a grande quantidade de veículos, grande parte deles pertence a mesma empresa. A RBS, por exemplo, segundo o site Donos da Mídia, é a terceira maior detentora direta de veículos do país, com 18 emissoras de televisão, 21 rádios FM, cinco AM e oito jornais. Diante disso, é lógico que o editorial do Diário Catarinense seja contra a democratização dos meios de comunicação.
Quem se preocupa com a regulamentação da mídia não são fóruns ou clubes do bolinha, mas a sociedade. Pesquisa do Instituto Sensus, encomendada pela Federação Nacional dos Jornalistas, mostrou que 75% dos brasileiros são favoráveis à criação do Conselho Federal dos Jornalistas. Outra pesquisa, o “Perfil do Jornalista Brasileiro”, divulgada em abril último, também aponta que três quartos da categoria apóia a criação do órgão. Se todo ofício conta com alguma regulamentação, por que seria a imprensa detentora desta “aura de honra e justiça”?
A opinião do jornal, no editorial, de fato é o espaço para tal. Preocupa-me, contudo, a afirmação que discussões sobre democratização da mídia são tolices, fruto de desmiolados sem mais o que fazer; quando ela é de extrema relevância para país. Quiçá por isto, tão temida e combatida.
*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR
sábado, 17 de março de 2012
Chantagem e democracia
Muitos daqueles que gostam de encher a boca para falar em democracia, a que lhes satisfaz, é claro, pois há democracias para todos os gostos, curiosamente se calam diante de algumas atitudes e opiniões que lhes desagradam ou vão de encontro aos seus interesses.
Jornalistas, de preferência os especialistas em qualquer coisa ou coisa nenhuma; políticos ou seja lá o que isto signifique nos dias de hoje; juristas mais cegos do que o símbolo da profissão que abraçaram; intelectuais e artistas cujas ideias e criações estão comprometidas com o lado efêmero da vida mundana; empresários do supérfluo, fiscais da natureza que se autointitulam ecologistas, defensores dos ‘direitos humanos’ dos animais e por aí afora; alguns militares de pijamas e bermudas, gostam todos de boquejar sobre o que entendem por democracia e o que é preciso fazer, no seu entender, para que ela deva continuar em benefício da SUA liberdade de expressão e de SEUS grandes negócios.
No Brasil, após redescobrirmos alguns dos valores do que é viver em democracia, recuperando-nos de alguns dos principais traumas do golpe civil/militar de 1964, descobrimos que milhares – senão mesmo milhões – lutaram para que essa recuperação fosse possível. Milhões?!
A tal ponto que já me fiz uma perguntinha idiota, mas muito pertinente: se foram tantos assim a lutar contra a ditadura naqueles tempos sombrios, por qual razão ela se impôs e durou tantos anos no Brasil? E ainda esbraveja por aí nas entrelinhas de jornais, revistas e imagens de televisão ou no arreganho de alguns homens fardados, por exemplo?
Contudo, com o passar dos anos, parece que nem todos estão satisfeitos com a democracia que se tem. Nem os que se beneficiaram da ditadura e também muitos dos que se beneficiaram com a volta da democracia, mesmo que esta ainda vá se mostrando um pouco capenga das pernas.
Até prova em contrário, a democracia brasileira como tantas outras do mundo cristão ocidental, é a democracia representativa formal, tutelada pelo poder econômico. Quem tem mais dinheiro faz lobby e elege os “representantes do povo”, compram juízes, policiais, deputados, senadores e por aí segue incólume o trem dessa democracia.
Quem não tem dinheiro é obrigado a depositar o seu votinho na urna de dois em dois anos, obrigatoriamente – é bom que se diga – e se tenta reclamar alguma coisa, corre o risco de ter a PM no seu calcanhar. Ou a reputação enxovalhada pela tal liberdade de imprensa.
Qualquer indício de que a sociedade brasileira gostaria de mudar esse padrão viciado de cidadania a que chamam de democracia, começam a pipocar na imprensa e não só, as “advertências” sobre os perigos que corre o país: querem instituir a censura e calar a liberdade expressão, dizem uns, querem a hegemonia do poder, esbravejam outros, querem o revanchismo, boquejam terceiros, e por aí afora.
O esquema é tão safado e sem vergonha, além de útil, que bastou a presidente Dilma Roussef mandar embora ou aceitar a demissão de alguns ministros (com provas ou não, outra gracinha da nossa grande democracia), que alguns dos partidos políticos aliados (imaginem se não fossem) já iniciaram a cantilena das chantagens nas votações no Congresso Nacional.
Apurar mazelas e trambiques do Poder Judiciário? Nem pensar. Isto é uma afronta a democracia. Levar criminosos do colarinho branco aos tribunais e, uma vez comprovado o crime, às prisões? De forma alguma, “somos um povo pacífico, que detesta a violência”. E no dia seguinte, os mesmos argumentadores em causa própria pedem providências contra a violência do dia a dia nas grandes cidades brasileiras, a violência dos pobres, bem entendido.
Tamanha hipocrisia e cinismo já ultrapassam os limites da tolerância, do bom senso. Os próximos meses, com as eleições municipais que se aproximam, irão deixar à mostra o lado mais sórdido da nossa democracia: aquele em que se pode dizer tudo e mais alguma coisa do adversário, mesmo sem provas e, eleitos, alguns milhares de prefeitos e vereadores – em sua maioria – se oferecerão como base de troca para as presidenciais de 2014. Será tudo uma questão de distribuição de verbas, chantagens e alianças espúrias, onde a governabilidade se define entre o péssimo e o menos ruim.
Grande democracia!
Izaías Almada, dramaturgo e escritor, colunista do NR. Concorra na promoção do novo romance do autor, "A sucursal do inferno".
Jornalistas, de preferência os especialistas em qualquer coisa ou coisa nenhuma; políticos ou seja lá o que isto signifique nos dias de hoje; juristas mais cegos do que o símbolo da profissão que abraçaram; intelectuais e artistas cujas ideias e criações estão comprometidas com o lado efêmero da vida mundana; empresários do supérfluo, fiscais da natureza que se autointitulam ecologistas, defensores dos ‘direitos humanos’ dos animais e por aí afora; alguns militares de pijamas e bermudas, gostam todos de boquejar sobre o que entendem por democracia e o que é preciso fazer, no seu entender, para que ela deva continuar em benefício da SUA liberdade de expressão e de SEUS grandes negócios.
No Brasil, após redescobrirmos alguns dos valores do que é viver em democracia, recuperando-nos de alguns dos principais traumas do golpe civil/militar de 1964, descobrimos que milhares – senão mesmo milhões – lutaram para que essa recuperação fosse possível. Milhões?!
A tal ponto que já me fiz uma perguntinha idiota, mas muito pertinente: se foram tantos assim a lutar contra a ditadura naqueles tempos sombrios, por qual razão ela se impôs e durou tantos anos no Brasil? E ainda esbraveja por aí nas entrelinhas de jornais, revistas e imagens de televisão ou no arreganho de alguns homens fardados, por exemplo?
Contudo, com o passar dos anos, parece que nem todos estão satisfeitos com a democracia que se tem. Nem os que se beneficiaram da ditadura e também muitos dos que se beneficiaram com a volta da democracia, mesmo que esta ainda vá se mostrando um pouco capenga das pernas.
Até prova em contrário, a democracia brasileira como tantas outras do mundo cristão ocidental, é a democracia representativa formal, tutelada pelo poder econômico. Quem tem mais dinheiro faz lobby e elege os “representantes do povo”, compram juízes, policiais, deputados, senadores e por aí segue incólume o trem dessa democracia.
Quem não tem dinheiro é obrigado a depositar o seu votinho na urna de dois em dois anos, obrigatoriamente – é bom que se diga – e se tenta reclamar alguma coisa, corre o risco de ter a PM no seu calcanhar. Ou a reputação enxovalhada pela tal liberdade de imprensa.
Qualquer indício de que a sociedade brasileira gostaria de mudar esse padrão viciado de cidadania a que chamam de democracia, começam a pipocar na imprensa e não só, as “advertências” sobre os perigos que corre o país: querem instituir a censura e calar a liberdade expressão, dizem uns, querem a hegemonia do poder, esbravejam outros, querem o revanchismo, boquejam terceiros, e por aí afora.
O esquema é tão safado e sem vergonha, além de útil, que bastou a presidente Dilma Roussef mandar embora ou aceitar a demissão de alguns ministros (com provas ou não, outra gracinha da nossa grande democracia), que alguns dos partidos políticos aliados (imaginem se não fossem) já iniciaram a cantilena das chantagens nas votações no Congresso Nacional.
"TUDO BEM TIRAR MILHÕES DE BRASILEIROS DA MISÉRIA, MAS PRECISAMOS GARANTIR A NOSSA MAMATA, O NOSSO MINISTERIOZINHO E AS NOSSAS VERBAS!"
Apurar mazelas e trambiques do Poder Judiciário? Nem pensar. Isto é uma afronta a democracia. Levar criminosos do colarinho branco aos tribunais e, uma vez comprovado o crime, às prisões? De forma alguma, “somos um povo pacífico, que detesta a violência”. E no dia seguinte, os mesmos argumentadores em causa própria pedem providências contra a violência do dia a dia nas grandes cidades brasileiras, a violência dos pobres, bem entendido.
Tamanha hipocrisia e cinismo já ultrapassam os limites da tolerância, do bom senso. Os próximos meses, com as eleições municipais que se aproximam, irão deixar à mostra o lado mais sórdido da nossa democracia: aquele em que se pode dizer tudo e mais alguma coisa do adversário, mesmo sem provas e, eleitos, alguns milhares de prefeitos e vereadores – em sua maioria – se oferecerão como base de troca para as presidenciais de 2014. Será tudo uma questão de distribuição de verbas, chantagens e alianças espúrias, onde a governabilidade se define entre o péssimo e o menos ruim.
Grande democracia!
Izaías Almada, dramaturgo e escritor, colunista do NR. Concorra na promoção do novo romance do autor, "A sucursal do inferno".
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
A farsa da democracia perfeita
Izaías Almada, colunista deste NR, faz uma análise critica do Manifesto em Defesa da Democracia. O que se quer, argumenta, é criar um clima de apreensão e instabilidade política, sob a falsa alegação de que a imprensa, um dos pilares da democracia, está sob a ameaça de um governo e de um partido.
Segundo o jornal O Estado de São Paulo, um manifesto foi lido à nação no Centro Acadêmico XI de Agosto nesta quarta-feira, 22 de setembro. O documento vem assinado por várias personalidades do mundo jurídico, intelectual e artístico. Entre elas, para surpresa de muitos, por Hélio Bicudo e Dom Paulo Evaristo Arns. Vamos ao documento.
O manifesto
"Em uma democracia, nenhum dos Poderes é soberano.
Soberana é a Constituição, pois é ela quem dá corpo e alma à soberania do povo.
Acima dos políticos estão as instituições, pilares do regime democrático. Hoje, no Brasil, os inconformados com a democracia representativa se organizam no governo para solapar o regime democrático.
É intolerável assistir ao uso de órgãos do Estado como extensão de um partido político, máquina de violação de sigilos e de agressão a direitos individuais.
É inaceitável que a militância partidária tenha convertido os órgãos da administração direta, empresas estatais e fundos de pensão em centros de produção de dossiês contra adversários políticos.
É lamentável que o Presidente esconda no governo que vemos o governo que não vemos, no qual as relações de compadrio e da fisiologia, quando não escandalosamente familiares, arbitram os altos interesses do país, negando-se a qualquer controle.
É inconcebível que uma das mais importantes democracias do mundo seja assombrada por uma forma de autoritarismo hipócrita, que, na certeza da impunidade, já não se preocupa mais nem mesmo em fingir honestidade.
É constrangedor que o Presidente da República não entenda que o seu cargo deve ser exercido em sua plenitude nas vinte e quatro horas do dia. Não há “depois do expediente” para um Chefe de Estado. É constrangedor também que ele não tenha a compostura de separar o homem de Estado do homem de partido, pondo-se a aviltar os seus adversários políticos com linguagem inaceitável, incompatível com o decoro do cargo, numa manifestação escancarada de abuso de poder político e de uso da máquina oficial em favor de uma candidatura. Ele não vê no “outro” um adversário que deve ser vencido segundo regras da Democracia, mas um inimigo que tem de ser eliminado.
É aviltante que o governo estimule e financie a ação de grupos que pedem abertamente restrições à liberdade de imprensa, propondo mecanismos autoritários de submissão de jornalistas e empresas de comunicação às determinações de um partido político e de seus interesses.
É repugnante que essa mesma máquina oficial de publicidade tenha sido mobilizada para reescrever a História, procurando desmerecer o trabalho de brasileiros e brasileiras que construíram as bases da estabilidade econômica e política, com o fim da inflação, a democratização do crédito, a expansão da telefonia e outras transformações que tantos benefícios trouxeram ao nosso povo.
É um insulto à República que o Poder Legislativo seja tratado como mera extensão do Executivo, explicitando o intento de encabrestar o Senado. É um escárnio que o mesmo Presidente lamente publicamente o fato de ter de se submeter às decisões do Poder Judiciário.
Cumpre-nos, pois, combater essa visão regressiva do processo político, que supõe que o poder conquistado nas urnas ou a popularidade de um líder lhe conferem licença para rasgar a Constituição e as leis. Propomos uma firme mobilização em favor de sua preservação, repudiando a ação daqueles que hoje usam de subterfúgios para solapá-las. É preciso brecar essa marcha para o autoritarismo.
Brasileiros erguem sua voz em defesa da Constituição, das instituições e da legalidade.
Não precisamos de soberanos com pretensões paternas, mas de democratas convictos.”
Ponto por ponto
Uma leitura atenta ao manifesto faz saltar, em primeiro lugar, que seu enunciado não condiz com a qualificação intelectual e o espírito democrático de muitos dos seus signatários. Defende-se a democracia por meio da intolerância. Mas isso é o de menos... O que se quer, na verdade, é desqualificar o presidente do melhor governo do Brasil nos últimos anos. O que se quer é criar um clima de apreensão e instabilidade política, sob a falsa alegação de que a imprensa, um dos pilares da democracia, está sob a ameaça de um governo e de um partido. Vamos pinçar algumas das colocações do documento e tentar entendê-las e refutá-las à luz desse novo Brasil que encerra a primeira década do século 21.
“Em uma democracia, nenhum dos Poderes é soberano.” De fato: em uma democracia o poder soberano é do povo. “Soberana é a Constituição, pois é ela quem dá corpo e alma à soberania do povo." Falácia: uma Constituição nem sempre abrange os direitos e deveres de todos os cidadãos de um país. Por suas falhas, muitas delas são refeitas por meio de Assembleias Constituintes. “Acima dos políticos estão as instituições, pilares do regime democrático. Hoje, no Brasil, os inconformados com a democracia representativa se organizam no governo para solapar o regime democrático." Não existe uma forma ideal e acabada de democracia. Enquanto governo do povo, a democracia deverá atender aos interesses da maioria sem anular os interesses das minorias e poderá ser direta, como na Antiga Grécia onde nasceu, representativa ou mesmo participativa. Engessar a democracia num único conceito é, no mínimo, um estelionato intelectual. Mas prossigamos...
Esgotados em três breves parágrafos aquilo que os autores consideram os valores que sustentam a sua democracia representativa, o documento descamba de sua frágil defesa de princípios para as mesmas acusações de vários órgãos de imprensa, hoje transformados em partidos políticos, revelando assim a fonte “ideológica” de seu patriotismo e fervor democrático. Senão, vejamos. “É intolerável assistir ao uso de órgãos do Estado como extensão de um partido político, máquina de violação de sigilos e de agressão a direitos individuais.” e “É inaceitável que a militância partidária tenha convertido os órgãos da administração direta, empresas estatais e fundos de pensão em centros de produção de dossiês contra adversários políticos.” A partir da falsa premissa de que só existe um tipo de democracia o manifesto apela para o uso indiscriminado e intencional de adjetivos com o objetivo de dramatizar uma realidade criada por manchetes de jornais, revistas e telejornais: é intolerável, lamentável, inaceitável, inconcebível, constrangedor, aviltante, repugnante, insultuoso...
É a adjetivação da intolerância, adjetivação dos que defendem o pensamento único, tão recorrente aos espíritos antidemocráticos, o que só faz revelar o paradoxo do documento, ou melhor, revelar as suas reais intenções de um documento de apoio eleitoral a um candidato comprometido com o atraso, com o denuncismo gratuito, com uma política econômica neoliberal, entreguista e na contramão de um país que vai se transformando em um país soberano e dono do seu nariz.
E por último, desnudando a verdadeira intenção, o manifesto faz a apologia do golpe de estado. “Cumpre-nos, pois, combater essa visão regressiva do processo político, que supõe que o poder conquistado nas urnas ou a popularidade de um líder lhe conferem licença para rasgar a Constituição e as leis. Propomos uma firme mobilização em favor de sua preservação, repudiando a ação daqueles que hoje usam de subterfúgios para solapá-las. É preciso brecar essa marcha para o autoritarismo.” e “Brasileiros erguem sua voz em defesa da Constituição, das instituições e da legalidade.”
Reparem na construção: “supõe que o poder conquistado nas urnas” (mas não é esse o princípio da democracia?) confere ao presidente “licença para rasgar a Constituição e as leis” (Quando? Como? Onde?). “É preciso brecar essa marcha para o autoritarismo” (sic) De que maneira? “E erguer a voz em defesa da LEGALIDADE!” A legalidade que escorre pelo esgoto dos jornais, das revistas e televisões?
Querem fazer pouco da inteligência do povo brasileiro. Documentos e manifestos como esse deram voz e pretexto para o golpe de 1964. Não insultem a memória daqueles que lutaram contra a ditadura, porque dessa vez NÃO PASSARÃO!
Izaías Almada é escritor, dramaturgo colunista deste NR e do site Escrivinhador
sábado, 3 de abril de 2010
O filme sobre o Capitalismo de Michael Moore toca a ferida dos tubarões de Wall Street
O sábio jornalista Sérgio de Souza, meu mestre, editor de texto da magnífica Revista Realidade e fundador da Revista Caros Amigos, falecido há dois anos, dizia diante da minha perturbação com as injustiças e contradições do país, que o problema de fundo era o capitalismo. Ele sabia, com toda sua experiência e sensibilidade, que o jornalismo que fazíamos não poderia mudar a sociedade completamente, mas poderia tocar as consciências, despertar a atenção para as questões cruciais. E daí, o povo, munido da informação, faria sua parte em reivindicar e lutar por mudanças de maior impacto.Conto essa historinha porque tive a chance de assistir na internet ao documentário Capitalismo: uma história de amor (Capitalism: A Love history) do cineasta Michael Moore. O gancho da produção é a crise econômica mundial de 2008, desencadeada nos EUA. Para Moore, de "Tiros em Columbine" e "Fahrenheit 11/9", "o capitalismo é ruim e não pode ser reformado" e o “livre mercado na realidade é um sistema para roubar os trabalhadores e garantir que 1% da população dos EUA mantenha sua riqueza, enquanto os restantes 99% se empobreçam dia a dia.” Você pensa, então: “está bem, mas qual a novidade desses números?”.
É que ao assistir as duas horas de filme recheado de boas sacadas de imagens e pesquisa histórica, as entrevistas com gente graúda, a ótima edição, a irreverência e ousadia de Moore e um bocado de outras coisa, criamos um mapa visual e concatenado do que o Sérgio me dizia sobre o tal “problema de fundo”. Por mais peculiar que seja o estilo das suas produções, arrisco a dizer que Moore fez mais um belo trabalho de investigação jornalística.
Ele conversa com ex-membros de grandes empresas que falam abertamente sobre as sacanagens que faziam a pedido do patrão, entrevista senadores indignados, americanos comuns que perderam suas casas, os desempregados, trata dos pilotos de avião mal remunerados que precisam fazer “bicos” para sobreviver e revela uma excrescência jurídica mórbida que permite que as empresas faturem quantias milionárias com os seguros de vida que estipulam secretamente no caso de morte de seus funcionários mais jovens, sem dar cobertura aos familiares. Tudo ou parte dele é fruto do capitalismo demonstra os exemplos de Moore no longa.
Em linhas gerais, o documentário explica como a banda de Wall Street - ele isola a sede de Wall Street com fita amarela que diz "cena de crime, não passe" - usufrui as benesses do capital fazendo do sistema econômico um cassino que legalizou a fraude e permitiu às empresas lucrarem milhões gerando injustiças sócio-econômicas aos 99% menos ricos.
Até a Igreja Católica americana condena o sistema. Ao consultar um Bispo, a resposta: “O capitalismo não parece estar contribuindo para o bem-estar de todas as pessoas. E isso o torna, quase em sua própria natureza, algo contrario a Jesus, que disse: ‘Benditos sejam os pobres. Ai dos ricos’”. Um dia antes da exibição nos EUA, o bonachão Moore apontou: "Nos EUA a cada sete segundos e meio uma família é desalojada de sua casa e 14.000 perdem o emprego por dia.”
O filme é bom, seduz e bate na tecla da consciência de forma didática ao mapear e denunciar os poderosos bancos e seguradoras de Wall Street (Goldman Sachs, Citybank, Morgan Stanley, AIG etc) e figuras públicas como George W. Bush, Ronald Reagan, Alan Greenspan e outros de terem organizado um verdadeiro "golpe de Estado financeiro" antes das eleições presidenciais vencidas pelo “socialista” Obama.
Esses banqueiros, lobistas, administradores públicos, muitos ligados a administração de Bush, criaram as condições políticas para ficar com os 700 milhões de dólares que o Estado aprovou para salvar as empresas da crise econômica, enquanto a classe média ficava à míngua. E pior, com a conivência de parte significativa do Congresso. Em um trecho, a pergunta a uma alta e bem intensionada funcionária do Tesouro americano: - Onde está nosso dinheiro? - Eu não sei!, diz atônita.
No Festival de Veneza, em 2009, o filme foi bem recebido pela critica. Por aqui deve ser lançado diretamente em DVD, em junho. Nas telonas, poderá ser visto na competição internacional da 15ª edição do É Tudo Verdade, que começa dia 9 de Abril no Rio de Janeiro. Mas eu vi na internet, então você também consegue. Abaixo, o trailher oficial legendado.
Thiago Domenici, jornalista
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
A grande ilusão do mundo contemporâneo
Uma sociedade doente. Só não vê quem não quer. E pensar que ainda temos muita gente no Brasil que vê nos EUA o paraíso na terra. A entrevista do escritor norte americano Chris Hedges ao programa Milenio é uma aula de História e de autocrítica de uma grande ilusão do mundo contemporâneo. Ele coloca em xeque a democracia estadunidense. Entrevista rara nos canais dos Marinho concedida a Jorge Pontual.
Izaías Almada é escritor e colaborador do Nota de Rodapé
Izaías Almada é escritor e colaborador do Nota de Rodapé
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