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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 27 de março de 2014

Onde foi que erramos?

por Celso Vicenzi*

O filme “Meia-Noite em Paris”, de Woody Allen, de maneira muito original questiona: existe época melhor para se viver? Muitos de nós gostariam não só de ter uma vida diferente como de ter vivido em outra época. Difícil dizer se o passado já foi melhor ou se o futuro promete dias mais felizes.

Mas, na música brasileira, arrisco dizer que já vivemos dias – e noites – melhores. Onde foram parar versos imortais como os de Carinhoso, de Pixinguinha (“meu coração, não sei por quê / bate feliz quando te vê / e os meus olhos ficam sorrindo / e pelas ruas vão te seguindo / mas mesmo assim, foges de mim”)? Ou de As rosas não falam, de Cartola (“queixo-me às rosas / mas que bobagem / as rosas não falam / simplesmente as rosas exalam / o perfume que roubam de ti, ai”)? E o que dizer de Construção (Chico Buarque), Travessia (Milton Nascimento e Fernando Brant), Tropicália (Caetano Veloso), Eu sei que vou te amar (Antônio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes)?

Nossa música caipira, antes de entrar para a escola do show business e se graduar em sertaneja universitária, também produziu versos antológicos, como No rancho fundo, de Ary Barroso e Lamartine Babo (“No rancho fundo / bem pra lá do fim do mundo / onde a dor e a saudade /contam coisas da cidade...”) ou Romaria, de Renato Teixeira (“O meu pai foi peão /minha mãe solidão / meus irmãos perderam-se na vida / à custa de aventuras / Descasei, joguei /investi, desisti / se há sorte / eu não sei, nunca vi”). Isso para não falar de Asa Branca, Luar do Sertão, Menino da Porteira, Tristeza do Jeca e tantas outras.

Não é por nada, não, mas comparem com Lepo Lepo, de Márcio Victor: “Eu não tenho carro / não tenho teto / e se ficar comigo é porque gosta /do meu / rá rá rá rá rá rá rá /Lepo Lepo / é tão gostoso quanto eu / rá rá rá rá rá rá rá / Lepo Lepo”. Veio para substituir outra que não parava de tocar: Ai se eu te pego, de Sharon Acioly e Antônio Digs (“Nossa, nossa / assim você me mata / ai se eu te pego, ai, ai, se eu te pego”). Quase todas apelam para uma sexualidade fast food, com letras medíocres. Se você ainda não se convenceu da distância poética que separa os exemplos citados, concluo com a primorosa letra de Eu quero tchu, eu quero tcha, de Shylton Fernandes: “Eu quero tchu, eu quero tcha / eu quero tchu tcha tcha tchu tchu tcha / Tchu tcha tcha tchu tchu tcha”. E tem ainda o “vai rolar bundalelê”, “rala o tchan”, “faz uó”, “melô do pirulito”, grosserias para todos os gostos (duvidosos).

Pensando bem, não seria má ideia poder escolher a melhor época para se viver.

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Celso Vicenzi, jornalista,. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres. Esse texto foi publicado originalmente no Correio Lageano.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Por que os brasileiros não gostaram do Oscar?


por Maria Shirts*

A resposta ao título é simples: “porque Gravidade ganhou tudo”. E, diferentemente dos norte-americanos, os brasileiros não gostam de filmes como Gravidade.

O que aquela Academia de Cinema preza não tem nada a ver com os nossos valores estéticos e narrativos. Gravidade é um filme de efeitos especiais. Foi inteiramente feito em estúdio, e ainda com dois atores queridinhos de Hollywood (George Clooney e Sandra Bullock). A trama, uma espécie de Odisséia pós-pós-moderna, tem superação de desafios, é um périplo heróico e de final feliz que ainda por cima foi dirigido por um latino americano, o que pode ser considerado um belo fetiche aos olhos dos norte-americanos politicamente corretos.

Creio que os brasucas gostem de filmes com mensagens existenciais, do tipo Nebraska e, se for pra ter mais “ação”, com uma estética mais chamativa e interessante, do tipo d’O Lobo de Wall Street. Aliás, muitos amigos se surpreenderam pelo fato d’O Lobo não ter ganhado nada. A maior frustração talvez tenha sido com o prêmio de melhor ator, que não ficou com Leo DiCaprio, que encenou o protagonista. No entanto, segundo minha amiga Clara Holtz, que já apareceu em outras mal-traçadas minhas sobre o Oscar, ele não tinha como competir com o ganhador desse ano, Matthew McConaghey, que levou o prêmio pelo filme Clube de Compras Dallas. Afinal “quem emagrece muito e pela primeira vez para fazer filme em Hollywood sempre ganha o Oscar”, justifica.

Independente das questões nutricionais de McConaghey, me parece que os filmes de Martin Scorsese estão um nível acima do que Hollywood gosta e entende. Isso porque quando o espectador norte-americano não sabe exatamente pra quem torcer, fica aflito e perde o interesse. Eles precisam de um herói, e precisam que ele seja do bem. O que aparentemente não dividiu tantas opiniões entre lá e cá foi o também premiado 12 Anos de Escravidão. Percebi que tanto brasileiros quanto americanos gostaram desse filme, se emocionaram com ele. Apesar da luta racial e da escravidão terem acontecido de maneira bem diferente nos dois países, desconfio que esse tema sempre sensibilizará os habitantes das Américas, mesmo que dirigido por um inglês... Encenado ainda por Lupita Nyong’o, chega a ser covardia. A atriz, que levou o prêmio de melhor coadjuvante por sua personagem Patsey, deveria ter um filme só dela. Não me surpreenderia se os víssemos nos cinemas em breve.

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Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Icu e o menino que furtava livros

por Cidinha da Silva

Em A menina que roubava livros, a mãe de Liesel Meninger, personagem principal, era comunista e sofria perseguição nazista. Seus filhos, como ela, várias vezes escaparam da morte no período de 1939 a 1943. A violência se alastrava como erva daninha por todos os cantos da Alemanha e a morte, perplexa diante da degradação humana, resolveu narrar a história de Liesel que driblava seu cheiro (da morte) exalado das valas comuns, dos corpos de homossexuais, descapacitados, comunistas, judeus e todos os adversários do nazismo, incinerados nas câmaras de gás.

A morte, então, acompanha a trajetória dos livros que escapam das grandes fogueiras públicas promovidas pelo Estado e como Liesel os resgata, assim como rouba outros de bibliotecas e passa a alimentar-se do perfume de vida difundido pelas mentiras deliciosas e encantadoras contadas nas obras literárias.

No Brasil, 71 anos depois da 2ª Guerra, Alex Santana não tem a mesma sorte de Liesel e é preso ao furtar três livros em uma livraria de shopping soteropolitano. Segundo declarações prestadas na delegacia, foram três livros naquele momento, mas o menino já havia furtado outros sete. Todos para estudos.

O texto da notícia enfatiza o gênero dos três livros furtados, ficção. Fica no ar o sub-texto, não eram livros para estudos? Icu, pesarosa, testemunha do desfalecimento do desejo de voar do menino, pergunta: quem decretou que só se estuda em manual ou livro didático? Se alguém rouba um pão francês é porque tem fome, mas se rouba um chocolate ou sorvete é porque tem febre de riqueza e luxo? E Icu mesma responde: é que no furto praticado pelos pequenos, o sonho e a delícia não são permitidos.

Icu, testemunha da luta de Alex pela sobrevivência, resolve defendê-lo na justiça, pois que, sem recursos para pagar fiança, mandaram o menino para o presídio da Mata Escura, onde os dias não amanhecem e as noites de lua desconhecem a ternura.

Diz Icu na peça de defesa: todos os viventes um dia serão meus, é a certeza mais perene da vida. Mas de alguns, como Alex, a vida, minha opositora, me aproxima pelas iniquidades impostas ao caminho. Essa gente integra coletivos de pessoas expostas à precariedade, ao racismo, aos abusos, à violência. Gente que sobrevive por teimosia. Deles costumo gostar e quero que vivam, mas a vida insiste em que eu os leve.

A vida tentou me convencer a levar Alex e tantos meninos iguais a ele, quando as mães não conseguiram fazer pré-natal, quando nasceram e não foram pesados e cuidados nos postos de saúde como todas as crianças deveriam ser, quando a família não pôde alimentá-los como mereciam, quando as doenças típicas da miséria os acometeram, quando escaparam das chacinas, porque minha irmã, a sorte, fez com que o morticínio ocorresse minutos antes da passagem deles pelo local. A vida quer entregá-los a mim, na bandeja, como prato frio e amargo. Eu me recuso a comer. Eles driblam a vida como grandes jogadores que aprendem a ser e conseguem me evitar.

Meu cliente, senhoras e senhores jurados, ao furtar três livros de ficção, em ato extremo de resistência ao nada que lhe é destinado pela vida, afirma que, de todas as mentiras empurradas pela garganta (da inexistência do racismo, da existência da igualdade, da justiça, do equilíbrio no julgamento do delito, do tratamento humano para seres humanos), a literatura é a mentira menos danosa. Por isso, peço sua absolvição.

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O Louco de Wall Street


por Maria Shirts*

Vou ter que confessar uma coisa: eu gosto do Oscar. Sim, sei que é uma pataquada só, marmelada pura, uma cafonice. Aliás, se você não quiser continuar lendo esse texto, tudo bem, eu entendo. Mas eu gosto do Oscar. E eu não só gosto como faço do Oscar um evento: me reúno com as amigas, faço um lanchinho lá pelas 8, 9 da noite, que é pra dar tempo da gente ver (e comentar, é claro) o tapete vermelho no E! Entertainment.

Depois, na premiação, a gente tenta ficar chutando os ganhadores, e essa é a parte mais legal porque uma das minhas amigas, a fotógrafa Clara Holtz, acerta todos. Todos. “A gente tem que levar ela pra Las Vegas e ganhar um dinheiro com isso”, disse meu pai, no ano passado, chocado com a habilidade da Cleidinha, como gostamos de chamá-la. Bem, como eu sou uma pessoa que gosta do Oscar, também gosto de assistir todos os filmes que dele participam. E semana passada fui ver O Lobo de Wall Street, do diretor Martin Scorsese (com a Cleidinha, inclusive).

O filme conta a história verdadeira de Jordan Belfort, um corretor da bolsa oriundo de uma família de classe média novaiorquina, mas com uma sede de dinheiro insaciável, quase sinistra. O jovem, que segundo a Wikipédia tentou carreira de dentista para se dar bem na vida, foi desestimulado por um professor da faculdade e optou pelo caminho da bolsa. Em pouco tempo vira um vendedor hábil, com uma lábia fascinante que só as pessoas desse ramo têm. Abre o seu próprio negócio e consegue consumar o seu sonho primordial: ficar rico.

Mas a que custo? O filme nos conta as várias tramóias do corretor, seus malabares muito bem dirigidos e com cenas impressionantes, que se eu tentar descrever vão perder toda a graça. Vale assistir, também, pela exímia atuação de Leonardo DiCaprio, o Belfort. Chega a impressionar o modo com o qual consegue interpretar a babaquice e boçalidade wall-streetiana. Em pouco tempo o espectador percebe que a sua conta bancária é inversamente proporcional à qualidade de seu caráter.

Em suma, é um filme que vale a pena ser visto, mas em casa. Nem eu nem a Clei sabíamos que o filme tinha 3 horas de duração, o que pra nós foi bem angustiante. Pode parecer que não, mas é deveras aflitivo ficar todo esse tempo assistindo a um milionário idiota e cocainômano humilhando mulheres, colegas e até o FBI só porque ele tem dinheiro. Se eu pudesse, teria pausado um pouco, desanuviado a cabeça e digerido a vergonha alheia, para depois ver o final (talvez até em outro dia).

Mas, agora que eu já passei por tudo isso, só me resta torcer para o DiCaprio ganhar a sua primeira estatueta. A ver!

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Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O mundo tá muito doente


por Maria Shirts*

No último fim de semana fui assistir ao filme Elysium, em cartaz nos cinemas de shopping mais próximos de você. A megaprodução [de George Clooney], uma ficção científica, conta a história do planeta Terra em 2154 sob o ponto de vista da personagem Max da Costa (Matt Damon, com o diretor Neill Blomkamp, na imagem acima).

Depois de séculos de espoliação ambiental, política e social, a Terra de 2154 é a imagem do fim do mundo: inóspita, estéril, e doente. Aqui só restaram os miseráveis, porque os endinheirados abandonaram o barco para morar numa estação interplanetária chamada Elysium.

Elysium vem do grego antigo; é um lugar, segundo os religiosos, em que heróis ou mortais relacionados aos deuses vão após a morte. Também conhecido como a “Ilha dos Abençoados”, poderia ser comparado com o Paraíso católico, enquanto o outro reino dos mortos, Hades, o Inferno.

A analogia se aplica ao filme: em Elysium não há “meros mortais”. Não há pobreza, doença e nem feiúra. As pessoas são imortais e quase não envelhecem porque têm tratamento de ponta. Lá todo mundo fala francês ou inglês e seguem a mais pura etiqueta. Todos têm casas de vidro com vegetação biodiversificada e nenhuma preocupação.

Enquanto isso, na Terra, todos são proletários e pobres. Largados ao relento, sofrem a violência de uma polícia robótica e as mazelas do emprego industrial (qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência). É o caso, por exemplo, do nosso herói Max da Costa que, exposto à radiação massiva no seu local de trabalho, é condenado a apenas 5 dias de vida.

Bem, não preciso dizer que “da Costa” irá fazer de tudo para se curar… em Elysium. Para tanto, contará com a ajuda de Spider (Wagner Moura), o traficante de pessoas latino e de Frey (Alice Braga), enfermeira e mãe de uma menina com câncer terminal que também precisa da tecnologia curandeira de Elysium.

Independente do desenrolar da história, que não irei contar para não estragá-la aos interessados, saí do cinema angustiada ao refletir que a desigualdade e a segregação sociais da Terra de 2013 pouco diferem das vividas por Max da Costa. Talvez a percepção dessa segregação seja até pior, na nossa conjuntura, porque os miseráveis terráqueos convivem no mesmo ambiente dos prósperos “elysianos”: eles os veem, diariamente, dentro de suas SUVs, com Rolexs ostensivos, próteses dentárias e plásticas anti-aging.

“Mas os miseráveis terráqueos, se batalharem muito, têm a oportunidade de ascender na vida”, dirão os tarados pela meritocracia, usando o desgastado (e único) exemplo do Silvio Santos. Pois é, mais ou menos. Se países de economia como a dos BRICS ainda apresentam um coeficiente Gini de desigualdade inaceitável, a que ponto chegaremos?

Talvez o destino da Terra seja mesmo o de uma segregação interplanetária. Espero, entretanto, que iniciativas de governo como os programas de transferência de renda (aliado a outros de moradia, educação e saúde) continuem tentando reverter tão cruel porvir.


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*Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, estreia no NR a coluna mensal Transeunte Urbana

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Pedras nos bolsos

No capítulo inicial de A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera apresenta um dilema que poderíamos denominar de liberdade vs prisão. Em princípio, qualquer ser humano com o mínimo de juízo diria que a liberdade é o paraíso enquanto a prisão, o inferno. Mas como a vida não é um filme de Hollywood, essa polarização entre o certo e o errado, o bom e o mau, não costuma ser funcional. Entre o branco e o negro há uma infinidade de tonalidades de cinza, e é nela que nós, que não somos Brads Pitts ou Angelinas Jolies, nos encontramos. É o que explica Kundera:

“Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semirreal, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?”

Claro está: carregar um peso excessivo nos impede de sair do lugar e torna a existência um martírio. Mas não trazer consigo peso algum representa o enorme risco de distanciar-se de maneira tal do mundo a ponto de fazer da liberdade uma prisão. Bom exemplo do que digo é a vida de Christopher McCandless (na imagem), que foi primorosamente retratada no filme Na Natureza Selvagem (Into the Wild, 2007, dirigido por Sean Pean; o filme é uma adaptação do livro de Jon Krakauer, que por sua vez é baseado nos diários deixados pelo próprio McCandless).

Aos 22 anos, o jovem estadunidense abdica dos confortos materiais e sai em busca de uma vida plena, em contato com a natureza e distante das mazelas humanas. Não conto o final para não estragar a surpresa dos que não tenham visto o filme, mas advirto que McCandless – que passa a se autodenominar Alexander Supertramp – percebe que a vida sem nada que lhe ate a qualquer lugar ou pessoa pode não ser a plenitude.

E qual a solução? Também não sei, mas minha intuição diz que é dosar a leveza com algo de peso. Carregar umas quantas pedras nos bolsos. O suficiente para lembrar-se dos caminhos por onde se passou (das pessoas, lugares, sons, cheiros, cores etc), mas que não seja peso excessivo que impeça de seguir a caminhada. Deve ser um leve peso, que se transforma em âncora apenas como metáfora. Porque a decisão de estacionar em um lugar tem sempre que ser uma escolha e não uma imposição.

Ricardo Viel, jornalista, escreve às segundas de Lisboa, Portugal. Leia + textos do autor.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Monte Fuji em Vermelho

O realizador japonês Akira Kurosawa é, com certeza, um dos maiores cineastas da história do cinema. Seu trabalho é recheado de 'obras primas' como Os sete samurais, Homem Mau Dorme Bem, Trono Manchado de Sangue (adaptação do Macbeth shakespereano), RAN e muitos outros filmes que influenciaram toda uma geração de cinéfilos.
Em seu filme Sonhos (1990) conta - entre outras - uma história premonitória da atual tragédia japonesa em "Mount Fuji in Red", onde se assiste a explosão de usinas atômicas por trás do Monte Fuji, um dos cartões postais do Japão. Kurosawa morreu em setembro de 1998 não sem antes advertir o seu próprio povo para os perigos da energia nuclear, como se pode ver no vídeo abaixo. (Izaías Almada, escritor e dramaturgo)

terça-feira, 8 de junho de 2010

Filme de Stone vale a pena. Com ressalvas

Vale a pena ver o filme de Oliver Stone sobre essas nossas terras ao Sul do mundo. Apesar de algumas generalizações desnecessárias, “Ao sul da fronteira” guarda boas críticas e, na pior das hipóteses, é uma diversão.
A cena inicial é magistral para conduzir aos fins que Stone quer. Se a ideia é mostrar a desinformação da mídia e da sociedade atingida por ela, o começo não poderia ter sido melhor. Uma apresentadora da Fox afirma que o “ditador” da Bolívia, Evo Morales, mastiga “folhas de cacau”. Bendito seja, que loucura essa mistura de saliva e cacau, que sonho atingir tamanho barato. Em uma só frase, uma incrível reunião de ignorância: Evo não é ditador, a folha mastigada é de coca, não de cacau, e não se constitui, absolutamente, em um ato de gravidade a mastigação, tão antiga quanto os povos andinos.
Stone começa ali a desmontar as mentiras contadas por parte da imprensa dos Estados Unidos que, sob as correntes do patriotismo, coloca-se a reproduzir todas as mentiras que a Casa Branca queira contar. (Aliás, vale um parêntese. Algumas das mentiras dos EUA sobre drogas na Bolívia, lembra um amigo que também viu o filme, são as mesmas contadas por José Serra nas últimas semanas, afirmando que o governo da Bolívia é cúmplice do narcotráfico).

Chávez não é o centro
O diretor, no entanto, cai logo em seguida num erro. Se a intenção era mostrar os movimentos que estão ocorrendo na América do Sul como um todo, Stone não deveria ter dedicado tanto espaço a Hugo Chávez. Ainda que o venezuelano seja aquele que há mais tempo está no cargo e, de alguma maneira, represente o início da virada à esquerda na região, ele não é o líder do processo. Quem vir o filme sem conhecer a realidade local – e tomara que muitos o vejam nos Estados Unidos – sai com a impressão de que Chávez é o centro de tudo.
A bem da verdade, cada país tem encontrado as próprias respostas para uma crise neoliberal que, esta sim, foi comum entre nós todos. Quando sai da Venezuela, Stone põe-se a entrevistar muy rapidamente cada presidente, não se aprofunda nas questões locais e, por consequência, recorre a simplificações equivocadas.
Como, por exemplo, quando afirma que Cristina Kirchner é bolivariana. Mesmo que se aceite o rótulo “bolivariano” para os governos que têm se dedicado a uma agenda mais autônoma para seus países, certamente não é o caso de Cristina. Tampouco seria o caso de Lula. Talvez nem mesmo o de Rafael Correa, do Equador.
De todo modo, vale a pena ver. Recomendo fortemente uma sessão especial para Leitão, Cantanhêde, Kramer e Jabor. Estarão quase a olhar-se no espelho ao ver outro âncora da Fox que, na falta de argumento melhor, chama Daniel Ortega, da Nicarágua, de “maior pedófilo do Ocidente”.
Se puder recomendar outros dois filmes sobre nós outros, prefiro citar “Crise é nosso negócio” e “A revolução não será televisionada”. O primeiro pode ser encontrado em lojas por aí. O segundo deve estar por YouTube ou afins.



João Peres é jornalista e colunista do Nota de Rodapé

sábado, 3 de abril de 2010

O filme sobre o Capitalismo de Michael Moore toca a ferida dos tubarões de Wall Street

O sábio jornalista Sérgio de Souza, meu mestre, editor de texto da magnífica Revista Realidade e fundador da Revista Caros Amigos, falecido há dois anos, dizia diante da minha perturbação com as injustiças e contradições do país, que o problema de fundo era o capitalismo. Ele sabia, com toda sua experiência e sensibilidade, que o jornalismo que fazíamos não poderia mudar a sociedade completamente, mas poderia tocar as consciências, despertar a atenção para as questões cruciais. E daí, o povo, munido da informação, faria sua parte em reivindicar e lutar por mudanças de maior impacto.
Conto essa historinha porque tive a chance de assistir na internet ao documentário Capitalismo: uma história de amor (Capitalism: A Love history) do cineasta Michael Moore. O gancho da produção é a crise econômica mundial de 2008, desencadeada nos EUA. Para Moore, de "Tiros em Columbine" e "Fahrenheit 11/9", "o capitalismo é ruim e não pode ser reformado" e o “livre mercado na realidade é um sistema para roubar os trabalhadores e garantir que 1% da população dos EUA mantenha sua riqueza, enquanto os restantes 99% se empobreçam dia a dia.” Você pensa, então: “está bem, mas qual a novidade desses números?”.
É que ao assistir as duas horas de filme recheado de boas sacadas de imagens e pesquisa histórica, as entrevistas com gente graúda, a ótima edição, a irreverência e ousadia de Moore e um bocado de outras coisa, criamos um mapa visual e concatenado do que o Sérgio me dizia sobre o tal “problema de fundo”. Por mais peculiar que seja o estilo das suas produções, arrisco a dizer que Moore fez mais um belo trabalho de investigação jornalística.
Ele conversa com ex-membros de grandes empresas que falam abertamente sobre as sacanagens que faziam a pedido do patrão, entrevista senadores indignados, americanos comuns que perderam suas casas, os desempregados, trata dos pilotos de avião mal remunerados que precisam fazer “bicos” para sobreviver e revela uma excrescência jurídica mórbida que permite que as empresas faturem quantias milionárias com os seguros de vida que estipulam secretamente no caso de morte de seus funcionários mais jovens, sem dar cobertura aos familiares. Tudo ou parte dele é fruto do capitalismo demonstra os exemplos de Moore no longa.
Em linhas gerais, o documentário explica como a banda de Wall Street - ele isola a sede de Wall Street com fita amarela que diz "cena de crime, não passe" - usufrui as benesses do capital fazendo do sistema econômico um cassino que legalizou a fraude e permitiu às empresas lucrarem milhões gerando injustiças sócio-econômicas aos 99% menos ricos.
Até a Igreja Católica americana condena o sistema. Ao consultar um Bispo, a resposta: “O capitalismo não parece estar contribuindo para o bem-estar de todas as pessoas. E isso o torna, quase em sua própria natureza, algo contrario a Jesus, que disse: ‘Benditos sejam os pobres. Ai dos ricos’”. Um dia antes da exibição nos EUA, o bonachão Moore apontou: "Nos EUA a cada sete segundos e meio uma família é desalojada de sua casa e 14.000 perdem o emprego por dia.”
O filme é bom, seduz e bate na tecla da consciência de forma didática ao mapear e denunciar os poderosos bancos e seguradoras de Wall Street (Goldman Sachs, Citybank, Morgan Stanley, AIG etc) e figuras públicas como George W. Bush, Ronald Reagan, Alan Greenspan e outros de terem organizado um verdadeiro "golpe de Estado financeiro" antes das eleições presidenciais vencidas pelo “socialista” Obama.
Esses banqueiros, lobistas, administradores públicos, muitos ligados a administração de Bush, criaram as condições políticas para ficar com os 700 milhões de dólares que o Estado aprovou para salvar as empresas da crise econômica, enquanto a classe média ficava à míngua. E pior, com a conivência de parte significativa do Congresso. Em um trecho, a pergunta a uma alta e bem intensionada funcionária do Tesouro americano: - Onde está nosso dinheiro? - Eu não sei!, diz atônita.
No Festival de Veneza, em 2009, o filme foi bem recebido pela critica. Por aqui deve ser lançado diretamente em DVD, em junho. Nas telonas, poderá ser visto na competição internacional da 15ª edição do É Tudo Verdade, que começa dia 9 de Abril no Rio de Janeiro. Mas eu vi na internet, então você também consegue. Abaixo, o trailher oficial legendado.



Thiago Domenici
, jornalista

sexta-feira, 12 de março de 2010

Filme vencedor transforma os assassinos que dizimam culturas em heróis-santos


Reproduzo critica de Luiz Bolognesi publicada no Estadão durante esta semana "E ganhou a máquina de guerra". Bolognesi fala sobre o Oscar e seus vitoriosos de um ponto de vista muito interessante.


Ao contrário do que parece à primeira vista, a polarização entre Avatar e Guerra ao Terror não traduz uma disputa entre cinema industrial e cinema independente, nem batalha entre homem e mulher. O que estava em jogo e continua é o confronto entre um filme contra a máquina de guerra e a economia que a alimenta e outro absolutamente a favor, com estratégias subliminares a serviço da velha apologia à cavalaria.
Avatar foi acusado nos Estados Unidos de ser propaganda de esquerda. E é. Por isso é interessante. No filme, repleto de clichês, os vilões são o general, o exército americano e as companhias exploradoras de minério do subsolo. Os heróis são o "povo da floresta". A certa altura, eles reúnem todos os ''clãs'' para enfrentar o invasor americano. Clãs? Invasor americano? Que passa? É difícil entender como a indústria de Hollywood conseguiu produzir um filme tão na contramão dos interesses do país e transformá-lo no filme mais visto na história do cinema. Esse fato derruba qualquer teoria conspiratória, derruba décadas de pensamento de esquerda segundo a qual a indústria de Hollywood está sempre a serviço da ideologia do fast-food e da economia que avança com mísseis, aviões e tanques. Como explicar esse fenômeno tão contraditório?
Brechas, lacunas na história. Ou como diria Foucault, a história é feita de acasos e não de uma continuidade lógica cartesiana. A necessidade do grande lucro, da grande bilheteria mundial produziu uma antítese sem precedentes chamada James Cameron. O homem de Titanic tinha carta branca. Pelas regras da cultura do "ao vencedor, as batatas", Cameron podia tudo porque era capaz de fazer explodir as bilheterias mundiais.
Mas calma lá, cara pálida, uma incoerência desse tamanho, você acredita que passaria despercebida? O general americano, vilão? As companhias americanas que extraem minério debaixo das florestas tratadas como o império das sombras? Alto lá. Devagar com o andor, mister Cameron.
Aí, alguém chegou correndo com um DVD na mão. Vocês viram esse filme da ex-mulher do Cameron? Não, ninguém viu? Então vejam. É sensacional. Ao contrário de Avatar, nesse DVD aqui o soldado americano é o herói. Aliás, mais que herói, ele é um santo que arrisca sua própria vida para salvar iraquianos inocentes. Jura? Temos esse filme aí? Sim, o pitbull americano é humanizado e glamourizado, mais que isso, ele é santificado.
Então há tempo.
Guerra ao Terror estreou no Festival de Veneza há dois anos. Por acaso eu estava lá como roteirista de Terra Vermelha, do diretor italiano Marco Bechis, e fui testemunha ocular da história. O filme da diretora Kathryn Bigelow foi absolutamente desprezado pelos jornalistas e pelo público. E seguiu assim. Indo direto ao DVD, em muitos países, sem passar pelas salas de cinema. Até ser resgatado pela indústria americana como um trunfo necessário para contestar Avatar e reverenciar a máquina de guerra e o sacrifício de tantos jovens americanos mortos e decepados em campo de batalha.
Trabalhando num projeto para o mesmo diretor italiano, que pretendia fazer um filme sobre os viciados em guerra no Iraque, eu pesquisei o assunto durante alguns meses. Tudo muito parecido com o filme de Bigelow, exceto por um detalhe. O detalhe é que os soldados americanos que se tornam dependentes da adrenalina da guerra tornam-se assassinos compulsórios e não salvadores de vidas. O sintoma dos viciados em guerra é atirar em qualquer coisa que se mexa, tratar a realidade como videogame e lidar com armas e balas de verdade como um brinquedo erótico. Se Guerra ao Terror representasse nas telas essa dimensão da realidade, seria um filme sensacional, mas não teria levado o Oscar, podem apostar.
Guerra ao Terror venceu o Oscar porque, como nos filmes de forte apache, transforma os assassinos que dizimam outras culturas em heróis santificados. A cena extremamente longa e minimalista em que os jovens soldados americanos em situação desprivilegiada combatem no deserto os iraquianos é o que, se não uma cena clássica de caubóis cercados por apaches? Sem nenhuma surpresa para filmes desse gênero, os garotos americanos vencem, matam os iraquianos sem rosto, como os caubóis faziam com os apaches no velho-oeste. A cena do garoto iraquiano morto, com uma bomba colocada dentro do corpo por impiedosos iraquianos, que literalmente matam criancinhas, tem a sutileza de um elefante numa loja de cristais. Propaganda baratíssima da máquina de guerra.
No filme de Cameron, os na"vi azuis podem ser os apaches que derrotam o general e expulsam a cavalaria americana. Mas isso é apenas uma ficção. Na vida real do Oscar, a cavalaria precisa continuar massacrando os apaches.

Luiz Bolognesi é roteirista de filmes como Bicho de Sete Cabeças e Chega de Saudade

quarta-feira, 10 de março de 2010

Assistam ao filme, e se ele não for bom, nunca mais voltem aqui

O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos, 2009), do diretor Juan José Campanella, é o tipo de filme que mereçe radicalizar a premiação do Oscar. Em vez de levar a estatueta como melhor produção estrangeira, como ocorreu no último domingo, fosse eu capaz de subverter a ordem, daria a estatueta de melhor filme não estrangeiro. Tipo, sai pra lá "Guerra ao Terror" e chega mais a brilhante produção dos hermanos argentinos. O filme me pegou, foi foda.
E tem mais, Ricardo Darín é o cara. E detona, arrepia, faz um golaço ao interpretar Benjamín Espósito, um ex-funcionário público que resolve escrever um livro quando se aposenta. O roteiro da história, a fotografia, os diálogos, as sacadas de humor, a história política do país, o drama, tudo é concatenado e amarrado. Brilhante! O tema que Esposíto escolhe para o seu livro é o caso criminal que mais marcou a sua carreira no Tribunal Penal de Buenos Aires. O caso "Morales" o faz repensar as decisões tomadas no passado (corria 1974), quando o homícidio do qual ele queria se livrar de investigar - numa típica preguica de trabalho do funcionalismo público - se transforma, ao se deparar com a mulher, uma jovem estuprada e assassinada, na motivação e fio condutor das ações de sua vida. Aquela cena o toca. É o play de seu personagem dai em diante. E é nessa busca do criminoso que destroçou por consequência um homem apaixonado (Morales) que os personagens que o rodeiam - Irene Menéndes Hastings (linda e talentosa atriz Soledad Villamil), sua chefe na repartição e o fiel companheiro de trabalho, Pablo Sandoval (Guillermo Francella) -, tomam de assalto as cenas e dividem com igual competência e talento o enredo sequencial da vida de Espósito.
Importante: o crime se passa na época do governo de Isabel Perón e das ações constantes da Aliança Anticomunista Argentina, grupo de repressão do Estado que recrutou os piores seres humanos, de oficiais de polícia exonerados por delitos a civis com fichas criminais e matadores de aluguel. Outra coisa: o filme é Baseado no livro La pregunta de sus ojos (A pergunta dos seus olhos), de Eduardo Sacheri e já é o filme nacional de maior arrecadação na Argentina e o mais visto dos últimos 35 anos naquelas bandas.
Cá entre nós, como estou longe de ser um crítico competente, vou pular as partes mais picantes. Faz assim, corre para o cinema assistir que você não vai se arrepender. Arrisco uma Malufada. "Assistam ao filme, e se ele não for bom, nunca mais voltem aqui".



Thiago Domenici é só jornalista, não é especialista em cinema e não tem mestrado e nem doutorado em algum tema "relevante" pra sociedade
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